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domingo, 31 de maio de 2009

Emoções ao Momento

A vida em África foi dura, também. Também, porque teve coisas boas, muitas até! Fez coisas que jamais faria não fosse ser recrutado para aquela maldita guerra!

Teve a sorte de, logo à chegada, encontrar um oficial conhecida do quartel de Arca d'Água. Andava à procura de um motorista. Perfeito. O Victor tinha carta de condução. Foi requisitado para motorista da Sra D. Amélia e da filha, a menina Graça.

Teve uma vida santa, nos primeiros tempos. Levava a menina ao liceu, o que era pior parte da sua rotina. Rapariga embirrante esta, que nos primeiros dias decidiu que o só sairia do carro depois de o motorista lhe abrir a porta. O motorista achou que ela tinha mãos para abrir a porta, o que até o pai dela fazia quando era por ele transportado, e por isso decidiu que ou ela abria a porta ou não saia.

Voltou para casa. Sorte a dela ainda assim, porque a tarefa seguinte era levar a Sra D. Amélia ao cabeleireiro, senão arriscava-se a ir parar ao quartel!Perante surpresa de ver a filha chegar novamente no carro, a Sra D. Amélia perguntou o que se passava. A explicação foi igual dos dois lados: o Victor não abriu a porta. Só que Gracinha dizia que o Victor devia ter aberto. Victor dizia que só fazia ao Sr Comandante e à esposa e a esta por respeito a ser uma senhora. A Gracinha, uma garota é que não.

A razão foi dada a Victor e Gracinha teve de voltar a pé para a escola!

A Sra D. Amélia, essa tratava-o bem, muito bem. Presenteava-o com maços de tabaco, umas garrafas de cerveja e muitas vezes era convidado para jantar lá em casa.

Muitas vezes ficava com o carro do comandante. Era dia, ou antes, noite de festa. Quem o quisesse ver a ele e aos amigos era no drive in. Os porteiros faziam-lhe continência e tinha sempre direito a um lugar preveligiado.

Um dia teve de ir para o 'mato'. Tinha de ir com a companhia. Foi duro. Era época de Natal. Ia ser duro. Todos os dias tinha de ir com o jipe buscar o correio a 150 km do acampamento. Muitas vezes voltava sem ele, confessou. Tinha medo de avançar, de chegar aos sacos que eram lançados do avião.

A noite de Natal prometia ser de grande carga emocional. Para a ceia nada de especial, o costume, a não ser que… havia um cabrito que estava a ser criado para quando um graduado visitasse o acampamento. Já estava gordinho e … podia fugir! E não é que o raio do cabrito fugiu dois dias antes do Natal?

E não é que, coincidência das coincidências a ceia de Natal foi cabrito? Foi cabrito regado com vinho, muito vinho. Tanto que na tentativa de acabar com ele, foram vencidos pelo cansaço e adormeceram todos no meio do acampamento e só acordaram a meio do dia de Natal!

Foi dos piores dias de África. E dos de maior loucura… a fuga do cabrito se fosse descoberta podia valer ver o sol aos quadradinhos durante uns tempos.

A vida deles era vivida para o imediato. Muitas vezes esse imediato levava a que deixasse de haver amanhã. Um dia no quartel, na passagem das camaratas para o banheiro estava um camarada a consertar a motorizada que tinha comprado. Concerteza que seria vendida dias ou semanas mais tarde. Bastava faltar o dinheiro.

Um camarada atravessava o pátio e, em tom de brincadeira disse: 'Não percebes nada disso…'. O outro mostrou-se ofendido e : 'Ora volta lá a dizer isso!'.

Pegaram-se em palavras, até que um deles disse, ainda em tom de brincadeira, dizem eles:' Tu não te metas comigo. Olha que eu tenho uma navalha!' A navalha era um canivete, daqueles que os homens na época tinham como costume trazer junto da chaves. 'Uma lâmina de 5cm, se tanto!', disse o Victor que assistiu a tudo. O da 'navalha' abre-a e diz: 'Espeto-ta e furo-te a barriga'. O outro avança e diz:'Tu o quê?'

Foram s suas últimas palavras. Avançou mais depressa que o tempo necessário para o outro camarada tirar o canivete da direcção do coração.

Logo perdeu a consciência e se começou a esvair em sangue. Os camaradas pegaram nele, meteram-no jipe e levaram-no para o hospital. Nada pode ser feito. Chegou lá morto!

O outro camarada foi preso e os que saíram do quartel sem autorização foram julgados e com muita sorte não foram castigados.Era assim a vida em África. Emoções ao momento…

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

África...vossa

África, angola mais propriamente dita, conheço-a desde sempre... mas nunca lá fui!
Anos 60, meu pai acabado de chegar de Angola, onde cumpriu serviço militar na Companhia de Sapadores 235, com quem ainda hoje faz almoços anuais de confraternização. Nessa época éramos um país muito conservador no que toca á forma de vestir das pessoas. Homens de calça comprida, sempre, Verão ou Inverno e mulher saia ou vestido. Pois meu pai veio de lá com a mala, conta a minha mãe e eu ainda me lembro dessas indumentarias, cheia de balalaicas e calções!
Estão a imaginar agora a cara das pessoas ao vê-lo andar na rua de calções, chinelas e balalaica? 'Pois, foi de ter estado em África', diziam as pessoas da terra que o viram crescer. 'A guerra faz mal a todos!'
A ´guerra´realmente fez-lhe mal. mas não se manifestou na forma dele se vestir, mas sim no reforçar da opinião que ele tinha sobre determinados assuntos ligados à sociedade e governantes de então... que por acaso lhe trouxeram alguns dissabores!
Os que cá ficaram é que estavam mal e não sabiam, dizia o meu pai!
Sempre ouvi o meu pai a falar daquela terra como se fosse o paraíso... lembro, que desde miúda adoro ver fotografias, e então passar horas a folhear os álbuns de fotos dele de África...
A minha avó tinha um irmão que na década de vinte tinha estado em África e tinha casado com uma senhora africana. Foi a primeira pessoa de cor que conheci... devia ter uns dois anos... linda a tia Maria, uma das velhinhas mais lindas que eu já conheci... aquela pele aveludada, se bem que enrugada, claro, pelos mais de sessenta anos que já tinha na altura, num tom de castanho indefinido a contrastar com o cabelo já branco... era uma boneca!

Em 74, depois da revolução, começaram a chegar as pessoas, a que na altura chamavam de retornados. Conheci bastantes, alguns de bem perto. Tivemos um grande amigo, que comprou uma papelaria junto à nossa casa, que passava horas a contar-me histórias, reais, da vida dele naquelas terras. Quero aproveitar para deixar aqui a minha homenagem a esse amigo, que jamais esquecerei e que fatalmente voltou para África, tendo vindo a falecer lá vítima de acidente de viação. Deixou-nos cedo demais, com filhos muito pequenos, mas tenho a certeza que morreu onde queria morrer, em África. Jamais te esquecerei Luís.
Todas as pessoas que conheci vindas daqueles sítios, nunca nenhuma me falou dos lugares sonde esteve, que não fosse com saudade, saudade e saudade. Nunca lhes vi nem no olhar, nem na voz ódios. Sentiam alguma revolta, sim, mas mais por terem sido obrigados a vir embora, do que por o que lhe tinha acontecido de menos bom nos últimos tempos de lá.

A minha maior amiga, também nasceu em Luanda. às vezes estamos horas a falar de Angola... ela do que viu e eu do que ouvi... não me canso!

Uma coisa em comum todas esta pessoas também tem: querem lá voltar!

Quando entrei no mundo da blogosfera, acabei por descobrir uma quantidade enorme de blogues de pessoas que estão destacadas em África em trabalho. Claro que estão nos meus favoritos e os sigo atentamente. Ao fim de semana quando o meu pai me visita, aproveito para lhe mostra os blogues e é incrível a forma como ele se transporta para essas terras de uma forma tão imediata!... então quando há fotos, não há volta a dar... incrível como ele reconhece todas as esquinas... então o Angola em Fotos, deixa-o maravilhado!

Tudo para dizer que África é um sítio onde quero ir...com o meu pai e a minha melhor amiga.

Que inveja tenho eu de quem lá viveu!
País que nos mandou pessoas com mentalidades tão diferentes das que cá havia! E as pessoas de cá não souberam aprender nada com essas pessoas... só maltratá-las, como se elas não fossem portuguesas também!

domingo, 7 de setembro de 2008

África: Eu quero ir


O meu Pai quer voltar a África, Angola, Luanda,

Quer ir porque
tem muitas saudades do país onde viveu
Cada ano, mês, semana, dia, hora, minuto, segundo, até,
Como se fosse o último!

Quer ir porque
Foi o sitio onde ele se sentiu mais livre,

Apesar da Guerra
Quer ir porque
É uma terra abençoada! ...diz ele!

O meu Pai não quer voltar a África, Angola, Luanda,

Não quer ir porque
A minha mãe não quer ir,
A minha mãe tem medo! ...diz ele

Não quer ir porque
Tem medo,
Da emoção,
Da emoção de pisar novamente África, Angola, Luanda

Da decepção,
De não encontar A Luanda
que guarda dentro dele há 40 anos!

... mas, eu quero ir a África, Angola, Luanda,
Eu nunca estive em África mas,
tenho as memórias do meu pai,
que ao fim de tantos anos,
Já são minhas memórias também!

Eu só quero ir... e
hei-de ir a África, Angola, Luanda
E se Deus quiser
Hei-de levar o Meu Pai

Sem ele não faz sentido
As memórias estão com ele!

Vamos Pai?

Amanhã?