Dizia o Marques Mendes há dias - não lhe conheço escândalos, pessoa hábil, ou discreta, e porventura, mais surpreendente ainda, talvez honesta - que a este PSD de Passos Coelho faltavam agora três ou quatro ideias bem escolhidas como causas que se “vendessem”, suponho que ao eleitorado perpétuo da democracia sondagística em que submergimos. Isto é: temos a realidade e esta é composta de temas fracturantes, país real, crise, dívida pública, submarinos a espreitar, personalidade do senhor engenheiro, o caso da “mentira”, a “face oculta”, a licenciatura fast food, etc. , e destas questões há que elencar aquelas que servem, numa dada composição, uma narrativa da vitória do ponto de vista do papel do novo antagonista, com o propósito de destronar o protagonista de serviço em prazo calendarizado – sempre entre eleições regulares, até ver .
Nessa narrativa há que injectar (como com o betão, é a “consistência ou credibilidade” em jogo de responsabilidade versus irresponsabilidade, os da economia e do mesmo, contra os que são supostamente da mudança e pelas pessoas) as 3 ou 4 ideias alimentadoras da ideia de que são ideias, justamente aquelas que podem render uma vitória, a vitória dessas ideias, já que ninguém se pode apresentar com o rosto da imparcialidade absoluta, ou da neutralidade, por muito que seja do tal centro – o centro não passa de uma ilusão fictícia e de um jogo em política, ou a própria política como emprego na medida em que no centro podemos estar sempre com uns e com outros. Ao centro virá até o Portas, que já lá esteve mais ou menos disfarçado e lá regressará quando for preciso.
Ora estamos portanto diante daquele absoluto do marketing político que ignora a realidade e que escolhe uma dada reformatação narrativa da ficção política (e da realidade, cujos aspectos relevantes se tornam mais ou menos visíveis e assim usados conforme convenha à conjuntura narrativa) como novela, de modo a que, nessa narrativa enquadrada pelas 3/4 ideias causas, Passos Coelho possa derrotar José Sócrates por ser melhor e mais capaz naquela definição da luta de galos que passa pelos perfis das revistas de fim-de-semana – mais ou menos simpático, mais ou menos bem vestido, mais ou menos preparado, mais ou menos inglês, técnico ou do outro, mais ou menos sensatez, mais ou menos coragem de decidir e por aí adiante.
A simplificação da realidade para consumo das massas enquanto novelização da “política” nunca esteve tão clara como nos dias que correm. As tais ideias, 3 ou 4 - mais que isso surge a indesejada complexidade, sem leitura para os papalvos, nós – têm que ser bem escolhidas. Por exemplo: 1ª ideia: Passos Coelho nada deve à dívida pública, é um inocente; 2ª ideia: é tão laico como Sócrates, não combaterá o aborto; 3º ideia: apesar de tão liberal quanto Sócrates até se colocará contra certas privatizações de sectores estratégicos, por exemplo os CTT e parte da Caixa; 4ª ideia: ao contrário de Sócrates não será um Chefe que faz o deserto à sua volta, pelo contrário, à sua volta rimarão as outras tendências, até os barões; E basta, cuidado com a saturação do espaço mediático. Tudo daqui, deste elenco ideal, se poderá inferir.
Projecto, programa, sistema articulado de propostas analítico-prospectivas para quê? A realidade depois dá-lhes a volta, ou não é assim com o mercado e mais os seus humores irracionais e bolsistas? E depois quem é que sabe fazer um programa com pés e cabeça? - Justamente o que não interessa porque é teórico e complica (e até pode revelar umas verdades mais insuportáveis que o Calvário da dívida, essa cruz que todos carregamos perante os novos romanos, os banqueiros a quem devemos e as suas empresas de rating – é assim não é, rating?) e o que é necessário é pragmatismo e eficácia. Andar para a frente. E há sempre aqueles chapéus de clarividência providente: “modernidade”, “desenvolvimento”, “progresso”, e até “cidadania”, e recuando um pouco “os portugueses conhecem-me”, que resulta sempre e é mais emotivo que dizer “somos europeus” – dizem que somos.
O povão, entre estes colossos homéricos das Beiras, só os vê a eles, mancha única, e com esta fulanização narrativa dramatizada da política obviamente que a realidade se esfuma – quem vê heróis, negativos e positivos, só vê a nuvem e do destino, do porvir, perde o fio e a meada, entra na cabotagem. Nada mais eficaz portanto do que a política espectáculo. E não será tanto o espectáculo em si, mas, antes os enredos que ligam os momentos espectaculares. Mais dramáticos e pessoais, menos dramáticos e mais aproximados do real, o que eles chamam de economia. Mesmo a economia está repleta, nas supostas análises permanentemente publicitadas via opinião em feudo próprio ao serviço do sistema, de terminologia psicológica: a confiança, como dizem, tornou-se um elemento chave das descrições da Crise centradas no batimento pendular e “cardíaco” desse monstro imprevisível chamado sistema bolsista, filho directo da soma da interacção das irracionalidades em confronto no tal mercado globalizado – a bolsa é um totobola dos muito ricos com bases seguras para quem tem a informação necessária na hora, mete muita espionagem e menos faro, embora pareça metade instinto – falo da costela jogo. É muita emoção junta e como sabemos chega a provocar suicídios em série – em 1929 foi assim, agora não se repetiu, foi menos dramático – eis uma tese de doutoramento.
O que estes senhores não prevêem é que a realidade não é dominável por baias de nenhum tipo e não se pode ocultar o que não se revela por fazê-lo táctica e tacanhamente, como não se pode prever o modo como de repente uma nova questão – e imprevista pois – toma conta dos fluxos diários de realidade virtualizada e objectiva na marcha coomum. Sabemos aliás que muito do que acontece hoje tem muito a ver com um aumento exponencial das imprevisibilidades, justamente por efeito da crise, essa tragédia multiplicadora de dramas e precariedades que são a fonte de maior imprevisível.
Creio, no entanto, que o problema do Passos vai ser o Coelho. E desse ele não se livra. Só com uma auto-mutilação nominal. Claro que dava mais jeito ao PSD que se chamasse Passos Jack ou mesmo Passos Carneiro. Ainda vão encontrar estranhas conexões no Coelho do Passos. Discutam isso no Congresso. Ele há mais um não é? Será o das quatro ideias?
FMR
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
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segunda-feira, 6 de agosto de 2007
domingo, 8 de julho de 2007
Marques Mendes
“(...)De facto, o líder do maior partido da oposição, intervindo com frequência na campanha (o que só lhe fica bem), não sai de um registo reviralhista e nacional, como se não reconhecesse os problemas de Lisboa. É claro que ele pretende ser alternativa ao primeiro-ministro, e não ao candidato do PS à Câmara de Lisboa. Mas o seu discurso é tão centrado nos apelos à "punição" do Governo que dá aos lisboetas a ideia de que os seus problemas não são tidos em conta, antes são instrumentalizados por uma lógica de legislativas.
Isto num cenário, pelo menos plausível, de derrota, é muito arriscado. Primeiro, por permitir ao adversário vir a reivindicar, para os resultados, um alcance maior do que o verdadeiro e legítimo, que é o municipal. Segundo, porque a lógica nacional da campanha transfere, do candidato para ele próprio, a usura da derrota.
Ora Marques Mendes traz consigo uma vida de militância partidária. Não é um novato. Sabe tudo isto muito bem. E, assim sendo, esta sua escolha só pode ser um "perdido por cem, perdido por mil". Uma dramatização de um mau resultado em Lisboa, que ele já não crê poder contrariar, a servir de justificação política para umas "directas" partidárias antes do congresso que a oposição interna pretende convocar. Mau agoiro para o PS, que decerto gostaria de o ter pela frente em 2009.”
Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias 08/07/2007
Isto num cenário, pelo menos plausível, de derrota, é muito arriscado. Primeiro, por permitir ao adversário vir a reivindicar, para os resultados, um alcance maior do que o verdadeiro e legítimo, que é o municipal. Segundo, porque a lógica nacional da campanha transfere, do candidato para ele próprio, a usura da derrota.
Ora Marques Mendes traz consigo uma vida de militância partidária. Não é um novato. Sabe tudo isto muito bem. E, assim sendo, esta sua escolha só pode ser um "perdido por cem, perdido por mil". Uma dramatização de um mau resultado em Lisboa, que ele já não crê poder contrariar, a servir de justificação política para umas "directas" partidárias antes do congresso que a oposição interna pretende convocar. Mau agoiro para o PS, que decerto gostaria de o ter pela frente em 2009.”
Nuno Brederode Santos, Diário de Notícias 08/07/2007
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segunda-feira, 21 de maio de 2007
Sinais
domingo, 29 de abril de 2007
"Cavaco no Parlamento"
"(...)Nuno Brederode Santos, Diário de Notícas, 29/04/2007
Importante é que um segundo 25 de Abril já passou, sem grandes molhas. E numa inanidade bem gerida, a fazer alguns consensos importantes. O mais vistoso, aliás, foi o de Marques Mendes consigo mesmo, já que ele tão alegremente se reviu no Portugal apocalíptico de Paulo Rangel, como no Portugal de Cavaco, promissor de radiosas madrugadas."(clicar para ler tudo)
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