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domingo, 11 de setembro de 2011

Antero de Quental - "A uma amiga" (18/04/1842 - 11/09/1891)

Aqueles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo…
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento…

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos… que eu invejo…
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa…
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel – tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes…
Para ver o meu mal… e escarnecê-lo!

Antero de Quental, Sonetos Completos, Europa-América


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vasco Graça Moura - Poética da "escherichia coli"

«A muita gente não terá ocorrido que a escherichia coli tem um papel importante na obra de um dos maiores poetas portugueses do século XX, o que deve ser caso único na literatura europeia.
Refiro-me a três dos melhores poemas da última fase de Vitorino Nemésio (1901-1978) em que a perigosa bactéria é invulgarmente metamorfoseada em musa. Pertencem a Limite de Idade (1972). É um livro muito marcado pelo humor pungente com que Nemésio combina termos científicos e técnicos de vários campos da ciência, entre eles os da Biologia e da Medicina, com a dignidade e a fragilidade da sua humanal condição, a precariedade do seu estado de saúde, os seus achaques, as suas inquietações metafísicas, a literatura em geral e o seu próprio estro, tudo a interagir num pessoalíssimo e por vezes algo extravagante modo lírico em registo de alta cultura brincada.
O primeiro desses poemas é o tríptico "Escherichia", formado por um soneto, duas quadras e uma sextilha. Personagens, além do próprio poeta: Beatriz, Daisy, Dolly e a Escherichia... Aquela Beatriz, que também é a de Dante, sai directamente do "Elogio da Morte" de Antero de Quental, para ser aqui logo citada em epígrafe ("Funérea Beatriz de mão gelada... / Mas única Beatriz consoladora!"). Daisy vem do "Soneto já antigo" de Álvaro de Campos ("Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de..."), também inscrito na epígrafe. E ainda há Dolly, uma outra presença feminina no poema.
Escherichia, a "feminil bactéria", converte-se na Musa propriamente dita. Beatriz, Daisy e Dolly serão como que as três Graças, mas, enquanto as duas primeiras não passam de meras criações literárias, Dolly é uma pessoa real. Tenho informação de que se tratava da mulher de João José Cochofel, grande amiga de Nemésio e da sua família. A mise en scène destas três figuras de mulher é muito interessante. Beatriz, conotada com os problemas cardíacos, aparece como a alegoria da morte do soneto de Antero e também como alusão à transcendência sobrenatural da amada de Dante. Em seguida, feito um electrocardiograma, é interpelada Daisy, que recebe uma incumbência post-mortem no verso de Álvaro de Campos. Beatriz e Daisy mostram a que ponto o trato do autor com outros autores o leva, na sua angústia, a conferir um súbito coeficiente de realidade às personagens deles.
Mas Nemésio logo rejeita a interpelação a Daisy. Deixa de dialogar com uma criação fictícia e prefere a dirigir-se a um ser de carne e osso, Dolly, para exprimir o seu medo de morrer: "Em gráfico de sismo a sina veio / Nessa foto cardíaca: - 'Receio / Que morra, Daisy!' Não: 'Que morra, Dolly!'" E remata a dizer que todavia não é o Pessoa nem o Antero e que o nome da sua musa não soa em inglês como o delas, por ser Escherichia Coli...
No segundo andamento do tríptico, o poeta equipara o perigo cardíaco e o perigo urológico, identificando explicitamente Beatriz e Escherichia: "Escherichia ou Beatriz, que importa o nome /.../ A prometida morte nos consome", acrescentando: "Assim tu, Escherichia, és meu tormento / E nocturno tremor, Beatriz funérea! / Quem nasceu para casto fingimento / Afinal pode amar uma bactéria." Por fim, a questão cardíaca cede em presença da bactéria e assim, na terceira parte, lemos: "(...) feminil bactéria. / Por ela todo estremeço / Em suor e ácido úrico".
Noutro poema, "Tubo de ensaio", Nemésio é de uma franqueza desarmante na sua expressão patética: "Eu que, por causa de Escherichia Coli, / Quase não sei (como se diz?) - meiar... / A Poesia é um louco laboratório, / E eu dispo a bata para não chorar".
O terceiro destes poemas "bacterianos" intitula-se "Micro-moral" e termina assim: "Quanto a Escherichia, casta musa, a entranha aos vírus coxos / Cede por nosso amor, maternal, e rebenta." O adjectivo "casto" prende a musa a uma reminiscência da "Casta Diva" da Norma de Bellini, e já tinha sido usado, no primeiro dos poemas citados, para o fingimento poético, numa piscadela de olho a um epigrama de Catulo (castum decet esse poetam / ipsum, versiculos nihil necesse est: ao poeta fica bem ser casto, mas os versos não têm de o ser).
Um enorme poeta como Nemésio é assim capaz de elaborar, de maneira totalmente inesperada, as estranhas e complexas matérias da sua criação indo buscá-las à cultura mais vasta e à realidade mais microscópica.»
E não fora Vasco Graça Moura, também esta questão me teria passado ao lado.

No DN de hoje.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Antero de Quental - "Mea Culpa"

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto e seixo.
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Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria:
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.
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A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir; se estou desesperado;
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Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Antero do Quental - A um crucifixo (soneto)

Não se perdeu teu sangue generoso,
Nem padeceste em vão, quem quer que foste,
Plebeu antigo, que amarrado ao poste
Morreste como vil e faccioso.
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Desse sangue maldito e ignominioso
Surgiu armada uma invencível hoste...
Paz aos homens e guerra aos deuses! - pôs-te
Em vão sobre um altar o vulgo ocioso...
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Do pobre que protesta foste a imagem:
Um povo em ti começa, um homem novo:
De ti data essa trágica linhagem.
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Por isso nós, a Plebe, ao pensar nisto,
Lembraremos, herdeiros desse povo,
Que entre nossos avós se conta Cristo.
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Antero de Quental (1842-1891)
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(na imagem: quadro de Salvador Dáli)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Quem somos e o que queremos?

O que se convencionou designar por "características dos portugueses" (a inveja destrutiva, a mesquinhez, a desconfiança, a aversão à mudança, ao planeamento e ao rigor, a esperteza saloia, o preconceito, a ausência de iniciativa, o fatalismo, a autocomiseração, o provincianismo, etc.) estarão impressas no nosso código genético? Ou não passarão de falhas no nosso carácter originadas pelo modo como fomos "educados" ao longo dos séculos, e que podem ser alteradas?
Vejamos o que disse Antero de Quental numa conferência, em 1871, publicada no livro Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, pela Ulmeiro, 1982, 4ª edição, colecção Oitocentos anos de História:
Na página 27 podemos ler:
"A Europa culta engrandeceu-se, nobilitou-se, subiu sobretudo pela ciência. Foi sobretudo pela falta de ciência que nós descemos, que nos degradámos, que nos anulámos."
E nas páginas 66 e 67 lê-se:
"Fomos os Portugueses intolerantes e fanáticos dos séculos XVI, XVII e XVIII, somos agora os Portugueses indiferentes do século XIX. Por outro lado, se o poder absoluto da monarquia acabou, persiste a inércia política das populações, a necessidade (e o gosto talvez) de que as governem... Entre o senhor rei de então e os senhores influentes de hoje, não há tão grande diferença: para o povo é sempre a mesma servidão. Éramos mandados, somos agora governados: os dois termos quase que se equivalem. Se a velha monarquia desapareceu, conservou-se o velho espírito monárquico: é quanto basta para não estarmos muito melhor do que os nossos avós. Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencíval horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia. Por isso as melhores indústrias nacionais estão nas mãos dos estrangeiros, que com elas se enriquecem, e se riem das nossas pretensões. Contra o trabalho manual, sobretudo, é que é universal o preconceito: parece-nos um símbolo servil! Por ele sobem as classes democráticas em todo o mundo, e se engrandecem as nações; nós preferimos ser uma aristocracia de pobres ociosos, a ser uma democracia próspera de trabalhadores. É o fruto que colhemos duma educação secular de tradições guerreiras e enfáticas!
Dessa educação, que a nós mesmos demos durante três séculos, provêm todos os nossos males presentes. As raízes do passado rebentam por todos os lados no nosso solo: rebentam sob a forma de sentimentos, de hábitos, de preconceitos. Gememos sob o peso dos erros históricos. A nossa fatalidade é a nossa história.
Que é pois necessário para readquirirmos o nosso lugar na civilização? para entramos outra vez na comunhão da Europa culta? É necessário um esforço viril, um esforço supremo: quebrar resolutamente com o passado. Respeitemos a memória dos nossos avós, memoriemos piedosamente os actos deles, mas não os imitemos.... A esse espírito mortal oponhamos francamente o espírito moderno....."
Agora, em 2008, 137 anos depois de Antero ter proferido esta palestra, que já englobava 300 anos de História, olhemo-nos ao espelho e tentemos ver se, e em que, mudámos entretanto. Para nos ajudar a ver a imagem com maior nitidez podemos socorrer-nos dos diversos debates radiofónicos que se fazem diariamente e em que os ouvintes opinam sobre temas propostos. Mudámos, ou mantivemos os traços psicológicos? Apesar do progresso tecnológico, continuamos ou não de braço dado com a mediocridade e a ignorância?
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