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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


Chegou

... finalmente.

(porque me atrasei a encomendá-lo).

E deu-me uma vontade enorme de voltar a trabalhar na Fábrica.
Acho que vou lá espreitar qual a 'produção' da semana.
Até já.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Chegou ontem


O volume II da Fábrica de Histórias.

Desta vez tem 12 histórias escritas por mim... e já duas das escritas pelo Alberto.

Sensação boa...

terça-feira, 28 de julho de 2009

A Minha Onda (XV)

Poucas coisas poderão acontercer no nosso dia piores que ir a um funeral. Dá que pensar e faz bater no fundo!

Saber que (mais) um livro com histórias escritas por nós, foi publicado, leva-nos o ego lá para cima.

Aqui está o 2º volume, desta vez com 300 páginas. Podem comprar através da Autores

domingo, 28 de junho de 2009

Joana, Pedro e Adolfo eram três amigos inseparáveis que um dia foram separrados pela descolonização.

Era uma amizade incompreendido por uns, não aceite por outros e admirada por uma pequena fracção. Todos partilhavam o mesmo sentimento em relação a esta amizade: incompreensão.

Joana e Pedro eram primos e filhos de famílias importantes de Luanda. O Pai de Joana era militar e o de Pedro um conceituado médico.
Adolfo era filho do criado de casa de Pedro. A Mãe de Adolfo, criada da casa, morrera de parto. O Pai, na altura, motorista da família, sem saber o que fazer à criança pedira ajuda à Sra D. Maria Amélia, mãe de Pedro, que tendo dado à luz meses antes, logo se prontificou a cuidar da criança.
Assim a criança foi criada com Pedro. frequentou as mesmas escolas, usava as roupas que Pedro, mais velho uns meses e mais desenvolvido, deixava e ia de férias com a família.

Joana, visita assídua da casa dos tios, desde muito cedo partilhou as brincadeiras com os dois rapazes, que nutriam por ela um sentimento protector de 'irmão mais velho'.

Se hoje, em pleno século XXI, a amizade entre pessoas de diferentes raças é vista com desconfiança, nos remotos anos sessenta do século XX, muito mais era.
Quando as crianças entraram na adolescência e Joana se tornou numa linda jovem, foram muitas as vozes a advertir a esposa do Senhor Comandante, a Mãe de Joana, para o perigo daquela amizade. 'A menina Joana tem muito á-vontade com o negro. Não é saudável', advertiam as amigas da canastra, com quem a mãe de Joana se reunia todas as semanas.

Nada disto os separou. A verdade é que nem o Comandante, nem o Médico fizeram nada para tal. O Médico tinha confiança na educação que estava a dar ao rapaz e o Comandante tinha a filha como uma rapariga sensata.
As crianças cresceram e chegou a altura de irem estudar para a universidade. Mais uma vez, Adolfo não foi marginalizado e foi mandado com Pedro para a metrópole para continuar os estudos. Pedro estudaria medicina e Adolfo direito. No ano seguinte chegou Joana, que também ingressou em Direito.

Os três amigos eram agora mais inseparáveis que nunca. Os pais de Pedro tinham alugado uma casa no Porto e contratado uma governanta para tomar conta dos meninos.

Era uma amizade pouco compreendida, menos ainda na metrópole que em Luanda. Joana e Adolfo andavam sempre juntos. Era inevitável. Viviam na mesma casa, frequentavam o mesmo curso. Na faculdade de direito começaram a ser vitimas de discriminação. Adolfo porque era preto e Joana porque era amiga dele.

Passaram a viver entre perseguições da polícia política e do racismo dos colegas e professores. Tudo foi ultrapassado. Acabaram o curso, Pedro e Adolfo voltaram para Luanda. Joana ficou no Porto.

Pedro arranjou colocação no hospital de Luanda e Adolfo num escritório de advogados de Luanda.

Depois disso muitas coisas aconteceram. Pedro casou, Adolfo não. Não sabia bem porquê. Joana, essa também continuava solteira. Também não compreendia. Com o 25 de Abril, a família regressou toda para o Porto. Adolfo ficou em Luanda. Era a terra dele, onde estava a sua família.

Passaram-se trinta anos. Joana e Pedro, agora divorciado, resolveram voltar a Angola. Adolfo recebe-os no aeroporto.

Abraçam-se os três e choram, choram toda a saudade de 30 anos.

Racismo, sociedade, mentalidades, tudo mudo. A amizade deles não. Mantém-se firme e sólida como desde o primeiro dia.


Ficção para a Fábrica de Histórias

domingo, 21 de junho de 2009

A Camisola Verde

Um carregamento de roupa chegou ao campo de refugiados. Veio em boa hora, pouco falta para começarem os nevões e os termómetros passarem a marcar temperaturas negativas.
Os sacos são descarregados dos camiões e um grupo de mulheres, umas voluntárias da ONU e outras residentes no campo, começam a seleccioná-las por sexos, primeiro, por tipos e finalmente por tamanhos.

Depois de separadas são colocadas em prateleiras para a distribuição do dia seguinte.

Logo cedo pela manhã, forma-se uma fila junto ao pavilhão. A notícia de que agasalhos haviam chegado tinha corrido de boca em boca e as pessoas, receosas do frio e desprovidas de agasalhos, cedo se dirigiram para o centro.

Irina está entre o grupo de pessoas. Tem treze anos e uns longos cabelos negros que lhe emolduram o rosto moreno. Irina perdeu a pouca família que tinha, o Pai, a Mãe e o irmão, na guerra. Antes da guerra a família dela fazia parte do grupo de famílias da classe média. Eram felizes, 0 Pai era engenheiro aeronáutico na fábrica dos aviões e a mãe professora de inglês no colégio da terra. Irina e o irmão, mais novo três anos, eram duas crianças felizes, que viviam sem preocupações. Andavam no colégio onde a Mãe dava aulas, Irina tinha aulas de ballet e o irmão era uma promessa da natação, segundo os entendidos.
Na férias iam de férias para uma casa junto ao mar que os pais alugavam durante três semana. Eram dias maravilhosos, de felicidade a quatro.

Um dia o país entrou em guerra. O pai foi destacado para a força aérea e a escola fechou. A mãe passou, desde então, a ser voluntária no campo de refugiados que entretanto foi instalado na cidade. Vieram pessoas de todos os lados. Irina e o irmão, sem escola, passaram a ficar em casa, enquanto a mãe ia para o campo trabalhar. Cada dia que passava o número de refugiados aumentava e tornava-se cada vez mais difícil alimentar e tratar de tantas pessoas. Parte dos brinquedos, livros e roupas de Irina e do irmão foram levados para o campo. Nem ela nem o irmão se incomodaram. Eram brinquedos que os tinha feito muito felizes e que agora seriam para fazer outras crianças menos infelizes, pelo menos.

Um dia houve um surto de tifo no campo e a mãe, fragilizada devido ao excesso de trabalho, também ficou doente. Foi levada para o hospital, mas nem os médicos da AMI a salvaram. Do Pai não havia notícias. Tinha sido dado como desaparecido em combate.
Irina e o irmão, sozinhos, passaram a viver no campo, juntamente com os centenas de outros meninos nas mesmas condições, de quem a Mãe ajudou a cuidar...
Os dias deles eram todos iguais. Viviam numa camarata juntamente com os outros meninos com quem inventavam mil e uma brincadeiras para passar o tempo.

Os momentos de felicidade passaram a ser outros para aquelas crianças. Já não eram os momentos passados na casa da praia, já não eram os brinquedos que recebiam no Natal e no aniversário e muito menos ganhar as provas de natação ou ter sucesso nos recitais de ballet.

Os momentos de felicidade daquelas crianças eram, agora, acordarem de manhã, sem que o campo tivesse sido bombardeado. Era saberem que o leite tinha chegado ao acampamento, que iam ter pão e essa mesma felicidade ia ao rubro quando as refeições eram algo mais que sopa.
Um dia o irmão ficou doente e morreu. Tinha uma infecção renal muito grave e não havia antibiótico no campo para o tratar.
Irina ficou só no meio de muita gente....

Chegou a vez de Irina ser atendida. A senhora que estava a fazer a distribuição, perguntou-lhe de que precisava. Disse-lhe que precisava de uma calças e de uma camisola quentinha. A senhora tirou da prateleira uma camisola.
'Irina, minha querida, para o teu tamanho só tenho esta. Mas tem um buraco na manga. Irina olhou para a camisola e sentiu-se feliz como há muito não se sentia. Era uma linda camisola verde, em lã com uma grande gola.
'Gostas?', perguntou a senhora.
'Gosto sim. Faz-me lembrar uma camisola que a minha mãe me deu há três natais atrás... tinha sido feita por ela. Obrigada. É linda.'
A senhora sorriu, afagou-lhe o rosto com as mão e disse-lhe: ' Que Deus te abençoe minha querida.'
Irina depois de um 'Muito Obrigada' muito sentido saiu do pavilhão aos pulos agarrada à camisola como se o maior presente do mundo tivesse ganho... sentia que tinha recuperado um bocado do passado e com isso, os pais, os natais, a casa... a felicidade dos outros tempos.

Ficção para a Fábrica de Histórias

sábado, 13 de junho de 2009

Hoje acordei assim, FELIZ

Naquela manhã acordou feliz, apesar da longa jornada da noite.
Numa noite teve tudo a que sempre achou ter direito e nunca em décadas de vida terrena o conseguiu.

Naquela noite foi feliz, viveu um grande amor, fugiu com ele e foi muito feliz.

Numa noite encontrou o amor, libertou-se de uma vida que não gostava e foi feliz... até o despertador tocar.

Foi uma noite como há muito já não tinha. Daquelas em que acordamos a meio de um sonho e fazemos u esforço enorme para voltar a dormir para 'acabar' o sonho.

O seu amor estava ali perto, pertinho. Reconheceu-o no sonho. Era alguém que conhecia há já muito tempo, mas que sempre fora um mero conhecido. Era alguém com quem se encontrava amiúde em festas, no café e com quem se cruzava no bairro. As suas palavras pouco iam para além do 'Bom -dia'.

No sonho não. No sonho encontrou-o noutra cidade, apaixonaram-se. E porque estava ela sozinha noutra cidade sem o João? Pois estava cansada, cansada da vida que levava e tinha tido a coragem de largar tudo, o marido, os filhos, os pais, o emprego, comprar um bilhete de avião e ir...

O bilhete foi o primeiro que lhe apareceu no site da companhia de aviação e que pudera comprar com as milhas. Não sabia bem onde estava. Também não fazia mal. Estava feliz, num sitio bonito.... e encontrou-o, ao Amor.

Como cá fora, fora dos sonhos, quando encontramos pessoas com quem nunca falamos fora da rotina , temos tendência para falarmos e comentarmos os facto.
Foi o que aconteceu. Encontraram-se e falaram. Chegaram à conclusão que estavam os dois ao mesmo... À procura do amor. E que tinham fugido os dois do mesmo. Do que não queriam. De uma vida rotineira, de um emprego chato e de um casamento que os estava a sufocar.

O sitio eram lindo. Tinha monumentos, jardins, e pessoas, muitas pessoas. Mas eram pessoas que não olhavam umas para as outras, que não comentavam o estar das outras. Eram pessoas que sorriam, pessoas serenas, pessoas amavéis... pessoas lindas cuja beleza vinha de dentro.

Sentaram-se num banco de jardim e olharam-se nos olhos durante muito tempo. Apaixonaram-se.

Era a última noite deles ali naquele sitio. A paixão estava ao rubro.
estavam apaixonados como nenhum deles sabia ser possível e naquela noite concretizaram a paixão com uma linda e longa noite de amor. Amaram-se, amaram-se muito como nenhum deles alguma vez achou que fosse possível.

Tocou o despertador. Ela acordou. Tinha o João a seu lado. Eram seis da manhã. Desligou-o. 'É Sábado, não vou trabalhar', pensou. Fechou os olhos e voltou para junto do seu amor. Continuaram a amar-se mais e mais. Adiaram o regresso. Precisavam de mais tempo para continuarem o amor. Sem mulher, sem marido.

Ali não havia empregos chatos, nem falta deles. Só empregos com chefes sorridentes e colegas amigos.

Iam ficar ali para sempre. Naquele ninho gigante de amor.

Disseram às famílias que não voltavam, nem naquele dia, nem nunca mais. A família ficou triste, só as mães, a dela e a dele, sempre do seu lado incondicionalmente, os apoiou: 'Filha, vou ter saudade, mas se é o melhor para ti, eu fico bem.', disse-lhe a dela.
'Filho, cuida-te. Dá notícias. Se precisares de dinheiro, avisa.', disse-lhe a dele.
Dinheiro?!. Mas que é isso?. 'Aqui não é preciso, Mãe.'.

O despertador voltou a tocar. Eram oito horas agora. Tinha de se levantar. Olhou novamente para João, que dormia a seu lado. Foi um sonho. Foi um sonho onde viveu em oito horas, tudo que queria ter vivido numa vida...

O marido acorda. Ela está feliz, sorri-lhe.
'Que se passa?', pergunta-lhe ele.
'Nada, porquê?', responde.
'Está a sorrir...'
'E que mal tem isso?', perguntou.
'Nada, só que nunca acordas assim...', respondeu admirado.
'Pois não, mas hoje acordei assim...', sentindo-se cada vez mais feliz.

Levanta-se vai para o duche... feliz como nunca...

Ouve ainda o marido a resmungar 'Vá alguém compreender as mulheres...'

Grita de dentro do duche: 'Parece que aqui é crime acordar feliz!'

Ficção para a Fábrica de Histórias

domingo, 7 de junho de 2009

Com um nó no Coração

'Todos temos dentro de nós uma criança.'
Lugar comum ouvir esta frase.

Quando casou já não era jovem, aos olhos dos mais velhos, para quem a idade casadoira de qualquer rapariga expira com entrada nos 30.
Tinha 31 anos quando casou, cedo olhando agora para trás, aos olhos da geração actual. São cada vez mais tarde os casamentos e cada vez mais tarde nascem os filhos.
Nunca fez parte dos planos de vida dela casar. Decidiu um dia que ia casar, marcou a data noutro e casou passados três meses. Foi por impulso.
Queria agora ter um filho. No dia do casamento achava que no ano seguinte já estaria com um filho nos braços. Foi o seu primeiro grande falhanço de planos. As coisas não correram de feição. Os anos passaram, os filhos tardaram, o tempo passou. O fim do prazo aproximava-se, a família e os amigos cobravam e ela sofria em silêncio. Não conseguia falar do assunto. Por mais que tentasse não conseguia aceitar, compreender que lhe tivesse acontecido.

Os médicos do serviço publico recusaram-se ajudá-la, mas poderia tentar o privado, que por coincidência era propriedade do mesmo médico que taxativamente lhe disse:
'Escusa de tentar aqui. Está a um ano de atingir a idade limite para tratamentos aqui. Enquanto é chamada e não é, passou o prazo. Agora o que pode fazer é tentar o privado. eu posso recomendar uma.'

Saiu revoltada do hospital. Para mais tinha visto dias antes uma notícia de que um casal de desempregados tinham tido quatro filhos através de um tratamento. Agora andavam a fazer um peditório para roupa e alimentos para as crianças. O casal tinha tido acesso aos tratamentos porque estava na faixa de idades aceitáveis para o tratamento, tinham 25, ela e 27 ele. Se as crianças iam passar fome não interessava...

A única coisa que se lembra é que o seu pensamento era constantemente preenchido com a pergunta 'Porquê?' . Parecia que via esta pergunta escrita por todo o lado.
Pior ficou quando a ginecologista lhe disse: 'Pronto, se queres tens de ir para privado, paciência'
E é assim? Eu que pago impostos, que tenho uma vida estável, só porque não estou dentro dos limites de idade que alguém se lembrou de definir, tenho de, para além de pagar os tratamento de quem não contribui par eles ainda pagar os meus a preço de ouro?´

Era muita a revolta. Os planos não eram aqueles.

Saiu do consultório zangada com a médica, muito zangada mesmo, porque no fim daquilo tudo a médica, num tom de voz a medo disse: 'Podes sempre adoptar...'
Antes de sair teve a última palavra: 'Quem os filhos das mulheres a quem o estado faz tratamentos e depois os abandonam porque não tem como as sustentar?!'

Nada mais fez. Cobardia? Não sabe responder... não quis pensar, recusou-se a pensar... mas sempre assolada pelo medo do arrependimento e de atingir o ponto de não retorno!

Vai viver sempre com esta sombra no seu coração. Com o turbilhão de sensações boas e más sempre que recebe notícias de chegada de crianças ao seu circuito familiar. Fica feliz, por eles... mas o nó aperta no coração, ai se aperta.

Ficção para a Fábrica de Histórias

terça-feira, 26 de maio de 2009

Os Namorados


As cores, essas aprendeu-as logo depois de saber dizer 'Avó', que aprendeu antes de dizer 'Mãe' ou 'Pai'.
Aprendeu com o avô, que depois de reformado, se entretinha no anexo do quintal a reparar os móveis, a fazer prateleiras e a pintá-las. Gostava muito e de muita cor, o avô. A sua cor predilecta era o azul. Sempre que podia usava o azul, a cor dos seus olhos, em qualquer circunstância ou momento. Os da mãe, esses de azul têm o raiado assente no ora umas vezes castanho, ora outras verdes. Olhos de camaleão, diz ela.
No quintal havia um capoeiro azul, com portas vermelhas, uma casinha com dois garnizos, verde e uma gaiola, com rolas, branca, tal como elas.Era uma miscelânea de cores, aquele quintal. Até o baú em cimento, lá no fundo, feito para guardar areia era pintado de amarelo.
Na outra ponta do quintal havia um cata-vento, que tinha um galo branco com penas vermelhas. Um dia um amigo do pai arranjou ao avô placas de acrílico de muitas cores. O avô logo se apressou a desmontar o galo do cata-vento e substituir as penas do rabo do galo, uma a uma por as cores todas do acrílico.
A mãe, essa aprendeu bem nova a arte de bordar, da qual fez profissão.. Adora combinar cores. Inventar nonas combinações de materiais e de cor. Era conforme lhe pediam. Bordava de tudo, com todas as cores. Apaixonada pela cor, tal como o avô. As meadas de Mouliné amontoavam-se na caixa das linhas feita pelo avô. Cada divisão tinha uma cor e quando a mãe se enganava a colocar a meada no sítio, logo ela vinha em socorro das meadas e as colocava no lugar. 'Mãe, puseste o amarelo no sítio do castanho! ‘, observava ela com um ar escandalizado como se a mãe tivesse cometido a maior das infracções!
‘Ó filha, estava distraída, coloca no sítio, se fazes o favor.’, respondia ela com um sorriso no canto do lábio.
Aos quatro anos participou num concurso de desenho. O pai trouxe-lhe uma cartolina branca A2 e ela durante muitas tardes preencheu a dita cartolina com a sua criatividade. No canto Superior esquerdo estava o sol, amarelo, claro! O céu era azul. Para ela não havia céu de outra cor que não a da cor dos olhos do avô.Uma casa por baixo do sol. O telhado vermelho, com o recorte das telhas a preto. De uma chaminé num dos cantos do telhado, vermelha também, saía um fumo, cinzento. Pormenor, feito com o lápis. 'Papá, o fumo não é preto, é cinzento. Como faço agora?', perguntou ao pai que durante aquele processo de elaboração da obra se sentava todos os fins de tarde, junto a ela a vê-la desenhar e pintar.
Ela fazia questão de pintar só na presença do pai. Da Mãe não. Daquilo só o pai percebia!´Pinta com lápis'. 'Com o lápis das contas?!', pergunta ela.'Sim filha, vais ver que fica bem!'Pintou. 'Ficou bem, Papá!'O Papá é que sabia daquilo! Pensava, ao mesmo tempo que, sem se aperceber, o seu engenho se apurava para o improviso. Ao fim de mais de três décadas é rainha. 'Tem solução e resposta para tudo', diz que a conhece.A obra foi ficando completa com as janelas da casa, a porta, que foi pintada de vermelho e um caminho.Ao longo desse caminho tinha árvores. Árvores verdes com bolinhas, que apesar de parecerem as bolinhas do azevinho, seriam maçãs dadas a textura da árvore!No fim do caminho, bem no centro da folha e num tamanho bem grande a destoar com o tamanho da casa, bem mais pequena, estavam... os namorados! Um rapaz, de calças pretas e camisa verde, da cor da que o pai vestia no dia em que a camisa foi pintada. Não faltou o bolso. Sempre ouviu o pai queixar-se quando as camisas não tinham bolso. Dizia que era uma chatice! Ele lá sabia e sendo o pai o modelo para tudo certamente que o 'namorado' se sentiria incomodado por ter uma camisa sem bolso!Estavam de mãos dadas. As mãos dadas eram uma bola amarela, tal como as caras, os braços e as pernas. Era o mais parecido com a cor da pele. A rapariga tinha um belo par de votas até meio da perna, com os pés virados para a direita alinhados com os do rapaz, que calçava um par de sapatos castanhos, que à escala seria pelo menos um tamanho 46!As botas da namorada eram pretas e a saia cor-de-rosa. Era a cor das meninas. Todas as meninas gostam de cor-de-rosa, achava ela. A blusa era um rosa mais claro, porque não tinha lápis de cor branco e se não pintasse podiam pensar que se tinha esquecido!Os cabelos da rapariga eram pretos, como os dela, só que longos e lisos tal como ela ansiava que os seus curtos e encaracolados um dia fossem.'Só falta assinar e amanhã já posso levar', disse o pai. E assim foi. No canto inferior direito desenhou o nome e por baixo '4 anos'.
Chegou o dia dos prémios. Foi num Sábado à tarde depois da aula de ginástica, que ela tanto detestava. Mas naquele dia a aula custou menos. Estava com o pensamento no concurso e não no quanto eram seca aquelas aulas de ginástica!Quando entrou na sala, lá estava o seu desenho. Tinha-lhe dado o nome de 'Os Namorados'.Chegou a hora dos prémios. Chamaram o terceiro, segundo e não é que ela ganhou o segundo prémio! Uma coisa ela não percebeu: Porque se riram todos quando foi anunciado o tema do desenho?
Ganhou, para além de um abraço apertado da mãe e do pai, uma caixa com 50 lápis de cera e um livro: 'Tó e as cores', que ensinava a misturar cores.
Que felicidade. Agora já tinha cinzento para o fumo e branco para as camisolas. Tinha todas as cores! E também aprendeu que se misturasse vermelho com amarelo tinha laranja e se misturasse azul com amarelo tinha verde! E que preto e branco dava cinzento. Essa parte tinha de ser em casa do avô, onde havia muitas tintas e a paciência dele para a ajudar a fazer as experiências.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Pai Herói

Desde sempre foi rebelde. Foi daqueles miúdos que, tal como dizia a minha Avó, 'tem tanto de arisca como de meigo'.
Ele mandava os filhos dos patrões dos pais abaixo dos muros para lhes apanhar as sandes de marmelada. A alternativa ao pão sem nada ou com manteiga nos dias de festa, compensavam a sova que levaria por deitar abaixo do muro o Luizinho, filho do Sr Bacelar.

'Meninos, a pereira junto ao tanque tem três pêras madura. Ai de quem lá vá buscá-las!' Pois o Sr Silvano conhecia bem o filho que tinha e quando, depois de jantar, o Victor e os irmãos chegaram ao sitio da pereira, já ele lá estava com a mão na fivela do cinto.
'Nós só viemos dar uma volta.', disse o Victor antes que o pai dissesse alguma coisa.
'Sr Victor, se eu não o conhecesse… tudo para casa antes que eu me zangue.' Bom, quando estas histórias eram contadas em família, o avô Silvano admitiu que foi uma provocação… afinal ele foi quem informou os miúdos que as pêras estavam maduras!

Um dia o Victor foi estudar para a escola Comercial. O Sr Bacelar prometeu ao Sr Silvano um emprego para o rapaz no banco, mas ele tinha de 'fazer' o 7º ano do liceu na escola comercial. Com sacrifícios o rapaz foi posto a estudar. Contrariado um belo dia decide que não vai mais para aquela escola. 'Pai, não quero ir mais para a escola comercial. Quero ir para o Infante, estudar mecânica.' Ao mesmo tempo que lhe dava uma bofetada, o pai disse-lhe: 'Se queres ir para outra escola vai por tua conta!' 'E vou. E também já arranjei um emprego. Vou estudar de noite', respondeu Victor, tentando equilibrar-se de modo a não tombar sobre o poço, que felizmente estava tapado. O Sr Silvano esse não quis saber. Afastou-se a resmungar:' E agora que desculpa vou dar ao Sr Bacelar!?'
Ele foi trabalhar para uma grande indústria do norte. Ele e mais alguns colegas foram 'apadrinhados' pelo directo, o Engenheiro Guilherme. Quando chovia levava-os à escola no seu Mercedes. Aos que tinham boas notas oferecia uma nota de 100$00. Mas também, tal como acontecia com os outros, lhes eram fechadas as portas das salas onde estavam os cartões de ponto sempre que se atrasassem, um minuto que fosse. Significava uma manha perdida, sem ganhar, sentados numa sala à espera d hora do almoço.Com os 100$00 faziam uma festa. A primeira paragem era, antes de seguirem para a escola, na tasca da esquina do cruzamento de S. Mamede para comer uma isca e beber um copo de vinho. Eram momentos bem passados aqueles.

O Victor não perdeu nunca a sua rebeldia, pelo contrário refinou-a e usou-a para defender as suas convicções. Descobriu os esconderijos do Avante e começou a lê-lo às escondidas de quem o já lia às escondidas. Um dia foi apanhado. 'Rapaz, ainda és muito novo para ler essas coisas', disse-lhe o Sr Silva, o encarregado, comunista assumido. 'Muito novo? Já tenho dessasete anos. Eu tenho de continuar o que vocês começaram....' Convenceu-os. Passou a fazer parte do circuito 'legal' de leitura, passou a ser informador das greves e passou a fazê-las. Tinha encontros no areal de Matosinhos com o 'homem da gabardina' a observá-lo a ele e aos colegas. Era vigiado na escola e um dia, tinha acabado de completar dezoito anos, foi 'chamado à PIDE', na rua do Heroísmo. Teve medo. Disse ao Sr Silva, que a sorri disse: 'Olha que vais estar lá o tempo todo sem te deixarem ir à casa de banho nem sentar. Passas no urinol do jardim', 'clientes frequentes' daquele edifício. Assim fez. Passou no urinol antes de entrar. Tremia que nem varas verdes. E assim foi também, a parte de não se poder sentar nem ir ao WC. Foi um dia inteiro, com os agentes a entrarem e a sair, a fazerem-lhe perguntas cada um à sua maneira, de assuntos diferentes.Quando chegou a casa era noite. O Pai perguntou-lhe por onde andara. Não respondeu. Levou uma tareia, a física mesmo, a psicológica, essa apanhou-a durante o dia… o pior da vida dele até aquele momento.

Eleições. Humberto Delgado candidata-se. Victor e os amigos apoiam-no incondicionalmente.
Há dias, tirada da net, mostro-lhe uma foto da chegada de Humberto delgado à estação de São Bento. 'Estás a ver aquele, ali naquele poste, junto ao Banco Ultramarino? Sou eu!', diz todo orgulhoso. Aquele dia valeu-lhe mais uma 'visita' à PIDE. E aquele homem foi o seu herói de sempre e para sempre. Ainda hoje fala dele com admiração. Não quis acreditar na morte dele. E nunca acreditou em acidentes.

Quando Ivo Delgado, o neto escreveu livro sobre Humberto Delgado, comprou-o logo no primeiro dia e quando Ivo Delgado veio ao Norte, à casa das Artes em Vila Nova de Famalicão apresentar o livro, ele foi. Ele foi e levou recortes de jornal com notícias da campanha eleitoral e panfletos da campanha eleitoral que ele guarda religiosamente. O neto não os conhecia. Quis falar com ele com mais tempo. No fim agradeceu-lhe por tudo e por nada. Apesar de tanto trabalho de investigação conclui que ainda muito desconhece sobre o avô.

Chega a idade da tropa. Vai. Primeiro para Santa Margarida, depois para Arca d'Água. Passa lá 20 meses.
Quando regressa à vida civil, ingressa no instituto superior técnico em engenharia mecânica, o que ele sempre quis.
Durante a tropa o colega Pinheiro cometeu uma asneira, saiu com um carro sem autorização e teve um acidente. É preso, julgado. Sentença: uma dezena de anos de cadeia ou mais serviço militar, desta vez em África, onde entretanto tinha rebentado a guerra. Escolhe a segunda opção.
Por arrasto é chamada toda a companhia. Tem de abandonar novamente o emprego e os estudos. Um sonho adiado...

Embarcam no Vera Cruz para a longa viagem. Houve tempo para tudo. Para se conhecerem, para pensarem na vida e para o Victor elevar ao máximo a sua rebeldia nata e uma bela noite começar a colar papéis por todo o barco a promover o desvio do barco para o Brasil. Valeu, ou não a reacção dos amigos Pinho e Matos, que ao aperceberem-se do seu acto trataram de recolher os papéis. Fecharam-no no camarote durante uns dias até ele prometer que não repetia tal atitude.
Chegaram a África. O destino -lo encontrar-se com um Major conhecido da tropa em Arca d'Água que procurava um motorista para a esposa e a filha. Ele sabia que Victor tinha tirado a carta de condução no quartel de Arca d'água. Convidou-o. Ele aceitou.

Em África viveu como se não houvesse amanhã. O que recebia hoje, gastava hoje. Amanhã vendia o que tinha comprado ontem se precisasse de dinheiro.

Começou a trocar correspondência com Odeta, a vizinha, amiga. Só amiga, até então. Teve também uma madrinha de guerra. Odeta enviava-lhe roupa, doces e cigarros. Isabel livros. 'O Fio da Navalha', 'Por quem os Sinos Dobram', 'O Velho e o Mar', foram ao encontro dele e voltaram com ele.

Viu colegas morrerem, nenhum em combate. Um pura estupidez.

Teve também de conduzir colunas militares ao serviço do Major Spínola. Foi marcante, o encontro com ele. Entre outras coisas levava colchões para um acampamento militar. Voltou para Luanda... com os colchões. Spínola descobriu que os colchões para os militares eram diferentes dos dos oficiais. Rejeitou e devolveu-os.

Fez muitas coisa em África. Divertiu-se, sofreu de saudades, pela morte dos camaradas e pela incerteza do dia seguinte... dois longos anos.

Quando voltou, voltou mais rebelde do que antes. Odeta esperava-o. O Chefe Reis, futuro sogro também. Estava fardado e esperava-o com o carro do comando. Estava eufórico. A euforia fazia-o dizer o que não devia. Estava a ser vigiado pelos homens da gabardina. Saiu do comboio em Campanhã a desenrolar um rolo de papel higiénico, enquanto insultava Salazar.

Não voltou À universidade. Só ao emprego. Casou com a Odeta. Isabel ficou só amiga, que entretanto se afastou. A amizade não lhe era suficiente. Preferiu não ter nada...

Por estas e muitas outras coisas aqui não contadas, ainda, este é será SEMPRE o meu herói... É o meu Pai.

Ficção para a Fábrica de Histórias

domingo, 17 de maio de 2009

Noite Feliz

27 de Outubro de 1985. 'Logo hoje!', suspirou Leonel. Tanto Delfina lhe tinha recomendado que não se atrasasse, o chefe tinha de ter pedido aquele trabalho à última da hora! Era um dia especial aquele. Leonel e Delfina faziam 12 anos de casados. Leonel, homem na casa dos trinta anos, era um homem alto, cabeleira farta e pele escura. Era casado com Delfina, que tinha sido sua madrinha de guerra dos tempos do ultramar. Como era hábito neste dia, Delfina esperava-o, com um jantar melhorado, um bolo e uma garrafa de espumante. Provavelmente tinha assado cabrito. Ela sabia que ele gostava e nas datas especais cometia uma extravagância e lá encomendava ela um quarto de um cabrito no talho do Sr Augusto. O autocarro já estava na paragem. Poucas já eram as pessoas fora do autocarro, tinha de correr. Começou a correr. Um buraco no passeio. Um pé em falso e Leonel caiu dentro do buraco! Caiu de frente, bateu com a barriga no fundo do buraco. Tinha dores, muitas dores. A custo virou-se de modo a ficar virado de barriga para cima. Assim via as pessoas passarem e poderia pedir ajuda. Foi o que fez. Começou a pedir socorro. 'Por favor, ajude-me'. Algumas pessoas nem paravam, outras abrandavam, olhavam para dentro do buraco, olhavam para Leonel, viam a sua farta cabeleira e a sua pele escura e continuavam caminho. Esteve assim durante um bom quarto de hora. Cada vez passavam menos pessoas e Leonel começava a perder as forças. As dores eram cada vez maiores e ele começou a entrar em desespero. A sua vida começou a passar à sua frente, a escola, a ida para África, o casamento, o emprego, os pais, os colegas, os amigo e Delfina. Será que não a veria mais? O amor da sua vida. Delfina esperava-o. Devia estar já em cuidados. Conseguia imaginar. A mesa posta a rigor, o espumante no gelo, e o cabrito no forno. Delfina já deveria ter ido à porta uma centena de vezes. qualquer ruído a teria trazido à porto. 'Delfina, meu amor, será que não te verei mais?', sussurrou. 'Ó Mãe, está aqui um homem!', ouviu a voz de uma criança. 'Diz filho', ouviu também a voz de uma mulher. Com toda as suas forças, gritou: 'Ajude-me por favor. Não lhe vou fazer mal!' Naquele momento já quase não passavam pessoas na rua. A mulher agarrou o braço da criança e puxou-a para trás, enquanto se curvava para ver 'o homem'. 'Ó minha senhora, pelo amor de Deus, ajude-me. Eu caí, estou cheio de dores. Não lhe vou fazer mal! Ajude-me, por favor' A mulher, assustada, olhou em redor à procura de ajuda. Correu para um café perto do local e pediu para ligar para o 115. Um homem tinha caído no buraco das obras e não conseguia sair. O homem do café ligou para o 115, que vieram ao fim de alguns minutos. Tiraram Leonel do buraco e levaram-no para o hospital. Leonel tinha partido uma perna e perfurado o baço. Foi operado e ficou no hospital em recuperação duas semanas. Foram dias muito dolorosas, que, apesar de tudo terminaram em bem. 'Mais uma hora e as coisa seriam diferente', disse o médico que o assistiu. A mulher que o ajudou foi' um anjo enviado por Deus' disse Delfina. Desde aquele dia nunca deixou de o visitar ou telefonar para Delfina a saber do estado de saúde de Leonel. Era uma rapariga nova, ainda, a mulher que o salvou. Tinha ficado viúva aos 22 anos com um filho de 2 anos nos braços, a criança que descobriu Leonel. O marido trabalhava nas obras e caiu abaixo de um andaime mal montado. Desde aí, a vida daquela mulher tinha sido de luta. Não tinha mais nenhuma família. A sua única ajuda era uma vizinha velhota, a quem o miúdo se habituara a chamar de avó. Tem sido a sua salvação nos momentos maus. Quando o menino fica doente, toma conta dele, para que ela não falte ao emprego. Quando o dinheiro não chega para o mês, é ela quem empresta. Naquele dia Lucinda, era este o nome da mulher, tinha levado o filho com ela para o trabalho porque a 'avó' tinha ido ao médico. 'Isto foi obra do destino', disse Delfina quando ouviu Lucinda falar de todas estas coincidências. As duas famílias ficaram amigas. Visitavam-se com frequência e havia mesmo fins-de-semana em que faziam programas juntos. É noite de Natal. Leonel está completamente recuperado do acidente. 'Terá só de ter alguns cuidados e ser vigiado. Apesar de não ser um orgão vital, o baço se lá estava, alguma tarefa tinha.', disse-lhe o médico quando lhe deu alta. Pela primeira vez, desde a morte dos pais de Delfina, que a mesa tem mais de dois lugares. Tem seis. Tocam à campaínha. Leonel vai abrir. É Lucinda, o filho e a 'Avó'.



Da minha autoria para a Fábrica de Histórias

domingo, 10 de maio de 2009

Laura

Sentada no sofá aguardava que o telefone tocasse.

Marisa era a prova de que a felicidade não era plena, ou antes, que a felicidade eram momentos...

Tinha uma carreira de sucesso, um marido maravilhoso que amava e com quem se casara dez anos antes.

Há dez anos atrás enquanto dizia o 'sim' a Tomás no altar, nada a fazia pensar no calvário que iria ser a sua vida.

Marisa e Tomás conheciam-se desde o liceu, onde começaram a namorar. Do liceu seguiram para a universidade, onde frequentaram o mesmo curso. A separação, dolorosa, mas que serviu para confirmar o grande amor que os unia, foi quando Marisa foi para os estados Unidos estagiar numa multinacional ao abrigo de uma bolsa de estudo de uma instituição bancária.

Quando voltou, decidiram casar. E assim foi, compraram uma lida casa, com quatro quartos, já a contar com os quatro filhos que sempre falaram em ter...

Queriam o primeiro logo no primeiro ano de casados. Se queriam quatro filhos, a idade já não lhes dava muito espaço de manobra... Marisa já seria mãe com 33 anos.

Os dias. os meses foram passando e a angustia foi-se apoderando de Marisa. A gravidez não chegava. Ao fim de meio ano resolveu consultar o ginecologista, que tentou sossega-la dizendo-lhe que um ano a tentar engravidar não era motivo para alarme. Que tivesse calma, pois a ansiedade poderia ser um obstáculo à gravidez.

Quando fizeram um ano de casados decidiram ir passar uns dias fora. Estariam só os dois, longe do stress do dia-a-dia... podia ser que conseguissem.

Ilusão, mais uma. O período veio naquele mês, até mais cedo que o habitual, como que a evitar mais falsas ilusões.

Mais uma consulta ao ginecologista, que desta vez encarou o caso de outra forma. Agora também ele estava preocupado. Era preciso tomar providencias: Marisa e Tomás teriam de fazer exames para descobrir a causa infertilidade.

Foram meses de análise, ecografias, consultas e mais consultas. E nada, não havia maneira de encontrar a causa. 'Sem saber a causa, não posso começar a actuar', dizia o ginecologista. A seguir a isto lá vinha mais uma bateria de exames. Marisa sentia-se uma cobaia. E como se não fosse suficiente toda esta provação, ainda tinham as perguntas constantes dos familiares, amigos e conhecidos, que da típica pergunta 'E bebés, para quando?', rapidamente passaram a um tipo de pergunta bem mais penosa:?Então e os tratamentos como vão?'

Foram três anos muito dolorosos. Marisa e Tomás estavam exaustos. Depois de exames e mais exames, sem que qualquer causa fosse encontrada, partiram para os tratamentos de fertilidade. A conselho do médico que os acompanhava, partiram logo para o privado. A idade de Marisa e já não lhes dava muita margem de tempo e uma vez que tinham capacidade financeira, seria a melhor decisão, disse o médico, conhecedor da realidade do serviço publico nessa área.

Assim foi. Apesar da carta de recomendação e de um relatório minucioso feito pelo médico assistente, tiveram de começar tudo de novo: análises, ecografias e muito mais, muito mais doloroso.


A causa da infertilidade continuava desconhecida. O tempo já não era muito. Depois de novos exames, começaram os tratamentos de estimulação. Dolorosos, morosos e dispendiosos. Mas se resultassem, tudo valeria a pena.

O primeiro tratamento, o primeiro insucesso.

Começar de novo. Segundo tratamento. Insucesso. A relação do casal começou a ressentir-se. Marisa andava irritadiça, sensível. Tomás refugiara-se no trabalho. Fora a forma que ele arranjara de poupar a relação e esconder-se do problema.

Ao fim do terceiro tratamento Marisa engravidou. Foi grande a euforia. Apesar do 'positivo' teriam de 'ter cuidado e não festejar antes do tempo', tinham sido as palavras do médico. A euforia não os deixou escutar os conselhos do médico e o desgosto foi ainda maior. Ao fim de alguns dias Marisa foi parar ao hospital com uma grande hemorragia e perdeu o bebé.

Decidiram descansar por alguns tempos, chegando mesmo a ponderar partir para a adopção. Concluíram que que mesmo que tentassem a adopção, uma coisa não era a solução para a outra e então só ao fim de sete meses voltaram às consultas na cliníca de fertilidade.

Entretanto inscreveram-se para um processo de adopção. Não foram muito exigentes, queriam um filho e qualquer criança que viesse seria o filho deles, mesmo que mais tarde viesse o filho biológico.
Um dia de Julho, estava Marisa a fazer as malas para uma saída de fim de semana, quando recebe um telefonema da assistente da segurança social a informar que numa instituição no Algarve havia uma menina de três anos que correspondia aos desejos de Marisa e Tomás.
O rumo do fim-de-semana mudou. Foram de rota batida para o Alentejo onde os esperava a 'sua filha'.

Uma menina, franzina, com uns grandes olhos verdes e uns longos caracóis negros os esperavam. Apesar dos seus três anos nada dizia. A princípio Marisa e Tomás pensaram que era timidez, mas depressa foram informados pela directora da instituição que a menina não falava.

Logo naquele dia levaram a menina com eles. Chamava-se Laura e Laura ficou.
Foi um processo de aprendizagem em alta velocidade.

Novo tratamento estava marcado e não foi desmarcado. Marisa fez novo tratamento, desta vez usando uma técnica nova. A menina estava a adaptar-se muito bem. Estava a ser acompanhada por uma terapeuta da fala e tinha sido matriculada num colégio perto de casa.



A alegria parecia ter voltado aquela casa. Laura brincava. De vez em quando parava para beijar Marisa que, sentada no sofá com o telefone no colo a observava. Sempre que Laura a beijava, sentia uma emoção muito grande e cada vez um desejo maior de dar um irmãozinho a Laura.


Toca o telefone. Era da cliníca a avisar que os exames estão prontos. 'A partir de hoje pode passar por cá para levantar o relatório com o resultado', disse voz do outro lado.


A emoção foi grande, mas diferente... um filho já tinha...



Ficção para a Fábrica de Histórias

terça-feira, 7 de abril de 2009

Histórias

A conselho do Alberto, do Outras Escritas, resolvi colocar uma janela com os links para as histórias que tenho vindo a escrever. Umas foram subordinadas aos temas propostos pela Fábrica de Histórias, outras porque sim, porque quis escrevê-las.
Ainda não estão todas, pois, e só agora me apercebi, já são muitas... só da Fábrica são mais de 20!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Fábrica está fechada

Hoje, como todas as segundas-feiras, quando cheguei à fábrica , encontrei isto:

Encerrado para Férias

O diz a seguir tira espaço para dúvidas.
A Fábrica fechou.
A Fábrica está fechada.
Não para sempre, dizem... só durante o mês de Abril... abre em Maio... fechou para férias.
E agora? Agora o que fazer à segunda de manhã na hora em que cheia de curiosidade entrava na Fabrica para ver qual o tema da semana?
Com que adormecer no pensamento? E que fazer ao domingo à noite, no silêncio do fim do Domingo a escrever contra as doze badaladas, que nem a Cinderela?
Pois, torou-se rotina, tornou-se hábito. Está mal! Hábitos,rotinas, mesmo que feitos com prazer, com carinho trazem vazios, falta de...
Hoje não vou adormecer a pensar na história. No Domingo não sei como vou queimar os últimos minutos do silêncio do dia...
Vou ter saudades. E eu não gosta de ter saudades.
Eu acho que devíamos convocar uma greve, fazer uma manifestação, exigir os nossos direitos. Queremos a Fábrica aberta, já!'
Afinal trata-se de uma fábrica... e não se fecha uma fábrica assim, em que seja para férias...
Reabre em Maio...
... entretanto estão a prepara o Vol II das Histórias em Papel.

Ah, e o desafio? Por onde anda ele? Por andam aqueles personagens a quem ajudei a dar vida?

Abre Fábrica, abre. A nossa criatividade precisa e ti, precisa de alimento...

domingo, 5 de abril de 2009

A Navegadora Solitária


Férias da Páscoa. Desesperam à espera que cheguem e entram em desespero ao fim de poucos dias.

Raquel e Joana, amigas desde sempre. As mãe amigas de infância, namoraram, casaram e foram mães ao mesmo tempo. As meninas, com 3 semanas de diferença de idades foram colocadas no mesmo infantário, na mesma escola e, agora, grandes amigas, tal como as mães, frequentam o mesmo liceu.
Desde pequenas que nas férias escolares ficam juntas, ora em casa de uma, ora em casa de outra. Quando eram mais miúdas dependia da disponibilidade de familiares ou empregadas para estarem com elas. Agora, já sem essa dependência, ficam onde lhes apetece.

Estão em casa de Raquel e começam a ser invadidas ´por um ataque de tédio', como diria a mãe de Raquel. Estão na sala em frente da televisão que está ligada no canal MTV. Por cima da televisão tem um quadro.
Joana pára o olhar no quadro, que sempre ali esteve. Um quadro como os demais espalhados pela casa a que ela nunca deu importância, mas que, não sabendo bem porquê:

'Raquel, de onde veio este quadro?'
'Que quadro, Jo?'
'Este aqui por cima da televisão.'
'Não sei, sempre esteve aí'
'É lindo, não achas?'-pergunta Joana, sem tirar os olhos do quadro, enquanto Raquel dança ao som da música.
'É'-responde encolhendo os ombros, como sinal de indiferença.
'Raquel, gostavas de viver no mar?'
'Viver no mar? Acho que não. Ia ser pior que estar agora aqui. Uma seca! Lá não há nada para fazer...só nadar.'
'Eu gostava. Gostava de viver num barco. Gostava de atravessar o Atlântico de barco... gostava de dar a volta ao mundo de barco... gostava de trabalhar num barco...'
'Que seca! E ias sozinha atravessar o Atlântico?! Já viste os dias que ias demorar? Aliás, meses?'
'Pois, mas ia ser bom. Claro que ia ter saudades da minha família, dos meus amigos, mas já imaginaste não teres de cumprir regras, não teres de dar satisfações a ninguém.'
'Pois, se ainda fosses com mais alguém, podia ser bom. Agora não ter com quem falar...'-argumentou Raquel.
´Pois tagarela como tu és, ao fim de duas horas voltavas para trás. Também me podia alistar na Marinha. Podia dar mais que uma volta ao mundo, conhecer muitas pessoas, muitos povos, muitas cidades, e ....'

'Joana Martins, a navegadora solitária, chegou ao continente americano'

Com esta frase a cintilar na sua mente e a dica de Raquel, levantou-se e caminhou em direcção ao quarto de Raquel.
Raquel deixou-se ficar a ver o programa.
No final do programa, Raquel, vendo que Joana não regressava à sala, foi à sua procura. Encontrou-a sentada em frente ao computador.
'Que fazes, Joana?'-perguntou admirada com o seu silêncio.
'Estou a ver como me alistar na marinha. Quero dar a volta ao mudo, quero viver no mar, para o mar e com o mar.'
'Tens a certeza? Olhas para um quadro e decides assim o teu futuro?'
'Tenho a certeza absoluta. Podes ter também isto como certo: Eu vou alistar-me na Marinha. O meu futuro passa pelo mar!'
'Se tu o dizes!'-respondeu Raquel.
'Digo e vou fazer'-respondeu.

Na sua mente agora só havia lugar para:
'Joana Martins, a navegadora solitária, chegou ao continente americano'


domingo, 29 de março de 2009

Para lá do Futuro

Virgínia pegou no capacete e colocou-o na cabeça para mais uma sessão de programação cerebral. Era a última antes do repouso. A memória ficaria cheia com aquele módulo. Antes de passar para o seguinte teria de ser submetida a mais uma extensão de memória, a sexta desde que nascera, há vinte anos.
Mas antes disso ainda iria de férias. Estava ansiosa pelo descanso, apesar de ainda não ter programado nada.
Olhou para o monitor e, com o dedo seleccionou 2009

Começaram a surgir imagens e frases para Virgínia seleccionar.

A primeira que seleccionou foi a fotografia de Barak Obama. Deu-se início ao upload de todos os dados de Barak Obama no cérebro de Vírginia, ao mesmo tempo que uma voz ia relatando o conteúdo:

'Barak Obama, presidente dos Estados Unidos da América, eleito pelo povo em Novembro de 2008. Tomou posse no início de 2009. A sua campanha foi envolta em grande euforia e esperança, pois coincidiu com uma fase em que a economia mundial entrou em colapso. Teve a particularidade de ser o primeiro presidente dos Estados Unidos de origem Africana.'

Virginia apontou o dedo para a palavra 'Africana'. Novo upload:
'Africana, raça humana existente no século vinte e um. Características: Pele escura, cabelo preto encaracolado, nariz largo e olhos escuros'
'Raça', palavra engraçada', pensou. 'Devia ser engraçado naquela época ver as pessoas todas diferentes.


Passou o olhar pelo monitor e seleccionou a fotografia de um cão. Começou:
'Cão, animal de companhia. Vivia como Homem era estimado pela sua fidelidade. De um modo geral era usado para companhia. Forças militares treinavam-nos para operações de busca e salvamento. Era também usado para guardar rebanhos e guiar cegos.'

'Cão. Devia ser engraçado ter um cão!'

Continuou a percorrer com o olhar monitor e parou num computador azul. Apontou para ele e a voz:
' Computador. Variante Magalhães. Desenvolvido para ser utilizado pelas crianças em idade escolar. Financiado pelo governo português, que garantiu o aceso de todas as crianças a um.'

'Magalhães?! Era marca? Processador Não pode. Aquela é a época da HP, da Compaq, da Acer. Dos processadores Corel Duo, dos Pentium. De Magalhães não tenho nada no upload do pacote informático!'


Curiosa, apontou para 'Magalhães'. Começou:
'Fernão de Navegador Poruguês, nascido em 1470, que no Séc XVI, descobriu o caminho marítimo para a Índia.
Como homenagem a Navegador, foi dado o seu nome, no século XXI a um computador desenvolvido para crianças em idade escolar.'

O capacete começa a apitar. A memória esgotou-se.

É hora de tirar o capacete. Enquanto o tira, diz: 'Finalmente, descanso. Férias! Mas para onde? Já sei! Portugal 2009.

Volta a colocar o capacete. Desta vez selecciona o menu 'lazer' e diz:

'Quero marcar tele transporte para Portugal 2009. Saída amanhã e regresso daqui a 400 horas. Processar todos os dados para integração na sociedade da época.'

Tirou o capacete, levantou-se, tomou a pastilha da refeição do dia e foi-se deitar.
Sonhou com cães, computardes, navegadores, raças...

Sonhar, um sobrevivente do passado.


sexta-feira, 20 de março de 2009

A Prima Vera



‘Bom dia, D. Luísa. ‘

‘Bom dia Sr. Francisco. Está um lindo dia hoje. ‘

‘Pois está. Deve ser por a primavera estar para chegar. ‘

‘Prima Vera?! ‘ Eu tenho uma prima Vera? ‘, Pensou Ricardo enquanto a mãe falava com o Sr. Francisco da frutaria.

‘Bom dia D. Luísa, bom dia Sr. Francisco, olá Ricardinho. ‘-Era a D. Alice que acabava de chegar. -‘Está um lindo dia, o de hoje. Vê-se logo que a primavera está para chegar…’-continuou D. Alice.

‘Caramba’-pensou Ricardo-‘A D. Alice também tem uma prima Vera?! Ou será que é a mesma?’

Faltavam dois dias para a primavera. O dia estava digno da véspera da chegada da nova estação. Estava um sol radioso, a temperatura rondava os 24ºC e corria uma brisa agradável.

As pessoas andavam na rua sorridentes. Depois de semanas de chuva e frio, o sol resolvera dar o ar da sua graça, o que trouxe sorrisos ao rosto das pessoas. Até Ricardo, que ao Sábado de manhã tinha por hábito ficar em casa a ver televisão, enquanto o pai dormia e a mãe saía para fazer compras; quando acordou e sentiu o sol entrar-lhe pelo quarto adentro, decidiu que iria com a mãe à rua.

‘Bom dia Luizinha. Olá Ricardinho. Hoje vieste às compras com a mamã? ‘-era a D. Perpétua, a vizinha da avó.

‘É veio, está um dia tão bonito, que até ele quis vir comigo’-respondeu Luísa.

‘Fizeste tu muito bem. Está um dia mesmo muito bonito! Já estávamos a precisar! Deve ser da primavera estar aí a chegar! ‘-rematou D. Perpétua.

'Prima Vera. A D. Perpétua também tem uma prima Vera!? Mas a avó Celeste sempre disse que ela não tinha família! Ah, já sei, deve estar a falar da nossa prima. Afinal ela é como se fosse da família e conhece toda a família da avó...'- pensava Ricardo enquanto caminhava ao lado da mãe.

Era hábito Luísa, a mãe de Ricardo, encontra-se com as tias Ana e Margarida ao Sábado na Brasileira. Quando lá chegaram, elas estavam sentadas na esplanada.

'Bom-dia'- disse Luísa- 'Então hoje resolveram vir para a esplanada?!'

'Bom-dia. É está um dia tão bonito. É a Primavera que não quer que nos esqueçamos que ela chega hoje!'- Respondeu Ana.


'Então Ricardo, é por chegar a Primavera que resolveste vir com a tua Mãe?-perguntou Margarida.- 'senta aqui ao pé de mim'- concluiu.

Ricardo sentou-se e, enquanto as três mulheres conversavam, ele, que bebeia o leite achocolatado da praxe, ia pensando na 'prima Vera': 'Como será ela? Nova, velha. Será bonita? Porque é que eu não a conheço? Ela é minha prima, toda a gente conhece, menos eu! … E nunca veio a nossa casa!'

Tomado o café e bebido o leite achocolatado era hora de voltar para casa.

Quando chegaram a casa, Ricardo foi ter com o Pai que cortava a relva do jardim e perguntou-lhe:

'Ó Pai quando chega a prima Vera?'

O Pai desligou a máquina e perguntou ao mesmo tempo que lhe pedia para repetir a pergunta, pois não ouvira com o barulho da máquina.

'Quando chega a prima Vera?'. Repetiu Ricardo quase a gritar, sem necessidade agora, pois a maquina estava desligada.

'A Primavera? Já chegou. Chegou às 11h30m...
Ricardo sem querer ouvir mais, desatou a correr para dentro de casa, perante o ar de intrigado do Pai.

Entrou dentro de casa, pela porta da cozinha, onde a Ma~e arrumava as compras, e ia dizendo, enquanto atravessava a cozinha em direcção à sala:'Onde está ela?'

A Mãe parou de arrumar as compras, foi atrás dele até à sala, onde ele parou a olhar para todos os cantos da sala.

'Que se passa, filho?-perguntou a mãe.

'Onde está ela, mamã?'

'Ela quem?! Aqui em casa só estamos nós e o papá!'

'Mas o Papá disse que ela tinha chegado às 11h30m'!

A Mãe, surpreendida, vira-se para o Pai, que entretanto tinha vindo a dentro de casa, para tentar perceber a causa da reacção do filho.

'Ó Jorge, quem chegou às 11h30m?'-perguntou a Mãe.

'Ninguém. Não veio cá ninguém!-respondeu o Pai, cada vez mais intrigado...

'Ó Pai, eu há bocado perguntei-te se ela já tinha chegado e tu disseste que chegou às 11h30m... agora dizes quer não chego ninguém?!'

'Ó rapaz, tu perguntaste-me pela Primavera e eu disse-te que chegou às 11h30m... foi o que ouvi n rádio antes de ir lá para fora!'

'E onde está ela?'

'Ela quem?'-perguntou a Mãe.

'Vocês estão a brincar comigo. A nossa prima!'

'A nossa prima?! Mas que prima?'-voltou a perguntar a mãe.

Esse momento o pai larga uma sonora gargalhada e, entre risos, diz: 'Já percebi!'. És mesmo um patetinha! Tu não vês que quem chegou foi a Primavera, a estação do ano e não nenhuma prima nossa chamada Vera?'

A Mãe, quando percebeu, desatou também a rir e, virando-se para Ricardo, diz:'Ó Filho, é a estação do ano!'

Ricardo olha para o Pai, para Mãe, que não paravam de ir e diz:

'Pois é, a Primavera... a estação o ano!'


Ficção (da mais rebuscada) para a Fábrica de Histórias


sábado, 14 de março de 2009

Os Degraus


01 de Novembro de 1965, dia de todos os Santos. Priscila, jovem grávida do primeiro filho, começa a ter as primeiras dores de parto às 9 da manhã.

De imediato, a mãe manda chamar a parteira, madrinha e tia da parturiente, que não sendo profissional, era quem normalmente ajudava as crianças das redondezas a nascer.

A casa de Priscila, ficava no alto de 100 degraus, nas margens do rio Douro, a caminho de Entre-os-Rios, num sítio chamado Ribeira d'Abade. Da janela do quarto e da cama via-se o rio. Estava revolto e ia cheio. Dona Ema, a parteira, madrinha, tia, quando chega ao quarto, e antes de olhar para Priscila, olha pela janela e diz:

-Vai ser difícil. Vamos ter que esperar que a maré vire.
Olha para Priscila e diz:
-Minha filha, ainda vai demorar. O rio vai cheio… só quando se virem as escadas dos barcos é que a criança nasce!
Priscila arregalou os olhos, já vermelhos da dor e disse:
-Mas Madrinha, isso só lá para amanhã ao final do dia.
-Pois é minha filha, vais ter de esperar…
Luís, o marido de Priscila, homem pouco crente, diz:
-Mas tia Ema, porque diz isso, se ainda nem lhe tocou?
-Meu filho, não preciso de lhe tocar, para saber que para a criança nascer, a lua tem de mudar e quando a lua mudar a maré muda, e quando a maré mudar, a criança nasce.

-Então vai para o hospital.
-Para o hospital não!-Diz Priscila em tom de grito- Eu não quero ir para o hospital. Eu quero ter o meu filho aqui!
Ema, sem ainda ter tocado em Priscila, pega-lhe na mão, aperta-a entre as suas e diz-lhe:
-Minha filha, confia em mim. O bebé só nasce amanhã ao fim da tarde, com a ajuda da maré. Só a essa hora ele tem como sair. Agora vou-me embora e volto amanhã por volta das quatro da tarde. Agora descansa, tenta dormir, que vais precisar de todas as tuas forças amanhã.

Dona Ema era uma entendida nestas coisas das marés, dos partos e das luas. Já feito muitos prognósticos sobre partos e horas de nascimento e nunca, mas nunca tinha falhado. Se ela dizia que a criança nascia num determinado dia e hora é porque nascia. Contavam-se histórias de raparigas que tinham sido levadas para o hospital, movidas pelo desespero e impaciência e no hospital nada tinham feito. Os bebés tinham nascido no dia e na hora prevista por ela!

Dona Ema não era só de partos que sabia. Ela sabia quase todas as rezas para curar as doenças das crianças. Quando alguém tinha papeira, era a ela que recorriam para que a talhasse. E quando eram homens em idade fértil, ela sabia mais umas rezas para que ele não deixasse de ser fértil.

Sabia também talhar a ciática e cozer o fio. 'Cozer o fio', era para quem torcia o pé. Num púcaro de barro, cozia uns fio de linhaça, enrolava-os à volta do tornozelo do pé torcido e dizia uma lenga-lenga. O que é certo, é que, ou porque já tinha que passar, ou pela 'cozedura', a pessoa curava-se em poucos dias. Quando isso não acontecia, é porque não era só torcido, e então tinha de ir ao 'endireita' para ele completar o serviço!

O que era certo e sabido é que as coisas se passavam tal e qual ela dizia. E sabendo disto, a jovem Priscila entre dores e choros, foi-se tentando resignar. Luís, o marido, já mais crente na ciência médica do que na sabedoria popular, ainda tentou convencê-la a ir para o hospital, mas ela, que confiava cegamente na madrinha, não quis sair de casa.

A noite foi longa. Sempre que tinha uma contracção a rapariga olhava para o rio. À procura das escadas do barcos....que mesmo com a maré vaza não se viam da cama.

As contracções eram agora maiores, o dia começava a nascer. Priscila, tinha contado todas as horas e minutos da noite. Contava agora as da manhã, perguntando no intervalo de cada contracção se já se viam as escadas. 'Não', era a resposta. A manhã passou, a tarde chegou, o rio ia agora mais vazio, mas as escadas nem vê-las. Da madrinha, nem sinal. Tinha ido 'talhar' o tresorelho à neta da Camilinha da Calçada...

As contracções eram quase seguidas, Priscila começava a entrar em desepero. A ida para o hospital começava a ser uma hipótese. Entre gritos e gemidos, ora perguntava pela madrinha, ora pelas escadas dos barcos...

A Madrinha chegou. Olhou para ela e disse:'Agora sim, está por pouco.' Começou a pedir as coisas do costume: a água quente, as toalhas... e pediu que todos saíssem do quarto. Priscila ia ter a criança...

Luís cá fora estava nervoso. Veio até ao cimo da escadaria, de onde se pôs a olhar o rio. a corrente ia forte, os barcos baloiçavam no ancoradouro, a água batia com força na margem. Fixou o olhar no movimento da água, que parecia movimentar-se ao sabor dos gemidos de Priscila que se ouviam dali...

A corrente pareceu acelerar, Priscila berrava...Priscila deu um berro e calou-se. Silêncio, seguido do choro de uma criança. Luís deu um pulo, quando ouviu o choro da criança. Luís olhou para o rio, antes de voltar para dentro e disse: 'Os degraus!'.

Os degraus dos barcos já estavam à vista...


Foto tirada daqui

História para a Fábrica de Histórias'

domingo, 8 de março de 2009

Sou a Soraia

Quando Raquel e Cristina, naquele fim de manhã de segunda feira, saíram de casa rumo a Stuttgart, não imaginavam o que as esperava!
Amigas e colegas de trabalho, tinham sido destacadas pelo chefe para uma formação na Alemanha. Estavam felizes, até porque havia vários candidatos à dita formação e elas, por motivos que ainda desconheciam, haviam sido seleccionadas!
É evidente que se fosse pelo desempenho e competência era uma selecção merecida, mas nos tempos que correm e na selva em que vivemos, outros factores mais alto falam...
Fim de manhã de Segunda-feira, aeroporto Sá Carneiro, voo da Air France. Uma manhã de fim de Novembro, fria e chuvosa. Neve e temperaturas negativas as esperavam em Stuttgart, mas nada a que elas já não estivessem habituadas das muitas viagens feitas ao serviço da empresa. O que era mesmo novidade era o voo ser da Air France. O normal era voarem na Air Berlim ou na Lufthansa, mas por uma questão de meia dúzia de euros, a escolha tinha sido esta companhia.
O voo saiu com atraso do Porto. Havia neve em Paris e por isso não havia autorização para aterrar no Charles de Gaulle.
Foi o motivo da primeira preocupação das duas amigas, pois o tempo de espera para o voo para a Alemanhã, não era tanto quanto isso, para além de, sendo um aeroporto novo para elas, não saberem a distancia entre o local de desembarque e embarque.
O pior aconteceu, ou antes estava para acontecer, quando estavam a aterrar em Paris. Ouvem da voz do comandante: 'Os passageiros com destino a Stuttgart é favor saírem primeiro. O voo de ligação aguarda-os e está prestes a sair.'
Assim foi, elas e mais um grupo de pessoas, mal puderam, saíram do avião e em altas correrias pelo aeroporto fora, começaram a procurar a porta de embarque. No 'boarding' foram interceptadas pelos guardas que as obrigaram, a elas e aos outros, atirar botas, casacos, cintos, ligar computadores... enfim, demorar uma eternidade...o suficiente para chegarem à porta de embarque e encontrarem o funcionário da companhia de aviação a acabar de fechar a porta de acesso à manga!
Pediram para embarcar, mas a resposta foi: 'Madama il est fermé!'.

Começa aqui a grande aventura. Mandam-nas a elas e Às restantes pessoas para o balcão de reclamações da Air France, onde estava uma fila de mais de cem pessoas. Paris estava o caos. A pista estava coberta, assim como a cidade, estava coberta com um manto de neve, o que atrasava as chegadas e partidas, pois a pista tinha de ser limpa com bastante frequência...
Na fila conheceram uma rapariga que tinha vindo com elas do Porto e que também ia para Stuttgart. Chamava-se Elisabete, viva em Stuttgart e tinha vindo a Portugal ao funeral do pai. .
Dois homens, que também vinham no avião, estavam também a caminho de Stuttgart. Iam à Mercedes, comprar carros. Homens simples, não falavam mais nada para além do Português. Ao aperceberem-se de que s raparigas falavam Inglês e Cristina Francês, logo um disse para o outro: Ó Vieira, vamos atrás delas. Elas vão para o mesmo sítio e o que elas fizerem nós fazemos!'.
Quando foram atendidas, a funcionária do aeroporto limitou-se a dar a cada um dos cinco um voucher para uma noite num hotel , com jantar, pequeno-almoço e transporte de e para o aeroporto.
Os homens e a rapariga, que só tinham bagagem de mão, seguiram de imediato para o hotel. Disseram-lhes, então, que se dirigissem ao balcão de resgate de bagagem.
No balcão, a primeira resposta foi de que a bagagem tinha ido o avião para Stuttgart e tentaram passar-lhe para as mãos um kit de higiene pessoal.
As duas raparigas não acreditaram, pois a bagagem não tinha tido tempo de ser transferida...
A segunda resposta foi de que ia demorar muito tempo até que a bagagem fosse encontrada, pois andava a circular nos tapetes.
Mais um argumento que não serviu. 'Temos a noite toda para esperar! Afinal só temos voo amanhã de manhã!'
Contrariadas, as funcionárias lá deram início ao processo de resgate da bagagem, enquanto iam 'despacando' os outros passageiros com o kit de higiene. Ficaram as duas amigas e três Italianos...
Ao fim de duas horas a bagagem apareceu. Eram já quase onze horas da noite e a fome apertava. Entretanto foi preciso informar o hotel na Alemanha de que não iam naquele dia e o pior e tudo é que iam perder o início da formação...
O pior, ou antes, mais aventura estava para ir. Foram para o terminal dos autocarros do aeroporto. Todas as carrinhas que passavam, elas mandaram parar, e de todas ouviram a resposta de que aquele voucher não era para elas!Que se passava, então? A funcionária do aeroporto disse que fossem nas carrinhas?! Resolveram perguntar a m funcionário do aeroporto que aguardava um transporte. O voucher era para o autocarro do aeroporto, o autocarro que transporta os funcionários do aeroporto até a parque de estacionamento! O hotel era o Ibis e fiava entre o parque e o aeroporto. Assim foi. Entraram o mesmo autocarro que os funcionários do aeroporto. Ia cheio, quase tiveram que levar as malas no ar, tal era o aperto!
Para ajudar a paragem ficava a cerca de 50 metros da entrada do hotel e a temperatura já começava, se já não estava, negativa!
No hotel, depararam-se com a maior fila de check in que algumas vez imaginaram poder ver num hotel. Seguramente cinquenta pessoas à sua frente...

O desespero e o cansaço das duas amigas, já as começava a deixar irritadas e um pouco revoltadas. Sentiam-se enganadas e maltratadas. O embarque, a fila das reclamações, o resgate das malas, o transporte e agora o check in. Delas também começava a assaltar-lhes o receio de não terem quartos, tal era o tamanho da fila!
Quando chegou a vez delas, ainda havia quartos, para onde elas correram, mal se apanharam com as chaves na mão. O dia já ia longo, mas muito ainda as esperava. Começava por uma fila enorme de gente no restaurante, onde só viam frigoríficos, maquinas de café e mesas. Pois, tinham de escolher um prato, congelado, de cada um dos balcões, levar à caixa, onde tinha uma fila, entregar o voucher e aguardar que um funcionário descongelasse num micro-ondas!
No meio daquilo tudo, já era mal menor. Iam jantar, tomar um café e dormir!
Assim foi, jantaram e foram até à recepção, onde estavam os dois homens e a rapariga. Entretanto tinha-se juntado a eles uma segunda rapariga, de nome Soraia, que tinham conhecido na fila do check in. Soraia era a primeira vez que viajava e estava a caminho dos Estados Unidos para se encontrar com o namorado. Estava sem dinheiro, não tinha telemóvel e o cartão que a Air France lhe havia dado para telefonar havia sido danificado pelo telefone do hotel!
Sentaram-se, então os seis um bocado na recepção do hotel, enquanto Raquel e Cristina contavam as suas aventuras com a bagagem. Enquanto a conversa decorria, toca o telefone de um dos homens. Ele olha para o número e não o reconhecendo, entrega o telefone a Soraia, enquanto lhe diz: 'Deve ser para si'. Ele tinha disponibilizado o telemóvel à rapariga para que ela avisasse a família. Como ninguém havia atendido, ele achou que estavam a ligar de volta...
É quando se ouve: 'Eu sou a Soraia. Ah, pois não conhece nenhuma Soraia...' A rapariga entrega o telefone ao homem e diz:'Não é para mim...'. O homem atende , reconhece a voz e diz: 'Ó Manel, é para ti, é a tua esposa!'
O segundo homem, o Manel, fica vermelho, começa a tremer e diz:'Tu lixaste-me! O que lhe digo agora?'
'Atende lá o telefone.', diz o amigo.
O homem a medo pega no telefone e, com a voz a tremer, diz: 'Está. Ah és tu filha! A mão? Está a tomar banho? Está bem. Nós estamos em Paris. Perdemos o avião. Olha não digas nada à mãe deste telefonema. O Pai vai levar-te o carro. Levo-te um Mercedes Classe A, está bem?' Sim beijinhos'
O homem desliga o telefone, já com todos a rirem à gargalhada com o sucedido e a sua atrapalhação e ele só diz:
´Como vou explicar à minha mulher, que fui à Alemanha comprar um carro, que passai uma noite em Paris e que o telefonema de casa foi atendido por uma mulher?!
A gargalhada foi geral. O homem continuou:´ Ó Vieira, tens de me ajudar a explicar à minha mulher o que aconteceu!'
Todos pararam de rir. O assunto era sério! Afinal é uma história difícil de acreditar!