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domingo, 9 de agosto de 2015

Não há dia em que não me lembre de ti. Dos bons momentos que passei contigo, dos (grandes) ensinamentos que me deste da forma mais simples.
As nossas tardes no rio, as nossa tardes nas compras, ou simplesmente as noites, de quinta feira, a noite de passa a ferro e ver tourada.
Sim, quinta-feira era dia de tourada na 1. E tu gostavas de ver enquanto passavas a ferro.
No fim, se a roupa acabava antes da tourada, sentavas-te a meu lado a pontear as meias do avô. O Avô que entretanto tinha ido para o largo da capela dar dois dedos de conversa com o Sr. Zé, enquanto fumava o seu cigarro.
Às vezes eu ia com ele. Gostava da brincadeira com os outros meninos no largo da capela. Gostava das correrias à volta da capela. de jogar às escondidas, ou simplesmente, sentar-me ao lado do avô. Nos dias em que o Sr. Zé não aparecia, sentava-me ao lado do avô a ver as estrelas. Foi com ele que aprendi a encontrar a estrela polar e a identificar a cassiopeia.
Outras vezes falávamos de outras coisas. De geografia. Ilhas, peninsulas, istmos, cabos, continentes, polos... coisas tão simples, mas que me faziam sentir tão culta, tão conhecedora... e tão orgulhosa no meu avô!
E era a novidade que dava aos meus pais quando eles me iam buscar. Enquanto a minha mãe tentava saber o que tinha feito e o que tinha comido, eu debitava 'tão grandes conhecimento'.
Dos momentos da minha vida em que me senti mais orgulhosa de mim, foi num daqueles fins-de-semana, em que visitávamos os avós, andava já eu na escola e, como sempre o avô perguntava-me o que havia aprendido.
Havia sido a semana das unidades de peso: o quilograma, a grama... e toda contente, sentindo-me dona de uma grande sabedoria, digo ao avô: sabe que um litro de água pesa um quilo?
'Ai sim?', pergunta o avô-então diz-me então: 'que pesa mais, um quilo de chumbo ou um quilo de algodão''
A resposta foi quase imediata, e com uma confiança que poucas vezes me lembro de ter tido: +o mesmo! (expressão à Sherlock Holmes, tipo 'elementar, meu caro Watson?).
O Avô riu-se e passou-me a mão pela cabeça. Senti-me enorme, digna de ser sua neta! Ser neta de homem tão sabedor como o meu avô!
Para ti, estas coisas não eram importantes. Chumbo, algodão... quilos, gramas... só mesmo para fazer as contas em conjunto com a peixeira, que se 'enganava muito nas contas'... sempre para mais.
E aqueles dias em que acordava, já não estavas ao meu lado na cama. Deixavas-me dormir. Do quarto perguntava-te as horas. Davas sempre mais dez ou quinze minutos ( a mãe aprendeu bem contigo a lição). E o cheiro da cevada a entrar pelo quarto adentro! Só uma coisa nunca consegui: molhar o pão na cevada! Nunca me convenceste! Pão de um lado, cevada do outro.

Ai, tão boa esta nossa vida. Tão intensa!

Nota: eu sei que kilograma não é unidade... aprendi nesse dia!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Do que me havia de lembrar!!!

Hoje resolvi fazer ago que não devia!
Não porque soubesse que era proibida, mas porque mais valia não o ter feito!

Fui ao Google Maps procurar a casa onde nasci. Estava lá! Mas eu não me senti lá!
Foi um choque muito grande!

A casa  acaba no início da rua com um quintal. Do quintal já nada resta. As grades feitas pelo Avô e que todos os anos eram por ele minuciosamente pintadas, como se de uma grande obra de arte se tratasse; foram substituídas por taipais de madeira, daqueles que saem das caixas que chegam dentro dos contentores!

Antes do quintal havia um mirante,  que dava para a rua principal. Era coberto por uma ramada de uvas americanas, com que tanto me deliciei nos verões da minha infância. O mirante tinha umas portadas em treliça de madeira feita pelo avô e que eram pintadas na mesma altura das grade do quintal. Cortaram a ramada, tiraram o mirante e fizeram uma casota em cimento com um telhado em fibra! Um autêntico mamarracho!

E não vi mais nada. Não pude ver o pátio de cimento vermelho, as portas de madeira verde da cozinha, nem o galo vira-vento no topo da casa! Tinha antes uma parabólica de uma TV por cabo!

Claro que as portas já lá não estão, o pátio foi forrado a tijoleira, sabe-se lá de que cor e... a cozinha, sim, a cozinha, que era o nosso lugar de estar em quase todas as ocasiões! Dava para a sala de estar, dava para o sótão, para o quintal e até para a casa do bisavô!

Já nada dela há-de restar. Nem os móveis feitos pelo avô, nem os tectos, nem o lambril... nada há-de lá estar, que não as paredes!

Tudo há-de ter desaparecido, tal como o quintal, o mirante, o pátio... e os avós!
Ficam as recordações, que essas estão iguais, mais nítidas que nunca.  O que vi no Google Maps, foi outra coisa... Marte, Saturno... Lua, se quiserem, mas não foi a casa onde nasci! A casa onde minha Mãe cresceu, e onde eu passei os melhores verões da minha infância, a pintar, a apanhar uvas, a estender roupa lavada na ribeira, a brincar com o Maroto, o cão que fazia companhia ao avô enquanto ele trabalhava a madeira.
E tanta coisa daquele quintal, da oficina do avô...

Definitivamente as recordações, o que conseguimos guardar na nossa memória é a herança mais preciosa que podemos receber.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Carrossel Mágico

Há um apelo no FB para que mudemos as fotos do perfil para figuras da banda desenhada, como apelo à infância. Eu mudei, mudei para a Anica, a menina do Carrossel Mágico. Acho que, e depois de o meu girassol ter sido plagiado, vou mudar também a imagem do meu perfil aqui no blogue para a Anica. O FB despertou em mim esta nostalgia pelo Carrossel Mágico...

Anica


O Saltitão, O Hortelão, O Ambrósio, o Franjinhas, A Anica, a Rosália, o Flávio, o Tio Realejo... e o Carrossel
Franjinhas

sábado, 13 de novembro de 2010

E assim de repente...

... apeteceu-me o impossível: comer iscas de bacalhau ( conhecida por pataniscas por alguns) feitas pelo meu Avô Reis.
Estou a vê-lo, com a paciência que só ele tinha, a desfiar meticulosamente o bacalhau, a misturar a farinha com a água... e em frente do fogão a colocar, como que pesadas em balança de ourives, iguais quantidades de massa na sertã (frigideira!). 
A tirar as tiras do bacalhau de dentro da taça para onde as desfiou, a colocá-las de um dos lados da massa e, com a ajuda de dois garfos a dobrar as iscas. 
Depois de fritas, bem tostadinhas, a pô-las todas alinhadas na travessa, que antes tinha forrado com o papel do cartucho da mercearia. (Lembram-se dos cartuchos cinzentos com a risca vermelha?).
A avó entretanto tinha preparado o arroz malandro (fresco) de feijão e... o que quer que eu coma hoje não me saberá tão bem como me saberiam estas iscas com este arroz, comidos sentada entre o Avô e a Avó, na casa dos avós a falar de constelações, baías, continentes, ilhas e... istmos, até!


Definitivamente à medida que a idade avança, cada vez são mais as coisas que não podemos ter de volta. Restam as recordações que devemos viver com um sorriso nos lábios( como estou agora) e não com a lágrima ao canto do olho... afinal foram tempos felizes, lindos... a nossa herança do passado. Como disse um dia Neruda: se recordo o passo, é porque vivi!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Histórias Minhas (VIII)

Paula

Há dias, enquanto via fotos antigas, resolvi digitalizar algumas.
Umas publiquei no FB, a titulo de recordar coisas boas de tempos guardados no fundo do baú da memória.Outras, como esta digitalizei e guardei. Esta é a Paula, uma das gémeas, minha companheira de infância, que já lembrei aqui.
Tudo na sua vida foi muito efémero: casou aos 17 anos, foi Mãe aos 20 de uma filha que a deixou quatro meses depois de nascer.A maternidade também lhe trouxe o início da sua própria viagem de partida. A diabetes, doença com que nasceu, depois da gravidez acelerou de tal modo que lhe afectou os rins e a levou à cegueira.

Na próxima semana seria o dia do seu aniversário, que não passou do 23º.A' meia' história...
A mãe tinha-lhe feito um ultimato. Ou arrumava as coisas do quarto dela, ou da próxima vez que lá voltasse já tudo tinha desaparecido!
Conhecendo a mãe como conhece, sabia que ela não ficaria pelas palavras, pelo que o melhor, era mesmo ir lá a casa tratar do quarto.
Era o seu quarto desde que nascera. Estava lá tudo: a primeira boneca, o primeiro livro, o primeiro vestido, o primeiro tudo dela... até porque também era o primeiro quarto!
A roupa já estava separada. Era pouca, só mesmo aquela que já não lhe servia e... o vestido da comunhão, o traje académico... aquelas coisas que só se usam uma vez, mas que se guardam como que a perpetuar o dia, o momento...
Tinha também, ainda, as batas da escola e a pasta! Uma pasta vermelha, debruada a preto com uns bonecos verde que já não dava para perceber o que eram: se sapos, se tartarugas...
Abriu a pasta. Dentro tinha uma quantidade de coisa soltas... de quando ela brincava às escolinhas com as gémeas. Tinha ganho uma pasta nova na segunda classe e esta ficara para 'brincar'.
Começou a tirar as coisas uma a uma: um caderno de 'duas linhas', daqueles que se usavam para acertar a caligrafia. Estava meio escrito, com caligrafias diferentes, seriam dela e das gémeas. Sim, algumas partes estava bem piores que as outras, tinham sido escritas pela Paula. A Paula tinha uma caligrafia muito má. Lembrava-se agora, que a professora ralhava com ela!
A Paula! A Paula já partiu há muito, muito cedo. Tudo na sua vida foi feito cedo, viveu a vida a correr, como se soubesse que tinha menos tempo que os outros! Nasceu gémea da Isabel, a Bela, como todos lhe chamavam. Eram gémeas 'falsas'. Tão falsas que a Paula nasceu diabética e a Bela não. A Paula dizia-se a mais velha das duas, tinha nascido primeiro, doze minutos antes.
As gémeas, como todos os gémeos eram muito unidas. O que uma fazia, normalmente a Paula, a outra também queria, e fazia.
A Paula quis casar ainda elas não tinham completado 18 anos. Casou num lindo dia de Abril. A Bela foi atrás, casou em Setembro do mesmo ano a dias de fazer os dezoito anos. Aqui foi mais rápida e teve o seu primeiro filho em Abril do ano seguinte. A Paula, desta vez a ser ela a seguidora, engravidou mais tarde, contra todos os conselhos médicos. Correu mal, a gravidez, devido à diabetes foi de risco, de alto risco. A menina nasceu ao fim de sete meses e não sobreviveu. Para a Paula quase que também era o fim, devido À diabetes. Foi o principio. A doença tirou-lhe a visou, parou-lhe os rins e aos 23 anos o coração!

Tentou apagar do pensamento as gémea, pousou o caderno em cima da cama e continuou a tirar coisas de lá de dentro...a caixa de madeira dos lápis, feita pelo avô Reis! Foi feita numa tarde de verão em que ela ficou sozinha com o avô, enquanto a Mãe e a Avó foram à Ribeira d'Abade comprar Sável... no tempo em que se pescava sável no rio Douro...
Era linda, a caixinha, ainda que riscada, lascada e bem mais escura do que quando era nova!
Pousou a caixa em cima do caderninho e continuou. Papéis soltos. Desenhos, ditados, cópias...tudo das brincadeiras com as gémeas... e folhas de revistas, da Nova Gente, da Crónica Feminina, folhetos, enfim, tudo que desse para ler, ia parar aos seus domínios... já naquela altura era assim.
Começou a ver os papéis um a um. Engraçadas as folhas da crónica. Pequeninas, nem A5 eram! E as letras, eram castanhas em papel que não era branco... e pequenas as letras!
As da Nova Gente, essas eram como agora, só não eram todas a cores, só algumas. Por isso, desviou a atenção para uma folha, a cores. Era uma reportagem do Carnaval de Veneza. Tinha uma fotografia de duas pessoas fantasiadas, com umas máscaras brancas e uns turbantes em tons de azul. Lembrou-se, então do dia em que viu aquela foto pela primeira vez. Foi também quando ficou a saber que o Carnaval não era igual em todo o lado e que havia uma cidade em Itália, muito longe, chamada Veneza, onde as pessoas no Carnaval se vestiam, aliás fantasiavam, daquela maneira.
Enquanto a mãe lhe explicava que Veneza era uma cidade muito singular porque era atravessada por canais e se 'andava de barco' em vez de carro, no seu pensamento ia criando a, fantasia também, de que no ano seguinte se ia fantasiar assim e que quando fosse grande havia de ir a Veneza, no Carnaval.
Os planos foram feitas a três, ela e as gémeas. A D. Rosa, a mãe da gémeas que era modista, fazia os fatos. A Mãe que sabia bordar, fazia aqueles bordados e os turbantes e o pai ou o avô as máscaras.
A folha foi guardada religiosamente na pasta, que entretanto foi arrumada... passaram de classe, ganharam pastas novas e a das brincadeiras passou a ser outra. Aquela foi guardada tal qual estava em Junho desse ano. Com ela os planos do Carnaval do ano seguinte...
De tal coisa nenhuma das três se lembrou mais, o normal quando se tem sete anos: o sonho ou vai com o momento ou fica para sempre... este foi-se com o momento!


História escrita para a Fábrica de Histórias.

Nota: Quando comecei a escrever esta história não sabia bem onde ia acabar. Acabou numa história meio verdadeira, infelizmente. A Paula realmente existiu, e tudo que está aqui sobre ela é verdade. A pasta também existiu, a caixa também e... as folhas dentro da pasta também foram encontradas. Não me lembro de ter encontrado nenhuma foto do Carnaval, mas lembro-me de termos tentado convencer as nossas mães a fazerem-nos uns vestidos iguais a uma bonecas 'dama antiga' para o Carnaval.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Tempo, Férias, Agosto, Verão

O tempo não passa, VOA!
Será impressão minha, ou até o mês Agosto, o mês da pastelice este ano está a voar!

E até os miúdos sentem isso. Há dias a Lau dizia, depois de um grande suspiro:' Já me falta menos de um mês para voltar à escola! O tempo passa a correr!'

Quando é que eu aos doze anos, achava que os intermináveis três meses de férias passavam a correr?
É claro que naquela época as alternativas não eram as de hoje. Pouco mais havia que andar na rua de sol a sol, ir para a praia, com um batalhão de amigos e os pais de um a tomar conta das tropas. Umas duas ou três idas ao cinema nestes três meses e... quando chovia era uma chatice. Não havia televisão logo de manhã, os livros de lá de casa já estavam todos lidos e... era um tédio!

Ah, havia ainda uma semanita em casa dos avós. E essa até passava rápido. Os primos juntavam-se lá e, pronto, era só mesmo uma semana... é que quem ficava a precisar de férias eram os avós!
'Não percebo porque só podemos ficar uma semana,-dizia eu aos meus pais, nós nem damos trabalho- 'só vamos a casa comer e dormir!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As Barreto (II)

Um dia, num Domingo, no fim da missa da catequese encontrei a Zeza na pastelaria.
Estava toda vestida de preto e muito triste.
Perguntei-lhe porque estava assim. De preto e triste.
Enquanto tirava o papel a um gelado, respondeu-me: 'Foi a minha irmão Nanda que faleceu!'
Por muitos anos que viva, nunca hei-de esquecer nem este momento nem o que senti, ou não senti, naquele momento. A Nanda tinha morrido! A Nanda só tinha dez anos. As crianças não morrem!-pensava eu!
Senti-me presa ao chão, como se dali não conseguisse sair mais. Comecei a ver a Nanda, a vê-la trepar às árvores, a aparecer e desaparecer. Consegui perguntar: Como?
'Caiu da bicicleta, bateu com a cabeça na beira do passeio e teve uma fractura craniana...'-Respondeu-me, enquanto ia apontando para a parte da cabeça onde ela tinha batido, a frente.
Pois a Zé andava muitas vezes numa daquelas bicicletas, vulgo pasteleiras. Era enorme, a bicicleta, muito maior que ela. Seria de um dos irmãos, ou do pai, talvez. Andava bem, tão bem como os rapazes. Ela fazia tudo que os rapazes faziam, e fazia-o tão bem, ou melhor que eles.
E foi traída por essa sua faceta.
Não sei se a Zeza me disse mais alguma coisa. Não sei o que se passou de seguida. Não se também se estava acompanhada ou não. Assim como o momento da notícia me ficou gravado na memória até ao mais infimo pormenor (era capaz de descrever como era a roupa da Zeza naquele dia... e até sei que o gelado era um Super Maxi), não sei como foi o resto, só que os dias que se seguiram andei sempre com a Nanda no pensamento. Via-a a andar de bicicleta, a tombar, cair e bater com a cabeça na berma do passeio. Via-a também a limpar a testa (não sei se abriu ou não) e a continuar caminho...
Foi assim que descobri que as crianças também morriam!

domingo, 15 de agosto de 2010

Histórias Minhas (VI)

RR

Aproveitando para na passagem de mais um aniversário do seu nascimento ( 14 de Agosto), recordo esta grande artista, Rosa Ramalho.
Os passeios da escola eram sempre uma aventura. Definitivamente as emoções são irrepetíveis. Ficam presas nos momentos.







segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As Barreto

Não sei se é assim com todas as pessoas, mas eu às vezes lembro-me de pessoas que fizeram parte da minha vida, da quais não me lembrava há muito tempo.
No final da semana passada aconteceu com umas amiguinhas de infância.
E o engraçado é que inicialmente me lembrei delas porque falei com alguém que tem o nome de família delas, Barreto e depois por causa dos incêndios que neste momento assolam o nosso país. É que a família dela, numerosa, eram quase todos, ou bombeiros ou membros da fanfarra.
Mas essas minhas amiguinhas, duas irmãs de uma família típica do início da década de 70. Viviam no 'Bairro da Caixa', o número de irmãos atingia a dezena, o pai trabalhava na 'fábrica das bicicletas' e a mãe 'estava em casa', onde tomava conta dos filhos mais novos e dos netos, filhos dos irmãos mais velhos.
Zeza e Nanda eram os nomes delas. A Zeza, tinha a minha idade e a Nanda era mais velha um dois anos. Era uma miúda rebelde que gostava de trepar às árvores, de ir para o rio nadar, de jogar futebol e brincar com sameiras. Fugia da escola e muitas vezes de casa. Tirando isso era uma boa amiga, que nunca nos deixava sós, a mim e à irmã e muita, chegando a lutar com rapazes para defender a irmã.
Aos olhos da sociedade da época, eu era suposto estar num patamar social acima do delas. O meu pai já tinha uma certa posição na empresa, morávamos num 'andar' no centro da vila e eu era filha única. Por isso aos olhos da sociedade da época não era suposto eu ser amiga dos meninos do 'Bairro da Caixa', onde moravam os trabalhadores das industrias das redondezas com as suas famílias numerosas. A par dessas famílias viviam também aqueles, que sem famílias numerosas estavam marginalizados pela sociedade da época pois 'tinham estado presos'. Eram uma coisa que não se podia dizer na época: comunistas!
Bem, mas eu era amiga dos Barreto, dos Calado, dos Barbosa, assim como era amiga dos Quelhas, a família mais in da zona. Tudo meninos daquele bairro que eu conheci inicialmente na mestra e depois mantive a amizade na primária. Pois, e a propósito da 'mestra', eu também não era suposto ir para a mestra, mas sim ficar em casa com a minha mãe... ou ir para a Lumen ou para o Luso Francês, os colégios 'in' das redondezas.
Pois e eu lembrei-me delas hoje, eu queria contar um pouco mais da história delas. Divaguei, o que é normal em mim, e não disse o que tinha para dizer sobre elas.
E como ficará para um outro post a história delas, remato este dizendo que a educação que tive não foi a que 'deveria' ter tido aos olhos dos padrões da época, mas a educação que os meus pais me quiseram dar, porque acharam mais apropriada. Lidar com as realidades, relacionar-me com todas as pessoas e aprender por mim que há pessoas diferentes, que umas não tinham tanto como eu e outra tinham mais, mas, e estamos a falar de bens materiais; isso não era o mais importante!
Acertaram, apesar de em algumas fases da minha vida ter sido 'penalizada', no entender dos outros, por isso.
Eles é que perderam e não eu.
Não perdi nada por brincar com os meninos do bairro, por lhe emprestar os meus livros e os meus brinquedos e muito menos por os levar para minha casa.
Tinham piolhos, diziam os outros. E daí? Os outros não tinham? Tretas!
Da Zeza e da Nanda, assim como da Emíla ou da Eva (lembrei-me delas agora) falarei bevemente...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Não é o trabalho que cansa, mas a forma como o fazemos!

Bem, este post já o comecei a escrever umas poucas de vezes.
Ou porque o telefone tocou, ou porque tocaram à campainha, ou porque o L. chamou, parei e perdi o ritmo.
Ser interrompida quando estou a escrever é das piores coisas que me podem fazer. E não é só aqui, mesmo no trabalho quando estou a escrever um mero email, o toque do telefone destabiliza-me.

Não sei bem porquê, mas lembrei-me de um jogo que o meu avô fazia comigo às refeições.
O meu avô, ao contrário da minha avó, era uma pessoa muito calma e, uma vez mais ao contrário da D. Bina, era muito vagaroso.
O jogo, jogámo-lo a primeira vez era eu muito pequenina. A minha avó tinha-me posto o prato da comida à frente. Era muita comida, achava eu. 'Avó não consigo comer tudo. Dá muito trabalho!', disse eu.
'Sem trabalho não se faz nada', respondeu-me e deixou-me só com o meu avô, que sorriu e disse:' Claro que consegues. Eu vou ajudar-te.'.
Levantou-se, pegou num prato vazio e colocou uma porção da comida nesse prato. E disse:' E agora achas que esse bocado consegues?'
'Sim consigo.', respondi.
Uma das regras do jogo era eu não olhar para o outro prato e tentar adivinhar se já era a última dose.
No final, depois de ter comido tudo e ainda ter ficado com barriga para as uvas americanas da ramada lá de casa, perguntou-me:' Ficaste cansada?'
'Não', respondi.
'VÊs como conseguiste! Nem sempre é o trabalho que cansa, mas a forma como o fazemos!'
'Mas eu não estive a trabalhar, estive a comer...', adverti.

Não percebi a mensagem e o meu avô sabia disso. Sabia perfeitamente que uma criança de quatro anos não iria perceber que o que ele me queria dizer era muita coisa, mas sabia que as palavras e o 'jogo' iriam ficar gravados na minha memória e que eu iria decifrá-la ao longo da minha vida..
Ele tinha razão. Neste e em muitos outros jogos, a que mais tarde passei a chamar 'Jogos das moralidades'
Foram todos eles muito lúdicos.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Lembrei-me...

E a propósito do aniversário da Princesa Santa Joana, lembrei-me que os meus amigos Ricardo e Patrícia casaram na Sé de Aveiro, num belo dia de Setembro.

Foto Minha

Lembrei-me ainda, que o meu primeiro passeio da escola foi a Aveiro, em visita ao museu de Santa Joana.
Foi o primeiro passeio que eu consegui ir depois de falhar uns poucos. Eu que até nem era de ficar doente, nos dias dos passeios aparecia sempre uma constipação ou gripe que me retinham na cama.

A minha maior lembrança deste passeio é de estarmos a almoçar num parque e de aparecer um homem a vender pandeireta. Comprei uma. Custou 2$50. Em casa o meu pai escreveu no interior algo do género:' Recordação do Passeio a Aveiro. 25 de Maio de 1975'

A dita pandeireta andou lá por casa até há bem pouco tempo. Terá ido para o lixo, à minha revelia, num das ultimas mudanças de casa dos meus pais.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Livro de Leitura... da primeira classe

Encontrei esta preciosidade aqui. O meu livro da primeira classe!
Lembro-me tão bem dele. Do dia em que o recebi, do medo de nunca conseguir ler os textos das últimas páginas e do 'Milagre das Rosas' contado nas últimas páginas que eu e a minha amiguinha, Paula Luzia tão bem representamos na festa de fim de ano!
Ela era a Rainha Santa Isabel, eu o D. Diniz.
As nossas coroas eram feias com as caixas, que eram cilíndricas, dos queijinhos Saúde.
Uma caixa deu duas coroas... cortada a meio aos bicos...

Lindo, lindo...



O meu também tinha a lombada amarela, mas havia verde, vermelho...o da Paula Luzia tinha azul.
( Incrível como há pormenores que ficam para sempre!)



As páginas do a e i o u!

Lembro-me da imagem do topo, do mar e de 'ir passar o dia a casa do tio Artur' não me lembro. :-)



Lembro-me destas duas. De ter ficado com a ideia e que um farol era algo de muiiiito grande! E recordo que associei a passagem do pico do silvado, aos picos com que eu ficava nos dedos quando ia para o rio com a minha Avó e ao apanha amoras bravas ficava com picos nos dedos. O meu Avô com a sua paciência, desinfectava uma agulha com fogo, lavava-me a mão com álcool e pacientemente tirava-me os picos. Sempre dizia: 'Se não deixas tirar, os picos vão para o sangue e depois só no hospital!', quando eu ficava impaciente.


Obrigada, muito obrigada ao Planeta Tangerina.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Hoje, assim de repente...


Hoje, assim de repente, AGORA, deu-me uma vontade, ENORME, de comer uma BOLA de BERLIM!

Não, não é por isso! Tenho a certeza. É só mesmo vontade. A mesma vontade que tinha em miúda de comer BOLAS de BERLIM sempre que passava em frente à Confeitaria Pekim.
Passasse eu 20 vezes em frente à montra e das 20 vezes pedia uma BOLA de BERLIM!
A minha Mãe, claro, dava-ma da primeira vez e só algumas vezes! Lembro-me que em frente havia um sapateiro, o Sr Fonseca. A esposa, a Fatinha, que era quem atendia os clientes, achava-me imensa graça e, de vez em quando, era ela quem me dava a BOLA de BERLIM. Muitas vezes a minha Mãe ficava zangada, pois sentia-se desautorizada.

Parece que estou a ver a montra da confeitaria com o tabuleiro das bolas, na prateleira de baixo, mesmo ao meu nível, alinhadinhas a 'olharem' para mim como que dizendo 'Comam-nos, somos deliciosa!'

Não me lembro como passou a mania. Já não sei se foi depois do sarampo, altura em que fui sujeita a um regime alimentar muito rigoroso ou se enjoei mesmo. O que sei é que, tirando as vezes em que as como nos sortidos de miniaturas, NÃO me lembro de ter comido mais uma BOLA de BERLIM!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

RR


Há muitos, muitos anos, andava eu na escola primária e o 'passeio da escola' foi a Barcelos.
Mas como eu tinha uma professora que primava pela diferença, não nos levou à feira, levou-nos sim a visitar a Rosa Ramalho!
Quando lá chegamos, estava uma senhora muito velhinha, a moldar barro. Tratava o barro por 'tu' e fazia dele o queria. Tinha umas mãos grossa, mas muito ágeis, que sem meiguice fazia do barro o que queria. Durante o tempo que lá estivemos saíram das mãos dela uns poucos de Cristos. Parecia tão fácil!
Lembro-me que quis comprar um. Custava 12$50. Contei o dinheiro que tinha no porta-moedas e 'já não chega!'- disse eu à senhora que estava a vender as peças, a neta. A minha cara devia espelhar tanta desilusão, que a senhora perguntou: 'E quanto tens?'. '11$00'-respondi.
Foi então que a senhora foi junto da barrista, que sem tirar os olhos do barro e depois de algumas palavras da neta, acenou de forma afirmativa com a cabeça.
A neta voltou então para junto de mim e disse: 'Está bem, leva o Cristo, fica com 1$00, podes precisar até casa.'
Que feliz eu vim!
Até ali eu não sabia quem era Rosa Ramalho. Para mim tínhamos ido ver como se modelava o barro e nada mais.
Mais tarde é que percebi quem era Rosa Ramalho.
O Cristo ainda existe...
Felizmente a neta Júlia Ramalho, a senhora que me vendeu o Cristo, seguiu as suas pegadas.

Obrigado Alberto por ao assinalar o aniversário do nascimento da Rosa Ramalho me ter feito ir ao baú buscar este dia...

terça-feira, 23 de junho de 2009

São João no Porto, São João em Braga

Das noites de São João, as de que tenho recordação são as do Porto. Às de Braga nunca fui. Por muitos motivos mas o mais forte e talvez o verdadeiro, é porque o L. desde que teve o acidente no olho deixou de poder andar no meio de multidões... muito menos numa noite de São João em que as pessoas são tudo menos meigas com os martelos!

Guardo recordações da minha adolescência em que esperávamos ansiosamente por esta data para poder estar a noite toda fora de casa... era chegar só na manhã do dia seguinte a casa. A noite normalmente acabava no areal de Matosinhos, onde o meu Pai estava lá, não à minha espera mas para a sua corridinha matinal.
Esperava por ele e lá vínhamos, eu e mais os que cabiam no carro, para São Mamede.

Momento únicos e deliciosos que só podiam ter sido vividos naquela época e naquela idade... numa outra não teriam qualquer valor!

Da infância recordo-me do meu primeiro São João, com os meus Pais e os meus Avós. Escrevi sobre isso o ano passado, ainda no 'Espelho Meu' e importei para aqui. Infelizmente falo lá de coisas de um passado bem mais recente do que a minha infância que já não se podem concretizar, mas Alguém mais poderoso que nós assim quis e é de aceitar e respeitar acima de tudo.

Um bom São João onde quer que o festejem, no Porto, em Braga...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Paula


A mãe tinha-lhe feito um ultimato. Ou arrumava as coisas do quarto dela, ou da próxima vez que lá voltasse já tudo tinha desaparecido!
Conhecendo a mãe como conhece, sabia que ela não ficaria pelas palavras, pelo que o melhor, era mesmo ir lá a casa tratar do quarto.
Era o seu quarto desde que nascera. Estava lá tudo: a primeira boneca, o primeiro livro, o primeiro vestido, o primeiro tudo dela... até porque também era o primeiro quarto!
A roupa já estava separada. Era pouca, só mesmo aquela que já não lhe servia e... o vestido da comunhão, o traje académico... aquelas coisas que só se usam uma vez, mas que se guardam como que a perpetuar o dia, o momento...
Tinha também, ainda, as batas da escola e a pasta! Uma pasta vermelha, debruada a preto com uns bonecos verde que já não dava para perceber o que eram: se sapos, se tartarugas...
Abriu a pasta. Dentro tinha uma quantidade de coisa soltas... de quando ela brincava às escolinhas com as gémeas. Tinha ganho uma pasta nova na segunda classe e esta ficara para 'brincar'.
Começou a tirar as coisas uma a uma: um caderno de 'duas linhas', daqueles que se usavam para acertar a caligrafia. Estava meio escrito, com caligrafias diferentes, seriam dela e das gémeas. Sim, algumas partes estava bem piores que as outras, tinham sido escritas pela Paula. A Paula tinha uma caligrafia muito má. Lembrava-se agora, que a professora ralhava com ela!
A Paula! A Paula já partiu há muito, muito cedo. Tudo na sua vida foi feito cedo, viveu a vida a correr, como se soubesse que tinha menos tempo que os outros! Nasceu gémea da Isabel, a Bela, como todos lhe chamavam. Eram gémeas 'falsas'. Tão falsas que a Paula nasceu diabética e a Bela não. A Paula dizia-se a mais velha das duas, tinha nascido primeiro, doze minutos antes.
As gémeas, como todos os gémeos eram muito unidas. O que uma fazia, normalmente a Paula, a outra também queria, e fazia.
A Paula quis casar ainda elas não tinham completado 18 anos. Casou num lindo dia de Abril. A Bela foi atrás, casou em Setembro do mesmo ano a dias de fazer os dezoito anos. Aqui foi mais rápida e teve o seu primeiro filho em Abril do ano seguinte. A Paula, desta vez a ser ela a seguidora, engravidou mais tarde, contra todos os conselhos médicos. Correu mal, a gravidez, devido à diabetes foi de risco, de alto risco. A menina nasceu ao fim de sete meses e não sobreviveu. Para a Paula quase que também era o fim, devido À diabetes. Foi o principio. A doença tirou-lhe a visou, parou-lhe os rins e aos 23 anos o coração!

Tentou apagar do pensamento as gémea, pousou o caderno em cima da cama e continuou a tirar coisas de lá de dentro...a caixa de madeira dos lápis, feita pelo avô Reis! Foi feita numa tarde de verão em que ela ficou sozinha com o avô, enquanto a Mãe e a Avó foram à Ribeira d'Abade comprar Sável... no tempo em que se pescava sável no rio Douro...
Era linda, a caixinha, ainda que riscada, lascada e bem mais escura do que quando era nova!
Pousou a caixa em cima do caderninho e continuou. Papéis soltos. Desenhos, ditados, cópias...tudo das brincadeiras com as gémeas... e folhas de revistas, da Nova Gente, da Crónica Feminina, folhetos, enfim, tudo que desse para ler, ia parar aos seus domínios... já naquela altura era assim.
Começou a ver os papéis um a um. Engraçadas as folhas da crónica. Pequeninas, nem A5 eram! E as letras, eram castanhas em papel que não era branco... e pequenas as letras!
As da Nova Gente, essas eram como agora, só não eram todas a cores, só algumas. Por isso, desviou a atenção para uma folha, a cores. Era uma reportagem do Carnaval de Veneza. Tinha uma fotografia de duas pessoas fantasiadas, com umas máscaras brancas e uns turbantes em tons de azul. Lembrou-se, então do dia em que viu aquela foto pela primeira vez. Foi também quando ficou a saber que o Carnaval não era igual em todo o lado e que havia uma cidade em Itália, muito longe, chamada Veneza, onde as pessoas no Carnaval se vestiam, aliás fantasiavam, daquela maneira.
Enquanto a mãe lhe explicava que Veneza era uma cidade muito singular porque era atravessada por canais e se 'andava de barco' em vez de carro, no seu pensamento ia criando a, fantasia também, de que no ano seguinte se ia fantasiar assim e que quando fosse grande havia de ir a Veneza, no Carnaval.
Os planos foram feitas a três, ela e as gémeas. A D. Rosa, a mãe da gémeas que era modista, fazia os fatos. A Mãe que sabia bordar, fazia aqueles bordados e os turbantes e o pai ou o avô as máscaras.
A folha foi guardada religiosamente na pasta, que entretanto foi arrumada... passaram de classe, ganharam pastas novas e a das brincadeiras passou a ser outra. Aquela foi guardada tal qual estava em Junho desse ano. Com ela os planos do Carnaval do ano seguinte...
De tal coisa nenhuma das três se lembrou mais, o normal quando se tem sete anos: o sonho ou vai com o momento ou fica para sempre... este foi-se com o momento!


História escrita para a Fábrica de Histórias.

Nota: Quando comecei a escrever esta história não sabia bem onde ia acabar. Acabou numa história meio verdadeira, infelizmente. A Paula realmente existiu, e tudo que está aqui sobre ela é verdade. A pasta também existiu, a caixa também e... as folhas dentro da pasta também foram encontradas. Não me lembro de ter encontrado nenhuma foto do Carnaval, mas lembro-me de termos tentado convencer as nossas mães a fazerem-nos uns vestidos iguais a uma bonecas 'dama antiga' para o Carnaval.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Amigos Para Sempre


Há uns dias atrás li um post neste blogue precisamente sobre o que me aconteceu hoje: lembrar-me de alguém ou de uma situação sem razão aparente.

Imaginem, estava eu embrenhada nos meu planos de prazos e planeamentos quando me lembrei do Pararata!
O Patarata era um amigo meu do ciclo e do secundário ( até ao 9º ano). Era uma pessoa muito especial. Eram doze anos de vida dura que ali estava!

Família atípica, ou antes, deveria sê-lo, pois era muito comum naquela época: pai trolha, alcoólico, mãe costureira e três irmãos mais velhos.
Com o pai ninguém contava, os filhos esses eram o amparo da mãe. O irmão mais velho, trintão (naquela altura era velho!) já na altura, era electricista, estabelecido por conta própria e era o pilar económico da casa. O outro irmão, solteiro, tal como o mais velho, era picheleiro. A irmã, a mais próxima do Patarata, seis anos mais velha, frequentava o curso de educadora de infância, dando também explicações a miúdos em casa para patrocinar os estudos.

Nenhum deles, para felicidade da mãe, de quem os filhos eram o seu orgulho, se meteu a ser ladrão nem drogado, apesar de viverem num ambiente que seria desculpa para tal!

O Luís, nome próprio do meu amigo, era super divertido e de uma criatividade como eu vi poucas pessoas. Não gostava de futebol nem de brincadeiras de rapazes, pelo contrário, alinhava nas brincadeiras das raparigas, que mesmo assim não eram um exemplo de feminilidade. As brincadeiras mais femininas das raparigas era saltar ao elástico, o resto estão a ver…

Nas aulas de trabalhos manuais ensinava as raparigas a cozer à máquina, fazia-lhes os moldes dos trabalhos
Estava habituado, era ele quem fazia as suas sacas para a escola com calças de ganga velhas e nas alturas de muito trabalho da mãe, todos em casa ajudavam na costura. A mãe era costureira de trabalhar à peça e quantas mais peças fizesse mais ganhava… não se podia perder a oportunidade!

Quando acabamos o 9º ano, cada um foi para uma escola diferente, consoante as áreas de estudo que escolhemos. Ainda o vi algumas vezes no autocarro, mas depois perdi-o de vista. Passados alguns anos, já andávamos na universidade encontrei-o na rua, estava na UTAD ( universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) a estudar Engenharia zoológica.

Gostava muito de o reencontrar, tenho saudades dele, provavelmente de uma pessoa que já não existe, pois as pessoas mudam e tornam-se seres completamente diferentes!

Aqui há tempos lembrei-me de no google meter o nome de alguns amigos que tinha perdido e encontrei o nome dele como sendo professor assistente da UTAD. Enviei-lhe um email, mas não obtive resposta... provavelmente já não se lembra de mim... da Gata Chalupa... era assim que ele me chamava!

Nota: o corrector ortográfico não está a reconhecer a palavra 'picheleiro'... é porque o senhor que está lá atrás a corrigir o meu texto não é do norte...só conhece 'canalizador'!


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Para Mim o Dia da Mãe é Hoje

Olá, Mamã.

Para mim, o teu dia é hoje. Para além de serem todos, claro, hoje é que é o dia da Mãe: 8 de Dezembro!
Lembras-te daquelas prendinhas que eu te fazia na escola? Sei que algumas ainda as tens... aquele colar feito de canudinhos de papel de lustro... fi-lo às escondidas... é que na escola não dava tempo... corta aquelas tiras todas, colá-las e enfiá-las num fio... foi obras!
Sei que ainda o tens, no mesmo sitio há anos... na gaveta da tua mesinha de cabeceira! Quando a tua era a nossa casa, via-o sempre quando ia arrumar os lenços!
E a luta que foi para que tu o usares? Tantas desculpas arranjaste: tinhas de comprar uma camisola que combinasse, não ficava bem de inverno...
Lembro-me também, de ser muito pequena, ainda não andava na escola e fui com o Papá comprar uma prenda para o Dia da Mãe: uma chávena de louça inglesa com uma rosa azul, ainda a tens aí por casa... vi-a há dias, até querias que eu a trouxesse...
Como a senhora da loja era conhecida, o Papá pediu que a chávena fosse embrulhada numa caixa enorme... o que eu me diverti quando a chávena estava a ser embrulhada... e o que diverti quando ta dei... nem sei se a tua cara de alegria, quando recebeste a prenda, foi pela prenda, se foi pelo estado de alegria em que eu estava enquanto tu a desembrulhavas!
Sei que no fim só disseste:'Eu vi logo que coisa boa não ia sair daqui... pelas vossas caras!' E eu: ´Ó Mamã, foi o Papá que pediu axim à Dona Roxinha. Foi engraxado, não foi?!' 'És sempre o mesmo!' Disseste tu ao Papá, o perito das partidas... confesso que essa costelinha herdei-a.
Hoje não vou estar contigo, mas é por uma boa razão, estás a gozar umas tão merecidas férias. Vou falar, como todos os dias, contigo ao telefone e através dele há-de chegar um grande Xi-Coração... daqueles que eu te dava quando chegava da escola...enquanto dizia: 'Gosto muito de ti e do Papá'
Mantém-se a afirmação... será para sempre: Gosto muito de ti e do Papá!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sessão de Quadros

Vinha no carros a ouvir na Antena 3 as criticas sobre os filmes em estreia e lembrei-me que adorava, quando ao Domingo de manhã o meu pai me 'convidava' para 'ver uma sessão de quadros'!
'Ver uma sessão de quadros' era ir à baixa, de autocarro-muito importante esta parte-ver os cartazes dos filmes em exibição nos cinemas da cidade!
Era uma manhã espectacular, nestes dias de outono. Apanhávamos o autocarro, o 7 e saiamos na Praça Carlos Alberto. A nossa primeira paragem era nos cinemas Lumière, onde íamos ver os cartazes dos filmes em exibição e dos 'a seguir', que é como quem diz: os que estavam para entrar. Às vezes, quase sempre,  atravessávamos a rua Mártires da Liberdade e íamos ver também os cartazes do teatro Carlos Alberto. Nem sempre tinha cartazes, mas eu adorava entrar no Carlos Alberto.. achava lindo e sempre adorei casas antigas.
Umas vezes descíamos os Clérigos até à Praça da Liberdade, outras a Rua de Ceuta até à Avenida dos Aliados. Quando íamos pelos Clérigos, subíamos a Rua 31 de Janeiro ( A Santo António do antigamente) e íamos até ao Águia Douro. Já naquela época tinha pouco em cartaz, pois funcionava como suplemento ao Cinema Batalha, que era, e é, ao lado. O Batalha, esse sim, tinha muitos cartazes, dentro e fora, numas vitrinas à volta do cinema.
Lembro-me que muitas vezes ficava parada a olhar para os quadros como que à espera que os personagens do filme se começassem a movimentar e o filme começasse... sensação estranha aquela!
Atravessávamos de seguida a Praça da Batalha e espreitávamos sempre o São João... a primeira vez que fui ao cinema foi lá. Fui ver o filme 'Se a Minha Cama Voasse'... nem sabia ler e da história não me lembro, só do nome do filme e de ver uma cama voar! Na noite do dia em que vi o filme, ainda demorei a adormecer... estava esperançada que a minha cama voasse... ainda por cima a minha cama era de ferro como a do filme! Adormeci a pensar no que a minha cama poderia ser diferente para não voar e a outra voar... é que a outra não tinha asas, logo não era por isso!
E pronto, passeio completo, hora de descer de novo a Rua 31 de Janeiro, ou então vir pela Rua do Loureiro até à estação de São Bento e apanhar o autocarro, o 7 Ponte da Pedra, na Praça da Liberdade... a maior recomendação da mãe era para não chegarmos depois da uma!
Quando tínhamos um bocadinho mais de tempo ainda passávamos pelo Rivoli, vi lá o ' Música no Coração'!
Quando chegávamos a casa, o almoço estava pronto e a conversa era sobre os filmes em cartaz e o combinar com a mãe as próximas idas ao cinema!
Infância feliz a minha e eu tinha noção disso! Que bom!


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