PARLOPHONE LGEP 4021
Querida Mamãe – Grande Amor – Banho de Lua - Frankie
Este
post também poderia chamar-se: “Vem aí Tempestade!...
A Aida encontrou o disco no boteco do costume, trouxe-o para casa, mostrou-o, e ele ficou a olhar com um sorriso, diga-se feliz: “eh pá! há quanto tempo!...”.
Pela Celly Campello pode-se chegar a Tom Waits, a Peter Paul and Mary, a Bruce Springsteen, a Tom Paxton, a Hank Williams, a Jacques Brel, a Adriano Correia de Oliveira, à “Oratória de Natal” de Bach, ao concerto “Alla Rustica” de Vivaldi , e por aí fora?
Ele pensa que sim, mas é um tipo de pouca confiança. Não será politicamente correcto, mas também no tempo do “Banho de Lua” ninguém sabia o que isso era. Sabia-se que as coisas eram, aparentemente, fáceis, se resolviam nos que estavam do lado do regime e os que estavam contra, os que eram do Benfica e os que eram do Sporting, o Porto era apenas um clube de aldeia que, como dizia o Zé do Boné, logo que entrava na Ponte D. Luís, já estava a perder.
A Celly Campello – outras e outros – fazia o traço de união entre os dois lados, o resto era uma taça de vinho branco, um bolinho sortido da “Fábrica Triunfo” - as raparigas ficavam sempre com os de chocolate e as bolachas de baunilha…
Todos gostaríamos que os nossos amigos pensassem como nós, fossem do mesmo clube, gostassem dos mesmos livros, dos mesmos filmes, das mesmas músicas, mas isso é a história das nossas vidas.
A família acontece-nos, os amigos escolhem-se, dizia o BB no tempo em que era BB. Mas não havia hostilidade, antes uma compreensão que inexplicavelmente – ou talvez não - viemos mais tarde a perder.
A malta da rua, a malta do bairro era um todo e, juntos, íamos ao futebol, ao cinema, à praia, aos bailes. Talvez isto desse mestrado numa qualquer universidade privada – se, tardiamente, muito tardiamente mesmo, o governo não as estivesse a encerrar.
Os filhos interrogam-no como foi possível termos ouvidos para isto. Foi possível, pois então! Os filhos deles hão-de dizer o mesmo das músicas e intérpretes, que eles ouviram, que ouvem.
Sempre assim foi e assim será, se o capitalismo selvagem deixar. Era esta a música que tocava nos nossos gira-discos e, sabe, que não se pode passar uma esponja por tudo isto, que não se pode esquecer, nem ignorar.
Do mesmo modo que não se esquece a criada feiinha da avó materna que, na luz escura da manhã, lhe ensinou os primeiros passos por um corpo e o espanto que lhe ficou depois daí os vidros partidos a jogar à bola, as laranjas roubadas ao merceeiro da esquina, andar à boleia nos eléctricos.
Meninos, a vida é isto e também mau gosto musical, livros do FBI, editados pela Agência Portuguesa de Revistas, filmes de última gaveta, cobardias várias, o gajo que viu na rua roubar o velhote e não mexeu uma palha, e quando o podia fazer, com um qualquer medo que não sabe, não quer explicar, e vem-lhe ainda à memória o intelectual que lia “A Bola” às escondidas, porque entendia pecaminoso gostar de a ler e que disso soubessem, o cunhado que esperava que os putos fossem para a cama e, no silêncio da casa adormecida, deliciar-se com os álbuns de Banda Desenhada.
Poderia ter visto o disco e assobiar para o lado, mas sabe que não ficaria bem se não dissesse que esta música o tocou e -
why not? - ainda toca. Apetece-lhe lembrar Álvaro de Campos, e pede desculpa aos puristas por trazer o Álvaro de Campos quando está a falar da Celly: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada, todos os meus amigos têm sido campeões em tudo".
Talvez houvesse mais qualquer coisinha a acrescentar, mas não quer maçar os viajantes blogue e também porque em caminho já se pôs a trautear:
“Tomo um banho de lua, fico branca como a neve, seu luar é meu amigo, censurar ninguém se atreve".
Como então se dizia, logo que o disco arrancava: “A menina Dança?”
Em tempo – Conseguem imaginar tudo isto?
Se estiverem para aí virados, Mr. Mouse, em
http://ratorecordsblog.blogspot.com/ ,em tempos, publicou 3-Antologias-3 da Celly Campello, também uma do irmão, o Tony Campello. Os links já não estão disponíveis, mas se lhe pedirem por e-mail, na volta do correio, terão os ficheiros em casa. Depois é só ouvirem…
No fim de tudo podem mandar o escriba tomar os comprimidos calmantes que tem esquecido ou pedirem à família que lhe proporcionem um internamento urgente.
Colaboração de Gin-Tonic