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sábado, 18 de janeiro de 2025

"Nexus - História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial" de Yuval Noah Harari

 

Citações

"A ascensão de máquinas inteligentes capazes de tomar decisões e criar ideias significa que, pela primeira vez na História, o poder se está a transferir dos humanos para outro agente."

"Eis o traço distintivo da Inteligência Artificial: a máquina aprende, depois age de moto próprio."

Pela terceira vez li um ensaio em ebook de Yuval Noah Harari - um historiador israelita, formado em história militar e considerado um dos filósofos internacionalmente mais influentes da atualidade - "Nexus - Uma História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial".

Em Nexus, o autor começa por definir o que é informação, o seu papel em unir as pessoas, mas destrói a ingenuidade de quem acredita que quanto mais informação mais se está perto da verdade e de se tomar as decisões certas.

O livro prossegue com uma exposição histórica de como a informação aproveitou a utilização de novas técnicas para se desenvolver e expandir-se e assim foi moldando o evoluir da humanidade, evidencia o seu papel agregador e também o seu uso para controlar a sociedade e, com exemplos minuciosamente explicados, como esta suportou perseguições desumanas e catastróficas desde a antiguidade até ao século XXI, tal como permitiu salvar pessoas, pois não só serviu transmitir conhecimento científico e foi meio para fortalecer democracias que não sobreviveriam sem uma boa rede de comunicação, como também foi usada para alimentar preconceitos e para intensificar ditaduras que a usou para subjugar a população. Paralelamente, demonstra como a Inteligência Artificial (IA) é algo completamente diferente de todas as anterior tecnologias de suporte da informação, pela primeira vez esta pode ser controlada por não humanos e age sem a consciência e os sentimentos dos seres vivos, sendo ainda capaz de aprender, replicar-se e decidir por si só e com um elevado risco de fugir ao controlo da humanidade e da compreensão desta, algo capaz de nos manipular ou mesmo nos destruir.

Como habitualmente é referido nos livros de Harari, o futuro não é determinista, existem possibilidades várias de perspetivar o futuro de como irá a IA modelar a civilização global. Neste momento considera o autor que ainda pode estar na mão dos humanos evitar uma futura escravidão da humanidade a uma entidade não biológica e conseguir-se um equilíbrio que permita a IA ser útil e ficar ao serviço do Homo sapiens. Potencialidades são muitas, mas os riscos não são menos, conforme o ensaio explica muito bem. Uma obra que é um alerta para se evitar o domínio do algoritmo inteligente sobre a vida inteligente.

Sim, gostei muito do livro, mas como já conheço bem o autor - um filósofo ateu que acredita que a capacidade dos humanos se organizarem e comunicarem entre si foi a fonte do seu sucesso-, esta obra já não me surpreendeu tanto como em Homo Deus, mas como em todos os seus livros, este mostra que a humanidade volta a ter nas suas mãos um novo meio para se autodestruir e erradicar o sucesso da espécie e agora até para se escravizar pela primeira vez a uma entidade não orgânica. 

Pessoalmente, vendo o comportamento atual de alguns proprietários de grandes empresas mundiais de novas tecnologias, eu não ando numa fase otimista.... mas recomendo a leitura e depois reflita sobre as possibilidades e riscos que nos traz a IA.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

"HOMO SOLIDARICUS Derrubando o mito do ser humano egoísta" de Wegard Harsvik e Ingvar Skjerve


 Citação

"o homem não é escravo dos genes e da biologia é o que permite o Homo solidaricus"

Terminei a leitura do ebook "HOMO SOLIDARICUS  Derrubando o mito do ser humano egoísta" dos políticos trabalhistas noruegueses Wegard Harsvik e Ingvar Skjerve, uma obra que junta a forma de ensaio à de um manifesto político das ideias dos autores com base no modelo de sociedade da Noruega e na crença de que o ser humano não está refém dos seus genes para ter de ser um lutador egoísta pela sua sobrevivência e ascensão social, o que é, metaforicamente, designado como Homo economicus, mas que este pode ser também fruto de uma cultura e tornar-se num espírito cooperante para criar uma sociedade melhor e constituída pelo Homo solidaricus. 

Os autores estão ideologicamente enquadrados nas ideias socialistas e são declarados adversários do liberalismo, acreditam na bondade da generalidade das pessoas e que estas estão disponíveis para o bem ao próximo, para prosseguir com a denúncia de ideias perniciosas associadas ao liberalismo e à crença na meritocracia que, segundo os mesmos, seguem filosofias radicadas no egoísmo, refere personalidades que propagam estas ideias, centrando-se na obra de Ayn Rand, que conduz a uma competição desenfreada do capitalismo tipificada no Homo economicus.

Depois expõe um conjunto de experiências no âmbito das ciências sociais e naturais, envolvendo não só sociedades humanas, mas também de primatas e outros animais, para evidenciar que a cooperação também é um mecanismo radicado na natureza favorável à sobrevivência das espécies, sendo que os cidadãos podem ser educados no sentido do benefícios da solidariedade desde que esta seja modelada por princípio de justiça de forma a transformar o homem num fruto da biologia e da cultura do tipo Homo solidaricus, onde o caso mais avançado neste sentido é a sociedade norueguesa e escandinava. 

Mesmo subscrevendo muito dos princípios e valores enunciados na obra, não deixo de sentir que se está perante um manifesto ideológico, onde as ideias fora do âmbito dos autores são todas consideradas nefastas e a crença da quase perfeição nas suas. Infelizmente, ensinou-me a vida que nas ciências sociais muitas vezes os estudos são moldados pelos preconceitos dos investigadores, pelo que a seleção das experiências apresentadas são todas no sentido da defender as ideias do autores do livro e tudo o que não está conforme com estas, sente-se que estes consideram como sendo análises e conclusões falsas e artificialmente afetados pelos preconceitos dos outros que pensam diferente que à partida não merecem qualquer credibilidade. 

Apesar da ressalva de ser um manifesto tendencioso, gostei muito do livro, bom para a reflexão sobre sombra que ameaçam o mundo atual e concordo com muitos aspetos, cita intensamente um autor que me tem marcado nos últimos anos e cujas obras em ebook já aqui apresentei: Yuval Noah Harari. Novamente a seleção é limitada aos pontos que vão no sentido dos autores deste manifesto.

Este ebook é uma tradução do Brasil, mas que recomendo a todos os que gostam de refletir ideias políticas, embora, presentemente, muitos se alheiem deste campo de reflexão, deixando espaço aberto à ocupação desse vazio de amadurecimento do pensamento para preenchimento por populistas oportunistas que podem comprometer o futuro.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

"Grand Hotel Europa" de Ilja Leonard Pfeijffer


 Excertos

"O que a Europa tem a oferecer ao mundo é o seu passado. À medida que o velho continente perde influência, a todos os níveis, no palco mundial talvez tenhamos pouca escolha além de vender o nosso passado."

"era um lugar fantástico. Raramente tínhamos visto tanta pobreza autêntica num país muçulmano."

"o turismo destrói precisamente aquilo que o atrai."

Há poucos romances cuja leitura me marcou o suficiente para mudar significativamente o meu pensar ou o modo como vejo o mundo à minha volta: "Grand Hotel Europa", do neerlandês Ilja Leonard Pfeijffer, fica neste restrito conjunto de obras e moldou o que penso ser a Europa de hoje, a perceber melhor o seu declínio e o papel que cabe ao turismo no disfarçar do declínio do Velho Continente.

Grand Hotel Europa tem como protagonista o próprio Ilja Leonard Pfeijffer, o seu alter-ego relata o fim da sua relação com uma italiana genovesa de famílias tradicionais e especializada em arte antiga, nomeadamente Caravaggio de quem procura o que seria o seu último quadro desaparecido e que permite um périplo por vários locais no livro. Ilja Pfeijffer narra ainda os contactos com outras pessoas do hotel para onde se mudou para escrever as memórias sua anterior paixão e onde encontra personagens tão diversas como uma poeta feminista, um polaco filósofo e conhecedor do passado e presente do velho continente, um grego petulante, um mordomo cheio de recordações do passado glorioso do estabelecimento que acolhia a aristocracia europeia e o porteiro refugiado do norte de África cheio de aventuras e que absorveu a Odisseia de Homero. Em paralelo, o escritor narra a sua intervenção num grupo de cultura subsídio dependente da União Europeia num trabalho sobre o turismo e que pretende ser uma obra de arte sobre o turista típico. Ilja conta ainda no que se transformou Veneza que se afunda devido ao turismo, local de um emprego da sua anterior companheira e ainda relata sobre outras cidades que colocam a nu o que é a Europa de hoje e os efeitos do turismo e os diferentes tipos de turistas.

O romance não é assim apenas uma obra de ficção, é também um ensaio socioeconómico sobre a atual Europa, a sua história e a força do seu passado pujante. Não conheço livro que melhor descreva o que é este Continente hoje (a obra anterior à guerra da Ucrânia) e, em simultâneo, é um manifesto sobre o que o turismo em massa está a fazer à Europa e o reconhecimento da inexistência de alternativas para este extenso museu visitável por todas as economias que se estão a sobrepor a ele. O livro contém histórias que são metáforas do triste destino desta que foi uma recente potência de âmbito planetário.

Uma escrita cáustica, sarcástica, por vezes irónica, noutras hilariante e também com passagens chocantes e deprimentes e com momentos íntimos da sua relação recém-terminada para apimentar a narrativa. Não considero uma obra-prima literária, é típico romance pós-moderno que mistura a factos com ficção para fazer um retrato da atualidade, que não é bonita e lê-se com facilidade, prazer, por vezes com algum suspense e, sobretudo, levanta pistas para a reflexão com passagens muito fortes.

Recomendo a qualquer leitor, em especial a todos colecionadores de múltiplas viagens de férias. Gostei muitíssimo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

"SAPIENS - História Breve da Humanidade" de Yuval Noah Harari

 

Acabei de ler, em E-book, o ensaio "Sapiens História Breve da Humanidade" do israelita Yuval Noah Harari. A obra tenta mostrar como a nossa espécie, saída da evolução biológica e, como tal, refém da física e da biologia, evoluiu através das revoluções cognitiva, agrícola e, recentemente, científica e tecnológica, se libertou de muitas amarras da natureza e está em vias de ser criadora de um novo Sapiens e, por isso, o deus criador de um novo "Homem". Daí o subtítulo "Sapiens de Animais a Deuses".

Escrito de uma forma vibrante, cada capítulo narra uma parte marcante da história da humanidade onde o homem dá um salto e se torna mais distinto das outras espécies animais, construindo mundos diferentes que levantam novos desafios físicos e questões éticas e morais, mas que, à primeira vista, parecem benéficos para a espécie, mas Harari duvida do seu contributo para um homem mais feliz.

A questão da felicidade e a vontade de vencer a morte é recorrente na obra. O autor questiona se com esta evolução não estamos a ficar cada vez mais escravos e menos felizes, havendo ainda o risco de o Homo sapiens, na sua busca de felicidade e vitória da morte, estar prestes a construir um outro Homem que, apesar dos sonhos que temos, pode resultar num monstro destruidor da própria humanidade.

A ideia lançada neste livro do Homem criador de um novo homem e, por isso, num papel de deus, levou a um outro ensaio posterior que foi o primeiro ebook que li do autor: "Homo Deus", que perspetiva o futuro, e, tal como neste, são obras que assumidamente negam o deus sobrenatural e redefinem o conceito de religião como qualquer ideologia ou crença que defenda absolutamente as suas verdades independentemente de acreditar no transcendental. Este aspeto é muito bem justificado por Yuval Noah Harari, o autor que mais tem contribuído para o meu caminhar para o agnosticismo, por isso a obra pode chocar crentes em ideologias ou religiões.

Muito fácil de ler e acessível a qualquer leitor que goste deste tipo de temas ou se questione sobre a humanidade.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Focos de Tensão" de George Friedman


"Focos de Tensão" de George Friedman, filho de uma família judaica do leste da Europa refugiada nos Estados Unidos, é um ensaio onde o autor, académico, procura evidenciar que a paz na Europa não é um facto definitivo, existindo muitos aspetos em que este continente possui tensões que podem fugir ao controlo dos seus dirigentes, nomeadamente: nacionalismos (o caso da Catalunha nem é lembrado), interesses económicos, receios, crenças e particularidades que são explosivas e cujo um incidente pode levar a guerras.
Assim, após se compreender os caminhos que levaram a Europa a dominar o mundo cultural, política, económica e militarmente, Portugal não é esquecido, este continente, pela sua filosofia e tensões internas, em 3 décadas no século XX tornou-se marginal e desinteressante para as várias potências do século XXI, um mero rico fraco, incapaz de se defender de ameaças de guerra ou de se impor para salvaguardar os seus interesses: um cadinho cujos equilíbrios em que assenta a sua paz, inclusive na União europeia, a qualquer momento pode entrar em rotura. Um ensaio que é uma lição de história e um aviso aos europeus. Li-o em formato ebook, mas existe também a versão em livro de papel.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"História do Mundo" de Andrew Marr



Eis um livro fora do campo da ficção, área que tem prevalecido neste blogue. "História do Mundo" de Andrew Marr é uma exposição da evolução da humanidade.
Começa com aquela Eva (não a bíblica, embora também aqui se especule) que acompanhou a primeira migração da humanidade para fora do berço africano que levou à expansão da espécie com os genes daquela mãe por todos os continentes da Terra.
Prossegue com o surgir da agricultura, das primeiras cidades como sociedades  organizadas e o surgir de civilizações em todos os cantos do planeta, descreve muitas suas características marcantes.
A seguir entra-se mais num rol de líderes de povos que foram desde heróis humanitários até agentes de terror, mas que moldaram o mundo global atual e termina com pormenores menos conhecidos do próprio século XX e volta a especular a partir de tendências de hoje em dia.
Não é um livro só com uma visão ocidentalista da história global. Nós somos frutos da miscigenação das culturas asiática, médio oriente e mediterrâneo, como Chinesa, Mongol, Indiana, Egípcia, Judia, Fenícia, Grega, Romana, Portuguesa, Espanhola Inglesa e Holandesa, etc. que deixaram marcas muito fortes à escala planetária, mas também somos resultado de civilizações quase esquecidas:  Etíope, Mali, Inca, Azteca e até de Aborígenes.
Houve guerreiros heróis pelas suas vitórias que espalharam o terror como Gengis Khan, Ivan o Terrível e derrotados que estiveram mais próximo de vencer do que de perder: Napoleão ou Hítler, mas é deste resultado final que se fala, mas também há heróis que venceram pela paz como Ghandi
Houve revoluções que para semear a justiça que cultivaram a injustiça e povos que se fecharam ao mundo e depois se abriram como o Japão que influencia o presente à escala global.
Houve gente que lutou pela igualdade e outros que apostaram na escravatura, mas que deu melhores condições que alguns que usaram pessoas livres na revolução industrial e neste confronto houve nações que o mundo ostracizou como o Haiti e outras que foram espoliadas de todo.
Há líderes megalómanos por orgulho e por amor, pessoas de onde brotaram religiões que ora libertam, ora escravizam e por vezes semeiam o amor, noutros o ódio.
O livro é uma história do mundo cheia de pessoas, informações, curiosidades, acidentes e incidentes que moldaram a Humanidade para quem gosta de saber como chegámos até ao presente não se limitando a uma visão ocidental.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O Meteorologista" de Olivier Rolin


O livro "O Meteorologista" do escritor francês contemporâneo, Olivier Rolin, apesar de possuir na capa o termo: "ficção"; não é, nem uma biografia de uma personagem histórica ficcionada, nem um relato de um acontecimento real exposto em forma de romance, mas sim, uma espécie de relatório com a exposição da vida de um cientista russo, Alexei Vangenheim (ou Wangenheim), que liderou a investigação meteorológica na URSS entre as duas grande guerras, foi um comunista convicto e uma vítima do genocídio do período estalinista, sem se saber exatamente a verdadeira causa da sua condenação e que curiosamente enquanto preso desenhou um conjunto de quadros didáticos que remeteu à sua pequena filha os quais estão anexos ao livro que por si só merecem uma observação atenta.
A obra baseada em investigação do autor e de terceiros, encontra-se intercalada com reflexões do escritor, interpretações hipotéticas sobre o seu período de deportado, considerações sobre a época e uma análise final sobre o sonho que foi a revolução russa e a desumanidade que esta trouxe através do terror que destruiu o próprio objetivo. do comunismo soviético. O texto, embora sem deixar de ser o de um relato, está trabalhado literariamente e cuidado, havendo numerosas metáforas, referências a ideias lançadas por romances clássicos e questões filosóficas e excertos das cartas do Meteorologista e de documentos oficiais do seu processo ou que o enquadram na época. Apesar de tudo e da crueldade do acontecimento lê-se com um prazer e com grande facilidade, compreendendo-se porque Rolin é um dos escritores e romancista da atualidade francesa já com diversos prémios pela qualidade das suas obras.
Curiosamente, em investigação na internet, eu descobri que Rolin ideologicamente é ele mesmo um comunista maoista... outro campo sobre o qual seguramente há muito a investigar para se compreender como também a revolução cultural contribuiu para a destruição do mesmo sonho ideolgógico. 
Mesmo sem ser um romance, gostei muito de ler este livro que me deu o mesmo prazer como se fosse uma obra de ficção e as análises políticas e sociais que são feitas sobre o comunismo, o estalinismo e o Meteorologista não são feitas de uma forma ideológica para atacar o que está na base desta ideologia. Recomendo a qualquer leitor que goste de boas leituras e fáceis, independentemente de serem ou não ficção.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

"Húmus" de Raul Brandão


"Húmus" de Raul Brandão é por muitos considerado como um dos livros mais marcantes e importantes da história da literatura de Portugal. Todavia é uma obra cujo género literário é quase impossível de caracterizar: não é uma obra de ficção, mas parte de um enquadramento e personagens ficcionadas; não é um ensaio filosófico, mas expõe uma sequência de reflexões que são encadeadas filosoficamente e seguindo uma via existencialista; o texto não é poesia, mas é trabalhado como se fosse um poema, embora também não encaixe bem no estilo de poesia em prosa ou de prosa poética; e sem dúvida mostra a genialidade do escritor em saber escrever e tratar a língua Portuguesa na escrita, senti inclusive uma proximidade à forma como Pessoa trabalha as palavras no "Livro do Desassossego".
A partir da descrição de uma pequena vila do interior, triste, insignificante e pacata, bem como do dia-a-dia dos seus habitantes mais idosos que já sentem o ocaso da vida, tristes, amargurados e sem perspetivas mas com passado; o protagonista, que por vezes discute consigo mesmo na figura de Gabiru, sente que a vida foi um engano ao concluir pela inexistência de Deus ou que este não está disponível para o Homem e deduz que foi pela força da morte que se moldaram as opções de vida.
Começa então uma sequência de raciocínios lógicos, amargos e existencialistas que evidenciam como as personagens da vila viveram reféns de regras para salvarem a sua alma e evitarem a morte na eternidade, chegando à velhice frustradas, rancorosas uma forma vã para conquistar a salvação de um Deus que provavelmente não existe ou não vê, nem ouve os gritos de sofrimento da Humanidade para lhe agradar: entre elas a mulher que acolhe a órfã para cumprir o seu dever, educa-a no seu lugar e esta engravida do seu filho; a outra, criada de esfrega com uma filha, que se une aos ladrões e na sua infelicidade cria um mundo fantasioso sobre a situação da sua filha; a moribunda que não quer morrer; até à descrição da inveja e fel que se instala entre os velhos cujo passatempo são as cartas e e se subjugaram a regras hipócritas para se socializarem mas que não vale a pena respeitar sem um Deus que compense esse sacrifício. A influência de Dostoievski torna-se evidente com a mesma conclusão deste: Sem Deus não precisamos de nos limitar nas nossas ações e não há limite para o mal que desejamos fazer.
Após duzentas páginas de revolta, eis que o livro dá uma grande volta e cheio de luz prateada perante uma reviravolta nas conclusões de Gabiru e o húmus que une a morte à vida na sequência do desaparecimento da sua esposa. Uma obra que em termos de escrita é uma jóia, mas muito difícil de se ler e só recomendo a quem gosta desta luta contínua de reflexões e revolta em estilo de ensaio filosófico, mas valeu a pena ler.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

"A Alma dos Ricos" de Agustina Bessa-Luís


"A Alma dos Ricos" de Agustina Bessa-Luís é o segundo livro da trilogia "O Princípio da Incerteza", apesar de ser a primeira obra desta série que eu leio, esta constitui por si só um romance completo e por isso não carece da leitura do anterior para o degustar com prazer.
O romance narra a vida de Alfreda através de várias personagens que viveram próximas dela. A protagonista, filha de uma família rica e tradicional do norte de Portugal, mistura a importância da herança aristocrática com a riqueza burguesa. Uma mulher original que não se comporta como as outras de igual estatuto social, alguém que se descobre estéril, que faz um casamento de conveniência que assume o seu papel de esposa, para quem o sexo não é uma força que a move, mas tem a ambição de ser visitada pela Virgem Maria, pois sente-se mais habilitada para a receber condignamente do que os habituais videntes a quem lhe quer fazer uma perguntas...
Alfreda discute com um mestre de história hebraica e um padre o estatuto social da família de Maria, - cujos indícios a partir de apócrifos e de líderes históricos cabalistas contemporâneos Dela apontariam ter um estatuto social, económico e cultural elevado no tempo de Herodes e haver os sinais que tal origem se refletiria no modo de agir de Jesus. Apesar de se questionarem assuntos da vida das personagens centrais do catolicismo e de por vezes estes serem abordados de uma forma totalmente humana e parecerem roçar heresias na doutrina religiosa, não é uma obra que fira a moral ou o catecismo dos crentes.
Estas dissertações ensaístas no romance não impedem que Agustina faça também uma caracterização da vida social das famílias dominantes de entre Doutro e Minho e as mudanças nestas ao longo do século XX, sobretudo após a revolução de Abril, com uma denúncia dos vícios públicos e privados dos diferentes estratos que coabitam esta região do País. É uma obra que mostra de facto a "alma do norte".
Gostei muito, embora o texto seja de fácil leitura, a densidade de informação, o lento desenrolar da história, o tom introspetivo e a profundidade de alguns temas tornam o romance mais destinado a apreciadores de ensaios e ficção profunda do que a apreciadores de literatura ligeira como um mero passatempo.

domingo, 12 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume II


O volume II de "O homem sem qualidades" apesar de publicado três anos depois, vem em perfeita continuidade do primeiro, tendo como principal particularidade a introdução da irmã de Ulrich, fisicamente muito semelhante a este, que funciona como um avatar do protagonista para desempenhar o comportamento contrário dele. Embora esta levante as mesmas questões filosóficas ao irmão com a profundidade característica da obra e não pareça discordar dele, na prática, a imperfeição dos seus impulsos não a impede de agir contra a moral e valores defendidos de modo consciente.
Assim, se no primeiro volume as discussões e os problemas de moral bloqueiam o agir e as decisões, no segundo, apesar de se analisar os temas como as questões de moral, as preocupações do espírito e da alma de um povo como num ensaio, mesmo perante as contradições no mundo sobre as ideias e as múltiplas culturas do império Austro-Húngaro, agora, num clima de exaltação, tomam-se posições e a palavra de ordem é: ação.
Neste confronto irmão-irmã que se completam, sente-se que se vai desenvolvendo um sentimento fortíssimo que roça a paixão ou mesmo o amor, oculto à sociedade, pois tal seguramente vai contra todos os seus princípios e mesmo dos seus intervenientes, ficando em aberto para o volume seguinte a tentativa de resolução das consequências das decisões e ações tomadas no fim desta parte do livro.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume I



"O homem sem qualidades" de Robert Musil é um extenso romance de ficção cujo primeiro volume foi publicado em 1930 e reflete sobre as contradições do império austro-húngaro e da aristocracia em Viena que vive em torno do protagonista Ulrich e de um evento para assinalar de forma única os 70 anos de reinado do imperador Francisco José e deste modo marcar a importância do país no mundo e, a apesar do peso da cultura germânica, a sua distinção do ser alemão da Prússia.
A obra tem a particularidade de, com a guerra a insinuar-se, os personagens alheios à ameaça mergulharem em debates filosóficos sobre o bem, o mal, a diferença de alma e espírito no indivíduo e na sociedade, a importância das ideias e o papel da cultura e da moral, bem como a evolução destes aspetos no tempo até à época dos acontecimentos. Nesta dissertação o romance faz uma ponte entre a pura ficção e o ensaio, onde se destaca Ulrich,  o homem sem qualidades devido à profundidade com que aborda as temáticas e busca da perfeição e exatidão que lhe impede a ação, à semelhança do que acontece ao nível das decisões no seio da organização das celebrações, o que permite fechar um ciclo de pensamento neste volume.
Pela profundidade filosófica, ideias abstratas e personagens contraditórios, o romance evolui lentamente e com uma grande densidade de conceitos e pensamentos históricos, que, apesar de magnificamente escrito, dificultam a apreensão de todas as questões e justifica o facto de ser uma obra de culto erudito.