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sexta-feira, 11 de maio de 2018

OS DIAS DA RÁDIO


The Golden Age of Old American Radio
Starring Bing Crosby
United Artists Records  UAK  30115

With Jud Conlon’s Rhythmaires
John Scott Trotter and His Orchestra

Apresentador: Ken Carpenter     

Side One

1-Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day - Orchestra   
2- Lady Of Spain – Bing Crosby 
3 - Hello, Hello – Kay Thompson and The William Brothers   
4 -For Me And My Gal - Judy Garland and Bing Crosby
5 - Young At Heart – Bing Crosby
6 - Lazy River And Paper Doll       - The Mills Brothers and Bing Crosby
7 - Where Is Your Heart – Bing Crosby 
8 - Lullaby Of Broadway – Dick Powell and Bing Crosby       
9 - It Might As Well Be Spring – George Burns abd Bing Crosby     
10 - It's Only A Paper Moon – Bing Crosby       
11 -That's A Plenty – Connie Bonwell and Bing Crosby         
12 - You Go To My Head – Bing Crosby
13 - Where The Blue Night Meets The Gold Of The Day (Reprise) – Orchestra


1- Zip-A-Dee-Doo-Dah – Bing Crosby   
2 - I Can Dream Can't I? – The Andrews Sisters and Bing Crosby   
3- Tell Me Why – The Four Aces and Bing Crosby     
4 - Two To Tango – Rosemary Clooney and Bing Crosby       
5 - Mona Lisa – Bing Crosby       
6 - If I Knew You Were Coming I'd Have Baked A Cak - Bob Hope and
     Bing Crosby   
7 - On A Slow Boat To China – Peggy Lee and Bing Crosby 
8 - Medley   
     (You Gotta Start Off Each Day With A Song - Maurice Chevalier and Bing
     Crosby, My Love Parade – Maurice Chevalier- Louise – Maurice Chevalier and
      Bing Crosby - Mimi – Maurice Chevalier)
9 - You Gotta Start Off Each Day With a Song – Jimmy Durante and Bing
      Crosby
10 -You Belong To Me – Bing Crosby     
11 -Wish You Were Here – Bing Crosby
12 - May The Good Lord Bless And Keep You - Nat King Cole, The Andrew
        Sisters and Bing Crosby   
13 - Orchestral Closing
       Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day

Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.

Se bem que o malandro do José Gomes Ferreira lhe tenha dito que «saudades, só do futuro», mas há coisas em que gosta mesmo de voltar lá atrás.

Cresceu a ouvir rádio.

 Primeiro num velho «Pilot», mais tarde, muito mais tarde, num «Blaupunkt já com dois altifalantes laterais, um luxo!, dizia que era estéreo.

 O rádio tocava todo o dia.

 O avô chamava-lhe telefonia.

 Os mais variados programas, das mais variadas estações: o folhetim do «Tide» da mãe e da avó, a música clássica do avô, os relatos de hóquei em patins do Torneio de Montreux em cada tempo de Páscoa, ao domingo os relatos de futebol.

 De todas as músicas, ficou-lhe um gosto por «big bands», por «crooners».

 As canções dos primeiros amores, os primeiros bailes, slows, boleros - «a menina dança?»

 O modo como uma mão nas costas nos conduzia, podia mudar tudo, passagem quase certa para lá do arco-íris.

 Aquilo a que chamaram a idade da inocência.

 O tempo, onde as promessas, as causas, porque também nos fomos apaixonando por ideias, nos preenchiam os quotidianos.

 Quando ainda acreditávamos, que iríamos ficar fiéis àqueles amigos, àqueles ideais.

 As músicas é que ficaram.

 E memórias: Brigitte Bardot a acenar num velho filme a preto e branco, Sophia Loren a não caber no écran do Cine-Oriente, Eusébio no Mundial de 66 em Inglaterra.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

«Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.

Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.

Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets

Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?»

Diálogo do filme «Smoke» de Paul Auster/Wayne Wang

Extinta está a rádio que grande parte da vida o acompanhou.

 Degradou-se a partir de um tempo que não sabe onde mora.

 Ou melhor: quando os programas de autores e de vozes eméritos deram lugar às «play-lists», em que uma garotada inculta, aos guinchos, às piadolas sem graça alguma, às conversinhas parvas tiraram o lugar a profissionais como Cândido Mota, Rui Morrison, Maria José Mauperrin, Jaime Fernandes, António Cartaxo, José Duarte, Adelino Gomes, António Curvelo, Aníbal Cabrita, António Sérgio, João David Nunes, Luís Pinheiro de Almeida - «why not?»

 E não tem qualquer ponta de esperança que essa rádio regresse nos tempos que ainda terá para andar por aqui.

 Razão única para ter uma ternura especial por este velho LP, que o leva, volta e meia, a pôr o disco a rodar e amiúde senta-se no sofá a ver Os Dias da Rádio do Woody Allen, copo de gin ao lado.

Texto de Gin-Tonic

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

AVANTE P'LO BENFICA


HIS MASTER VOICE - 7 LEM 3012

ORFEÃO DO SPORT LISBOA E BENFICA

Direcção Casimiro Silva

Side One

Hino do Sport Lisboa e Benfica - Biribiribim

Side Two

Quem Canta Seu Mal Espanta - Cantigas no Ar

Nuno Potes, dono e senhor dum boteco de venda de discos de vinil, porta aberta na Rua Carvalho Araújo, em Lisboa, volta e meia, com um disco na mão, gosta de dizer: isto é uma raridade rara.

Foi o caso deste EP.

Trata-se do verdadeiro Hino do Sport Lisboa e Benfica cantado pelo Orfeão do Glorioso.

Quando sentado na catedral, ouve o speaker do Estádio, com uma histeria de levantar fantasmas a dizer e agora, cachecóis ao alto, a uma só voz, cantemos o hino do Sport Lisboa e Benfica, fica todo pele de galinha.

O que se ouve é Luís Piçarra a cantar o Ser Benfiquista que, segundo António Vilarigues, no seu blogue O Castendo, é uma cançoneta apresentada a 16 de Abril de 1953, num sarau, no Pavilhão dos Desportos, para angariação de fundos destinados à construção do Estádio, com letra e música de Paulino Gomes Júnior, um confesso salazarista.

Abra-se um parêntesis para dizer que Luís Piçarra, um ferrenho benfiquista,  foi pessimamente tratado, nos últimos anos de uma vida muito difícil, por sucessivas direcções do clube.

Diga-se que  o Hino do Sport Lisboa e Benfica dá pelo nome de Avante, Avante p’lo Benfica, data de 1929, tempo do 25º aniversário do clube, tem letra de Felix Bermudes, um democrata e um homem da Cultura, e música de Alves Coelho.

"Todos por um!" eis a divisa,

Do velho Clube Campeão,
Que um nobre esforço imortaliza,
Em gloriosa tradição.

Olhando altivo o seu passado,
Pode ter fé no seu futuro.
Pois conservou imaculado
Um ideal sincero e puro.

Avante, avante p'lo Benfica,
Que uma aura triunfante Glorifica!
E vós, ó rapazes, com fogo sagrado,
Honrai agora os ases
Que nos honraram o passado!

Olhemos fitos essa Águia altiva,
Essa Águia heráldica e suprema,
Padrão da raça ardente e viva,
Erguendo ao alto o nosso emblema!

Com sacrifício e devoção
Com decisão serena e calma,
Dêmos-lhe o nosso coração!
Dêmos-lhe a fé, a alma!

Claro que este Avante, Avante p’lo Benfica fazia comichões ao ditador Salazar que acabou por ordenar que o hino deixasse de ser cantado.

Ordens expressas foram, mais tarde, dadas à Censura para que os jornalistas não designassem os jogadores do clube por vermelhos mas sim por encarnados.

Texto: Gin-Tonic

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

PEDRO BANDEIRA FREIRE


Profissom (1982)

Lado A

Minha Quinta Sinfonia

Lado B

Ondas de Verão

Não é nada estimulante, motivos vários, a ideia que tem sobre Paco Bandeira.

Os motivos, agora, pouco importam, o cantor, apenas, aqui vem por mor de outra referência: Pedro Bandeira Freire.

Eram grandes amigos, ao ponto de o Pedro, ter comprado, em Andorra, um motor para o seu barco Providence que tinha em Sesimbra, e serviu-se da amabilidade de um tio do Paco Bandeira que era guarda-fiscal, em Badajoz-à-vista, para o passar à sorrelfa.

A semana passada, os passos quotidianos, a caminho de uma consulta médica em Entrecampos, fizeram-no descer a avenida dos Estados Unidos.

Ia a meio a caminhada quando lembrou a rua Flores do Lima, mesmo ali ao lado, o seu número 16, onde outrora foi o Quarteto, uma brilhante ideia de Pedro Bandeira Freire, não tendo habilitações para fazer alguma coisa de útil (o mesmo é dizer que não sabia nada de nada), dedicou-se a fazer um pouco de tudo.

Quatro Salas, Quatro filmes, mas uma noite houve em que as quatro salas exibiram o mesmo filme: All that Jazz, de Bob Fosse.

Boa parte da sua vida de cinéfilo tem a ver com o Quarteto, enquanto a grande parte tem a ver com os piolhos que existiam em redor da rua onde nasceu: o Cine-Oriente, o Royal, o Lys, o Rex, o Imperial, o Max.

Ia o passado ano nos primeiros meses quando a Lusa deu a notícia que onde tinha existido o Quarteto, iria nascer um cimentão qualquer destinado a escritórios.

Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender, para lembrar um início de crónica do João Bénard da Costa

Resolveu ir dar uma olhadela.

 Efectivamente, aquilo é agora um estaleiro de obras.

Terá que lá voltar para fazer um boneco, a história também se faz de pequeninas coisas e loisas.

Agora fica-se pela capa do disco, acrescentando que A Minha Quinta Sinfonia tem letra de Pedro Bandeira Freire e música de Paco Bandeira.

E de que é feita uma cantiga? Todos os que se lembram sabem que qualquer cantiga é feita da mesma matéria com que são feitos os sonhos da mesma matéria que nas palavras do Bogart era feito o Falcão de malta e de que o imortal Shakespeare já tinha falado. E também nascem como os sonhos. Nunca se sabe quando, como ou por onde começam e onde depois vão desguar. Um mistério, Pedro Bandeira Freire dixit, em Entrefitas e Entretelas.

Quando me lembro quem eras
Desse corpo que foi nosso
Desse amor que não deu certo
Era o tempo das quimeras
Das palavras em silêncio
Quando o mais longe era perto
Tinhas nos olhos a esperança
Os desejos de aventura
As ilusões que eram minhas
Nos momentos de ternura
Tinhas nos seios a graça
Das primaveras que tinhas
E foste a música que em mim ficou
Quando a distância nos fez separar
Ando louco para te encontrar

Foste a quinta sinfonia
Fuga da nossa verdade
Sonata tocada em mim
Foste o meu sol afinado
Neste samba de saudade
Vinicius, Nara e Jobim
Foste verso de balada
Foste pintura abstracta
Meu bolero de Ravel
Foste música sonhada
Numa canção de Sinatra
Com um poema de Brel
E foste a música que em mim ficou
Quando a distância nos fez separar
Ando louco para te encontrar

Foste estrela de cinema
Minha dama de Xangai
Hiroxima meu amor
A minha grande ilusão
Eras fúria de viver
Quanto mais quente melhor
Grande amor da minha vida
Senso, silêncio, paixão
Buñuel, Fellini, Troffaut
Foste luzes da ribalta
Música no coração
E tudo o vento levou
E és ainda o que me faz sentir
Dentro da vida p'ra te cantar
Ando louco para te encontrar…

Texto: Gin-Tonic

domingo, 7 de janeiro de 2018

O DIA SEGUINTE


Este anúncio foi publicado no jornal Público.

Desconhece a data de publicação, mas admite que seja inícios da década de 90.

O tempo em que, por esta altura do ano, depois do Dia de Reis, as ruas apareciam repletas de árvores de Natal.

O tempo em que as árvores de Natal ainda não se tinham convertido em crime ecológico.

O tempo em que a Câmara de Lisboa dizia aos lisboetas como deviam proceder para que as árvores de Natal pudessem ser recolhidas.

 O tempo…

Depois as árvores de plástico, made in China , entraram portas dentro para durar até ao fim dos nossos dias.

Oh! Vó conta aquela da árvore de Natal que não cabia em casa.

E a Aida, todos os natais, conta que foi com a cunhada a Sapadores comprar um pinheiro de Natal e chegando a casa, verificaram que não cabia na sala e voltaram a palmilhar toda a avenida General Roçadas até Sapadores para trazerem uma árvore mais pequena e, no regresso, pararam na Leitaria do Senhor Falcão, vulgo cara às riscas por, fraquezas do fígado, ter a cara malhada, para um galão e um bolo de arroz.

Texto: Gin-Tonic

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

CONCERTO DE ANO NOVO


SONY - SK 45808

New Year’s Concert 1990

Em 1990, o Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmórnica de Viena foi conduzido por Zubin Mehta.

 O deste Novo Ano foi conduzido por Riccardi Muti.

Ao longo dos tempos, o pai foi um atento espectador das transmissões televisivas dos Concertos para Jovens,  de Leonard Bernstein, dos Concertos Promenade, transmitidos  do Royal Albert Hall, dos Concertos de Ano Novo da  Orquestra de Viena.

Dos Concertos Promenade gostava particularmente da última noite, onde infalivelmente, aparecem a Marcha de Pompa e Circunstância, de Elgar, o Rule, Britannia e Jerusalém, com toda a sala a cantar em coro.

Nunca conseguiu encontrar um disco, ao vivo, de uma das últimas noites dos Proms, mas ouvia, com regularidade, a Marcha de Pompa e Circunstância.

Lembra-se do dia em que  telefonou a dizer que comprara o disco do Elgar, na Discoteca Melodia, e que isso merecia uma garrafinha.

 Comovia-se com os Concertos de Ano Novo, principalmente quando o maestro se dirigia ao público, na Grande Sala do Musikverein, cheia de glamour e arranjos de flores, e aos milhões de espectadores espalhados pelo Mundo, gritava o seu Prosit Neujahr, a habitual saudação de Ano Novo e acompanhava com júbilo as palmas na Radetzku March.

 Nos anos em que, juntamente com pai, via o concerto, lá estava ele a informar que os bilhetes para o concerto do ano seguinte esgotavam logo nos primeiros dias de Janeiro.

 Numa velha entrevista do António Lobo Antunes, ele dizia:

Eu vejo sempre o concerto de Ano Novo, com música do Strauss, e comovo-me ate às lágrimas.

Texto: Gin-Tonic

domingo, 31 de dezembro de 2017

AULD LANG SYNE


Este salto, sem rede, no vazio incógnito do novo ano.

Chame-se-lhe raiva no desejo e na alegria de transformar as coisas que estão mal.

Chame-se-lhe futuro.

Chame-se-lhe o novo ano.

De tal forma que os melhores votos de Ano Novo que podemos hoje formular sejam o desejo de que o futuro nos dê algo que desejar.

Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela, que o ano está sempre a passar.

Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, afirmam que dá azar.

E depois há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.

Num solene adeus a um qualquer ano velho, o poeta inglês Robert W. Service lembrava que o seu cachimbo estava apagado, o copo vazio, comboios atravessam as noites.

Que virá a seguir?

O que for será, como canta a Doris Day

Se viram um amável filme do realizador Rob Reiner, em que Nora Ephron mete a sua distinta colherada,  protagonizado por Meg Ryan e Billy Cristal, When Harry Meet Sally, o filme em que Meg Ryan, com o molho à parte, simula um orgasmo em pleno Katz's Delicatessen, esmerado restaurante de Manhattan e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que aguardava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: quero o mesmo que aquela senhora,  certamente lembrar-se ão que, quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de «Auld Lang Syne», e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois a canção diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos?

Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: seja o que for é uma canção sobre velhas amizades.

Chegamos a bom porto: velhas amizades.

Lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

Fará isso e aproveita para desejar aos ié-ié-viajantes uma viagem tranquila pelos novos dias de mais um ano.

Mas não queria sair sem lembrar a velha tia que repetia sempre os mesmos votos de Ano Novo:

Não se pede grande coisa: trabalho e saúde...

Texto: Gin-Tonic

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

NATAL71


M.N.F.

OPERAÇÃO PRESENÇA

Proibida a venda ou reprodução.

 Guerra Colonial:

- 800 mil jovens foram mobilizados para Angola, Guiné e Moçambique

- 11 mil mortos

- 40 mil estropiados e deficientes

- 140 mil antigos combatentes sofrem de “stress” de guerra.

Sabemos destes números – serão mais? Serão menos?

Mas como diz João Paulo Guerra no seu livro Memórias da Guerra Colonial, não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor.

Há feridas que custam a cicatrizar, mas não é o silêncio o melhor remédio.

Uma guerra sem sentido, estúpida, inútil.

Adeus até ao meu regresso.

Lembram-se?

No Natal de 1971, o Movimento Nacional Feminino editou um disco que foi distribuído pelos soldados que combatiam em África onde, possivelmente, não existiam gira-discos e em alguns locais nem electricidade havia.

Na contracapa do disco fala-se das muitas vontades que permitiram que ele fosse feito.

Nasceu uma ideia, juntaram-se os esforços, bateram os corações no mesmo compasso, deram-se as mãos, uniram-se os pensamentos e então aconteceu o LP deste Natal 71.

O disco é composto por mensagens patrióticas de um leque de personagens onde, entre outros, aparecem Hermínia Silva, Eusébio, Parodiantes de Lisboa, Inspector Varatojo, Joaquim Agostinho, Amália Rodrigues, Maria de Lurdes Modesto, Florbela Queiroz.

Vai o disco a meio e ouve-se:

Sou a Cilinha. Cabem-me as missões mais gratas neste LP de carinho. Antes de mais a de representar as vossas famílias. É com toda a alegria que o faço. Em nome delas: “Olá rapazes! Santo Natal.

Mais ainda:

A fechar este disco a presença dum soldado que é vosso chefe e irmão: o General Sá Viana Rebelo.

Da fala do então Ministro da Defesa Nacional:

Destinam-se estas palavras a figurar no disco do simpático Movimento Nacional Feminino para lembrança individual no Natal de 1971 dos militares do Exército, Marinha e Força Aérea. Tais palavras serão uma mensagem de esperança e de paz (…) vejamos um dia recompensados os nossos esforços para que a paz volte à terra portuguesa. (…) Mais um ano em que há afastamento de militares das suas famílias (…) Quantos Natais muitos dos nossos militares passaram já afastados das famílias? (…) Mas é sacrifício de que os nossos filhos e netos irão mais tarde beneficiar. Nada daquilo que se faz em África se irá perder. Tudo durará. Haja o ânimo de defender o que é nosso e Portugal continuará na terra africana a celebrar na nossa África os Natais de Cristo como agora. E mais tarde de regresso aos lares ao ouvirem este disco estou certo de que muitos, todos, dirão: custou-me bastante mas valeu a pena!

Trata-se de um documento, mas é doloroso (re)ouvir este disco.

Ridículo, trágico, ou ambas as coisas.

O que nele se diz é tão lamentável, tão chocante, de uma hipocrisia miserável.

E ninguém perguntou àqueles jovens se queriam, ou não, participar naquela guerra.

Notas do escriba:

Cilinha, de seu nome Cecília Supico Pinto, rosto do Movimento Nacional Feminino, «um Salazar de saias», como alguém lhe chamou.

António Lobo Antunes em Os Cus De Judas coloca uma madame do Movimento a dizer aos soldados:

 Sigam descansados que nós na rectaguarda permanecemos vigilantes.

 O Serviço de Informação Pública das Forças Armadas, regularmente comunicava os soldados que, nas três frentes da guerra colonial, morriam em combate, por doença, ou desastre de viação.

 As mortes por desastres de viação eram superiores à dos soldados mortos em combate, o que poderia levar a pressupor que os militares serviam-se das picadas para, com as unimogs, realizarem corridas de Fórmula 1.

 Paluteia Mendes, que ficou cego em combate, contou há uns anos, o diálogo que mantivera com uma daquelas damas do Movimento Nacional Feminino:

 - Isso foi um acidente de viação?

 - Foi, sim, minha senhora. Foi um desastre de trotinete.

 Baseado neste disco, Margarida Cardoso realizou, em 2000, um documentário com o mesmo nome e de que existe uma edição em DVD.

Texto: Gin-Tonic

sábado, 23 de dezembro de 2017

OUVEM-SE TAMBORES AO LONGE


No Natal de 2012 comprou o Diário de Inverno de Paul Auster.

Qualquer pretexto lhe serve para comprar um livro.

Não sendo autor referencial da casa, bastou-lhe ler na contracapa:

Pensas que nunca te vai acontecer, que não te pode acontecer, que és a única pessoa no mundo a quem essas coisas nunca irão acontecer, uma a uma, todas elas começam a acontecer-te, como acontecem a toda a gente.

Gostou do livro.

Mais ainda, quando quase a findar, leu:

Conversando com o teu pai em sonhos. Há muitos anos que ele te visita num quarto escuro do outro lado da consciência, sentando-se a uma mesa contigo para conversas longas e sem pressas, calmo e circunspecto, tratando-te sempre com amabilidade e bonomia, escutando sempre com atenção o que lhe dizes, mas, quando o sonho acaba e tu acordas, não te lembras de uma única palavra do que cada um de vocês disse.

Sininhos de Natal tremelicaram. Também a ele o pai o visita. E lembrou-se, que por aí, tinha um qualquer registo que, voltas e mais voltas, acabou por encontrar:

Há espelhos que se aproximam de nós e trazem-nos as pessoas que somos.

Lembra-se dos tambores que o pai lhe deu no primeiro Natal?

Não, não se pode lembrar, mas é como se assim fosse.

Contaram-lhe a história e ele consegue ver.

O pai deu-lhe uma mão cheia de tambores, aqueles tambores de madeira com riscas vermelhas, pele de cartão, dois pauzinhos, os tambores, tambores que o pai quisera um dia ter na sua infância e que nunca lhe deram.

Há espelhos que vêm até nós com as imagens nunca vistas, mas que outros contaram.

E passam a ser nossas.

Pendurado nos livros, colocou o último boné que o pai usou, o seu ouvinte mais inteligente.

Tem dias, mas principalmente noites, que sente que o pai anda por aqui, aquele cheiro a tabaco negro, marca UNIC, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram

Uma voz: Então não há por aí um whisquinho e logo a seguir: já agora põe aí a Peggy Lee a cantar o «Johnny Guitar.

Play the guitar, play it again, my Johnny, maybe you're cold, but you're so warm inside.

Comove-se cada vez que olha o boné e disso fez um hábito.

Ouvem-se tambores ao longe.

E é quase Natal!

Texto: Gin-Tonic

Nota do editor: belo texto, bela foto e como conheço bem o boné!

NÃO HÁ NATAL SEM MÚSICA DE BACH


JOHANN SEBASTIAN BACH
CHRISTMAS CANTATAS
THE AMSTERDAM BAROQUE ORCHESTRA & CHOIR TON KOOPMAN
CHALLENGE CC72230

As vezes que ele lhe disse:

Não há Natal sem Música de Bach.

Sempre a mesma cantilena.

Nunca compreendeu a insistência, porque, para ela, todos os dias são dias de Bach.

Mas o tempo era de festa e regozijo, pensou ela, que assim fique, e disse também:

Não há Natal sem Música de Bach. 

Mas, naquele ano, arriscou algo mais:

Põe o Natal nos meus olhos!

Ele entendeu.

Quando depois o Outono se foi aproximando, nasceu a Rita.

Texto: Gin-Tonic

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

VOLTOU O SENHOR NATAL


José Carlos Ary dos Santos conseguiu, numa só frase, resumir o muito que se possa dizer do Natal:

 Natal é quando um homem quiser.

 O mais certo é que Simona Angioni, leitora de um jornal milanês, nunca tenha lido Ary dos Santos, mas enviou para o jornal uma carta em que se fica com a sensação de que gostaria de ter lido uma outra linha do poema de Ary:

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer, Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher.

E esta é a carta da leitora Simona Angioni:

Eu sou quem decide quando é Natal. Vocês põem-no sempre no mesmo dia, como uma marcação no cabeleireiro. Não funciona assim. Transfiro o Natal para onde quero. Para um banco de onde se vê o rio, para uma esquina da noite, entre lençóis vermelho fogo, para uma sala burguesa cheia de familiares à hora do chá. Ou no Verão, num alpendre, às duas da tarde de uma terça-feira qualquer. Quando souber a data, digo-vos. Agora não é altura para um feriado. Há demasiada leveza. De qualquer maneira, quando o momento chegar vocês compreenderão sozinhos. Haverá uma barriga. E um choque surpreendente para sair para o ar livre.

Ora se o Natal é quando um homem quiser, democraticamente falando se dirá que todos têm direito a fazer um disco do Natal.

É o caso de António Severino, emigrante por terras de França, que pediu a José Crispim que lhe ajeitasse uns versos, socorreu-se da música do Fado Latino, rodeou-se do Conjunto de Guitarras de António Chaínho e resulta uma história arrepiante que nos diz que os filhos não devem pagar os erros dos pais.

Outros Natais.

Texto: Gin-Tonic

UM AMIGO PARA NOS ACENDER O DIA


POLYDOR  - 2371. 223

Lado 1

White Christmas – Midnight in December – Jingle Bells – Come Ye Shepherds – Oh Christmas Tree – Christmas Night – Tomorrow Brings Santa Claus –Oh Miracle Upon Miracle – When the Snow Falls from Heaven -  The Bells Never Sound Sweeter – In Dulce Jubilo – Joseph Dear. Joseph Mine – Sleigh Ride in the Winter Forest – Silent Night

Lado 2

Ring Little Bell Cling-a-Liing-Ling – Let’s Be Gay and Merry – Happy Christmastide – The Snows Falls Softly – Snowflakes – The Wind Blows on the Mountain – Children, Tomorrow Is the Day – Every Year Anew – Merry Christmas Everywhere – The Christmas Tree Is Alight With Candles – A Rose Has Come to Bloom – Come Ye Children – The Christmas Tree is the Finest Tree – Ah! Ah! Ah!

 O Natal será sempre o encanto e a ternura da impossibilidade.

 O sem sentido de alguns presentes, como naquele conto de O’ Henry: ela vendeu o lindo e comprido cabelo para lhe comprar uma corrente para o relógio, de que ele tanto gostava; ele empenhara o relógio para lhe comprar as travessas, de que ela tanto gostava, para colocar no cabelo.

Karl Valentim preferia que cortássemos do calendário o Dia De Natal, se com isso conseguíssemos que os restantes 364 dias do ano fossem todos de Natal.

Gostaria que o Natal não tivesse o carácter de que se tem revestido nos últimos anos: um consumismo desenfreado que dele fazem o dia mundial da hipocrisia.

As noites de Natal, aquelas que não mais pode repetir, passava-as em casa do pai, a família mais chegada, a comer bacalhau cosido com couves, a beber vinho tinto alentejano, a conversar pela noite fora, rematando-se a festa com carne de porco frita envolta em ovos mexidos, a que se seguiam os doces, umas fatias douradas da parida, dizia a avó, filhós e uns cálices de licor de ginja que, por Junho, se tinha colocado a marinar numa grande garrafa de vidro, juntamente com açúcar amarelo, aguardente branca, um pau de canela.

A manhã começava a nascer, saía para regressar onde vivia e gostava do cheiro de Natal que sentia pelas ruas.

Tentamos fazer o mesmo com os filhos, a reinvenção dessas noites felizes, mas é mais que certo: nunca se volta aos sítios onde fomos felizes.

Falta, essencialmente, esse passe de mágica, que eram as conversas do pai, um brilhante contador de histórias.

Há coisa melhor que o Natal?

Há: os amigos!

E que mais podemos querer do que um amigo para nos acender o dia, e que esse dia seja Natal?

O Natal é um cantinho bom do ano, um aconchego.

Bom Natal!

texto: Gin-Tonic

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

OS MALUQUINHOS DAS MÚSICAS DE NATAL


POLYDOR - 20 225 EPH

Stille Nacht, heilige Nacht – Susser die Glocken nie klingen – O du frohliche, o du selige – O Tannenbaum

Em casa do pai havia um móvel com um rádio BLAUPUNKT, daqueles de olho verde para uma clara sintonização, e um gira-discos.

Um dia, faltavam escassos dias para o Natal, o pai apareceu em casa com um EP de Canções de Natal.

Não havia televisão.

Depois do jantar, o pai reuniu a família, e colocou o disco no prato.

Canções de Natal em alemão.

Aliás, o pai tinha a opinião que o Natal é essencialmente nórdico.

Perguntou-lhe um dia porquê, disse que não sabia bem, lera num qualquer livro, mas, acima de tudo, sentia-o assim.

Um silêncio de claustro, o avô com uma lágrima ao canto do olho, o encanto espelhado nos rostos, uma família na serena paz de uma noite silenciosa.

Já não lembra quantas vezes o disco tocou nessa noite.

Como foram muitas as vezes que o foi ouvindo ao longo dos natais do seu encantamento.

Memórias antigas, ternuras doces.

Aquela noite persegue-o irremediavelmente.

O gosto por músicas e canções de Natal terá nascido aí.

O pai punha sempre na contracapa as datas em que comprava os discos.

Neste, pode ler-se: 20 de Dezembro de 1955 (faz hoje 62 anos - nota do editor).

Muitos anos depois daquela noite, faltavam três dias para ser o Natal de 1988, ele estava na loja de discos da Valentim de Carvalho no Centro Comercial Alvalade.

Ao lado, mãe e filha conversavam: «agora que temos CD era bonito levar um disco de Natal.». Escolheram um da Orquestra e Coros de Ray Conniff.

Aquele era bonito levar um CD de Natal ficou a dançar-lhe por dentro.

Ao longo dos tempos, o apertado orçamento caseiro nunca lhe permitiu grandes voos.

Tinha apenas uns discos, avulsos, de vinil com canções e músicas de Natal, nada de especial.

Quase um ano depois daquela conversa de mãe e filha na Valentim de Carvalho, comprou um CD player, Sony PM 97, na Transom, ali à Estefânia. A factura tem a data de 30 de Novembro de 1989 e custou-lhe 60.000$00, moeda antiga,

No dia seguinte começou a saga de comprar CDs de Natal, que o leva, hoje, a contabilizar a existência de 146 discos e ele apenas se sente um modestíssimo membro do Clube dos Maluquinhos das Músicas e Canções de Natal. (também faço parte - nota do editor).

Texto: Gin-Tonic

I'M COMING HOME FOR CHRISTMAS


MAMOTH RECORDS - 354 980 192. 2

Winter Weather – Indian Giver – A Johnny Ace Christmas – My Evergreen – Sleigh Ride – I’m Coming Home For Christmas – Gift of the Magi – Hot Christmas – Hanging Up My Stockings

Por um Natal, o filho deu-lhe o disco, com um cartãozinho agarrado:

Isto é que é um disco de Natal. Diverte-te.

Olhou e remirou o disco: chinês puro.

 Nunca ouvira falar de tal gente.

 Pôs o disco a rodar e ficou encantado, amor à primeira vista, e a certeza de que estava na presença de um belíssimo disco de Natal.

Foi então colher informes e disseram-lhe que se trata de uma banda da Carolina do Norte, que tocam música alternativa independente.

 Declarou a sua ignorância e pediu que lhe fizessem um desenho: qualquer coisa que também pode ser música de fusão, jazz, dixieland.

 Resolveu ficar por ali, areia de mais para a camioneta do rapaz.

 Mas o que importa é que se trata de um fabuloso disco e que, cada vez que o põe a tocar para amigos da sua idade, ficam rendidos.

Todo o disco é uma delícia mas, «I’m Coming Home For Christmas» e «Carolina Christmas» são, como o neto, volta e meia, diz: uma curte!

Texto: Gin-Tonic

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

FELIZ NATAL


Abri a caixa de correio e "desabou" este lindo cartão de Boas Festas da minha amiga Aida.

Obrigado, retribuo por esta tralha de última geração.

Já agora, Feliz Natal para todos!

sábado, 16 de dezembro de 2017

TONY: O CANTOR QUE PINTA!


THE TONY BENNETT CHRISTMAS ALBUM

COLUMBIA - 477597 2

My Favourite Things – Santa Claus Is Coming’ To Town – Medley – Christmasland – I Love The Winter Weather – White Christmas – Winter Wonderland – Have Yourself a Merry Little Christmas – Snowfall – I’ll Be Home For Christmas

Este mago da voz, não poderia faltar com o seu disco de Natal.

Tony Bennett, com os seus 91 anos, deverá ser o último representante desse mundo encantado de crooners, standards, big bands.

Não sendo um cantor de jazz é aí que foi beber tudo e que fez dele um cantor repleto de sensibilidade melódica e sentimental, de swing.

Cresci numa época em que os artistas levavam dez anos para amadurecer, compartilhavam as suas experiências com os colegas e estudavam música seriamente. Hoje os jovens não têm possibilidade de se desenvolver, de aprender o seu ofício. Quem manda na carreira deles são os produtores musicais, que simplesmente abandonam o artista quando um disco não faz tanto sucesso quanto se esperava. O resultado é que a maioria absoluta das carreiras dura pouco tempo.

Para o chatear dizem que ele nunca compôs uma canção,

Tony concorda mas pergunta: concorda e pergunta:

 Já viu muitos cantores a pintarem quadros? Pois eu pinto!

Texto de Gin-Tonic

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

FAIRYTALE OF NEW YORK


WEA - 244493-2

If I Should Fall from Grace with God – Turkish Song f the Dammed – Bottle of Smoke – Fairytale of New York – Metropolis – Thousand  are Sailing – South Australia – Fiesta – Medley (The Recruiting Sergeant/The Rocky Road to Dublin/The Galway Races) – Streets of Sorrow/Birmingham Six – Lullaby of London – The Battle March Medley – Sit Down by the Fire – The Broad Majestic Shannon – Worms

 Já por aqui andou às voltas com Canções de (Não) Natal.

Não o disse na altura, mas acrescenta agora: o prémio vitalício para a melhor canção de Natal vai para "Fairytable of New York" dos The Pogues, com a Kirsty MacColl.

Véspera de Natal, sonhos para se tornarem realidade, velhos lugares, o swing de Sinatra, os rapazes da NYPO, qual exército da salvação, a cantarem Gatway Boy, sinos a ecoarem pela cidade, prostitutas e vagabundos, all together now, na véspera de natal

Os The Pogues acabaram no dia em que as virgens do conjunto, por causa da bebida, correram com o Shane McGowan.

 Ainda continuaram por uns tempos, mas nunca mais foram os mesmos, perderam a chama.

 O Shane era a grande desbunda.

 Sem ele The Pogues ficaram café sem cafeína, cerveja sem álcool.

 Foram eles que ficaram a perder, o Shane nunca.

Um dia pegou nas suas poesias e levou-as à Editora Faber que mais tarde fez o lançamento do livro, Property, no Irish Club de Londres.

Nessa noite, um tal Sean O’Hogan, disse que ele pode ser um bêbado, mas é o bêbado mais erudito que eu conheci.

 Shane McGowan atalhou:

 Nunca escrevo quando estou sóbrio. Nunca o fiz. Nem sabia por onde é que havia de começar.

Não queria ir-se embora sem desafiar os viajantes-ié-ié a darem um saltinho ao you tube e chamarem por:

https://www.youtube.com/watch?v=MGD0I5qdw8c

para se deliciarem com uma, tão  espantosa como surpreendente, versão de Fairytable of New York.

Texto de Gin-Tonic

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CARTA AO PAI NATAL


Todos os anos, de há muitos para cá, muitos mesmo, escreve uma carta ao venerando sacripanta de barbas e casacão vermelho, com posto de correio em Rovaniemi, lá para o Circulo Polar Árctico, plena Lapónia, onde, dizem, os dias são azuis, que lhe coloque, no cantinho esquerdo da árvore de Natal, uma garrafa de verdadeira água tónica, para que ele possa beber o perfeito «gin-tonic».

 Não pede a lua, apenas uma garrafinha de tónica.

Ele explica o que é isso da verdadeira água tónica: é a que tem quinino.

 A que se vende por aí tem hidrocloreto de quinino.

 Faz uma certa diferença...

 Foi o José Duarte quem lhe disse que a tónica com quinino, empresta ao «gin» um sabor único, um sabor de paraíso.

 De fazer inveja aos deuses, acrescentou.

É com isso que ele se contentava neste Natal.

 Sabe que não vive em Sirius, mas ficava feliz.

E o Khaled, o dono do mini-mercado-de-conveniência aqui da rua, já lhe garantiu que arranjará limões com casca amarela.

No fundo vive de coisas simples, pequenas alegrias, pequenas esperanças.

 Sorri, quando lhe desejam Bom Natal, mas sabe, também, que quando se estende uma mão, raras vezes se encontra outra.

Texto de Gin-Tonic

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

THE BELLS OF DUBLIN


RCA VICTOR - RD 60824

The Bells of Dublin – Past Three O’ Clock – St. Stephens Day Murders – Il est né – Don Oiche – I Saw Three Ships A Sailing – A Breton Carol - Carol Medley (O The Holly She Bears a Berry, God Rest Ye Merry Gentlemen, The Boar’s Head) – The Wexford Carol – The Rebel Jesus – Skyline - O Holy Night - Medley ( The Wren! The Wren!, The Arrival of the Wren Boys, The Dingle Set, The Wren in the Furze, A Dance Duet, Brafferton Village, The Piper Through the Meadows Strayed, This Is the Season to be Merry – Medley Final( Once in Royal David’s City, Ding Dong Merrily on High, O Come All Ye Fairhful)

Todos os discos de Natal lhe dão prazer, mas tem um carinho muito especial por este disco dos The Chieftains.

Todos os intérpretes de que gosta, deviam ter um disco de Natal, e quando não têm, ele, num qualquer disco, inventa uma canção que derrame o espírito natalício.

Os instrumentos característicos da música irlandesa, que a tornam reconhecível logo aos primeiros acordes, os sons dos vinte sinos da Catedral de Dublin, na véspera de Natal, as participações especiais dos The Renaissance Singers, Elvis Costello, Kevin Conneff, Marianne Faithfull, Nolwen Monjarred, Nanci Griffith, Jackson Browne, Rickie Lee Jones, Suzie Katyama, The Voice Squad, a soberba interpretação de "O Holy Night" por Rickie Lee Thomas e Suzie Katayama, um bem-disposto medley marca o fim de festa, a puxar o pezinho para a dança, e em que todos os intervenientes tocam e cantam e até se sente o esvoaçar da espuma das canecas de Guinness.

Bob Claypool, crítico musical:

Se existe no mundo uma música mais bela do que a dos Chieftains, então eu nunca a ouvi.

Texto de Gin-Tonic

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

TOM WAITS NÃO TEM UM DISCO DE NATAL


Asylium Records - ASY 53099 (1978)

Side 1

Somewhere – Red Shoes by the Drugstore – Christmas Card from a Hooker in Minneapolis – Romeo Is Bleeding - $29.00

Side 2

Wrong Side of the Road - Whistlin Past the Graveyard – Kentucky Avenue – A Sweet Little Bullet From a Pretty Blue Gun – Blue Valentines

Tom Waits é um rapaz muito cá de casa.

Uma voz que, segundo a revista Rolling Stone, tem alcatrão suficiente para asfaltar uma auto estrada inteira.

Ele acrescentaria que Tom Waits tem, na sua voz, nos seus poemas, uma força e um encanto capazes de abalar túmulos.

Gosta de todos os seus discos e tem sempre muita dificuldade em explicar como este cúmplice da noite lhe provocou a doce mania de ficar dependente das suas canções.

Só tenho problemas com o álcool quando já não tenho mais nada para beber.

E põe-se denunciar o piano, em alto e bom canto, que é ele que está bêbado e mais ninguém, ou dizer com uma voz, condoída de noites sem sono, de que nunca conheci uma mulher como tu e a gente, do lado de cá do gira-discos, a saber que ele já conheceu mais de mil.

Tanto quanto sabe, Tom Waits não tem um disco de Natal, e que bem que isso lhe assentaria, mas conhece duas canções, pelo menos, que a sua boa vontade vai considerar serem de Natal.

Uma é «Innocent When You Dream» do álbum «Franks Wild Years» e que faz parte da banda sonora de «Smoke», filme de Wayne Wang e Paul Auster.

Outra é «Christmas Postcard From A Hooker In Minneapolis», do álbum «Blue Valentine».

Desta se transcreve a letra, com tradução de João Lisboa, retirada de «Nocturnos», edição bilingue, publicado pela Assírio & Alvim e que, para além da tradução dos poemas, tem uma muito interessante entrevista com Tom Waits.

Postal de Natal De Uma Puta Em Minneapolis

Olá Charley, estou grávida
E a viver na rua 9
Mesmo por cima de uma livraria nojenta
À beira da Euclid Avenue
Deixei de meter droga
E parei de beber Whisky
O meu homem toca trombone
E trabalha no caminho de ferro

Ele diz que gosta de mim
Ainda que o bebé não seja dele
Diz que o vai criar como a um verdadeiro filho
Ofereceu-me um anel que a mãe costumava usar
E sai comigo para dançar
Todos os sábados à noite.

E Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo numa bomba de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas no cabelo
E ainda tenho aquele disco de Little Antony e os Imperials
Mas roubaram-me o gira-discos
O que é que se há-de fazer?...

Olha Charley, quase dei em doida
Quando o Mário foi de cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com os meus velhos
Mas toda a gente que eu conhecia
Ou morreu ou estava presa
Então voltei para Minneapolis
E desta vez penso que vou ficar por cá

Sabes Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece-me que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar em droga
Comprava um parque de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente em cada dia
A condizer com a maneira como me sentisse

Oh Charley, por amor de Deus, queres saber toda a verdade?
Não tenho nenhum marido
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
Para pagar ao advogado
E, olha, Charley, devo sair com pena suspensa
No dia de S. Valentim.

Texto de Gin-Tonic

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SMITHS BY GIN-TONIC


ROUGH TRADE RECORDS - TM/RT 61

Face A

Reel Around The Fountain – You’ve Got Everything Now – Miserable Lie – Pretty Girls Make Graves – The Hand That Rocks The Cradle

Face B

Still Ill – Hand In Glove – What Difference Does It Make? I Don’t Owe You Anything – Suffer Little Children

Sabe-se que a ignorância tem o seu quê de atrevido.

Baseado no chavão, traz aqui um disco com uma história agarrada.

O disco encontrou-o no meio da muita tralha que por aqui jaz.

Voltas à cabeça, como é que aparece este disco quando ele, para além do conhecimento do nome, sem qualquer dose de exagero, dirá que nunca ouviu uma canção dos ditos e que a Wikipédia, num flash de 0,58 segundos, lhe deu 10.600.000 resultados e avisa que, segundo os críticos se trata da mais importante banda de rock alternativo a surgir nos anos 80.

Destes rapazes, lembra uma história que, em noite de flutes de espumante adiantada, Luís Mira lhe contou.

Mira, na primeira metade desses anos 80, tirava o curso de Sociologia no ISCTE.

Na cadeira de Sociologia Política, tinha, como assistente, Miguel Esteves Cardoso (credo! - nota do editor).

Certa noite, a meio de uma aula, tinha o disco acabado de sair, o MEC virou-se para a turma, e, com a mesma leviandade com que, no «Fugas» do «Público» dá receitas de cocktails, disse:

Deitem fora toda a vossa discoteca e fiquem apenas com The Smiths.

Por músicas, não lancem qualquer tipo de desafio ao Mira, que ele aceita num abrir e fechar de olhos.

Comprou o disco.

Não precisou de muito tempo para achar a coisa simplesmente horrorosa, e despachou-a.

Lembra a história, mas sem qualquer ideia de o Mira lhe ter passado a bola.

Investigação agora feita, soube que o Mira dera o disco não a ele, mas ao filho.

Quando o rapaz saiu da casa paterna, entre outras coisas também deixou o disco dos Smiths: este!

À memória desvalida, salta-lhe o que, em medíocre apresentação, disse ao dono do Kioske: que era mais de livros do que de músicas e estas lhe iam de Vivaldi ao Conjunto da Maria Albertina.

Os Smiths não moravam nesse comprimento de gostos.

Para que conste!

Texto de Gin-Tonic

Nota do editor:
nem tanto ao mar (MEC), nem tanto à terra (Mira).