Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dia de Portugal


Que Vençais no Oriente tantos Reis

Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da Índia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;

Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.

Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;

O que vos dá mais fama inda no mundo,
É vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratidões, tão grande inveja.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

domingo, 2 de maio de 2010

Dia da Mãe II

E porque as mães nos vêem sempre como os 'seus bebés'...

De Eugénio de Andrade:



No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

segunda-feira, 22 de março de 2010

Ainda o Dia Mundial da Poesia: Poesia de Rua

Amanhã, terça-feira, dia 23 de Março, que alunos e professores de várias escolas da cidade, vão andar pela Avenida Central e Largo Barão São Martinho a dar voz a poemas de Nuno Higino, Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Luís de Camões, Sophia de Mello Breyner Andresen, Francisco Bugalho, António Gedeão, Jorge de Sena, Luís de Camões, Eugénio de Andrade e Matilde Rosa Araújo...
Ler mais no Município de Braga.

domingo, 14 de março de 2010

Ricardo Reis: Tenho mais almas que uma


Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis, in "Odes"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Rosa Lobato de Faria (Lisboa, 20 de Abril de 1932 - Lisboa, 2 de Fevereiro de 2010)

Notícias destas dispensam-se.

De Rosa Lobato de Faria

(Lisboa, 20 de Abril de 1932 - Lisboa, 2 de Fevereiro de 2010)


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen- Fundo do mar



Fundo do mar
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.


Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.


Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.


Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Caminho

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Pessoa


    Tudo quanto penso,
    Tudo quanto sou
    É um deserto imenso
    Onde nem eu estou.

    Extensão parada
    Sem nada a estar ali,
    Areia peneirada
    Vou dar-lhe a ferroada
    Da vida que vivi.

    [...]

    Fernando Pessoa, 18-3-1935

domingo, 12 de julho de 2009

Pablo Neruda

Se cada dia cai

Se cada dia cai,
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sophia... Rapariga de Bronze

Laurinda Alves escreveu:

Há precisamente cinco anos este lugar estava cheio de gente a despedir-se de Sophia. Hoje o Largo da Igreja da Graça foi baptizado com o nome de Sophia e foi ali colocado o seu busto de bronze e um poema que escreveu sobre Lisboa (...cont.)

Eu acrescento um poema, dessa magnifica poetisa uma das grandes responsáveis pelo meu gosto pelas letras...

A hora da partida
A hora da partida soa quando

Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

sábado, 13 de junho de 2009

Fernando Pessoa: O Andaime

E porque hoje me identifico particularmente com este poema... sabe-se lá porquê:

O Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Fernando Pessoa: O que Me Dói não

E porque ele nasceu a 13 de Junho de 1888,

O que Me Dói não É

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ainda Marie Curie, Ainda Sophia de Mello Breyner e Ainda As Mulheres

Não sei se sou eu que as procuro, ou se elas me caem na vida, mas o que é certo, é que estão constantemente a aparecer na minha!
Uma delas é esta, duas mulheres célebres que eu admiro desde miúda, nascerem com um dia de diferença ( em mês).
Bom, tanto admiro Sophia de Mello Breyner, pela sua obra literária, como Marie Curie pelo seu contributo para a ciência.
Ambas foram esposas e mães fantásticas, o que as completa como mulheres e me faz ter ainda mais admiração por elas!
Como já disse num post anterior, para mim a Fada Oriana, foi o clique que me despertou de vez para o gosto da leitura e da escrita. Digo o clique, porque fui educada rodeada de livros e jornais... não me lembro de um único dia em casa dos meus pais em que não tivesse entrado o Jornal de Notícias!
Um dia, num dos meus aniversários, ofereceram-me um livro, que ainda está em casa dos meus pais, e que é de biografias de pessoas célebres... tem muitas, mas na minha memória ficou a de Marie Curie e de Gaudi! Mais tarde vi um filme sobre a vida de Marie Curie e ainda fique mais entusiasmada com a vida daquela mulher... fiquei sempre com a imagem daquela mulher que vestia sempre de escuro, que era completamente desligada de valores materiais e, que tratava a química e a física por 'tu'.
Se não tivesse tirado um curso de engenharia de certeza tiraria de Física Nuclear... era um dos meus sonhos...

É claro que para além destas duas mulheres conhecidas de (quase todos), há outras mulheres ... e homens, mas como estamos a falar de mulheres... que tiveram grande na minha formação académica e como mulher: a minha Mãe, acima de tudo a minha Mãe... um bloque é pouco para falar tudo que quero e sinto por ela... a minha Avó, a mulher que me ajudou a vir ao mundo, para além de muitas outras coisas... a minha Professora da primária e... a minha professora de Física, de quem ainda hoje sou grande amiga.. e ela minha!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sophia de Mello Breyner Andresen-Hora


Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen