Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA; se um TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA fica diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO, como se fosse a CASA dos teus AMIGOS ou a TUA PRÓPRIA; a MORTE de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do GÉNERO HUMANO. E por isso não perguntes por quem os SINOS dobram; eles dobram por TI - John Donne
domingo, 9 de agosto de 2015
As nossas tardes no rio, as nossa tardes nas compras, ou simplesmente as noites, de quinta feira, a noite de passa a ferro e ver tourada.
Sim, quinta-feira era dia de tourada na 1. E tu gostavas de ver enquanto passavas a ferro.
No fim, se a roupa acabava antes da tourada, sentavas-te a meu lado a pontear as meias do avô. O Avô que entretanto tinha ido para o largo da capela dar dois dedos de conversa com o Sr. Zé, enquanto fumava o seu cigarro.
Às vezes eu ia com ele. Gostava da brincadeira com os outros meninos no largo da capela. Gostava das correrias à volta da capela. de jogar às escondidas, ou simplesmente, sentar-me ao lado do avô. Nos dias em que o Sr. Zé não aparecia, sentava-me ao lado do avô a ver as estrelas. Foi com ele que aprendi a encontrar a estrela polar e a identificar a cassiopeia.
Outras vezes falávamos de outras coisas. De geografia. Ilhas, peninsulas, istmos, cabos, continentes, polos... coisas tão simples, mas que me faziam sentir tão culta, tão conhecedora... e tão orgulhosa no meu avô!
E era a novidade que dava aos meus pais quando eles me iam buscar. Enquanto a minha mãe tentava saber o que tinha feito e o que tinha comido, eu debitava 'tão grandes conhecimento'.
Dos momentos da minha vida em que me senti mais orgulhosa de mim, foi num daqueles fins-de-semana, em que visitávamos os avós, andava já eu na escola e, como sempre o avô perguntava-me o que havia aprendido.
Havia sido a semana das unidades de peso: o quilograma, a grama... e toda contente, sentindo-me dona de uma grande sabedoria, digo ao avô: sabe que um litro de água pesa um quilo?
'Ai sim?', pergunta o avô-então diz-me então: 'que pesa mais, um quilo de chumbo ou um quilo de algodão''
A resposta foi quase imediata, e com uma confiança que poucas vezes me lembro de ter tido: +o mesmo! (expressão à Sherlock Holmes, tipo 'elementar, meu caro Watson?).
O Avô riu-se e passou-me a mão pela cabeça. Senti-me enorme, digna de ser sua neta! Ser neta de homem tão sabedor como o meu avô!
Para ti, estas coisas não eram importantes. Chumbo, algodão... quilos, gramas... só mesmo para fazer as contas em conjunto com a peixeira, que se 'enganava muito nas contas'... sempre para mais.
E aqueles dias em que acordava, já não estavas ao meu lado na cama. Deixavas-me dormir. Do quarto perguntava-te as horas. Davas sempre mais dez ou quinze minutos ( a mãe aprendeu bem contigo a lição). E o cheiro da cevada a entrar pelo quarto adentro! Só uma coisa nunca consegui: molhar o pão na cevada! Nunca me convenceste! Pão de um lado, cevada do outro.
Ai, tão boa esta nossa vida. Tão intensa!
Nota: eu sei que kilograma não é unidade... aprendi nesse dia!
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Do que me havia de lembrar!!!
Não porque soubesse que era proibida, mas porque mais valia não o ter feito!
Fui ao Google Maps procurar a casa onde nasci. Estava lá! Mas eu não me senti lá!
Foi um choque muito grande!
A casa acaba no início da rua com um quintal. Do quintal já nada resta. As grades feitas pelo Avô e que todos os anos eram por ele minuciosamente pintadas, como se de uma grande obra de arte se tratasse; foram substituídas por taipais de madeira, daqueles que saem das caixas que chegam dentro dos contentores!
Antes do quintal havia um mirante, que dava para a rua principal. Era coberto por uma ramada de uvas americanas, com que tanto me deliciei nos verões da minha infância. O mirante tinha umas portadas em treliça de madeira feita pelo avô e que eram pintadas na mesma altura das grade do quintal. Cortaram a ramada, tiraram o mirante e fizeram uma casota em cimento com um telhado em fibra! Um autêntico mamarracho!
E não vi mais nada. Não pude ver o pátio de cimento vermelho, as portas de madeira verde da cozinha, nem o galo vira-vento no topo da casa! Tinha antes uma parabólica de uma TV por cabo!
Claro que as portas já lá não estão, o pátio foi forrado a tijoleira, sabe-se lá de que cor e... a cozinha, sim, a cozinha, que era o nosso lugar de estar em quase todas as ocasiões! Dava para a sala de estar, dava para o sótão, para o quintal e até para a casa do bisavô!
Já nada dela há-de restar. Nem os móveis feitos pelo avô, nem os tectos, nem o lambril... nada há-de lá estar, que não as paredes!
Tudo há-de ter desaparecido, tal como o quintal, o mirante, o pátio... e os avós!
Ficam as recordações, que essas estão iguais, mais nítidas que nunca. O que vi no Google Maps, foi outra coisa... Marte, Saturno... Lua, se quiserem, mas não foi a casa onde nasci! A casa onde minha Mãe cresceu, e onde eu passei os melhores verões da minha infância, a pintar, a apanhar uvas, a estender roupa lavada na ribeira, a brincar com o Maroto, o cão que fazia companhia ao avô enquanto ele trabalhava a madeira.
E tanta coisa daquele quintal, da oficina do avô...
Definitivamente as recordações, o que conseguimos guardar na nossa memória é a herança mais preciosa que podemos receber.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Carrossel Mágico
| Anica |
| O Saltitão, O Hortelão, O Ambrósio, o Franjinhas, A Anica, a Rosália, o Flávio, o Tio Realejo... e o Carrossel |
| Franjinhas |
sábado, 13 de novembro de 2010
E assim de repente...
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Histórias Minhas (VIII)
Umas publiquei no FB, a titulo de recordar coisas boas de tempos guardados no fundo do baú da memória.Outras, como esta digitalizei e guardei. Esta é a Paula, uma das gémeas, minha companheira de infância, que já lembrei aqui.
Tudo na sua vida foi muito efémero: casou aos 17 anos, foi Mãe aos 20 de uma filha que a deixou quatro meses depois de nascer.A maternidade também lhe trouxe o início da sua própria viagem de partida. A diabetes, doença com que nasceu, depois da gravidez acelerou de tal modo que lhe afectou os rins e a levou à cegueira.
Na próxima semana seria o dia do seu aniversário, que não passou do 23º.
Conhecendo a mãe como conhece, sabia que ela não ficaria pelas palavras, pelo que o melhor, era mesmo ir lá a casa tratar do quarto.
Era o seu quarto desde que nascera. Estava lá tudo: a primeira boneca, o primeiro livro, o primeiro vestido, o primeiro tudo dela... até porque também era o primeiro quarto!
A roupa já estava separada. Era pouca, só mesmo aquela que já não lhe servia e... o vestido da comunhão, o traje académico... aquelas coisas que só se usam uma vez, mas que se guardam como que a perpetuar o dia, o momento...
Tinha também, ainda, as batas da escola e a pasta! Uma pasta vermelha, debruada a preto com uns bonecos verde que já não dava para perceber o que eram: se sapos, se tartarugas...
Abriu a pasta. Dentro tinha uma quantidade de coisa soltas... de quando ela brincava às escolinhas com as gémeas. Tinha ganho uma pasta nova na segunda classe e esta ficara para 'brincar'.
Começou a tirar as coisas uma a uma: um caderno de 'duas linhas', daqueles que se usavam para acertar a caligrafia. Estava meio escrito, com caligrafias diferentes, seriam dela e das gémeas. Sim, algumas partes estava bem piores que as outras, tinham sido escritas pela Paula. A Paula tinha uma caligrafia muito má. Lembrava-se agora, que a professora ralhava com ela!
A Paula! A Paula já partiu há muito, muito cedo. Tudo na sua vida foi feito cedo, viveu a vida a correr, como se soubesse que tinha menos tempo que os outros! Nasceu gémea da Isabel, a Bela, como todos lhe chamavam. Eram gémeas 'falsas'. Tão falsas que a Paula nasceu diabética e a Bela não. A Paula dizia-se a mais velha das duas, tinha nascido primeiro, doze minutos antes.
As gémeas, como todos os gémeos eram muito unidas. O que uma fazia, normalmente a Paula, a outra também queria, e fazia.
A Paula quis casar ainda elas não tinham completado 18 anos. Casou num lindo dia de Abril. A Bela foi atrás, casou em Setembro do mesmo ano a dias de fazer os dezoito anos. Aqui foi mais rápida e teve o seu primeiro filho em Abril do ano seguinte. A Paula, desta vez a ser ela a seguidora, engravidou mais tarde, contra todos os conselhos médicos. Correu mal, a gravidez, devido à diabetes foi de risco, de alto risco. A menina nasceu ao fim de sete meses e não sobreviveu. Para a Paula quase que também era o fim, devido À diabetes. Foi o principio. A doença tirou-lhe a visou, parou-lhe os rins e aos 23 anos o coração!
Tentou apagar do pensamento as gémea, pousou o caderno em cima da cama e continuou a tirar coisas de lá de dentro...a caixa de madeira dos lápis, feita pelo avô Reis! Foi feita numa tarde de verão em que ela ficou sozinha com o avô, enquanto a Mãe e a Avó foram à Ribeira d'Abade comprar Sável... no tempo em que se pescava sável no rio Douro...
Era linda, a caixinha, ainda que riscada, lascada e bem mais escura do que quando era nova!
Pousou a caixa em cima do caderninho e continuou. Papéis soltos. Desenhos, ditados, cópias...tudo das brincadeiras com as gémeas... e folhas de revistas, da Nova Gente, da Crónica Feminina, folhetos, enfim, tudo que desse para ler, ia parar aos seus domínios... já naquela altura era assim.
Começou a ver os papéis um a um. Engraçadas as folhas da crónica. Pequeninas, nem A5 eram! E as letras, eram castanhas em papel que não era branco... e pequenas as letras!
As da Nova Gente, essas eram como agora, só não eram todas a cores, só algumas. Por isso, desviou a atenção para uma folha, a cores. Era uma reportagem do Carnaval de Veneza. Tinha uma fotografia de duas pessoas fantasiadas, com umas máscaras brancas e uns turbantes em tons de azul. Lembrou-se, então do dia em que viu aquela foto pela primeira vez. Foi também quando ficou a saber que o Carnaval não era igual em todo o lado e que havia uma cidade em Itália, muito longe, chamada Veneza, onde as pessoas no Carnaval se vestiam, aliás fantasiavam, daquela maneira.
Enquanto a mãe lhe explicava que Veneza era uma cidade muito singular porque era atravessada por canais e se 'andava de barco' em vez de carro, no seu pensamento ia criando a, fantasia também, de que no ano seguinte se ia fantasiar assim e que quando fosse grande havia de ir a Veneza, no Carnaval.
Os planos foram feitas a três, ela e as gémeas. A D. Rosa, a mãe da gémeas que era modista, fazia os fatos. A Mãe que sabia bordar, fazia aqueles bordados e os turbantes e o pai ou o avô as máscaras.
A folha foi guardada religiosamente na pasta, que entretanto foi arrumada... passaram de classe, ganharam pastas novas e a das brincadeiras passou a ser outra. Aquela foi guardada tal qual estava em Junho desse ano. Com ela os planos do Carnaval do ano seguinte...
De tal coisa nenhuma das três se lembrou mais, o normal quando se tem sete anos: o sonho ou vai com o momento ou fica para sempre... este foi-se com o momento!
História escrita para a Fábrica de Histórias.
Nota: Quando comecei a escrever esta história não sabia bem onde ia acabar. Acabou numa história meio verdadeira, infelizmente. A Paula realmente existiu, e tudo que está aqui sobre ela é verdade. A pasta também existiu, a caixa também e... as folhas dentro da pasta também foram encontradas. Não me lembro de ter encontrado nenhuma foto do Carnaval, mas lembro-me de termos tentado convencer as nossas mães a fazerem-nos uns vestidos iguais a uma bonecas 'dama antiga' para o Carnaval.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Tempo, Férias, Agosto, Verão
Será impressão minha, ou até o mês Agosto, o mês da pastelice este ano está a voar!
E até os miúdos sentem isso. Há dias a Lau dizia, depois de um grande suspiro:' Já me falta menos de um mês para voltar à escola! O tempo passa a correr!'
Quando é que eu aos doze anos, achava que os intermináveis três meses de férias passavam a correr?
É claro que naquela época as alternativas não eram as de hoje. Pouco mais havia que andar na rua de sol a sol, ir para a praia, com um batalhão de amigos e os pais de um a tomar conta das tropas. Umas duas ou três idas ao cinema nestes três meses e... quando chovia era uma chatice. Não havia televisão logo de manhã, os livros de lá de casa já estavam todos lidos e... era um tédio!
Ah, havia ainda uma semanita em casa dos avós. E essa até passava rápido. Os primos juntavam-se lá e, pronto, era só mesmo uma semana... é que quem ficava a precisar de férias eram os avós!
'Não percebo porque só podemos ficar uma semana,-dizia eu aos meus pais, nós nem damos trabalho- 'só vamos a casa comer e dormir!
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
As Barreto (II)
domingo, 15 de agosto de 2010
Histórias Minhas (VI)
Os passeios da escola eram sempre uma aventura. Definitivamente as emoções são irrepetíveis. Ficam presas nos momentos.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
As Barreto
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Não é o trabalho que cansa, mas a forma como o fazemos!
Ou porque o telefone tocou, ou porque tocaram à campainha, ou porque o L. chamou, parei e perdi o ritmo.
Ser interrompida quando estou a escrever é das piores coisas que me podem fazer. E não é só aqui, mesmo no trabalho quando estou a escrever um mero email, o toque do telefone destabiliza-me.
Não sei bem porquê, mas lembrei-me de um jogo que o meu avô fazia comigo às refeições.
O meu avô, ao contrário da minha avó, era uma pessoa muito calma e, uma vez mais ao contrário da D. Bina, era muito vagaroso.
O jogo, jogámo-lo a primeira vez era eu muito pequenina. A minha avó tinha-me posto o prato da comida à frente. Era muita comida, achava eu. 'Avó não consigo comer tudo. Dá muito trabalho!', disse eu.
'Sem trabalho não se faz nada', respondeu-me e deixou-me só com o meu avô, que sorriu e disse:' Claro que consegues. Eu vou ajudar-te.'.
Levantou-se, pegou num prato vazio e colocou uma porção da comida nesse prato. E disse:' E agora achas que esse bocado consegues?'
'Sim consigo.', respondi.
Uma das regras do jogo era eu não olhar para o outro prato e tentar adivinhar se já era a última dose.
No final, depois de ter comido tudo e ainda ter ficado com barriga para as uvas americanas da ramada lá de casa, perguntou-me:' Ficaste cansada?'
'Não', respondi.
'VÊs como conseguiste! Nem sempre é o trabalho que cansa, mas a forma como o fazemos!'
'Mas eu não estive a trabalhar, estive a comer...', adverti.
Não percebi a mensagem e o meu avô sabia disso. Sabia perfeitamente que uma criança de quatro anos não iria perceber que o que ele me queria dizer era muita coisa, mas sabia que as palavras e o 'jogo' iriam ficar gravados na minha memória e que eu iria decifrá-la ao longo da minha vida..
Ele tinha razão. Neste e em muitos outros jogos, a que mais tarde passei a chamar 'Jogos das moralidades'
Foram todos eles muito lúdicos.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Lembrei-me...
Lembrei-me ainda, que o meu primeiro passeio da escola foi a Aveiro, em visita ao museu de Santa Joana.
Foi o primeiro passeio que eu consegui ir depois de falhar uns poucos. Eu que até nem era de ficar doente, nos dias dos passeios aparecia sempre uma constipação ou gripe que me retinham na cama.
A minha maior lembrança deste passeio é de estarmos a almoçar num parque e de aparecer um homem a vender pandeireta. Comprei uma. Custou 2$50. Em casa o meu pai escreveu no interior algo do género:' Recordação do Passeio a Aveiro. 25 de Maio de 1975'
A dita pandeireta andou lá por casa até há bem pouco tempo. Terá ido para o lixo, à minha revelia, num das ultimas mudanças de casa dos meus pais.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Livro de Leitura... da primeira classe
Lembro-me tão bem dele. Do dia em que o recebi, do medo de nunca conseguir ler os textos das últimas páginas e do 'Milagre das Rosas' contado nas últimas páginas que eu e a minha amiguinha, Paula Luzia tão bem representamos na festa de fim de ano!
Ela era a Rainha Santa Isabel, eu o D. Diniz.
As nossas coroas eram feias com as caixas, que eram cilíndricas, dos queijinhos Saúde.
Uma caixa deu duas coroas... cortada a meio aos bicos...
Lindo, lindo...
O meu também tinha a lombada amarela, mas havia verde, vermelho...o da Paula Luzia tinha azul.
( Incrível como há pormenores que ficam para sempre!)
As páginas do a e i o u!
Lembro-me destas duas. De ter ficado com a ideia e que um farol era algo de muiiiito grande! E recordo que associei a passagem do pico do silvado, aos picos com que eu ficava nos dedos quando ia para o rio com a minha Avó e ao apanha amoras bravas ficava com picos nos dedos. O meu Avô com a sua paciência, desinfectava uma agulha com fogo, lavava-me a mão com álcool e pacientemente tirava-me os picos. Sempre dizia: 'Se não deixas tirar, os picos vão para o sangue e depois só no hospital!', quando eu ficava impaciente.
Obrigada, muito obrigada ao Planeta Tangerina.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Hoje, assim de repente...
Hoje, assim de repente, AGORA, deu-me uma vontade, ENORME, de comer uma BOLA de BERLIM!
Não, não é por isso! Tenho a certeza. É só mesmo vontade. A mesma vontade que tinha em miúda de comer BOLAS de BERLIM sempre que passava em frente à Confeitaria Pekim.
Passasse eu 20 vezes em frente à montra e das 20 vezes pedia uma BOLA de BERLIM!
A minha Mãe, claro, dava-ma da primeira vez e só algumas vezes! Lembro-me que em frente havia um sapateiro, o Sr Fonseca. A esposa, a Fatinha, que era quem atendia os clientes, achava-me imensa graça e, de vez em quando, era ela quem me dava a BOLA de BERLIM. Muitas vezes a minha Mãe ficava zangada, pois sentia-se desautorizada.
Parece que estou a ver a montra da confeitaria com o tabuleiro das bolas, na prateleira de baixo, mesmo ao meu nível, alinhadinhas a 'olharem' para mim como que dizendo 'Comam-nos, somos deliciosa!'
Não me lembro como passou a mania. Já não sei se foi depois do sarampo, altura em que fui sujeita a um regime alimentar muito rigoroso ou se enjoei mesmo. O que sei é que, tirando as vezes em que as como nos sortidos de miniaturas, NÃO me lembro de ter comido mais uma BOLA de BERLIM!
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
RR
Há muitos, muitos anos, andava eu na escola primária e o 'passeio da escola' foi a Barcelos.
Mas como eu tinha uma professora que primava pela diferença, não nos levou à feira, levou-nos sim a visitar a Rosa Ramalho!
Quando lá chegamos, estava uma senhora muito velhinha, a moldar barro. Tratava o barro por 'tu' e fazia dele o queria. Tinha umas mãos grossa, mas muito ágeis, que sem meiguice fazia do barro o que queria. Durante o tempo que lá estivemos saíram das mãos dela uns poucos de Cristos. Parecia tão fácil!
Lembro-me que quis comprar um. Custava 12$50. Contei o dinheiro que tinha no porta-moedas e 'já não chega!'- disse eu à senhora que estava a vender as peças, a neta. A minha cara devia espelhar tanta desilusão, que a senhora perguntou: 'E quanto tens?'. '11$00'-respondi.
Foi então que a senhora foi junto da barrista, que sem tirar os olhos do barro e depois de algumas palavras da neta, acenou de forma afirmativa com a cabeça.
A neta voltou então para junto de mim e disse: 'Está bem, leva o Cristo, fica com 1$00, podes precisar até casa.'
Que feliz eu vim!
Até ali eu não sabia quem era Rosa Ramalho. Para mim tínhamos ido ver como se modelava o barro e nada mais.
Mais tarde é que percebi quem era Rosa Ramalho.
O Cristo ainda existe...
Felizmente a neta Júlia Ramalho, a senhora que me vendeu o Cristo, seguiu as suas pegadas.
Obrigado Alberto por ao assinalar o aniversário do nascimento da Rosa Ramalho me ter feito ir ao baú buscar este dia...
terça-feira, 23 de junho de 2009
São João no Porto, São João em Braga
Guardo recordações da minha adolescência em que esperávamos ansiosamente por esta data para poder estar a noite toda fora de casa... era chegar só na manhã do dia seguinte a casa. A noite normalmente acabava no areal de Matosinhos, onde o meu Pai estava lá, não à minha espera mas para a sua corridinha matinal.
Esperava por ele e lá vínhamos, eu e mais os que cabiam no carro, para São Mamede.
Momento únicos e deliciosos que só podiam ter sido vividos naquela época e naquela idade... numa outra não teriam qualquer valor!
Da infância recordo-me do meu primeiro São João, com os meus Pais e os meus Avós. Escrevi sobre isso o ano passado, ainda no 'Espelho Meu' e importei para aqui. Infelizmente falo lá de coisas de um passado bem mais recente do que a minha infância que já não se podem concretizar, mas Alguém mais poderoso que nós assim quis e é de aceitar e respeitar acima de tudo.
Um bom São João onde quer que o festejem, no Porto, em Braga...
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Paula
A mãe tinha-lhe feito um ultimato. Ou arrumava as coisas do quarto dela, ou da próxima vez que lá voltasse já tudo tinha desaparecido!
Conhecendo a mãe como conhece, sabia que ela não ficaria pelas palavras, pelo que o melhor, era mesmo ir lá a casa tratar do quarto.
Era o seu quarto desde que nascera. Estava lá tudo: a primeira boneca, o primeiro livro, o primeiro vestido, o primeiro tudo dela... até porque também era o primeiro quarto!
A roupa já estava separada. Era pouca, só mesmo aquela que já não lhe servia e... o vestido da comunhão, o traje académico... aquelas coisas que só se usam uma vez, mas que se guardam como que a perpetuar o dia, o momento...
Tinha também, ainda, as batas da escola e a pasta! Uma pasta vermelha, debruada a preto com uns bonecos verde que já não dava para perceber o que eram: se sapos, se tartarugas...
Abriu a pasta. Dentro tinha uma quantidade de coisa soltas... de quando ela brincava às escolinhas com as gémeas. Tinha ganho uma pasta nova na segunda classe e esta ficara para 'brincar'.
Começou a tirar as coisas uma a uma: um caderno de 'duas linhas', daqueles que se usavam para acertar a caligrafia. Estava meio escrito, com caligrafias diferentes, seriam dela e das gémeas. Sim, algumas partes estava bem piores que as outras, tinham sido escritas pela Paula. A Paula tinha uma caligrafia muito má. Lembrava-se agora, que a professora ralhava com ela!
A Paula! A Paula já partiu há muito, muito cedo. Tudo na sua vida foi feito cedo, viveu a vida a correr, como se soubesse que tinha menos tempo que os outros! Nasceu gémea da Isabel, a Bela, como todos lhe chamavam. Eram gémeas 'falsas'. Tão falsas que a Paula nasceu diabética e a Bela não. A Paula dizia-se a mais velha das duas, tinha nascido primeiro, doze minutos antes.
As gémeas, como todos os gémeos eram muito unidas. O que uma fazia, normalmente a Paula, a outra também queria, e fazia.
A Paula quis casar ainda elas não tinham completado 18 anos. Casou num lindo dia de Abril. A Bela foi atrás, casou em Setembro do mesmo ano a dias de fazer os dezoito anos. Aqui foi mais rápida e teve o seu primeiro filho em Abril do ano seguinte. A Paula, desta vez a ser ela a seguidora, engravidou mais tarde, contra todos os conselhos médicos. Correu mal, a gravidez, devido à diabetes foi de risco, de alto risco. A menina nasceu ao fim de sete meses e não sobreviveu. Para a Paula quase que também era o fim, devido À diabetes. Foi o principio. A doença tirou-lhe a visou, parou-lhe os rins e aos 23 anos o coração!
Tentou apagar do pensamento as gémea, pousou o caderno em cima da cama e continuou a tirar coisas de lá de dentro...a caixa de madeira dos lápis, feita pelo avô Reis! Foi feita numa tarde de verão em que ela ficou sozinha com o avô, enquanto a Mãe e a Avó foram à Ribeira d'Abade comprar Sável... no tempo em que se pescava sável no rio Douro...
Era linda, a caixinha, ainda que riscada, lascada e bem mais escura do que quando era nova!
Pousou a caixa em cima do caderninho e continuou. Papéis soltos. Desenhos, ditados, cópias...tudo das brincadeiras com as gémeas... e folhas de revistas, da Nova Gente, da Crónica Feminina, folhetos, enfim, tudo que desse para ler, ia parar aos seus domínios... já naquela altura era assim.
Começou a ver os papéis um a um. Engraçadas as folhas da crónica. Pequeninas, nem A5 eram! E as letras, eram castanhas em papel que não era branco... e pequenas as letras!
As da Nova Gente, essas eram como agora, só não eram todas a cores, só algumas. Por isso, desviou a atenção para uma folha, a cores. Era uma reportagem do Carnaval de Veneza. Tinha uma fotografia de duas pessoas fantasiadas, com umas máscaras brancas e uns turbantes em tons de azul. Lembrou-se, então do dia em que viu aquela foto pela primeira vez. Foi também quando ficou a saber que o Carnaval não era igual em todo o lado e que havia uma cidade em Itália, muito longe, chamada Veneza, onde as pessoas no Carnaval se vestiam, aliás fantasiavam, daquela maneira.
Enquanto a mãe lhe explicava que Veneza era uma cidade muito singular porque era atravessada por canais e se 'andava de barco' em vez de carro, no seu pensamento ia criando a, fantasia também, de que no ano seguinte se ia fantasiar assim e que quando fosse grande havia de ir a Veneza, no Carnaval.
Os planos foram feitas a três, ela e as gémeas. A D. Rosa, a mãe da gémeas que era modista, fazia os fatos. A Mãe que sabia bordar, fazia aqueles bordados e os turbantes e o pai ou o avô as máscaras.
A folha foi guardada religiosamente na pasta, que entretanto foi arrumada... passaram de classe, ganharam pastas novas e a das brincadeiras passou a ser outra. Aquela foi guardada tal qual estava em Junho desse ano. Com ela os planos do Carnaval do ano seguinte...
De tal coisa nenhuma das três se lembrou mais, o normal quando se tem sete anos: o sonho ou vai com o momento ou fica para sempre... este foi-se com o momento!
História escrita para a Fábrica de Histórias.
Nota: Quando comecei a escrever esta história não sabia bem onde ia acabar. Acabou numa história meio verdadeira, infelizmente. A Paula realmente existiu, e tudo que está aqui sobre ela é verdade. A pasta também existiu, a caixa também e... as folhas dentro da pasta também foram encontradas. Não me lembro de ter encontrado nenhuma foto do Carnaval, mas lembro-me de termos tentado convencer as nossas mães a fazerem-nos uns vestidos iguais a uma bonecas 'dama antiga' para o Carnaval.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
Amigos Para Sempre
Há uns dias atrás li um post neste blogue precisamente sobre o que me aconteceu hoje: lembrar-me de alguém ou de uma situação sem razão aparente.
Imaginem, estava eu embrenhada nos meu planos de prazos e planeamentos quando me lembrei do Pararata!
O Patarata era um amigo meu do ciclo e do secundário ( até ao 9º ano). Era uma pessoa muito especial. Eram doze anos de vida dura que ali estava!
Família atípica, ou antes, deveria sê-lo, pois era muito comum naquela época: pai trolha, alcoólico, mãe costureira e três irmãos mais velhos.
Com o pai ninguém contava, os filhos esses eram o amparo da mãe. O irmão mais velho, trintão (naquela altura era velho!) já na altura, era electricista, estabelecido por conta própria e era o pilar económico da casa. O outro irmão, solteiro, tal como o mais velho, era picheleiro. A irmã, a mais próxima do Patarata, seis anos mais velha, frequentava o curso de educadora de infância, dando também explicações a miúdos em casa para patrocinar os estudos.
Nenhum deles, para felicidade da mãe, de quem os filhos eram o seu orgulho, se meteu a ser ladrão nem drogado, apesar de viverem num ambiente que seria desculpa para tal!
O Luís, nome próprio do meu amigo, era super divertido e de uma criatividade como eu vi poucas pessoas. Não gostava de futebol nem de brincadeiras de rapazes, pelo contrário, alinhava nas brincadeiras das raparigas, que mesmo assim não eram um exemplo de feminilidade. As brincadeiras mais femininas das raparigas era saltar ao elástico, o resto estão a ver…
Nas aulas de trabalhos manuais ensinava as raparigas a cozer à máquina, fazia-lhes os moldes dos trabalhos…
Estava habituado, era ele quem fazia as suas sacas para a escola com calças de ganga velhas e nas alturas de muito trabalho da mãe, todos em casa ajudavam na costura. A mãe era costureira de trabalhar à peça e quantas mais peças fizesse mais ganhava… não se podia perder a oportunidade!
Quando acabamos o 9º ano, cada um foi para uma escola diferente, consoante as áreas de estudo que escolhemos. Ainda o vi algumas vezes no autocarro, mas depois perdi-o de vista. Passados alguns anos, já andávamos na universidade encontrei-o na rua, estava na UTAD ( universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) a estudar Engenharia zoológica.
Gostava muito de o reencontrar, tenho saudades dele, provavelmente de uma pessoa que já não existe, pois as pessoas mudam e tornam-se seres completamente diferentes!
Aqui há tempos lembrei-me de no google meter o nome de alguns amigos que tinha perdido e encontrei o nome dele como sendo professor assistente da UTAD. Enviei-lhe um email, mas não obtive resposta... provavelmente já não se lembra de mim... da Gata Chalupa... era assim que ele me chamava!
Nota: o corrector ortográfico não está a reconhecer a palavra 'picheleiro'... é porque o senhor que está lá atrás a corrigir o meu texto não é do norte...só conhece 'canalizador'!
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Para Mim o Dia da Mãe é Hoje
Lembras-te daquelas prendinhas que eu te fazia na escola? Sei que algumas ainda as tens... aquele colar feito de canudinhos de papel de lustro... fi-lo às escondidas... é que na escola não dava tempo... corta aquelas tiras todas, colá-las e enfiá-las num fio... foi obras!
Sei que ainda o tens, no mesmo sitio há anos... na gaveta da tua mesinha de cabeceira! Quando a tua era a nossa casa, via-o sempre quando ia arrumar os lenços!
E a luta que foi para que tu o usares? Tantas desculpas arranjaste: tinhas de comprar uma camisola que combinasse, não ficava bem de inverno...
Lembro-me também, de ser muito pequena, ainda não andava na escola e fui com o Papá comprar uma prenda para o Dia da Mãe: uma chávena de louça inglesa com uma rosa azul, ainda a tens aí por casa... vi-a há dias, até querias que eu a trouxesse...
Como a senhora da loja era conhecida, o Papá pediu que a chávena fosse embrulhada numa caixa enorme... o que eu me diverti quando a chávena estava a ser embrulhada... e o que diverti quando ta dei... nem sei se a tua cara de alegria, quando recebeste a prenda, foi pela prenda, se foi pelo estado de alegria em que eu estava enquanto tu a desembrulhavas!
Sei que no fim só disseste:'Eu vi logo que coisa boa não ia sair daqui... pelas vossas caras!' E eu: ´Ó Mamã, foi o Papá que pediu axim à Dona Roxinha. Foi engraxado, não foi?!' 'És sempre o mesmo!' Disseste tu ao Papá, o perito das partidas... confesso que essa costelinha herdei-a.
Hoje não vou estar contigo, mas é por uma boa razão, estás a gozar umas tão merecidas férias. Vou falar, como todos os dias, contigo ao telefone e através dele há-de chegar um grande Xi-Coração... daqueles que eu te dava quando chegava da escola...enquanto dizia: 'Gosto muito de ti e do Papá'
Mantém-se a afirmação... será para sempre: Gosto muito de ti e do Papá!
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Sessão de Quadros
'Ver uma sessão de quadros' era ir à baixa, de autocarro-muito importante esta parte-ver os cartazes dos filmes em exibição nos cinemas da cidade!
Era uma manhã espectacular, nestes dias de outono. Apanhávamos o autocarro, o 7 e saiamos na Praça Carlos Alberto. A nossa primeira paragem era nos cinemas Lumière, onde íamos ver os cartazes dos filmes em exibição e dos 'a seguir', que é como quem diz: os que estavam para entrar. Às vezes, quase sempre, atravessávamos a rua Mártires da Liberdade e íamos ver também os cartazes do teatro Carlos Alberto. Nem sempre tinha cartazes, mas eu adorava entrar no Carlos Alberto.. achava lindo e sempre adorei casas antigas.
Umas vezes descíamos os Clérigos até à Praça da Liberdade, outras a Rua de Ceuta até à Avenida dos Aliados. Quando íamos pelos Clérigos, subíamos a Rua 31 de Janeiro ( A Santo António do antigamente) e íamos até ao Águia Douro. Já naquela época tinha pouco em cartaz, pois funcionava como suplemento ao Cinema Batalha, que era, e é, ao lado. O Batalha, esse sim, tinha muitos cartazes, dentro e fora, numas vitrinas à volta do cinema.
Lembro-me que muitas vezes ficava parada a olhar para os quadros como que à espera que os personagens do filme se começassem a movimentar e o filme começasse... sensação estranha aquela!
Atravessávamos de seguida a Praça da Batalha e espreitávamos sempre o São João... a primeira vez que fui ao cinema foi lá. Fui ver o filme 'Se a Minha Cama Voasse'... nem sabia ler e da história não me lembro, só do nome do filme e de ver uma cama voar! Na noite do dia em que vi o filme, ainda demorei a adormecer... estava esperançada que a minha cama voasse... ainda por cima a minha cama era de ferro como a do filme! Adormeci a pensar no que a minha cama poderia ser diferente para não voar e a outra voar... é que a outra não tinha asas, logo não era por isso!
E pronto, passeio completo, hora de descer de novo a Rua 31 de Janeiro, ou então vir pela Rua do Loureiro até à estação de São Bento e apanhar o autocarro, o 7 Ponte da Pedra, na Praça da Liberdade... a maior recomendação da mãe era para não chegarmos depois da uma!
Quando tínhamos um bocadinho mais de tempo ainda passávamos pelo Rivoli, vi lá o ' Música no Coração'!
Quando chegávamos a casa, o almoço estava pronto e a conversa era sobre os filmes em cartaz e o combinar com a mãe as próximas idas ao cinema!
Infância feliz a minha e eu tinha noção disso! Que bom!
.