Andrew Solomon, da revista " The New Yorker ", visitou a Líbia
Círculo de fogo ou de imaginação? O grande repórter foi à Líbia para ver como se desenrola o " degelo" qaddafiano. E o que encontrou foi uma indisfarçável luta:" Os círculos governamentais líbios estão ocupados num combate, entre os que entendem que uma aliança e laços estreitos com o Ocidente são boas opções e os que desconfiam muito dessa temática ". O impasse político da " revolução verde ", de significado militar e ditatorial, " obriga " a acumulação " de iniciativas políticas nem sempre coincidentes. O líder do golpe de estado decidiu usar o " carisma " de chefe beduíno inspirado no deserto: joga um dos seus filhos-varões contra o ideólogo do regime, Ahmed Ibrahim, um dos três elementos -chave da ala conservadora, que engloba Musa Kusa, chefe da secreta libanesa, e Abdallah Senoussi, chefe da segurança interna.
O regime tem taras complicadas herdadas do " leninismo " revolucionário " dos primeiros anos e dos reflexos atávicos de dois tipos de colonialismo, a bizantina corrupção conjugada com a burocracia italiana. Apesar dos cofres cheios de divisas fortes provenientes da venda do petróleo de mais alta qualidade do Mundo, o clan Qaddaphi não descura impulsionar as reformas vitais para a sobrevivência do regime, que se agudizam na área do Emprego e da Economia interna. Os empregos na administração e na companhia de petróleo são atribuídos por cotas tribais sem controlo." Devido aos bens essenciais serem massivamente subsidiados, o desemprego é enorme e de conveniência, pois os libios pagam muito pouco para sobreviverem e por isso podem recusar empregos".
O PM lembra ao repórter, a propósito, que o livro verde do líder faz a apologia da troca de produtos, e não da concorrência, assim como descreve o povo como parceiro e não como assalariado. Os empregados por conta de outrém só trabalham da parte da manhã e desconfiam do regime de cotas tribais por causa das maiorias. As mulheres podem usar bikini na praia e são obrigadas a usar o véu islâmico na via pública. O álcool é proíbido e os prisioneiros políticos foram " trasformados " em presos de delito comum, não existindo Imprensa livre.
As receitas do petróleo permitiram acabar com a iliteracia e cobrir o país com uma modelar rede de auto-estradas. O investimento na cobertura sanitária foi colossal e a electricidade chega a todos os lugares, mesmo no deserto. Apesar do " degelo " e da política de sedução para com Ocidente, em geral, e os EUA, em particular, a Líbia confronta-se ainda com graves entraves à liberdade de expressão e reunião. A esperança democrática criou-se em torno da candidatura formal( e ainda no segredo dos deuses...) do filho mais velho do líder,Seif el-Islam al-Qaddafi, formado pela London School of Economics, que liderou as conversações para as compensações para as vítimas de Lockerbie e estreitou laços com a Amnistia Internacional e outras ONG´s de combate ao crime e à corrupção.
O jornalista viajou e encontrou-se com o futuro sucessor declarado de Qaddafi, o PM e altos funcionários do estado e do partido único, sentindo-se sempre muito vigiado. E narra esta edificante história que retrata o impasse líbio: " Um ministro disse-me, a propósito, que se em muitos estados da Europa existem muitos partidos e nos EUA só dois. Por isso, aqui, só existe um único! É a nossa grande diferença ". " Mesmo os reformadores expressam pouco entusiasmo pela democracia eleitoral. A maioria aspira a uma espécide de moderna autocracia: o seu ideal está mais próximo do regime de Atatürk ou do Xá da Pérsia do que do incarnado por Vaclav Havel...", sublinha. A reportagem é fascinante, desdobrada e estruturada pela mediação sublime da inteligência histórica e ideológica.
FAR
quarta-feira, 31 de maio de 2006
Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2002
Da série "Uma História Fotográfica Sobre A Ilha De Moçambique"
Vizinhanças
A blogosfera aumenta a olhos vistos e no meio da quantidade vem muita qualidade. Por isso, não com orgulho, porque como diria Georges Bataille "o orgulho é igual à humildade: é sempre mentira", mas com muita satisfação decidimos juntar aos links do 2+2=5 o Arrastão, do Daniel Oliveira, o Avesso do Avesso, do Filipe Moura, o Boato, do Alexandre Borges, o Cha-no-Yu, da Folha de Chá, Contra a Corrente, do Carlos do Carmo Carapinha, o colectivo Desejo Casar, Estado Civil, do Pedro Mexia, Frangos para fora, de Victor Lazlo and The Bird, Franco Atirador, do Luís M. Jorge, Homem a Dias, O Janseista, o fotográfico João Luc, o colectivo Mau Tempo no Canil, a deliciosa Miss Pearls, Moody Swing, Mundo Pessoa, Poesia & Lda, do João Luís Barreto Guimarães, o musical Quase Famosos, Serendipity, Tabacaria, Tristes Trópicos, (o vazio), do Carlos Gil, Viagens Interditas, de m.m. botelho, Vidro Duplo e o cinéfilo O Zombie Comeu o meu blog. São a nossa proposta do mês e merecem ser visitados.
Os culpados do costume
terça-feira, 30 de maio de 2006
Ilustração de Ivone Ralha
(...)
Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.
(...)
António Ramos Rosa
TABUADA PO_ÉTICA (cont.)
Po-ética nove
nove são os orifícios de que somos proprietários
a humana espécie
nem todos fedem
alguns até iscam
e são belos
mesmo os tais que fedem
a escatologia é isso
essa ligação entre o belo e o mal cheiroso
e não esqueçam :
ao cheiro da canela
povoou-se o império – pouco, dado o tamanho do jardim e a imensidão da descoberta -
mais tarde o cheiro foram as férias graciosas
a cavalo no paquete
em ampla descoberta dos rissóis de camarão
- por esse tempo o camarão não era ainda classe média
pois a classe média não era ainda média -
a canela diga-se
foi de primórdios dupla :
veio mulata
mas deu
um brasil que não foi total
falta cumpri-lo
f.arom
(continua)
nove são os orifícios de que somos proprietários
a humana espécie
nem todos fedem
alguns até iscam
e são belos
mesmo os tais que fedem
a escatologia é isso
essa ligação entre o belo e o mal cheiroso
e não esqueçam :
ao cheiro da canela
povoou-se o império – pouco, dado o tamanho do jardim e a imensidão da descoberta -
mais tarde o cheiro foram as férias graciosas
a cavalo no paquete
em ampla descoberta dos rissóis de camarão
- por esse tempo o camarão não era ainda classe média
pois a classe média não era ainda média -
a canela diga-se
foi de primórdios dupla :
veio mulata
mas deu
um brasil que não foi total
falta cumpri-lo
f.arom
(continua)
segunda-feira, 29 de maio de 2006
Paul Klee
Poder-se-ia imaginar que três dos mais geniais sábios do século XX, todos
judeus, por acaso, conversando, tivessem tido o diálogo que se segue:
.............................................................................................................................
Walter Benjamin - Há uma quadro de Klee que se intitula «Angelus Novus».
Representa um anjo que parece estar na iminência de se afastar de qualquer
coisa, que fixa com o olhar. Os seus olhos estão esbugalhados, a sua boca
aberta, as suas asas estendidas. É a essa imagem que se deve assemelhar o
Anjo da História. O seu rosto está virado para o passado. Onde nós vemos uma
cadeia de acontecimentos, ele mais não vê que uma só e única catástrofe, que
sem cessar amontoa ruínas sobre ruínas e as precipita aos seus pés. Ele bem
gostaria de se demorar, acordar os mortos e reunir o que foi desmembrado.
Mas do paraíso sopra uma tempestade que se apossou das suas asas com uma
violência tal, que o anjo já não as poderá fechar. Essa tempestade arrasta-o
irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto a
pilha de ruínas se eleva ao céu. Essa tempestade é aquilo a que chamamos
progresso.
In «Sobre o Conceito de História».
Franz Kafka - Acreditar no progresso não significa acreditar que já tenha
havido algum progresso. Isso não seria acreditar.
In «Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho».
Hannah Arendt - O Progresso e a Ruína são duas faces da mesma moeda; são
artigos de superstição, e não de fé.
In «As Origens do Totalitarismo».
A Arendt e o Benjamin foram amigos, muito amigos em vida. Ambos nutriam por Kafka uma admiração - julgo que posso dizer - ilimitada.
Jó
domingo, 28 de maio de 2006
sábado, 27 de maio de 2006
TABUADA PO_ÉTICA (cont.)
Po-ética seis
a medida de tudo
a meia dúzia
é poupada e ampla
traduzida em ovos
por muito colesterol que possua sempre omeletou
e aos precários resolveu preçários
metade da dúzia seis
um exército
um comité quase central de cérebros
a claque a si mesmo elegendo-se
única e omnívora
Po-ética sete
para quem tem fé aritmética
a sorte
pode
nesta cabalística de todos
espreitar como o loto
e por entre um fumo opiácio
- quem tem setes no loto dá-se a luxos -
esse súbito dealbar de poder
pode metamorfoses
a de um lagarto em banqueiro
mesma a de um enchido beirão em ministro
o que é muito comum
e está na calha
missão poética oito
os três não se retiram tiram-se
e por vezes a vida fica feita num coito interrupto
ininterruptamente
múltiplo de microdramas
que é tudo o que nos alimenta
proteína afectiva
justamente o cisco em olho próprio
por outras palavras
f.arom
(continua)
a medida de tudo
a meia dúzia
é poupada e ampla
traduzida em ovos
por muito colesterol que possua sempre omeletou
e aos precários resolveu preçários
metade da dúzia seis
um exército
um comité quase central de cérebros
a claque a si mesmo elegendo-se
única e omnívora
Po-ética sete
para quem tem fé aritmética
a sorte
pode
nesta cabalística de todos
espreitar como o loto
e por entre um fumo opiácio
- quem tem setes no loto dá-se a luxos -
esse súbito dealbar de poder
pode metamorfoses
a de um lagarto em banqueiro
mesma a de um enchido beirão em ministro
o que é muito comum
e está na calha
missão poética oito
os três não se retiram tiram-se
e por vezes a vida fica feita num coito interrupto
ininterruptamente
múltiplo de microdramas
que é tudo o que nos alimenta
proteína afectiva
justamente o cisco em olho próprio
por outras palavras
f.arom
(continua)
Foto de Gabriela Ludovice
Angola. Agosto de 2005
Existem voluntários de uma ONGD Portuguesa - Leigos para o Desenvolvimento, também em Benguela-Angola, que no terreno dão o seu melhor no apoio às populações locais, em diversas áreas (saúde, alfabetização, formação humana...).
Têm também implementado um Projecto de apoio às crianças desfavorecidas, que é o apetrechamento de um espaço lúdico onde podem as crianças aparecer, estar, e brincar. É para este projecto que neste momento apelamos.
Visite o site de apoio:
aqui e se possível aja.
Gabriela Ludovice
sexta-feira, 26 de maio de 2006
Ourives
Foto de Sérgio Santimano
Ilha de Moçambique. 2002
Da série "Uma História Fotográfica Sobre A Ilha De Moçambique"
Um dos ourives mais antigos da Ilha de Moçambique.
Utilizando instrumentos deixados, por amigos indianos, há muitas décadas atrás e ainda operacionais.
N.Y. Times: os pontos de fricção entre os EUA e a China
" Ler entre-as-linhas os pontos de fricção entre os EUA e a China", é um texto da série incomparável criada no NY Times pelo analista-globalista Roger Cohen. Na edição de ontem, o balanço do texto é particularmente bom e totalizante. Trata-se, efectivamente, do lento e inexorável surgimento de uma obscecada e perigosa luta entre duas potências mundiais de primeiro plano. Piadas ferozes e alusões alucinantes marcaram mais uma edição anual da Conferência da Sociedade Asiática instalada nos EUA. E que alberga também cidadãos norte-americanos.
A visita do presidente chinês Hu Jintao aos EUA deixou muitas feridas. " Recebendo os três representantes chineses da Igreja Católica pouco depois da visita do presidente Hu - a quem foi recusada a classificação de visita de Estado- e que foi insultado nos jardins da Casa Branca-isso só pode passar por provocação. You guys like to provoke ", cita o relato de Cohen. É recordado o facto do PM australiano, John Howard, ter agora sido recebido em visita de Estado e ter tido direito a um banquete na CB...
A China, através dos seus coriféus adeptos residentes nos EUA, critica o facto da política económica e militar dos americanos ter "dois registos contraditórios", o que causa prejuízo à " responsabilidade internacional de fomento dos direitos humanos ". " Como nos dificultam a importação de petróleo do Canadá e do México, deliberamos fazê-lo de outros lugares . O nosso princípio é o da não-ingerência nos assuntos internos dos outros estados, que consideramos preferível ao uso que v.fazem da bandeirola da democracia-liberdade para esconder a perseguição dos v.interesses nacionais, incluindo segurança e petróleo ". Muita polémica tem sido estimulada pelos serviços crescentes prestados pela China em África e no corno de África, especialmente, em troco do incremento das importações petrolíferas do Sudão, Tchad e Nigéria ,entre outros países. Isto para não falarmos da ajuda e cooperação muito estreitas com a Venezuela, a Arábia Saudita e o Irão.
Os emigrantes chineses deploram o facto dos EUA estarem a materializar uma " aliança anti-China na Ásia". "Como se deve explicar o reforço dos laços entre os EUA e o Japão, o novo partenariado e a cooperação nuclear com a Índia, a venda de armas a Taiwan e as vossas ameaças a favor do aumento das tarifas aduaneiras contra a importação de bens chineses ? ". Os representantes yankees sublinham o facto de os EUA terem sido "marginalizados" da Conferência da Ásia do Sudeste ,"de forma prematura, quando se deviam fazer esforços para criar um fórum de Cooperação Económica Ásia/ Pacífico".
A reciclagem dos lucros chineses em bilhetes do Tesouro americano foi outro dos pontos fortes do meeting. " Os EUA estão a ficar muito afectados. Endividam-se diariamente em cerca de 8 biliões de dólares, através de buscas mundiais, para tentar apagar o déficite corrente da economia. Mas não nos deixem de avisar sobre as possibilidades de um desastre, está bem ?", ironizam os chinocas. " Vocês são fracotes do miolo. Ninguém conseguirá ultrapassar com disputas os desiquilíbrios económicos mundiais. Vocês não conseguirão sustentar o v.rápido crescimento num mundo que favorece a Inovação, se continuarem a amordaçar o fluxo livre de informação", contra-atacaram os filhos do tio Sam.
FAR
A visita do presidente chinês Hu Jintao aos EUA deixou muitas feridas. " Recebendo os três representantes chineses da Igreja Católica pouco depois da visita do presidente Hu - a quem foi recusada a classificação de visita de Estado- e que foi insultado nos jardins da Casa Branca-isso só pode passar por provocação. You guys like to provoke ", cita o relato de Cohen. É recordado o facto do PM australiano, John Howard, ter agora sido recebido em visita de Estado e ter tido direito a um banquete na CB...
A China, através dos seus coriféus adeptos residentes nos EUA, critica o facto da política económica e militar dos americanos ter "dois registos contraditórios", o que causa prejuízo à " responsabilidade internacional de fomento dos direitos humanos ". " Como nos dificultam a importação de petróleo do Canadá e do México, deliberamos fazê-lo de outros lugares . O nosso princípio é o da não-ingerência nos assuntos internos dos outros estados, que consideramos preferível ao uso que v.fazem da bandeirola da democracia-liberdade para esconder a perseguição dos v.interesses nacionais, incluindo segurança e petróleo ". Muita polémica tem sido estimulada pelos serviços crescentes prestados pela China em África e no corno de África, especialmente, em troco do incremento das importações petrolíferas do Sudão, Tchad e Nigéria ,entre outros países. Isto para não falarmos da ajuda e cooperação muito estreitas com a Venezuela, a Arábia Saudita e o Irão.
Os emigrantes chineses deploram o facto dos EUA estarem a materializar uma " aliança anti-China na Ásia". "Como se deve explicar o reforço dos laços entre os EUA e o Japão, o novo partenariado e a cooperação nuclear com a Índia, a venda de armas a Taiwan e as vossas ameaças a favor do aumento das tarifas aduaneiras contra a importação de bens chineses ? ". Os representantes yankees sublinham o facto de os EUA terem sido "marginalizados" da Conferência da Ásia do Sudeste ,"de forma prematura, quando se deviam fazer esforços para criar um fórum de Cooperação Económica Ásia/ Pacífico".
A reciclagem dos lucros chineses em bilhetes do Tesouro americano foi outro dos pontos fortes do meeting. " Os EUA estão a ficar muito afectados. Endividam-se diariamente em cerca de 8 biliões de dólares, através de buscas mundiais, para tentar apagar o déficite corrente da economia. Mas não nos deixem de avisar sobre as possibilidades de um desastre, está bem ?", ironizam os chinocas. " Vocês são fracotes do miolo. Ninguém conseguirá ultrapassar com disputas os desiquilíbrios económicos mundiais. Vocês não conseguirão sustentar o v.rápido crescimento num mundo que favorece a Inovação, se continuarem a amordaçar o fluxo livre de informação", contra-atacaram os filhos do tio Sam.
FAR
Mitologias
Da capital do Império
Olá,
Desculpem lá isto mas hoje tenho que vos escrever sobre algo que sei que vai irritar muita malta aí do outro lado do charco, na Lusitânia e se houvesse franceses que lessem isto então seria uma bagunça sem fim.
Isto devido ao que se passa em Timor Leste. Sei que não se trata de um caso de “arrependência” (a doença que assola alguns após poucos anos de independência) pelo que não se assustem não vou pôr em causa aquele entusiasmo/obsessão surrealista que se viveu em Portugal com a independência dos timorenses e que me levou mesmo a pensar que o Xanana Gusmão era o Dom Sebastião regressado nas Ásias para resolver todos os traumas e sentimentos de culpa e impotência resultantes das aventuras coloniais falhadas da Lusitânia.
Mas o que se passa em Timor Leste levanta uma questão: Quando há problemas urgentes que requerem solução imediata a quem é que se telefona?
Pode-se telefonar às Nações Unidas, claro está. E esperar. Talvez por uma resolução do Conselho de Segurança manifestando “grave preocupação” ou se a situação for mesmo má “exortando” as partes a porem fim ao que quer que estejam a fazer de mau ou então se a coisa estiver mesmo a resvalar para o precipício “apelando” à “comunidade internacional” para fornecer ajuda e ameaçando impor sanções. Ou como diria esse grande diplomata irlandês da ONU que foi Conor Cruise O’Brien: “Pode-se sempre apelar à ONU com a confortável certeza que ela vos vai desiludir”. Os ruandeses ou os massacrados de Srebrenica que o digam….
Na verdade um dos grandes paradoxos trágicos da idade moderna é que a ONU é hoje indispensável na política internacional e contudo é ao mesmo tempo totalmente ineficaz em resolver emergências. Indispensável e impotente. Deveria talvez ser o novo slogan para a ONU, não? O que não é de admirar. Para terem sucesso organizações internacionais têm que harmonizar as vontades dos estados membros e para alcançarem tal objectivo têm que se guiar pelo mínimo denominador comum, paralisada assim a iniciativa e tornando-se em grande parte dos casos num obstáculo à resolução de problemas e crises.
É por isso que todos nós sabemos o que significam as palavras código “comunidade internacional”. Ao fim e ao cabo quem é que tem a capacidade de no espaço de dias colocar helicópteros, barcos e soldados para…enviar ajuda imediata de emergência às vítimas do Tsunami ou do tremor de terra em zonas longínquas do Paquistão? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando se quis por termo às aventuras do Slobodoan Milosevic na Bósnia e no Kosovo a quem é que a UEtupia pediu ajuda? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando se fala em enviar uma força para Darfur quem é se diz que TERÁ que fornecer apoio logístico e de informação? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando houve que enviar tropas de emergência para estabilizar a Serra Leoa quem foi “a comunidade internacional”? O vendido do Tony Blair claro está…
Quando foi preciso restabelecer a ordem em Timor na altura do referendo quem foi a “comunidade internacional? Os vendidos dos australianos, claro está..
O que nos leva à pergunta que o Ramos Horta deve ter feito a si próprio esta semana. A quem é que vou pedir ajuda para pôr termo a esta palhaçada?
A resposta é simples ainda que para muitos dolorosa de aceitar: Chama-se os “States” ou então os seus aliados regionais, ou como diria aqui um diplomata (cuja nacionalidade eu mantenho no sigilo para não vos chocar) os “sherifes” locais.
E esses “sherifes” são geralmente aqueles que: 1) tem capacidade de projectar poder; 2) Não têm vergonha em dizer que têm as costas quentes porque têm os “states” do seu lado.
Por coincidência (ou não?) ainda há uns dias atrás o John Howard esteve aqui em Washington a falar com o Bush e depois na conferência de imprensa disse que “aqueles que pensam que o mundo seria melhor sem a presença dos Estados Unidos não sabem o que estão a dizer”.
Eu sei que irrita. Ah pois não. O poder irrita sempre, principalmente quando às vezes vem acompanhado de uma certa falta de elegância ou mesmo de não “savoir faire”.
Mas como disse o MNE australiano Alexander Downer: “Resultados são mais importantes do que a fé cega nos princípios da não intervenção, soberania e multilateralismo”.
Quem fala assim não é gago. Os timorenses sabem-no. É por isso que Ramos Horta discou o número de Downer em Camberra e não o de Kofi Annan em Nova Yorque.
Da capital do Império,
Jota Esse Erre.
PS – Sim eu sei. Depois da coisa estar acalmada a ONU vem administrar a nova ordem. É para isso que serve (bem ou mal). Antes da resolução contudo é preciso “botas no terreno”. Neste caso made in Austrália
PS II – Americanos, britânicos, australianos… (deve ser une conspiration anglo saxonique, non?)
Desculpem lá isto mas hoje tenho que vos escrever sobre algo que sei que vai irritar muita malta aí do outro lado do charco, na Lusitânia e se houvesse franceses que lessem isto então seria uma bagunça sem fim.
Isto devido ao que se passa em Timor Leste. Sei que não se trata de um caso de “arrependência” (a doença que assola alguns após poucos anos de independência) pelo que não se assustem não vou pôr em causa aquele entusiasmo/obsessão surrealista que se viveu em Portugal com a independência dos timorenses e que me levou mesmo a pensar que o Xanana Gusmão era o Dom Sebastião regressado nas Ásias para resolver todos os traumas e sentimentos de culpa e impotência resultantes das aventuras coloniais falhadas da Lusitânia.
Mas o que se passa em Timor Leste levanta uma questão: Quando há problemas urgentes que requerem solução imediata a quem é que se telefona?
Pode-se telefonar às Nações Unidas, claro está. E esperar. Talvez por uma resolução do Conselho de Segurança manifestando “grave preocupação” ou se a situação for mesmo má “exortando” as partes a porem fim ao que quer que estejam a fazer de mau ou então se a coisa estiver mesmo a resvalar para o precipício “apelando” à “comunidade internacional” para fornecer ajuda e ameaçando impor sanções. Ou como diria esse grande diplomata irlandês da ONU que foi Conor Cruise O’Brien: “Pode-se sempre apelar à ONU com a confortável certeza que ela vos vai desiludir”. Os ruandeses ou os massacrados de Srebrenica que o digam….
Na verdade um dos grandes paradoxos trágicos da idade moderna é que a ONU é hoje indispensável na política internacional e contudo é ao mesmo tempo totalmente ineficaz em resolver emergências. Indispensável e impotente. Deveria talvez ser o novo slogan para a ONU, não? O que não é de admirar. Para terem sucesso organizações internacionais têm que harmonizar as vontades dos estados membros e para alcançarem tal objectivo têm que se guiar pelo mínimo denominador comum, paralisada assim a iniciativa e tornando-se em grande parte dos casos num obstáculo à resolução de problemas e crises.
É por isso que todos nós sabemos o que significam as palavras código “comunidade internacional”. Ao fim e ao cabo quem é que tem a capacidade de no espaço de dias colocar helicópteros, barcos e soldados para…enviar ajuda imediata de emergência às vítimas do Tsunami ou do tremor de terra em zonas longínquas do Paquistão? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando se quis por termo às aventuras do Slobodoan Milosevic na Bósnia e no Kosovo a quem é que a UEtupia pediu ajuda? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando se fala em enviar uma força para Darfur quem é se diz que TERÁ que fornecer apoio logístico e de informação? (resposta deixada em vazio para não ferir susceptibilidades).
Quando houve que enviar tropas de emergência para estabilizar a Serra Leoa quem foi “a comunidade internacional”? O vendido do Tony Blair claro está…
Quando foi preciso restabelecer a ordem em Timor na altura do referendo quem foi a “comunidade internacional? Os vendidos dos australianos, claro está..
O que nos leva à pergunta que o Ramos Horta deve ter feito a si próprio esta semana. A quem é que vou pedir ajuda para pôr termo a esta palhaçada?
A resposta é simples ainda que para muitos dolorosa de aceitar: Chama-se os “States” ou então os seus aliados regionais, ou como diria aqui um diplomata (cuja nacionalidade eu mantenho no sigilo para não vos chocar) os “sherifes” locais.
E esses “sherifes” são geralmente aqueles que: 1) tem capacidade de projectar poder; 2) Não têm vergonha em dizer que têm as costas quentes porque têm os “states” do seu lado.
Por coincidência (ou não?) ainda há uns dias atrás o John Howard esteve aqui em Washington a falar com o Bush e depois na conferência de imprensa disse que “aqueles que pensam que o mundo seria melhor sem a presença dos Estados Unidos não sabem o que estão a dizer”.
Eu sei que irrita. Ah pois não. O poder irrita sempre, principalmente quando às vezes vem acompanhado de uma certa falta de elegância ou mesmo de não “savoir faire”.
Mas como disse o MNE australiano Alexander Downer: “Resultados são mais importantes do que a fé cega nos princípios da não intervenção, soberania e multilateralismo”.
Quem fala assim não é gago. Os timorenses sabem-no. É por isso que Ramos Horta discou o número de Downer em Camberra e não o de Kofi Annan em Nova Yorque.
Da capital do Império,
Jota Esse Erre.
PS – Sim eu sei. Depois da coisa estar acalmada a ONU vem administrar a nova ordem. É para isso que serve (bem ou mal). Antes da resolução contudo é preciso “botas no terreno”. Neste caso made in Austrália
PS II – Americanos, britânicos, australianos… (deve ser une conspiration anglo saxonique, non?)
quinta-feira, 25 de maio de 2006
O verão chegou
TABUADA PO_ÉTICA (cont.)
Po-ética quatro
difícil equilíbrio
o de caminhar uma vida sobre as pernas
o quatro fazer
para que te quero pernas senão desandar?
mais frequente andar é fazê-lo
às costas de alguém
dos convictos adeptos do tinto não reza a história
dos arrivistas sim
Po-ética cinco
são os dedos da mão
que calam fundo quando sobrepostos em coração
tresmalhada janela de cheiros e olhares
e as quinas cinco são
essa erecção nada dúctil de ementas pátrias
o que se chama
somando-os
dedos e suas metáforas
contraditório
pois nada mais útil que as mãos
e nada mais desútil que a pátria
mas a mão
mesmo inteira
e há as que não o sejam
sem a cabeça indicadora
pode apenas ser para terceiros
e muito acontece esta circunstância
chama-se a isto desarticulação
obediência ao tendão alheio
f.arom
(continua)
difícil equilíbrio
o de caminhar uma vida sobre as pernas
o quatro fazer
para que te quero pernas senão desandar?
mais frequente andar é fazê-lo
às costas de alguém
dos convictos adeptos do tinto não reza a história
dos arrivistas sim
Po-ética cinco
são os dedos da mão
que calam fundo quando sobrepostos em coração
tresmalhada janela de cheiros e olhares
e as quinas cinco são
essa erecção nada dúctil de ementas pátrias
o que se chama
somando-os
dedos e suas metáforas
contraditório
pois nada mais útil que as mãos
e nada mais desútil que a pátria
mas a mão
mesmo inteira
e há as que não o sejam
sem a cabeça indicadora
pode apenas ser para terceiros
e muito acontece esta circunstância
chama-se a isto desarticulação
obediência ao tendão alheio
f.arom
(continua)
quarta-feira, 24 de maio de 2006
Onde está a felicidade? Num copo de cerveja ou num chicote de cabedal?
*
2. Este relato surge na mesma altura de um estudo sobre o consumo de álcool nos jovens. A investigação revelada num Encontro das Taipas em Lisboa refere que 47% dos adolescentes em Portugal com 13 anos consome álcool. Os valores vão aumentando 10% ao ano. Já na idade adulta, os números são impressionantes. Os portugueses bebem 2,8 milhões de litros de álcool por dia. Em 2005, cada português com mais de 15 anos ingeriu em média 115 litros de álcool. Portugal já foi o número um na lista dos maiores consumidores mundiais, mas agora ocupa um modesto sétimo lugar.
*
3. Estas duas realidades revelam a intranquilidade que se vive neste rectângulo. Poderá ser um problema de género que está na origem desta situação? Vamos ver. O binómio álcool e mulheres está entranhado no imaginário masculino. Eliminá-lo é impossível, diminuí-lo é difícil. Será que um estado superior de satisfação, ou de felicidade, poderá diminuir a violência e o alcoolismo? Vamos buscar, por exemplo, o futebol. Se o sonho de conquistar o Mundial for uma realidade, será que ficará tudo melhor, mais feliz? A responda imediata é sim, mas no final vem um não. Não deixa de ser uma ejaculação precoce.
*
4. Vou introduzir novo elemento: a economia. Será através dos tostões que se vislumbra uma saída? Ser mais rico traz a felicidade? Ajuda sim, mas se formos honestos encontraremos um não. A voz do povo diz que “o dinheiro não traz a felicidade”.
*
5. O que fazer? Pensei: “em Roma, sê romano”. Fui ao Google e coloquei a seguinte questão: “O que é preciso para ser feliz?” As respostas não se fizeram esperar e nem foi preciso abrir as páginas para ficar com uma ideia. O mais engraçado que nenhum deles metia nem futebol nem economia. Assim, temos as respostas poéticas “para ser feliz é preciso ter paz e gostar de si mesmo” ou “para ser feliz é preciso passear os meus olhos pelos teus”, justificativas “não preciso casar para ser feliz. Catarina Campos ocupa um cargo de importância regional mas acredita que lhe foi oferecido por mérito”, o desabafo da solteirona desesperada “se encontrasse um marido honesto e dedicado, ainda podia ser feliz”, a solteirona feliz “tenho prazer de ser eu mesma, de ser feliz comigo e de adorar a minha companhia”, a cautelosa “para ser feliz, é preciso que a gente aprenda a conhecer-se”, a maternal farta de aturar os filhos “você pode ser feliz tomando um sorvete, levando os filhos para brincar”. Também há uma perspectiva masculina “duas coisas para ser feliz na cama: ter muito apetite sexual e ser um homem famoso”. Esta última lixou-me. A concordância nominal “É preciso a consciência de uma criança para se ser feliz. Ou se usa o adjectivo assim no neutro, ou se faz a substituição”, a visão dos dietistas “é preciso querer ser magro. Demorou muito tempo a querer iniciar a dieta ou ainda faltam alguns quilinhos para ser feliz?”
Os mais complicados são os psicólogos. “Somente o indivíduo pode ser feliz. A felicidade não é produto da sorte. O que é preciso para um ser humano tornar-se indivíduo?” ou “É preciso mesmo ser feliz? É possível ser feliz sempre? A minha resposta a ambas é não”. Fico-me por aqui.
*
Os mais complicados são os psicólogos. “Somente o indivíduo pode ser feliz. A felicidade não é produto da sorte. O que é preciso para um ser humano tornar-se indivíduo?” ou “É preciso mesmo ser feliz? É possível ser feliz sempre? A minha resposta a ambas é não”. Fico-me por aqui.
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6. Percebi afinal que o Google não dá respostas para resolver o problema da violência doméstica e do alcoolismo. Vou beber um copo com a minha namorada e perguntar-lhe: ”estás a ser verdadeira quando me dizes quanto mais me bates mais gosto de ti?”
terça-feira, 23 de maio de 2006
Et vive la poésie
José Agostinho Baptista foi hoje distinguido pelo seu livro «Esta voz é quase o vento». Como este é um blogue de poetas e muita e boa poesia, não podíamos deixar passar em branco esta distinção. Se não conhece o premiado, investigue. Vale a pena.
"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista
"Se às vezes, se em certos casos, a poesia imita a vida e a vida imita a poesia, então talvez cada verso seja uma linha da cabeça, uma linha do coração, uma linha da vida. E então, sonâmbula e feroz, a mão que escreve talvez não faça mais do que construir, palavra sobre palavra, a casa de um homem, a sua história. E a sua voz obscura passará sobre a terra, sobre os anos, completando a obra."
José Agostinho Baptista
TABUADA PO_ÉTICA
(para coleccionar, no fim dão-se alvíssaras)
Po-ética um
os dedos
logo pelo cio das pássaras
nos horários nobres do orvalho
dedilham essa humidade
contentes de a terem aberta em lábios
o céu dorme e as ervas regurgitam
agora em lâminas erectas a noite que as teve silenciadas
são rainhas na calma obscura das raízes
no mastigar dos dias
algures
o mais esquecido dos cantos
acende um olhar no perfume
enraizado de maçãs na memória
e parte
ondas de clarinete
verdes em mar aberto
Po-ética dois
as formigas quando azulam
largam a fila em transparência fatigada
mas apolíneas
de harpas e seu som
apenas na infra posição do que nelas é a sua pata maquinal
se percutem as cordas
tudo isto se passa no continente das formigas
cabe no meu dedo mínimo
de modo invisível
falamos obviamente de formigas liliputianas
e de um ouvido atento
Po-ética três
nesta a matemática tem um papel
como se diz de um actor que tem um papel
e é um papel nada simbólico embora perder os três
seja mais do que simbólico
e sangre
as mais das vezes
tal como as pétalas ardem
ao dia chegado
(Continua.)
f.arom
Aqui começa uma colecção de poemas sequenciados. Irão surgindo com indicação do nº de série.
Po-ética um
os dedos
logo pelo cio das pássaras
nos horários nobres do orvalho
dedilham essa humidade
contentes de a terem aberta em lábios
o céu dorme e as ervas regurgitam
agora em lâminas erectas a noite que as teve silenciadas
são rainhas na calma obscura das raízes
no mastigar dos dias
algures
o mais esquecido dos cantos
acende um olhar no perfume
enraizado de maçãs na memória
e parte
ondas de clarinete
verdes em mar aberto
Po-ética dois
as formigas quando azulam
largam a fila em transparência fatigada
mas apolíneas
de harpas e seu som
apenas na infra posição do que nelas é a sua pata maquinal
se percutem as cordas
tudo isto se passa no continente das formigas
cabe no meu dedo mínimo
de modo invisível
falamos obviamente de formigas liliputianas
e de um ouvido atento
Po-ética três
nesta a matemática tem um papel
como se diz de um actor que tem um papel
e é um papel nada simbólico embora perder os três
seja mais do que simbólico
e sangre
as mais das vezes
tal como as pétalas ardem
ao dia chegado
(Continua.)
f.arom
Aqui começa uma colecção de poemas sequenciados. Irão surgindo com indicação do nº de série.
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Carrilho e Rangel contra Costa e Pereira ou Carilho contra Costa e Rangel contra Pereira ou Pereira contra Costa e Rangel contra Carrilho?
As relações entre media e política voltaram a estar na ordem do dia depois do polémico livro de Manuel Maria Carrilho “Sob o Signo da Verdade”. Um dos factos, não o único, que despoletou toda esta discussão, prende-se com o debate de campanha entre Carrilho e Carmona Rodrigues na SIC-Notícias. No final desse debate, Manuel Maria Carrilho teve um diálogo tenso com Carmona Rodrigues e não lhe apertou a mão. Foi tudo filmado pelas câmaras da SIC-Notícias.
"Não pensei que estivesse a ser filmado, para gáudio de um espectáculo vergonhoso que a SIC-Notícias fez. Um amigo disse-me que isso era o que fazia a polícia política dos países de Leste: filmarem cenas privadas e usarem-nas para depois o humilharem".
Sobre o livro "Sob o Signo da Verdade". "Ricardo Costa falou de um livro que não existe, espezinhando o Código Deontológico dos jornalistas e mentindo ao dizer que sou impopular. Disse coisas grotescas, que são intoleráveis", e terminou dizendo que "há um poder opaco, impune, que é o da comunicação social".
Manuel Maria Carrilho
“A versão é absolutamente falsa. A gravação que a SIC fez foi feita por uma equipa de reportagem. Naquela noite, estava uma equipa de reportagem da SIC, como de outros órgãos de comunicação social, a fazer a reportagem de bastidores do debate. Assim que o debate acaba, abrem-se as portas e entraram esses jornalistas. E a cena do não aperto de mão dá-se já perante esses jornalistas e é filmada pela equipa de reportagem da SIC. Essa cena é feita perante o olhar dos repórteres, não é nenhuma cena feita no estúdio. E digo exactamente o contrário, que era ilegítimo e uma manipulação clara não termos passado isso. Era um facto tão inaudito que acabou por abafar o debate. A culpa não é nossa, é dele.”
Ricardo Costa
Manuel Maria Carrilho
“A versão é absolutamente falsa. A gravação que a SIC fez foi feita por uma equipa de reportagem. Naquela noite, estava uma equipa de reportagem da SIC, como de outros órgãos de comunicação social, a fazer a reportagem de bastidores do debate. Assim que o debate acaba, abrem-se as portas e entraram esses jornalistas. E a cena do não aperto de mão dá-se já perante esses jornalistas e é filmada pela equipa de reportagem da SIC. Essa cena é feita perante o olhar dos repórteres, não é nenhuma cena feita no estúdio. E digo exactamente o contrário, que era ilegítimo e uma manipulação clara não termos passado isso. Era um facto tão inaudito que acabou por abafar o debate. A culpa não é nossa, é dele.”
Ricardo Costa
Breaking News! Breaking News!
J-L. Gergorin sem paradeiro certo
e a ensaiar fino a delacção encapotada
O combate de galos Villepin/ Sarkosi continua a galgar todos os limites do decoro e da geometria política-politiqueira. Depois das declarações contraditórias do general dos serviços de espionagem, Rondot, que afirmou tudo e o seu contrário a sucessivos jornais, o alto funcionário da EADS , antigo perito do MNE francês, Jean-Louis Gergorin resolveu por razões de conforto abandonar o domícilio pariseense para parte incerta, se bem que diz estar a disposição da Justiça do seu país." Tenho ainda muitas reservas sobre o que poderão fazer os juízes neste caso ", sublinha em declarações telefónicas hoje impressas no jornal " O Leste Republicano“, impresso em Lyon e Grenoble, na fronteira suiço-gaulesa.
O velho amigo de Villepin acrescenta que o PM francês " se via bem confinado no papel de cavaleiro sem medo e sem rabos-de-palha lutando contra a lavagem de dinheiro, mas quando souberam que queria consultar o juíz, surgiu um consenso na classe política francesa e no mundo da espionagem para silenciarem tudo ".
Ler desenvolvimento no:
LEMONDE.FR | 21.05.06
aqui
FAR
e a ensaiar fino a delacção encapotada
O combate de galos Villepin/ Sarkosi continua a galgar todos os limites do decoro e da geometria política-politiqueira. Depois das declarações contraditórias do general dos serviços de espionagem, Rondot, que afirmou tudo e o seu contrário a sucessivos jornais, o alto funcionário da EADS , antigo perito do MNE francês, Jean-Louis Gergorin resolveu por razões de conforto abandonar o domícilio pariseense para parte incerta, se bem que diz estar a disposição da Justiça do seu país." Tenho ainda muitas reservas sobre o que poderão fazer os juízes neste caso ", sublinha em declarações telefónicas hoje impressas no jornal " O Leste Republicano“, impresso em Lyon e Grenoble, na fronteira suiço-gaulesa.
O velho amigo de Villepin acrescenta que o PM francês " se via bem confinado no papel de cavaleiro sem medo e sem rabos-de-palha lutando contra a lavagem de dinheiro, mas quando souberam que queria consultar o juíz, surgiu um consenso na classe política francesa e no mundo da espionagem para silenciarem tudo ".
Ler desenvolvimento no:
LEMONDE.FR | 21.05.06
aqui
FAR
Mundial: contra o canal único, marchar marchar...
Pluricanal - pluricanal@pluricanal.net
Bragatel - mail@bragatel.pt
TVTel - info@tvtel.pt
domingo, 21 de maio de 2006
sábado, 20 de maio de 2006
Informação ou manipulação?
Volto de novo à notícia do Expresso. A investigação compreendida entre 2000 a 2005 de Vasco Ribeiro, que tem como base o JN, DN, CM e Público, revela que 73,5% das notícias analisadas são provenientes de assessorias de Imprensa do Governo, das autarquias e agências de informação.
Seria a isto que Manuel Maria Carrilho se referia no seu livro?
Esboço de Luís Ralha
O designer e a responsabilidade
Nós estamos, aqui e agora, confrontados com uma realidade complexa. E essa percepção crescente justifica a inclusão em ‘Reflexões sobre o Design’ de uma conversa sobre a responsabilidade social do designer, tema que ainda recentemente seria considerado inoportuno, deselegante, polémico, contra a corrente.
Submergidos de objectos por todo o lado, encurralados por um gosto global e necessidades criadas por um marketing omnipresente, com alternativas sem fim, que diluem as referências e a história, o efémero como estratégia para a multiplicação de mercado, reduzindo o tempo de vida e o valor de uso dos produtos – produtivizando a ‘ideia’ – quem somos, para onde vamos, para quê e para quem desenhamos?
As sucessivas modas, o gasto irresponsável de matérias-primas não renováveis – somos das poucas gerações com acesso ao petróleo – a poluição do ambiente, incluindo a visual, vão criando perplexidades que nos paralisam.
O desperdício gerado por esta produção liberalizante afunila o consumo para grupos socioculturais ganhadores e os outros, os perdedores, que constituem a grande maioria planetária, vão-se limitando a uma existência cada vez mais redutora, envolvidos todos nós por uma informação excessiva que não dá folga – conhecemos a marca das botas do Figo e as imagens anorécticas das passarelas. O pormenor e o acessório são fundamentalizados, apetece pôr a zero, reencontrar raízes.
O fascínio das novas tecnologias e materiais, o espasmo estético da renovação formal acelerada para a mesma função, o novo pelo novo, o diferente como moderno parecem ser a ordem natural das coisas. Será?
Não devemos pedir mais ética e menos estética?
Luís Ralha
intervenção no ciclo de conferências ‘Você está Aqui’, promovido pela associação de estudantes da Escola de Belas-Artes de Lisboa.
sexta-feira, 19 de maio de 2006
"A Esquerda Caviar": novo livro de Laurent Joffrin
Ensaio, manifesto ou panfleto, o novo livro de Laurent Joffrin, director da redacção do Le Nouvel Observateur, o mais prestigiado newsmagazine do centro -esquerda francês surge na conturbada vida política tricolor e com opções decisivas à beira de serem tomadas: a reformulação estrutural da política socio-económica e a escolha do sucessor de Jacques Chirac, onde se projectam/ interseccionam as disputas fratricidas de Villepin/ Sarkosi e a nebulosa dos diversos candidatos socialistas em desordem. Pode ser uma resposta mais construtiva ao desafio iconoclasta da ruptura lançado pelos sarkosistas e seus peões-de-brega, às tentações liberais e pró-americanas de direita em ruminação no microcosmo pariseense?.
" Antes de ser uma categoria política, a esquerda caviar é um espaço. Ou melhor: vários espaços, varias tribos, vários pequenos mundos que se cruzam e baralham. Cada um deles suscita as suas críticas, os seus ressentimentos, por vezes as suas raivas. Há a esquerda caviar dos intelectuais, dos patrões, dos editores, dos políticos e dos jornalistas ".
Laurent Joffrin faz parte do escol da geração dos anos 80, de que fazem parte Denis Olivennes, o novo patrão da FNAC, Patrick Weil, os herdeiros Nora e a grande maioria dos novos craques do mundo editorial pariseense. Joffrin entrou no " Libération " em 1981 e assumiu toda a nova estratégia de rigor e de rentabilidade concebida por Serge July, o antigo mao-sartreano de elevada qualidade que perseguia a ideia de fazer concorrência ao Le Monde. Com a saída de F-O. Giesbert, é convidado para o Nouvel Obs em 1988.
De uma forma muito elegante e profunda, Joffrin narra as raízes da " esquerda caviar" mundiais : as receitas dos clans Roosevelt e as do de Kennedy , e a da sua génese francesa, a partir de Jaurès, normalien e filósofo, de Lèo Blum , intelectual e advogado, até ao "misterioso" Mitterrand, que foi católico e conservador na juventude e se eleva 30 anos depois a impôr a aliança com o PCF, um dos Pc´s mais estalinistas da Europa. " Sobre o plano doutrinal e militante, em matéria de consciência social ou de visão económica, está( Mitterrand) muito abaixo de Jaurès, de Blum ou de Mendès-France. Mas ultrapassa-os de longe em estratégia política ", refere.
" Para a esquerda caviar, a existência precede a essência. As ideias iniciais, os preconceitos de classe, as convicções herdadas não determinam a vida da élite progressista. É a vida que forja as suas ideias ", frisa, para deambular sobre o perfil moral de gigantes como Vítor Hugo e Emilio Zola, hoje tão actuais na sua narrativa . E sublinhando que a " esquerda caviar " pelos efeitos da mundialização abandonou a " hegemonia moral e ideológica aos seus colegas adversários do liberalismo mais rigido ", Joffrin preconiza que a esquerda democrática volte a contar com os idealistas da " esquerda caviar , de forma a evitar o perigo do populismo"e as aventuras de uma conflitualidade total e intangível.
FAR
" Antes de ser uma categoria política, a esquerda caviar é um espaço. Ou melhor: vários espaços, varias tribos, vários pequenos mundos que se cruzam e baralham. Cada um deles suscita as suas críticas, os seus ressentimentos, por vezes as suas raivas. Há a esquerda caviar dos intelectuais, dos patrões, dos editores, dos políticos e dos jornalistas ".
Laurent Joffrin faz parte do escol da geração dos anos 80, de que fazem parte Denis Olivennes, o novo patrão da FNAC, Patrick Weil, os herdeiros Nora e a grande maioria dos novos craques do mundo editorial pariseense. Joffrin entrou no " Libération " em 1981 e assumiu toda a nova estratégia de rigor e de rentabilidade concebida por Serge July, o antigo mao-sartreano de elevada qualidade que perseguia a ideia de fazer concorrência ao Le Monde. Com a saída de F-O. Giesbert, é convidado para o Nouvel Obs em 1988.
De uma forma muito elegante e profunda, Joffrin narra as raízes da " esquerda caviar" mundiais : as receitas dos clans Roosevelt e as do de Kennedy , e a da sua génese francesa, a partir de Jaurès, normalien e filósofo, de Lèo Blum , intelectual e advogado, até ao "misterioso" Mitterrand, que foi católico e conservador na juventude e se eleva 30 anos depois a impôr a aliança com o PCF, um dos Pc´s mais estalinistas da Europa. " Sobre o plano doutrinal e militante, em matéria de consciência social ou de visão económica, está( Mitterrand) muito abaixo de Jaurès, de Blum ou de Mendès-France. Mas ultrapassa-os de longe em estratégia política ", refere.
" Para a esquerda caviar, a existência precede a essência. As ideias iniciais, os preconceitos de classe, as convicções herdadas não determinam a vida da élite progressista. É a vida que forja as suas ideias ", frisa, para deambular sobre o perfil moral de gigantes como Vítor Hugo e Emilio Zola, hoje tão actuais na sua narrativa . E sublinhando que a " esquerda caviar " pelos efeitos da mundialização abandonou a " hegemonia moral e ideológica aos seus colegas adversários do liberalismo mais rigido ", Joffrin preconiza que a esquerda democrática volte a contar com os idealistas da " esquerda caviar , de forma a evitar o perigo do populismo"e as aventuras de uma conflitualidade total e intangível.
FAR
Da capital do Império
Olá,
Não sei se alguns de vocês se lembram mas em tempos afirmava-se que “o que é bom para a General Motors é bom para a América”. Isto era nos tempos em que se dizia que o orçamento para papel higiénico da General Motors era igual ao orçamento total de Portugal.
Não sei se essa história do papel higiénico era verdade e também não sei se ainda o poderá ser. O que eu sei é que afinal o que era bom para a General Motors não é bom nem para a América nem para a própria GM. E sei também que o que se passa com a General Motors é uma lição económica dura que vocês aí do outro lado do charco na UEtupia deviam estudar com atenção.
Para vos dar uma ideia de quão má é a situação da GM basta vos dizer que recentemente a companhia fez soar as trombetas da vitória porque no primeiro trimestre deste ano teve prejuízos de 323 milhões de dólares. Eu cá não compraria acções da GM mas … pronto, vá lá…. para quem perdeu 10 mil e 600 milhões de dólares no total de 2005, perder 323 milhões em três meses é uma boa negociata ou como disse um comunicado da dita cuja “um marco” . Há quem diga que uma análise mais estrita dos livros revela que este “marco” é maior do que a GM admite, que na verdade a companhia está ainda a perder 13 milhões de dólares…por dia.
Mas o que é que isto tem a haver com UEtupia (ou cê ié ié como se dizia antigamente aí na Lusitânia)? É que a GM pode a qualquer momento abrir falência por duas razões simples:
1) Assumiu-se durante anos como um “estado de bem-estar” para os seus trabalhadores
2) a concorrência dos japoneses e agora dos sul coreanos e em breve dos chineses ( ou seja a concorrência/globalização) tornou o paragrafo 1) insustentável
Vejamos alguns exemplos da “follie”. No tempo das “vacas gordas” quando a GM tinha controlo do mercado americano (juntamente com a Ford e a Chrysler) julgou que isso era uma situação que iria durar para sempre, que a expansão da procura dos seus produtos estava garantida para sempre (a la produtores de vinho francês). Quem também assumiu isso - com mais vigor como lhe compete foi o sindicato UAW (United Autoworkers Union), uma das mais poderosas organizações laborais dos Estados Unidos. A combinação produziu algo de fazer inveja à social-democracia escandinava. Vocês sabem por exemplo que a General Motors tem um … subsídio de desemprego?
É verdade. Ao abrigo de um acordo entre a GM e a UAW assinado em 1984 foi criado uma “banco de emprego” em que trabalhadores do sector automóvel abrangidos por esse acordo que sejam despedidos não vão para a rua. Vão isso sim para o tal “banco de emprego” aguardando apenas que os bons tempos regressem pois …. a expansão da procura é inevitável. (Dream baby, dream!) Nesse tal banco de emprego, os trabalhadores a que a ele pertencem têm que ir ao emprego todos os dias aprender algo que poderá eventualmente um dia ser útil à indústria automóvel, o que significa …nada. Os trabalhadores são mais realistas e chamam aos locais onde se têm que concentrar para aprender coisas inúteis o “quarto dos loucos”. A GM tem 7.500 trabalhadores a viverem deste subsídio de desemprego com o pretexto de estarem a ser retreinados e a quem é pago não só o seu salário total mas também o seguro de saúde na sua totalidade (que inclui familiares) e ainda os fundos de reformas. Custo anual para a GM: entre 750 e 900 milhões de dólares.
E tal como acontece com os subsídios de desemprego em muitos países da UEtupia… não têm fim. É, como se diria em Moçambique, uma situação…
Outro problema da GM é que a sua força de trabalho foi envelhecendo. Hoje a GM tem 147.000 trabalhadores e 460.000 reformados. Graças aos acordos com a UAW os que passam à reforma recebem não só a reforma mas também cuidados de saúde sem igual nos Estados Unidos. Reformado da GM não paga um centavo quando vai ao médico. Faz lembrar certos países, não é? Resultado: só o ano passado a GM gastou cinco mil e 400 milhões de dólares em gastos de saúde (reformados, activos e familiares) o que é mais do que os rendimentos dessa outra grande companhia americana a Harley Davidson. O que é mais de mil e duzentos dólares por veiculo. Em cada carro da GM há portanto mais cuidados de saúde do que aço, disse alguém.
Junte-se a isto o facto de que durante anos, preocupada em manter o sistema a funcionar a GM descurou os seus produtos jogando sempre no princípio de que o seu mercado era garantido. O seu departamento de investigação e desenvolvimento caiu porque os fundos eram cada vez menos (porque é que aqui eu me estou a lembrar do Durão Barroso a chorar que a UE precisa de gastar mais massa na “research and development” mas que todos dizem que não há “massa”?)
Aqui nos Estados Unidos a anedota do consumidor era a certa altura que a garantia de um carro da GM “acaba quando ultrapassar o passeio entre a loja e a estrada”. Tão desligada estava a GM do mercado que ficou totalmente surpreendida quando depois dos japoneses lhe abrirem o mercado foi informada que para vender carros no Japão tinham que os fabricar com o volante à direita porque lá guiam como em Inglaterra. É verdade!!
Mas o consumidor não é estúpido e os concorrentes também não. Em 1965 a General Motors tinha 50% do mercado americano. Em 1985 tinham 41%. O ano passado 26%. A Toyota deverá este ou o próximo ano tornar-se no principal vendedor de automóveis dos Estados Unidos. As marcas estrangeiras (na prática japonesas e sul coreanas) controlam hoje 43 % do mercado americano. Faz pensar em certos produtos aí desse lado do lago, não é?
Há que dizer que graças à concorrência os produtos da GM melhoraram e muito,. Há também que dizer que recentemente a UAW depois de fazer contas à vida viu que a galinhas dos ovos do estado do bem-estar estava a ficar de papo para o ar e concordou em fazer concessões para reduzir os custos e poupar à companhia cerca de mil milhões de dólares por ano. O que pode ser um “marco” . Vamos a ver. Há quem não acredite.
O que é um “marco” é que o que se passa com a GM prova aquele velho ditado económico e que se aplica aí onde as pessoas pensam que a galinha do estado do bem-estar é eterna: Factos (como concorrência, globalização, envelhecimento da população, etc.) são coisas teimosas. Não se vão embora.
Abraços
Aqui da capital do império
Jota Esse Erre. PS – Tenho a dizer-vos que eu gosto da e aprecio a ideia de não descontar no meu salário para pagar um seguro de assistência médica, ou de ir à universidade sem pagar ou de me reformar com tudo pago pela GM ou estado ou seja lá quem for. Quem não gosta disso? Mas o problema é que em questões económicas, como diria o grande revolucionário e/ou revisionista Nikita Kruschev “a economia é uma coisa que não respeita os nossos desejos” . Ou nas palavras desse grande filósofo inglês Mick Jagger: “You can’t always get what you want”.
Fim
Jota Esse Erre
Não sei se alguns de vocês se lembram mas em tempos afirmava-se que “o que é bom para a General Motors é bom para a América”. Isto era nos tempos em que se dizia que o orçamento para papel higiénico da General Motors era igual ao orçamento total de Portugal.
Não sei se essa história do papel higiénico era verdade e também não sei se ainda o poderá ser. O que eu sei é que afinal o que era bom para a General Motors não é bom nem para a América nem para a própria GM. E sei também que o que se passa com a General Motors é uma lição económica dura que vocês aí do outro lado do charco na UEtupia deviam estudar com atenção.
Para vos dar uma ideia de quão má é a situação da GM basta vos dizer que recentemente a companhia fez soar as trombetas da vitória porque no primeiro trimestre deste ano teve prejuízos de 323 milhões de dólares. Eu cá não compraria acções da GM mas … pronto, vá lá…. para quem perdeu 10 mil e 600 milhões de dólares no total de 2005, perder 323 milhões em três meses é uma boa negociata ou como disse um comunicado da dita cuja “um marco” . Há quem diga que uma análise mais estrita dos livros revela que este “marco” é maior do que a GM admite, que na verdade a companhia está ainda a perder 13 milhões de dólares…por dia.
Mas o que é que isto tem a haver com UEtupia (ou cê ié ié como se dizia antigamente aí na Lusitânia)? É que a GM pode a qualquer momento abrir falência por duas razões simples:
1) Assumiu-se durante anos como um “estado de bem-estar” para os seus trabalhadores
2) a concorrência dos japoneses e agora dos sul coreanos e em breve dos chineses ( ou seja a concorrência/globalização) tornou o paragrafo 1) insustentável
Vejamos alguns exemplos da “follie”. No tempo das “vacas gordas” quando a GM tinha controlo do mercado americano (juntamente com a Ford e a Chrysler) julgou que isso era uma situação que iria durar para sempre, que a expansão da procura dos seus produtos estava garantida para sempre (a la produtores de vinho francês). Quem também assumiu isso - com mais vigor como lhe compete foi o sindicato UAW (United Autoworkers Union), uma das mais poderosas organizações laborais dos Estados Unidos. A combinação produziu algo de fazer inveja à social-democracia escandinava. Vocês sabem por exemplo que a General Motors tem um … subsídio de desemprego?
É verdade. Ao abrigo de um acordo entre a GM e a UAW assinado em 1984 foi criado uma “banco de emprego” em que trabalhadores do sector automóvel abrangidos por esse acordo que sejam despedidos não vão para a rua. Vão isso sim para o tal “banco de emprego” aguardando apenas que os bons tempos regressem pois …. a expansão da procura é inevitável. (Dream baby, dream!) Nesse tal banco de emprego, os trabalhadores a que a ele pertencem têm que ir ao emprego todos os dias aprender algo que poderá eventualmente um dia ser útil à indústria automóvel, o que significa …nada. Os trabalhadores são mais realistas e chamam aos locais onde se têm que concentrar para aprender coisas inúteis o “quarto dos loucos”. A GM tem 7.500 trabalhadores a viverem deste subsídio de desemprego com o pretexto de estarem a ser retreinados e a quem é pago não só o seu salário total mas também o seguro de saúde na sua totalidade (que inclui familiares) e ainda os fundos de reformas. Custo anual para a GM: entre 750 e 900 milhões de dólares.
E tal como acontece com os subsídios de desemprego em muitos países da UEtupia… não têm fim. É, como se diria em Moçambique, uma situação…
Outro problema da GM é que a sua força de trabalho foi envelhecendo. Hoje a GM tem 147.000 trabalhadores e 460.000 reformados. Graças aos acordos com a UAW os que passam à reforma recebem não só a reforma mas também cuidados de saúde sem igual nos Estados Unidos. Reformado da GM não paga um centavo quando vai ao médico. Faz lembrar certos países, não é? Resultado: só o ano passado a GM gastou cinco mil e 400 milhões de dólares em gastos de saúde (reformados, activos e familiares) o que é mais do que os rendimentos dessa outra grande companhia americana a Harley Davidson. O que é mais de mil e duzentos dólares por veiculo. Em cada carro da GM há portanto mais cuidados de saúde do que aço, disse alguém.
Junte-se a isto o facto de que durante anos, preocupada em manter o sistema a funcionar a GM descurou os seus produtos jogando sempre no princípio de que o seu mercado era garantido. O seu departamento de investigação e desenvolvimento caiu porque os fundos eram cada vez menos (porque é que aqui eu me estou a lembrar do Durão Barroso a chorar que a UE precisa de gastar mais massa na “research and development” mas que todos dizem que não há “massa”?)
Aqui nos Estados Unidos a anedota do consumidor era a certa altura que a garantia de um carro da GM “acaba quando ultrapassar o passeio entre a loja e a estrada”. Tão desligada estava a GM do mercado que ficou totalmente surpreendida quando depois dos japoneses lhe abrirem o mercado foi informada que para vender carros no Japão tinham que os fabricar com o volante à direita porque lá guiam como em Inglaterra. É verdade!!
Mas o consumidor não é estúpido e os concorrentes também não. Em 1965 a General Motors tinha 50% do mercado americano. Em 1985 tinham 41%. O ano passado 26%. A Toyota deverá este ou o próximo ano tornar-se no principal vendedor de automóveis dos Estados Unidos. As marcas estrangeiras (na prática japonesas e sul coreanas) controlam hoje 43 % do mercado americano. Faz pensar em certos produtos aí desse lado do lago, não é?
Há que dizer que graças à concorrência os produtos da GM melhoraram e muito,. Há também que dizer que recentemente a UAW depois de fazer contas à vida viu que a galinhas dos ovos do estado do bem-estar estava a ficar de papo para o ar e concordou em fazer concessões para reduzir os custos e poupar à companhia cerca de mil milhões de dólares por ano. O que pode ser um “marco” . Vamos a ver. Há quem não acredite.
O que é um “marco” é que o que se passa com a GM prova aquele velho ditado económico e que se aplica aí onde as pessoas pensam que a galinha do estado do bem-estar é eterna: Factos (como concorrência, globalização, envelhecimento da população, etc.) são coisas teimosas. Não se vão embora.
Abraços
Aqui da capital do império
Jota Esse Erre. PS – Tenho a dizer-vos que eu gosto da e aprecio a ideia de não descontar no meu salário para pagar um seguro de assistência médica, ou de ir à universidade sem pagar ou de me reformar com tudo pago pela GM ou estado ou seja lá quem for. Quem não gosta disso? Mas o problema é que em questões económicas, como diria o grande revolucionário e/ou revisionista Nikita Kruschev “a economia é uma coisa que não respeita os nossos desejos” . Ou nas palavras desse grande filósofo inglês Mick Jagger: “You can’t always get what you want”.
Fim
Jota Esse Erre
quinta-feira, 18 de maio de 2006
O Sobe e Desce
São como ossos que se desarticulam
Omnidentais
São como ossos que se desarticulam
Sob a pressão metálica dos directos
E nada sangra
Cirurgia de silenciador
No turbilhão de imagens a gota de sangue
É inexistente
Atiram-nos contra a cara uma multidão de corpos
Enquanto logo uma simbólica nas gargantas esganiçadas
De uns mais descalços que outros
É erguida em fúria cega
Já nada passa silencioso
No passo ancestral de morte e luto
Nem os rituais têm o seu tempo
A água nas mãos
Lenta na sua transparência soluçada
Deitarmo-nos com o poente
Semicerrar os olhos
Num alentamento do corpo
Extinguiram-se
Tudo corre atrás dos próximos cadáveres
Numa contabilidade infindável de ódios
Contar aprende-se a somar valas comuns
É este o estádio supremo do desenvolvimento
E esta é a fé
E as multidões ululam
Em espasmos globais de bola entrada na baliza
Espasmos salivados contra o outro
Globalizados nunca fomos tão canhestros
E o palco do mundo
É mais velho que uma arena de gladiadores
Sob o olhar jogador da turba
O imperador aposta o seu poker íntimo
Em gestos de tédio
Comerciando carne como quem rói as unhas
E verde é o campo da bola
Não o olhar espraiado em qualquer estepe
Savana ou deserto
Acontece por vezes
Quando uma súbita maresia rompe o ecrã
E certamente escapada ao turismo de massas
Que na pele do ar que nos oxigena
Partículas de silêncio
Evoluem como pássaros azuis
Em forma de violino e abas de grilo
No arame de um circo campânula de paz
Aí respira
O que pode
Um nariz de clown
f.arom
São como ossos que se desarticulam
Sob a pressão metálica dos directos
E nada sangra
Cirurgia de silenciador
No turbilhão de imagens a gota de sangue
É inexistente
Atiram-nos contra a cara uma multidão de corpos
Enquanto logo uma simbólica nas gargantas esganiçadas
De uns mais descalços que outros
É erguida em fúria cega
Já nada passa silencioso
No passo ancestral de morte e luto
Nem os rituais têm o seu tempo
A água nas mãos
Lenta na sua transparência soluçada
Deitarmo-nos com o poente
Semicerrar os olhos
Num alentamento do corpo
Extinguiram-se
Tudo corre atrás dos próximos cadáveres
Numa contabilidade infindável de ódios
Contar aprende-se a somar valas comuns
É este o estádio supremo do desenvolvimento
E esta é a fé
E as multidões ululam
Em espasmos globais de bola entrada na baliza
Espasmos salivados contra o outro
Globalizados nunca fomos tão canhestros
E o palco do mundo
É mais velho que uma arena de gladiadores
Sob o olhar jogador da turba
O imperador aposta o seu poker íntimo
Em gestos de tédio
Comerciando carne como quem rói as unhas
E verde é o campo da bola
Não o olhar espraiado em qualquer estepe
Savana ou deserto
Acontece por vezes
Quando uma súbita maresia rompe o ecrã
E certamente escapada ao turismo de massas
Que na pele do ar que nos oxigena
Partículas de silêncio
Evoluem como pássaros azuis
Em forma de violino e abas de grilo
No arame de um circo campânula de paz
Aí respira
O que pode
Um nariz de clown
f.arom
quarta-feira, 17 de maio de 2006
Do sol e dos toiros e outras elucubrações
terça-feira, 16 de maio de 2006
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto, mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelhochamei de mau gosto o que vi
de mau gosto, mau gosto
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vem de outro sonho feliz de cidade
aprende de pressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Caetano Veloso, Sampa
nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vem de outro sonho feliz de cidade
aprende de pressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Caetano Veloso, Sampa
Investimentos e jogos de cintura
Pintura de Luís Ralha
fim de poema
.....................................................
Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo
os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.
Sebastião Alba
segunda-feira, 15 de maio de 2006
Histórias de um deus menor
domingo, 14 de maio de 2006
Foto de Sérgio Santimano
Anjuna, Goa, Índia. Janeiro de 2006
Mercado popular que se realiza todas as quintas-feiras.
Antigo meeting point de hippies.
Mesa
Gelados Chile
no mesmo passo
entre o odor a formigas estalando nas narinas
como pedra portuguesa em fogo
passam as nuvens
tardias
a caminho de outros poentes
outros poemas
e poentes
a mesma perfumada mancha na paisagem dos neurónios
mas a estes
impregnados de contemplativa retroprospectiva
alguém os escreve sobre toalhas de papel
num gesto deslizando
soprado de vida
como o pão acontece
ali
na cadeira exígua
olhar debruçado para a bica
o corpo dobrado a memórias
está gentil e silencioso
são letras num arame
em equilíbrio menos que precário
da perna do A de antónio ao O de mora
cada respiração
a tecla de um piano sem cauda
navegando súbito na infinita língua da costa Indica
a pulmões plenos
à força do branco marfim teclado
a negras batidas
as menores
sonoras
abrem solos para crepúsculos de arcos íris utopicamente entrepostos
súbitos como paisagens em aceleração
aos olhos de uma derradeira visão
crepúsculos de odor a glicínias de Maio
no Tejo à mão
e na Brito Camacho
também no porto a Catembe de lá
o chapéu pousado
os ossos encavalitados
circo da vida esse malabarismo das articulações
desaprendidas já do tempo das acácias florindo
sepultadas com os poemas mais físicos
para os lados da ponta vermelha
e não acontecem
e isso foi na altura em que fizemos o pião com o DKW
na moamba
e lá vem ela
a MOAMBA
escrita com arbustos rasteiros
recortados e adornando a encosta
- à moda do Minho sabe-se lá
e que tínhamos nós com o Minho?-
no mesmo passo de antes
agora a velha posição na mesma mesa e a mesma respiração
a tinta nos dedos mais que a leitura
malaca é hoje uma palavra vaga e só é para aqui chamada porque nos chega a maresia de uma saudade intensamente bebida nas crónicas
prolongamento de especiarias num odor a quinhentos
quantas vezes apesar de tudo se viveu o caril
silves
marvão
inhambane
namaacha
salvador
bahía
goa
vultos em uma esquina ao dobrar a folha da vida
e também uma prospectiva para as criaturas
e esse dom de pensar um mundo descomerciado
de gente livre
singular e único
f.arom
no mesmo passo
entre o odor a formigas estalando nas narinas
como pedra portuguesa em fogo
passam as nuvens
tardias
a caminho de outros poentes
outros poemas
e poentes
a mesma perfumada mancha na paisagem dos neurónios
mas a estes
impregnados de contemplativa retroprospectiva
alguém os escreve sobre toalhas de papel
num gesto deslizando
soprado de vida
como o pão acontece
ali
na cadeira exígua
olhar debruçado para a bica
o corpo dobrado a memórias
está gentil e silencioso
são letras num arame
em equilíbrio menos que precário
da perna do A de antónio ao O de mora
cada respiração
a tecla de um piano sem cauda
navegando súbito na infinita língua da costa Indica
a pulmões plenos
à força do branco marfim teclado
a negras batidas
as menores
sonoras
abrem solos para crepúsculos de arcos íris utopicamente entrepostos
súbitos como paisagens em aceleração
aos olhos de uma derradeira visão
crepúsculos de odor a glicínias de Maio
no Tejo à mão
e na Brito Camacho
também no porto a Catembe de lá
o chapéu pousado
os ossos encavalitados
circo da vida esse malabarismo das articulações
desaprendidas já do tempo das acácias florindo
sepultadas com os poemas mais físicos
para os lados da ponta vermelha
e não acontecem
e isso foi na altura em que fizemos o pião com o DKW
na moamba
e lá vem ela
a MOAMBA
escrita com arbustos rasteiros
recortados e adornando a encosta
- à moda do Minho sabe-se lá
e que tínhamos nós com o Minho?-
no mesmo passo de antes
agora a velha posição na mesma mesa e a mesma respiração
a tinta nos dedos mais que a leitura
malaca é hoje uma palavra vaga e só é para aqui chamada porque nos chega a maresia de uma saudade intensamente bebida nas crónicas
prolongamento de especiarias num odor a quinhentos
quantas vezes apesar de tudo se viveu o caril
silves
marvão
inhambane
namaacha
salvador
bahía
goa
vultos em uma esquina ao dobrar a folha da vida
e também uma prospectiva para as criaturas
e esse dom de pensar um mundo descomerciado
de gente livre
singular e único
f.arom
A família, as betas da linha e a Filó
sábado, 13 de maio de 2006
Da capital do Império
Olá,
Presumo que alguns de vocês estão chateados com a minha falta de regularidade e talvez mais ainda pelo facto de eu na minha última carta ter prometido que vos iria escrever dentro “de dois ou três dias” para finalizar as minhas impressões sur le Quebec. Foram dois ou três dias à… espanhola (ou à portuguesa?).
No Quebec isso seria razão, talvez, para me chamarem “meu hóstia”. Hóstia? É de fazer rir de espanto mas é verdade.. No Quebec não chame a alguém “hóstia” ou diga a palavra “tabernáculo” ou “cálice” ou mesmo “baptismo” em público. Essas palavras, todas elas vindas dos rituais da Igreja Católica, são insultos ou pelo menos palavras estilo “porra” a não dizer em boa companhia, portanto. Como por exemplo “mon ’sti” (meu hóstia) é o equivalente a dizer “meu sacana”.
“Ah mautadit tabarnac ’sti baptême”, seria como afirmar “Ah maldito sacana, porra, caraças”. (Note-se que o quebecois não diz “maudit”. Faz-lhe uma modificação ligeira só para dificultar a vida dos tipos como eu que por terem aprendido francês na escola pensam que vão compreender o que dizem os quebecois. Pois, pois…)
Isto para voz dizer que o uso de “cálice” e “hóstia” como pejorativo demonstra que o que em tempo era muito sagrado para os quebecois é agora algo a ser totalmente menosprezado. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, diriam alguns. O que é verdade mas neste caso reflecte, mais do que isso, a conturbada história desse pedaço francófono implantado na América do Norte em que a Igreja Católica jogou sempre um papel importante. Primeiro a “civilizar” os “sauvages” que habitavam essa zona a que chamavam Kebeq e depois a manter calmos os descendentes directos das ambições imperiais falhadas de la patrie française.
(Alguns dos indígenas chatearam-se mais rapidamente com os padres do que a brancalhada local. Fui informado que há uns “mártires” católicos - esqueço-me os nomes - que foram cozinhados vivos pelos índios. Não sei bem com que fim porque fui também informado que não os comeram.)
Após James Wolfe ter derrotado Montcalm em 1759 os “bifes” decidiram deixar os francófonos locais às suas instituições semi-feudais vindas de França e na qual a Igreja Católica jogava um papel predominante. O papel da Igreja Católica em governar os Quebecois aprofundou-se após uma falhada revolta em 1837 que levou à execução dois anos depois de 12 “patriotes” que se convenceram que poderiam derrotar o império britânico. (O que prova que o frio daquelas zonas congela não só as mãos mas também o cérebro. Explica também o misterioso “Je me souviens” escrito em todas as matrículas dos carros de Quebec. Não é - ao contrario do que pensam muitos Quebecois - “je me souviens… de les anglais” mas sim “Je me souviens… de les patriotes).
A partir dessa revolta a Igreja Católica assumiu-se como entidade protectora dos quebecois controlando TUDO na vida local. E quando eu digo TUDO não é tudo à la igreja portuguesa. É TUDO. Por exemplo só após a “ “Revolution Tranquille” dos anos de 1960 é que a Igreja Católica deixou de controlar a educação. Todos os quebecois do sexo masculino nascidos até aos anos 60 têm o primeiro nome de Joseph. Todas as mulheres nascidas até à “revolution tranquille” têm o primeiro nome de Marie. Mas ninguém toma atenção agora ao primeiro nome. Portanto quando for ao Quebec não peça para falar com a Marie. Embora o país esteja repleto de Marias ninguém sabe quem elas são. (De qualquer modo essa de dar a todos os machos o nome de Joseph fez-me lembrar aquela história do chefe de posto de Moçambique que no dia de registar nomes dava a todos os nomes de António ou Oliveira em honra do “patrão grande” em Lisboa).
No Quebec e após as revoltas fracassadas a Igreja Católica decidiu que o papel dos quebecois era o de não chatear os “bifes” que passaram a controlar o comércio e a indústria transformando os francófonos em agricultores, trabalhadores ou, os mais afortunados (poucos) em médicos e engenheiros mas nunca “businessmen”. Como dizia a igreja católica da região “On est né pour un petit pain”. O “grand pain” pelos vistos era para os ingleses…
Jean Lesage, o homem que lançou a “revolution tranquille” mudou – se calhar sem o querer – tudo isso. Deixou de haver canadianos francófonos, passou a haver quebecois: o “joual”, esse maravilhoso francês livre que se fala na província passou a ser honrado como tal, falado em peças de teatro, usado nos livros. A Igreja Católica foi para o galheiro. Igrejas há muitas mas a sua influência é nula. No “Oratoire St Joseph”, uma enorme igreja que me faz lembrar o Sacré Coeur de Paris, há sempre dezenas ou centenas de pessoas. Turistas a verem, imigrantes a rezarem. Quebecois? Só a acompanharem os turistas….
Pena que já me esteja a alargar demasiado mas tenho que voz dizer ainda que descobri porque é que o General de Gaulle em 1967 causou um “barraca” diplomática quando gritou da varanda da câmara municipal de Montreal: “Vive Le Quebec Libre”.
A umas poucas dezenas de metros da Câmara há uma estátua de Lord Nelson que foi ali colocada pelos ingleses antes mesmo de terem construído a famosa estátua colocada na praça de Trafalagar em Londres.
Eu creio que De Gaulle, da varanda olhou para a estátua e deve ter dito para consigo mesmo “Mautadit ’sti calice” e depois bem alto para todos ouvirem:
“Vive le Quebec … Libre”. Tomem lá ó “bifes” que é para aprenderem. “Baptême! Calice!”
Estou ainda convencido que como prémio os quebecois lhe ofereceram depois um “peido de freira” (Pet de Soeur), um bolo de receita local.
Do vosso amigo
Jota Esse Erre
PS – O Boulevard St Laurent (conhecido por todos como “La Main”) divide a cidade na parte inglesa e quebecoise. Uns para um lado outro para o outro. Os imigrantes de língua inglesa (indianos por exemplo) vão para o lado inglês. Os de língua francesa (Haiti por exemplo) para o outro. As lojas dos tugas estão no meio, ao longo do Boulevard St Laurent, à “beira Main” plantados portanto. As ruas dos generais Wolfe e Montcalm estão lado a lado a indicar senão uma reconciliação um andar paralelo de vizinhos. E no livro de visitantes da Câmara Municipal houve um canadiano inglês que escreveu em inglês: “O meu Canadá inclui o Quebec porque sem vocês não seríamos canadianos – seríamos americanos insignificantes”. Bonito…
Jota Esse Erre
Presumo que alguns de vocês estão chateados com a minha falta de regularidade e talvez mais ainda pelo facto de eu na minha última carta ter prometido que vos iria escrever dentro “de dois ou três dias” para finalizar as minhas impressões sur le Quebec. Foram dois ou três dias à… espanhola (ou à portuguesa?).
No Quebec isso seria razão, talvez, para me chamarem “meu hóstia”. Hóstia? É de fazer rir de espanto mas é verdade.. No Quebec não chame a alguém “hóstia” ou diga a palavra “tabernáculo” ou “cálice” ou mesmo “baptismo” em público. Essas palavras, todas elas vindas dos rituais da Igreja Católica, são insultos ou pelo menos palavras estilo “porra” a não dizer em boa companhia, portanto. Como por exemplo “mon ’sti” (meu hóstia) é o equivalente a dizer “meu sacana”.
“Ah mautadit tabarnac ’sti baptême”, seria como afirmar “Ah maldito sacana, porra, caraças”. (Note-se que o quebecois não diz “maudit”. Faz-lhe uma modificação ligeira só para dificultar a vida dos tipos como eu que por terem aprendido francês na escola pensam que vão compreender o que dizem os quebecois. Pois, pois…)
Isto para voz dizer que o uso de “cálice” e “hóstia” como pejorativo demonstra que o que em tempo era muito sagrado para os quebecois é agora algo a ser totalmente menosprezado. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, diriam alguns. O que é verdade mas neste caso reflecte, mais do que isso, a conturbada história desse pedaço francófono implantado na América do Norte em que a Igreja Católica jogou sempre um papel importante. Primeiro a “civilizar” os “sauvages” que habitavam essa zona a que chamavam Kebeq e depois a manter calmos os descendentes directos das ambições imperiais falhadas de la patrie française.
(Alguns dos indígenas chatearam-se mais rapidamente com os padres do que a brancalhada local. Fui informado que há uns “mártires” católicos - esqueço-me os nomes - que foram cozinhados vivos pelos índios. Não sei bem com que fim porque fui também informado que não os comeram.)
Após James Wolfe ter derrotado Montcalm em 1759 os “bifes” decidiram deixar os francófonos locais às suas instituições semi-feudais vindas de França e na qual a Igreja Católica jogava um papel predominante. O papel da Igreja Católica em governar os Quebecois aprofundou-se após uma falhada revolta em 1837 que levou à execução dois anos depois de 12 “patriotes” que se convenceram que poderiam derrotar o império britânico. (O que prova que o frio daquelas zonas congela não só as mãos mas também o cérebro. Explica também o misterioso “Je me souviens” escrito em todas as matrículas dos carros de Quebec. Não é - ao contrario do que pensam muitos Quebecois - “je me souviens… de les anglais” mas sim “Je me souviens… de les patriotes).
A partir dessa revolta a Igreja Católica assumiu-se como entidade protectora dos quebecois controlando TUDO na vida local. E quando eu digo TUDO não é tudo à la igreja portuguesa. É TUDO. Por exemplo só após a “ “Revolution Tranquille” dos anos de 1960 é que a Igreja Católica deixou de controlar a educação. Todos os quebecois do sexo masculino nascidos até aos anos 60 têm o primeiro nome de Joseph. Todas as mulheres nascidas até à “revolution tranquille” têm o primeiro nome de Marie. Mas ninguém toma atenção agora ao primeiro nome. Portanto quando for ao Quebec não peça para falar com a Marie. Embora o país esteja repleto de Marias ninguém sabe quem elas são. (De qualquer modo essa de dar a todos os machos o nome de Joseph fez-me lembrar aquela história do chefe de posto de Moçambique que no dia de registar nomes dava a todos os nomes de António ou Oliveira em honra do “patrão grande” em Lisboa).
No Quebec e após as revoltas fracassadas a Igreja Católica decidiu que o papel dos quebecois era o de não chatear os “bifes” que passaram a controlar o comércio e a indústria transformando os francófonos em agricultores, trabalhadores ou, os mais afortunados (poucos) em médicos e engenheiros mas nunca “businessmen”. Como dizia a igreja católica da região “On est né pour un petit pain”. O “grand pain” pelos vistos era para os ingleses…
Jean Lesage, o homem que lançou a “revolution tranquille” mudou – se calhar sem o querer – tudo isso. Deixou de haver canadianos francófonos, passou a haver quebecois: o “joual”, esse maravilhoso francês livre que se fala na província passou a ser honrado como tal, falado em peças de teatro, usado nos livros. A Igreja Católica foi para o galheiro. Igrejas há muitas mas a sua influência é nula. No “Oratoire St Joseph”, uma enorme igreja que me faz lembrar o Sacré Coeur de Paris, há sempre dezenas ou centenas de pessoas. Turistas a verem, imigrantes a rezarem. Quebecois? Só a acompanharem os turistas….
Pena que já me esteja a alargar demasiado mas tenho que voz dizer ainda que descobri porque é que o General de Gaulle em 1967 causou um “barraca” diplomática quando gritou da varanda da câmara municipal de Montreal: “Vive Le Quebec Libre”.
A umas poucas dezenas de metros da Câmara há uma estátua de Lord Nelson que foi ali colocada pelos ingleses antes mesmo de terem construído a famosa estátua colocada na praça de Trafalagar em Londres.
Eu creio que De Gaulle, da varanda olhou para a estátua e deve ter dito para consigo mesmo “Mautadit ’sti calice” e depois bem alto para todos ouvirem:
“Vive le Quebec … Libre”. Tomem lá ó “bifes” que é para aprenderem. “Baptême! Calice!”
Estou ainda convencido que como prémio os quebecois lhe ofereceram depois um “peido de freira” (Pet de Soeur), um bolo de receita local.
Do vosso amigo
Jota Esse Erre
PS – O Boulevard St Laurent (conhecido por todos como “La Main”) divide a cidade na parte inglesa e quebecoise. Uns para um lado outro para o outro. Os imigrantes de língua inglesa (indianos por exemplo) vão para o lado inglês. Os de língua francesa (Haiti por exemplo) para o outro. As lojas dos tugas estão no meio, ao longo do Boulevard St Laurent, à “beira Main” plantados portanto. As ruas dos generais Wolfe e Montcalm estão lado a lado a indicar senão uma reconciliação um andar paralelo de vizinhos. E no livro de visitantes da Câmara Municipal houve um canadiano inglês que escreveu em inglês: “O meu Canadá inclui o Quebec porque sem vocês não seríamos canadianos – seríamos americanos insignificantes”. Bonito…
Jota Esse Erre
sexta-feira, 12 de maio de 2006
Tinariwen, o som quente do Sahara
O seu último disco "Amassakoul" é um álbum intenso, salpicado com slow rock e letras politizadas. Recebeu boas críticas da revista norte-americana "Billboard" e foram considerados os melhores da World Music em 2005, pela BBC.
Se não tiver preconceitos e quiser ouvir novas propostas culturais vindas de terras com tradições diferentes da sua, vá hoje à noite (sexta) ao Bar Lua, no Jardim do Tabaco, em Lisboa. Depois conte.
Esmalte de Luís Ralha
...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda...
Cecília Meireles
Dominique de Villepin ultrapassa demissão anunciada?
" Muita loucura é o mais divino senso "
Esta epígrafe de Emily Dickinson, na tradução apaixonada de Jorge de Sena, pretende marcar e traçar o ambiente de frenesim, de estonteante ribombar e, ao mesmo tempo, sinalizar sobrepostos golpes palacianos que agitam a classe política francesa. É a versão hard, a mais despudorada, daquela tese de que "as élites mundiais só pesam nelas e na sua irradiação, mais nada". Eu que denunciei sempre as teses conspirativas e de faca-na-liga da política profissional, desato a rir às gargalhadas sonoras e pecaminosas ao ler os pormenores relatados pela biblia do parisianismo político, o Tout-Paris, que o fabuloso Le Canard Enchainé relata e apimenta. A edição desta semana é um " must " pelo caleidoscópico siderante e proteiforme das alusões e interferências que despoleta, alicia e sinaliza. São ministros, com ou sem amantes, altos funcionários das " jóias da coroa " industrial francesa que são desmascarados, postos em praça pública e, para quem sabe ler nas entrelinhas, manipulados a rigor por aquele deus ex-machina da política, Dominique de Villepin. Há 15 dias que toda a gente o dava como morto políticamente.Corriam rumores de uma demissão inesperada e inescapável. Ontem, Chirac fala aos jornalistas e garante a total confiança política no PM.Porquê? Ontem foi o dia em que o ex-chefe da espionagem exterior francesa, o general Rondot, revelou ao Le Monde que o PR lhe deu instruções para apurar se Sarkosy recebeu dinheiro pela venda das fragastas a Taiwan, dinheiro que foi " lavado " e transferido para o exterior pelo banco Clearstream. E contou mais: falou de uma conta de Chirac no Japão no valor de 300 milhões de francos( 60 milhões de euros...) que ninguém sabe donde vinham... a partir dos finais dos anos 90. Giscard e Miterrand parecem anjinhos de côro provinciais perante a desenvoltura e a ambição de Chirac, que gastava por dia enquanto maire de Paris mais de 300 euros só em compotas e bolinhos-de-chá. Total dos 14 anos anos do rol de mercearia da Fauchon, a creme de la créme das mercearias finas universais: 14 milhões de euros! Estamos conversados, como dizia o outro! Agora, a recuperação de Villepin junto do seu patrono e cúmplice passa pela minagem do staff judicial encarregue do apuramento da verdade das listas de clientes do Clearstream, através de um minuncioso processo de eliminação de provas... so que a conta de Chirac no Tokyo Sowa Bank foi posta a circular e a encher as primeiras páginas dos jornais. É uma jogada de top-master: condicionar o que só pode( e para...) enfranquecer as posições do pilar do regime, o PR, para conquistar terreno e ultrapassar pecados e falhanços inesperados. Tudo pela conquista do poder e preparar a tempo a desforra com Sarkosi, cujo comportamento pode indiciar alguma manipulação intencional de uma polícia secreta de potência estrangeira interessada em colonizar definitivamente a doce e maravilhosa França, onde a consciência da classe operária se mantém indomável e feroz, basta ver os telejornais, onde se fala de greves ou ocupações por tuta-e-meia, num país que produz o Airbus, o TGV e lidera nichos de mercado vitais no Comércio de Luxo , na Agricultura e na Distribuição.
FAR
Esta epígrafe de Emily Dickinson, na tradução apaixonada de Jorge de Sena, pretende marcar e traçar o ambiente de frenesim, de estonteante ribombar e, ao mesmo tempo, sinalizar sobrepostos golpes palacianos que agitam a classe política francesa. É a versão hard, a mais despudorada, daquela tese de que "as élites mundiais só pesam nelas e na sua irradiação, mais nada". Eu que denunciei sempre as teses conspirativas e de faca-na-liga da política profissional, desato a rir às gargalhadas sonoras e pecaminosas ao ler os pormenores relatados pela biblia do parisianismo político, o Tout-Paris, que o fabuloso Le Canard Enchainé relata e apimenta. A edição desta semana é um " must " pelo caleidoscópico siderante e proteiforme das alusões e interferências que despoleta, alicia e sinaliza. São ministros, com ou sem amantes, altos funcionários das " jóias da coroa " industrial francesa que são desmascarados, postos em praça pública e, para quem sabe ler nas entrelinhas, manipulados a rigor por aquele deus ex-machina da política, Dominique de Villepin. Há 15 dias que toda a gente o dava como morto políticamente.Corriam rumores de uma demissão inesperada e inescapável. Ontem, Chirac fala aos jornalistas e garante a total confiança política no PM.Porquê? Ontem foi o dia em que o ex-chefe da espionagem exterior francesa, o general Rondot, revelou ao Le Monde que o PR lhe deu instruções para apurar se Sarkosy recebeu dinheiro pela venda das fragastas a Taiwan, dinheiro que foi " lavado " e transferido para o exterior pelo banco Clearstream. E contou mais: falou de uma conta de Chirac no Japão no valor de 300 milhões de francos( 60 milhões de euros...) que ninguém sabe donde vinham... a partir dos finais dos anos 90. Giscard e Miterrand parecem anjinhos de côro provinciais perante a desenvoltura e a ambição de Chirac, que gastava por dia enquanto maire de Paris mais de 300 euros só em compotas e bolinhos-de-chá. Total dos 14 anos anos do rol de mercearia da Fauchon, a creme de la créme das mercearias finas universais: 14 milhões de euros! Estamos conversados, como dizia o outro! Agora, a recuperação de Villepin junto do seu patrono e cúmplice passa pela minagem do staff judicial encarregue do apuramento da verdade das listas de clientes do Clearstream, através de um minuncioso processo de eliminação de provas... so que a conta de Chirac no Tokyo Sowa Bank foi posta a circular e a encher as primeiras páginas dos jornais. É uma jogada de top-master: condicionar o que só pode( e para...) enfranquecer as posições do pilar do regime, o PR, para conquistar terreno e ultrapassar pecados e falhanços inesperados. Tudo pela conquista do poder e preparar a tempo a desforra com Sarkosi, cujo comportamento pode indiciar alguma manipulação intencional de uma polícia secreta de potência estrangeira interessada em colonizar definitivamente a doce e maravilhosa França, onde a consciência da classe operária se mantém indomável e feroz, basta ver os telejornais, onde se fala de greves ou ocupações por tuta-e-meia, num país que produz o Airbus, o TGV e lidera nichos de mercado vitais no Comércio de Luxo , na Agricultura e na Distribuição.
FAR
quinta-feira, 11 de maio de 2006
Portugal mais competitivo que Itália? Uauuu, quem diria....
Nas economias competitivas, Hong Kong mantém o segundo lugar e Singapura o terceiro. Quanto à União Europeia dos 15, sem os países do alargamento, a Dinamarca está em 5º e o Luxemburgo em 9º. Portugal melhorou, e está agora em 43º lugar, depois da Grécia (42º), Espanha (36º) e França (35º). Para os mais nacionalistas fiquem a saber que a Itália está abaixo de nós, em 56º lugar.
Este estudo baseia-se em centenas de critérios, que podem ser agrupados em quatro factores de competitividade: desempenho económico, eficiência governamental, eficiência empresarial e infra-estruturas. Foram analisadas 61 economias, divididas em 53 países e oito regiões.
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