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segunda-feira, 27 de abril de 2020
TO ELVIS, WITH LOVE
Os muros que ladeiam a casa de Elvis estão apinhados de mensagens dos seus fãs.
Da maneira como as mais recentes se sobrepõem, fiquei com a ideia de que todo o muro é lavado de
tempos a tempos para permitir novas levas de mensagens.
Aqui está uma respeitável senhora apanhada em pleno acto... Procurou, procurou e lá encontrou um
pedacinho onde escrever.
Comovente...
Cada um é como é e longe de mim censurar...
Deus sabe como sou fã de Gram Parsons e já andei a perseguir as suas memórias em todo o lado por onde caminhou, mas nunca me passaria pela cabeça deixar-lhe um bilhetinho...
Texto de Luís Mira
GRACELAND
I’m going to Graceland
Memphis, Tennessee
I’m going to Graceland
Poor boys and pilgrims with families
And we are going to Graceland
...........................................
...........................................
Ooh, ooh, ooh,
In Graceland, in Graceland
For reasons I cannot explain
There’s some part of me wants to see
Graceland
(Paul Simon – “Graceland”)
Paul Simon nasceu em 1941 e teria 13 anos quando Elvis Presley fez as suas primeiras gravações no “Sun Records”, em Memphis.
É natural, portanto, que sinta uma certa nostalgia em relação a Graceland, mesmo que não nos saiba explicar muito bem porquê.
Não é o meu caso.
Respeito a memória do Elvis e tudo o que ele representou para o surgimento de um novo tipo de música de que, muitos anos mais tarde, aprendi a gostar.
Também sei separar o trigo do joio, ou seja, as qualidades de Elvis, o cantor, das muitas vezes grotescas trapalhadas em que Elvis, o Homem, se viu envolvido ao longo da sua vida...
E se uma das primeiras músicas em língua inglesa que me lembro de ter gostado, em criança de 7 ou 8 anos, foi “Wooden Heart”, era preciso ter um coração de pedra para não ter ficado com um pouquinho do Elvis dentro de mim.
Mas isso não teria sido suficiente para me fazer voar para Memphis, Tennessee...
As memórias musicais que mais me aquecem o coração não habitam por aqui...
Mas também ir a Memphis sem passar por Graceland seria uma pura estupidez... E assim aconteceu.
Cheguei lá e – sacrilégio...!!! - acabei por não fazer a visita à casa.
Naquele lugar os cifrões giram à volta da nossa cabeça.
Não admira... É a casa mais visitada em todos os Estados Unidos da América.... Uma verdadeira máquina de fazer dinheiro!
Paga-se para ver o interior da casa, paga-se para ir ao “Meditation Garden”, onde se encontra o túmulo de Elvis, paga-se para ver a colecção de automóveis e de motas, paga-se para entrar nos dois aviões privados, eu sei lá... Só falta mesmo pagar para se poder respirar no interior...
Julgo que foi na “Estratégia da Aranha”, do Bertolucci, que ouvi ou li algo que me parece ter sido uma citação de Brecht e que dizia mais ou menos o seguinte: “felizes dos povos que não precisam dos seus heróis”.
Eu não tenho rigorosamente nada contra o facto de toda esta gente vir aqui em peregrinação saudar a memória do seu Herói.
Bem pelo contrário...
Ao inverso do que Brecht dizia em relação aos povos (mas ele falava num contexto político...), penso que no Cinema, na Literatura, na Música, em todas as Artes, em geral, infelizes daqueles que não têm os seus heróis e não sentem a necessidade de lhes prestar vassalagem.
Mas confesso que me incomoda bastante o cheiro a ganância que se sente no ar num lugar como este.
Fiz as contas por alto e uma curta visita não me ficaria por menos de 120 €...
Não sou forreta nem fundamentalista..... Seria uma vez na vida e em circunstâncias normais confesso que talvez me tentasse a ir, embora a Cristina me tivesse logo avisado que não estava nada p’raí virada.
Mas a casa encerrava às 17h00 e já passava das 16H00 quando lá chegámos. Teria de comprar o bilhete e apanhar um “bus” no outro lado da avenida, na zona onde estão os dois aviões privativos de Elvis, pelo que me restaria muito pouco tempo útil para a visita...
É claro que poderia lá ter ido no dia seguinte, mas se em circunstâncias normais já não consegui cumprir o programa que tinha estabelecido para dois dias em Memphis, se tivesse regressado a Graceland estava frito... É que se diz que isto fica em Memphis mas, na realidade, fica muitíssimo longe do centro da cidade.
Assim sendo, cheirei a propriedade por fora, li algumas das inscrições nos muros que a rodeiam, vi ao longe os dois aviões, o maior “Lisa Marie” e o mais pequeno “Hound Dog II”, comprei um catálogo para mim e algumas recordações para os amigos, e zarpei.
Mas não me despedi do Elvis para o resto da viagem porque, uma vez que iria andar lá por perto, ainda tinha previsto passar por Tupelo, no Mississippi, ver a casa onde ele nasceu, o que até se iria revelar bastante mais interessante, como na altura própria vos contarei.
PS:
Quem estiver interessado em dar uma olhadela ao interior da Casa não terá de ir a Graceland. Bastará ir ao YouTube....
Texto de Luís Mira
sábado, 25 de abril de 2020
POR QUEM OS SINOS DOBRAM
Uma vez, já não me lembro bem onde, li uma notícia que achei uma delícia...
Em Maranello, terra da Ferrari, o pároco da igreja tocava os sinos sempre que a equipa da casa ganhava uma corrida de Fórmula 1 e os “fieis” vinham a correr, trazendo o que tivessem à mão, e no adro da
igreja, todos juntos, faziam a festa.
Numa época em que a Igreja parece estar em quebra de simpatizantes (acredito que já esteve bem pior e que Francisco deu uma mãozinha...), isto seria uma boa maneira de arregimentar novos aderentes.
Imagino os sinos a ouvirem-se ao longe e os adeptos à saída da Luz, em vez de irem encher o Edmundo ou o Boa Esperança, a correrem como doidos em direção à Igreja de São Domingos de Benfica...
Não que de vez em quando não lhes ficasse bem acenderem uma velinha, mas não tenhamos ilusões.
Coisas destas só mesmo em Itália e com o “Cavallino Rampante”...
É verdade que sino não tem tocado muito nestes últimos anos. No ano passado só tocou três vezes, embora uma tenha sido pela vitória em Monza, o que para um italiano vale sempre muito mais, até
porque desde 2010 que tal não acontecia... Em 2018 (6) e 2017 (5) terá tocado mais vezes, mas a grande desilusão foi 2016, em que não tocou uma única vez, certamente que para grande desilusão do nosso
pároco, que terá perguntado a Deus porque lhe virou as costas...!
No que mais interessa, que são os títulos, o último Campeonato do Mundo por Equipas data de 2008, com Raikkonen e Massa, e o último piloto a sagrar-se Campeão do Mundo com um Ferrari foi Kimi
Raikkonen, em 2007.
Mas acreditem que mesmo com tão longa espera, a fúria dos “tiffosi” não esmoreceu. Basta ver como a pista de Monza fica inundada de adeptos no final de cada corrida de F1 que lá se realiza.
Andei por Maranello à procura de uma igreja e até vi duas, mas esta que vos mostro é a que mais perto se encontra das instalações da Ferrari, pelo que pode muito bem ser aqui que o pároco manifesta a sua
satisfação...
Aqui, como é natural, cheira a Ferrari por todos os lados. Nos cartazes nas ruas, nas montras das lojas, nas janelas dos edifícios, eu sei lá...
Numa zona mais afastada do Centro, numa larga rotunda, um imponente “cavallino rampante” anuncia a entrada nos terrenos da Ferrari, onde coincidem, lado a lado, parte das antigas e as modernas instalações
fabris.
O maior pitéu, para quem gosta de automóveis, é, sem dúvida, a “Galleria Ferrari”, o Museu Automóvel da Ferrari.
Lá estão alguns dos principais modelos “de estrada”, desde o primeiro, o 166 MM Barcheta, até às grandes bombas tipo F40 dos anos 90.
Mas o verdadeiro êxtase reservado para as salas dedicadas à competição.
Lá encontramos o primeiro Ferrari de Competição, o 125 S, de 1947, com o qual a Ferrari ganhou pela primeira vez em Le Mans, em 1949.
Lá estão os carros com que a “Scuderia” ganhou os seus primeiros Campeonatos de Pilotos, a começar com o Ferrari Tipo 500 com que Alberto Ascari ganhou os Campeonatos de 1952 e 1953, o D 50 com que
Juan-Manuel Fangio ganhou em 1956, e o 246 Dino que deu a Mike Hawthorn o campeonato em 1958, ano dramático para a Scuderia quando dois pilotos morreram em pista (Luigi Musso em França e Peter
Collins na Alemanha) e o próprio Hawthorn morreria num acidente de viação, poucos meses após o final da época.
Mas também lá estão outras preciosidades: o 156 F1 de 1961 que foi pilotado por Phil Hill, a primeira miniatura de um Ferrari que tive em criança, o 312 com que Niki Lauda foi campeão do Mundo em 1977
e que também foi conduzido pelo malogrado Gilles Villeneuve, e algumas das viaturas conduzidas por Schumacher entre 2000 e 2004, quando foi campeão em cinco anos consecutivos.
Le Mans, é claro, também não podia faltar e, entre outras, por lá vi um exemplar do 275 LM que foi o último carro da marca a vencer em la Sharte em 1965 e foi, também, a primeira miniatura à escala 1:24
que me lembro de ter tido...
Mas nem só de carros vive o Museu Ferrari...
Para quem se interessar pela vertente técnica da competição (não é muito o meu caso...), estão lá expostos motores de diferentes épocas, caixas de velocidade, jogos de suspensão, pneus e outras
componentes das viaturas.
Outro espaço que nos encanta é o dedicado ao equipamento dos pilotos: capacetes, fatos, luvas, botas, e quanta emoção não se sente ao ver os que pertenceram àqueles que partiram desta Vida cedo demais, como é o caso de Gilles Villeneuve, cujos equipamentos aqui vos mostro.
Para além de tudo isto há cartazes, recortes de jornais, filmes da época e outros suportes de informação alusivos à História da Ferrari.
13 € foi quanto me custou a entrada neste Museu, há 10 anos atrás. Nada caro, para tão grande prazer...
Perto da “Galleria”, um “Stand” da Ferrari com diversos modelos à porta convida-nos para um “Test-Drive”. Ainda pensei lá ir, mas rapidamente desisti. A minha conta bancária não chegaria, certamente, para o depósito de caução que teria de lá deixar...
É por isso que a Ferrari é um sonho!
Só de o cheirar, até um cego o quer guiar... Lembram-se da cena do Al Pacino no “Perfume de Mulher”...?
Mas o Al Pacino do filme era rico e inconsciente, e eu sou um teso consciente...
Virei costas desolado e pela avenida fora dei por mim a pensar para com os meus botões, como o outro o fazia, embora com uma tentação muito mais prosaica, em plena manifestação do 25 de Abril:
“Um Ferrari, assim, jamais será p’ra mim...! Um Ferrari, assim, jamais será p’ra mim...! Um Ferrari,
assim................................”
Texto de Luís Mira
sexta-feira, 24 de abril de 2020
SALAS DE CINEMA DE OUTROS TEMPOS – SAVANNAH, GEORGIA
Existe um preconceito que tende a considerar os americanos um povo primitivo e pouco iletrado, que
não tem uma relação com a Cultura – assim mesmo, com cê grande – como aquela que nós, europeus,
temos.
O que me oferece dizer é que, ao longo de quatro prolongadas viagens que já fiz pelos Estados Unidos da América, nunca me apercebi que a Cultura fosse tratada a pontapé. Bem pelo contrário...
Alguns dos melhores museus do Mundo estão na América, e não apenas em Nova Iorque, Washington, Los Angeles ou São Francisco, mas também em cidades mais pequenas.
O país dispõe de inúmeras organizações federais, estaduais e privadas de renome no domínio da Cultura.
A “Smithsonian”, por exemplo, é uma das mais prestigiadas a nível mundial.
É certo que a América não tem um património cultural de excelência como o da Europa, mas agarram-se com unhas e dentes ao que têm e preservam-no cuidadosamente.
Um exemplo desse património mais antigo que conheço relativamente bem são as velhas Missões
espanholas californianas do Séc. XVIII que existem entre San Francisco e San Diego, que vi num
excelente estado de conservação.
Em todos os Estados, grandes casas senhoriais do tempo colonial e dos primórdios da Independência,
inseridas nos seus espaços circundantes, foram preservadas e estão abertas aos visitantes.
Por todo o lado parques temáticos permitem-nos viajar no tempo e conhecer um pouco melhor a Cultura e as condições de vida das diversas gerações pioneiras, e dos próprios Índios, como vi em Natchez.
No que respeita às chamadas “belezas naturais”, elas são sobejamente conhecidas. São 62 Parques
Naturais Nacionais pouco tocados pelo Homem, de uma beleza de cortar a respiração, proporcionando inesquecíveis experiências de harmonia e de comunhão com a Natureza. E se pensarmos nos Parques Estaduais, este número aumenta consideravelmente...
Dir-me-ão que muitos desses espaços parecem ser demasiado destinados ao turismo... E Versailles, os
castelos do Loire, o Louvre, a Tate Gallery ou os Uffizi, não o são também...?
É verdade que, quando dela necessitamos, temos alguma dificuldade em encontrar uma boa livraria, mas isso parece um (mau...) ar dos tempos e não algo específico dos Estados Unidos...
As próprias cidades nem sempre são feitas de grandes arranha-céus. Existem verdadeiras “cidades-
museu”, como St. Augustine, Charleston, Natchez ou Savannah, para só vos referir aquelas que mais
recentemente visitei. E é um prazer passear pelas ruas dessas cidades e ver a diversidade de estilos que oferecem ao viajante, em edifícios muito antigos criteriosamente recuperados. Puxando a brasa à minha sardinha, não imaginam a maravilha que é encontrar, em excelente estado de conservação, velhas salas de Cinema centenárias em quase todos os lugares por onde passamos.
Quando paro defronte delas e as olho parecem querer falar comigo e contar-me as suas histórias... O
“glamour” que viveram nos tempos áureos, quando o Cinema era belo... As alegrias, as tristezas e os
dramas que deram a ver... O que riram, o que choraram, o que cantaram e dançaram, descalços no
parque, à chuva ou sobre as nuvens... A excitação da sala cheia e a agonia de vê-la vazia...
Parecem querer contar-me de tudo o que o vento já levou... Dos esplendores na relva, das condessas
descalças, de tudo o que o Céu permite, das lendas dos beijos perdidos, dos filhos da noite, dos rebeldes sem causa e de todos os que só Deus sabe quanto amaram...
Mas da história delas eu nada sei. Quando as vejo estão quase sempre fechadas e nem as entranhas lhes consigo vislumbrar... Só à noite, quando regresso ao quarto do hotel, posso ir à “net” tentar perceber por onde passei...
Com regularidade irei enviar-vos fotografias de algumas dessas Salas de Cinema, com informações acerca da sua história, nos casos em que as consegui obter.
E vamos começar hoje com o belíssimo “Lucas Theatre”, em Savannah, na Geórgia.
Foi mandado construir por um senhor chamado Arthur Lucas, abastado proprietário de uma grande cadeia de Salas de Teatro, e foi inaugurado, com pompa e circunstância, há quase 100 anos, no dia 26 de Dezembro de 1921. Foi uma sessão dupla, com a curta “Hard Luck”, com Buster Keaton, e “Camille” como filme principal, com a diva Alla Nazimova e o divo Rudolfo Valentino, realizado por um tal Ray C. Smallwood de que não reza a História.
À sua época, com 1237 lugares sentados, era o cineteatro mais luxuoso de Savannah e o primeiro a
possuir ar condicionado.
Resistiu durante mais de cinco décadas, mas em meados dos anos 70, com o enorme sucesso dos
primeiros “blockbusters” e a progressiva passagem do Cinema para as grandes superfícies comerciais
com as suas salas “multiplex”, foi obrigada a encerrar as suas portas, tal como sucedeu a muitas outras salas por esse Mundo fora. O último filme que passou foi “O Exorcista”.
Dez anos mais tarde foi criada uma associação não lucrativa – “The Lucas Theatre of the Arts” - que tinha como objectivo angariar fundos para a recuperação do edifício, o que ainda levaria muitos anos a concretizar.
Mas isto está tudo ligado, e um grande impulso para a recuperação acabou por ser dado por Clint
Eastwood ao fazer nessa sala, ainda em obras, a festa de encerramento das filmagens de “Meia Noite no Jardim do Bem e do Mal”, de que ainda há bem pouco vos falei, e ao doar à Associação os lucros
obtidos nesse evento.
A recuperação foi concluída e a nova abertura teve lugar no dia 1 de Dezembro de 2000, com “E Tudo o Vento Levou”, como não podia deixar de ser...
Hoje o “Lucas Theatre” é um espaço multifacetado.
A sua exploração é gerida pelo “Savannah College of Arts and Design”, que fica lá mesmo ao lado, e
promove a exibição de teatro clássico e de vanguarda, de eventos musicais variados e, naturalmente, de Cinema, com particular atenção na divulgação dos grandes clássicos do cinema americano.
É, igualmente, palco de realização de grandes festivais anuais, como o “Savannah Film Fest”, o
“Savannah Philharmonic” e o “Savannah Music Festival”.
Reabilitação conseguida com sucesso, portanto, o que nem sempre acontece nestes casos...
Mas não estaríamos em Savannah se não houvesse, pelo meio, uma história de fantasmas...
Há quem garanta que este teatro está assombrado, que se vêm estranhas sombras e se ouve bater palmas quando está vazio, e o “Lucas Theatre” é paragem obrigatória do “Ghost City Tours”...
Tudo terá acontecido em 1928, dizem, quando um grupo de “gangsters”, provavelmente porque o
proprietário do teatro não lhes pagou a “comissão”, avançou a tiro pelo meio de uma multidão em fila de espera e matou pelas costas o pobre empregado da bilheteira, que procurava fugir, quedando-se o seu fantasma para sempre nos corredores do teatro.
Parece que os jornais da época não registaram qualquer acontecimento parecido com este, mas já se sabe o que acontece na América quando a lenda se sobrepõe à realidade...
Mas eu gosto desta história...
Apetece-me é acrescentar-lhe outros fantasmas muito meus, aqueles que morreram nas mais belas mortes do Cinema...
Thomas Mitchel, apoiado por Cary Grant, a dar uma última passa no cigarro no “Only Angels Have
Wings”...
Louis Jourdan a deixar-se matar em duelo, depois de ter lido a carta de uma desconhecida...
Margaret Sullavan a abrir a janela e a roubar um último sopro de vida em “Three Comrades”...
O soldadinho de “A Time to Love and a Time to Die” a puxar pela última vez da carta que transportava bem junto ao coração e a vê-la fugir por entre as águas...
Sterling Hayden estendido sobre a relva com que tanto sonhara, com o cavalo a beijar-lhe a face, em “The Asphalt Jungle” James Mason a entrar no mar e a libertar, de vez, Mrs. Norman Maine, no “A Star is Born”, do Cukor, e Pandora a fazer o mesmo, por amor ao holandês voador...
Aqueles que os próprios fantasmas se encarregaram de vir buscar, como Mrs. Muir, Jeanette Macdonald no “Maytime” e o velho marido nas duas versões de “Smilin’ Through”...
E como fantasmas não escolhem antigas ou novas vagas, lá estará, também, o Belmondo de “A Bout de Soufle”, qual James Cagney dos tempos modernos, a ser baleado pelas costas e a andar aos esses pela rua fora antes de se estatelar no chão e levar o dedo aos lábios pela última vez, como Bogard...
E também por lá andarão aqueles que morreram de mãos dadas, como os amantes crucificados do
Mizoguchi, Joel McCrea e Virginia Mayo nesse tão belo e tão esquecido “Colorado Territory” ou
Jennifer Jones e Gregory Peck, depois de se destruírem mutuamente, no “Duel in the Sun”...
E ainda Helen Hayes nos braços de Gary Cooper, no “Farewell to Arms” do Borzage, naquela que hoje me apetece dizer que é a mais bela morte no Cinema...
E como os anjos também serão admitidos, não faltará por lá aquele que tão galhardamente ganhou as
suas asas ao levar James Stewart a perceber que a Vida é, na verdade, uma coisa Maravilhosa...
Tanta e tão boa gente que nos encantou e emocionou ao longo da Vida lá deve estar...
Porque talvez que o Cinema não passe disso mesmo: bons fantasmas que povoam o nosso imaginário e nos ajudam a viver...
E é por isso que me comove sempre tanto ver um velho Cinema ainda vivo...
Texto de Luís Mira
quinta-feira, 2 de abril de 2020
LOVE IS A TRAVELER ON THE RIVER OF NO RETURN
“Rio Sem Regresso” (Otto Preminger – 1954) é um filme que parece não ter deixado grandes saudades a quem o fez...
Marilyn Monroe tinha os caprichos que se conhecem, Robert Mitchum o mau feitio que se sabe, e Preminger também tinha a fama de ser um realizador com quem nem sempre era fácil trabalhar.
Mistura explosiva, portanto, e todos trataram de esquecer rapidamente o filme. Parece que Bob Mitchum nem queria sequer ouvir falar nele e chamava-lhe “the picture of no return”...
Curiosamente, nada disto transparece no filme, que aos meus olhos é um filme sereno, com a beleza telúrica daquelas magníficas paisagens das “Rocky Mountains” canadianas, tudo isto em Cinemascope e com uma bela fotografia de Joseph LaShelle.
Apesar de alguns perigos (os índios, os “rápidos”, os “maus” que não são índios,...), o filme desenrola-se serenamente, por entre as montanhas e ao sabor do rio, desaguando naquele inesquecível happy end do Mitchum com a Marilyn às costas, que todos nós desejávamos que acontecesse...!
E de todos os filmes de Marilyn, “Rio sem Regresso” é um daqueles onde mais gosto de a ver.
Sinto vontade de rever, de vez em quando, aquela cena onde, tão bonita e tão serena, guarda num saco os sapatos altos vermelhos, símbolo de um passado que desejaria encerrar para sempre, veste a camisa, ajeita os cabelos, desaperta o cinto, põe as fraldas para dentro, puxa da guitarra e canta para o miúdo “Down in the Meadow”, como quem embala nos braços, ternamente, a criança que sempre desejou mas que nunca conseguiu ter.
O filme foi realizado aqui, nos arredores da bonita cidade de Banff, no Canadá.
Onde vêm as quedas de água, o operador de câmara teve muito cuidado em ocultar tudo quanto era urbanismo e modernidade, que fatalmente apareceriam na imagem se descaísse a câmara um pouco mais para a direita, ou para a esquerda...
Mas o rio atravessa um enorme Parque Nacional, pelo que grande parte dos espaços permanecem livres e selvagens.
Parei num deles para fazermos um piquenique.
Sentei-me junto ao rio, pousei nele o olhar e o pensamento e deixei-me levar pelas águas...
There is a river, called the river of no return
Sometimes it’s peacefull and sometimes wild and free
Love is a traveler on the river of no return
Swept on forever to be lost in a stormy sea (wail-a-ree...)
I can hear the river call (no return, no return, ...)
Texto de Luís Mira
terça-feira, 31 de março de 2020
LAKE LOUISE
In the blue Canadian Rockies
Spring is silent through the trees
And the golden poppies are bloming
‘Round the banks of Lake Louise
Gram Parsons com os Byrds
segunda-feira, 30 de março de 2020
HANK WILLIAMS - OS FILMES
Se Hank Williams não teve sorte em muitas coisas na vida, o certo é que também a não teve no que toca aos filmes que sobre ela se debruçaram.
Que eu saiba existem três, um de 1964 e os restantes dois bastante mais recentes. Nenhum deles teve
estreia comercial em Portugal, embora em relação ao primeiro não o possa afirmar com absoluta
certeza...
“I Saw the Light”, realizado em 2016 por Marc Abraham com Todd Hiddleston como protagonista, não teve direito a estreia comercial mas passou há um ano e picos nos canais Telecine.
Para mim é o melhor dos três, embora longe de poder honrar devidamente a memória de Hank Williams.
O narrador do filme é o produtor e compositor Fred Rose, que foi o grande impulsionador da carreira de Hank, e tudo se passa em “flashback”. Começa com o casamento na tal bomba de gasolina da Texaco, e depois revisita os momentos mais relevantes da sua carreira. Neste aspecto, é o mais fidedigno dos três filmes, embora se arraste demasiado na relação de Hank com a mulher, Audrey, para depois meter a martelo o “downfall” de Hank de forma muito pouco credível.
A música do filme é interpretada pelo próprio actor Todd Hiddleston, com o apoio de uma banda, The
Saddle Spring Boys. Não é má e não é por ela que o gato vai às filhoses...
“The Last Ride”, realizado em 2011 por Harry Tomason com Henry Thomas como protagonista debruça-se, tal como o próprio nome indica, sobre os dois últimos dias da vida de Hank Williams.
Mas mais valia que se tivesse dito que o filme era “inspirado em...”, tal a distorção que é feita em relação à realidade dos factos, incluindo o trajecto da própria viagem...
O filme, que não deixa de ser simpático se nos esquecermos de Hank Williams, não pretende ser mais do que a história de uma amizade que em pouco tempo se desenvolve entre quem conduz a viatura e quem vai no banco traseiro. Mas, entre outras coisas, não consta que Charlie Carr tenha encontrado a mulher da sua vida durante essa curta viagem nem, muitos menos, que Hank Williams lhe tenha deixado as chaves do belo Chevrolet azul claro como herança...!
A música não se faz sentir muito durante o filme, mas foi editado o CD com o suposto “soundtrack” no qual, entre outros intérpretes, aparece a filha de Hank, Jett Williams.
Para o fim reservei-os o pior...
“Your Cheatin’ Heart” foi realizado em 1964 por Gene Nelson e tem George Hamilton como
protagonista.
É o único dos três filmes que, embora muito brevemente, evoca a infância de Hank, quando ele andava com uma caixa de engraxar sapatos aos ombros para ganhar uns cobres e a aprender música com Rufus “Tee-Tot” Payne. Mas é um filme sem ponta por onde se lhe pegue, que se borrifa na verdade dos factos, faz de Hank um pobre pateta e não tem outro objetivo senão meter uma música a martelo de cinco em cinco minutos.
O melhor do filme ainda consegue ser a música, interpretada pelo filho de Hank, Hank Williams Jr.
Mas perdoe-se ao rapaz o ter participado neste objecto ultrajante para a memória do seu pai, porque o pobre miúdo não tinha, na altura, mais do que 15 anos de idade...
A culpa deste desastre não é tanto do actor e realizador Gene Nelson mas, sobretudo, do produtor Sam Katzman que, depois de ter deixado o seu nome ligado a alguns curiosos filmes de ficção-científica de série B nos anos 50, descobriu o filão dos teenagers nos anos 60 e encadeou, com a MGM, uma série de banais filmes musicais com os ídolos da adolescência (Elvis, Roy Orbison, Johnny Cash e até Astrud Gilberto e os Herman’s Hermits...), todos eles de muito baixo orçamento, mas que lhe deram a ganhar rios de dinheiro.
Gente deste calibre não morre em quartos de hotel, a não ser em trabalhos de esforço com uma ou duas boas companhias... E, muito menos, no banco traseiro de um automóvel, com a cabeça encostada à janela...
Morre em Hollywood ou em Miami. Refastelados à beira de uma piscina, calções, uma camisa berrante com palmeiras e florzinhas, um boné à Trump na cabeça e um último cocktail colorido na mesinha do lado...
PS:
Não vos envio capa de “I Saw the Light” porque, como vos disse, a minha cópia foi sacada da TV
Texto de Luís Mira
quarta-feira, 25 de março de 2020
SAM SHEPARD – MR. WILLIAMS
No seu livro de crónicas de viagem “Days Out of Days” (2010), que na minha edição francesa se chama “Chroniques des Jours Enfuis”, Sam Shepard tem um texto acerca da morte de Hank Williams.
Não é das melhores peças saídas da mão do autor de “Crónicas Americanas”, mas tem a enorme vantagem de se poder juntar a nós à conversa, como que aderindo à versão da morte no hotel.
Nessa crónica a história é contada através do porteiro do hotel, que jura ter visto Mr. Williams morto e bem morto... Morto e rígido como uma estaca... E terá sido o médico, com a injecção que lhe deu, quem o matou...
Mas vestiram-no assim mesmo...
Um fatinho azul claro.
Uma camisa de um branco imaculado.
Uma gravata amarela com uma pequena palmeira bordada a meio.
Botas de um preto cintilante, com pequenas guitarras e notas de música encrostadas.
E um chapéu Stetson branco creme bem enfiado na cabeça.
Arrastaram-no assim até ao carro, o “chauffeur” de um lado, o porteiro do outro.
Ao atravessarem o “hall” de entrada o rececionista meteu-se com eles, perguntando se Mr. Williams não teria bebido um copito a mais...
Mas o mais estranho, conta ele, é que, apesar de morto, um estranho ruído rouco saia da boca de Mr. Williams, como um impercetível som de folhas levadas pelo vento. O murmúrio da morte, certamente, o último pedaço de ar que se escapa do corpo...
Vê-se tanta coisa quando se é porteiro de um hotel, mas uma destas nunca antes tinha visto.
Um som terrível, de facto.
Estranha coisa esta um homem que passou a sua vida inteira a cantar como um pássaro sublime, acabar os seus dias com um som como este...
Texto de Luís Mira
terça-feira, 24 de março de 2020
ANDREW JACKSON HOTEL, KNOXVILLE
Na autoestrada 40 a caminho de Nashville, onde nos esperava um concerto do Gordon Lightfoot no
Ryman, fiz um pequeno desvio para Knoxville, como tinha previsto.
Quando cheguei ao centro da cidade estava aflito para ir à casa de banho e meti o carro no primeiro
parque de estacionamento que encontrei. Era uma espécie de Posto Turístico que servia, também, de
Receção para visita à casa de um importante general lá da terra que havia participado na Guerra da
Secessão.
Entrei por ali adentro a correr em direcção ao WC e à saída fui falar com o empregado que se encontrava ao balcão. Por sorte era o dia de encerramento da casa do general e safei-me comprando dois ou três postais.
Porque tinha de alimentar a conversa, perguntei-lhe o que já muito bem sabia, isto é, se aquele grande
edifício que ficava ali atrás, “Andrew Jackson Building”, era o antigo “Andrew Jackson Hotel” onde
Hank Williams tinha passado a sua última noite antes de morrer.
A sua resposta foi: “That depends on the story you believe in... “
Sorri-lhe e percebi que, como era natural, ele sabia do que estava a falar.... É que há várias versões acerca da morte de Hank Williams.
Mas façamos um “flashback” e contemos a história do princípio.
Já tínhamos visto que naquele malvado ano de 1952, Hank Williams estava de rastos.
Tinha-se divorciado e casado quase logo de seguida com outra mulher, por pura vingança, decerto...
Andava ou tinha andado envolvido com uma outra mulher, de quem esperava um filho.
Tinha sido expulso do “Grand Ole Opry” e das outras principais estações de rádio em que participava, etinha também visto ser cancelada a sua ligação a um produtor tão influente como já era, na altura, Fred Rose.
A sua saúde ia de mal a pior, já que uma grande queda dada no ano anterior, quando caçava na companhia de um amigo, lhe tinha agravado o seu problema das costas e só a dose conjunta de medicamentos e álcool lhe atenuava as dores. Envolveu-se, na altura, com um charlatão que se dizia médico altamente graduado, o qual lhe prometeu milagres na cura da sua doença, mas à custa de morfina e outras drogas afins.
Embora Hank Williams não ligasse patavina ao dinheiro, de finanças também não deveria andar muito bem porque o divórcio saíra-lhe caro: a mulher ficara com a custódia do filho, com a casa e com metade dos seus futuros “royalties”, enquanto não se voltasse a casar.
Também devido a isso, tinha recomeçado a actuar nos “honky-tonks” à volta de Montgomery, actuações essas que não raro acabavam em cenas de pancadaria quando alguém lhe mandava uma “boca” mais inconveniente.
Mas Hank não se deixava abater e tinha, para já, conseguido dois novos espetáculos para fim do ano, um em Charleston, a 31 de Dezembro, e outro em Canton, no Ohio, a 1 de Janeiro.
Por essa altura do ano o tempo estava péssimo no Sul dos Estados Unidos, e gorara-se a possibilidade de fazer viagens de avião.
Hank lembrou-se, então, do filho de um conhecido seu que tinha uma empresa de táxis, que por vezes encontrava a fazer biscates numa bomba de gasolina, onde nunca deixava de elogiar o seu vistoso Cadillac azul claro. Perguntou ao rapaz se estava preparado para ser seu motorista numa viagem de ida e volta ao Ohio, o rapaz respondeu-lhe que era um verdadeiro às do volante e foi contratado na hora. Tinha 17 anos de idade...
O rapaz chamava-se Charlie Carr e a partir daqui o que vos conto foi o que o próprio Carr contou, muitos anos depois...
Hank e Carr meteram-se à estrada em Montgomery às 13h00 do dia 30 de Dezembro de 1952, com a
certeza de irem encontrar, para além da chuva, muito gelo e até neve pelo caminho. Para o aquecer na
viagem Hank ia preparado com seis “packs” de cerveja Falstaff...
Hank ia animado no início da viagem, cantando e contando anedotas e metendo-se com o miúdo por este não saber quem cantava, na rádio, “Jambalaya”...
A primeira parte da viagem não foi muito comprida, porque dormiram em Birmingham, a menos de 200 km de distância. Mas sairiam de madrugada no dia seguinte.
Em Chattanooga, no Tenessee, já nevava e Hank percebeu que a única alternativa que lhe restava para
poder chegar a horas a Charleston era ir a Knoxville apanhar um avião, o que conseguiu fazer.
O avião levantou voo às 15h00 do dia 31, mas o tempo estava de tal maneira mau que teve de fazer meia volta e regressar à base. De novo em Knoxville dirigiram-se ao hotel “Andrew Jackson”, onde se instalaram no quarto no 17.
Entretanto, o estado de saúde de Hank Williams piorara pelos motivos do costume: álcool misturado com drogas, já que Hank despachara rapidamente as cervejas que levara e já tinha comprado uma garrafa de bourbon no caminho. Não parava de tossir...
Na sua inexperiência, o jovem Carr começava a ficar assustado. Falou com o representante de Williams, o qual lhe deu instruções para chamar de imediato um médico, mas que, custasse o que custasse, levasse Hank até Clanton para o espectáculo do dia seguinte, sob pena de ter de pagar uma pesada indemnização ao promotor do concerto e pôr em risco a possibilidade de futuros contratos. Mas, para o conseguirem, teriam de sair de imediato e fazer a viagem de noite Hank pouco comeu. Soluçava muito e tinha dificuldade em engolir.
O médico deu-lhe uma injeção de vitamina B12 com morfina, e Hank dormiu vestido em cima da cama até às 22h00.
Pelas 22h45 abandonaram o hotel e Hank teve de sair de cadeira de rodas, ajudado pelos porteiros do
hotel, mas entrou no carro pelo seu próprio pé, garante Carr. Taparam-no com uma manta, para o proteger do frio.
Mas o tempo piorara e não se podia andar depressa. Carr fazia o que podia numa estrada coberta de gelo e, após uma ultrapassagem, quase foi acabar em cima de um carro-patrulha que estava à beira da estrada.
Uma ida à esquadra, uma multa, perda de tempo, maior nervosismo...
Numa bomba de gasolina perto de Bristol, Carr parou para comer uma bucha e perguntou a Hank se
queria comer alguma coisa. Este saiu para desentorpecer as pernas e disse que não queria nada, a não ser dormir... Terão sido as suas últimas palavras.
Umas horas depois Carr começou a achar estranho a ausência de ruído no banco traseiro. Parou para
ver... Hank estava dobrado sobre o banco da frente, de mão no peito... O seu corpo já estava hirto.
Na primeira bomba de gasolina que encontrou perguntou por um hospital. Uma tabuleta, nas
proximidades, indicava Oak Hill, West Virginia...
O diagnóstico médico foi paragem do coração por enfarte. Parece que a hora não foi rigorosamente
determinada, mas raiava a manhã do dia 1 de Janeiro de 1953.
No banco traseiro do carro foram encontradas garrafas, embalagens de medicamentos e vários papeis
soltos com letras de canções, algumas delas inacabadas.
Hank Williams, o cantor do sofrimento, da tristeza e da solidão, morria sozinho no banco traseiro de um automóvel, de cabeça encostada à janela, tendo como única companhia uma garrafa e um frasco de comprimidos...
Imagino-o nos seus últimos momentos a ver a neve cair sobre os ramos das árvores, os reflexos dos faróis na estrada molhada... E aposto que, dentro de si, ainda terá escrito uma nova e última canção...
Naqueles tempos a informação não corria com a rapidez de hoje, e a sala do “Canton Memorial
Auditorium” estava apinhada de gente ansiando pelo início do espectáculo, sem sequer sonhar com o que se passava...
Tim Hardin contou-o à sua maneira:
The chauffeur steered the car that night
To the town next in line to the show
With his name and date in lights
And the people with tickets to go
Hardly nobody knew that night how soon they’d be crying
Hardly nobody knew that night Hank williams was dying
Quando um elemento da organização subiu ao palco para informar o que se passava, as pessoas na
assistência começaram por se rir, pensando que se tratava de uma brincadeira para justificar mais uma das habituais faltas de comparência de Hank...
Mas a banda de apoio e todos os que se encontravam no palco deram os braços e começaram a cantar em coro “I Saw the Light”, uma “gospel song” que parece ser de tempos longínquos, mas que Hank
Williams” escrevera em 1946... A assistência compreendeu então a triste notícia, ergueu-se das suas
cadeiras e todos cantaram em coro:
I saw the light, I saw the light
No more dakness, no more night
Now I’m só happy, no sorrow in sight
Praise the Lord, I saw the light!
Desejo sinceramente que, algures a meio do caminho, a tenha mesmo visto...
PS 1:
A história de Carr é considerada a mais credível, mas existem, pelo menos, mais duas versões.
Uma, em que muito boa gente acredita, é que terá morrido no quarto do hotel, na sequência do violento “shot” de morfina que o médico lhe deu. Nem o médico nem a Gerência do hotel se queriam ver envolvidos nessa embrulhada, e Carr terá recebido bom dinheiro para se calar... De facto, para além das declarações que teve de prestar à Polícia no momento, Carr nunca abordou publicamente o assunto durante décadas, apenas o tendo feito já nos seus últimos anos de vida, sem alterar uma vírgula à sua versão inicial.
Uma terceira versão, mais fantasiosa e muito pouco credível, é que Hank terá sido alvo de um ajuste de contas devido a esquemas obscuros de tráfego de drogas em que estaria envolvido, não para negociar, mas para assegurar o seu stock . Poucos dias antes da viagem, Hank envolvera-se em mais uma cena de pancadaria num bar de Montgomery. O seu corpo ainda tinha escoriações dessa rija, o que levantou suspeitas e alimentou especulações. Carr não se teria apercebido de nada ou, então, teria sido seriamente ameaçado de morte se contasse alguma coisa...
PS 2:
A minha memória está uma desgraça...
Ia jurar que tinha comprado, no Museu Hank Williams de Montgomery (de onde provêm as fotografias do Cadillac azul que vos mostro, emprestado ao museu pelo filho de Hank) um suplemento de um jornal da terra onde Carr, já velhote, contava com muito detalhe a sua história. Não o encontrei...
Em contrapartida, disse-vos que não tinha nenhum livro acerca de Hank Williams, e menti... Ainda no museu comprei este opúsculo de 40 páginas que agora me lembro de ter lido no voo de regresso.
Arrumei-o e nunca mais de lembrei dele.
Mas a história de Charlie Carr encontra-se facilmente na Net.
PS 3:
Sam Shepard, num dos seus livros de crónicas de vagens, tem um curioso texto acerca da morte de Hank Williams. Para não vos sobrecarregar, deixarei isso para depois...
Texto de Luís Mira
quarta-feira, 4 de março de 2020
LITTLE RED SONGBOOK
Industrial Workers of the World (IWW) é o nome de um sindicato que foi constituído em 1905 em Chicago e que, embora tenha tido os seus tempos áureos nas primeiras décadas desse século, conseguiu chegar aos dias de hoje.
Os seus membros eram conhecidos por “wobblies”.
Na altura da sua constituição este sindicato surgiu com duas características que claramente o diferenciavam do sindicalismo da sua época: a de ser um sindicato único (“One Big Union”) que
integrava todos os sectores da actividade económica e a de assumir, na sua acção quotidiana,
objectivos claramente revolucionários, mediante uma forte ligação aos movimentos socialistas e anarquistas seus contemporâneos.
Mas o IWW tinha, ainda, uma outra característica, que é aquela que agora aqui mais me
interessa: a utilização de canções como forma de mobilização colectiva dos seus membros
durante as greves, concentrações e outras formas de luta.
Embora algumas fossem originais, uma grande parte dessas canções eram músicas
sobejamente conhecidas de toda a população, a que se juntavam novas letras adaptadas às
exigências da luta sindical. E para essa adaptação dispunham, entre os próprios membros do
sindicato, de letristas de génio, como era a caso do sueco Joseph Hillstrom (o grande Joe Hill) e
de Ralph H. Chaplin.
Mas se as músicas eram de todos conhecidas, nem sempre o mesmo sucedia com as letras.
Para colmatar esse problema os “wobblies” editaram em 1909 um pequeno livrinho com as
letras de cada canção, cuja reduzida dimensão (15 cm x 10 cm) fora propositadamente
concebida para poder ser colocado no bolsinho dos fatos de trabalho. Chamaram-lhe, nessa
primeira edição, “IWW Songs”, a que acrescentariam, em edições posteriores, a frase “para
atiçar as chamas do descontentamento” (“To Fan the Flames of Discontent”)!
Este livrinho, que passou a ser conhecido como o “Little Red Songbook”, teve mais de 30 edições a partir dessa altura, a última das quais em 2010.
O exemplar que aqui vos mostro e que tenho o prazer de possuir na minha biblioteca Folk (é fácil obtê-lo na Amazon por muito pouco dinheiro…) é um “facsimile” da edição de 1923.
É uma delícia folhearmos este livro e, quando as conhecemos, comparar estas canções com as
versões originais.
Aqui vos deixo três exemplos:
JOHN BROW’S BODY / BATTLE HYMN OF THE REPUBLIC / SOLIDARITY FOREVER
De todas as canções dos “wobblies”, “Solidarity Forever” é, talvez, a mais conhecida.
Teve origem em “John Brown’s Body”, canção dedicada ao abolicionista e leader da luta contra a escravatura John Phillip Brown.
John Brown é considerado o “pai do terrorismo na América”. Conseguiu juntar a si um número
significativo de homens e, ainda antes do início da Guerra Civil, desencadeou uma série de acções de luta armada contra os esclavagistas do Sul, as mais célebres das quais foram o “Massacre de Pottawatomie”, em 1856, e o ataque a um arsenal de armas em Harpers Ferry, em 1859, com o intuito de roubar as armas e distribuí-las pelos escravos.
Este último ataque fracassou e John Brown foi preso e enforcado poucos meses depois, em Dezembro de 1859.
Os historiadores estão hoje de acordo em reconhecer que a luta de John Brown e dos seus homens, muito divulgada na época, foi determinante para a eclosão da Guerra Civil.
A origem da canção é conhecida. A fama de John Brown era grande por essa altura e um grupo
de soldados da União sitiados em Fort Warren, perto de Boston, teve a ideia de lhe dedicar
uma música que acabou por ser uma obra colectiva cantada pela primeira vez num hastear de
bandeira no dia 12 de Maio de 1861.
A letra era original mas partes da música, sobretudo o refrão, foram inspiradas em “gospel
songs” já existentes desde o início do Séc. XIX. A partir daí “John Brown’s Body” tornar-se-ia
um dos mais importantes hinos militares durante toda a Guerra Civil.
Reza assim a letra da canção, que a música toda a gente conhece:
John Brown’s body lies in a moulding in the grave
John Brown’s body lies in a moulding in the grave
John Brown´s body lies in a moulding in the grave
But his soul goes marching on
Glory, glory hallelujah
Glory, glory hallelujah
Glory, glory hallelujah
And his soul goes marching on
John Brown died to put and end to slavery
John Brown died to put and end to slavery
John Brown died to put and end to slavery
And his soul goes marching on
Glory, glory hallelujah
…………………………………
………………………………….
Mas a memória de John Brown incomodava muita gente e havia quem dissesse que era uma
pena uma música tão bonita ter um uma letra tão simplista e, ainda por cima, dedicado a um
perigoso fora-da-lei responsável pela morte de tantos inocentes...
E terá sido mais ou menos isto que a religiosa e abolocionista suave Julia Ward Howe e o
reverendo James Freeman Clark comentaram entre si quando ouviram pela primeira vez os
soldados da União cantar a música, em finais de 1861, tendo o padre sugerido à senhora que,
já que tinha tanto jeito para a escrita, tentasse escrever uma nova letra para a mesma música.
Julia Ward Howe não se fez esperar muito e em Janeiro de 1862 a sua letra seria publicada
pela primeira vez. Chamava-se “Battle Hymn of the Republic” e iria tornar-se um enorme
sucesso popular, um dos hinos patrióticos de maior sucesso na América cuja popularidade
chegaria a suplantar o próprio hino nacional americano (o “Star-spangled Banner”, escrito em
1814 mas apenas tornado, oficialmente, hino nacional por decisão do Congresso de 1931).
A letra de “Battle Hymn” é complexa, repleta de referências bíblicas, e deixo-vos apenas o
início para não vos massacrar:
My eyes have seen the glory of the coming of the Lord
He is trampling out the vintage where the grapes of wrath are stored
He hath loosed the fateful lightning of this terrible swift sword
His truth is marching on
Glory, glory hallelujah
Glory, glory hallelujah
Glory, glory hallelujaj
His truth is marching on
………………………………………
……………………………………….
A curiosidade desta história é que terá sido das poucas vezes, senão a única, em que um
“clássico” se inspirou numa música “de intervenção”, digamos assim, para simplificar. Por
norma foi o inverso que aconteceu…
Mas umas décadas mais tarde os malvados radicais voltariam à carga, e o sindicalista Ralph
Chaplin escreveria, em 1915, sob a mesma música, “Solidarity Forever”, uma das mais
importantes “union songs” da América e do Mundo, adoptada não só pelos “wobblies”, mas
também por muitos outros sindicatos ao longo dos anos que se seguiram.
A letra de “Solidarity” também é comprida, pelo que vos deixo apenas o início:
When the Union’s inspiration through the worker’s blood shall run
There can be no power greater anywhere beneath the sun
Yet what force on earth is weaker than the feeble strength of one?
But the Union makes us strong
Solidarity forever
Solidarity forever
Solidarity forever
But the Union makes us strong
HOLD THE FORT FOR I AM COMING / HOLD THE FORT
Phil Paul Bliss (1836-1876) foi um evangelista e também compositor e cantor gospel de grande
sucesso durante o Séc. XIX.
Em 1864, durante a Guerra Civil, uma guarnição da União estava cercada sob um forte ataque dos Confederados e quase a ser massacrada. Ao longe, uma bandeira branca no alto de um monte levam-nos a perceber que os reforços não estavam longe e um tal Comandante Sherman, que chefiava esses reforços, faz-lhes chegar a mensagem “Hold fast. We are coming”. A mensagem encorajou os sitiados que aguentaram até à chegada dos reforços e os Confederados acabaram por ser derrotados.
Uns anos mais tarde Phil Bliss ouviu falar desta história e, em 1870, sobre ela compôs mais um dos seus já então célebres hinos religiosos. A mensagem (digo eu, que não sou cristão…) é a de que devemos ter força, fé e perseverança nesta nossa vida terrena, porque algures a Salvação chegará…
A letra é assim (vou abreviar muito…):
“Ho, my comrades, see the signal, waving in the sky
Reinforcements now appearing, Victory is nigh
“Hold the fort, for I am coming”, Jesus signals still
Wave the answer back to Heaven, “by Thy grace we will””
Décadas mais tarde (parece que não é possível identificar nem a data nem o autor da nova
letra…), sob o título “Hold the Fort”, os “wobblies” começaram a cantar esta nova versão nos
seus “meetings”:
“We meet today in Freedom’s cause
And raise our voices high
We’ll join our hands in Union strong
To battle or to die
Hold the fort for we are coming
Union men be strong
Side by side we battle onward
Victory will come
Look my Comrades, see the Union
Banners waving high.
Reinforcements now appearing,
Victory is nigh.
Hold the fort for we are coming
……………………………………………….
See our numbers still increasing
Hear the bugles blow
By our Union we shall triumph
Over rever foe
Hold the fort for we are coming
………………………………………………..
Fierce and long the battle rages
But we will not fear.
Help will come whene’er it’s needed
Cheer, my Comrades, cheer
Hold the fort for we are coming
…………………………………………………
IN THE SWEET BY AND BY / THE PREACHER AND THE SLAVE
“In The Sweet By And By” é um belíssimo “standard” da música gospel americana publicado
em 1868, com letra de S. Fillmore Bennet e música de Joseph P. Webster. Recomendo-a
vivamente a quem não a conhecer, seja crente, ou não (há uma boa versão do Johnny Cash).
A sua letra é a seguinte:
There’s a land that is faster than day
And by faith we can see it afar
For the Father waits over the way
To prepare us a dwelling place there
In the sweet by and by
We shall meet in that beautiful shore
In the sweet by and by
We shal meet in that beautiful shore
We shall sing on that beautiful shore
The melodious songs of the blessed
And our spirits shall sorrow no more
Not a sight for the blessing to rest
In the sweet by and by
…………………………………..
To our bountiful Father above
We will offer our tribute of praise
For the glorious gift of His love
And the blessing that hallow our days”
In the sweet by and by
…………………………………..
Joel Emmanuel Hagglund nasceu na Suécia em 1879 e emigrou para os Estados Unidos aos 23
anos, tendo aí mudado o seu nome para Joseph Hillstrom.
Na América foi um trabalhador migrante, no início em Nova Iorque, depois no Ohio e, finalmente, por aí fora até à Califórnia.
Mas nos seus últimos anos de vida já não era Joseph Hillstrom, mas sim o Joe Hill, que conhecemos do filme que lhe dedicou o também sueco Bo Widerberg e da canção com que o homenageou Earl Robinson, popularizada nos anos 70 pela voz de Joan Baez:
I dreamed I saw Joe Hill last night
Alive as you and me
Says I “But Joe you’re ten years dead”
"I never died”, says he”
From San Diego up to Maine
In every mine and mill
Where working folks defend their rights
It’s there you find Joe Hill
Este anarco-sindicalista, que se alistou-se na IWW em 1910, era, também, um compositor e
letrista de exceção e muitas das suas canções integram o património das chamadas “Union
Songs” (“The Rebel Girl”, “Workers of the World, Awaken!”, “The Tramp”, “The White Slave”,
“There is Power in a Union”, e tantas outras).
Em 1911 o anticlerical Joe Hill pegou na música de “In the Sweet By And By” e acrescentou-lhe
uma nova e satírica letra, criticando todos aqueles que defendiam que se o Homem se sujeitar na Terra, pacificamente, a todos os sacrifícios e privações que lhe forem impostos, dele será o Reino dos Céus…
Chamou a essa canção “The Preacher and the Slave”, e a sua letra é a seguinte (vou abreviar):
Long-haired preachers come out every night,
Try to tell you what’s wrong and what’s right
But when asked how ‘bout something to eat
They will answer with voices so sweet:
You will eat, bye and bye,
In that glorious land above the sky
Work and pray, live on hay,
You’ll get pie in the sky when you die
…………………………………………………………
…………………………………………………………
If you fight hard for children and wife -
Try to get something good in this life –
You’re a sinner and bad man, they tell
When you die you will sure go to hell
You will eat, bye and bye,
……………………………………….
………………………………………..
Working men of all countries, unite
Side by side we for freedom will fight
When the world and it’s wealth we have gained
To the grafters we’ll sing this refrain:
You will eat, bye and bye,
When you’ve learned how to cook and to fry
Chop some wood, ‘twill do you good,
And you’ll eat in the sweet bye and bye
Uff!
Parece que cheguei ao fim, mas duvido que vos tenha conseguido transmitir uma pequena
parte que seja do prazer que retiro destas andanças.
Resta-me dizer-vos que se desejarem ir mais longe, há imensas colectâneas facilmente
disponíveis na Amazon e aqui vos deixo alguns exemplos da minha colecção.
Muitas destas canções também se encontrarão facilmente no Youtube. Pessoalmente prefiro
as versões mais antigas dos Almanac Singers, Pete Seeger, Joe Glazier ou Cisco Houston. Mas
também há excelentes versões mais recentes, de Utah Phillips e Billy Bragg, por exemplo.
Texto de Luís Mira
domingo, 21 de julho de 2019
SPACE ODISSEY
Consta que no dia 21 de Julho de 1969 a Humanidade deu um enorme salto em frente.
Precisamente às 2.56 UTC...
Mas eu não dei por nada...
Tinha sido um fim-de-semana desgastante a subir e a descer arribas entre a Praia da Adraga e a Praia
da Ursa com o meu amigo João Pedro, e quando os pais dele me depositaram em casa no Domingo à
hora do jantar, não obstante toda a juventude dos meus 16 aninhos, estava arrasado e só queria ver a cama à minha frente...
Pedi lá em casa para, na altura própria, me acordarem.
Mas ninguém me veio chamar...
Esquecidos pela emoção do momento ou por se estarem, pura e simplesmente, a borrifar para o puto,
nenhuma santa alminha se lembrou de me vir acordar, como lhes tinha pedido...
Assim, terei sido das poucas pessoas deste Mundo dito civilizado a perder esse momento histórico.
Mas quando na manhã do dia seguinte me levantei e vi, irritado, as imagens em repetição, larguei dois ou três berros ofensivos para quem estava à minha volta e jurei que ainda um dia haveria de ir ali...
Ali não era a lua, claro está, mas Cape Canaveral, de onde Armstrong, Aldrin e Collins tinham partido cinco dias antes.
E o facto de só ter cumprido a promessa quase 50 anos depois não teve, para mim, qualquer importância...
A caminho do mítico lugar, e sem saber muito bem o que me iria esperar, comecei a salivar imaginando o que gostaria que fosse.
Os americanos, de tão profissionais que são, não iriam deixar de me impressionar com uma magnífica
e diversificada exposição. Certamente que haveria, imaginei eu, um espaço destinado ao Cinema de
temática espacial, outro destinado à Música, um outro ainda à Literatura, e por aí fora...
Em relação ao Cinema, não poderia haver qualquer dúvida... Então não tinha o cinema de ficção
começado, precisamente, com uma deliciosa “Viagem à Lua” (Georges Méliés, 1902)...? E não deram
as viagens espaciais, por todo o Mundo e não apenas na América, pano para mangas ao Cinema,
desde os tempos do mudo (o dinamarquês “A Trip to Mars” de 1918, o soviético “Aaelita”, de 1924 , o alemão “Uma Mulher na Lua” de 1929, ...) até aos grandes Clássicos dos dias de hoje, passando por
todos aqueles magníficos pequenos filmes de série B dos anos 50 (“Destination Moon”, “Forbiden
Planet”, “From the Earth to the Moon”, “Day the Earth Stood Still”, “Earth vs. Flying Saucers”, são tantos, meu Deus...!), em que tantas vezes naves espaciais e Seres vindos de outros Planetas mais não eram do que fantasmas do outro lado da Cortina, próprios daqueles anos de “guerra fria”.
Na Literatura iria encontrar Jules Verne e H. G. Welles, claro está, e tinha quase a certeza de que
também iria descobrir, algures no fundo da sala e em tamanho gigante, um poster daquela inesquecível capa do Tintim e da sua “Viagem à Lua”, da minha meninice. Mas também não deixaria de encontrar por lá, certamente, uma homenagem a todos aqueles pequenos/grandes escritores da Ficção Cientifica dos anos 40/50 (Arthur C. Clark, Isaac Asimov, Philip K. Dick, ...) os quais, com exceção do Stanislaw Lem e do Ray Bradbury, só conheço de ouvir falar e de ter visto alguns dos seus livros adaptados ao Cinema, porque desde muito cedo o meu coração balançou sempre muito mais para o romance policial do que para a FC...
Em relação à Música, Kubrick fez com que não pudéssemos deixar de imaginar passeios no espaço
sem ouvirmos o Danúbio Azul mas, muitos anos mais tarde, Clint Eastwwod provou que também
poderemos ter a mesma sensação ao som dos velhos “standards” da Música Popular Americana.
Mas foi ao relembrar as músicas da minha adolescência que deparei com uma coincidência que nunca
antes me tinha vindo à cabeça: então não é que uma das bandas que mais gosto de usar em longas
viagens de carro pela estrada fora (os Byrds...) foi, entre o amor pelos aviões de Roger McGuinn e o
pavor de andar neles de Gene Clark, também aquela que mais atenção dedicou à música espacial...?
E não me refiro, apenas, às suas músicas que acabaram por ser catalogadas como “space rock” (Mr.
Spaceman, “CTA – 102”, “Eight Miles High”, ...), muitas delas meras metáforas de outras “trips” e
outros espaços, mas a homenagens mais óbvias e singelas, como “Spacey Oyssey” do álbum “The
Notorious Byrd Brothers”, que antecipa Kubrick ao se inspirar na mesma “short story” de Arthur C.
Clarke que viria a dar origem ao “2001”, mas também, e acima de tudo, a “Armstong, Aldrin and Collins”, do LP “Ballad of Easy Ryder”, que celebra o lançamento da Apollo 11 e que começa com a contagem decrescente, passa ao accionamento dos motores e acompanha o barulho da nave a subir enquanto é lançada pelos ares:
Minus 20 in counting ... 19..18..17..16..15..14..13..12..11..10..9..8..7..6..5..
We have ignition ... 3..2..1
We have lift off
E depois a voz de Roger McGuinn:
Armstrong, Aldrin and Collins were launched away is space
Millions of hearts were lifted, proud of the human race
Space controla at Huston , Radio Command
The team below that gave the go, they had God’s helping hand
E quanto mais pensava nisto tudo rolando pela 528 a caminho de Cape Canaveral, mais salivava...
E foi assim, com um sorriso no rosto, que finalmente entrei no Kennedy Space Center, disposto a
degustar todos estes meus pequenos prazeres...
E depois....
Bem, depois foi um tremendo soco no estômago...
O espaço era gigantesco, mas estava inteiramente devotado à Técnica, à história da exploração
espacial e à propaganda da NASA, e tudo o mais foi esquecido. Como, aliás, teria sido de esperar, não fosse eu o otimista que sou, os americanos borrifaram-se nas outras formas de Cultura e da sua
ligação às viagens espaciais...!
Poderia ter almoçado com um astronauta veterano...
Teria sido possível, se não tivesse chegado a deshoras, apanhar um “shuttle” para a base da rampa de
lançamento dos foguetões...
Poderia ter tido (como na realidade tive...) a sensação de viver uma simulação de lançamento no
interior de uma nave espacial...
Mas dos meus pequenos prazeres, nicles...
Desolado e sabendo que a Técnica pouco me interessava, limitei-me a fazer render o investimento
deambulando pelo meio de foguetes, foguetões, vai-vem espaciais, ogivas e outros peças de
inquestionável interesse histórico, como a réplica da cápsula da amaragem do Apollo 11, mas que não
me aqueciam o coração...
E foi entristecido que, com a minha mulher e a minha filha, me meti de novo ao caminho, em direcção a Daytona Beach.
Mas ainda me ri para comigo à saída, lembrando-me do Bowie e do seu Major Tom, bem capaz de
ainda andar lá por cima às voltas a rir-de de todos nós:
Ground control to Major Tom
Grand control to Major Tom
Your circuit’s dead, there’s something wrong...
Can you hear me, Major Tom...?
.............................................................................
.............................................................................
.............................................................................
Here am I floating ‘round my tin can
Far above the moon
Planet heart is blue
And there’s nothing I can do...
PS: Quanto à evolução da Humanidade, estamos conversados...
Texto de Luís Mira
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
O ROSTO DE EMMETT TILL
Os assassinos de Emmett Chegaram sem avisar Mascando cacos de vidro Com suas caras de cal
Vinicius de Moraes – Blues para Emmett Louis Till
Andar por uma estrada secundária e deserta no Mississippi profundo, numa tarde feia, cinzenta e chuvosa, é como caminhar por um cenário fantasmagórico onde, a todo o momento, um qualquer zombie se pode atravessar no nosso caminho e acenar com os braços, como quem nos pede ajuda…
Numa clareira à beira da estrada, na curva de um rio ou no arvoredo lá ao fundo, um negro pode ter sido espancado, deitado às águas ou pendurado no ramo mais alto de uma árvore…
Era bom que estivesse a exagerar, mas não estou…
Basta ouvir ou ler as declarações de quem viveu nestes sítios, há muitos anos atrás.
Toda a gente conhece alguém que um dia partiu de casa para não mais voltar… E os que tiveram a sorte de regressar vieram com as costas abertas a chicote, pernas e braços partidos e a cara feita num bolo…
Poucas dessas histórias viram a luz do dia.
Por vergonha ou medo de represálias, ficaram encerradas no interior da humilhação de quem sofreu na pele, ou na dor de quem viu partir, para sempre, os seus ente-queridos.
Mas a história que hoje vos vou contar viu a luz do dia. Muitos desejaram que não tivesse visto, mas viu…
Corria o ano de 1955 e Emmet Till era um rapaz de Chicago, de 14 anos e órfão de pai, que, como quase todos os anos, tinha vindo passar uns dias de férias em Agosto a casa do seu tio-avô Reverendo Moses Wright, no lugarejo de Money, no Mississippi.
Como todos os rapazes da cidade que gostam de se exibir na província, Emmett era extrovertido e gabarolas. Uma tarde, após terem andado na apanha do algodão, ele e mais uns quantos amigos dirigiram-se a uma mercearia local (a Bryant’s Grocery) para comprarem alguns doces e beberem refrescos. À saída, num ato de pura exibição para os amigos, Emmett terá assobiado à empregada de serviço na mercearia, uma tal Carolyn Bryant, de 21 anos, mulher do proprietário da loja.
Assustados com o que viram e conhecedores das regras locais em que um negro não deve tomar a iniciativa de se dirigir a uma mulher branca que esteja sozinha, e muito menos enviar-lhe um piropo através de um assobio, os amigos de Emmett desataram a fugir para as suas casas, enquanto que este se dirigiu, calmamente, para casa do seu tio-avô, como se nada fosse.
Durante uns dias nada se passou, mas Carolyn Bryant fizera, entretanto, queixa do miúdo ao seu marido e este havia-lhe garantido que lhe iria dar uma lição de boas maneiras…
Quatro dias após o sucedido, o marido, Roy Bryant, e o seu meio-irmão, J. W. Milam, irromperam pela casa do tio-avô de Emmett e levaram o miúdo à força, dizendo que lhe iriam dar apenas umas quantas vergastadas, para ele aprender como é que se deve tratar uma mulher branca…
E agora vou abreviar, porque a história está bem contada em vários sítios na Internet e quero poupá-los aos pormenores mais horrorosos…
Dir-vos-ei, apenas, que o perigoso Emmet Till, de 14 anos, foi levado para um celeiro em Glendora e aí morto à pancada. O seu crânio foi esmagado, o seu rosto foi desfigurado a murro e com o tiro de uma caçadeira, e o que restou do seu corpo foi enfiado num saco, enrolado com arame farpado a um velho ventilador de 35 kg dum moinho de algodão, para fazer peso, e deitado ao rio Tallahatchie, vindo a ser descoberto por um pescador vários dias mais tarde.
O corpo do miúdo ficou irreconhecível e só pôde ser identificado porque ainda tinha num dedo um velho anel do seu pai, com as suas iniciais, que a mãe lhe tinha dado antes de partir para casa do seu tio-avô.
As autoridades locais fizeram pressão para o corpo fosse enterrado no Mississippi, o mais rapidamente possível, mas a mãe de Emmett opôs-se e conseguiu que ele fosse transferido para Chicago.
E mais…
Contrariando todos os conselhos que lhe tinham sido dados, bem como todas as pressões que tinha sofrido, mandou abrir o caixão para que todos pudessem ver bem o corpo despedaçado e o rosto desfigurado do seu filho. Jornalistas vieram, como vieram, também, milhares de pessoas durante quatro dias, para prestar ao rapaz uma última homenagem.
E Emmet Till tornou-se uma questão nacional.
Mas a história, infelizmente, não acaba aqui.
Os dois suspeitos foram presos e acusados.
E houve julgamento, claro está…
E rápido…
Naqueles tempos, nos Estados Unidos, havia sempre julgamento…
Uma palhaçada de julgamento!
Contrariando todas as provas irrefutáveis que foram apresentadas pela acusação, um júri constituído apenas por brancos considerou os acusados “not guilty” dos crimes de rapto e assassinato. Foram necessários apenas 67 minutos para chegarem a essa conclusão.
Em boa verdade, o que é que esperavam…? De que valia a vida de um pobre rapaz de 14 anos, no Mississippi…? Como já não bastasse o incómodo de terem de simular um julgamento, ainda queriam que dois puros homens de raça branca fossem acusados e aprisionados…?
Mas, desculpem-me, a história ainda não acaba aqui…
Como nos EUA, após ter sido julgado e ilibado, ninguém pode ser acusado duas vezes pelo mesmo crime, quatro meses depois do julgamento os acusados venderam a sua história à revista “Look” por quatro mil dólares (mil e quinhentos para cada um mais mil para o advogado…) e contaram, despudoradamente e com todos os pormenores, a forma como tinham efetuado o rapto e o assassinato do miúdo. O título do artigo – “The Shocking Story of an Approved Killing” – diz tudo…
Mas a história ainda não vai acabar aqui…
Após o funeral, a mãe de Emmet Till, Mamie Bradley, enviou um telegrama ao presidente Eisenhower solicitando a sua intervenção no sentido de repor a justiça no assassinato do seu filho.
Não obteve qualquer resposta…
50 anos mais tarde alguns documentos do processo foram divulgados pelo FBI. Entre eles encontra-se uma Circular da Casa Branca redigida por um tal Max Rabb, Conselheiro de Eisenhower para as minorias, na qual se dizia que a mãe de Emmett Till era um mero instrumento dos comunistas e que “qualquer reconhecimento perante ela poderia ser utilizado em prol da causa comunista neste país…”.
Era necessário, portanto, que o caso fosse esquecido o mais depressa possível, como chegou a pedir um jornal do Mississippi, o Jackson Daily News.
Mas o caso não foi esquecido…
William Faulkner, pouco avezo a manifestações públicas em situações desta natureza, escreveu um artigo violento e acusador num jornal local…
Um escritor negro do Mississippi, Jerry W. ward Jr., dedicou-lhe um poema, “Don’t Be Fourteen in Mississipi”, que pode ser lido na Net.
Vinicius de Moraes dedicou-lhe, também, um poema em 1962, “Blues para Emmett Louis Till”, que Toquinho musicou.
Para terminar em beleza, a virgem ofendida, Carolyn Bryant, acabou por confessar em 2007 que tudo o que havia dito em tribunal acerca do comportamento de Emmet Till era mentira, e a única ofensa que o miúdo lhe tinha feito fora, efetivamente, o assobio…
Não só no âmbito da população negra, mas também junto de um público branco mais esclarecido, o “affaire” Emmet Till foi um escândalo que ajudou a perceber como era a vida e a justiça no Sul profundo, e gerou um movimento de condenação e solidariedade de grandes proporções, a nível nacional.
Poucos meses depois, a 1 de Dezembro de 1955, na cidade de Montgomery, Alabama, Rosa Parks recusou-se a ceder o seu lugar num autocarro a um branco, tendo sido presa. Com Emmet Till ainda na memória de todos, a reação a este ato iria marcar, para sempre, a história da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, mas isso é história que vos contarei noutra oportunidade.
Como vos disse, o dia estava feio, chuvoso e cinzento quando cheguei a Money, no Mississippi, que é um lugarejo no meio de nenhures com meia-dúzia de casas nas redondezas.
O letreiro do “Mississippi Freedom Trail” não deixava qualquer dúvida. Era ali que se situava a Bryant’s Grocery e fora ali que tudo tinha começado.
Mas olhava-se à volta e não se via nada, a não ser uma velha bomba de gasolina que eu sabia muito bem que não era a mercearia que procurava, porque já a tinha visto em fotografias.
Bryan’s Grocery, nem vê-la…
Paul Theroux, no seu livro “Sul Profundo” que aqui há tempos mencionei, já nos tinha alertado. A Bryant’s Grocery estava no topo da lista dos “Dez Mais Ameaçados Locais Históricos do Mississippi”, por duas razões: primeiro, porque do edifício inicial mais não restava do que algumas paredes em estado periclitante, cobertas por ervas e arbustos, naquilo a que ele próprio chamou “a estrutura mais fantasmagórica que vira em todas as minhas viagens pelo Sul”; em segundo, porque talvez que aos próprios habitantes locais interessasse mais deixar cair o que restava, para que essa má memória desaparecesse, para sempre, das suas vidas…
Lá muito perto, também as águas do rio Tallahatchie, para onde há sessenta e três anos atrás fora lançado o corpo de Emmett Till, corriam feias, tristes e silenciosas, como se também elas sentissem vergonha por se terem visto envolvidas nesta triste história…
Este texto já vai longo e peço-vos desculpa pelo incómodo.
Mas não vos quero deixar sem vos convidar ao visionamento de um pequeno filme de sete minutos que encontrei no YouTube.
Dir-me-ão que não há muita diferença entre aquilo que lá está dito e o que vos acabei de contar…
Mas existe uma diferença muito importante: é que lá se vê o rosto de Emmet Till.
Também eu, tal como a sua mãe há 63 anos, fiz questão que vissem e fixassem bem esse rosto…
Num Mundo em geral, e numa Europa em particular, em que a xenofobia, a intolerância e o racismo avançam a passos de gigante, é cada vez mais importante vermos e não esquecermos o rosto de Emmett Till.
PS:
Como vos referi no texto, a história de Emmett Till está profusamente documentada na Net. O livro de Paul Theroux (págs 245 a 258) contém informações importantes, nomeadamente no que respeita ao Relatório do FBI de 2004, que não me lembro de ter visto em mais lado nenhum.
Texto e imagens de Luís Mira
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
SONNY BOY WILLIAMSON
He is gone, Sonny Boy is dead and gone
He is gone, Sonny Boy is dead and gone
Can’t nobody play harp the way he done
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He made you feel good when he played and me feel sad
I’m so glad, I’m so glad, that is music is going on
I’m so glad, I’m so glad thar is music is going on
But I’m so sad, so sad, the greatest one is gone
Sonny Boy Williamson - Jack Bruce e Paul Jones
Aí pelos meus 15/16 anos, quando não tinha aulas passava as tardes em casa do meu amigo João Pedro a jogar às cartas ou aos matraquilhos e a ouvir música.
Por vezes apareciam por lá outros colegas dele da Escola Alemã. Lembro-me do Eduardo, do Guimarães e até o Herman José por lá passou…
Por essa altura, em que a nossa Religião era a chamada música popular de expressão britânica e a nossa Igreja o “Em Órbita”, o meu amigo João tinha em sua casa algumas preciosidades (Simon & Garfunkel, Tim Buckley, Leonard Cohen, Tim Hardin, Donovan, Fairport Convention…) que tornavam essas tardes de lazer uma verdadeira delícia.
Mas quando os amigalhaços do João lá estavam, a música era outra e, quase sempre, bastante mais “pesada”… Ten Years After, Canned Heat, Led Zeppelin e outras coisas do mesmo estilo que, na sua generalidade, eu já pouco apreciava.
No final dos anos 60 coincidiram por lá dois discos que eram ouvidos em permanência: “Super Session”, de Mike Bloomfield, Steve Stills e Al Kooper e “The Life Adventures of Mike Bloomfield & Al Kooper”. Que estes dois últimos não eram flor que se cheirasse vim eu a saber mais tarde, porque foram precisamente eles os comparsas de Bob Dylan naquela célebre noite de Newport em Julho de 1965, de que ainda no outro dia vos falei.
Como vos disse, as músicas desses dois discos eram ouvidas em sessões contínuas, sobretudo “Season of the Witch”, do primeiro, que durava mais de 10 minutos e cujos solos de guitarra de Mike Bloomfield e de orgão de Al Kooper me deixavam os cabelos em pé (na altura tinha muitos…). Se “Season” já não fazia parte das minhas músicas favoritas do Donovan, esta versão era pura e simplesmente intragável para os meus ouvidos de então.
Mas o segundo disco tinha uma música com uma batida muito agradável, que se chamava “Sonny Boy Williamson”, de que conseguia gostar. O problema era que a tal batida era de muito curta duração em comparação com os intermináveis solos a que aqueles dois, mais o Carlinhos Santana, invariavelmente se dedicavam. Em todo o caso, bem melhor do que a versão original de Paul Jones, que só vim a conhecer alguns anos mais tarde.
Durante tardes a fio aqueles “Fritzs” da Escola Alemã estendiam-se ao comprido no sofá, fumavam uma reles imitação de charro com erva plantada na “marquise” das traseiras e fingiam que partiam numa longa viagem…! E por cada três “Season of the Witch” eu só tinha direito a um “Sonny Boy Williamson”, injustiça que aguentei com grande espírito de compreensão e de camaradagem. E quanto a charros, estou como o outro: fumei mas não inalei…!
Dava para perceber que era um músico, mas eu estava então longe de saber quem era esse tal de Sonny Boy Williamson.
Naquele tempo não havia Net nem livros à mão de semear. O stock das discotecas era muito limitado, e o acesso à informação demorado e complicado. Já se podia mandar vir livros e discos do estrangeiro (a saudosa “Tandy’s Records”…!) mas demorava uma eternidade e, que diabo, conhecer Sonny Boy Williamson não era, para mim, uma prioridade…!
E só muitos anos mais tarde vim a saber quem ele era. E mais: que não havia apenas um, mas dois Sonny Boys Williamsons…
O primeiro, John Lee Williamson de seu nome verdadeiro, era oriundo do Tennessee, fez quase toda a sua carreira em Chicago e era um exímio tocador de harmónica. Morreu assassinado em 1948 e ficou na História por ser o autor de “Good Morning Little School Girl”, que muito anos mais tarde chegaria a ser gravada pelos Grateful Dead e pelos Ten Years After.
O segundo rapinou o nome ao primeiro ainda em vida dele, e era um malandro de Glendora, no Mississippi, de nome Alex “Rice” Miller que aprendeu a tocar harmónica muito cedo e também muito cedo se meteu à estrada, tocando onde calhava e com quem calhava (chegou a tocar com Robert Johnson, Big Joe Williams e Elmore James …..), inicialmente com o nome de “Little Boy Blue”.
A partir de 1941 teve um programa de rádio em Helena, no Arkansas, onde se começou a apresentar sob o nome de Sonny Boy Williamson. No final dessa década viveu em West Memphis com a irmã e o cunhado, o célebre Howlin’ Wolf, que depois acompanhou para Chicago em meados dos anos 50, vindo a alcançar aí grande popularidade como vocalista e tocador de harmónica, junto de uma população maioritariamente negra.
Mas o seu pico de celebridade teve-o nos anos 60, quando passou largas temporadas na Europa e se tornou, juntamente com Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker e tantos outros, um dos grandes ídolos da geração de músicos ingleses que haveria de estar na origem do Rock-Blues e que incluía nomes como Eric Clapton, John Mayall, Steve Winwood, Eric Burdon, Jack Bruce, Ginger Baker, Long John Baldry, Jimmy Page, Jeff Beck, Georgie Fame, Chris Farlowe, Manfred Mann, Paul Jones ou Alexis Korner, para já não falar em Brian Jones, Keith Richards e Mick Jagger, na altura também totalmente devotados ao Blues (como se sabe, o próprio nome “Rolling Stones” foi retirado de uma música de Muddy Waters).
Essa gente veio a estar na origem de bandas famosas (Yardbirds, Spencer Davis Group, Cream, The Blues Incorported, Manfred Mann, The Bluesbreakers, Rolling Stones, Led Zeppelin, etc). E essas bandas não só divulgavam, através de novas interpretações, os velhos blues do antigamente, como convidavam esses bluesmen para tocarem com elas e, muitas vezes, abrirem os concertos onde eram a principal atracção. Ainda hoje Bill Wyman afirma (vd. documentário “The Life of Riley”, sobre B. B. King, que tem vindo a passar nos Telecines) que a tournée que os Stones fizeram com B. B. em 1969 terá sido a melhor de sempre da banda.
Essas bandas britânicas tiveram, por outro lado, um sucesso muito grande no outro lado do Atlântico junto de um público jovem branco (a british invasion não foram apenas os Beatles…), que em grande parte desconhecia a existência dessa música e desses músicos negros.
No documentário de Richard Pearce “The Road to Memphis” (desculpem-me o excesso de citações, mas não posso estar aqui a dar palpites sem citar as minhas fontes…), é comovente ver B.B. King a contar como ele e a sua banda, que raramente tocavam para brancos, chegaram ao Fillmore (East ou West, já não me lembro…) para dar um espetáculo e viram bichas enormes de malta branca e ficaram a olhar uns para os outros, convencidos que se tinham enganado no local…
A divida desses velhos bluesmen para com esta geração inglesa é enorme, tal como o próprio B. B. King, uma vez mais, o reconheceu noutra ocasião:
“Se não tivessem sido os músicos britânicos, muitos de nós, músicos negros da América, continuaríamos a passar muito mal, tal como passávamos antes. Graças a eles abriram-se portas que nunca imaginei que se abrissem na minha vida” (B. B. King in documentário “Red, White and Blues”, de Mike Figgis).
Tudo isto faz parte da História do Blues e Sony Boy cavalgou essa onda de popularidade.
Gravou com os Yardbirds e com os Animals, fez diversas “tournées” pela Europa com os “American Folk Blues Festival”, que era um conjunto de músicos de blues, folk blues e rhythm & blues que punham em cena a sua música em espetáculos ao vivo.
Sonny Boy Williamson II, como agora é conhecido, era um figurão (ou, se preferirem, a “colorfull character”, como lhe chama a placa do “Blues Trail” na sua terra natal…) e pode ser visto no YouTube, apresentando-se em palco impecavelmente vestido, de chapéu de coco na cabeça e chapéu de chuva na mão, para além da mala onde transportava todos os seus instrumentos. Era um verdadeiro “one man show” e uma das suas especialidades era engolir meia harmónica e tocá-la assim mesmo, sem a ajuda das mãos.
Mas era conflituoso e com tendência para se meter em alhadas, o que terá apressado o seu regresso à Pátria em finais de 1964. Retomou em Helena, no Arkansas, ao seu antigo trabalho de animador radiofónico, para pouco depois, em 1965, morrer de um ataque cardíaco em pleno sono.
Em Helena não me lembro de ter visto nada que guardasse a sua memória.
Mas Glendora, sua terra natal, não se esqueceu dele… Acolhe o visitante com um bonito cartaz de boas-vindas em seu nome e dedica um pequeno museu à sua memória, paredes meias com o de Emmett Till. Bem pobre e feinho, por sinal, como feio é quase tudo o que vi em Glendora, um dos lugares mais miseráveis que visitei em todo o Mississippi.
Saí de Glendora em direção a Money, localidade onde foi barbaramente assassinado Emmett Till, como vos contarei no próximo texto. Mas tive saudades do meu amigo João e dos nossos tempos de adolescência, e também muita pena de não ter no carro nem “Season of the Witch” nem “Sonny Boy Williamson”, que naquele preciso momento me teriam sabido muito bem ir a ouvir pelo caminho…
PS:
Não o disse na altura própria e agora não quero sobrecarregar o texto, mas “Sonny Boy Williamson” foi uma homenagem ao músico por ocasião da sua morte, composta por Jack Bruce e Paul Jones e interpretada por este último em 1967, como B-Side de “I’ve Been a Bad, Bad Boy”, música do filme “Privilege”, de Peter Watkins.
Paul Jones passa, aliás, por ser o maior “otário” da História da Música Rock, porque parece ter recusado ser o vocalista da banda que viria a dar origem aos “Stones”. Mick Jagger agradeceu…
PS2:
Não obstante o meu tom jocoso, Mike Bloomfield e Al Kooper foram figuras muito importantes do blues revival americano dos anos 60/70, na esteia dos seus colegas ingleses. De Kooper guardo um excelente disco na minha coleção: “Easy Does It”, que tem a melhor cover que conheço de “I Got a Woman”, do Ray Charles.
Texto e imagens de Luís Mira
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