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quarta-feira, novembro 27, 2024

Islenha 74. Uma revisitação a António Barros

Revista Islenha 74
A revista Islenha lançou este número semestral (de Janeiro a Junho de 2024) quase inteiramente dedicado a António Barros. Extremamente bem elaborada,  belíssima graficamente, com dados importantíssimos sobre o trabalho do autor ao longo de mais de 50 anos e que (nos) chama a atenção para um percurso singular que remete António Barros para um dos mais construtivos e provocadores artistas que está connosco. Baseado no seu trabalho «Florigen, 2005» escreve o autor/artor logo no início da revista:

«A escultura - em modo de objecto-livro - «Florigen,2005», elege o florescimento das plantas como pólo de reflexão sobre a conjugação: electricidade_energia_luz, e o seu caminho recíproco: luz_energia_electicidade. (...)
«Florigen, 2005» teve a primeira apresentação pública em What is Watt?, edição de 2005, no Museu de Arte Contemporânea Fortaleza de São Tiago, no Funchal. Depois em Coimbra na Casa da Escrita; no Círculo de Artes Plásticas_CAPC; e finalmente em: «da flor, esse rosto de esGrita», na Casa Museu Bissaya Barreto em 2024, enunciando-se como elegia ao museófilo, coleccionador de orquídeas, Alfredo Gomes de Barros, na celebração do centenário do seu nascimento.»

Explica-se que Alfredo Gomes de Barros é o pai de António Barros, como, aliás, é explicado por Isabel Santa Clara e Augusta Villalobos nas páginas que se seguem a esta apresentação tão clara, quanto necessária e global sobre o trabalho do autor. Aí, lê-se em alguns extractos que vos dou a conhecer:

«O conceito científico de florigen [António Barros cita o trabalho, de 1937, do cientista russo Mikhail Chailakhian] remete para o florescimento, metamorfose e maturação das plantas, em resposta à luz. Longe de ser um processo solitário, propaga-se, em convivialidade, gerando, em múltiplo jogo de espelhos, todo um jardim florido, pleno de vida. Uma festa para os sentidos e para a alma. Expandindo este conhecimento e esta sensibilidade, numa abordagem humanista percebemos florigen como uma metáfora da Vida, e da Arte. De uma Arte-Vida-Arte para a Elevação da Pessoa-Natureza. logo, da Sociedade e do Planeta. Tal é o desígnio de António Barros.» (pág.10)

Sobre o processo de construção das exposições de António Barros, Augusta Villalobos e Isabel Santa Clara apresentam-nos a seguinte ideia que, para quem já presenciou as exposições de António Barros, não pode deixar de se rever nestas palavras:

«Nos diversos momentos de mostra do seu trabalho num registo de fisicalidade - coisas reais, pessoas reais - António Barros proporciona uma vivenciação do espaço expositivo convertendo-o num lugar habitado, e habitável, convidando a que seja habitado em convivialidade: um muSeu que seja seu.
O próprio processo de construção de uma exposição constitui uma temporalidade privilegiada de diálogo com o Outro, sejam referentes de contaminação mais distanciados, sejam presenças próximas que o acompanham e contribuem directamente para a criação, ou - e de modo particular - o público, conceito que procura desconstruir e reinventar. Muito na linha Fluxus, a Arte como Processo. Para a universalidade.
O autor, que prefere assumir-se como artor, sempre captou a importância do lugar habitado numa exposição, e do modo de dar a ver, procurando através da semiótica da instalação e do rigor na montagem valorizar a especificidade e a densidade de cada peça, as afinidades e os confrontos. Os actos performativos encarnam de modo mais premente a delicadeza e a mutabilidade dessa habitar.» (pág.18)

O preço desta revista é de 15e e podem pedi-la para 

alc

segunda-feira, setembro 23, 2024

Folha de sala da exposição de António Barros «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois»

 

Extracto de um artigo meu sobre o trabalho de António Barros.
Folha de sala da exposição «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois».
Setembro de 2024

Exposição de António Barros na Galeria dos Prazeres - «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois»

Pratiquei a deriva na Ilha da Madeira, embora de dia, embora de automóvel, embora consciente. Portanto, totalmente ao contrário da verdadeira teoria da dita deriva que se quer à noite, a pé e com eflúvios libertadores do real vivido. Fui ver, como não poderia deixar de ser e tendo a oportunidade de estar com gente funchalense boa, disponível e interessada, a exposição de António Barros «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois». Até 28 de Outubro, podem vê-la num local extraordinário que é a freguesia dos Prazeres pertencente ao Concelho da Calheta. Sem pretender ser nenhum guia turístico (arreda!), aconselho o bife de atum e o bacalhau confeccionado nos restaurantes circundantes, para além de uma digestão necessária na casa de chá (mais que premiada) da vizinha Quinta Pedagógica dos Prazeres que, juntamente com o Mudas, Museu de Arte Contemporânea da Madeira, também foi um dos apoiantes desta exposição do António Barros. Portanto a freguesia faz jus ao nome. O mar, esse, sempre presente.

O que encontrei nesta exposição de António Barros foi uma grande coerência e uma inquietação indisfarçável. A dependência que se criou, na sociedade portuguesa, perante a sociedade de consumo, paradoxalmente exponenciada após o 25 de Abril de 1974, elevando igualmente à liberdade a economia especulativa, produziu em António Barros, uma intervenção poética denunciadora da ignorância na educação e no pensamento crítico, na política vazia de propostas, nos cérebros formatados, na incapacidade de ler e de se ser entendido. Na inexistência, igualmente, de uma linguagem libertadora. É aqui que a escravatura reaparece que aponta paulatinamente o caminho da humanidade sem que esta se aperceba da tra(u)ma que a envolve. A figura tutelar de Frantz Fanon surge então como metáfora última dessa mesma possibilidade de libertação da escravatura, mas igualmente a escrita à mão do artista/poeta e os objectos que atingem uma necessidade imperiosa de serem interpretados como liberdade que nos é ainda inerente. Se puderem não percam esta exposição e será muito pedir que ela (re)volte ao continente? Será pedir muito que ela seja debatida em espaços educativos e museológicos nos meses que ainda faltam para o término dos 50 anos do 25 de Abril ou mesmo depois do número redondo?

Deixo-vos com uma trecho de Augusta Villalobos e Isabel Santa Clara inserida na folha de sala de «Escravos.Insulae_Do 25 de Abril, 50 anos depois»: 
«Em contexto expositivo, as peças relacionam-se entre si e relacionam-se com as pessoas reais que por elas passam. Um encontro que pede para ser prolongado e aprofundado a posteriori (...). Para além da exposição como escrita, a escrita em torno da (ex)posição. Convite à leitura, desde o próprio espaço visitado. Um espaço_livro habitável. Uma arquitectura do livro_livre (AB, esGritar, o VERbo, 2024). Modos instrumentais para explorar com uma leitura alternativa, essa, geradora de descobertas múltiplas (AB, da flor, esse rosto de esGrita, FBB, 2024.). (...) Numa vascularização, por osmose discursiva, alimentando o diálogo convivial e o fórum gregário. (...) Resgatando a pessoa da condição de espectador [cobarde ou traidor - Frantz Fanon]. Numa implicAcção.»

Algumas intervenções de António Barros na Galeria dos Prazeres, na Madeira

domingo, junho 09, 2024

Revista Triplov. Deriva



Eis um mapa dos navegantes das Ilhas Marshall. As suas derivas eram cartografadas em rotas apontadas para as estrelas do céu. Nunca se perderam nos mares, ao que consta. A Deriva Editores criou-se em 2003 acompanhada por um mapa que obrigava à atenção inconformada dos que não tinham voz ou era tão ténue que mal se ouvia. Foi assim a partida para o largo: recusa de mais literatura anglo-saxónica já de si excedentária nos escaparates e dar voz às literaturas minoritárias com a Galiza, o País Basco, a Bretanha, a Irlanda, a Catalunha, a Áustria, a Argentina. Foram realidades que nos obrigaram a um equilíbrio onde os factores se cruzavam literariamente do bom ao excelente, da luta política autonómica ou independentista, até à denúncia das majestosas democracias europeias que não escondiam a sua tendência centrípeta de engolirem as incómodas culturas minoritárias e lançarem para o ostracismo as riquíssimas línguas periféricas. Alguns pagaram com encarceramentos duradouros a sua ousadia como o basco Anjel Rekalde (20 anos de prisão) «Dorregarai – A Casa-Torre», o francês Jean-Marc Rouillan, (prisão perpétua) «Odeio as Manhãs», os americanos John Zerzan (organizador das manifestações de Seattle) «Futuro Primitivo», Peter Lamborn Wilson (Hackim Bey, o seu nome muçulmano) «Utopias Piratas», o bretão Patrick Raynal «Ex», o escocês a viver na Bretanha, Kenneth White, este último o criador do movimento geopoético e autor de «O Espírito Nómada», os galegos Antón Riveiro Coello «As Rolas de Bakunine», Xurxo Borrazás «Ser ou Não», Xavier Queipo «Bebendo o Mar» ou Gonzalo Navaza «Erros e Tanatos». A edição de «A Mobilização Global, seguido de Estado-Guerra» do catalão Santiago López-Petit veio apresentar a política notívaga de subversão contra o Estado na senda de uma verdadeira tentativa de propor as várias possibilidades de insubmissão permanente. «O nómada que existe em cada um de nós como uma nostalgia, como uma potencialidade, não tem a noção de identidade pessoal, a «consciência de si» é-lhe estranha. Sem dizer «penso» ou «sou», põe-se em movimento e a caminho faz melhor do que «pensar», no sentido denso da palavra, enuncia, articula um espaço-tempo de múltiplas focalizações que é como que um esboço do mundo. O movimento nómada não segue uma lógica rectilínea, com um princípio, um meio e um fim. Tudo aqui é meio. O nómada não segue para qualquer lugar, e para mais em linha recta, mas evolui num espaço e regressa muitas vezes às mesmas pistas, iluminando-as e talvez, se for um nómada intelectual, com novas luzes.» Kenneth White «Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade.» Santiago López-Petit Antes, em 2006 e 2008, publicou-se com Vicente Romano, «A Formação da Mentalidade Submissa» e «Intoxicação Linguística» dois livros que denunciam os media como o alfa e o ómega na formação do indivíduo amorfo, narcisista, muito bem com ele próprio e com a sociedade que o escraviza e que, como bom obediente, o aceita, feliz. O escravo que tem orgulho em sê-lo: «A consciência indiferenciada corresponde à vida sentimental estereotipada. O pensamento mágico acrítico, gera uma consciência conformista, submissa. O que significa deixar por mãos alheias a solução dos problemas próprios, situação em que tudo pode ser facilmente manipulado por esses interesses estranhos. Aí radica o perigo de passar as rédeas dos assuntos pessoais para as mãos dos especialistas ou do novo credo académico. Autodeterminação significa, antes de tudo, libertar-se da angústia e ganhar consciência das determinações impostas por terceiros, para conseguir ultrapassá-las.» Vicente Romano De resto, as coisas fluíam e mais tarde, em 2014, com a edição de «Manual de Sabotagem – Escritos sobre política, memória e capitalismo», de Elfriede Jelinek, tão nobelizada, quanto esquecida e ostracizada na sua própria terra, a Áustria (em Viena, em três livrarias de referência não encontrei um único livro dela), conseguiu-se dar voz a esta autora única do desencanto germânico, afirmando que nunca a Alemanha ou a Áustria do Anchluss conseguiram ultrapassar o nazismo. Não só a culpa, mas o nazismo tal qual. Ele subsiste ainda, vivo. Nos anos 80, suicidaram-se vários operários na fábrica da Peugeot em Sochaux. Editou-se, em 2014, «Crónicas Peugeot» do sociólogo Michel Pialoux em conversas com o operário Christian Corouge, de modo a denunciar o trabalho demente porque repetitivo, mesmo na cadeia robótica que despontava: «Não sei se algum dia partirei da fábrica. Porque vou contar-te uma coisa perfeitamente parva, mas... há um ano, estivemos uma semana no desemprego, mesmo antes das férias, portanto isto dava cinco semanas. Ao fim de quatro semanas de férias – estávamos perto de Cherbourg – já não dava mais. Estava a bater mal lá. Estava a bater mal, fui obrigado a vir embora. Sabes, uma espécie de necessidade masoquista. Não estava bem. Quatro semanas, tudo bem, vês: recuperas fisicamente, fazes o ponto da situação na tua cabeça, tudo bem, descontrais... e depois, dizes para contigo: ‘O que é que me espera quando regressar? Portanto preciso de voltar. Preciso de voltar para ver, para estar ali porque... começo a estar farto das férias, começo a andar às voltas. Ando aqui a coçar os tomates, tenho que bazar’. E foi o que nos aconteceu. Viemos embora uma semana antes. Demos cabo de uma semana de férias para vir embora. Precisava de ir ver a fábrica durante as férias, vês, quando a fábrica está parada. Ir diante da porta e dizer para comigo: ‘Merda, mas como é que a gente vai fazer para desmontar esta coisa?’ Fazer isto... Crónicas Peugeot, de Michel Pialoux e Christian Corouge. Nesta mesma colecção aparecem nas livrarias pela mão da Deriva uma obra de Wittegenstein, «Observações sobre o Ramo Dourado de Fraser» nunca editado neste canto europeu e outro de Mikhail Bakhtin «Para uma Filosofia do Acto». A poesia e a narrativa acompanharam-nos durante os 15 anos de existência, com resultados tão desconcertantes e algo equívocos, como reveladores. Realça-se somente os que se considera terem sido os poetas verdadeiramente genuínos e que entenderam, desde o início, que um editor não é exactamente um promotor no mercado, muito menos do mercado literário ou de gestão de egos excêntricos. Aqui vão os que de uma maneira ou de outra deixaram registadas as melhores páginas e de doces lembranças em vários livros editados que marcaram uma época própria: José Ricardo Nunes, Ricardo Gil Soeiro, o já falecido Joaquim Castro Caldas com o seu «Mágoa das Pedras», Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida, Marilar Aleixandre, João Pedro Mésseder, Henrique Manuel Bento Fialho, António Alves Martins, Pedro Eiras, Maria Leonor C. Figueiredo, entre outros. A parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa deu-nos livrinhos da colecção Pulsar onde sobressaíram nomes como Sarrazac, Pascal Quignard, Antoine Compagnon, Anselm Kiefer, Carlo Ginzburg, Olivier Py, Jean-Claude Pinson, Stephane Mallarmé com o seu «Crise de Versos», Wyndham Lewis e os Manifestos Vorticistas. Também se editaram estudos literários sobre Annemarie Schwarzenbach, Max Frisch, Kafka, Coleridge ou Stevenson. «G. Agamben assinala que desde Miguel Ângelo o inacabamento é teimosamente exaltado pela arte e que se pode explicar este gosto por uma espécie de prazer derivado do fetichismo. Schlegel mostrava que, como as obras que admirávamos mais - quer dizer, desde a Renascença, as obras da Antiguidade - tinham chegado no estado de fragmentos, as obras dos modernos procuravam assumir esse estado logo ao nascerem, imputando o fascínio que exercem à fragmentação e julgando que estes pedaços, que evocavam totalidades indizíveis e ausentes ao provocarem o desejo do todo, ampliavam a emoção.» Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos, Pascal Quignard «A autodestruição foi sempre a finalidade mais íntima, a mais sublime da arte, cuja vaidade se torna desde logo percetível. Pois, qualquer que seja a força do ataque, e mesmo que tivesse chegado ao limite, a arte há de sobreviver às suas ruínas. (…) O Colégio de França convidou um artista plástico na esperança, presumo, de que vos fale de arte, vos informe acerca do que é a arte, demonstre a sua origem. Dir-vos-ei que não há definição da arte. Toda a tentativa de definição se desfaz no limiar do seu enunciado, tal como a arte, que não deixa de oscilar entre a sua perda e o seu renascimento. Nunca está onde contamos com ela, onde se espera apreendê-la e, referindo-me ao Evangelho segundo São João, direi: ‘Onde estiver, não o podemos alcançar’.» A arte há de sobreviver às suas ruínas, Anselm Kiefer Seguiu-se, pois, a denúncia com mais parcerias, agora com os livros editados com a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique e com a Cultra, uma cooperativa cultural alternativa do Porto onde se editou Regina Guimarães com um libelo contra as chamadas «indústrias culturais», seja o que isso for. Mas é com uma intervenção, em Julho de 2016, no último livro que se editou pela Deriva, «Cidades Materiais», de António Alves Martins, que talvez esteja plasmada toda a génese, leitmotiv e o fim anunciado da Deriva. Não por acaso, reside nesta declaração tudo o que levou à sua criação e ao fim da editora e que exponho uma parte significativa: «Em meados dos anos 80, tínhamos todos 20 e tal anos. Miúdos da Faculdade de Letras que dizíamos abominar, sob a fórmula de palavrosas parábolas coimbrãs: ‘faça-se luz, incendeie-se a universidade!’. A verdade é que nos foi ensinado muito mais nos cafés adjacentes à Praça da República onde o prazer de falar, de conhecer e de debater era superior a tudo. Com algumas substâncias e segmentos aditivos que o facto de já terem prescrito, e apesar de uma louvável loucura que contrastava por vezes com imprevisíveis depressões, não me fazem aqui desenvolver e muito menos pormenorizar, por irrelevante. O agir concreto apareceu com o convite para fazer parte de um colectivo editorial da Centelha, e, mais tarde, da Fora do Texto. O espírito da revolta. In girum imus nocte et consumimur igni, o último filme de Debord realizado em 1978 e editado finalmente em 1981, com peripécias várias que, mais tarde, inclusive, levaram ao assassinato do editor da Champ Libre, Gerard Levobici (não foi o único), constrói a ideia do consumo e da alienação como alfa e ómega do capitalismo em fase de mutação para a pós-modernidade. Esta frase latina atribuída a Virgílio é a descrição real do que nos levou à deriva nocturna e à necessidade imperiosa de lutar contra a alienação do público que nos olhava de soslaio. Consumimos a noite e pegávamos-lhe fogo mesmo com acendalhas já usadas por outros. Creio não me enganar que entre blusões negros e echarpes negras ou canadianas verdes militares, construímos à nossa maneira um fogo permanente que nos devorou igualmente na ânsia da revolta e na dramatização do sem sentido de uma vida quotidiana que negávamos. Recusávamos o tédio. Recusávamos a mercadoria, recusávamos qualquer valor de troca. Preferíamos a poesia e o pensamento como as únicas vertentes que não se podem domar. E o amor. Esse, sempre presente no fogo quotidiano em que geríamos a noite em chamas. As chamas, essas, devoraram-nos? É possível, mas nas regras do Potlacht primitivo, este com coincidências inquietantes com o cristianismo também ele primitivo, quem perde ganha, quem ganha, perde. A noite consumiu-nos, sim, mas com a voragem da revolta romântica. (…) ‘Numa sociedade invertida, o verdadeiro é o momento do falso’. Isto foi dito em 1967 e corresponde a uma realidade já indesmentível e com contornos que o seu autor, Debord, provavelmente, não imaginaria na enorme dimensão espectacular que nos rodeia hoje. Assim, se nenhum movimento reivindicativo da arte revolucionária foi superado desde 1916 com Dada, esta tornou-se uma mera mercadoria, que vale o que vale consoante o valor das trocas. Nos anos 80, vivia-se por toda a Europa a ressaca dos anos de chumbo criados por Andreas Baader e Ulrike Meinhof que proclamava em livro ‘vocês falam do tempo, nós não!’ e pelas Brigadas Vermelhas de Renato Curccio na Itália, estas últimas teleguiadas, como se soube, pela polícia secreta. Tudo isto gerou uma impossibilidade poética, uma forma de ver a política e de destinar uma vida quotidiana não marcada pelo tédio e pelo aborrecimento, ou, se quiserem, pelas cadeias infernais do trabalho. Mas como promover isto mesmo numa sociedade alienada pelo medo, pela vingança dos anos pós-Prec e pelo espartilho terrorista no Portugal mesquinho dos anos 80 e da recuperação yuppie? Foi a altura também dos anos criadores e libertadores do rock com o aparecimento de Johnny Rotten, dos Clash, de um Lou Reed já sem os Velvet Underground, do Bowie tornado pop, de Ian Curtis dos Joy Division e depois com os New Order, de Iggy Pop, de trautearmos Jim Morrison pelas ruas desertas de Coimbra e aclamando o Jazz, recuperando para nós o be-bop e o free como forma de dizermos: ‘Falem do tempo, falem do tempo, nada temos a ver convosco!’ Aderimos à arte contemporânea e às possibilidades do vídeo, do teatro e da performance sendo que estas foram, exceptuando alguns, poucos, casos rapidamente recuperados. Identificávamo-nos pela música e pela deriva. A deriva consubstanciada todos os dias numa cidade que cada vez mais se tornava um labirinto de cimento corbusiano. A deriva que aqui se fala é a de Thomas de Quincey que, nas suas «Confissões de um Opiómano Inglês», tradução forçada, diga-se, afirmava haver uma rede subterrânea, marginal, na cidade de Londres, não cartografada pela polícia e pelas instituições políticas. Era terreno livre. Os dadaístas, os letristas e os surrealistas e muito mais tarde os situacionistas praticaram-na na forma de desconstrução da palavra e da deambulação livre em corredores libertários. Na construção de situações irreversíveis. Mas sem se superarem. Precisamente: o verdadeiro aqui, não superou o falso. Assim, toda a deriva que realizámos, muitas vezes sem sentido, nas ruas e becos nocturnos, só teve consequências na construção de mercadorias irrevogáveis: os livros e as ideias que eles trazem. O teor do que são feitos. A forma. A cadência e a recusa da «inovação». Até porque, sabemo-lo, quando o patrão exige inovação, o escravo honesto é o primeiro a proclamá-la.» Nunca quisemos aderir à escravatura. António Luís Catarino, Abril de 2024

Revista Digital Triplov. Este número: «As Vanguardas», sob a responsabilidade de António Barros

https://triplov.com/revistaTriplov/

Este é um dos números da Triplov que devem guardar. Revista de arte e opinião digital, este que vos apresento é da responsabilidade de António Barros. O índice das intervenções estará presente logo de início, mas atentem no cuidado gráfico, nas ilustrações e trabalhos de artistas que povoam este número obrigatório de leitura cuidada. O tema: «As Vanguardas».

quinta-feira, outubro 27, 2022

JORNAL MAPA: Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

Coimbra: uma metáfora esquisita num país esquisito: o massacre de 663 árvores à vista de todos

SÁBADO, 22 OUTUBRO 2022

As obras do Metro Mondego, um elétrico articulado que se propõe circular na cidade de Coimbra e chegar a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, ameaçam abater 663 árvores no seu trajeto. O mesmo trajeto que um comboio assegurou durante dezenas de anos e que, sem ser articulado, não precisou de abater árvores nenhumas.

No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. Podia ler-se no Jornal Público que «a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro informou que na estação do Instituto Geofísico do concelho de Coimbra foi registada uma concentração média horária de 188 microgramas por metro cúbico de ozono no ar, afetando quem se encontra nas freguesias de Almedina, Santa Cruz, São Bartolomeu, Sé Nova, Eiras, Santa Clara, Santo António dos Olivais e São Martinho do Bispo», isto é, na maior parte da cidade. Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!). Afinal, não eram só os «vulneráveis» que estavam em perigo, como dizia o comunicado da CCDR do Centro. Repentinamente tornámo-nos todos vulneráveis: éramos todos velhos, crianças e portadores de doenças graves. Isto não é novo numa cidade virada exclusivamente para o automóvel que é dono e senhor das vias apertadas e das avenidas onde se acelera muito para além dos 40 ou 50 km/h, em que os peões são tidos por inimigos e os ciclistas são vistos como seres anormais que devem ser apertados e apartados das estradas e vias urbanas. Por isso apita-se, insulta-se e manobra-se contra o peão e o ciclista. As ciclovias, com alguns troços partilhados com peões, são um perigo porque se partilham igualmente com automóveis em dois sentidos, têm curvas a 90 graus e escorredores pluviais onde se enfaixa com facilidade um pneu de bicicleta. Azar para o ciclista! Tal como o estacionamento: caótico é pouco para o descrever como, aliás, pode atestar quem conduz um carrinho de bebé, uma cadeira de rodas, seja ela mecânica ou elétrica, ou mesmo os estudantes com os carrinhos fanados nos supermercados completamente ébrios de praxe e de álcool marado.

O ICNF e os massacres de inverno e de verão

No início de 2021, a senhora responsável pelo ICNF convoca os jornalistas para a Mata do Choupal. Eles comparecem. Logo a seguir a senhora fala e eles ouvem. Proclama, na sua pusilanimidade, o vigoroso Plano de Recuperação da Mata do Choupal que, para admiração de muitos dos seus utentes, não necessitava de plano nenhum, muito menos de recuperação. Mas, sendo um espaço verde e havendo o dinheiro do PDR para gastar, havia que solucionar um problema inexistente. Anunciam-se 98 mil euros e a plantação de 5000 árvores cujas espécies a senhora não soube identificar, nem tampouco a sua numerosa comitiva. Até hoje não se sabe que espécies eram, mas plantaram-se em março, mesmo com avisos sérios de que as árvores não iam aguentar serem plantadas em plena primavera. Hoje o Choupal mirrou. As plantas secaram e a erva rasteira vingou abafando as plantadas. Ficaram as canas espetadas que as haviam de suportar e grandes clareiras. Por falar em canas, outra das matas mais conhecidas de Coimbra, Vale de Canas, também teve a sua intervenção podando à toa, desmatando e, até certo ponto, impedindo a sua regeneração natural. Aliás, as podas de árvores completamente dementes são um ex-libris das autarquias da região de Coimbra, ainda que obriguem a regas e enormes gastos de água que não aconteceriam de outra forma. Também os relvados caríssimos e de regas constantes pertencem a um novo-riquismo conimbricense que, como é evidente, não se revê em ervas naturais que não necessitam de água e que alimentam abelhas e outros insetos que não são nocivos. Sobre este aspeto, leia-se o agrónomo Vasco Paiva que tem denunciado sistematicamente a política incompetente das várias câmaras da região de Coimbra: «Em Coimbra existiam muitas plantas espontâneas de sabugueiro que foram erradamente eliminadas em ajardinamentos públicos. Chega-se ao disparate de se eliminarem muitas plantas e flores silvestres espontâneas porque acham que é preciso limpar… Exemplos de espécies nativas para os nossos jardins? Aqui vão alguns: alecrim, alfazema, erica, madressilva, medronheiro, murta, pascoinhas, pilriteiro, rosmaninho, sabugueiro e tantas outras. Já imaginaram os cheiros, as cores, as pequenas aves que se vão alimentar dos seus frutos?».

É evidente que para o poder autárquico isto é completamente absurdo. Os relvados e os vasos de flores com as cores da bandeira em rotundas da cidade são muito mais tocantes na psique dos automobilistas e dos funcionários da câmara.

No dia 9 de julho de 2022, Coimbra atingiu um recorde notável: ultrapassou os limites de ozono que podem causar sérios problemas de saúde aos seus habitantes. (…) Arredondando levemente o problema, aconselhavam a que não se fizesse exercício físico ao ar «puro» (que é como quem diz!).

Entra em cena a novel Câmara de Coimbra

A Câmara de Coimbra tem como presidente José Manuel Silva, que capitaneou a coligação «Juntos Somos Coimbra». Logo antes das eleições, um terço dos seus membros independentes saíram para dar lugar a um verdadeiro albergue espanhol que já apontava, por isso mesmo, para uma espécie de ditadura pessoalista e presidencialista. A coligação tem apoios do PSD, CDS, Nós Cidadãos, RIR, PPM, Aliança e Volt. Sete partidos que na maior parte não conheciamos nem tinhamos ouvido falar e que arredaram um PS arrogante, igualmente pessoalista e incompetente. Mas não nos fixemos na política partidária, embora ela explique esta propensão do senhor ex-bastonário da ordem dos médicos para se olhar a si próprio como imprescindível na corrida para uma cidade em vias de sufocar ainda mais.

Vale a pena fixarmo-nos no Diário de Coimbra de 23 de setembro (o abate de árvores iniciou-se a 12!) para conhecer os autos de consignação e o protocolo de todas as obras do Metro Mondego inseridas no Sistema de Mobilidade do Mondego (SMM), em que a Metro Bus apresentará um «elétrico articulado» que irá «servir» a cidade e que chegará a Semide, passando por Ceira, Miranda do Corvo e Lousã, tal como um comboio o fez durante dezenas de anos, servindo populações diariamente até interesses inconfessáveis o terem banido, levantando as linhas e deixando as populações à mercê de um serviço rodoviário com estradas repletas de centenas de curvas e muito mais morosas! A verdade é que, nessa ocasião, se constituiu uma empresa durante perto de 30 anos que serviu para nada fazer em prol das pessoas, mas mais que pródiga em ordenados chorudos de ceo’s que se iam alternando conforme os interesses partidários.

Ora, o presidente da câmara de Coimbra resolveu apresentar o plano no único barco turístico do Mondego como o nome muito acertado de «Basófias» (!!), chamando os jornalistas com pompa e circunstância, não fosse o facto anedótico de o barco encalhar em plantas aquáticas invasoras que se meteram no sistema de propulsão do barco! A planta (qual metáfora embainhada a tempo) é a elódea-africana que coloca em risco toda a biodiversidade autóctone do rio e das margens. Mas o projeto não encalhou, tal como a dobragem do Cabo Bojador. O abate de árvores não estava comprometido, portanto.


O massacre dos plátanos

No dia 6 de setembro, o Jornal Público noticiava que Coimbra iria abater 5 plátanos centenários junto ao Parque Manuel Braga, no centro da cidade. Esse corte aconteceria seis dias depois. Imediatamente, algumas dezenas de cidadãos protestaram no local apresentando um plano alternativo a um «elétrico articulado» cujo traçado abateria não só os 5 plátanos centenários, alguns de 30 metros, mas também 663 árvores no novo traçado até Semide, na chamada Linha da Lousã. Veríamos, mais tarde, que já se tinha perdido a conta às árvores abatidas dentro da cidade e por todo o lado. As pessoas perguntavam-se por que razão um elétrico que é articulado necessitava de massacrar tal hecatombe de árvores, quando anteriormente um comboio não articulado nunca tinha estado em conflito com qualquer árvore nesse mesmo traçado. A resposta aos cidadãos que apresentaram à SMM um plano que evitaria este verdadeiro crime (não sabemos ainda, nesta fase, se é ou não um crime ambiental) foi abismal, segundo o mesmo jornal: «A Sociedade Metro Mondego (SMM) olhou para a proposta de quem queria evitar o abate de cinco árvores de grande porte na avenida Emídio Navarro, estudou uma alternativa e concluiu que nada muda em relação ao plano inicial.» A SMM «olhou» e disse «não!». Mais tarde, com uma contestação fraca e muito localizada, estando já em campo a ClimAção Centro, a empresa pública dá mais umas achegas: é «facilmente constatável» que a proposta do movimento resultaria em «externalidades e implicações que se traduzem no abaixamento expressivo dos padrões de qualidade do projecto». Não se percebendo de imediato o que é «facilmente constatável», as «externalidades» eram tão só a interferência com uma estação de gasolina no local e com uma estação elevatória das Águas do Centro Litoral em construção. Já antes, no dia 6 de setembro, a Agência Lusa tinha dado conta das verdadeiras razões da recusa da SMM, que jurava a pés juntos que queria um traçado verde mas que era obrigada ao abate. Qual a razão? «Alterar projetos consignados e em fase de execução tem implicações extremamente penalizantes em termos de financiamento, as quais podem levar à sua inviabilidade e encerramento definitivo». Portanto, o caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde, ainda por cima com as alterações climáticas existentes e que nos levam a temperaturas recorde.

A ClimAção tenta agir

Pode dizer-se que a ClimAção Centro tem sido a única entidade em Coimbra que se opõe a esta verdadeira desgraça, a um crime que ainda não está configurado e a que os responsáveis se esquivam de uma maneira canhestra, ora dizendo que a responsabilidade é da SMM, da presidência da câmara ou da Infraestruturas de Portugal. Afiançamos aos leitores que cada uma destas instituições fala por si, ou astutamente combinadas, e, de facto, a ClimAção que tenta uma oposição eficaz conflitua com esta fuga à responsabilidade por parte de quem é culpado desta hecatombe arbórea.

Coimbra cidade-dormitório. Ela dorme, o capitalismo verde sossega-a.

Coimbra não contesta. Coimbra é uma enorme cidade-dormitório. Literalmente. Coimbra não tem estudantes contestatários, embora de vez em quando clamem por Greta Thunberg. Preocupam-se com as praxes, mais do que com os crimes que lhes passam pelos olhos. Os conimbricenses olham pelo seu umbigo, levando o seu corpo a ginásios que se multiplicam, pela sua imagem, pela sua cátedra e pelos seus serviços públicos e privados. Coimbra é a sua universidade fechada e menoscabada. Coimbra preocupa-se com os seus automóveis e com as pistas de velocidade em que transformaram as vias rodoviárias. Coimbra expulsou os operários das suas fábricas. Agora expulsa a natureza. Coimbra exulta a sua decadência.

Chega a ser comovente ver a desmotivação dos que mais ativamente se opõem a esta ação da SMM, do presidente e da IP, não reparando sequer que a oposição institucional da Câmara vai apelando aqui e ali para que não se faça o abate indiscriminado de 663 árvores. O papel da oposição institucional é exercer esse combate, ténue é certo, mas o mais importante, e é isso que muitos ingénuos e ingénuas não compreenderam ainda, é ver o Metro a andar! Com árvores abatidas ou sem elas, o importante é que em 2024 o Metro Bus, esse «elétrico articulado» que não se consegue articular com as árvores, comece a funcionar. Estaremos nas vésperas de mais umas eleições autárquicas e a coisa tem de render votos, puxando para si o «progresso» baseado no capitalismo verde.

O caso que acredito ter chocado e até comovido milhares de cidadãos ao ver, no dia 12, as motosserras a cortar os primeiros cinco plátanos de muitos que hão de vir ao chão, é que as prioridades financeiras estão à frente de qualquer motivo verde.

Uma câmara maoísta?

Lembrar-se-á a campanha levada a cabo por Mao e que acabou mal – «Que mil flores desabrochem! Que mil escolas de pensamento floresçam!» -, mas o comunicado de 5 de agosto de 2022 da coligação camarária é de um mau gosto e de uma demagogia que configura inclusive uma impossibilidade real em que só os mais incautos podem acreditar. Esse comunicado promete que a CM de Coimbra e a SMM chegaram a um acordo: por cada árvore abatida, três florescerão! As contradições são tantas que não podem caber no espaço deste artigo, mas sobressaem estas, socorrendo-me agora de algumas perguntas que o agrónomo Vasco Paiva coloca na sua página de Facebook a 10 de setembro: «Outra falácia é de que vão substituir cada árvore abatida por três novas! Claro que uma árvore adulta (algumas centenárias) de elevado porte e de larga copa não é substituível por jovens plantas ou árvores que, no máximo, terão 2 ou 3 metros de altura. Quantas décadas serão necessárias para atingirem a mesma dimensão e cumprirem os meus serviços ambientais (despoluição, fixação de carbono, sombra, abrigo para pássaros ou outros animais)? Outra falácia: Segundo foi afirmado na comunicação social, e não desmentido, está previsto o abate de cerca de 600 árvores. No Plano, apresentado pela “Metro Mondego” à Assembleia Municipal, intitulado “Plano para o Reforço da Estrutura Arbórea”, está prevista a plantação de 1.326 árvores, sendo 151 em 2022; 575 em 2023 e 600 em 2024. Alguém me explica como é que 3 x 600 não são 1.800?»

As razões da anestesia conimbricense e o modo sempre pacífico de a contrariar: o bystander effect!

Perante a pobre contestação que se tem vindo a observar, a universidade socorre-se da Psicologia, não fosse Coimbra propagandeada como a cidade do conhecimento! No dia 19 de setembro, no site CoimbraCooletiva, e adivinhando já a desmotivação e abandono da contestação ao crime que se evidencia cada vez mais, a Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra coloca aos cidadãos as seguintes perguntas: «Por que é que as pessoas boas ficam paradas e não lutam a favor do que defendem? Como é que deixamos que se destrua património, como zonas verdes, lamentando e criticando mas não fazendo nada? A psicologia chama-lhe efeito do espectador e tem cura»; e ainda «o bystander effect é o fenómeno onde a difusão da responsabilidade («os outros fazem…») e o medo do risco envolvido (ficar mal visto, perder emprego, ser criticado, ser preso…) leva à inação por parte de pessoas que poderiam rectificar a situação». Qual é a cura, então? A resposta que vai levantar em peso a população conimbricense é esta: «É para contrariá-lo que o InterDito se junta hoje à Secção Experimental de Yoga da Associação Académica de Coimbra, ao Encontro da Paz e a quem na comunidade também estiver preocupado com o abate de árvores no centro da cidade numa manifestação pacífica, sob a forma da criação de cordão humano».

É evidente que a cidade está perdida, as suas árvores estarão condenadas a morrer pelo crime de existirem e colidirem com interesses financeiros públicos, privados e de fundos europeus. No entanto, quer-nos parecer que a anestesia de uma franja muito significativa da população da cidade que vira literalmente as costas a este crime, ainda que com algumas lágrimas (de crocodilo?), tem um carácter local muito vincado. Fica por perceber como é que não houve providências cautelares contra o abate enquanto se apresentavam alternativas concretas, assim como mais apoios no país e mesmo na cidade, ganhando com isso tempo inestimável. Se este facto ocorresse em algumas outras cidades ou vilas portuguesas as coisas não seriam assim, e seria mesmo impensável numa qualquer cidade europeia. Mas, em Coimbra, é sempre possível a aventura do capitalismo verde!

Texto de  António Luís Catarino | Imagens de António Barros

https://www.jornalmapa.pt/

https://www.jornalmapa.pt/2022/10/22/coimbra-o-massacre-de-663-arvores/

terça-feira, junho 14, 2022

«Rachador», de Hélder Folgado, com posfácio de António Barros.

 





"Rachador", do madeirense Hélder Folgado, mas feito a várias mãos, foi-me oferecido pelo António Barros e logo o tornei "meu" no sentido mais emocional do termo. Trata-se de uma colectânea que é "um tributo ao artesão do vime da Camacha". Conto 1890 como a data mais antiga dos rachadores que aparecem em excelentes fotografias e para mais com o nome dos artesãos seus proprietários. Para que servia um rachador? Para descascar o vime e dividi-lo em três ou em quatro para que se utilizasse no artesanato da mobília característica da Camacha, tal como explica o autor, Hélder Folgado; é num texto final do próprio de que retiro o seguinte trecho: "(...) A mão é a ferramenta, motor de toda a transformação, e a ela associa-se o podão, o passador ou o martelo. Contudo, é o rachador que de entre as demais ferramentas me desperta interesse, não só por se tratar de um objecto talhado em madeira (de pedreiro, urze, bucho entre outras), por cada um dos artesãos - para se adequar ao formato da sua mão e servir de extensão desta - mas, também, pela sua forma e função: este objecto cilíndrico, ligeiramente arredondado no topo e com incisões nas faces laterais, era tudo quanto bastava para abrir agilmente, mas com a necessária mestria, uma haste de vime em outras três, por vezes quatro (em concordância com a espessura do vime), e assim obter a liaça. (...). " No texto final de António Barros "Mão Segura" pode ler-se " Se há uma mão que afirma hirta e incisa gerando o deslumbramento e a proliferação, há outra mão que segura precisa na delicadeza do equilíbrio e sustentação do rigor.
Esta lição, gerada no resgate que o olhar formula sobre o gesto, resulta estruturante, denunciando um ponto de tensão. Esta disciplina dos limites com que a mão, a outra mão, nos contempla, traz-nos a consciência de raiz. De raiz que comunga com o corpo e, nesse tanto, faz voltar ao corpo e à importância deste como lugar. (...) "
Ter este livro na mão é igualmente a extensão da nosso pensamento em objectos extraordinários, desconhecidos da sua utilidade por continentais, nós todos, mas reconhecidos como autênticos objectos de arte pura, primitiva, durável pelos tempos passados e futuros.

Não sei onde se pode adquirir este livro maravilhoso, mas tente-se a Câmara Municipal de Santa Cruz, na Madeira. Creio que haverá resposta.

segunda-feira, fevereiro 21, 2022

«Vulcânico PaLavrador - Uma elegia a António Aragão», de António Barros




Recebi este livro há pouco e tive o enorme prazer de o ler, mas igualmente de o «ver». Em pequenos pormenores perscruta-se a intervenção da imagem no texto tornando-o, segundo António Barros, um livro «obgesto» que inaugura uma invenção em que já não existe arte, mas «artitude», recusando o estafado projecto em «progesto» e negando coerentemente o epíteto de artista, para se ser um «artor». Dos quatro itens aqui expostos, condição essencial para a existência provocante do artor, seguem-se mais três mandamentos, ou seja, a negação do retratar pelo «transfigurar», não querer ser, mas transcender e finalmente (?) transformar o dizer em «di_ser» com toda uma conjugação verbal aleatória, mas onde, parece-me, o indivíduo é a peça central. A partir da vida vulcânica de Aragão que foi acompanhada de (muito) perto por Barros, este amigo apresenta-nos um fio de existência que reputo de comovente e quase impossível de relatar pela escrita, propondo-nos que só o cinema poderia apresentar-nos o depoimento possível. Quem já se atreveu a escrever sobre um íntimo sabe que essa dificuldade é real: «Aragão é, no meu lugar de memória, um cenário de vida que só o cinema conseguirá soletrar de forma capaz.
Em texto, aqui, em mera Nota clandestina, o testemunho é refém da escrita. Por isso, fico-me, na narrativa, por escassas farpas e encantos que convidam a uma tese. Tese tão longa como o desfalecer da ave baleada que não quer morrer na insularidade. Um ápice.» 

Vale a pena voltar às memórias de António Barros e sublinhar fortemente a tinta escura a sua artitude com Aragão: «Um dia recebi um telefonema. Era Aragão a pedir-me autorização para usar (numa entrevista para a TV Globo na Bienal de S.Paulo) o meu objeto-texto ''Ver_dade - IgnOrar''. Um par de óculos, achados no jardim da Quinta, intervencionados (B.7).
Percebi então que Aragão estava cúmplice com a minha escrita (de «situacionistas» palavras agarradas à coisa, como quem manda calhaus sobre a multidão). Eu tinha sido aceite na guerrilha. Tinha bandeira no templo. Poderia contraDizer-me. Restar humano. Como um poeta. E que estava só, portanto. Percebi.»

Sobre a lucidez, o sarcasmo e a provocação de um artor como António Aragão, António Barros retém o seu conselho:
«Não queira ser artista! Em Portugal não! Não queira! Repetiu-me Aragão tantas vezes. Tantas.
Um Amigo. Sabedor.»

Não sei se portugal, a cidade ou território que o valha, merecerá um «livro-obgesto» assim, ou mesmo poetas como Aragão e Barros. Mas a coerência e a provocação moram aqui. É que se a dita arte está doente, parada, bolorenta, especulativa e tudo, no entanto há quem se mova. Noutros caminhos, mas movem-se.

Penso que a aquisição do livro far-se-á com pedidos expressos ao autor. Por aqui.

segunda-feira, novembro 08, 2021

António Barros - O poema acompanha a deriva


António Barros – O poema acompanha a deriva

Texto de António Luís Catarino sobre António Barros, parte integrante do projecto-livro “Uma Luva na Língua” (em preparação). [Texto]


Se não morrermos aqui, seremos capazes de ir mais longe?

Internacional Letrista, nº23 de Potlatch


Quando, pelos anos 60, começa a despontar a poesia experimental provocando a náusea aristocrática de muitos iluminados já então escurecidos pela falência filosófica, na decadência da palavra escrita e sentida como mercadoria, não se pensou que aquele tipo de expressão comum e vendável, bem suportado pelo «romance/poesia/imagem», teria muito tempo de vida, tal a vitalidade das novas formas poéticas. A poesia das «emoções», balofas, da virtualidade do pastel de nata e do café pessoano, do enaltecimento do quotidiano como possibilidade de uma falsa poesia da alegria alarve, mesmo que esse quotidiano fosse o da miséria repetitiva no gesto, os poetas experimentais e António Barros em particular, talvez dos poetas mais novos dessa onda purificadora, denunciaram isso mesmo: o objeto como fétiche acumulativo de capital. Nasce então o poema-objeto tão caro a Barros, ironizando toda uma sociedade de produção nas suas peças, mostrando o inconcebível que os arautos da arte sofrível nunca entenderam. O objeto contemporâneo, esse, é todo o fruto de um processo de produção, cujo valor se divide na troca e no uso. Ora, a tese de Marx é recuperada por Debord, chamando-lhe a esta diferença, o espetáculo. Barros e a Po.Ex e provavelmente a Fluxus, perceberam o que outros, excecionalmente dotados para o processo especulativo, nunca perceberam. A experiência, em Barros, toma o objeto em forma de valor de uso, através da apresentação metafórica deste e recusando o seu valor de troca. Essa produção poética verdadeiramente provocante, que nos incomoda e que nos obriga à reflexão, não é benquisto pelas hordas político-parlamentares que continuam a derramar aos borbotões a sua ideia de vidinha. A deriva é exatamente o corolário artístico de António Barros e explicado pelos situacionistas. É uma política notívaga que reage em círculos concêntricos atravessando uma quadrícula urbana repressiva e que se encontra no local onde nos sentimos identificados, livres, usando os objetos certeiros que apontam aos estômagos. Portanto, objeto-poema e deriva contra o quotidiano do tédio é o que se adquire observando e absorvendo cada poema-objeto. Como afirma Asger Jorn «A arte compõe-se, toda ela, de signos que, ao caracterizarem certas qualidades de um objeto, evocam a imagem deste». Justamente. António Barros transforma o valor de uso de um objeto na poética possível: retirando-o da cadeia de produção e propondo-lhe o signo.

António Luís Catarino

Coimbra 21 de abril de 2019

Foto: White Cube Blog

segunda-feira, junho 14, 2021

Exposição «Mágoa», de António Barros no Museu da Água, Coimbra. Até 28 de Julho

 

«Mágoa», a última exposição de António Barros, estará patente até 28 de julho, no Museu da Água em Coimbra. E, neste contexto onde apresento no elogio da água uma “arte social” com Yoko Ono, antes apresentada no Museu de Serralves, surge também a instalação dedicada a António Aragão “Vulcão olhando o prato”, parte integrante de “Vulcânico PaLavrador”.

Mágoa é uma palavra alusiva a sentimento, e sonoramente logo nos traz uma outra palavra de semelhante musicalidade. A palavra Água.

Somos em parte dominante feitos de água, e de mágoa. Mágoa magoada. Sede.

 Mágoa pela desumanidade que macula a água sem mágoa por estar gerando finitude. Finitude do lugar e da existência de si. De nós.

Mágoa é carecer de água perante a sede. Essa lucidez depurada. Essa mágoa. Depurada palavra apurada.

Sucumbindo de tanta sede, para salvar a vida, Simone Weil, prisioneira, em mágoa pede água. Sem tempo para palavras diversas. Não diz: por favor podia trazer-me um copo de água. Diz apenas uma palavra: água. Água! Apenas uma palavra. Depurada. Palavra eleita. Essencial. Fundamental. Geradora.

 Perguntaram ao poeta José Tolentino Mendonça qual teria sido, para ele, a maior invenção da Humanidade, a que respondeu: a palavra.

Trabalhar as palavras depuradas, geradoras, pode ser uma missão. A do poeta. Jogando as letras do alfabeto. Depuradamente. Depurando a mente. As mentes.

A Joan Brossa bastou roubar três letras ao alfabeto, as letras C, E e H, para gerar uma “Elegia a CHE”. Chegou a todo o mundo este poema para Guevara, o médico revolucionário.

Yoko Ono desafiou-me a criar uma peça para o “Jardim da Aprendizagem da Liberdade”. Eu faria o suporte para guardar a água. Ono colocaria a água.

Resgatei da venda um ninho de pássaro. De pássaro prisioneiro do ninho que a sociedade transformou em gaiola. Coerciva.

Pedi a Brossa de volta as três letras em falta no alfabeto. Para assim devolver à sociedade o alfabeto completo. Para dizermos todas as palavras. Essa liberdade. Dizer palavras, depuradas, como almeja o devir da água.

A palavra lava. Como a água. A palavra é lava. “A palavra foi a maior invenção da Humanidade”. Humanidade feita de Água. Água sem mágoa. Água.

A  n  t  ó  n  i  o     B  a  r  r  o  s

Nos desígnios de uma arte de acção procura conjugar os binómios: palavra_imagem e arte_educação. Intervenções sociais na senda do Movimento artístico internacional Fluxus, conjugadas com Robert Filliou, Serge III Oldenbourg, Joseph Beuys, Wolf Vostell e Yoko Ono, e na Literatura Experimental, com Joan Brossa, Augusto de Campos, Ana Hatherly, Salette Tavares, Ernesto de Melo e Castro, e com os fundadores da Poesia Experimental portuguesa: António Aragão e Herberto Helder.