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segunda-feira, abril 27, 2026

"Les Orphelins", Éric Vuillard

 

Actes Sud, Janeiro de 2026. 
Eis o último livro de Éric Vuillard que conhecemos, em Portugal, através da publicação de «A Guerra dos Pobres» e de «A Ordem do Dia». «Les Orphelins» que, penso, a ser traduzido em português, terá o título óbvio de «Os Órfãos» consta um subtítulo que esclarece tratar-se de «Uma história de Billy the Kid» e assim seria se o romance fosse só aplicado à sua biografia. Mas não; a história desenvolve-se exemplarmente a partir de Billy the Kid, através das suas inúmeras biografias, sendo que uma delas é do seu assassino, a do xerife Pat Garrett, um ex-assaltante que escolheu o lado da lei. Isto, quando o Oeste deixou de ser uma espécie de terra de ninguém e entrou na boa ordem do capitalismo (este sim, selvagem) em que os monopólios dos grandes negócios eram feitos à custa do derramamento de sangue e à custa dos territórios e das vidas dos índios que eram espoliados e massacrados por tipos que mais tarde se tornaram senadores, membros do congresso, governadores e xerifes dos condados. As vidas que dão cor ao romance assim nos dão conta. A escravatura e a guerra da Secessão que se lhe seguiu foi igualmente a pedra de toque do nascimento dessa tal ordem, uma reorganização do capitalismo industrial que acabou com as terras da Fronteira. Portanto, miúdos geralmente oriundos da miséria profunda das cidades americanas, órfãos ou abandonados pelos pais, cresciam exigindo liberdade e um destino igual aos senhores que atingiram o cume social através de enorme violência e que se institucionalizaram politica e socialmente. No fundo, foi o culminar do nascimento da América, dos EUA que hoje conhecemos como um dos países mais violentos do mundo. Nada acontece por acaso e Éric Vuillard tem o condão de utilizar, numa linguagem elegante, uma metatextualidade com que nos identificamos totalmente. Podemos ler, com tradução livre, o que Vuillard sente sobre os EUA a partir da observação das biografias de Billy the Kid, provavelmente o menos culpado de todos aqueles que o perseguiram até à sua morte: 

«O ''desperado'' é a figura depravada do self‑made man; é a sua imagem, mas inacabada. Não chega a nada. Parte de demasiado baixo. Veio ao mundo demasiado tarde. É o homem resolutamente moderno, e é por isso que se entrega por inteiro, desvairado. E, visto que a sociedade nunca é outra coisa senão a contrafação dos seus princípios, a concorrência degenera de imediato em matanças, a liberdade adultera‑se em crimes, e a História da América será um argumento de Frank Capra interpretado por ladrões.» (pág.42)

A foto da capa é de Jesse Evans um dos do grupo de Kid que tal como dezenas de companheiros morreu cedo, a tiro e sem um centavo. Provavelmente, o único sobrevivente que morreu de velho, com outro nome e supõe-se bem longe do Colorado, Novo México ou Arizona por onde o célebre grupo de «desperados» se moveu, assaltando o que podia, desde gado, cavalos, ranchos, até diligências, foi Georges Coe. Mas sabe-se pouco sobre ele e nem a data da sua morte, ou aonde, se pode verificar com toda a certeza. A prosperidade só é dada de bandeja a quem mata muitas vidas, quem coloniza a ferros. Segundo Vuillard, a América foi colonizada, num seu primeiro momento, por pessoas com este padrão, incentivada ao assassínio e genocídio em massa, à escravatura que rapidamente levava a constantes derramamentos de sangue, até que, depois de assentar a poeira levantada pelos cavaleiros enlouquecidos e do massacre geral, se iniciou um arremedo de democratização necessária ao livre cambismo, porque os monopólios já estavam erguidos e sólidos. Mas até aqui foi o que se viu.

alc

segunda-feira, setembro 30, 2024

«A Ordem do Dia», Éric Vuillard

 

D.Quixote, 2018.Tradução: João Carlos Alvim
Fixem a data e o local de uma reunião com vinte e quatro personalidades: Reichstag, Berlim, 20 de Fevereiro de 1933. Anfitrião: Hermann Göring, na ocasião, presidente do ainda Parlamento antes de ter ardido totalmente. Apontem estas empresas: Opel, Krupp, Siemens, IG Farben, Bayer, Allianz, Telefunken, Agfa, BASF e Varta. Conhecem? Éric Vuillard lembra-nos delas assim: 

«Por estes nomes, conhecemo-los. Conhecemo-los até muito bem. Estão aí no meio de nós. São os nossos carros, as nossas máquinas de lavar, os nossos produtos de limpeza, os nossos despertadores, o seguro da casa, a pilha do relógio. Estão aí, em toda a parte, sob a forma de coisas. O nosso quotidiano pertence-lhes. Cuidam de nós, vestem-nos, iluminam-nos, transportam-nos pelas estradas do mundo, embalam-nos. E os vinte e quatro homens presentes no palacete do presidente do Reichstag, nesse 20 de Fevereiro, são apenas os seus mandatários, o clero da grande indústria; os sacerdotes de Ptah. Mantêm-se aí impassíveis, como vinte e quatro máquinas de calcular às portas do Inferno.» (pág.22)

Apontem, igualmente, os nomes destes vinte e quatro industriais e homens da banca: Wilhelm von Opel, Schacht, Gustav Krupp, Albert Vögler, Quandt, Flick, Tengelmann, Fritz Springorum, Rosterg, Brandi, Büren, Heubel, Schnitzler, Stinnes, Schulte, Ludwig von Winterfeld, Witzleben, Reuter, Diehn, Fickler, Loewenstein zu Loewenstein, Grauert, Schmitt, von Finck, Stein. Vale a pena gravá-los aqui. Todos eles tiveram as mãos sujas de sangue dos campos de concentração em trabalho escravo. Nessa reunião do Reichstag untaram as mãos de enormes somas de dinheiro para Göring e para as SS (já agora vestidas e fardadas pela Hugo Boss). Ganharam fortunas colossais com a economia de guerra erguida por Hitler. A Alemanha foi destruída. Eles não. Permanecem nas nossas vidas, ainda. Tal como nos lembra Éric Vuillard neste livro memorável a quem foi atribuído o prémio Goncourt de 2017.

«A guerra tinha sido rentável. A Bayer arrendou mão-de-obra em Mauthasen. A BMW contratava em Dachau, (...), A Daimler, em Schirmerk, A IG Farben recrutava em Dora-Mittelbau, (...), em Buchenwald, em Gross-Rosen, em Sachsenhausen, em Buchenwald, em Ravensbrück, em Dachau, em Mauthausen, e explorava uma fábrica gigantesca no campo de Auschwitz: a IG Auschwitz, que, com todo o impudor, surge com esse nomeno organigrama da empresa. A Agfa recrutava em Dachau. A Schell, em Neuengamme. A Schneider, em Buchenwald. A Telefunken, em Gross-Rosen e a Siemens em Buchenwald (...) e em Auschwitz. Todos se tinham precipitado sobre essa mão-de-obra barata.» (pág.138)

Estes empresários, após 1945, nunca esconderam o seu racismo acusando os ocupantes aliados de tratarem os alemães «como negros» (palavras de Alfried Krupp, filho de Gustav Krupp) e colaborador activo da abertura do Mercado Comum «rei do carvão e do aço, o pilar da paz europeia». A desfaçatez desta gente não tinha limites: depois de organizações judaicas, em 1958, exigirem reparações monetárias aos poucos sobreviventes dos «lagger», a «negociação» ficou pelos 500 dólares a cada um!

Os factos falam por si, pouco mais há a dizer quando fechamos este livro. Resta um mal-estar perante a sua leitura que não conseguimos disfarçar. Creio que esse desconforto é aumentado pela possibilidade real de se cair novamente nesse abismo e cuja queda nunca é igual no desenrolar da História. Ela nunca se repete da mesma maneira. Como sabemos. Sabemos?

alc

terça-feira, julho 30, 2024

«A Guerra dos Pobres», Éric Vuillard

 

D. Quixote, 2020. Tradução de João Carlos Alvim. De acordo com o AO90.
Em 72 páginas, o escritor francês Éric Vuillard, também autor de «Ordem do Dia», levou a cabo um exercício de síntese extremamente difícil em literatura. Em pouquíssimas palavras, todas elas tão contidas quanto certas, num jeito confessional para com o leitor, dá-nos uma perspectiva entusiástica da vida de Thomas Müntzer que levou a cabo nos anos vinte do século XVI uma revolta milenarista, de carácter religioso e social contra a igreja e a nobreza alemã.

A acção, muito complexa de analisar ainda hoje e alvo de vários estudos históricos, de Thomas Müntzer e da revolta camponesa e operária, acantonada nos núcleos urbanos juntamente com os artesãos, tem, contudo, antecedentes na Europa Central. Estamos a falar do checo Jan Huss (no livro a grafia que aparece é Hus), do inglês John Wyclif e dos seus lollardos que puseram a Inglaterra a ferro e fogo, de John Ball e de Wat Tyler seus continuadores nas revoltas onde decapitaram nobres e funcionários do rei, incendiaram castelos, propagandearam as suas teorias de uma era de ouro, mel e igualdade, usando a palavra de Cristo através dos evangelhos entretanto traduzidos para a língua comum. Não obedeciam às regras do clero, não pagavam os dízimos, assassinavam padres e nobres, saqueavam castelos como já se disse e não pagavam os arrendamentos das terras. Almejava-se uma igualdade social, baseado nas metáforas e palavras mais ou menos claras de Cristo contra a riqueza e o luxo. Acresce-se, em jeito de final de história (ironia minha, porque a vontade de igualdade social esteve e estará sempre presente nas lutas sociais) que todos foram mortos com extrema violência seja através do enforcamento, esquartejamento, decapitação, queima, tortura, etc, tudo o que a imaginação tétrica dos possidentes pode atingir. Embora a violência das massas populares  entregues a si próprias não fosse propriamente de anjinhos, fossem eles católicos ou protestantes. Aliás, Lutero, opôs-se violentamente contra a ordem revolucionária camponesa nos territórios ocupados pelos sediciosos. Não fosse a «sua» igreja ficar sem benesses...

Müntzer, diz-nos Éric Vuillard, assistiu à execução do pai, seu homónimo. O escritor define-o como colérico, iroso. Tem a palavra de deus e isso basta-lhe como programa que sintetiza no seu «Manifesto de Praga», embora recusando qualquer discussão estéril com o clero. O termo utilizado para esta recusa é «repugnância». A partir daqui é com um grande entusiasmo que continuamos a leitura querendo sempre chegar ao clímax da história, sabendo de antemão que o final de Thomas Müntzer estará traçado desde início. Pouco importa. Quando se escreve bem, vale sempre a pena continuar até porque somos brindados com alguns pormenores impossíveis de saber em livros académicos. É curiosos que a proximidade do Verão, abre quase sempre as portas às revoltas e revoluções. Claro que há excepções (Novembro de 1917, por exemplo), mas não sei se foi por esse facto que Vuillard nos apresenta o capítulo «O Verão Bate às Nossas Portas»:

«''Mund é a boca de Zerstörung, a destruição''. De forma que é possível detectar, em Thomas Müntzer, uma afinidade prodigiosa entre a palavra e a negação. Decerto, pode ver-se em Müntzer um desses idealistas apaixonados de que a medicina troça, podem colocar-se no divã Rousseau, Tolstoi, Lenine, e forçá-los a dizer o que quer que seja. Pode ver-se em todas as revoltas e em todos os fervores uma dor pessoal transfigurada; e então? (...)
Sim, Müntzer é violento, sim, Müntzer delira. Convoca o Reino de Deus aqui e agora, há nele um excesso de impaciência. Os exasperados são assim, irrompem um belo dia da cabeça dos povos, como fantasmas saem das paredes.» (pags. 45, 46)

A história de Thomas Müntzer termina na Batalha de Frankenhausen, se «batalha» se pode chamar a um massacre de dezenas de milhares de desvalidos miseráveis e cuja repressão brutal posterior do exército do rei e dos nobres levou dois meses a acabar. É assim que Éric Vuillard inicia o capítulo correspondente:
«E assim, dos quatros cantos do Império, surgiram hordas de miseráveis. Müntzer cantava, a multidão acorria. O landgrave de Hesse nem queria acreditar nos seus olhos. Em seguida, foram os operários das cidades, os loucos, toda a massa camponesa que bruscamente se sublevou. Houve um grande pavor entre os nobres e os burgueses. As mulheres deixavam as suas casas, as crianças caminhavam através dos campos, na esteira do Espírito Santo. As raparigas, os vagabundos, a atroz populaça, até os animais! Viu-se assim todo o género de gente, em grupos de dois ou de três, sozinha também, sem bagagem, sem nada. Não se sabia o que pretendia. Os senhores e os seus bandos armados já não ousavam fazer o que quer que fosse; viam-na passar aterrados. Um vago temor começava a nascer. Que deveria decidir-se? Nunca se tinha visto uma coisa assim. Todos largavam casas e casebres e se juntavam à errante multidão. E para onde ia toda essa gente? Ignorava-se. Temia-se até dispersá-la. Dormia nos bosques, na palha, entre sonhos.» (pág. 66)

E assim entre sonhos, a mole humana miserável que seguia Thomas Müntzer viu esfumar-se a igualdade que ansiava. Derrotada? É possível, mas ainda hoje está aí para a sua história ser contada. O milenarismo, o assalto à utopia da idade de ouro vindoura, aí está para ser lida e pensada nos dias de hoje pela mão de Éric Vuillard e de outros que não desistiram de nos lembrar, como Norman Cohn o fez no seu trabalho excepcional, de 1957, «Na Senda do Milénio - Milenaristas revolucionários e anarquistas místicos da Idade Média» que tomo a liberdade de vos apresentar como dos poucos livros de grande fôlego, talvez não ultrapassado até hoje, sobre o tema. Foi neste livro que Éric Vuillard encontrou pormenores da vida e pensamento de Thomas Müntzer que veio a ser essencial para a construção da sua pequena obra.

alc