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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Em Lisboa...

E já estamos no hotel. Já fomos ´reconhecer' o local do exame de amanhã e tivemos um jantar maravilhoso.
Depois de um 'incidente' com o prato principal, o hotel ofereceu-nos as sobremesas e a mim uma chávena de café do hotel...
O hotel tem esta árvore de Natal lindíssima, que ficou muito mal na foto. Pena que nem para fotos haja inspiração hoje.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Árvores de Natal #1

Não gosto do Natal e pronto! 
Mas gosto das árvores de Natal, dos presépios da aletria e de (algum) bolo rei. Gosto da decoração das mesas, do vermelho do verde. do branco e dos dourados.
E nos últimos anos a monotonia destes dois adornos de Natal deu lugar à criatividade e há resultados fantásticos!
E por isso resolvi neste mês de Dezembro, publicar todos os dias uma decoração de Natal: uma árvore, um presépio, uma rua...
Algumas fotos serão minhas, outras tiradas da net, com a a fonte devidamente identificada.
Fonte Aqui

ウェスティンホテルのクリスマスツリー / Christmas Tree at the Westin Tokyo

sábado, 19 de dezembro de 2009

Noite de Natal

24 de Dezembro de 2050.
Batem à porta do apartamento. Ana ainda ágil nos seus 84 anos vai abrir a porta. É o estafeta do catering que vem entregar o jantar. Paga, manda o rapaz ficar com o troco e despedem-se com um 'Feliz Natal'.
Dirige-se para a cozinha, passando pela sala, onde Filipe vê televisão que pergunta: 'Quem era?'. Ana sem parar responde: 'Quem havia de ser!? Era o rapaz do catering a trazer o jantar. Porquê, estavas à espera de alguém?'
'Não...'-reponde ele com tristeza na voz.
Ana pousa o jantar em cima da mesa da cozinha, desembrulha-o e passa-o para as travessas do serviço da Vista Alegre que coleccionou ao longo da vida. É um serviço muito bonito, o Festa, cujas peças Ana foi comprando aos bocados: no Natal, no seu aniversário e alguns oferecidos pelo pais dela.

Pega nas travessas e leva-as para a mesa, que já está posta com o resto do serviço. A cadela Mia levanta-se de junto de Filipe e com o focinho no ar vai para junto dela. O telefone toca. Ana pousa as travessas e dirige-se para a entrada onde está o telefone, enquanto recomenda a Filipe que tome conta de Mia. Parece não a ouvir. Continua com o olhar fixo na TV. As notícias prendem-no ao écran. Quando regressa à sala, Enquanto manda um berro a Mia, que já estava com as patas em cima da mesa, ainda aos berros diz: 'Caramba és sempre a mesma coisa! Eu não te avisei? Não sabes como ela é?'.
Filipe, que nem se apercebeu do telefone resmunga:'E tu que andas para aí a cirandar? O que foste fazer lá para dentro?'
Furiosa, Ana, que ao fim de mais de quarenta anos de casamento ainda não se habituou a estas ironias de Filipe responde: ' Não ouviste o telefone tocar?'
'Não, se ouvisse, não perguntava o que foste lá dentro fazer! E quem era?'
'Era engano.'-respondeu com tristeza na voz.
'Só podia! Quem nos ia ligar hoje a esta hora?!'-rematou ele.
'Tens razão, quem nos ia ligar? MAs agora vem jantar senão arrefece e aquecido não é tão bom...'
'Ajuda-me Ana. Não vês que eu não posso? És sempre a mesma!'
Ana aproximou-se de Filipe que se apoiou nela para se levantar. ' Tu esqueceste das coisas! Para ti é tudo muito fácil! Parece que estou assim desde ontem!'
De braço dado dirigiram-se para a mesa. Filipe sentou-se no topo da mesa e Ana no lugar à sua direita. A cadela Mia sentou-se entre os dois, sempre com a cauda a abanar.
Enquanto Filipe abria a garrafa do vinho, Ana serviu os dois. Depois de aberta a garrafa e o vinho nos copos, começam a comer.
A televisão continuava ligada e Ana de frente para ela de vez enquanto ia deitando para lá o olho enquanto Filipe com o seu vagar ia comendo a vitela assada que Ana encomendara.

Há muitos anos que as noites de Natal de Ana e Filipe se resumiam aquilo. Enquanto os pais de Ana foram vivos ainda passavam os quatro, mas depois da morte deles a família ficou resumida a eles os dois. Não tiveram filhos e também não tinham sobrinhos. Ambos eram filhos únicos. A família mais próxima que tinham eram uns primos de Ana de quem perderam o rasto quando os pais de Ana morreram.
Estavam sós, um com o outro. Os amigos tinham a vida deles, tinham os filhos deles e os netos. Juntavam-se algumas vezes, mas fora destas épocas em que os amigos consoavam em casa dos filhos e dos netos.
Havia um amigo, o José, amigo de faculdade de Ana e Filipe que vivia no estrangeiro e que passava temporadas com eles. Tinha sido casado, mas cedo se separou. Tal como eles não tinha filhos. Tinha uma irmã com quem passava as consoadas na terra Natal. O José era assim a única família deles.

Acabaram de jantar. Ana levou os pratos e as travessas para a cozinha e pôs na mesa pratos de doce, do serviço Festa da Vista Alegre, também. Começou a rechear a mesa com os doces de Natal. Há muito que já não era ela quem fazia estas coisas. Há muito que optara por encomendar na doçaria do bairro. Para ela e Filipe não se justificava aquelas horas todas na cozinha. Era mais prático assim.
Filipe comeu uma rabanada e Ana uma rodela de abacaxi.
'As rabanadas este ano não estão tão boas!'- observou Filipe.
'Dizes todos os anos o mesmo. As do ano anterior são sempre melhores...'
'Pronto não se pode dizer nada!'-resmungou Filipe.
'O que vai acontecer é que não compro mais. Para o ano se ainda por cá andarmos, não compro nada disso!'-respondeu Ana. E com uma lágrima no canto do olho continuou:'E se não andarmos, ninguém há-de sentir a nossa falta!'
'Lá está a mulher com as lamurias dela! Que queres que te faça? Não perdes uma oportunidade de me vir com essas indirectas!
Ana não respondeu. Há muito que desistira de alimentar conversas sobre determinados temas com Filipe. Ele achava-se sempre dono e senhor da razão e a conversa acabava com ela numa pilha de nervos. ' Vai falando'-pensou ela, enquanto ele falava qualquer coisa que ela já há um bom par de minutos deixara de ouvir. Provavelmente até já tinha mudado de assunto, como era costuma. Ela não queria saber.
Ana estava triste. Nunca gostara desta época. O Natal'Para quê? Para que serve, para que serviu tudo isto?' Sempre vivera presa à doença de Filipe, que sempre a usou para a chantagear. Quando eram novos, dizia que se um dia ela partisse, ele queria ir atrás, pois não ficava aqui a fazer nada.
Levantou-se da mesa, com a desculpa de ir fazer café e foi até à cozinha. Sentou-se numa cadeira , fechou os olhos e viu os pais, os avós, os tios. A casa dos pais, a sua casa e até o cão labrador e a cadela rafeira que tinha tido durante quase quatorze anos.
Estava com o coração apertado, estava longe e as lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo. Sentiu respirar perto de si, depois uma lambidela na cara. Era Mia que tinha vindo atrás dela e a tentava consolar. Abriu os olhos, passou a mão pela cabeças da cadela e disse: 'Obrigada princesa.'
Da sala Filipe gritava:'Então Ana, o café? Que se passa?'
'Não se passa nada. Já vou.'
Levantou-se e depois de fazer mais uma festa a Mia , tirou dois cafés.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma Tigela com História

'Alberto, anda tirar a tigela do pão-de- do armário, se fazes o favor.' ou 'Ó Dete, vai buscar o escadote pequeno, para tirares a tigela do pão-de- do armário'
Era assim que começava a odisseia do pão-de-, com a Avó a pedir ao Avô ou à Mãe para tirarem a tigela lá do cimo da última prateleira do armário grande.
Do alto dos meus quatro, cinco anos, achava aquele armário enorme, e que nunca iria conseguir chegar lá ao cimo, ao tecto... onde só o Avô, que era grande, muito grande, maior que o Pai, chegava... e com a ajuda do banco da cozinha... e a Mãe, mas essa só com o 'escadote pequeno'!
Era uma tigela grande, alta e branca. A Avó quando estava a bater a massa, só a muito custo a segurava só com um braço... mas como já lhe tinha tinha tomado o jeito, a coisa corria bem!
A primeira coisa a fazer era lavar a tigela, secá-la muito bem e começar a prepara os ingredientes: Farinha, da especial, comprada no padeiro; os ovos das galinhas do capoeiro; açúcar, do branco... a Avó ainda usava no dia a dia açúcar amarelo, dizia que era mais saboroso!
Começava por separar as gemas das claras: as gemas iam para a tigela e as claras para uma outra, uma qualquer, sem ´patente'... Sentava-se num banquinho da cozinha, com a tigela no colo, segura com um dos braços a a mexer freneticamente as gemas com a açúcar até ficarem cremosas. Era tarefa para... muito tempo, sei lá eu... aos quatro anos tudo que os adultos fazem dura uma eternidade!
Eu, sentava-me ao lado dela a seguir com o olhar o movimento da colher, enquanto a Avó me contava uma história... a Avó era uma boa contadora de histórias... contava histórias lindas, daquelas que não vêm nos livros... só na herança da memória de avô para neto... estas vinham da avó dela, que era espanhola, dizia ela.
Quando as gemas e o açúcar estavam em creme, era a vez das claras em castelo... e da segunda parte da história... No final da história, as claras ficavam em castelo firme. Era, então a altura de juntar as claras e a farinha à gemada, que esperava ansiosamente na tigela branca dos bolos. Era tudo mexido cuidadosamente, sempre para o mesmo lado. Nesta altura a Avó calava-se e concentrava-se naquela tarefa... a massa não podia talhar! Depois deitava, como ela dizia, numa forma de barro, própria para pão-de-, que também aparecia, não sei bem de onde, do sótão talvez, e que tinha sido previamente forrada com papel pestaneira, o de pão-de- e pronto lá era vertida a massa para a forma!
Vinha, então, uma das partes que eu também muito esperava... era a Avó a rapar a taça com o salazar e eu a pensar baixinho 'já chega, já está bem'... é que eu adorava comer aqueles restinhos de massa que ficavam na taça!
A Avó colocava em cima da forma uma outra igual, embrulhava aquilo num pano grande, amarrado pelas quatro pontas e ficava a li até depois do jantar.
Naqueles dias, o jantar era rápido, porque depois de jantar íamos as três, eu a Avó e a Mãe para o padeiro pôr o pão-de-a cozer no forno do pão!
Que festa! Assim como nós, iam as mulheres da freguesia quase todas, para lá para cozer o pão-de-. Era um forno a lenha, grande, onde o o Sr. Carlos Padeiro, filho da terra também, ainda sobrinho do Avô, ia metendo as formas uma a uma com a ajuda de uma pá, que tinha um cabo muito comprido!
Nesta parte, a minha memória tem 'uma branca', lembro-me que depois de as formas estarem dentro do forno, as mulheres começavam a conversar. Algumas levavam cevada, tigelas e manteiga, que punham no pão que entretanto tinha saído do forno e comiam acompanhado da cevada... daqui as minhas lembranças dessa noite nunca passaram. Sempre quis beber a cevada e comer o pão quente com manteiga, mas fui sempre vencida pelo sono e só me lembro de acordar no dia seguinte na minha caminha, de me levantar, ir à cozinha e de ver, em cima da mesa, um pão-de- todo pomposo! O melhor pão-de-... o da Avó, cozido no forno do Carlos Padeiro!
'Alberto, podes guarda a tigela do pão-de-ló no armário?'
E pronto, e lá voltava a tigela para o lugar dela até ao ano seguinte. Por vezes ainda fazia uns trabalhinhos extra na Páscoa, ou quando alguma vizinha precisava de fazer um bolo para uma ocasião especial a pedia emprestada à Avó, mas era raro, muito raro mesmo!
Agora a tigela está reformada. Vive num armário, na parte de baixo e não trabalha... vê as outras trabalharem, na Páscoa, no Natal, nos aniversários... ora são usadas para a mousse, ora para as saladas de fruta, ora para muita coisa, mas não só no Natal, nem tão pouco para a massa do pão-de- cozido no forno a lenha do Carlos Padeiro... essas honras eram dela e noutros tempos!



( História para a Fábrica de Histórias)