Maldoror, 2025. Traduções de António Cabrita e de Zetho da Cunha Gonçalves (poemas).
Ainda me vejo a pensar por que razão este tipo foi fascista, quebra-cabeças insolúvel a que volto sempre. A verdade é que pagou caro essa aventura permanecendo 12 anos, após a II Guerra Mundial, num hospício americano. Até morrer sozinho e esquecido, como Céline. Robert Brasillach, Paul Chack ou Drieu La Rochelle (suicídio antes do julgamento) tiveram menos sorte, como sabemos. Se existissem escritores e intelectuais fascistas portugueses (embora paulatinamente venham a pastorear as universidades e os media) seria muito bom que tomassem conhecimento destes tão tristes, como exultantes, acontecimentos. Terríveis, mas fruto das circunstâncias da História. O que separa os fascistas de ontem dos de hoje? Penosamente, me atrevo a dizer: faltam-lhes, hoje, aos neofascistas, os livros, o pensamento (por mais abjecto que seja) e as massas.
Já não é a primeira vez que escrevo sobre Ezra Pound, sendo que me interessei muito sobre o seu ensaio «Camões», editado pela Fenda e pelos seus «Os Cantos». Ali, pode entender-se que não se sente muito entusiasmo pelo poeta épico, exceptuando o Canto III de «Os Lusíadas», aquele que narra as vicissitudes da formosa Inês, que, segundo Pound, aproxima Camões de um lirismo poeticamente mais aceitável. De resto, Camões ainda merece algum respeito afirmando que ele tem um «estilo resplandecente e bombástico - que por vezes é poesia» (!!), embora Virgílio, Milton ou Spencer sejam completamente desancados por Ezra Pound. Neste «ABC da Leitura», que é um seguimento de «Como Ler», pensa-se que serviriam como auxiliares para as suas aulas tal é o modo como são estruturados e podemos ler, a título de exemplo, o seguinte diálogo imaginado:
«Um simples marinheiro decidiu estudar latim. O professor tentou que lesse Virgílio; depois de um número considerável de lições, perguntou-lhe algo sobre o herói.
- Que herói - perguntou o marinheiro.
- Que herói? Eneias, claro, Eneias é o herói - respondeu o professor.
- Ah, um herói, ele é o herói? Julgava que era um padre - replicou o marinheiro.» (pág.42)
Em poucas palavras e com uma simples anedota, Virgílio é ridicularizado desta maneira por uma marinheiro (de Coleridge?). Mas Ezra Pound põe-nos de sobreaviso acerca deste «ABC da Leitura» quando reconhece que «estamos muito longe de um ABC. Na verdade, alarga o panorama para estudos de pós-graduação.» (pág.89), Se atentarmos para a segunda parte do livro e para alguns trechos da primeira parte somos obrigados a reconhecer como um acertado aviso. Mas o que é interessante em Pound é que se afasta, com determinação, da postura académica com que os estudos sobre literatura são formatados ainda hoje.
Quando se fala da sua infeliz escolha política durante a II Guerra Mundial, esta torna-se relevante quanto Ezra Pound pertenceu e fundou movimentos que trouxeram com eles o melhor que a modernidade (conceito que não me é muito caro) deu: são eles o movimento Imagista e o Vorticismo ainda durante o período da I Guerra e logo depois («A imagem não é uma ideia. É um nó ou um enxame radiante; é o que posso, e necessariamente devo, chamar um Vortex, do qual, e através do qual, as ideias constantemente se precipitam»). Mas compreendemo-lo melhor se repararmos nas questões que levanta sobre o uso das palavras, os «elementos puros da literatura»: «Os bons escritores são aqueles que mantêm a eficiência da linguagem, i.e., aqueles que conservam a precisão e a clareza. Importa pouco que um bom escritor queira ser útil, ou que o mau escritor atente apenas em fazer mal. (...) A linguagem nebulosa das classes fraudulentas só está ao serviço de objectivos temporários.» (pág.29) Este despojamento de adjectivos inúteis ou de gongorismos que Pound detesta levou-o ao estudo da língua e escrita chinesas e japonesas (ele era um verdadeiro poliglota e também deu aulas de grego e latim na Pensilvânia e em Londres) debruçando-se sobre a relação entre o símbolo e o desenho, tal como a imagem (fanopeia), a melodia e o ritmo na poesia (melopeia) e a junção destes dois conceitos na logopeia. O estudo profundo que Pound realizou com a escrita chinesa e a língua grega (principlamente com Homero da Ilíada) levou-o a afirmar:
«Não obstante, o máximo de fanopeia (projecção de uma imagem visual na mente do leitor) foi sem dúvida alcançado pelos chineses, em parte devido ao seu sistema de escrita particular.
Nas línguas que conheço (o que exclui a persa e a árabe) o máximo de melopeia foi atingido pelos gregos; sublinhem-se também certos desenvolvimentos no provençal que não se encontram no grego, e que configuram um tipo distinto da do grego.» (pág.40) Digno de nota é o seu interesse pela poesia provençal, pela melopeia, facto que não quer afastar da poesia.
Este livro é claramente um amigo do leitor, mesmo que por vezes o seu papel seja convenientemente posto em causa por outros motivos que não seja o do acto solitário de ler:
«O conceito de genialidade como parente da loucura foi cuidadosamente alimentado pelo complexo de inferioridade do público.» (pág.80)
O que não significa que a genialidade, se quisermos utilizar o termo para um bom poeta, não tenha que seguir algumas normas bem explanadas neste «ABC da Leitura». É uma das razões que me levam a afastar-me irremediavelmente de alguns poetas de hoje que da técnica fizeram letra morta. Esta dita verdade, fez com que um Ezra Pound que contactou com o movimento dadaísta, que fundou o Imagismo e o Vorticismo, este com Whyndham Lewis (há um livro da Deriva sobre eles), não tenha descurado a importância da métrica, da composição do soneto e do verso jâmbico, da poesia provençal e dos poemas chineses e japoneses, dos poemas medievais da imagem e do som, do ritmo e da harmonia, fosse ela melódica ou decomposta. É este o tema da segunda parte de «ABC da Leitura» e, subitamente, vemo-nos a dividir a métrica de um Chaucer na sua língua original, de um soneto de Shakespeare, de um Pope, de um Browning, de um Crabbe ou de um Rimbaud, entre muitos outros que Pound aqui nos traz. Tudo na versão original ou na tradução dos poemas para português por António Cabrita e Zetho da Cunha Gonçalves de quem não gostaria de estar na pele, acreditem, tal o trabalho a que foram sujeitos!
«A má poesia é idêntica em todas as línguas. O que os chineses chamam a ''poesia pó-de-arroz'' pouco difere do que na Europa se chamava a ''arte de Petrarquisar''.» (pág.194) ou ainda:
«São mais os escritores que fracassam por falta de carácter do que por falta de inteligência. A solidez técnica não se alcança sem pelo menos alguma persistência.» (pág.222)
São estas as duas últimas frases em forma de aforismos que vos ofereço deste livro que consideraria imprescindível se houvesse ainda alguma hipótese de exercer influência para uma bibliografia honesta de um curso de crítica textual ou simplesmente de literatura.
Ezra Pound morre em Veneza, em 1972.
alc