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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Florbela Espanca - soneto "Em busca do Amor"

O meu Destino disse-me a chorar:
«Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.»
.
Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando ...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando ...
.
Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?»
E o velho estremeceu ... olhou ... e riu ...
.
Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados ...
E eu paro a murmurar: «Ninguém o viu! ...»
.
(1894-1930)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Florbela Espanca - Soneto "Esquecimento"

Esse de quem eu era e que era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.
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Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei ... tacteio sombras ... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!
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Descem em mim poentes de Novembro ...
A sombra dos meus olhos, a escurecer ...
Veste de roxo e negro os crisântemos ...
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E desse que era meu já me não lembro ...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos! ...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Florbela Espanca - Soneto "O meu impossível"

Minh'alma ardente é uma fogueira acesa,
É um brasido enorme a crepitar!
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!
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Tudo é vago e incompleto! E o que mais pesa
É nada ser perfeito. É deslumbrar
A noite tormentosa até cegar,
E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!...
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Aos meus irmãos na dor já disse tudo
E não me compreenderam!... Vão e mudo
Foi tudo o que entendi e o que pressinto...
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Mas se eu pudesse a mágoa que em mim chora
Contar, não a chorava como agora,
Irmãos, não a sentia como a sinto!...