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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Agostinho da Silva: "Ser-se o que se é muito mais que saber vale"


Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor
 
sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro

Agostinho da Silva (1926 – 1994)

in Poemas, Ulmeiro

sábado, 28 de abril de 2012

Fernando Pessoa: "Sociedade"


«A sociedade é um sistema de egoísmos maleáveis, de concorrências intermitentes. Cada homem é, ao mesmo tempo, um ente individual e um ente social. Como indivíduo distingue-se de todos os outros homens; e, porque se distingue, opõe-se-lhes. Como sociável, parece-se com todos os outros homens; e, porque se parece, agrega-se-lhes.»
Fernando Pessoa, in Teoria e Prática do Comércio

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Nietzsche - Das Altas Montanhas, Cântico Final

Ó meio-dia da vida! Tempo solene!
Ó jardim de Verão!
Felicidade inquieta no estar perscrutando e esperando:
Espero os amigos, noite e dia pronto,
Onde estais vós, amigos? Vinde! É tempo! É tempo!

Não era para vós que o cinzento do glaciar
Hoje se enfeitou de rosas?
O ribeiro procura-vos; saudosos apressam-se, empurram-se
Vento e nuvens, hoje mais alto para o azul
Para daí bem do alto vos descobrirem.

No mais alto a minha mesa foi posta para vós:
Quem habita das estrelas
Tão próximo, quem, das medonhas distâncias abissais?
O meu reino – que reino se estendeu por mais longe?
E o meu mel – quem é que o provou? …

Cá estais vós, amigos! – Ai, todavia, não sou eu
Quem queríeis vós?
Hesitais, pasmais – ai, que vos não zangais antes!
Eu – já não o sou? Mudados a mão, o andar, a casa?
E o que eu sou, não o sou – para vós, amigos?

Tornei-me outro? E estranho a mim próprio?
Fugido de mim próprio?
Um lutador que demasiadas vezes se venceu a si próprio?
Que demasiadas vezes se ergueu contra a sua própria força,
Ferido e detido pela sua própria vitória?

Procurei, onde o vento sopra mais cortante?
Aprendi a habitar
Onde ninguém habita, nas zonas desertas dos ursos brancos,
Desaprendi homem e Deus, blasfémia e oração?
Tornei-me um fantasma, errando sobre os glaciares?

Vós, velhos amigos! Olhai! Agora estais pálidos,
Cheios de amor e de pavor!
Não, ide! Sem zanga! Aqui – vós não podeis habitar:
Aqui, na região longínqua dos gelos e das rochas –
Aqui deve-se ser caçador e lesto como a camurça.

Tornei-me um caçador malvado! – Vede como
O meu arco está bem esticado!
Foi o mais forte quem conseguiu distendê-lo tanto:
Mas agora, ai! Este dardo é perigoso
Como nenhum dardo – fugi daqui! Para vosso bem! …

Vós ide-vos? – Ó coração, tu suportaste bastante,
Forte ficou a tua esperança:
Mantém as tuas portas abertas para novos amigos!
Deixa os velhos! Deixa a recordação!
Se fosses jovem outrora – és melhor jovem agora!

O que jamais nos ligou, o laço de uma esperança –
Quem lê ainda os sinais,
Os empalidecidos, que o amor outrora nele inscreveu?
A um pergaminho que a mão hesita em segurar
Comparo-o eu – da mesma maneira desbotado, queimado.

Não mais amigos, esses são – como chamá-los então? –
Apenas amigos-fantasmas!
Esses às vezes de noite ainda batem no meu coração e na minha janela,
Olham-me e dizem: «Mas éramo-lo nós?»
Ó palavra murcha que outrora cheirava a rosas!

Ó saudade da juventude que não compreendeu a si própria!
Aqueles por quem eu ansiava,
Aqueles que eu julgava transformados tal como eu,
O facto de terem envelhecido afastou-os:
Só quem se transforma continua meu parente.

Ó meio-dia da vida! Segunda juventude!
Ó jardim de Verão!
Felicidade inquieta no estar perscrutando e esperando!
Espero os amigos, noite e dia pronto,
Os novos amigos! Vinde! É tempo! É tempo!

*

Esta canção acabou – o grito doce da saudade
Morreu na boca:
Fê-lo um mágico, o amigo da hora própria,
O amigo do meio-dia – não! Não pergunteis quem é.
Então ao meio-dia, Um tornou-se Dois …

Agora festejamos nós, certos da vitória comum,
A festa das festas:
Chegou o amigo Zaratustra, o hóspede dos hóspedes!
Agora ri o mundo, abriu-se a cortina cinzenta,
E foi o casamento da luz e das trevas …

F. Nietzsche

(Traduzido do alemão por Hermann Pflüger)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Nietzsche - ("o nojo do após-mesa")

«Mas o que é que te aconteceu?» - «Não sei», disse ele hesitante; «talvez as harpias tenham voado sobre a minha mesa.» Acontece hoje, de vez em quando, um homem pacato, comedido, reservado, tornar-se, de repente, furioso, partir os pratos, virar a mesa, gritar, berrar, ofender todo o mundo - e, por fim, afastar-se envergonhado, furioso consigo próprio. Para onde? Para quê? Para morrer de fome? Para sufocar nas suas recordações? Quem tiver os apetites de uma alma elevada e requintada, e só raras vezes encontrar a sua mesa posta e a comida pronta, correrá, em qualquer altura, grande perigo: mas hoje, ele é extraordinário. Lançado numa época barulhenta e plebeia, com a qual não quer comer do mesmo prato, facilmente pode perecer de fome e sede ou se, finalmente apesar de tudo, «se servir» - morrer de um nojo repentino. Nós todos, verosimilmente, já comemos em mesas onde não tínhamos lugar; e precisamente os mais espirituais de entre nós, que são os mais difíceis de alimentar, conhecem aquela perigosa «dispepsia» que resulta de repentinamente nos apercebermos e ficarmos desiludidos com a comida e com a companhia à mesa - o nojo do «após-mesa».

F. Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, Guimarães, 1978, p.210

domingo, 7 de novembro de 2010

Albert Camus - 97.º aniversário de nascimento (homenagem)

Para esta simples homenagem a Albert Camus escolhi um excerto do livro O Mito de Sísifo, e do capítulo As Paredes Absurdas: «O sentimento do absurdo pode esbofetear qualquer homem à esquina de qualquer rua. Em si mesmo, na sua nudez desoladora, na sua luz sem esplendor, é inapreensível. Mas até essa dificuldade merece reflexão. É provavelmente verdade que um homem nos fica sempre desconhecido e que nele sempre subsiste qualquer coisa de irredutível que nos escapa. Mas praticamente conheço os homens e reconheço-os pela sua conduta, pelo conjunto dos seus actos, pelas consequências que a sua passagem suscita na vida. Da mesma maneira posso praticamente definir, praticamente apreciar todos esses sentimentos irracionais que a análise não consegue captar. Para tanto me basta reunir a soma das suas consequências na ordem da inteligência, surpreender-lhes e fixar-lhes a face, delimitar-lhes o universo. É certo que, aparentemente, lá por ter visto cem vezes o mesmo actor, nem por isso o conheço pessoalmente melhor. No entanto, se eu adicionar os heróis que ele encarnou e disser que o conheço um pouco mais por ocasião da centésima personagem recenseada, sente-se que há aqui uma parte de verdade. Porque este paradoxo aparente é também um apólogo. Tem uma moralidade. Ensina que um homem se define tão bem através das suas comédias como através dos seus impulsos sinceros. Assim acontece, um tom abaixo, com os sentimentos, inacessíveis no coração, mas parcialmente traídos pelos actos que eles animam e pelas atitudes de espírito que pressupõem. Vê-se bem que defino assim um método. Mas vê-se também que esse método é de análise e não de conhecimento. Porque os métodos implicam metafísicas, atraiçoam, sem se darem conta disso, as conclusões que por vezes pretendem não conhecer ainda. Assim, as últimas páginas de um livro já estão nas primeiras. Esta ligação é inevitável. O método aqui definido confessa o sentimento de que todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só as aparências podem enumerar-se e o clima fazer-se sentir.

Esse inacessível sentimento do absurdo, talvez o possamos então atingir em mundos diferentes, mas fraternais, da inteligência, da arte de viver, ou simplesmente da arte. O clima do absurdo está no início. O fim é o universo absurdo e essa atitude de espírito que ilumina o mundo a uma luz que lhe é própria, a fim de fazer resplandecer o rosto privilegiado e implacável que esta lhe sabe reconhecer.»

 

O Mito de Sísifo, Livros do Brasil, Lisboa, 1983, pp. 22/24

 

Albert Camus 07/11/1913 - 04/01/1960
Prémio Nobel da Literatura em 1957

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Colóquio Internacional "Reading Ricoeur once again/ Relire Ricoeur à notre tour" (7 a 10 de Julho)

Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, realiza-se nos dias 7 a 10 de Julho, na Avenida de Berna, 26-C, em Lisboa, Auditório 1 (Torre B, 1.º andar), um Colóquio Internacional sobre Paul Ricoeur, subordinado ao título "Reading Ricoeur once again: Hermeneutics and Practical Philosophy / Relire Ricoeur à notre tour: Herméneutique et Philosophie Pratique", com intervenções de especialistas na obra deste filósofo que se distinguiu especialmente na área da Filosofia Social e Política, e cuja informação está disponível AQUI, no caso de não ser completamente visível tudo o que está neste cartaz:

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Nietzsche (as carantonhas dos dogmatismos)

«Admitindo que a verdade seja mulher, não será justificado suspeitar que todos os filósofos, conquanto dogmáticos, pouco percebiam de mulheres? Que o sério trágico, a inoportuna falta de tacto que até agora têm empregado para atingir a verdade, eram meios demasiado desastrados e inconvenientes para conquistar o coração de uma mulher? Certo é que ela não se deixou conquistar; e toda a espécie de dogmática toma hoje uma atitude triste e desencorajada, se é que ainda toma alguma atitude. É que há trocistas que pretendem que toda a dogmática caíu por terra - pior ainda, que agoniza. Falando a sério, creio que há bons motivos para esperar que todo o dogmatismo em filosofia - por mais solene e definitivo que se tenha apresentado - não tenha sido mais do que uma nobre criancice e um balbuciar. E talvez não venha longe o tempo em que se compreenderá cada vez mais o que no fundo bastou para a primeira pedra desses edifícios filosóficos, sublimes e absolutos, erguidos até agora pelos dogmáticos: uma superstição popular qualquer, dos mais recuados tempos (como, por exemplo, a superstição da alma que, sob a forma de superstição do sujeito e do eu, também ainda hoje não deixou de fazer das suas); talvez um trocadilho, um equívoco gramatical, ou qualquer generalização temerária de factos muito restritos, muito pessoais, muito humanos, demasiado humanos. A filosofia dos dogmáticos não foi, esperemo-lo, mais do que uma promessa feita para milhares de anos, como no caso da astrologia, numa época anterior ainda - da astrologia, ao serviço da qual se despendeu talvez mais trabalho, dinheiro, perspicácia, do que desde sempre se despendeu com qualquer ciência verdadeira - é a ela e às suas aspirações "supraterrenas" que se deve, na Ásia e no Egipto, a arquitectura de grande estilo. Parece que, para gravar no coração da humanidade as suas eternas exigências, todas as grandes coisas devem errar primeiro na terra como carantonhas monstruosas e terríficas. A filosofia dogmática foi uma dessas carantonhas quando se manifestou na doutrina dos Veda, na Ásia, ou no Platonismo, na Europa. Não sejamos ingratos para com ela, embora se deva confessar que o erro mais nefasto, mais persistente e mais perigoso até hoje cometido foi o erro dos dogmáticos; refiro-me à invenção do espírito puro e do bem em si, feita por Platão. Mas agora que este erro foi superado, agora que a Europa liberta deste pesadelo volta a respirar e usufrui pelo menos um sono mais salutar, somos nós, nós cujo dever é precisamente a vigília, quem herda toda a força que a luta contra este erro fez crescer. Falar do espírito e do bem à maneira de Platão seria de facto deturpar a verdade e negar a própria perspectiva, condição fundamental de toda a vida. Poderia mesmo perguntar-se, como médico, de onde provém tal moléstia no mais belo fruto da antiguidade, que é Platão? Tê-lo-ia corrompido o malicioso Sócrates? Sempre teria sido Sócrates o corruptor da juventude? Teria ele merecido a cicuta? Mas a luta contra Platão ou, para falar mais compreensivamente e para o "povo", a luta contra a opressão cristiano-eclesiástica exercida desde há milhares de anos - porque o cristianismo é platonismo para o "povo" - criou na Europa uma maravilhosa tensão de espírito que nunca havia existido na terra: e com um arco tão fortemente tenso é possível agora atirar aos alvos mais longínquos. É verdade que o homem da Europa sente esta tensão como um mal e, por duas vezes, fizeram-se amplas tentativas para afrouxar o arco: primeiro, pelo Jesuítismo e em seguida pelo Iluminismo democrático. Com auxílio da liberdade de imprensa, da leitura dos jornais, talvez se pudesse realmente conseguir que o espírito já não se considere tão facilmente um "mal"! (Os Alemães inventaram a pólvora - as nossas felicitações! -, mas depois estragaram tudo, inventaram a imprensa.) Mas nós que nem somos jesuítas, nem democratas, nem mesmo suficientemente alemães, nós, bons europeus e espíritos livres, muito livres - possuímos ainda todo o mal do espírito e toda a tensão do seu arco! E talvez também a flecha, a missão e, quem sabe?, o alvo...»
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Sils Maria, Oberengadin, Junho de 1885.
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Prefácio do livro Para além do bem e do mal

sábado, 7 de novembro de 2009

Henri Bergson - Significado da alegria

«Os filósofos que especularam sobre o significado da vida e sobre o destino do homem deram-se conta de que a natureza se encarregou de nos informar sobre isso. Com um sinal preciso adverte-nos quando se alcançou o nosso destino. Esse sinal é a alegria. Digo a alegria, e não o prazer. O prazer é apenas um artifício imaginado pela natureza para obter do ser vivo a conservação da vida; não indica a direcção em que está lançada a vida. Mas a alegria indica sempre que a vida triunfou, que ganhou terreno, que conseguiu uma vitória. Toda a grande alegria tem um acento triunfal. Se tivermos em conta essa indicação e seguirmos essa nova linha de acontecimentos, descobriremos que onde quer que haja alegria há criação; quanto mais rica é a criação, mais profunda é a alegria. A mãe que contempla o seu filho sente-se contente porque tem consciência de tê-lo criado psíquica e moralmente. O comerciante que desenvolve os seus negócios, o chefe de fábrica que vê prosperar a sua indústria, por acaso sentem-se contentes pelo dinheiro que ganham e pela fama que adquirem? Riqueza e consideração contam muito evidentemente na satisfação que sentem, mas proporcionam-lhes prazeres e não tanto alegria, e o que saboreia com autêntica alegria é o sentimento de ter montado uma empresa que tem sucesso, de ter dado vida a algo. Consideremos alegrias excepcionais, como a do artista que realizou o que tinha em mente e a do cientista que descobriu ou inventou algo. Ouve-se dizer que esses homens trabalham pela glória e que a sua maior alegria está na admiração que se lhes tributa. Grande erro! Só se prende aos elogios e às honras quem não está seguro de ter triunfado. No fundo da vaidade há modéstia. Procura-se a aprovação para obter segurança, e para sustentar a vitalidade, talvez insuficiente da própria obra, procura-se rodear esta da cálida admiração dos homens, do mesmo modo que se enrola em algodão uma criança prematura, nascido antes do tempo. Mas o que está seguro, completamente seguro, de ter produzido uma obra viável e duradoura, para esse o elogio não conta para nada, e sente-se acima da glória, porque é criador e sabe-o, e porque a alegria que experimenta com isso é uma alegria divina. Portanto, se em todos os domínios o triunfo da vida é a criação, não deveríamos supor que a vida humana tem a sua razão de ser numa criação, diferente da do artista e da do cientista, porque prossegue em todo o momento e em todos os homens? É a criação de si mesmo por si mesmo, o crescimento da personalidade mediante um esforço que extrai o muito do pouco, que extrai algo do nada, acrescentando sem cessar algo à riqueza que já existia no mundo.
Vista de fora, a natureza aparece como uma imensa eflorescência de novidade imprevisível; a força que a anima parece criar por amor, para nada, por puro prazer, a variedade sem fim das espécies vegetais e animais; a cada uma confere-lhe o valor absoluto de uma grande obra de arte; dir-se-ìa que se consagra tanto à primeira que realizou como às outras, tanto como ao homem. Mas a forma de um ser vivo, uma vez traçada, repete-se indefinidamente; e os actos desse ser vivo, uma vez realizados, tendem a imitar-se a si mesmos e a repetir-se de um modo automático. Automatismo e repetição, que dominam em toda a parte excepto no homem, deveriam advertir-nos que estamos a fazer uma paragem, e que o passo que estamos marcando, sem avançar, não é o movimento próprio da vida. O ponto de vista do artista é importante, mas não é definitivo. A riqueza e a originalidade das formas denotam uma expansão da vida; mas nessa expansão, cuja beleza significa potência, a vida manifesta igualmente uma paragem ou suspensão do seu impulso e uma impotência momentânea para chegar mais longe, como a criança que termina com uma volta graciosa a sua patinagem.»
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Henri Bergson (1859-1941)
Prémio Nobel da Literatura em 1928.
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in La Energía Espiritual, Espasa-Calpe, Madrid, 1982, pp 32-34
(tradução da minha responsabilidade)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Como se pode ser o maior filósofo do século XX e, ao mesmo tempo, um nazi?

«É o filósofo ou o nazi que define o povo alemão como "o povo metafísico por excelência"? [20 anos antes da chegada de Hitler, Thomas Mann dizia do povo alemão: "o povo da metafísica"]. É o nacional-socialismo que veicula a "ontologia fundamental" ou é esta quem o programa, quando, "para lá das suas insuficiências e grosserias", ele vê no "movimento hitleriano um elemento de muito maior alcance e talvez susceptível de levar, um dia, a um recolher sobre a essência ocidental e histórica do que é ser alemão"? Só existe um Heidegger, e eis o verdadeiro. Uma só tinta. Uma só voz. Ou, mais precisamente, talvez haja duas. Se insistirmos nisso, podemos continuar a defender que, "por um lado", existe o filósofo e, "por outro", o nazi. Mas, nos livros, essa fronteira não existe. Ela dilui-se no seu interior. Que digo? Em cada livro, ela dilui-se em cada página e, até mesmo, em cada palavra ou, pelo menos, em cada conceito. É impossível demarcá-la. Impossível, até, pensá-la. Se existem "dois Heidegger", eles não só coabitam sob o mesmo nome, na mesma cabeça, mas também nas mesmas figuras da língua e do pensamento. E é isto que impossibilita e torna absurda a escapatória que consistiria em dizer: "deixemos de lado o nazi, guardemos o filósofo; esqueçamos as cartas de denúncia e recordemo-nos da meditação sobre os poetas; saibamos eliminar a parte que cabe às artimanhas, ou às cobardias privadas e sobrarão os textos imortais sem os quais seriam as tarefas do pensamento que ficariam por muito tempo comprometidas". (...).
Como é que o século que agora acaba (Althusser, Foucault, Lacan e, primeiramente, Sartre, claro) se acomodou a estes conceitos que, num certo sentido, faziam pensar e, noutro, evocavam o pior? E como é que o século que se anuncia (os mesmos, mais alguns outros) poderá, deverá, lidar com este duplo imperativo de não poder pensar sem Heidegger e de não poder, também, pensar com ele?
(...) Num certo sentido, existem efectivamente dois Heidegger. Se se quiser, existe um "bom" e um "mau" Heidegger. Ainda que, desta vez, não se trate do "político" e do "filósofo". Já não se trata do patife nazi e do gentil Tales, perdido nos seus sonhos, indiferente ao horror da época e que seria necessário, como queriam fazer Les Temps Modernes, arrancar das garras do primeiro. O seccionamento ocorre no interior da própria filosofia. O que está em jogo, aquilo que está verdadeiramente em jogo, ocorre no próprio seio da sua meditação. E são duas as filosofias de Heidegger que, como um par de forças de sentido oposto, se disputam os mesmos textos e, repito, os mesmos conceitos.
Por um lado, é um Heidegger pessimista, terrivelmente sombrio, que julga o declínio irremediável e que não está evidentemente pronto, visto que não há qualquer saída, a conceder seja que privilégio for a este ou àquele regime da História e do pensamento. Para este Heidegger, a divulgação planetária da técnica é apenas a antepenúltima consequência de uma metafísica da subjectividade que começa em Platão e acaba, provisoriamente, com um nacional-socialismo que, quanto a ele, é apenas consequência dessa consequência, o último elo em data da mesma cadeia. Esse nacional-socialismo bem tinha querido ser um "recomeço grego". Mas, aqui está: nunca houve verdadeiro começo. Como poderia haver? Nesse caso, o nazismo é apenas um avatar, talvez o último, talvez não, do esquecimento milenário do Ser. Se não há muita esperança em vencê-lo e, portanto, se não há muitos motivos para combatê-lo, também não os há para aderir a ele. Afinal de contas, este primeiro Heidegger é demasiado sombrio para falar, nem que seja um momento, sobre o pretenso papel "regenerador" da revolução nazi.
Por outro lado, é um Heidegger mais positivo, mais determinado que, subitamente, não se conforma com este eterno declínio, tal como acaba de constatá-lo. É o mesmo Heidegger, descrevendo, da mesmíssima maneira, a "planetarização da técnica" e a "decadência espiritual da Terra"; É o mesmo grande filósofo glosando sobre o esquecimento do Ser e sobre o facto de que, devido a esse esquecimento, a humanidade não pára de viver nas trevas. Excepto que tudo se passa como se, de repente, este quadro sinistro não o satisfizesse mais - tudo se passa como se visse subitamente neste pessimismo uma forma de deleite lúgubre e, nesse deleite, uma consequência desse mesmo niilismo a quem movera o processo e cujo deserto não pára de aumentar. Devo também deixar que o deserto cresça? Não, parece querer responder. Estou cansado do deserto. E toma a "grande decisão" de inflectir mais ligeiramente o seu discurso, de se perguntar se não haverá maneira de começar (oh! Muito pouco! Imperceptivelmente!) a escalar a ravina da queda e do esquecimento: renuncia às aquisições da analítica do Dasein; volta atrás na sua doutrina da historicidade, na sua teroria da língua, na sua concepção de um esquecimento inscrito na própria Abertura do Ser e encontra na Alemanha, e na Alemanha da época nazi, os veículos que lhe permitirão retomar o caminho da aurora grega do pensamento. É quando se mostra que Heidegger é nazi. É quando dá por si mesmo a acreditar que o declínio é reversível, que é possível remontar o curso da catástrofe e, portanto, é quando se torna optimista, que ele adere ao hitlerismo. O hitlerismo de Heidegger não é uma noite da alma, é um momento de iluminação - é o momento em que ele procura introduzir um raio de esperança e de luz na noite do século. Tal é o princípio da separação entre os dois Heidegger. Tal é o princípio da partilha - no verdadeiro sentido de uma "crítica" - que Sartre e os outros operaram por entre os factos, sem forçosamente a formularem. Tal é, de facto, a forma da crítica que temos de reelaborar se quisermos também escapar a esse impasse cuja fórmula se enuncia da seguinte maneira: é impossível ser heideggeriano, e é impossível deixar de sê-lo. Tal é, afinal, a lição dessa crítica: o que ela nos diz do século que agora termina, o que ela nos diz daquele que se anuncia; e que o totalitarismo - como Sartre compreendera muito bem - sempre foi mais filho do dia do que da noite.»
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in O Século de Sartre, de Bernard-Henri Lévy, pp. 216/7 e 231/2/3
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(na imagem: Martin Heidegger )

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A. Schopenhauer - pensamentos

À semelhança do que fiz com Nietzsche, e que é uma das páginas mais visitadas, compilei alguns pensamentos de Arthur Schopenhauer (a imagem representa ambos), que se encontram dispersos por várias das suas obras e cujos títulos indicarei no fim. Espero assim satisfazer muitos que também o procuram e que só encontravam citações dispersas.
«»
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Talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. Génio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não vêem.
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Se olharmos a vida nos seus pequenos detalhes, tudo parece muito ridículo. É como uma gota de água vista ao microscópio, uma só gota cheia de protozoários. Achamos muita graça a como eles se agitam e lutam tanto entre si. Aqui, no curto período da vida humana, essa actividade febril produz um efeito cómico.
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A maior sabedoria é ter o presente como o objecto maior da vida, pois este é a única realidade, tudo o mais é imaginação. Mas poderíamos também considerar isso a nossa maior maluquice, pois aquilo que existe só por um instante e desaparece, não merece um esforço sério.
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Uma pessoa de raros dons intelectuais, obrigada a fazer um trabalho apenas útil, é como um jarro valioso, com as mais lindas pinturas, usado como pote de cozinha.
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É interessante que, além da vida real, o homem tem sempre uma segunda vida abstracta onde, com calma deliberação, o que antes o deixava nervoso e irritado parece frio, sem graça e distante: ele é mero espectador e observador.
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As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidas e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta.
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A alegria e despreocupação da nossa juventude deve-se, em parte, ao facto de estarmos a subir a montanha da vida e não vermos a morte que nos aguarda do outro lado.
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Feliz é o homem que consegue evitar a maioria dos seus semelhantes.
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No fim da vida, a maioria dos homens percebe, surpreendida, que viveu provisoriamente e que as coisas que abandonou por não terem graça ou interesse eram, justamente, a vida. E assim, traído pela esperança, o homem dança nos braços da morte.
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Na infância, o aparelho sexual está inactivo, enquanto o cérebro funciona plenamente, por isso, essa é a época da inocência e da felicidade, o paraíso perdido do qual sentimos falta pelo resto da vida.
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O sexo intromete-se com o seu lixo e interfere nas negociações dos estadistas e nas investigações dos eruditos. Todos os dias destrói os relacionamentos mais preciosos e rouba os escrúpulos aos que antes eram honestos.
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Se não conto o meu segredo, ele é meu prisioneiro. Se o deixo escapar, sou prisioneiro dele. A árvore do silêncio dá os frutos da paz.
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Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça.(...) No fim, ela vence, pois desde o nascimento é esse o nosso destino e ela brinca um pouco com a sua presa antes de a comer. Mas continuamos a viver com grande interesse e inquietação durante o máximo tempo possível, do mesmo modo que sopramos uma bola de sabão até esta ficar bastante grande, embora tenhamos a certeza absoluta que vai rebentar.
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A vida é uma coisa miserável. Decidi passar a minha a pensar nisso.
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Uma vida feliz é impossível. O máximo que se pode ter é uma vida heróica.
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A sólida base da nossa visão do mundo, bem como o grau da sua profundidade, são formados na infância. Essa visão é depois elaborada e aperfeiçoada, mas, na essência, não se altera.
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A religião tem todas as coisas a seu favor: a revelação feita por Deus aos homens, as profecias, a protecção do governo, das figuras mais respeitáveis e mais importantes. Mais que isso, o enorme privilégio de poder gravar a sua doutrina na mente das pessoas quando são crianças e, com isso, as ideias tornam-se quase congénitas.
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Num espaço infinito, inúmeras esferas luminosas em volta das quais giram dezenas de outras menores, quentes no centro e cobertas por uma casca dura e fria, onde uma névoa bolorenta originou a vida e os seres conhecidos. Esta é a realidade, o mundo.
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A primeira regra para não ser um brinquedo nas mãos de qualquer velhaco, nem ridicularizado por qualquer imbecil, é manter-se reservado e distante.
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Quando tinha trinta anos, estava cansado e aborrecido por ter de considerar iguais a mim pessoas que nada tinham a ver comigo. Como um gato que, quando pequeno, brinca com bolas de papel porque pensa que são vivas e se parecem com ele, assim me sinto eu em relação aos bípedes.
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Poucas coisas deixam as pessoas tão satisfeitas como ouvir algum problema ou constatar alguma fraqueza em ti.
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Deveríamos limitar os nossos desejos, controlar as nossas vontades e dominar a nossa raiva, sabendo que só conseguimos o mínimo do que vale a pena ter.
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Não há rosa sem espinhos. Mas há muitos espinhos sem rosa.
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Não escrevi para a multidão. (...) A minha obra é para os que pensam e que, no decorrer do tempo, vão ser a excepção. Sentirão o que eu senti, como um marinheiro náufrago numa ilha deserta, para quem a pegada de um ex-companheiro de sofrimento dá mais consolo do que as catatuas e os macacos nas árvores.
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Mesmo sem motivo, sinto sempre uma ansiedade que me faz ver e procurar perigo onde ele não existe. Isso aumenta infinitamente qualquer aflição e faz com que a ligação com os outros seja muito difícil.
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Os escritos e ideias deixados em livro por homens como eu são o meu maior prazer na vida. Sem livros, teria desesperado há muito tempo.
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Vista da juventude, a vida é um longo futuro; a partir da velhice, parece um curto passado. Quando partimos num navio, as coisas na praia vão diminuindo e ficando mais difíceis de distinguir; o mesmo se passa com os factos e actividades do nosso passado.
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Quem ama sente uma enorme desilusão depois de, finalmente, chegar ao prazer. E, surpreendido, vê que aquilo que tanto desejou proporciona o mesmo que qualquer outra relação sexual, e assim não encontrará muitas vantagens em amar.
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Devemos encarar com tolerância todas as loucuras, fracassos e vícios dos outros, sabendo que apenas encaramos as nossas próprias loucuras, fracassos e vícios.
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Ao chegar ao fim da vida, nenhum homem sincero e na posse das suas faculdades vai desejar voltar a viver. Preferirá morrer para sempre.
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Consigo suportar a ideia de que poucas horas depois de morrer, os vermes comerão o meu corpo, mas estremeço ao imaginar professores a criticar a minha filosofia.
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Desejar o mínimo possível e saber o máximo possível.
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A vida pode ser comparada a um bordado que no começo da vida vemos pelo lado direito e, no final, pelo avesso. O avesso não é tão bonito, mas é mais esclarecedor, pois deixa ver como são dados os pontos.
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Pensamentos extraídos das seguintes obras:
Parerga e Paralipomena
O Mundo como Vontade
O Mundo como Vontade e como Representação
(de manuscritos deixados)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A. Schopenhauer - Fábula do porco-espinho

"Num frio dia de Inverno, alguns porcos-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podem tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem."
Moral da fábula: "Quem tem muito calor interno prefere manter-se afastado da sociedade para não dar nem receber problemas e aborrecimentos."
Por outras palavras, toleramos a proximidade dos outros só quando é necessário à sobrevivência, evitando-a sempre que possível.

terça-feira, 21 de abril de 2009

I. Kant - citação

De mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar.
Immanuel Kant

Epicteto - citação

Se te interessas muito por filosofia, prepara-te para ser motivo de escárnio de todos. Se persistires no teu interesse, sabe que essas mesmas pessoas te irão admirar depois. (...) E que, se por acaso deres atenção a factos exteriores, para agradar a quem quer que seja, podes ter a certeza que irás arruinar o teu estilo de vida.
Epicteto (55-135 dC)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Nietzsche e o "inferno de Deus"

Um dia, o Diabo falou-me assim: "Deus também tem o seu inferno: é o seu amor pelos homens".
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Nietzsche, Assim falou Zaratustra

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Nietzsche - o que é um filósofo?

"Um filósofo: é um homem que experimenta, vê, ouve, suspeita, espera e sonha constantemente coisas extraordinárias; que é atingido pelos próprios pensamentos como se eles viessem de fora, de cima e de baixo, como por uma espécie de acontecimentos e de faíscas de que só ele pode ser alvo; que é talvez, ele próprio, uma trovoada prenhe de relâmpagos novos; um homem fatal, em torno do qual sempre ribomba e rola e rebenta e se passam coisas inquietantes. Um filósofo: ah, um ser que foge muitas vezes para longe de si mesmo, muitas vezes tem medo de si mesmo - mas que é demasiado curioso para não «voltar sempre a si»."
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(Para Além do Bem e do Mal, Guimarães Ed., 1978, p. 214)

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Nietzsche - Máximas e Interlúdios

O sábio como astrónomo. - Enquanto sentires as estrelas como algo que está «por cima de ti», não possuis ainda o olhar de quem procura o conhecimento.

Não é a intensidade dos sentimentos elevados que faz os homens superiores, mas a sua duração.

Em tempo de paz, o homem belicoso ataca-se a si próprio.

Quem se despreza a si próprio, mesmo assim não deixa de se respeitar como desprezador.

Quem, em prol da sua boa reputação, não se sacrificou já uma vez - a si próprio?

Na bonomia nada há de misantropia, mas, precisamente por isso, demasiado desprezo pelo homem.

Maturidade do homem: isto significa ter-se reencontrado a seriedade que se tinha nas brincadeiras da infância.

Ter-se vergonha da sua imoralidade: é um degrau na escada em cujo extremo se tem também vergonha da sua moralidade.

Devemo-nos despedir da vida como Ulisses se despediu de Nausica - mais abençoando-a do que apaixonado por ela.

Quando adestramos a nossa consciência, ela beija-nos ao mesmo tempo que nos morde.

Perante nós mesmos, todos fingimos ser mais ingénuos do que somos: é deste modo que descansamos dos outros homens.

Graças à música, as paixões aprazem-se a si próprias.

Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo ao melhor contra-argumento: sinal de carácter forte. Por conseguinte, uma ocasional vontade de se ser estúpido.

Não há fenómenos morais, mas apenas uma interpretação moral de fenómenos...
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As grandes épocas da nossa vida são aquelas em que adquirimos a coragem de considerar como o melhor o que em nós há de mau.
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Há uma inocência na admiração: é a daquele a quem ainda não passou pela cabeça que também ele poderia, um dia, ser admirado.
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Em certas pessoas, o alegrar-se com um elogio é apenas delicadeza do coração - e precisamente o contrário de vaidade do espírito.
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Se temos que mudar de opinião a respeito de alguém, levamos-lhe muito a mal o incómodo que assim nos causa.
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Um povo é o rodeio da Natureza para chegar a seis ou sete grandes homens. - Sim, para depois se desviar deles.
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O Diabo tem as mais vastas perspectivas para Deus, por isso é que se mantém tão longe dele: o Diabo, ou seja o mais velho amigo do conhecimento.
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Começa-se a adivinhar o que vale alguém quando o seu talento começa a enfraquecer, quando deixa de mostrar do que é capaz. O talento também é um adorno; um adorno também é um esconderijo.
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É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado.
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O fariseísmo não é uma degenerescência do homem bom: pelo contrário, boa parte dele é mesmo a condição prévia para se ser bom.
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Um procura um parteiro para os seus pensamentos, o outro alguém a quem possa auxiliar: é assim que nasce uma boa conversa.
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No convívio com sábios e artistas, a gente facilmente se engana no sentido oposto: não é raro encontrarmos por detrás dum sábio notável um homem medíocre, e muitas vezes, por detrás dum artista medíocre, um homem muito notável.
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A nossa vaidade gostaria que o que fazemos melhor fosse considerado como aquilo que mais nos custa. Para a origem de certas morais.
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Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, se não transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para dentro de um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
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Não basta ter-se talento: é preciso ter-se o vosso assentimento para o possuir - não é verdade, meus amigos?
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A loucura é rara nos indivíduos - mas é a regra nos grupos, nos partidos, nos povos, nas épocas.
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Os poetas são impudicos para com as suas vivências: exploram-nas.
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«O nosso próximo não é o nosso vizinho, mas o vizinho deste» - assim pensam todos os povos.
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Em face de qualquer partido. - Um pastor precisa sempre também de um carneiro condutor, ou, em certas ocasiões, ele próprio tem de ser carneiro.
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Falar muito de si próprio pode ser também um meio de se esconder.
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Em última análise, amam-se os desejos, e não o objecto desses desejos.
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As consequências das nossas acções agarram-nos pelos cabelos, sem nada se importarem com o facto de, entretanto, nos termos «corrigido».
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Fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te.
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Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade.
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«Ele desagrada-me.» - Porquê? - «Não estou à sua altura.» Jamais um homem respondeu assim?
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(in "Para Além do Bem e do Mal", Guimarães & C.ª Ed., Lisboa, 1978, págs.77/89)