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sábado, 25 de abril de 2009

35 Anos

(foto tirada da net daqui)


35 anos passaram desde este dia, que parece ter sido ontem.

Foi um dia diferente, mas não muito para muitos e muito para outros. Para todos sim, foram diferentes os dias, as semanas, os meses, os anos que se seguiram...

Pessoas a saírem da prisão, a retornarem das colónias, do exílio da Europa... pessoas a poderem ser ouvidas pela primeira vez sem perderem a liberdade.

Palavras e nomes que estarão sempre associadas a este momento da história de Portugal: Salgueiro Maia, António de Spínola, Cravos, Largo do Carmo, Militares, Pide, Retornados, Paulo de Carvalho, Ary dos Santos, Grândola Vila Morena...

... e inevitavelmente a senha (Letras de José Niza, Música de José Calvário e voz de Paulo de Carvalho):

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

África...vossa

África, angola mais propriamente dita, conheço-a desde sempre... mas nunca lá fui!
Anos 60, meu pai acabado de chegar de Angola, onde cumpriu serviço militar na Companhia de Sapadores 235, com quem ainda hoje faz almoços anuais de confraternização. Nessa época éramos um país muito conservador no que toca á forma de vestir das pessoas. Homens de calça comprida, sempre, Verão ou Inverno e mulher saia ou vestido. Pois meu pai veio de lá com a mala, conta a minha mãe e eu ainda me lembro dessas indumentarias, cheia de balalaicas e calções!
Estão a imaginar agora a cara das pessoas ao vê-lo andar na rua de calções, chinelas e balalaica? 'Pois, foi de ter estado em África', diziam as pessoas da terra que o viram crescer. 'A guerra faz mal a todos!'
A ´guerra´realmente fez-lhe mal. mas não se manifestou na forma dele se vestir, mas sim no reforçar da opinião que ele tinha sobre determinados assuntos ligados à sociedade e governantes de então... que por acaso lhe trouxeram alguns dissabores!
Os que cá ficaram é que estavam mal e não sabiam, dizia o meu pai!
Sempre ouvi o meu pai a falar daquela terra como se fosse o paraíso... lembro, que desde miúda adoro ver fotografias, e então passar horas a folhear os álbuns de fotos dele de África...
A minha avó tinha um irmão que na década de vinte tinha estado em África e tinha casado com uma senhora africana. Foi a primeira pessoa de cor que conheci... devia ter uns dois anos... linda a tia Maria, uma das velhinhas mais lindas que eu já conheci... aquela pele aveludada, se bem que enrugada, claro, pelos mais de sessenta anos que já tinha na altura, num tom de castanho indefinido a contrastar com o cabelo já branco... era uma boneca!

Em 74, depois da revolução, começaram a chegar as pessoas, a que na altura chamavam de retornados. Conheci bastantes, alguns de bem perto. Tivemos um grande amigo, que comprou uma papelaria junto à nossa casa, que passava horas a contar-me histórias, reais, da vida dele naquelas terras. Quero aproveitar para deixar aqui a minha homenagem a esse amigo, que jamais esquecerei e que fatalmente voltou para África, tendo vindo a falecer lá vítima de acidente de viação. Deixou-nos cedo demais, com filhos muito pequenos, mas tenho a certeza que morreu onde queria morrer, em África. Jamais te esquecerei Luís.
Todas as pessoas que conheci vindas daqueles sítios, nunca nenhuma me falou dos lugares sonde esteve, que não fosse com saudade, saudade e saudade. Nunca lhes vi nem no olhar, nem na voz ódios. Sentiam alguma revolta, sim, mas mais por terem sido obrigados a vir embora, do que por o que lhe tinha acontecido de menos bom nos últimos tempos de lá.

A minha maior amiga, também nasceu em Luanda. às vezes estamos horas a falar de Angola... ela do que viu e eu do que ouvi... não me canso!

Uma coisa em comum todas esta pessoas também tem: querem lá voltar!

Quando entrei no mundo da blogosfera, acabei por descobrir uma quantidade enorme de blogues de pessoas que estão destacadas em África em trabalho. Claro que estão nos meus favoritos e os sigo atentamente. Ao fim de semana quando o meu pai me visita, aproveito para lhe mostra os blogues e é incrível a forma como ele se transporta para essas terras de uma forma tão imediata!... então quando há fotos, não há volta a dar... incrível como ele reconhece todas as esquinas... então o Angola em Fotos, deixa-o maravilhado!

Tudo para dizer que África é um sítio onde quero ir...com o meu pai e a minha melhor amiga.

Que inveja tenho eu de quem lá viveu!
País que nos mandou pessoas com mentalidades tão diferentes das que cá havia! E as pessoas de cá não souberam aprender nada com essas pessoas... só maltratá-las, como se elas não fossem portuguesas também!

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Os Retornados

Este post foi escrito em Maio deste ano num outro blogue, que está reservado a um grupo restrito.
Lembrei-me de escrever este texto, porque o assunto Retornados foi relembrado com a edição do livro do Júlio Magalhães.
Um amigo que tem acesso a esse outro
blogue, sugeriu que o publicasse aqui, e aqui está.
Esta é a visão que uma criança de 9 anos tinha de todo esse processo migratório... evidentemente sugestionada pelos comentários dos adultos da época...

D
epois do 25 de Abril e do primeiro de Maio de 74, há outro acontecimento da vida Portuguesa que me marcou: os Retornados.
Poderemos mesmo chamar-lhes Retornados? Retornados de onde, se alguns nasceram lá? Refugiados? Mas refugiados porquê, se são portugueses?
É uma situação inédita, com pessoas a quem alguém chamou de 'Retornados', tendo-se assim generalizado a palavra!
Lembro-me de um ano, não se se foi logo em 74 ou já em 75; provavelmente em 75, pois foi o ano da descolonização e, agora começo a lembrar-me que foi na passagem para a 4ª classe...
No verão desse ano começaram a aparecer famílias vindas de África, famílias essas que vinham 'fugidas' da guerra e da instabilidade, algumas com a roupa do corpo!
Falarei mais tarde da sua postura e da nossa perante esse processo 'migratório'.
Nesse ano não queria ir para a escola...ia ter muitos meninos novos que tinham vindo de África e durante todo o verão não tinha parado de ouvir falar dos retornados que chegavam aos milhares e ocupavam tudo! Empregos, casa... até começaram a faltar os bens de primeira necessidade como o arroz, o açúcar e o azeite!
Para a mentalidade da época, eram pessoas muito estranhas, apesar de virem das colónias (ex), estavam um bom par de... décadas, à nossa frente! Em 75 (mais que agora), pobre significava roto, mal tratado, pedinte, enfim tudo que eles não eram! Eram sim pessoas com outra mentalidade, bem vestidas, cuidadas, o que provocava confusão na cabeças dos de cá!
Lembro-me de ver as senhoras, todas bem vestidas e penteadas... algumas a fumar o seu cigarro... escandaloso!
Na minha família nunca houve grandes preconceitos, até porque o meu pai chegou a ser alvo de conversas por andar na rua de calções e havaianas e a minha mãe de calças compridas... vejam lá, calças compridas, como se não bastassem as mini saias... uma mulher casada mãe de uma filha!

Mas eu não queria ir para a escola... estranho ainda hoje não consigo explicar porquê! Medo de perder a minha querida professora? Afinal via pessoas a perder, perder não, deixar de arranjar emprego, em favor dos retornados... eu também podia perder a minha querida professora Nilza!

Nada disso aconteceu, eu fui para a escola e, para meu alívio, foram contratadas professoras e formadas turmas para esses meninos... de quem eu fui grande amiga mais tarde... mas estranho...não havia pretos! Como eu gostava de ter um amiguinho preto igual aos que via nas fotos que o meu pai tinha de África!

Alguns eram simpáticos, mas na sua generalidade eram... estranhos, no mínimo! Vinham sem nada, toda a gente lhes dava tudo, o que tinham e o que não tinham.

Hoje tenho amigos que, em 1974 estiveram nessa situação. São amigos grandes amigos.
Outros tive, que os perdi, uns porque emigraram e perdi-lhes o rasto e outros porque emigraram e não sei quando os irei ver!

Um dia ainda hei-de falar sobre esses meu AMIGOS...