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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Histórias Minhas (VIII)

Paula

Há dias, enquanto via fotos antigas, resolvi digitalizar algumas.
Umas publiquei no FB, a titulo de recordar coisas boas de tempos guardados no fundo do baú da memória.Outras, como esta digitalizei e guardei. Esta é a Paula, uma das gémeas, minha companheira de infância, que já lembrei aqui.
Tudo na sua vida foi muito efémero: casou aos 17 anos, foi Mãe aos 20 de uma filha que a deixou quatro meses depois de nascer.A maternidade também lhe trouxe o início da sua própria viagem de partida. A diabetes, doença com que nasceu, depois da gravidez acelerou de tal modo que lhe afectou os rins e a levou à cegueira.

Na próxima semana seria o dia do seu aniversário, que não passou do 23º.A' meia' história...
A mãe tinha-lhe feito um ultimato. Ou arrumava as coisas do quarto dela, ou da próxima vez que lá voltasse já tudo tinha desaparecido!
Conhecendo a mãe como conhece, sabia que ela não ficaria pelas palavras, pelo que o melhor, era mesmo ir lá a casa tratar do quarto.
Era o seu quarto desde que nascera. Estava lá tudo: a primeira boneca, o primeiro livro, o primeiro vestido, o primeiro tudo dela... até porque também era o primeiro quarto!
A roupa já estava separada. Era pouca, só mesmo aquela que já não lhe servia e... o vestido da comunhão, o traje académico... aquelas coisas que só se usam uma vez, mas que se guardam como que a perpetuar o dia, o momento...
Tinha também, ainda, as batas da escola e a pasta! Uma pasta vermelha, debruada a preto com uns bonecos verde que já não dava para perceber o que eram: se sapos, se tartarugas...
Abriu a pasta. Dentro tinha uma quantidade de coisa soltas... de quando ela brincava às escolinhas com as gémeas. Tinha ganho uma pasta nova na segunda classe e esta ficara para 'brincar'.
Começou a tirar as coisas uma a uma: um caderno de 'duas linhas', daqueles que se usavam para acertar a caligrafia. Estava meio escrito, com caligrafias diferentes, seriam dela e das gémeas. Sim, algumas partes estava bem piores que as outras, tinham sido escritas pela Paula. A Paula tinha uma caligrafia muito má. Lembrava-se agora, que a professora ralhava com ela!
A Paula! A Paula já partiu há muito, muito cedo. Tudo na sua vida foi feito cedo, viveu a vida a correr, como se soubesse que tinha menos tempo que os outros! Nasceu gémea da Isabel, a Bela, como todos lhe chamavam. Eram gémeas 'falsas'. Tão falsas que a Paula nasceu diabética e a Bela não. A Paula dizia-se a mais velha das duas, tinha nascido primeiro, doze minutos antes.
As gémeas, como todos os gémeos eram muito unidas. O que uma fazia, normalmente a Paula, a outra também queria, e fazia.
A Paula quis casar ainda elas não tinham completado 18 anos. Casou num lindo dia de Abril. A Bela foi atrás, casou em Setembro do mesmo ano a dias de fazer os dezoito anos. Aqui foi mais rápida e teve o seu primeiro filho em Abril do ano seguinte. A Paula, desta vez a ser ela a seguidora, engravidou mais tarde, contra todos os conselhos médicos. Correu mal, a gravidez, devido à diabetes foi de risco, de alto risco. A menina nasceu ao fim de sete meses e não sobreviveu. Para a Paula quase que também era o fim, devido À diabetes. Foi o principio. A doença tirou-lhe a visou, parou-lhe os rins e aos 23 anos o coração!

Tentou apagar do pensamento as gémea, pousou o caderno em cima da cama e continuou a tirar coisas de lá de dentro...a caixa de madeira dos lápis, feita pelo avô Reis! Foi feita numa tarde de verão em que ela ficou sozinha com o avô, enquanto a Mãe e a Avó foram à Ribeira d'Abade comprar Sável... no tempo em que se pescava sável no rio Douro...
Era linda, a caixinha, ainda que riscada, lascada e bem mais escura do que quando era nova!
Pousou a caixa em cima do caderninho e continuou. Papéis soltos. Desenhos, ditados, cópias...tudo das brincadeiras com as gémeas... e folhas de revistas, da Nova Gente, da Crónica Feminina, folhetos, enfim, tudo que desse para ler, ia parar aos seus domínios... já naquela altura era assim.
Começou a ver os papéis um a um. Engraçadas as folhas da crónica. Pequeninas, nem A5 eram! E as letras, eram castanhas em papel que não era branco... e pequenas as letras!
As da Nova Gente, essas eram como agora, só não eram todas a cores, só algumas. Por isso, desviou a atenção para uma folha, a cores. Era uma reportagem do Carnaval de Veneza. Tinha uma fotografia de duas pessoas fantasiadas, com umas máscaras brancas e uns turbantes em tons de azul. Lembrou-se, então do dia em que viu aquela foto pela primeira vez. Foi também quando ficou a saber que o Carnaval não era igual em todo o lado e que havia uma cidade em Itália, muito longe, chamada Veneza, onde as pessoas no Carnaval se vestiam, aliás fantasiavam, daquela maneira.
Enquanto a mãe lhe explicava que Veneza era uma cidade muito singular porque era atravessada por canais e se 'andava de barco' em vez de carro, no seu pensamento ia criando a, fantasia também, de que no ano seguinte se ia fantasiar assim e que quando fosse grande havia de ir a Veneza, no Carnaval.
Os planos foram feitas a três, ela e as gémeas. A D. Rosa, a mãe da gémeas que era modista, fazia os fatos. A Mãe que sabia bordar, fazia aqueles bordados e os turbantes e o pai ou o avô as máscaras.
A folha foi guardada religiosamente na pasta, que entretanto foi arrumada... passaram de classe, ganharam pastas novas e a das brincadeiras passou a ser outra. Aquela foi guardada tal qual estava em Junho desse ano. Com ela os planos do Carnaval do ano seguinte...
De tal coisa nenhuma das três se lembrou mais, o normal quando se tem sete anos: o sonho ou vai com o momento ou fica para sempre... este foi-se com o momento!


História escrita para a Fábrica de Histórias.

Nota: Quando comecei a escrever esta história não sabia bem onde ia acabar. Acabou numa história meio verdadeira, infelizmente. A Paula realmente existiu, e tudo que está aqui sobre ela é verdade. A pasta também existiu, a caixa também e... as folhas dentro da pasta também foram encontradas. Não me lembro de ter encontrado nenhuma foto do Carnaval, mas lembro-me de termos tentado convencer as nossas mães a fazerem-nos uns vestidos iguais a uma bonecas 'dama antiga' para o Carnaval.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ele perguntou e eu vou responder...

Bem, o Carlos perguntou, eu respondo.

Uma década depois de ter tido uma carrinha Mini, com a qual teve algumas aventuras, o meu Pai descobriu que havia na vizinhança um Mini encostado há um bom par de meses.
Como a minha mãe conhecia a dona do carro foi-lhe perguntar se não estaria interessada em vendê-lo. A senhora ficou toda feliz e só não o ofereceu porque o meu Pai fez questão que a senhora fizesse um preço.
Assim foi, o carro foi pago, os documentos passaram para nós e o carro foi rebocado até à garagem onde o meu Pai tratava dos carros.
Os pneus foram trocados, o motor afinado, uma bateria nova e meia dúzia de contos depois lá estava o carro a rolar...
A ideia inicial era ser o meu Pai andar com o carro, só que, coincidência das coincidências, estava o carro na oficina e roubaram o carro ao meu marido, na época namorado e a viver (já) em Braga.
Mudança de planos e o carro passou para as mãos do Luís, que ou ele nunca teve muita sorte com os carros, ou os carros com ele. (Ao fim de tantas aventuras e desventuras com carros ainda não percebi, mas fica para uma próxima vez.).
E como ia dizendo, quem passou a andar com o carro foi o Luís que fez centenas de vezes, e eu com ele algumas, a A3 entre Porto e Braga, fizesse sol, fizesse chuva e nunca, quase nunca, nos deixou ficar mal... só duas vezes.
Uma foi em Braga à porta do apartamento onde ele morava. A falange partiu. Bem a falange é uma peça em forma de joelho que tem à saída do motor do carro. Ele bem colocou em volta da peça fita de alumínio, mas foi só suficiente para meia dúzia de kilómetros. Era preciso mudar a peça. E se pensamos, logo o fizemos, eu e ele. Fomos a uma loja de acessórios para automóveis, comprámos uma peça nova, as respectivas juntas e, no meio da rua (ele não tinha garagem...) toca a mudar a peça.
Pelo meio ainda descobrimos que não tinhamos as peças todas e, como não conhecíamos ninguém nas redondezas, ainda fui ao hipermercado comprar chaves para trocar a peça.
Duas, três horas depois , estava a peça nova no carro, o carro a rolar como nunca e lá voltou ele à vida dele: à semana por Braga e ao fim-de-semana, Braga, Porto, Ovar; Ovar, Porto Braga sem qualquer queixa.
A segunda vez que o nosso Mimi se portou mal, foi um dia, de Inverno, já noite, quando entro no carro, bato a porta e o vidro da porta me cai no colo em mil pedaços. Era Sexta-feira, noite e estávamos de saída para o Porto!
Viemos na mesma. Eu com o casaco a fazer de manta, a apanhar um frio desgraçado na cabeça e ... sem voz no dia seguinte!
As coisas resolveram-se com a ida à sucata e o Luís e o meu Pai (desta vez não fiz nada) a trocarem o vidro.
Casei, o carro ficou com o meu Pai, que gostava imenso dele, mas a minha Mãe tanto o chateou por causa do carro que ele o vendeu!
Fiquei zangada com ele uns tempos... as zangas com o meu Pai são de estar sempre a lembrá-lo das coisas e não de 'amarrar o burro'.
No meio disto tudo, o carro deu lucro. Entre o que pagou por ele, o conserto inicial, a falange e o vidro, deu lucro.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Histórias Minhas (VII)

Assim como gosto de partilhar com os outros as (minhas) coisas boas, fico muito feliz por ser chamada para partilhar os bons momentos dos outros.
E um casamento, o dia, é sempre um dia lindo, mesmo que os vindouros sevenham a manifestar de tempestade, o dia do casamento é lindo, sentimo-nos a modos que os 'Donos do Mundo!'
E porquê esta história para hoje? Porque este anos, e apesar de fazer muito gosto em estar presente, este ano não tive ( não tenho?!) casamentos... e a carteira agradece...

Nota: Houve casamento e está para durar, de pedra e cal... ainda bem.

Um dia lembrou-se que não queria trabalhar mais naquele sítio. Concorreu para o ensino, foi colocada e despediu-se do emprego na multinacional. Continuou a frequentar a casa dos amigos que fez e um dia, no casamento de um outro, apareceu com o namorado. Até hoje não lhe conheço a voz, nem a cor dos olhos. Não falava e andava sempre a olhar para o chão, como se algo procurasse...
Nesse mesmo dia, num dia de Junho, trazia-nos convites de casamento, para o dela, aliás, o deles. Tinham-se conhecido na passagem de ano, marcado o casamento quinze dias depois e a data marcada era Setembro.
Passou Junho, Julho. Falamos em Agosto. Tudo pronto. A quinta marcada, a decoração da igreja decidida, ao vestido faltava a última prova... seria na semana anterior ao casamento.
Nos primeiros dias de Setembro toca o telefone. A voz não era a de quem estava a quinze dias de casar, a de quem andava entusiasmada com os últimos preparativos, nem a de quem estava ansiosa por ver o vestido de noiva pronto.
Pois não, porque o telefonema era para dizer que já não ia haver casamento. Que tinham falado e resolvido não casar. Tinham pensado, ponderado e tinham decidido que não era a melhor altura para casar. Que em vez de estarem felizes, estavam deprimidos, que o Paulo, o noivo, tinha tido uma recaída!
Recaída? Sim, o Paulo era propenso a depressões e já tinha tido 'algumas', disse ela. Não estava a aguentar a pressão do casamento e estava mal! Do lado de cá, ficou-se sem saber o que dizer. Ficamos por um: 'E tu estás bem? ‘. A resposta foi um 'Sim' de quem não quer deixar os amigos preocupados.
Desligamos, olhamos uns para os outros. Por coincidência, ou não, estávamos um grupo de amigos, que naquele dia resolveram ir até Ílhavo visitar o museu da Vista Alegre. A notícia pouco ou nada surpreendeu. Sentiu-se como que um respirar colectivo de alívio. Não admirou. Não admirou a reacção, não admirou que acabasse antes de começar. Um de nós, mais corajoso, disse: 'Ainda bem!'. Os outros acenaram com a cabeça, em concordância. 'Ainda bem que foi antes!', disse ainda um outro. Mais um acenar colectivo...
Em Novembro houve magusto em casa do Nossamigo. Foi convidada. Apareceu acompanhada. 'Este é o Gabriel', apresentou-o assim. Estavam de mão dada. Novo namorado. Tinha esquecido o Paulo. Ainda bem, mais uma vez. É que o Paulo era uma pessoa realmente pouco sociável e o casamento nunca iria resultar.
O mais parecido com aquele homem, que um dia num casamento, onde o conhecemos, fugiu para o cemitério e andou a fotografar campas, eram o Olharapos da Expo 98, lembram-se? O Gabriel não era assim. era simpático, extrovertido e alinhou nas maluqueiras d grupo. Gostamos dele, aprovamos, ficamos felizes por ela.
Passaram-se dois, três anos e há umas semanas novo telefonema. 'Vou casar', disse ela. Senti algum cepticismo, confesso. Adiei a máximo a compra da roupa, mesmo sabendo que foi uma decisão tomada com mais tempo, que o Gabriel não tinha nada a ver com o Paulo e que por isso a probabilidade de se repetir o 'não casamento' era pequena. Comprei a roupa na semana passada. Ontem a gravata para o L.. Sim porque para os homens basta a gravata para marcar a diferença! E o casamento é amanhã e desta vez vai haver casamento. Melhor dizendo, nada em contrário ainda foi dito!
Por isso amanhã há casamento.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As Barreto (II)

Um dia, num Domingo, no fim da missa da catequese encontrei a Zeza na pastelaria.
Estava toda vestida de preto e muito triste.
Perguntei-lhe porque estava assim. De preto e triste.
Enquanto tirava o papel a um gelado, respondeu-me: 'Foi a minha irmão Nanda que faleceu!'
Por muitos anos que viva, nunca hei-de esquecer nem este momento nem o que senti, ou não senti, naquele momento. A Nanda tinha morrido! A Nanda só tinha dez anos. As crianças não morrem!-pensava eu!
Senti-me presa ao chão, como se dali não conseguisse sair mais. Comecei a ver a Nanda, a vê-la trepar às árvores, a aparecer e desaparecer. Consegui perguntar: Como?
'Caiu da bicicleta, bateu com a cabeça na beira do passeio e teve uma fractura craniana...'-Respondeu-me, enquanto ia apontando para a parte da cabeça onde ela tinha batido, a frente.
Pois a Zé andava muitas vezes numa daquelas bicicletas, vulgo pasteleiras. Era enorme, a bicicleta, muito maior que ela. Seria de um dos irmãos, ou do pai, talvez. Andava bem, tão bem como os rapazes. Ela fazia tudo que os rapazes faziam, e fazia-o tão bem, ou melhor que eles.
E foi traída por essa sua faceta.
Não sei se a Zeza me disse mais alguma coisa. Não sei o que se passou de seguida. Não se também se estava acompanhada ou não. Assim como o momento da notícia me ficou gravado na memória até ao mais infimo pormenor (era capaz de descrever como era a roupa da Zeza naquele dia... e até sei que o gelado era um Super Maxi), não sei como foi o resto, só que os dias que se seguiram andei sempre com a Nanda no pensamento. Via-a a andar de bicicleta, a tombar, cair e bater com a cabeça na berma do passeio. Via-a também a limpar a testa (não sei se abriu ou não) e a continuar caminho...
Foi assim que descobri que as crianças também morriam!

domingo, 15 de agosto de 2010

Histórias Minhas (VI)

RR

Aproveitando para na passagem de mais um aniversário do seu nascimento ( 14 de Agosto), recordo esta grande artista, Rosa Ramalho.
Os passeios da escola eram sempre uma aventura. Definitivamente as emoções são irrepetíveis. Ficam presas nos momentos.







sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Histórias Minhas (V)

Sexta-feira, 13




E qual é o problema?

Véspera de fds para uns e de férias para muitos, os sortudos que já andam desde o meio da semana a pensar nos biquínis, em que factor de protector solar usar, nos restaurantes das redondezas... enfim, em tudo menos em trabalho!


E por mim é só uma Sexta-feira, igual a outras 48 do ano, e penso no fds com o Sábado passado no Porto (finalmente vou conhecer o Nuno) e o Domingo a pastar em casa.


E vai estar sol, calor, os incêndios vão continuar e... TGiF, por todas as razões e mais uma.

Mas de Sexta-feiras 13, até que tenho boas lembranças...


TGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiFTGiF


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Histórias Minhas (IV)


Cinema Girassol, o nosso Cinema Paraíso


Sem tempo para férias, a nostalgia vem à tona. E com ela momentos bons de férias fantásticas.

Destas de Vila Nova de Milfontes, há muitas e boas. Das muitas que também são de aventura e loucura ficará registada a(s) ida(s) ao cinema Girassol.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As Barreto

Não sei se é assim com todas as pessoas, mas eu às vezes lembro-me de pessoas que fizeram parte da minha vida, da quais não me lembrava há muito tempo.
No final da semana passada aconteceu com umas amiguinhas de infância.
E o engraçado é que inicialmente me lembrei delas porque falei com alguém que tem o nome de família delas, Barreto e depois por causa dos incêndios que neste momento assolam o nosso país. É que a família dela, numerosa, eram quase todos, ou bombeiros ou membros da fanfarra.
Mas essas minhas amiguinhas, duas irmãs de uma família típica do início da década de 70. Viviam no 'Bairro da Caixa', o número de irmãos atingia a dezena, o pai trabalhava na 'fábrica das bicicletas' e a mãe 'estava em casa', onde tomava conta dos filhos mais novos e dos netos, filhos dos irmãos mais velhos.
Zeza e Nanda eram os nomes delas. A Zeza, tinha a minha idade e a Nanda era mais velha um dois anos. Era uma miúda rebelde que gostava de trepar às árvores, de ir para o rio nadar, de jogar futebol e brincar com sameiras. Fugia da escola e muitas vezes de casa. Tirando isso era uma boa amiga, que nunca nos deixava sós, a mim e à irmã e muita, chegando a lutar com rapazes para defender a irmã.
Aos olhos da sociedade da época, eu era suposto estar num patamar social acima do delas. O meu pai já tinha uma certa posição na empresa, morávamos num 'andar' no centro da vila e eu era filha única. Por isso aos olhos da sociedade da época não era suposto eu ser amiga dos meninos do 'Bairro da Caixa', onde moravam os trabalhadores das industrias das redondezas com as suas famílias numerosas. A par dessas famílias viviam também aqueles, que sem famílias numerosas estavam marginalizados pela sociedade da época pois 'tinham estado presos'. Eram uma coisa que não se podia dizer na época: comunistas!
Bem, mas eu era amiga dos Barreto, dos Calado, dos Barbosa, assim como era amiga dos Quelhas, a família mais in da zona. Tudo meninos daquele bairro que eu conheci inicialmente na mestra e depois mantive a amizade na primária. Pois, e a propósito da 'mestra', eu também não era suposto ir para a mestra, mas sim ficar em casa com a minha mãe... ou ir para a Lumen ou para o Luso Francês, os colégios 'in' das redondezas.
Pois e eu lembrei-me delas hoje, eu queria contar um pouco mais da história delas. Divaguei, o que é normal em mim, e não disse o que tinha para dizer sobre elas.
E como ficará para um outro post a história delas, remato este dizendo que a educação que tive não foi a que 'deveria' ter tido aos olhos dos padrões da época, mas a educação que os meus pais me quiseram dar, porque acharam mais apropriada. Lidar com as realidades, relacionar-me com todas as pessoas e aprender por mim que há pessoas diferentes, que umas não tinham tanto como eu e outra tinham mais, mas, e estamos a falar de bens materiais; isso não era o mais importante!
Acertaram, apesar de em algumas fases da minha vida ter sido 'penalizada', no entender dos outros, por isso.
Eles é que perderam e não eu.
Não perdi nada por brincar com os meninos do bairro, por lhe emprestar os meus livros e os meus brinquedos e muito menos por os levar para minha casa.
Tinham piolhos, diziam os outros. E daí? Os outros não tinham? Tretas!
Da Zeza e da Nanda, assim como da Emíla ou da Eva (lembrei-me delas agora) falarei bevemente...

domingo, 8 de agosto de 2010

Histórias Minhas (III)

Hoje, assim de repente...

E que tanto se fala nas bolas de berlim comidas na praia, lembrei-me de quando era 'viciada' nas bolas de berlim da Confeitaria Pekim... se é que uma amostra de gente, pode ser (já) viciada no que quer que seja.
Bem, da forma como as coisas estão, agora com a idade que eu tinha na época, talvez. Eu, tinha lá tempo para isso!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Histórias Minhas (II)

Mais de uma década depois, perfumes continuam a ser uma paixão. E para mim perfume é Oscar de La Renta. Ontem comprei um... Burberry.
Oscar de La Renta, houve um, este.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Histórias Minhas (I)

Uma Tigela com História

Tirei o mês de Agosto para recordar posts, histórias, principalmente, publicados neste blogue durante estes dois anos da sua existência.
Decidi agora, ao ver esta foto. É a taça
desta história, uma das primeiras escrita para a Fábrica de Histórias e mais tarde publicada aqui.
A tigela, essa encontrei-a durante as arrumações do passado fim-de-semana.

E aqui fica
Uma Tigela com História... desta com a protagonista.




Foto minha de 2010/08/01

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Não é o trabalho que cansa, mas a forma como o fazemos!

Bem, este post já o comecei a escrever umas poucas de vezes.
Ou porque o telefone tocou, ou porque tocaram à campainha, ou porque o L. chamou, parei e perdi o ritmo.
Ser interrompida quando estou a escrever é das piores coisas que me podem fazer. E não é só aqui, mesmo no trabalho quando estou a escrever um mero email, o toque do telefone destabiliza-me.

Não sei bem porquê, mas lembrei-me de um jogo que o meu avô fazia comigo às refeições.
O meu avô, ao contrário da minha avó, era uma pessoa muito calma e, uma vez mais ao contrário da D. Bina, era muito vagaroso.
O jogo, jogámo-lo a primeira vez era eu muito pequenina. A minha avó tinha-me posto o prato da comida à frente. Era muita comida, achava eu. 'Avó não consigo comer tudo. Dá muito trabalho!', disse eu.
'Sem trabalho não se faz nada', respondeu-me e deixou-me só com o meu avô, que sorriu e disse:' Claro que consegues. Eu vou ajudar-te.'.
Levantou-se, pegou num prato vazio e colocou uma porção da comida nesse prato. E disse:' E agora achas que esse bocado consegues?'
'Sim consigo.', respondi.
Uma das regras do jogo era eu não olhar para o outro prato e tentar adivinhar se já era a última dose.
No final, depois de ter comido tudo e ainda ter ficado com barriga para as uvas americanas da ramada lá de casa, perguntou-me:' Ficaste cansada?'
'Não', respondi.
'VÊs como conseguiste! Nem sempre é o trabalho que cansa, mas a forma como o fazemos!'
'Mas eu não estive a trabalhar, estive a comer...', adverti.

Não percebi a mensagem e o meu avô sabia disso. Sabia perfeitamente que uma criança de quatro anos não iria perceber que o que ele me queria dizer era muita coisa, mas sabia que as palavras e o 'jogo' iriam ficar gravados na minha memória e que eu iria decifrá-la ao longo da minha vida..
Ele tinha razão. Neste e em muitos outros jogos, a que mais tarde passei a chamar 'Jogos das moralidades'
Foram todos eles muito lúdicos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Terça, Flashback IV (O meu 25 de Abril de 1974)

E como temos à porta mais um aniversário da Revolução dos cravos, achei por bem nesta rubrica, recordar este post.


Estava sol, não tão quente como hoje, mas estava sol!
O dia começou como os outros: levantei-me, esperei pela minha amiguinha Paula no fundo das escadas do prédio e lá fomos nós para a escola.
Andávamos na segunda classe, sim porque naquela época era segunda classe que se dizia! Nessa época os meninos também iam para a escola sozinhos, esses eram livres, ao contrário de agora!

Bom, mas é daquele dia que estou a falar, na escola tudo normal, deu-se a matéria, fomos para o recreio, e é quando começa o burburinho...os pais a chegarem à escola, a levarem os meninos, as professoras também saírem...estranho, mas que se passa?Essa pergunta foi feita à professora que respondeu:
-Não se passa nada, o que tinha de se passar já passou e agora está tudo bem.
Os pais continuavam a ir buscar os meninos, até que da escola só a minha professorara lá estava com os poucos de nós que restavam. A professora era a mesma de sempre.
Com o argumento de que tinham ouvido no rádio, que algo se passava, por volta do meio-dia, os pais de um menino, do Victor, foram buscá-lo. Nesse momento, não sei porquê senti uma sensação de abandono. O pai da Paula já a tinha ido buscar e eu tinha-me aguentado, mas naquela altura... eu, que até era uma miúda de expressar pouco o que me ia na alma!Esse menino e o irmão ficavam de tarde em casa da D. Guilhermina... mais uma diferença, naquele tempo não havia ATL, havia as 'mestras' e os meninos que não tinham onde ficar porque os pais trabalhavam, iam para lá...eu também ia...e quanto eu gostava!
Então eu levantei-me e disse:-E eu, posso ir embora? Os meninos estão todos a ir e os meus pais não me vêm buscar?!
-Mas eles não têm de te vir buscar, a escola só acaba à uma e tu vais sozinha como o costume!-Respondeu a professora.
-Mas, Senhora professora, eu não posso ir já? O Victor também vai para a Senhora ( era assim que tratávamos a D. Guilhermina)!
-Se quiseres vai, mas não vejo necessidade!

Pronto e eu lá fui com eles, na 4L bordeux, ainda me lembro! Mais apreensiva que assustada. De facto, recordando aquele dia, não estava assustada, mas estava ansiosa por ver os meus pais! Não sei se a minha mãe me foi buscar mais cedo que o habitual ou não, sei sim que esperei uma eternidade com o queixo pousado no portão da casa da Senhora... Enquanto esperava, toda a gente que passava levava jornais e muitos deles liam-nos enquanto caminhavam, com se as notícias se desactualizassem antes de chegarem a casa. Também havia mais gente na rua que o habitual, penso eu! É que a partir de uma certa hora, aquele dia contou para a 'estatística da rotina': mais pessoas que o habitual na rua, os pais a irem buscar os meninos fora de horas, não se estudou, o Sr Chaves ( marido da Senhora) nervoso! Sim esse estava nervoso e esteve pouco tempo connosco na cave!
Às tantas, ao fundo da rua vejo um vulto, que pelo andar seria a minha mãe, sim porque ela também vinha a ler o jornal com umas passadas apressadas! Não é que eu não estivesse habituada a ver a minha mãe ler o jornal, mas na rua?! Estranho! Quando ela se aproximou, abraçou-me com um sorriso de orelha a orelha, sem largar o jornal, claro e eu perguntei-lhe:-Que se passa, mamã?
- Foi uma revolução. Quando chegarmos a casa a mãe explica. Peguei no jornal, era uma edição especial da tarde do JN, com poucas páginas, e na capa tinha uma fotografia de um tanque de guerra com militares em cima muito felizes.Peguei nas minhas coisas e lá fui eu para casa. Naquele dia não houve desenhos animados, era só notícias com imagens de militares, iguais à do jornal! Entretanto chega o meu pai, feliz da vida, esse não trazia o jornal, vinha carregado de jornais! Conhecendo-o como o conheço, nem precisava de ter essa imagem na minha memória, seria assim que o imaginava naquele dia! O telefone estava sempre ocupado, ou era o meu pai a telefonar ou alguém a telefonar-lhe... a campainha também esteve bastante concorrida com amigos nossos a passarem lá por casa! Não sei se me deitei mais cedo ou mais tarde que o habitual... nesta idade o tempo está ligado à ânsia e não ao relógio, quanto muito estaria à televisão, mas como a programação mudou completamente, não sei! Sei que no dia seguinte fui para a escola, e a rotina recomeçou... num país agora livre... os militares tinham-nos dado uma coisa que nós não sabemos, nem nunca soubemos valorizar!
Nem os que nasceram durante o estado novo nem os que nasceram num país livre... esse muito menos... e é por isso que agora os meninos não são livre num país dito livre... eu no fascismo, ia para a escola sozinha... os meninos de agora, não!Afinal onde está a liberdade?
O que é afinal LIBERDADE???????????????


( imagens tiradas da net)

E você, Alberto, para onde foram as suas recordações?

sexta-feira, 19 de março de 2010

Dia de S. José

Há pouco, quando falava com a minha mãe ao telefone, ela recordou, a propósito do dia de hoje, o dia de S. José:
No ano em que eu nasci, este dia foi a um Sábado. Os meus pais a propósito da feira de ano na Santana, que fica perto da casa onde moravam à época, em S. MAmede de Infesta; organizaram um almoço de família.
O almoço foi sável, peixe da época e muito apreciado pela minha família, ou não fossem quase todos nascidos e criados junto ao rio. Cozinharam-se três peixes enormes daqueles. Como não sei. Das muitas vezes que ouvi esta história nunca o pormenor da confecção do peixe foi referido.
Depois do almoço, lá foram todos, a pé, mesmo a minha mãe, super grávida, à festa comprar regueifa e fogaça para o lanche.
Estava toda a família já reunida em casa, novamente, em volta da mesa quando veio à baila o sexo do bebé.
Todos davam palpites, mas todos queriam um rapaz, excepto a minha avó paterna, que apesar de já ter uma neta, queria outra rapariga. Ela adorava meninas. Não sei se pelos laçarotes se porquê, mas que adorava, adorava. E a prova disso é que só desistiu, à quinta vez, quando nasceu a menina, já ela contava 44 anos... velha à época para ser mãe, chegando a passar por avó da filha muitas vezes!
Mas voltando À história, entraram no campo das apostas. O meu avô materno, apesar de torcer pelo rapaz, dizia que era uma rapariga. O marido da prima Ermelinda, dizia que era um rapaz. De tão convictos que estavam, cada um na sua certeza, decidiram apostar 50 escudos, que ficaram à guarda da minha mãe na bomboneira da sala de jantar.

No dia 10 de Abril quem ganhou fui eu. O meu avô ganhou a aposta e abriu a minha primeira conta bancária com eles.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

A história que eu queria ter publicado no dia 14...

Conheceram-se nos passeios da Foz do Douro numa tarde de sol, algures na década de 30.
Foi numa tarde de Domingo, durante a tarde de folga a que as criadas do consulado brasileiro tinham todos os quinze dias.
Rosinha, como Silvano passou a tratá-la desde o primeiro momento, rapariga já entrada nos trinta, a quem já todos tinham traçado o destino de 'ficar para tia', saltava de casa em casa como serviçal desde os seis anos de idade.
Filha de um funcionário dos caminhos de ferro e de uma professora, viu o seu destino, e dos irmãos, mudar drasticamente com a morte da mãe. 'Morreu com uma doença ruim', diziam as pessoas. O pai, a braços com quatro filhos ainda pequenos, logo se apressou a arranjar alguém que o ajudasse na educação das crianças, uma madrasta. De crianças felizes, depressa passaram a crianças tristes. A madrasta, que bem fez justiça à má fama do nome, logo tratou de tirar as meninas da escola e distribuí-las por casas de família de bem de Barcelos como serviçais.
Era assim a vida dela desde os seis anos de idade: saltar de casa em casa, aprender com as mais velhas e, sempre que surgia a oportunidade, lá mudava ela de casa em busca de melhor salário.
Assim, e depois de ter começado na família Sá Carneiro, chegou ao consulado brasileiro no Porto. Aqui já tinha o estatuto de cozinheira.
A sua vida resumia-se às panelas e às saídas de Domingo sim, Domingo não à tarde até aos passeios da Foz, onde se encontrava com as irmãs e outras serviçais com quem entretanto fizera amizade.
Os jardineiro e os motoristas disputavam com os soldados dos quartéis das redondezas a atenção das raparigas. Eram tarde de autênticos jogos de sedução, aquelas de Domingo.
Silvano, jardineiro, trasmontano, mais novo seis anos que Rosinha, chegado há pouco da terra, logo se encantou pela rapariga de Barcelinhos. Morena, dona de uns lindos olhos castanhos a contrastar com o cabelo negro de onde algumas brancas já denunciavam que a juventude começava a querer fugir.
Para Silvano foi amor à primeira vista. De tudo fez, este rapaz alto, magro de tez morena de quem sempre trabalhou no campo. Era a sua arte e a terra sabia disso. Toda a terra em que ele mexia, ganhava vida.
A vida dele também não fora fácil. Filho da Delfina, que vendia queijos pela serra, era filho de pai desconhecido e meio irmão de mais três filhos de Delfina, eles também filhos de pais desconhecidos. Dizia-se pela serra, que o pai de Silvano era o Zé dos queijos, uma espécie de Zé do Telhado que vivia por entre as aldeias do Marão.
Não era a primeira vez que Silvano estava no Porto. Antes tinha feito a tropa, onde aprendeu a ler e escrever, o suficiente para escrever as cartas que enviava para a mãe, que estava na terra e para a Marquinhas, a irmã mais velha que viva agora em Lisboa. Era cantora no teatro, dizia ela nas cartas. Também prometia chamar para Lisboa os irmãos assim que a vida lho proporcionasse.
O amor de Silvano por Rosinha sempre foi maior que o de Rosinha. Ou talvez não. Enquanto Silvano era um rapaz meigo e sociável, Rosinha já era uma rapariga mais distante que não dava confiança a qualquer um.
Como chegaram à fala, não se sabe, nem ele sequer, talvez. MAs chegara à fala, namoriscaram uns dias, umas tardes de Domingo, aliás e um dia zangaram-se.
Silvano tentou por várias vezes fazer as pazes. Rosinha nunca cedeu. Ele mandava recados pelas amigas dela e nada. Rosinha deixou até de frequentar o passei da Foz, só para não se cruzar com Silvano, que de tão apaixonado que estava, passava as horas livres a rondar o consulado. Rosinha sabia-o, sentia-o, mas não cedia. Silvano também não desistia.
Sem resistir às tarde passadas nos passeios da Foz, Rosinha retomou os seus passeios com as amigas. Logo no primeiro, e claro sem que tenha sido coincidencia, que a querer chamar-lhe isso, foi Silvano que a originou, encontraram-se. A paixão do primeiro dia mantinha-se. Rosinha não resistia, Silvano não sabia mais que fazer. Ela nem palavra lhe dirigia. Teria medo também, talvez, de não resistir.
Cruzaram-se. Não pararam. Olharam-se de soslaio, seguiram caminho. Silvano não a quis perder de vista, olhava para trás. Rosinha, altiva, olhava também, de vez enquando, quando as amigas não reparavam.
E aconteceu. Silvano não viu que se aproximava do poste de iluminação. Não parou. Rosinha olhava naquele momento para trás. Quando o viu caminha em direcção ao poste abriu a boca como que a querer gritar. O grito não saiu e o inevitável aconteceu. Silvano bateu com toda a força no poste. Da surpresa do embate e da violência de bater num poste de ferro, desmaiou. Rosinha não resistiu. Correu em direcção a ele, enquanto gritava: 'Silvano'.
Silvano acordou, já com a cabeça no colo de Rosinha que se ajoelhou junto a ele enquanto lhe afagava a cabeça e sussurrava:'Silvano, meu querido, acorda. Eu perdoo-te'.
Foi ao som destas palavras que Silvano acordou, atordoado com as palavras de Rosinha.

Sorriu quando viu que era verdade. Que a sua Rosinha estava ali. Que a sua Rosinha o tinha perdoado e que o acariciava.

Desde aí nunca mais se separaram, só num dia de 1981, em que Silvano partiu. Foram cinco anos de separação, o tempo suficiente para que Rosinha pudesse voltar a estar junto dele. Desde aí estão junto para a eternidade.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Hoje o dia ainda é mais importante que os outros

Lembro-me particularmente de uma prenda que ofereci à minha Mãe no aniversário dela. Devia ter aí uns sete anos e resolvi fazer-lhe um colar... cm papel de lustro!
Lembro-me que tinha um caderno desse papel com cores muito fortes: verde, azul, rosa, laranja, vermelho e também branco e preto.
Resolvi então cortar o papel em tiras de cerca de cinco centímetros e rematar as pontas em bico. Passei cola na parte de dentro do papel e enrolei as tiras numa agulha de croché. Depois de secas enfiei-as num fio e dei um nó. Meti num envelope branco onde na parte de fora desenhei umas flores, também todas cheias de cor.
Andei imensos dias afazer aquilo. Fazia Às escondidas no quarto antes da hora do jantar e quando a minha Mãe me ia chamar para jantar eu escondia as coisas.
É claro que a minha Mãe nunca usou o colar. Guardou na gaveta da mesinha de cabeceira, dizendo que quando chegasse a Primavera iria arranjar uma blusa para poder usar o colar. E sempre que eu abria a gaveta da mesinha de cabeceira saía a pergunta:Ó Mãe ainda não arranjaste a blusa?'. Enquanto não foi Primavera a desculpa de esperar serviu, depois passou para 'Ainda não encontrei uma que combinasse com essas cores.'-dizia-me ela.
Eu acreditava. Eu tinha sete anos. E tinha a convicção de que o colar era lindíssimo e que ela podia perfeitamente usá-lo na rua, por isso a questão era mesmo a blusa. Para além disso a minha Mãe era e é uma pessoa com gostos muito singulares a quem nem tudo agrada, principalmente o que agrada a todos. É pessoa de fazer as suas próprias modas... não fosse ela conhecida como a 'miss de S. Pedro' na freguesia onde nasceu e morou até casar.

Sim a minha Mãe é especial porque é minha Mãe e porque é mesmo uma Mulher muito especial. Não tem medo das pessoas. Já em miúda enfrentava os rapazes mais velhos, maiores que ela... defendia o primo e ia-lhes fazer esperas à porta da escola para tirar satisfações sobre as maldades que eles faziam ao primo mais novo que ela um ano.
Mas tem medo, pavor até, das acções da Mãe Natureza, do vento, tem muito medo do vento. Tem pavor da trovoada, mesmo depois de numa noite de trovoada o meu Avô a ter obrigado a ver a trovoada à janela. Tem medo do Mar e tem um medo tal, que atá a palavra lhe custa pronunciar, do cancro. Quantas vezes não a ouvi dizer: 'Deus nosso Senhor nos livre dessa doença.'. Ironicamente foi a ela que tocou cuidar do meu avô na sua doença quando já em estado terminal, o que ela fez de uma forma tal que o médico de família a convidou para fazer voluntariado num hospital ou até mesmo tirar um curso de enfermagem.
Sim é uma mulher especial. Tão forte como fraca. Tão meiga como rude. Não, não é uma mulher do meio termo, é de extremos que Às vezes nos leva a temer pela sua reacção.

É a minha Mãe e muito haveria para dizer sobre ela, mas seria pouco.

Ela hoje faz anos e cada ano que passa este dia continua a ter mais importância porque a tenho comigo e que seja por muitos anos. Não me consigo imaginar sem ela e sem o meu Pai.
Um dia que isso aconteça todo o chão desaparecerá debaixo dos meus pés e nem eu, nem o meu viver serão os mesmo. Que longe estejam esses dias.

E como o dia de hoje é de festa, vou-lhe ligar já já.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Gato do senhor Varela

Vive numa casa grande no meio do monte, mas perto da cidade. Nem é muito perto, dez quilómetros. É relativo, diria um amigo meu.
A casa é grande, muito grande. Para além dos dois andares, o da cozinha e o dos quartos, tem uma cave, e um sótão.
O sótão é o quarto dele. É todo dele, ou antes, quase todo, pois tem de o partilhar com o gato... diz ele.
É um gato. sei que é um gato, o gato do senhor Varela. Não sei se é preto, se é branco, pardo ou se tem muitas cores. Muitas cores não poderá ter, senão é gata. Isto é o que dizem os antigos, que os gatos têm no máximo três cores, as gatas é que podem ter muitas. Não sei se e assim ou não, mas supondo que sim e sendo um gato, só pode ter três cores, no máximo. Até pode ser todo preto, todo branco... e aí só tem uma cor. Pode ser preto e branco, e aí terá duas. E se for pardo? Sim há gatos pardos. Não são só as gatas. O Piruças, o gato a quem em miúda cortei os bigodes e uma (ponta da) orelha, era pardo, em tons de cinza. A ser verdadeira a teoria dos antigos, pardo será uma só cor.

E voltando ao gato do Sr. Varela. Sim, o dono do gato que mora, aliás que partilha o sótão, com o gato, que não tem nome, é Varela. Eu disse que o gato não tem nome, mas até pode ter, eu é que não sei.

Voltando novamente ao gato, que eu não sei o nome, e que é do senhor Varela; ele, o gato e o senhor Varela, partilham o sótão.
No sótão, existe uma cama e uma mesinha de cabeceira. Não sei se tem mais alguma coisa, um tapete, cortinas, candeeiros... uma cadeira. Não é relevante para esta história.
Importante mesmo são o senhor Varela e o gato. A cama e a mesinha de cabeceira também são.

O resto não tem influência na história. Há outra coisa importante também para a história: o senhor Varela tem um telemóvel, aliás tem dois, mas só um importa para a história. O outro não o guarda na gaveta da mesinha de cabeceira. Anda sempre com ele no bolso do casaco. A ficar na mesinha de cabeceira fica em cima dela. Mas é raro, não vá o gato deitá-lo ao chão. E este telemóvel, ao contrário do outro, o que fica na gaveta, é um topo de gama. Foi caro. E não foi tão caro porque foi comprado na candonga. Outra história, que também não interessa nada para esta.

Quando está calor. Só no Verão. E aí faz muito calor no sótão, mas só quando está calor. É que o sótão não tem ar condicionado. E continuando, no Verão o senhor Varela acorda com o gato sentado em cima da mesinha de cabeceira. No Inverno, o senhor Varela, que é careca. Esta parte é importante para a história e eu já me esquecia de a referir. O senhor Varela é careca e míope. Não não é tanto como o mister Magoo, mas é míope e como tal usa uns óculos tipo fundo de garrafa. Muito importante a miopia do senhor Varela, e eu que já me ia esquecendo.

E é importante porque, toda esta história foi só para dizer que o senhor Varela guarda o telemóvel na gaveta da mesinha de cabeceira, que quando acorda de manhã, o gato está sentado em cima da mesinha com o rabo enrolado nas patas e que, o senhor Varela, como é míope, vê o gato a tremer em cima da mesinha de cabeceira. Umas vezes mais que as outras. Depende de se o telemóvel está a vibrar ou não dentro da gaveta.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Noite de Natal

24 de Dezembro de 2050.
Batem à porta do apartamento. Ana ainda ágil nos seus 84 anos vai abrir a porta. É o estafeta do catering que vem entregar o jantar. Paga, manda o rapaz ficar com o troco e despedem-se com um 'Feliz Natal'.
Dirige-se para a cozinha, passando pela sala, onde Filipe vê televisão que pergunta: 'Quem era?'. Ana sem parar responde: 'Quem havia de ser!? Era o rapaz do catering a trazer o jantar. Porquê, estavas à espera de alguém?'
'Não...'-reponde ele com tristeza na voz.
Ana pousa o jantar em cima da mesa da cozinha, desembrulha-o e passa-o para as travessas do serviço da Vista Alegre que coleccionou ao longo da vida. É um serviço muito bonito, o Festa, cujas peças Ana foi comprando aos bocados: no Natal, no seu aniversário e alguns oferecidos pelo pais dela.

Pega nas travessas e leva-as para a mesa, que já está posta com o resto do serviço. A cadela Mia levanta-se de junto de Filipe e com o focinho no ar vai para junto dela. O telefone toca. Ana pousa as travessas e dirige-se para a entrada onde está o telefone, enquanto recomenda a Filipe que tome conta de Mia. Parece não a ouvir. Continua com o olhar fixo na TV. As notícias prendem-no ao écran. Quando regressa à sala, Enquanto manda um berro a Mia, que já estava com as patas em cima da mesa, ainda aos berros diz: 'Caramba és sempre a mesma coisa! Eu não te avisei? Não sabes como ela é?'.
Filipe, que nem se apercebeu do telefone resmunga:'E tu que andas para aí a cirandar? O que foste fazer lá para dentro?'
Furiosa, Ana, que ao fim de mais de quarenta anos de casamento ainda não se habituou a estas ironias de Filipe responde: ' Não ouviste o telefone tocar?'
'Não, se ouvisse, não perguntava o que foste lá dentro fazer! E quem era?'
'Era engano.'-respondeu com tristeza na voz.
'Só podia! Quem nos ia ligar hoje a esta hora?!'-rematou ele.
'Tens razão, quem nos ia ligar? MAs agora vem jantar senão arrefece e aquecido não é tão bom...'
'Ajuda-me Ana. Não vês que eu não posso? És sempre a mesma!'
Ana aproximou-se de Filipe que se apoiou nela para se levantar. ' Tu esqueceste das coisas! Para ti é tudo muito fácil! Parece que estou assim desde ontem!'
De braço dado dirigiram-se para a mesa. Filipe sentou-se no topo da mesa e Ana no lugar à sua direita. A cadela Mia sentou-se entre os dois, sempre com a cauda a abanar.
Enquanto Filipe abria a garrafa do vinho, Ana serviu os dois. Depois de aberta a garrafa e o vinho nos copos, começam a comer.
A televisão continuava ligada e Ana de frente para ela de vez enquanto ia deitando para lá o olho enquanto Filipe com o seu vagar ia comendo a vitela assada que Ana encomendara.

Há muitos anos que as noites de Natal de Ana e Filipe se resumiam aquilo. Enquanto os pais de Ana foram vivos ainda passavam os quatro, mas depois da morte deles a família ficou resumida a eles os dois. Não tiveram filhos e também não tinham sobrinhos. Ambos eram filhos únicos. A família mais próxima que tinham eram uns primos de Ana de quem perderam o rasto quando os pais de Ana morreram.
Estavam sós, um com o outro. Os amigos tinham a vida deles, tinham os filhos deles e os netos. Juntavam-se algumas vezes, mas fora destas épocas em que os amigos consoavam em casa dos filhos e dos netos.
Havia um amigo, o José, amigo de faculdade de Ana e Filipe que vivia no estrangeiro e que passava temporadas com eles. Tinha sido casado, mas cedo se separou. Tal como eles não tinha filhos. Tinha uma irmã com quem passava as consoadas na terra Natal. O José era assim a única família deles.

Acabaram de jantar. Ana levou os pratos e as travessas para a cozinha e pôs na mesa pratos de doce, do serviço Festa da Vista Alegre, também. Começou a rechear a mesa com os doces de Natal. Há muito que já não era ela quem fazia estas coisas. Há muito que optara por encomendar na doçaria do bairro. Para ela e Filipe não se justificava aquelas horas todas na cozinha. Era mais prático assim.
Filipe comeu uma rabanada e Ana uma rodela de abacaxi.
'As rabanadas este ano não estão tão boas!'- observou Filipe.
'Dizes todos os anos o mesmo. As do ano anterior são sempre melhores...'
'Pronto não se pode dizer nada!'-resmungou Filipe.
'O que vai acontecer é que não compro mais. Para o ano se ainda por cá andarmos, não compro nada disso!'-respondeu Ana. E com uma lágrima no canto do olho continuou:'E se não andarmos, ninguém há-de sentir a nossa falta!'
'Lá está a mulher com as lamurias dela! Que queres que te faça? Não perdes uma oportunidade de me vir com essas indirectas!
Ana não respondeu. Há muito que desistira de alimentar conversas sobre determinados temas com Filipe. Ele achava-se sempre dono e senhor da razão e a conversa acabava com ela numa pilha de nervos. ' Vai falando'-pensou ela, enquanto ele falava qualquer coisa que ela já há um bom par de minutos deixara de ouvir. Provavelmente até já tinha mudado de assunto, como era costuma. Ela não queria saber.
Ana estava triste. Nunca gostara desta época. O Natal'Para quê? Para que serve, para que serviu tudo isto?' Sempre vivera presa à doença de Filipe, que sempre a usou para a chantagear. Quando eram novos, dizia que se um dia ela partisse, ele queria ir atrás, pois não ficava aqui a fazer nada.
Levantou-se da mesa, com a desculpa de ir fazer café e foi até à cozinha. Sentou-se numa cadeira , fechou os olhos e viu os pais, os avós, os tios. A casa dos pais, a sua casa e até o cão labrador e a cadela rafeira que tinha tido durante quase quatorze anos.
Estava com o coração apertado, estava longe e as lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo. Sentiu respirar perto de si, depois uma lambidela na cara. Era Mia que tinha vindo atrás dela e a tentava consolar. Abriu os olhos, passou a mão pela cabeças da cadela e disse: 'Obrigada princesa.'
Da sala Filipe gritava:'Então Ana, o café? Que se passa?'
'Não se passa nada. Já vou.'
Levantou-se e depois de fazer mais uma festa a Mia , tirou dois cafés.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A Terra tremeu...

Esta noite a terra tremeu em Portugal, dizem as notícias. Sim, porque eu cá não senti nada, na altura. Senti sim de manhã quando acordei, um calafrio, só de pensar que numa situação mais complicada (de maior intensidade), continuarei a dormir e, como às vezes se ouve: 'acordar morta'!
Ainda não percebi se o tremor foi sentido em todo o país ou só na capital. Também se as coisas boas se passam lá, que fiquem com algumas más!

Lembrei-me então de um tremor de terra que houve quando eu era criança.
Passava uns dias em casa dos meus avós e a terra tremeu no Porto. O meu avô com a calma que lhe era característica, me embrulhou, cuidadosamente num cobertor e, tal como ditam as regras, veio comigo ao colo para o quintal. Os meus pais, que do alto do terceiro andar onde morávamos sentira, esses vieram depois de se aperceberem do que se estava a passar resolveram também ir para a rua. A minha Mãe, atrapalhadinha como sempre, veio descalça. Era Fevereiro. E lembro-me porque o meu Pai, e esta é a parte caricata da história, foi para trás para pegar uns chinelos para a minha Mãe!
Claro que foi tudo tão rápido, que ele já não voltou para a rua. Entre descer 56 degraus, subir e voltar a descer, a terra parou de tremer...

Escusado será dizer que no dia seguinte de manhã, a primeira coisa que foi feita foi 'resgatarem-me' de casa dos meus avós! Para berreiro meu!

Este episódio é contado muitas vezes lá em casa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O Casamento


Um dia lembrou-se que não queria trabalhar mais naquele sítio. Concorreu para o ensino, foi colocada e despediu-se do emprego na multinacional.
Continuou a frequentar a casa dos amigos que fez e um dia, no casamento de um outro, apareceu com o namorado.
Até hoje não lhe conheço a voz, nem a cor dos olhos. Não falava e andava sempre a olhar para o chão, como se algo procurasse...
Nesse mesmo dia, num dia de Junho, trazia-nos convites de casamento, para o dela, aliás, o deles.
Tinham-se conhecido na passagem de ano, marcado o casamento quinze dias depois e a data marcada era Setembro.
Passou Junho, Julho. Falamos em Agosto. Tudo pronto. A quinta marcada, a decoração da igreja decidida, ao vestido faltava a última prova... seria na semana anterior ao casamento.
Nos primeiros dias de Setembro toca o telefone. A voz não era a de quem estava a quinze dias de casar, a de quem andava entusiasmada com os últimos preparativos, nem a de quem estava ansiosa por ver o vestido de noiva pronto.

Pois não, porque o telefonema era para dizer que já não ia haver casamento. Que tinham falado e resolvido não casar. Tinham pensado, ponderado e tinham decidido que não era a melhor altura para casar. Que em vez de estarem felizes, estavam deprimidos, que o Paulo, o noivo, tinha tido uma recaída! Recaída? Sim, o Paulo era propenso a depressões e já tinha tido 'algumas', disse ela. Não estava a aguentar a pressão do casamento e estava mal! Do lado de cá, ficou-se sem saber o que dizer. Ficamos por um: 'E tu estás bem? ‘. A resposta foi um 'Sim' de quem não quer deixar os amigos preocupados.

Desligamos, olhamos uns para os outros. Por coincidência, ou não, estávamos um grupo de amigos, que naquele dia resolveram ir até Ílhavo visitar o museu da Vista Alegre. A notícia pouco ou nada surpreendeu. Sentiu-se como que um respirar colectivo de alívio.
Não admirou. Não admirou a reacção, não admirou que acabasse antes de começar.
Um de nós, mais corajoso, disse: 'Ainda bem!'. Os outros acenaram com a cabeça, em concordância. 'Ainda bem que foi antes!', disse ainda um outro. Mais um acenar colectivo...

Em Novembro houve magusto em casa do Nossamigo. Foi convidada. Apareceu acompanhada. 'Este é o Gabriel', apresentou-o assim. Estavam de mão dada. Novo namorado. Tinha esquecido o Paulo. Ainda bem, mais uma vez. É que o Paulo era uma pessoa realmente pouco sociável e o casamento nunca iria resultar. O mais parecido com aquele homem, que um dia num casamento, onde o conhecemos, fugiu para o cemitério e andou a fotografar campas, eram o Olharapos da Expo 98, lembram-se?

O Gabriel não era assim. era simpático, extrovertido e alinhou nas maluqueiras d grupo. Gostamos dele, aprovamos, ficamos felizes por ela.

Passaram-se dois, três anos e há umas semanas novo telefonema. 'Vou casar', disse ela. Senti algum cepticismo, confesso. Adiei a máximo a compra da roupa, mesmo sabendo que foi uma decisão tomada com mais tempo, que o Gabriel não tinha nada a ver com o Paulo e que por isso a probabilidade de se repetir o 'não casamento' era pequena.
Comprei a roupa na semana passada. Ontem a gravata para o L.. Sim porque para os homens basta a gravata para marcar a diferença! E o casamento é amanhã e desta vez vai haver casamento. Melhor dizendo, nada em contrário ainda foi dito!
Por isso amanhã há casamento.