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domingo, 21 de março de 2010

Dia Mundial da Poesia: Recordar Ary dos Santos


Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Pessoa


    Tudo quanto penso,
    Tudo quanto sou
    É um deserto imenso
    Onde nem eu estou.

    Extensão parada
    Sem nada a estar ali,
    Areia peneirada
    Vou dar-lhe a ferroada
    Da vida que vivi.

    [...]

    Fernando Pessoa, 18-3-1935

domingo, 12 de julho de 2009

Pablo Neruda

Se cada dia cai

Se cada dia cai,
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

Pablo Neruda (Últimos Poemas)

Pablo Neruda

Da Wiki:

Pablo Neruda nasceu em Parral, em 12 de Julho de 1904, como Ricardo Eliezer Neftalí Reyes Basoalto. (...)
Ainda adolescente adoptou o pseudónimo de Pablo Neruda (inspirado no escritor checo Jan Neruda), que utilizaria durante toda a vida, tornando-se seu nome legal, após acção de modificação do nome civil.
(...) Morreu em Santiago em 23 de Setembro de 1973, de câncer na próstata.





A noite na Ilha

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Sophia... Rapariga de Bronze

Laurinda Alves escreveu:

Há precisamente cinco anos este lugar estava cheio de gente a despedir-se de Sophia. Hoje o Largo da Igreja da Graça foi baptizado com o nome de Sophia e foi ali colocado o seu busto de bronze e um poema que escreveu sobre Lisboa (...cont.)

Eu acrescento um poema, dessa magnifica poetisa uma das grandes responsáveis pelo meu gosto pelas letras...

A hora da partida
A hora da partida soa quando

Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.
Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

sábado, 13 de junho de 2009

Fernando Pessoa: O Andaime

E porque hoje me identifico particularmente com este poema... sabe-se lá porquê:

O Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 21 de março de 2009

Rómulo de Carvalho/António Gedeão-Poema para Galileu




Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!"

António Gedeão, in Linhas de Força

Sophia de Mello Breyner Andersen-Retrato de uma princesa desconhecida

Apesr de preferir a prosa à poesia, não quero deixar passar em branco, aqui no blogue, o dia 21 de Março, dia da Poesia.

Deixo, então, um poema da minha escritora/poetisa preferida: Sophia de Mello Breyner...


Retrato de uma princesa desconhecida


Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos


Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ary dos Santos

Quando se fala de Ary dos Santos, a imagem que me vem à memória é de um homem gorducho, na televisão a ler (declamar?) (a sua) poesia.
Lembro-me que me senti intimidada com aquele homem... falava tão rápido e tinha ar de mau!
Perguntei ao meu Pai quem era. Respondeu-me que era Ary dos Santos e que havia um disco, que está agora em minha casa e há minutos estive com ele na mão a recordar este episódio; se eu quisesse podia ouvir.
Mas, Pai, a minha professora não nos lê assim os poemas... é mais meiguinha!-Respondi...
Não ouvi o disco naquela altura, só anos mais tarde.
O 'mau' era força, convicção, acreditar... era a mensagem interior, claro!
Falar de Ary dos Santos, lembro-me logo de Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Simone de Oliveira... uma geração de ouro, de grandes pérolas Portuguesas.

Os putos

Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.


Hoje faz 71 anos que nasceu!

(Poema tirado daqui)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A Fada Sophia

Conheci a Fada Oriana, tinha eu seis anos, mal sabia ler e escrever…

Tive o previlégio de ouvir este conto, da voz maravilhosa da minha professora, a professora Nilza, contado com as palavras de outra mulher, igualmente fantástica, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Fiquei logo encantada com a história da Fada Oriana, uma fada boazinha, que um dia se entusiasmou com as palavras de um peixe mauzinho e fugiu para a cidade, deixando os amiguinhos da floresta tristes e abandonados!

Mais tarde, quando já dominava as palavras, li o livro. Li este, li o Rapaz de Bronze, li o Cavaleiro da Dinamarca, li a Noite de Natal, li a Menina do Mar, li a Floresta… li todos…

… Mas o que me ficou e ficará para sempre no coração será A Fada Oriana!
A Fada Oriana porque foi o primeiro livro que li, porque foi lido pela minha professora, porque foi uma lição…

Por estas razões, estas três fadas ficaram e ficarão para sempre no meu coração !

Deixei este post para hoje, porque hoje faz 89 anos que Sophia de Mello Beyner Andresen nasceu.

O meu primeiro livro da 'Fada Oriana' era assim. Infelizmente já não o tenho...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Dez Réis de Esperança


Dez réis de esperança


Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

Rómulo de Carvalho/António Gedeão


(Publicada no AmiComCas em 26/11/2006)

domingo, 21 de setembro de 2008

Rómulo de Carvalho/António Gedeão


Estive a ver na RTP Memória um programa (de 1996) com Rómulo de Carvalho/António Gedeão.

Fiquei a pensar nisto que ele disse:

'Não voto. Não acredito no Homem! Seja de direita, seja de esquerda, não acredito na capacidade do Homem fazer algo socialmente boa. Só o faz se for do seu interesse!'

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A Obra e o Poeta

Notícia de hoje na SIC:

Vida e obra do poeta são tema de revista francesa


O trabalho, intitulado "A obra poética de Manuel Alegre: do exílio à liberdade", estende-se por 51 das 120 páginas desta edição da revista, bilingue ....
Merecido!
Sou a favor do reconhecimento do valor das pessoas, quando elas estão cá para ver...