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domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Regresso de Sherlock Holmes" Arthur Conan Doyle


Enquanto não me chegam o segundo e o terceiro romances da trilogia "O Passado do Planeta Terra" começada com "O Problema dos três Corpos", que encomendei no início da leitura deste, mas cujos correios demoram já três semanas para me os entregar, optei pelos contos policiais do britânico Conan Doyle com "O Regresso de Sherlock Holmes" que  já lera parcialmente neste título, onde constam 7 histórias das do conjunto de 13 deste livro, sendo este está em conformidade com as primeiras edições inglesas em livro destas histórias que começaram por ser publicadas avulso na revista Strand Magazine.
Reli alguns dos contos nesta diferente tradução, que gostei muito mais, e verifiquei que pouco retivera em memória dos mesmos, apesar de na releitura e já perto do meio destas começava a recordar e a antever o desenlace, embora me lembrasse de como o escritor imaginou a sobrevivência de Sherlock que foi dado como morto no conto "O Problema final" que consta deste livro que é anterior ao da coletânea que agora li.
Tal como nos anteriores contos, Sherlock brilha pela sua sagacidade em observar e interpretar pormenores em torno dos casos que investiga, embora, por vezes, sujam aspetos que não estão acessíveis ao leitor para acompanhar o raciocínio do detetive que acompanha mistérios, quase sempre criminais, envolvendo famílias aristocráticas e com técnicas muito distantes dos métodos científicos atuais.
Como todos os livros com contos ou romances, são de leitura muito acessível, por vezes com esquemas e desenhos, e são de excelente entretenimento. 

sábado, 1 de novembro de 2025

"Sensibilidade e Bom Senso" de Jane Austen

 

Acabei de ler "Sensibilidade e Bom Senso" da escritora inglesa do início do século XIX Jane Austen, apesar de se situar entre os escritores mais importantes daquele século, esta foi a minha obra de estreia na autora.

Eliane e Marianne são duas irmãs de comportamento distinto, a primeira racional ou sensata e a segunda romântica ou sensível, vivem com os pais, só que por morte do progenitor a casa e o dinheiro passam a pertencer maioritariamente ao meio irmão mais velho como primogénito. Este encontra-se casado com uma mulher ciosa da herança do sogro, o que leva a madrasta e suas filhas a terem de partir para outro condado para uma casa mais em conta e a uma gestão apertada dos rendimentos. Eliane tem uma paixão mal disfarçada pelo cunhado do irmão que também não assume o seu amor por ela, mas ambos mantêm o relacionamento num estado de letargia escondido dos olhos sociais. Marianne conhece Edward por quem se apaixona perdidamente e este também exibe a sua paixão, ambos de forma descuidada, enquanto outro vizinho mais velho nutre um amor por esta de forma discreta. Entre gestão de interesses de riquezas por casamento, traições, confusões e gestão racional ou irracional de paixões, a situação complica-se, sobretudo para Marianne, enquanto Eliane traz o bom-senso e cuida da irmã, mas quando tudo parece perdido a razão mostra-se superior para um inesperado final da obra.

A obra faz um retrato da época e da vida dos estratos sociais médio-alto a alto, em que a racionalismo e o romantismo estão em confronto, quando as mulheres estão fortemente dependentes dos maridos, numa classe onde os casamentos eram frequentemente por interesse e o amor pouco contava na família para este tipo de união.

Uma escrita lúcida, elegante, mais descritiva do que criativa e fortemente temperada pelo ângulo feminino, numa época em que ser mulher e escritora era praticamente impossível e só concretizada por alguém que pela sua qualidade narrativa e tato conseguiu se impor no panorama cultural, pela sua genialidade de retratar tensões de conveniência social, sensibilidade e de moralidade, bem como a arte de sobrevivência em sociedade. Gostei, apesar de ser uma obra datada, centrada no feminino e apenas nos estratos sociais mais altos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

"Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle

 

Acabei de ler o livro "Aventuras de Sherlock Holmes" da editora Leya, que possui uma seleção de sete contos com este detetive e escritos por Arthur Conan Doyle.

Neste caso, confesso, que o título induziu-me em erro, pois pretendia comprar as histórias curtas mais antigas  com este detetive, pois estas foram sendo publicadas avulso na revista "The Strand Magazine" e depois reunidas, cronologicamente, em conjuntos de livros, onde os primeiros ficaram numa coletânea com o título "The Adventures of Sherlock Holmes". Apesar da semelhança no título, este livro seleciona 7 dos 13 contos do terceiro volume que possui o título original "The Return of Sherlock Holmes" que possuo com o nome de "O retorno de Sherlock Holmes", que ainda não li, duma diferente editora e tradução distinta.

Apesar desta confusão, os sete contos são todos eles cativantes, sendo que neste se encontra "A aventura da casa vazia", onde se narra como Sherlock Holmes sobreviveu ao conto anterior "O Problema Final" no qua se deduzia da morte do detetive e fechava a coletânea com o nome "As memórias de Sherlock" Holmes" que consta do livro aqui falado no neste blogue.

Histórias fáceis de ler, bem construídas, com mistérios e crimes desvendados pela argúcia do poder de observação de Sherlock Holmes", faltam-me ler agora os restantes contos contidos em "O retorno de Sherlock Holmes".

quarta-feira, 16 de julho de 2025

"As memórias de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle

 

Pela primeira vez li contos protagonizados por este famoso detetive da literatura policial e escritos pelo profícuo autor inglês: Arthur Conan Doyle, apesar de as narrativas curtas serem independentes, existem, por vezes, referências a histórias publicadas anteriormente, pelo que, em parte a narrativa é sequencial, mas um erro meu no momento da compra, levou-me a adquirir inicialmente o segundo livro destas histórias, precisamente "As memórias de Sherlock Holmes".

Neste volume são narradas 11 aventuras pelo seu permanente companheiro de investigação, o médico Watson, dimensões semelhantes e na ordem e duas a três dezenas de páginas cada. Todas são como memórias, não do protagonista, mas do doutor que o acompanhou, algumas são charadas, outras crimes e a última um confronto épico de inteligência com o seu inimigo figadal: o Professor Moriarty por Sherlock lhe destruir a sua quadrilha de malfeitores.

São contos muito fáceis de ler e de puro entretenimento, mas muito diferentes do estilo de Agatha Christie de quem tanto tenho lido, nesta autora é, sobretudo, a análise psicológica que leva à descoberta do criminoso, em Conan Doyle, são pistas físicas que cuja análise e interpretação conduzem à descoberta, mas onde os conhecimentos do detetive vão mais longe que os dados postos na narrativa e dificilmente o leitor se sente na posse de tudo. Sendo histórias da transição do século XIX para XX, muitas das tradicionais pesquisas forenses dos policiais mais recentes estão ausentes aqui, não se fala de impressões digitais, ADN, tipos e pesquisas de sangue oculto, etc.

Gostei e penso explorar mais este personagem que de facto só mais recentemente comecei a ler e recomendo a qualquer leitor que goste do género policial.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

"O Apóstolo" de Hall Caine

 

Citação

"Os estadistas conhecem muito bem a crueldade clerical que se esconde por detrás de leis seculares."

Acabei de ler "O Apóstolo", livro publicado em 1897 e escrito pelo inglês do final do século XIX: Hall Caine, um autor profícuo, mas pouco reconhecido pelo seu valor literário, mas com grande sucesso à época. Adquiri esta obra por apresentar temas como a sexualidade, a liberdade e o estatuto da mulher face à religião (neste caso anglicana) e discutir preconceitos e a acomodação desta face aos vícios sociais e às elites para se preservar e manter o seu estatuto no sistema instalado da promiscuidade entre Igreja e Estado.

John Storm e Glory Quayle são dois jovens da ilha de Mann, onde se conheceram e secretamente desenvolveram um grande amor entre si não assumido publicamente. Ambos partem para Londres, ele com grandes sonhos de se tornar um clérigo e purgar a sociedade dos seus vícios, sobretudo, o tratamento discriminatório dado às mulheres  e o uso das mais humildes pelos homens de maior estatuto social, trazendo para os seus sermões as questões de castidade e a proteção dos mais pobres. Ela vem para se tornar enfermeira uma das poucas profissões dignas para mulheres naquela época, mas sonha ser uma atriz e cantora e sente-se atraídas pelas regalias, a adulação do público e o dinheiro. Na capital encontra espaço para a concretização destes anseios. Duas personagens intensamente apaixonadas e fortes na defesa das suas ideias que chocam entre si e com a sociedade quando um desmascara o farisaísmo da Igreja e das elites e a outra faz sucesso e se instala num mundo de luxo e vício.

O romance junta uma visão religiosa ultraconservadora nos costumes com opção por uma igreja pelos pobres e o conflito desta com um mundo laico, onde dinheiro, luxo e luxúria estruturam uma sociedade estratificada e onde o clero se instala comodamente. Todavia a trama não se limita a este confronto, sente-se alguns preconceitos que depois são em parte resolvidos, como a quase incompatibilidade entre ser-se atriz ou cantora profana e a dignidade cristã, uma valorização do sofrimento e martírio e também que este último aspeto é mais típico do catolicismo e assume a necessidade de reformular a ligação Igreja-Estado dado existirem personagens próximas que integram o Governo.

No texto são evidentes alguns problemas de tradução, ora parecem-me vocábulos inadequados ao século XIX, ora frases com erros gramaticais que pontualmente perturbam a leitura, contudo é um bom e grande romance. A narrativa talvez tenha algum sentimentalismo excessivo. Não sei se o não reconhecimento literário do autor se deve mais a preconceitos pelo modo como aborda assuntos religiosos e a denúncia desta moral decadente e injusta ou pela qualidade de escrita, mas a partir de "O Apóstolo" deduzo que o sucesso à época pode dever-se a escrever uma literatura fácil que se pode enquadrar num estilo de educação cristã com um pendor romântico num período de luta pelo laicismo.

Um drama acessível e novelesco que levanta várias questões morais que me impressionou, me fez pensar e gostei de ler.

sábado, 28 de outubro de 2023

"Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez

 

Citação

"o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão."

Apesar de ser um grande leitor, não sou dado a releituras, que me lembro "Cem Anos de Solidão", do colombiano e prémio Nobel da literatura Gabriel García Marquez, é o terceiro romance que releio, neste caso passados 35 anos de quando o li pela primeira vez e é talvez a obra emblemática deste escritor.

José Arcadio Buendía e sua esposa Úrsula com mais um conjunto de homens e mulheres partem da sua terra em busca do mar e perdem-se na floresta amazónica e criam a sua aldeia Macondo isolada do mundo e apenas visitada por artistas de circo que comunicam os seus saberes mágicos que José Arcadio se deixa aliciar e no qual investe os parcos rendimentos do casal. Começa então a história desta família marcada pela pobreza, magia, solidão e guerra que se estende por 7 gerações de amores, traições, incestos, loucuras, guerras, vitórias, derrotas, sucessos e superstições num mundo em que ocorrem invenções tecnológicas e revoluções políticas e económicas cujos ecos chegam e perturbam progressivamente Macondo e as relações humanas desta terra perdida na floresta entre a realidade, a magia e os espíritos dos mortos.

Numa narrativa que criou o estilo do realismo mágico, o autor encadeia um conjunto de acontecimentos e loucuras a ritmo alucinante onde se conta a vida das várias gerações de Buendías, marcados pela personalidade mais terrena e alquímica dos Arcádios ou mais guerreira e social dos Aurelianos, sempre sujeita à força das mulheres e amantes que a integram ou que com ele se cruzam. Assim, de uma forma indireta, se denunciam as injustiças sociais da América Latina, se fala das revoluções políticas de que o continente foi alvo e de cujos frutos nunca responderam às esperanças revolucionárias e onde a pobreza e superstição apenas permitem uma vida de um povo marcada pela solidão e superstição.

Um romance que é um clássico e uma obra incomparável pela sua originalidade e força, onde o leitor se perde entre gerações com nomes iguais, entre a realidade e a magia, entre a esperança e a desilusão e entre a busca do outro e a solidão. Uma obra que deve ser lida por todos os que amam a literatura ficcionada como arte que combina a narrativa, a criatividade e explora os limites da escrita, enquanto monta um retrato da realidade sem o fotografar. Um excelente livro

quinta-feira, 9 de março de 2023

"O Primo Basílio" de Eça de Queirós

 

Acabei de ler "O Primo Basílio" do grande escritor português do século XIX Eça de Queirós, de quem tenho toda a obra, de cuja edição tirei a foto da capa. Ao nível de ficção penso que me falta apenas ler o romance "A tragédia da rua das Flores", além de diversos contos dele.

Jorge, engenheiro de minas, casou-se há poucos anos com Luísa, vivem felizes e calmamente numa casa num bairro de Lisboa onde recebem vários amigos dele, à exceção da principal amiga dela, uma mulher divertida que tem uma vida de infidelidades conhecida. Num sarau falam de política, de cultura e um dramaturgo discute o final da sua peça sobre um adultério feminino e o papel do marido ao descobrir a traição. Pelo jornal Luísa sabe que o seu primo Basílio, com quem namorara antes, visitava a cidade e enriquecera no Brasil e Jorge tem de ir para o Alentejo em trabalho. O reencontro dos primos desperta a antiga paixão, estão criadas as condições para uma relação alvo dos olhares mexeriqueiros da vizinhança, a descoberta da traição pela sua criada torna-a alvo de chantagem e as tensões e incidentes levam à interrupção da relação e a uma vida infernal. Luísa, é auxiliada pelos amigos para uma solução condigna na volta de Jorge.

Um texto realista, cheio de pormenores descritivos do vestuário, mobiliário, ruas da capital, das características das personagens, onde também se faz a denúncia sarcástica dos defeitos da sociedade lisboeta no final do século XIX. Uma época onde os constrangimentos da mulher num meio machista são postos em cima da mesa e o retrato da vida social da capital, cheia de valores morais públicos e vícios privados que convivem com a hipocrisia e o mexerico que tecem um drama que se vai tornando cada vez mais intenso.

Um romance típico do realismo queirosiano que coloca a nu os defeitos da sociedade portuguesa, mesmo na sempre provinciana capital. Pode ser interpretado como uma lição de moral ou uma denúncia da dureza do machismo face ao papel atribuído à mulher. Fácil de ler num tratamento genial da língua portuguesa.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

"O Guarani" de José de Alencar

Citações

"Não se pode viver somente de ódio e desprezo"

"De que serviria a existência se não fosse para satisfazer um impulso da nossa alma?"

Acabei de ler um dos livros clássicos da literatura brasileira: "O Guarani" de José de Alencar, um romance histórico, escrito em meados do século XIX, cuja a trama se passa no início do século XVII quando Portugal perdera a independência e ficou sob a soberania espanhola, um período em que a fidalguia no Brasil oscilava entre a fidelidade ao antigo reino lusitano ou ao domínio filipino.

António de Mariz, insatisfeito com o domínio filipino, decide isolar-se para o interior da floresta da Serra dos Órgãos com a família e um conjunto de serviçais que defendem e se envolvem na gestão da sua fazenda. Esta situa-se numa zona selvagem com indígenas não convertidos, mas é o seu domínio fiel a Portugal. Num incidente, o índio Peri salva a sua filha Cecília e o fazendeiro agradecido acolhe-o, depois o salvador, por paixão, dedica-se de todo à moça para descontentamento da mãe desta e de sua meia-irmã. Paralelamente, noutro acidente, o ilho Diogo mata uma índia, o que leva a uma ação de ataque revanchista da sua tribo, enquanto um dos guardas de Mariz, ex-monge renegado por ambição de riqueza, também se apaixona por Cecília e decide criar uma revolta para raptar a donzela e levá-la para uma mina de prata que só ele sabe o segredo da localização. No nestes perigos e paixões é Peri, o herói gentio, quem, com o conhecimento de sobrevivência na floresta e dedicação total à jovem, tentará, in-extremis, salvar a família e a jovem lutando o preconceito de uns e o ódio de outros em momentos de grande suspense e surpresa.

Trata-se de uma narrativa tipicamente do século XIX com cariz nacionalista, mas que prenuncia a literatura romântica. As personagens tendem a ser boas de todo ou completamente más, podendo evoluir de um campo ao outro. José de Alencar descreve com grande pormenor, abuso de figuras de estilo e em tom poético a floresta atlântica, os costumes indígenas, a subserviência religiosa e os preconceitos da época e da evangelização. A obra, que li em e-book, tem um conjunto de notas que explicam numerosos aspetos históricos, florísticos, faunísticos e dos costumes dos povos descritos na trama, o que enriquece em muito o conteúdo do texto sem o tornar fastidioso.

A história dá para compreender o contexto de comportamentos, hoje tido por errados, dos colonos de então, vivendo numa sociedade dominada por uma religiosidade exacerbada a enfrentar culturas animistas e representantes de um reino à conquista e em missão de evangelização destes povos pagãos que viviam livres nos seus domínios há séculos, um choque cultural semeado de preconceitos que José de Alencar procura subtilmente denunciar enquanto eleva a dignidade do índio. Todavia o romance também é escrito numa época em que não a de hoje, a sociedade não era ainda tão laica, nem liberta de muitos desses preconceitos, além de regida por uma castidade aguerrida e dominada pelo masculino, sendo evidente o esforço de equilibrar e justificar a crítica perante a moral e ética aceite no século XIX, daí a riqueza cultural desta obra que a transforma num clássico e permite a reflexão sobre o passado. Fácil de ler, gostei e por isso a recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

"As mil e uma noites" Volume 2

 

Acabei de ler o segundo volume da tradução feita pela E-primatur da coletânea de contos que constituem a obra "As mil uma noites" e com a informação de se basear nos manuscritos mais antigos desta. Este conjunto é composto de 3 volume e já falara aqui do primeiro quando o lera.

O presente volume é a continuidade do anterior a partir da narrativa de Xerazade na 102.ª noite  como mulher de Xariar e vai até à 282.ª. Cada conto, por norma atravessa noites sucessivas, sendo interrompidos muitas vezes em momento de suspense com a confissão à irmã Dinarzade de que haverá muitas mais a contar se o príncipe lhe poupar a vida, uma estratégia de lhe alimentar a curiosidade e a poupar a sua morte como costumava fazer às suas mulheres após a noite de núpcias. Frequentemente, a mudança de de uma para outra história diferente faz-se também a meio da narrativa noturna para assim manter a suspenso com a nova e o interesse de Xariar.

Ao contrário do primeiro volume, neste poucos contos são curtos e raramente têm uma lição de moral no seu cerne, sendo comum a beleza dos jovens, o luxo das elites, a atração sexual como normalidade, os atributos físicos das mulheres dependentes de ricos que evitam o acesso ao exterior e o erotismo da narrativa que entra em choque com a ideia atual de um islamismo muito conservador e casto. Aqui o enlace no casal apaixonado, nem sempre com o laço matrimonial, é visto frequentemente como um prémio e sem a censura de moral religiosa, mas sempre sujeito à bondade do deus altíssimo e as referências ao Corão são muitas. Nem todos os contos são fantásticos, mas os mais extensos são dominados pela fantasia e personagens mágicas.

O texto que intercala narrativa em prosa com passagens complementares em verso, procura verbalizar a linguagem oral ao estilo antigo. Existem muitas notas sobre a escolha de determinados termos na tradução, explicações de vocabulário, de costumes da época e referências a correções e adoção de excertos de edições antigas de diferentes regiões geográficas do médio oriente de modo a tornar coerente o discurso e consistente o conto.

Fácil de ler, embora, por vezes, me cansei do excesso de pormenores de luxo, gastronomia rica, beleza e fantasia, mas isto resulta do estilo da obra original que procura entrar num mundo que vai muito além da realidade e procura ir ao encontro da imaginação de estratos sociais ricos, belos e cheios de luxo que estariam na base da felicidade e justiça na idade média no médio oriente no seio da cultura islâmica de então.

Pelos dados transmitidos até ao final deste volume, o terceiro completa histórias já narradas que têm outros desenvolvimentos e variantes noutras edições das Mil e Uma Noites e textos com informações gastronómicas e de costumes muito referidos nestes 2 volumes mas pouco desenvolvidos. Um tomo para completar a visão do conjunto que foi esta obra e das variantes que havia no passado, sendo que não há contos para além da 282.ª noite, muito longe do total de 1001 que se poderia depreender do título. 

Gostei, vale a pena ler para compreender como no início do segundo milénio os árabes eram bem diferentes daquilo que são hoje em termos de mentalidade.

sábado, 17 de julho de 2021

"Contos de Tchékhov - Volume III"

 

Acabei de ler o terceiro volume da coleção completa de Contos de Tchékhov publicados pela Relógio d'Água, este reúne 16 narrativas que oscilam entre perto de uma dezena a poucas dezenas de páginas, em todos eles o português dos tradutores é magnífico, permitindo uma qualidade de texto de elevada envergadura.

Todos contos passam-se longe das grandes cidades da Rússia, na sua quase totalidade situam-se em pleno meio rural isolado. Une-os ainda um descontentamento psicológico com a vida do protagonista ou do povo dessas aldeias vítima de injustiça, ignorância e arreigado a costumes que impedem o seu desenvolvimento. Nuns casos temos senhores burgueses ou nobres ricos que não sabem como ser solidários com os pobres e desejando ardentemente ser bons para com estes e por isso insatisfeitos consigo próprio; noutros, temos pobres que não sabem como sair desta realidade e se perdem no álcool ou noutros problemas; ainda há os infelizes acomodados com a sua situação sem arte para dela se libertarem, desperdiçando oportunidades; e também não falta gente no fim da vida desiludida com o modo como viveram, com medo da morte ou do julgamento do além. Na generalidade os retratos da sociedade e das personagens é triste, mas narrados com grande beleza de escrita e pormenores da vida quotidiana no Rússia do final do século XIX, construindo um excelente retrato de época.

Gostei muito do livro, apesar do tom melancólico e nostálgico os textos não são deprimentes e mostram porque Tchékhov é considerado um dos melhores contadores de histórias curtas da literatura mundial de todos os tempos, fico sempre com vontade de ler outro volume desta coleção.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Memorial do Convento" de José Saramago

Terminei a releitura de "Memorial do Convento" de José Saramago, o único premiado com o Nobel da literatura de expressão portuguesa e para muitos o romance emblemático da sua obra de ficção. Pouco releio livros, se gosto muito da escrita opto por rever excertos, pois a surpresa no desenrolar da trama conta também muito para o meu prazer de leitor, mas este lera-o há cerca de 33 anos atrás, aliás, foi a minha estreia neste autor que depois tornei-me seguidor pontual por mais de uma década. Decorrido este tempo todo, tirando o tema e personagens principais, já pouco me lembrava do seu conteúdo e foi quase uma primeira leitura ao nível de pormenores e das cenas que se vão desenrolando na história. O exemplar que possuo, quer a capa, quer a editora, já nem correspondem às da imagem, pois os direitos editoriais foram transferidos para outra casa distinta da que o escritor foi fiel em vida. Na verdade possuo centenas de livros que não folheio há muito tempo e penso ter chegado ao momento de os redescobrir e optei começar por este.

A história tem como centro a razão de se edificar e os trabalhos de construção do Convento de Mafra, todavia em Saramago nada é uma simples narrativa. O escritor, além de romancear um conjunto de personagens que existiram à época: como o rei D. João V e família, o inventor Bartolomeu de Gusmão, o compositor Scarlatti e diversos membros do clero e nobreza; foca a trama em Baltasar Sete-Sóis, maneta, e Blimunda Sete-Luas, vidente do interior das pessoas, que se encontram num ato da inquisição, juntam os seus trapos e se tornam num casal sem as regras legais e morais da época. Estes vivem as dificuldades do povo sem instrução e servem de defesa das relações naturais sem obediência a regras exteriores aos elementos apaixonados ou acostumados entre si e ainda de denúncia das injustiças face à opulência da realeza e clero a coberto da religião e a escassez e riscos dos pobres e pessoas livres pensadoras sob a ameaça da inquisição. Na primeira parte teremos Bartolomeu Gusmão a ser auxiliado pelo par na sua invenção aeronáutica quando a tecnologia era vista como uma arte demoníaca e onde o sonho e a vontade do Homem estão acima das limitações físicas da Natureza e da castração religiosa.

Na segunda da obra o mesmo par integra-se no grupo de trabalhadores explorados na construção do monumento edificado à custa da extração da riqueza das colónias do império para glória de Deus no agradecimento pelo Seu papel de satisfação dos anseios e caprichos dos ricos em detrimentos dos pobres por Ele amados.

A escrita da obra é tipicamente ao estilo único criado por Saramago, mas agora com o tempo verifico que ainda tinha sido levado à exaustão alcançada em obras posteriores. O sarcasmo pícaro sobre a justiça, a ética e a moral sexual atravessam todo o texto, numa crítica mordaz, por vezes a rondar a brejeirice e irónica, e frequentemente alavancada em ditos populares. A denúncia dos defeitos e vícios do clero e realeza, a coberto de uma teologia interesseira destas partes, não é minimamente travada neste romance.

É sem dúvida um grande romance, um clássico da literatura mundial, nem sempre fácil de ler devido à forma narrativa e a uma forma única de realismo mágico exclusiva de Saramago, mas cheio de informações históricas e vale bem a pena o esforço, na releitura não sofri o choque da primeira vez em que me estreei no autor, mas mesmo assim continuo a gostar muito deste romance e foi o que mais me marcou à partida, mesmo que hoje prefira outros do escritor.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"TRAGÉDIAS I" Eurípides

 


Iniciei o novo ano estreando-me num género literário e período histórico totalmente diferente do habitual: teatro grego da época clássica. "Tragédias I", do poeta dramático Eurípides do século V antes de Cristo, é o primeiro volume de um conjunto de três que reúnem as tragédias escritas por este autor que chegaram até hoje. Livros editados pela "Imprensa Nacional Casa da Moeda", encontrando-se o segundo esgotado enquanto o terceiro comprei antes que deixasse de estar disponível.
O presente livro contém quatro peças, uma sátira: Ciclope; e três tragédias: Alceste, Medeia e Heráclidas. A primeira corresponde a um episódio baseado na Odisseia, a aventura de Ulisses quando se vem abastecer em terra com a sua tripulação do regresso da Guerra de Troia e se encontra na gruta do gigante de um só olho e antropófago, o ciclope Polifemo, que imediatamente procura utilizar estes homens nos seus futuros repastos, mas a astúcia de Ulisses com o uso do vinho e aliciando os sátiros que serviam o ciclope lá se conseguirá libertar da situação. Uma peça cheia de humor com uma linguagem por vezes brejeira e fácil.
As restantes 3 peças são de uma profundidade e grande e todas elas envolvem lições de moral.
Em Alceste, Admeto, o rei de Feras, está condenado a morrer doente pelos deuses da morte, exceto se alguém der a sua vida por ele, ninguém assume tal ato, nem os seus pais idosos, então em segredo a sua mulher e mãe dos seus filhos, Alceste, assume o sacrifício com todas as tensões e análises morais que tal ato heroico e comportamento das personagens implica. Hércules conhecendo a situação irá procurar resgatar a heroína do mundo dos mortos e devolvê-la ao marido com toda a abordagem pós clímax. 
Medeia é uma história de infidelidade e vingança. Uma filha de rei que fugiu da sua casa real, que se opunha ao seu objetivo de se casar com grego Jasão, provocando ainda a morte do irmão. Jasão mais tarde decide abandoná-la com os filhos para se casar com a filha do rei da sua nova cidade Atenas. Apesar da condenação dos personagens pelo ato do marido, o rei ainda expulsa Medeia da cidade por questões de segurança. Só que a vingança de Medeia levará ao homicídio dos seus próprios filhos e da princesa, para não haver redenção em Jasão. Uma peça que analisa as questões morais do comportamento das personagens envolvidas e com um elogio belíssimo sobre os valores morais e de justiça defendidos por Atenas. 
Heráclidas, o nome dado aos filhos de Hércules, é uma peça com um teor moral mais fluído. Após a morte do herói Hércules por perseguições do rei Eristeu, este decide perseguir os próprios filhos daquele que se abrigaram no estrangeiro à sombra de um templo a Zeus na cidade de Maratona. Defendendo o princípio de hospitalidade o rei anfitrião, mesmo perante a ameaça de invasão resiste, mas é abalado quando os oráculos vaticinam a derrota de Maratona se não houver o sacrifício de uma jovem nobre, algo que Demofonte não está em condições de implementar no seu reino democrático. Eis que Macária, uma das filhas de Hércules, assume o sacrifício pela sua família e cidade de acolhimento, o que levará à derrota do inimigo e à entrega de Eristeu à velha mãe de Hércules, mas apesar das regras de clemência de Maratona este o modelo não é respeitado pela anciã Alcmena.
Nenhuma peças é extensa, necessitando de poucas horas de leitura, contudo o livro está cheio de anotações de peritos na arte clássica e existe para cada uma destas obras uma introdução de contexto que muito enriquece a respetiva compreensão e nos dão informações sobre a representação, o mundo helénico à época de Eurípides e o seu papel na abordagem das grandes questões morais, filosóficas, sociais e políticas de então que o levaram a tornar num dos três maiores trágicos clássicos.
Gostei muito, valeu a pena e o terceiro volume em breve deverá merecer a minha atenção. Foi um grande prazer apreciar estas obras com deuses e seres mitológicos perante grandes questões morais e sociais encenadas para o teatro há cerca de 2500 anos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"Oliver Twist" de Charles Dickens

 

Acabei de ler um dos livros mais conhecidos do escritor inglês do século XIX Charles Dickens, o romance em parte autobiográfico "Oliver Twist". A narrativa corresponde à vida de um órfão nascido numa estrutura de acolhimento de crianças abandonadas e onde a mãe, uma desconhecida a aparentar fugir de uma família para salvar a honra desta, morreu ao dar à luz o bebé e batizado por Oliver Twist.

No início, os responsáveis pelos órfãos sem amor deixam-nos passar fome e frio para economizar verbas e daí tirar dividendos da poupança excessiva e o protagonista, humilde e de bom trato, é uma das maiores vítimas. Ao chegar à idade em que é possível explorá-lo como mão-de-obra infantil entra outra série de sofrimentos e perseguições a que foge e cai nas mão de ladrões que exploram adolescentes nos seus roubo. Na ingenuidade num treino de assalto é preso mas acolhido por alguém bom que vê nele os traços de uma conhecida, só que a tentativa de os bandidos o recuperarem leva-o ao que parece ser o seu destino até que num assalto mal sucedido a situação levará a um confronto entre a tentativa da sua retoma pelos bandidos, a identificação das suas origem e alguém que o odeia e deseja a sua perdição.

Esta obra, como muitas outras de Dickens, é uma denúncia da injustiça social, a defesa da reabilitação das vítimas pela vitória do bem. Oliver Twist cumpre esta estrutura na íntegra, tendo também memórias da sua infância e mostra do submundo da pobreza e crime na Londres de então. Muito bem escrita, embora com a leveza típica de obra publicada por fascículos em jornais da época, e é muito fácil de ler. Também, como habitualmente em Dickens, a maioria das personagens são estilizadas de forma aos maus não terem virtudes e inspirarem ódio, enquanto os bons são quase perfeitos e vítimas dos primeiros e ansiamos a sua salvação, tudo isto sob uma luz de conceitos religiosos sobre a luta entre  bem e o mal com uma lição de moral, o que dá uma encenação algo forçada, mas é género fácil de agradar a qualquer leitor.


sábado, 19 de setembro de 2020

"CONTOS de Tchékhov" - Volume II - Anton Tchékhov

 


Penso que nenhum escritor é tão famoso pela obra contista como Tchékhov, uma das estrelas maiores da sublime literatura russa do século XIX, sei que escreveu centenas de contos e penso que estão todos publicados nesta coleção da Relógio d'Água com mais de uma dezenas de volumes. Não costumo falar da editora, mas são tantos os livros com narrativas dele que se não os referenciarmos podemos estar a falar de coletâneas completamente diferentes. Não sei o critério de distribuição dos contos nesta série, mas não é cronológica.
No volume II "Contos de Tchékhov" temos 11 narrativas, algumas com cerca de uma dezena de páginas e outras acima de 50, talvez só numa o desfecho é uma lição de moral, na sua maioria são relatos da personagens comuns acomodadas ou vítimas da vida, por vezes vivendo com dificuldades, noutras vencendo como oportunistas e há ainda os desiludidos e os indecisos, um conjunto de protagonistas que não são heróis diferentes da população em geral, mas todos são únicos e essa particularidade é tratada com mestria pelo contista.
Não sei russo para falar da escrita original, mas a tradução origina textos magníficos, ricos em vocabulário, inclusive de uso na época, e tratados com um cuidado que faz sentir dentro do leitor o frio da Sibéria, a injustiça da estratificação social, a fome do pobre, a modorra do ocioso ou indeciso, a esperteza do oportunista ou a fé e superstição do crente. Narrativas que transmitem reflexos multifacetados de uma jóia excelentemente talhada que me deslumbra e fazem o retrato do povo Russo à época, apesar de uma realidade bem diferente da de hoje podemos ver muitos casos similares no presente.
Vale a pena ler, isto é literatura no seu estado puro sob a forma de conto, gostei muito...

sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.

terça-feira, 2 de junho de 2020

"A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne


Excerto
"É assunto curioso de especulação, se o ódio e o amor não serão no fundo a mesma coisa... ...filosoficamente, as duas paixões parecem essencialmente a mesma, excepto que uma nos aparece cercada de uma luz celeste, e a outra de uma luz baça e vermelha"

Li o romance "A letra Escarlate", um dos clássicos da literatura norteamericana escrito no século XIX por um dos principais autores do país: Nathaniel Hawthorne, sobretudo famoso pelos seus numerosos contos e por esta obra, aqui traduzida por Fernando Pessoa.
Na cidade de Boston, então colónia de Inglaterra, é dominada pelos protestantes puritanos ingleses, sendo ainda mais extremados do que na origem. Hester, uma imigrante recente cujo marido médico ainda não chegara, é condenada a subir a um cadafalso na praça central com uma recém-nascida e a exibir para sempre sobre o vestido letra A de adúltera num pano vermelho, mas recusa-se a denunciar quem é o pai da filha, no evento ela descobre na multidão o seu idoso marido. Este, como médico e sem assumir o lugar de esposo, visita-a e obriga-a a manter o segredo da sua relação, mas permanece na cidade para descobrir e vingar-se lenta e continuadamente do ultraje, feito por alguém idolatrado pela sua virtude. Hester sobrevive pelos dotes de costureira isolada e de forma exemplar mas cheia de brio individual, só que o remorso e a vingança vão crescer neste terreno ultraconservador para pecados privados e estalar.
Hawthorne é descendente dos juízes que condenaram as bruxas de Salém e grande parte da sua obra vai no sentido de destruir a intolerância e este romance entra neste género. A narrativa está cheia de reflexões sobre a moralidade pudica sem amor cristão e da luta no interior da consciência e dos sentimentos das personagens, os diálogos estão subjugados a esta análise, além de descrições pormenorizadas da cidade, vestuário e costumes.
A escrita é trabalhada com grande qualidade estilística e a suas metáforas e comparações são extensas, gerando parágrafos densos, algo longo e profundos. Apesar de tudo, o autor tempera no carácter das suas personagens para que a leitura não se torne tão negra quanto a sociedade que descreve. Um magnífico romance que vai muito além da sua trama.

terça-feira, 19 de maio de 2020

"A vida era assim em Middlemarch" de George Eliot

Excerto
"Os mortais são facilmente tentados a atentar contra a glória do vizinho e pensam que essa maneira de matar nada tem de assassínio."
"As pessoas valem sempre mais do que aquilo que pensam delas os seus vizinhos."

Considerado um dos clássicos da literatura da época vitoriana inglesa "A vida era assim em Middlemarch", da escritora George Eliot, faz um retrato da vida social numa zona central de Inglaterra na primeira metade do século XIX situada no condado fictício, moralmente conservador e carácter rural de Middlemarch.
Doroteia é uma bela jovem órfã de uma família de grandes proprietários rurais, é discreta e anseia o saber e planear o bem aos mais desfavorecidos. Apesar de alguns pretendentes prestigiados locais lhe fazerem a corte, ela opta por um homem eclesiástico, rico de meia-idade e só devotado a escritos da era clássica cujo interesse dela pela cultura lhe despertou a paixão no celibatário. Numa época dominada pelos homens e onde o saber estava reservado a estes, ela vai descobrir que o seu casamento não vai ser a fonte do conhecimento que esperava e encontra um jovem parente do marido, filho de uma deserdada por ter abraçado o que era então interdito às mulheres, mas protegido pelo esposo como obrigação de consciência, só que a inesperada a viuvez chega mas o falecido não deixa liberta a viúva. A sociedade de Middlemarch está atenta não só a esta nova viúva rica, mas precavida contra todos os que venham com ideias novas para a zona, como acontece com um jovem médico e ao deserdado, entretanto a elite local entrega-se à guerrilha política entre partidos, religiões  tradicionais locais e empresários, nesta luta desacredita-se a inovação, procuram-se manchas morais nos adversários, estimulam-se atritos entre fações e retaliações e alimentam-se possíveis escândalos e paixões e a tensão atinge um clímax nesta pacata terra.
O romance é extenso, largas centenas de páginas, está escrito com grande elegância e é rico em metáforas que tecem explicações de caracteres e críticas sociais, denunciando com delicadeza as injustiças e disfunções que marcam a época e o meio. Apesar do retrato social, o papel da generalidade dos pobres é meramente secundário neste romance, à exceção de dois ou três personagens que desempenham funções de contraponto entre a honestidade de quem trabalha e de alguém que se quer aproveitar mas é atingido pelos que subiram pisando outros.
 A narrativa começa pacata a lembrar ritmo de vida rural provinciana, mas depois expõe a maledicência, a hipocrisia, o ciume, a aversão à mudança, as rivalidades e os tentáculos dos poderosos que minam a sociedade e prejudicam gente honesta cheia de valores e a rede eclesiástica das religiões que coabitam em Inglaterra. Doroteia é desde o início comparada a Santa Teresa d'Ávila, uma mulher também de grandes feitos, só que a nossa protagonista não tem igual reconhecimento à doutora da Igreja, não se valorizando os seus sacrifícios e ações, o que no fim explica a lenda em torno de Doroteia e a incompreensão do seu heroísmo, assumindo a obra uma homenagem a muitos homens e mulheres que muito deram à sociedade e passaram praticamente incógnitos à história. A extensão exige algum esforço, mas é um excelente romance.

domingo, 29 de março de 2020

"As Mil e Uma Noites" Volume 1


Excerto
"nada detém uma mulher quando ela quer alguma coisa."

Acabei de ler o primeiro volume da edição dos contos da obra "As mil e uma noites", um dos clássicos da literatura universal, com origem na idade média saído do mundo islâmico, sendo esta edição uma tradução da versão mais antiga conhecida em língua árabe editada por crowdfunding.
Este volume começa com um historial sobre as origens geográficas, linguísticas e divulgação desta obra até chegar ao ocidente e depois alguma evolução que esta sofreu já na Europa por adições para satisfazer o público não constantes no início, onde fica evidente porque se está perante uma das obras mais conhecidas das pessoas que simultaneamente o real conteúdo é desconhecido. Apesar da sua importância para o contexto da obra, confesso que apenas folheei e li excertos.
Depois segue-se a obra propriamente dita, onde se descobrem as razões porque o rei Xariar decidiu todos os dias casar com uma súbdita diferente, matá-la a seguir à noite de núpcias e a estratégia de Xerazade para pôr termo a esta carnificina através de se oferecer em casamento a ele e iniciar um série de contos narrados a sua irmã, Dinazarde, que alimentassem a curiosidade do marido e a mantivesse viva.
Os contos, na sua grande maioria, são do estilo fantástico ou do género fábula, não com bruxas e fadas do estilo ocidental, mas com os seus equivalentes no imaginário do médio oriente: génios e ifrites, cuja narrativa pode atravessar várias noites, sendo interrompida em momentos de suspense para manter o interesse e quando terminam deixam com frequência pistas por esclarecer que permitem o encadear de estórias e preservar a curiosidade.
Os contos encerram muitas vezes lições de moral e bons costumes, intercalados com aprendizagens da vida sobre as injustiças na vida terrena, havendo partes em prosa e outras em verso que sintetizam provérbios ou são cantos de amor ou do elogio à beleza física e intelectual. Pelo meio há algumas passagens quase eróticas e mesmo momentos brejeiros. Contudo o papel superior da vontade do Deus único, como agente do triunfo da Justiça e do Bem sobre a perfídia e  malvadez, é frequentemente invocado e atravessa todo livro, mas não se está perante o deus ex-machina da literatura clássica ocidental que intervém diretamente para castigar ou corrigir o mal.
O tradutor disponibiliza numerosas notas em rodapé que esclarecem pormenores do texto relativos à cultura da época, à mentalidade do médio oriente ou do mundo muçulmano e, inclusive, dificuldades de tradução e enquadramentos históricos que muito enriquecem o saber do leitor e ajudam a compreender e a referenciar aspetos que passariam despercebidos.
Não sou um habitual fã de contos fantásticos, mas reconheço a riqueza destas histórias, a influência cultural das mesmas e confesso que além de se estar perante uma obra de fácil leitura, o suspense que é mantido assegura o interesse e o prazer da leitura e em breve espero entrar no volume seguinte deste clássico da literatura mundial que vale a pena conhecer.

domingo, 1 de março de 2020

"A Casa Sombria" de Charles Dickens


Excerto
"Nunca o nevoeiro será bastante espesso, nunca o barro e a lama terão suficiente profundidade para estar ao nível da cerração e das dificuldades por que hoje passa este Tribunal Supremo da Chancelaria, o mais nauseante de todos os velhos pecadores, à face da terra."

Acabei de ler um extenso, denso e profundo romance do inglês Charles Dickens "A Casa Sombria". Um casal de jovens primos, órfãos é acolhido sob proteção de um tutor parente na sua Casa Sombria enquanto aqueles aguardam a posse da sua herança retida pelo Supremo Tribunal em Londres há gerações num processo de denúncia do testamento e apaixonam-se entre si. Em paralelo, o dono da casa escolhe outra jovem para dama de companhia que é filha de pais incógnitos, ela sabe ser fruto de uma relação ilegítima e escondida para salvar a honra de uma família que percebemos ser de alta sociedade e é a principal narradora da estória.
Em torno das duas famílias de origem dos três jovens da Casa Sombria, bem como do bairro do tribunal, circulam advogados honestos e interesseiros, tarefeiros, espiões, criados, interessados da justiça, gente detentora de segredos familiares ambiciosa, chantagistas, pessoas que se apaixonam, cidadãos doentes, pobre explorados, honrados ou revoltados ao sentirem-se vítimas de erros do passado ou da situação social, médicos, indivíduos que morrem, criminosos e ainda usurários exploradores da desgraça alheia, detetives policiais, pessoas amigas e adversárias e até beneméritos sociais mais atentos às suas causas solidárias públicas do que às suas obrigações sobre os que lhe são mais próximos e estão a seu cargo, tecendo um malha exaustiva do retrato coletivo da sociedade londrina sobre a qual paira um sistema judicial que é o maior agente de injustiça que se abate em cima desta população.
Efetivamente, no livro há personagens criminosas, assassinas e gente com sede de Justiça, mas torna-se evidente que a mais criminosa, a mais assassina e a mais injusta é a montada pelo sistema judicial, ou seja: a justiça neste Estado de Direito.
Charles Dickens escreve este romance sem pressa. Ao longo das três primeiras centenas de páginas vai introduzindo personagens, isoladas ou em família, que tanto podem ser modelos de virtude ou vilões que vão sendo caracterizadas em pormenor: não só através do seu comportamento individual e indicação de pistas de intenções ocultas, como também através do meio onde vivem e das características urbanas dos locais onde trabalham ou residem e várias delas vemos inclusive o seu regredir fruto do sistema social e de justiça vigente. As exposições cénicas e dos ambientes sociais são de uma grande riqueza estilística descritiva e metafórica pois é um meio para fazer um paralelo entre a realidade paisagística, arquitetónica, meteorológica ou de higiene com os desequilíbrios das personagens e da sociedade. Desta técnica narrativa Dickens mostra genialmente o obscurantismo corrosivo, doentio e até mortal da justiça com recurso clima pestilento resultante da humidade, neblina e frio em que insere logo no início o trabalho proveniente do Supremo Tribunal da Chacelaria.
Nas últimas centenas de páginas, nunca com pressa, os nós soltos da primeira metade começam a unir-se e a montar a teia que constrói o retrato global que até às últimas páginas nos vai surpreendendo, não apenas com revelações e desenlaces agradáveis para um final feliz, mas também com relatos das consequências duras e revoltantes de todos os aspetos negativos que Dickens denunciou publicamente com este romance.
É um magnífico romance e como não houve pressa na narrativa torna-se longo e nem sempre belo, Dickens através da fealdade evidenciou a força e os efeitos do mal que grassava no sistema de justiça da inglês em meados do século XIX e temperou a crueza desta realidade com a beleza do amor romântico e solidário que permite a sobrevivência do humanismo nesta sociedade injusta, cheia de egoísmos e de oportunistas, inclusive é realçada em alguém cuja a doença a desfigura mas sempre bela pela força humana que dela continua a brotar. Um livro marcante.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

"A Cartuxa de Parma" de Stendhal


Excertos
"A presença do perigo dá génio ao homem sensato, põe-no, por assim dizer, acima de si próprio; ao homem de imaginação inspira romances, ousados, é certo, mas o mais das vezes absurdos."

"nos países em que os grandes nomes não são nunca castigados, a intriga é toda-poderosa mesmo contra eles."

O romance "A Cartuxa de Parma" de Stendhal é um dos clássicos da literatura de França escrito a seguir à queda de Napoleão e apesar de os ideais da revolução atravessarem todo o livro e de parte da estória ocorrer sob o domínio deste imperador, grande parte da obra passa-se no reino de Parma, com um soberano fictício que impõe um regime absolutista e onde os jacobinos são considerados inimigos do Estado.
Fabrício nasceu de uma família nobre e aliada ao império austríaco em Milão, mas foi sobretudo educado pela tia paterna, ligada às causas napoleónicas durante a tomada da cidade, desta situação resultará numa pessoa idealista, ingénua e inadaptada à vida numa sociedade que depois voltou a ser regida pela intriga da aristocracia absolutista. Cai assim em situações de risco e de conflito entre os influentes conservadores que passam governar quando jovem e adulto, adversário do próprio pai e apenas protegido pela tia, que alcança o cerne do principado de Parma, e pelo alto clero desta que convive em promiscuidade com os interesses em sociedade. Para agravar mais isto, ele não só se apaixona de forma deslumbrada com facilidade como desperta amores nas mulheres, o que alimenta ciumes, rivalidades e vingança nos homens da corte e do povo.
Stendhal escreve bem ao estilo do século XIX, cruza na narrativa factos históricos com personalidades da época fictícias e serve-se do agir impulsivo das suas personagens para salientar diferenças de mentalidade, sentimentalidade e de comportamentais entre os franceses e os italianos, estes então divididos por diferentes pequenos reinos, envenenados pelas intrigas na corte, a aristocracia está habituada a sair impun de crimes sociais mas sempre em risco no que concerne a ideias políticas devido às instabilidades dos reinados e alianças oportunistas.
Fabrício torna-se numa personagem quixotesca cuja ingenuidade o embrulha em teias de conflitos políticos, direitos dos privilegiados, intrigas de alcova, promiscuidade entre igreja e Estado e tudo isto agravado pela sua jovialidade, beleza e romantismo, que servem a Stendhal para denunciar vícios sociais, as imoralidades, o abuso de poder absolutista e onde o clero em nada se distingue em interesses, castidade e ética dos cortesãos.
O livro está dividido em duas partes, na primeira, sobretudo em Milão sob o domínio napoleónico e dos ideais revolucionários, onde Fabrício cresce imaturamente e sonhador, até assiste à batalha de Waterloo. A segunda é mais centrada numa Parma absolutista, onde ele fica preso nesta teia e em risco de morte permanente, sendo que a imaginação de Stendhal o levou a estender a narrativa que a partir de certo momento se torna, como ele mesmo define no excerto acima, ousada e absurda, cheia de momentos rocambolescos e excesso de sentimentalismo.
Para conhecer o valor literário de Stendhal prefiro outro clássico dele que é a obra-prima que falei neste artigo. Um começo que cativa e motivador mais depois vai-se tornando fastidioso e lento no avançar da trama até ultrapassar as 500 páginas.