... finalmente.
(porque me atrasei a encomendá-lo).
E deu-me uma vontade enorme de voltar a trabalhar na Fábrica.
Acho que vou lá espreitar qual a 'produção' da semana.
Até já.
Nenhum homem é uma ILHA isolada; cada homem é uma partícula do CONTINENTE, uma parte da TERRA; se um TORRÃO é arrastado para o MAR, a EUROPA fica diminuída, como se fosse um PROMONTÓRIO, como se fosse a CASA dos teus AMIGOS ou a TUA PRÓPRIA; a MORTE de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do GÉNERO HUMANO. E por isso não perguntes por quem os SINOS dobram; eles dobram por TI - John Donne
‘Bom dia, D. Luísa. ‘
‘Bom dia Sr. Francisco. Está um lindo dia hoje. ‘
‘Pois está. Deve ser por a primavera estar para chegar. ‘
‘Prima Vera?! ‘ Eu tenho uma prima Vera? ‘, Pensou Ricardo enquanto a mãe falava com o Sr. Francisco da frutaria.
‘Bom dia D. Luísa, bom dia Sr. Francisco, olá Ricardinho. ‘-Era a D. Alice que acabava de chegar. -‘Está um lindo dia, o de hoje. Vê-se logo que a primavera está para chegar…’-continuou D. Alice.
‘Caramba’-pensou Ricardo-‘A D. Alice também tem uma prima Vera?! Ou será que é a mesma?’
Faltavam dois dias para a primavera. O dia estava digno da véspera da chegada da nova estação. Estava um sol radioso, a temperatura rondava os 24ºC e corria uma brisa agradável.
As pessoas andavam na rua sorridentes. Depois de semanas de chuva e frio, o sol resolvera dar o ar da sua graça, o que trouxe sorrisos ao rosto das pessoas. Até Ricardo, que ao Sábado de manhã tinha por hábito ficar em casa a ver televisão, enquanto o pai dormia e a mãe saía para fazer compras; quando acordou e sentiu o sol entrar-lhe pelo quarto adentro, decidiu que iria com a mãe à rua.
‘Bom dia Luizinha. Olá Ricardinho. Hoje vieste às compras com a mamã? ‘-era a D. Perpétua, a vizinha da avó.
‘É veio, está um dia tão bonito, que até ele quis vir comigo’-respondeu Luísa.
‘Fizeste tu muito bem. Está um dia mesmo muito bonito! Já estávamos a precisar! Deve ser da primavera estar aí a chegar! ‘-rematou D. Perpétua.
'Prima Vera. A D. Perpétua também tem uma prima Vera!? Mas a avó Celeste sempre disse que ela não tinha família! Ah, já sei, deve estar a falar da nossa prima. Afinal ela é como se fosse da família e conhece toda a família da avó...'- pensava Ricardo enquanto caminhava ao lado da mãe.
Era hábito Luísa, a mãe de Ricardo, encontra-se com as tias Ana e Margarida ao Sábado na Brasileira. Quando lá chegaram, elas estavam sentadas na esplanada.
'Bom-dia'- disse Luísa- 'Então hoje resolveram vir para a esplanada?!'
'Bom-dia. É está um dia tão bonito. É a Primavera que não quer que nos esqueçamos que ela chega hoje!'- Respondeu Ana.
'Então Ricardo, é por chegar a Primavera que resolveste vir com a tua Mãe?-perguntou Margarida.- 'senta aqui ao pé de mim'- concluiu.
Ricardo sentou-se e, enquanto as três mulheres conversavam, ele, que bebeia o leite achocolatado da praxe, ia pensando na 'prima Vera': 'Como será ela? Nova, velha. Será bonita? Porque é que eu não a conheço? Ela é minha prima, toda a gente conhece, menos eu! … E nunca veio a nossa casa!'
Tomado o café e bebido o leite achocolatado era hora de voltar para casa.
Quando chegaram a casa, Ricardo foi ter com o Pai que cortava a relva do jardim e perguntou-lhe:
'Ó Pai quando chega a prima Vera?'
O Pai desligou a máquina e perguntou ao mesmo tempo que lhe pedia para repetir a pergunta, pois não ouvira com o barulho da máquina.
'Quando chega a prima Vera?'. Repetiu Ricardo quase a gritar, sem necessidade agora, pois a maquina estava desligada.
'A Primavera? Já chegou. Chegou às 11h30m...
Ricardo sem querer ouvir mais, desatou a correr para dentro de casa, perante o ar de intrigado do Pai.
Entrou dentro de casa, pela porta da cozinha, onde a Ma~e arrumava as compras, e ia dizendo, enquanto atravessava a cozinha em direcção à sala:'Onde está ela?'
A Mãe parou de arrumar as compras, foi atrás dele até à sala, onde ele parou a olhar para todos os cantos da sala.
'Que se passa, filho?-perguntou a mãe.
'Onde está ela, mamã?'
'Ela quem?! Aqui em casa só estamos nós e o papá!'
'Mas o Papá disse que ela tinha chegado às 11h30m'!
A Mãe, surpreendida, vira-se para o Pai, que entretanto tinha vindo a dentro de casa, para tentar perceber a causa da reacção do filho.
'Ó Jorge, quem chegou às 11h30m?'-perguntou a Mãe.
'Ninguém. Não veio cá ninguém!-respondeu o Pai, cada vez mais intrigado...
'Ó Pai, eu há bocado perguntei-te se ela já tinha chegado e tu disseste que chegou às 11h30m... agora dizes quer não chego ninguém?!'
'Ó rapaz, tu perguntaste-me pela Primavera e eu disse-te que chegou às 11h30m... foi o que ouvi n rádio antes de ir lá para fora!'
'E onde está ela?'
'Ela quem?'-perguntou a Mãe.
'Vocês estão a brincar comigo. A nossa prima!'
'A nossa prima?! Mas que prima?'-voltou a perguntar a mãe.
Esse momento o pai larga uma sonora gargalhada e, entre risos, diz: 'Já percebi!'. És mesmo um patetinha! Tu não vês que quem chegou foi a Primavera, a estação do ano e não nenhuma prima nossa chamada Vera?'
A Mãe, quando percebeu, desatou também a rir e, virando-se para Ricardo, diz:'Ó Filho, é a estação do ano!'
Ricardo olha para o Pai, para Mãe, que não paravam de ir e diz:
'Pois é, a Primavera... a estação o ano!'
Ficção (da mais rebuscada) para a Fábrica de Histórias
01 de Novembro de 1965, dia de todos os Santos. Priscila, jovem grávida do primeiro filho, começa a ter as primeiras dores de parto às 9 da manhã.
De imediato, a mãe manda chamar a parteira, madrinha e tia da parturiente, que não sendo profissional, era quem normalmente ajudava as crianças das redondezas a nascer.
A casa de Priscila, ficava no alto de 100 degraus, nas margens do rio Douro, a caminho de Entre-os-Rios, num sítio chamado Ribeira d'Abade. Da janela do quarto e da cama via-se o rio. Estava revolto e ia cheio. Dona Ema, a parteira, madrinha, tia, quando chega ao quarto, e antes de olhar para Priscila, olha pela janela e diz:
-Vai ser difícil. Vamos ter que esperar que a maré vire.
Olha para Priscila e diz:
-Minha filha, ainda vai demorar. O rio vai cheio… só quando se virem as escadas dos barcos é que a criança nasce!
Priscila arregalou os olhos, já vermelhos da dor e disse:
-Mas Madrinha, isso só lá para amanhã ao final do dia.
-Pois é minha filha, vais ter de esperar…
Luís, o marido de Priscila, homem pouco crente, diz:
-Mas tia Ema, porque diz isso, se ainda nem lhe tocou?
-Meu filho, não preciso de lhe tocar, para saber que para a criança nascer, a lua tem de mudar e quando a lua mudar a maré muda, e quando a maré mudar, a criança nasce.
-Então vai para o hospital.
-Para o hospital não!-Diz Priscila em tom de grito- Eu não quero ir para o hospital. Eu quero ter o meu filho aqui!
Ema, sem ainda ter tocado em Priscila, pega-lhe na mão, aperta-a entre as suas e diz-lhe:
-Minha filha, confia em mim. O bebé só nasce amanhã ao fim da tarde, com a ajuda da maré. Só a essa hora ele tem como sair. Agora vou-me embora e volto amanhã por volta das quatro da tarde. Agora descansa, tenta dormir, que vais precisar de todas as tuas forças amanhã.
Dona Ema era uma entendida nestas coisas das marés, dos partos e das luas. Já feito muitos prognósticos sobre partos e horas de nascimento e nunca, mas nunca tinha falhado. Se ela dizia que a criança nascia num determinado dia e hora é porque nascia. Contavam-se histórias de raparigas que tinham sido levadas para o hospital, movidas pelo desespero e impaciência e no hospital nada tinham feito. Os bebés tinham nascido no dia e na hora prevista por ela!
Dona Ema não era só de partos que sabia. Ela sabia quase todas as rezas para curar as doenças das crianças. Quando alguém tinha papeira, era a ela que recorriam para que a talhasse. E quando eram homens em idade fértil, ela sabia mais umas rezas para que ele não deixasse de ser fértil.
Sabia também talhar a ciática e cozer o fio. 'Cozer o fio', era para quem torcia o pé. Num púcaro de barro, cozia uns fio de linhaça, enrolava-os à volta do tornozelo do pé torcido e dizia uma lenga-lenga. O que é certo, é que, ou porque já tinha que passar, ou pela 'cozedura', a pessoa curava-se em poucos dias. Quando isso não acontecia, é porque não era só torcido, e então tinha de ir ao 'endireita' para ele completar o serviço!
O que era certo e sabido é que as coisas se passavam tal e qual ela dizia. E sabendo disto, a jovem Priscila entre dores e choros, foi-se tentando resignar. Luís, o marido, já mais crente na ciência médica do que na sabedoria popular, ainda tentou convencê-la a ir para o hospital, mas ela, que confiava cegamente na madrinha, não quis sair de casa.
A noite foi longa. Sempre que tinha uma contracção a rapariga olhava para o rio. À procura das escadas do barcos....que mesmo com a maré vaza não se viam da cama.
As contracções eram agora maiores, o dia começava a nascer. Priscila, tinha contado todas as horas e minutos da noite. Contava agora as da manhã, perguntando no intervalo de cada contracção se já se viam as escadas. 'Não', era a resposta. A manhã passou, a tarde chegou, o rio ia agora mais vazio, mas as escadas nem vê-las. Da madrinha, nem sinal. Tinha ido 'talhar' o tresorelho à neta da Camilinha da Calçada...
As contracções eram quase seguidas, Priscila começava a entrar em desepero. A ida para o hospital começava a ser uma hipótese. Entre gritos e gemidos, ora perguntava pela madrinha, ora pelas escadas dos barcos...
A Madrinha chegou. Olhou para ela e disse:'Agora sim, está por pouco.' Começou a pedir as coisas do costume: a água quente, as toalhas... e pediu que todos saíssem do quarto. Priscila ia ter a criança...
Luís cá fora estava nervoso. Veio até ao cimo da escadaria, de onde se pôs a olhar o rio. a corrente ia forte, os barcos baloiçavam no ancoradouro, a água batia com força na margem. Fixou o olhar no movimento da água, que parecia movimentar-se ao sabor dos gemidos de Priscila que se ouviam dali...
A corrente pareceu acelerar, Priscila berrava...Priscila deu um berro e calou-se. Silêncio, seguido do choro de uma criança. Luís deu um pulo, quando ouviu o choro da criança. Luís olhou para o rio, antes de voltar para dentro e disse: 'Os degraus!'.
Os degraus dos barcos já estavam à vista...
Foto tirada daqui
História para a Fábrica de Histórias'