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terça-feira, 22 de julho de 2025

"Os cus de Judas" de António Lobo Antunes

 Citação

"... é a nossa própria morte que tememos na vivência da alheia e é em face dela e por ela que nos tornamos submissamente cobardes."

Não sei há quanto tempo, nem onde comprei "Os cus de Judas" um dos primeiros romances deste escritor português considerado por muitos como merecedor do prémio Nobel da literatura.

Numa noite de solidão do narrador, num bar noturno em Lisboa, este, perante uma mulher que deve então ter conhecido, expõe-lhe as suas memórias de criança até à ida para a guerra em Angola como médico. Ali prestou serviço perto de dois anos junto às frentes de combate, em lugares distantes e ermos (popularmente "cus de Judas") do leste daquele território. Ficamos a conhecer o menino mimado olhado pela sua família aristocrática que via no serviço militar o modo de alguém se tornar "homem"... recém-casado parte para a guerra numa viagem de gente infeliz, vê a Luanda da década de setenta, parte para o interior onde assiste à inutilidade da guerra para manter um regime na Capital e o bem-estar de umas poucas famílias, exploradoras da população africana, indiferentes à dor, morte, desilusão e desespero daqueles jovens, vigiados pela PIDE e que se distraíam no uso de mulheres locais. Anos depois não consegue ultrapassar os traumas, o arrependimento da sua cobardia, o que o leva ao fim da sua relação matrimonial, sustenta as lembranças da filha e ao encontro com mulheres que depois traz para o seu apartamento à noite como esta após muito álcool.

Uma narrativa que terá muito de autobiográfico, talvez também, para exorcizar a revolta silenciada do autor por medo do regime em vigor em Portugal durante a guerra colonial e publicado pouco a seguir à época revolucionária de desforra do passado. Um texto com muitas metáforas sucessivas com longos parágrafos e a uma única voz, já que as personagens brotam do testemunhado do narrador. As descrições possuem numerosas referências a grandes obras e artistas do mundo da pintura, da literatura, da música, etc., mas sem citações, apenas referências, comparações.

Apesar de ser um obra de sofrimento, com momentos muito duros de violência psicológica e humana, não existem relatos de batalhas, tudo se passa na retaguarda das frentes de combate nos cus de Judas, onde o médico está a receber e a tentar salvar as vítimas físicas e os derrotados psicologicamente por tudo o que ali se assiste e ele socorre.

Um pequeno grande livro de guerra, duro e onde se mostram as feridas que ficam na alma depois das batalhas por muitos e muitos anos.

domingo, 6 de julho de 2025

"Contos" de Eça de Queiroz

Voltei à minha coleção, que possuo há mais de 30 anos, das obras completas de Eça de Queiroz, da qual já li os romances, mas falta-me ainda vários volumes com outros tipos de obras.

Agora coube a vez ao volume dos "Contos", coletânea que está também disponível no mercado noutras edições, como esta aqui. São 23 histórias que retratam situações contemporâneas da época de Eça e históricas que vão da idade média, ao tempo de Cristo que chega a personagem, recua até Odisseu e vai ao primeiro homem e mulher que, claro, são Adão e Eva, mas que pouco têm com os do génesis bíblico.
Os contos contemporâneos têm temáticas diversas, que vão desde o "Réu Tadeu", que se descobre ter morto o irmão, se dá por culpado e tem um comportamento exótico; até paixões que levam aos atos extremos de José Matias ou ao racional  em "Singularidades de uma rapariga loura", à exaltação da natureza em "Civilização", talvez um ensaio que deu origem ao genial romance de "As cidades e as Serras" e passa por fundamentos do insucesso de Portugal em "A catástrofe", entre outros. Em muitos deles sente-se o espírito satírico e mordaz de Eça nos seus grandes romances mas aqui em obras curtas.
Os históricos vão desde o terror fantástico em "O defunto" ou selvático de "Enghelberto", prolongando-se para os deprimentes ambientes religiosos medievais com o peso da obrigação de pureza para a salvação, até um Jesus, bem mais leve, amigo dos pobres que desprezo os poderosos em três versões de "O Suave Milagre", mostra a superioridade do amor humano imperfeito humana face à "Perfeição" dos deuses e questiona o legado de "Adão e Eva no paraíso". Nestes contos, a temáticos de alguns levou a que o tom de Eça mudasse e a sua narrativa parece-me, por vezes, menos conseguida, se gostei muito de algumas destas histórias, noutras senti-as demasiado constrangedoras e deprimentes.
Todavia, a coletânea vale bem a pena de ser lida, pela qualidade, perfeição e riqueza de escrita, que é transversal a todos os contos, apesar de dois ou três deles terem ficado incompletos.

quarta-feira, 26 de março de 2025

"As três mortes de Lucas Andrade" de Henrique Raposo

 

Citação

"O sucesso pode ser tão ou mais perturbador do que o medo. A liberdade criada pelo sucesso pode assustar quem viveu sempre sem liberdade."

Acabei de ler o recente e primeiro romance de ficção do cronista português Henrique Raposo: "As três mortes de Lucas Andrade". A obra é a biografia, narrada por um observador omnisciente, de uma mente suicida, nascida numa aldeia miserável e conservadora da serra da Estrela no final da ditadura, num mundo que era hostil ao seu apego aos livros e desenhos e como filho de uma mulher insubmissa aos ditames da escravidão e sujeição feminina ao conservadorismo e assédio dos fortes da terra, fase em que é a criança João Miguel. Esta transforma-se nos anos 80 no adolescente Ruço por a família se mudar para a cintura pobre e desestruturada de Lisboa, onde tem de ultrapassar o provincianismo e adaptar-se a sobreviver à violência, toxicodependência, prostituição, HIV, miséria numa zona esquecida do poder político com sede ali ao lado na grande cidade. Depois o seu engenho vence e torna-se no jovem escritor famoso Lucas Andrade, conhecido no mundo culto, elitista e rico, odiado pela classe social dos locais que foram o seu berço e formação da sua personalidade cujo conflito final e a reflexão sobre o mal enraizado nas pessoas levam ao desenlace anunciado logo no primeiro parágrafo do romance, um dos inícios mais bem conseguidos da literatura portuguesa.

O autor não precisou de escritas criativas para disfarçar o vazio de histórias banais, pois esta é densa e profunda como poucas. Não tornou a sua obra num manifesto político na denúncia da vida difícil do mundo rural e dos subúrbios da capital, nem culpou terceiros dos extremismos do mal que alguns pobres adotam. Na minha opinião, o escritor conseguiu uma das melhores obras da literatura portuguesa do primeiro quartel deste século. Suspeito que muitos livros premiados nestes tempos passarão à história, enquanto este se sujeita a brilhar no futuro, depois de pousar o pó lançado por muitos que dominam o meio cultural atual.

O romance - frequentemente com referências a personagens bíblicas, míticas ou de clássicos do passado - pode incomodar um Portugal estabelecido conservador ou os progressistas urbanos que desconhecem a realidade da pobreza. O texto conta aspetos chocantes da nossa sociedade, desde vilanias transversais a todas as classes sociais, até preconceitos de classe que aprisionam muitos à miséria  e levam à não realização profissional, gerando vítimas tristes e silenciosas todos  os dias. Contudo, apesar da dureza, não é uma leitura deprimente, pois há sempre no caminho alguém que é diferente, disposto a dar uma mão, a lutar pelo bem do próximo, a ser luz na escuridão e, além do beco em que se sabe o protagonista irá cair no fim e das traições que sofre, o livro mostra que é possível ultrapassar e optar pelo melhor em detrimento de se deixar ficar refém do mal. A questão do mal é debatida em termos filosóficos de uma forma a deixar claro que todos tem oportunidade de escolher o melhor em detrimento do mal. Este não é absoluto: o livre-arbítrio está dentro de cada um, a narrativa mostra que é possível sobreviver, agir, subir a um mundo melhor e lutar por mais justiça, o livro tem vários que conseguiram, outros afundaram-se no pântano mais ignóbil que é possível a um ser humano.

Não sei quanto do protagonista é um alter ego do escritor, que veio da província precisamente para a mesma zona da cintura de Lisboa, onde João Miguel virou a Ruço e evoluiu para Lucas Andrade e se tornou num escritor vencedor e incómodo, mas, seguramente, que muitos pormenores saíram da experiência vivida por ele e por isso a discussão no texto de que os livros não eram contos, mas crónicas talvez seja uma chamada de atenção de que o romance retrata factos conhecidos. Não é uma escrita poética, é uma linguagem realista, sem pudor pelo uso do calão dos grupos retratados na narrativa, muitas vezes crua e dura. 

Valeu a pena ler as mais de 600 páginas e recomendar  "As três mortes de Lucas Andrade", este foi o romance de Portugal que mais gostei de ler nos últimos anos e uma pedrada no charco no panorama literário nacional.

sábado, 14 de outubro de 2023

"Os comedores de pérolas" de João Aguiar


Citação

 "Ou andamos todos a puxar uma nora sem dono ou estamos todos na mão de Deus."

Ao fim de vários anos regressei a João Aguiar, um jornalista e escritor português de quem lera romances históricos passados em território nacional antes do nascimento de Portugal e com heróis reais pré-nacionalidade de que muito gostei pela informação fornecida sobre esses tempos. Agora leio numa obra publicada em 1992 passada em Macau já na sombra da transferência da administração deste território para a China que decorreu em 1999.
Em "Os comedores de pérolas" o protagonista, Adriano, um jornalista que na sequência de uma luta via profissional por uma causa ambiental entra em depressão é lhe recomendado aceitar um trabalho de analisar o espólio de um antigo comendador de Macau, com documentos em português, chinês e inglês, para daí se publicar um livro sobre a vida desse homem de há um século atrás e patrocinado por um seu descendente. Só que rapidamente Adriando se apercebe que nesses documentos há segredos e existem aspetos cujos tradutores falseiam o conteúdo para esconder envolvências com mafias chinesas, contrabando e tráfico humano e começa a sofrer pressões para preservar o bom nome do magnata e sua mulher.
A situação agrava-se quando com incidentes e assassinatos descobre que ele mesmo está em risco de vida e à sua volta existe uma teia de espiões ao serviço do neto do Comendador que financia o seu trabalho.
Os comedores de pérolas é de facto um romance de investigação e ação do género literário de suspense ou tríler, que nem falta a mulher por quem o herói se encanta, cuja tensão vai aumentando à medida que a narrativa avança em forma de diário irregular do protagonista. Nas notas existem reflexões sobre o fim da presença de Portugal em Macau e a sensação de amargura do declínio do império e descrições sobre a mistura de culturas neste território, o património em risco devido à transição administrativa da cidade, referências a locais emblemáticos e a realidade das redes mafiosas designadas de seitas ou tríades.
Uma escrita mais jornalística do que embelezada por figuras de estilo literário e não muito pretensiosa, mas uma obra que vale a pena ler pela facilidade de cativar, daí ter sido um sucesso editorial na época, enquanto vai colocando as preocupações culturais associadas à retirada de Portugal deste território pequeno face a Hong Kong. Macau, que já visitei e por isso percebi a razão de ser de tais alertas: uma terra que oficialmente ainda usa a língua Portuguesa, mas onde, de facto, praticamente ninguém fala uma palavra do vocabulário de Camões, apesar de um núcleo com o património arquitetónico bem preservado e classificado pela UNESCO. Gostei do romance, fácil e recomendo a quem gosta do género de investigação e ação

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

"Ensina-me a voar sobre os telhados" de João Tordo

Citações

"Mas que sei eu sobre Deus? Não sei nada. Se somos feitos à sua imagem, então Deus não deve ser grande coisa ou, se for parecido comigo, é feio como a noite dos trovões."

"Cada um tem o seu deus, a sua maneira de acreditar no infinito."

"O medo impede-nos de acreditar naquilo que o medo nos diz que é impossível."

Voltei à leitura do escritor português contemporâneo, João Tordo que venceu o prémio literário José Saramago, destinado a laurear jovens que escrevem em português. "Ensina-me a voar sobre os telhados" uma narrativa em dois lugares, Lisboa e Japão e atravessa gerações.

No liceu Camões um professor suicida-se e deixa o corpo docente em estado de choque, um deles - ex-alcoólico cujo vício destruíra a sua relação familiar e membro dos alcoólicos-anónimos - decide então organizar um grupo de reflexão do cariz semelhante na escola para exorcizar as tensões desta morte, ali desfilam problemas e ansiedades. Mais tarde, ao abrir-se as reuniões a mais gente, surge um luso-japonês de comportamento estranho e sarcástico, que se aproxima do fundador. Este desenvolve uma relação de proteção ao nipónico que sofre de distúrbios, o que lhe vai gerar novas tensões entre a ânsia de o ajudar e a sua vida pessoal. O romance intercala a história problemática da família Tsukuda no Japão, temperada por abuso de poder, egoísmos e a obsessão de quererem levitar, objetivo que atravessou gerações até ao psicótico Henrique, um comportamento com vítimas e punições que ameaça destruir o professor viciado em ajudar, enquanto reflete sobre a vida real, o papel de deus e a infelicidade das limitações da humanidade e até do demónio.

Tordo tem uma escrita magnífica, poética, cheia de metáforas inovadoras e intercala a narrativa com reflexões sobre a vida contemporânea, os anseios e os receios da humanidade. Nesta obra, além de uma permanente sombra sobre tudo o que move as pessoas e as limitações do homem, tecem-se, pontualmente, considerações sobre as angústias das personagens que vão desfilando no romance, que talvez seja extensiva ao demónio representado pelas figuras de Doré, ou até a deus ou aos deuses, que estão limitados pela incapacidade de se libertarem pela morte.

Gostei muito de voltar a João Tordo e se no anterior livro iniciei com perspetivas muito elevadas não superadas, neste foram as minhas perspetivas ultrapassadas, em comum há uma certa angústia existencialista, mas considero "Ensina-me a voar sobre os telhados" um excelente romance que nos faz pensar sem impor nenhuma resposta. 

sábado, 24 de setembro de 2022

"A dança dos Ossos - Antologia do conto gótico luso-brasileiro" Vários Autores

 

Uma coletânea de 27 contos de teor gótico, 13 de autores lusos e 14 de escritores brasileiros, selecionada por Ricardo Lourenço, que cobrem este género literário desde meados do século XIX até às duas primeiras décadas do XX.

No conjunto existe escritores de grande renome literário como Eça de Queiroz e Machado de Assis, outros conhecidos e alguns de quem nunca ouvira falar, a heterogeneidade de autores também se reflete na diversidade dos contos, alguns quase da dimensão de novela, outros curtos e muitos entre uma a duas dezenas de páginas.

Desde lendas medievais, passando por pseudociências mais atuais, bruxas, espiritismo, até narrativas onde o sobrenatural é apenas fruto da sensação extremada que conduz ao terror ou à suspeita deste, alguns com lições de moral, outros inócuos, a coletânea vale sobretudo pela informação biográfica dos seus autores, do seu papel na história da literatura, da cultura ou da política do seu país e ainda pela amostra do género pouco divulgado em Portugal.

Confesso que alguns contos gostei mesmo muito, outros divertiram-me, nenhum me tirou o sono e também houve alguns (poucos) que nada me disseram, mas valeu a leitura do conjunto "A dança dos ossos" e recomendo a quem se interessa por este tipo de literatura mais negra, que explora medos das pessoas, fenómenos menos claros para a ciência e as crenças e superstições existentes nestas duas sociedades de língua portuguesa. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

"Para onde vão os guarda-chuvas" de Afonso Cruz

 

Excerto

"Andamos todos em órbita a nós mesmos à procura de uma porta que nos leve para dentro da nossa alma. Procuramos entrar dentro de nós, mas é um mundo que nos está vedado."

Acabei de ler o romance "Para onde vão os guarda-chuvas" do português contemporâneo Afonso Cruz. No início sabemos que o Sr. Elahi, empresário muçulmano num país do oriente, adotou uma criança cristã e tenta convencer a sua irmã a casar-se com um hindu, no que esta grita: vergonha!, por todos estes desvios à tradição secular da família. Então percebemos que a situação resultou de graves problemas trágicos do passado que afetaram a vida do fabricante de tapetes. Assim, através de episódios, curtos, que cobrem a infância dos atuais membros da família, vamos conhecer todas as desventuras e fenómenos fantásticos por que passaram, vivências a coberto das crenças e dos mitos religiosos que condicionam as suas vidas que se cruzam com saberes do islamismo, hinduísmo e cristianismo radicado na filosofia mítica oriental. Afinal, tal como as pessoas que perdemos, os guarda-chuvas perdidos nunca mais aparecem, logicamente devem ter um destino semelhante...

Afonso Cruz tem uma narrativa muito própria e cheia de metáforas que mistura a sabedoria mítica e transcendente oriental com a racionalidade fria e laica do ocidente contemporâneo, uma teia de conceitos que nos surpreende e ao juntar a perspetivas infantil com a contemplativa dos crentes e maldosa dos oportunistas, numa delícia de situações e deduções que vão do fantástico ao racional, uma crítica de comportamentos sociais transversais a todos os povos e personalidades sem agressão dos alvos preconceituosos, nem glorificação das vítimas inocentes e ingénuas movidas pelos seus sonhos de serem felizes.

Cheio de citações de sabedoria (não sei se inventadas de facto pelo autor ou baseadas em textos orientais, mas esta mistura dúbia entre o real e o ficcionado é uma característica comum de Afonso Cruz, um dos escritores mais originais da literatura portuguesa atual de que já li várias obras). Gostei e recomendo.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Memorial do Convento" de José Saramago

Terminei a releitura de "Memorial do Convento" de José Saramago, o único premiado com o Nobel da literatura de expressão portuguesa e para muitos o romance emblemático da sua obra de ficção. Pouco releio livros, se gosto muito da escrita opto por rever excertos, pois a surpresa no desenrolar da trama conta também muito para o meu prazer de leitor, mas este lera-o há cerca de 33 anos atrás, aliás, foi a minha estreia neste autor que depois tornei-me seguidor pontual por mais de uma década. Decorrido este tempo todo, tirando o tema e personagens principais, já pouco me lembrava do seu conteúdo e foi quase uma primeira leitura ao nível de pormenores e das cenas que se vão desenrolando na história. O exemplar que possuo, quer a capa, quer a editora, já nem correspondem às da imagem, pois os direitos editoriais foram transferidos para outra casa distinta da que o escritor foi fiel em vida. Na verdade possuo centenas de livros que não folheio há muito tempo e penso ter chegado ao momento de os redescobrir e optei começar por este.

A história tem como centro a razão de se edificar e os trabalhos de construção do Convento de Mafra, todavia em Saramago nada é uma simples narrativa. O escritor, além de romancear um conjunto de personagens que existiram à época: como o rei D. João V e família, o inventor Bartolomeu de Gusmão, o compositor Scarlatti e diversos membros do clero e nobreza; foca a trama em Baltasar Sete-Sóis, maneta, e Blimunda Sete-Luas, vidente do interior das pessoas, que se encontram num ato da inquisição, juntam os seus trapos e se tornam num casal sem as regras legais e morais da época. Estes vivem as dificuldades do povo sem instrução e servem de defesa das relações naturais sem obediência a regras exteriores aos elementos apaixonados ou acostumados entre si e ainda de denúncia das injustiças face à opulência da realeza e clero a coberto da religião e a escassez e riscos dos pobres e pessoas livres pensadoras sob a ameaça da inquisição. Na primeira parte teremos Bartolomeu Gusmão a ser auxiliado pelo par na sua invenção aeronáutica quando a tecnologia era vista como uma arte demoníaca e onde o sonho e a vontade do Homem estão acima das limitações físicas da Natureza e da castração religiosa.

Na segunda da obra o mesmo par integra-se no grupo de trabalhadores explorados na construção do monumento edificado à custa da extração da riqueza das colónias do império para glória de Deus no agradecimento pelo Seu papel de satisfação dos anseios e caprichos dos ricos em detrimentos dos pobres por Ele amados.

A escrita da obra é tipicamente ao estilo único criado por Saramago, mas agora com o tempo verifico que ainda tinha sido levado à exaustão alcançada em obras posteriores. O sarcasmo pícaro sobre a justiça, a ética e a moral sexual atravessam todo o texto, numa crítica mordaz, por vezes a rondar a brejeirice e irónica, e frequentemente alavancada em ditos populares. A denúncia dos defeitos e vícios do clero e realeza, a coberto de uma teologia interesseira destas partes, não é minimamente travada neste romance.

É sem dúvida um grande romance, um clássico da literatura mundial, nem sempre fácil de ler devido à forma narrativa e a uma forma única de realismo mágico exclusiva de Saramago, mas cheio de informações históricas e vale bem a pena o esforço, na releitura não sofri o choque da primeira vez em que me estreei no autor, mas mesmo assim continuo a gostar muito deste romance e foi o que mais me marcou à partida, mesmo que hoje prefira outros do escritor.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

 

Excerto
"O amigo está numa casa em que todos, até os mais patifes, eram católicos desde as unhas dos pés até à flor dos cabelos. Lá que alguns pecaram pecaram....Uma casa fidalga sem pecado é mais enfadonha que uma boda sem bebedeira."

Acabei de ler o romance, o autor chama-lhe crónica romanceada, "A Grande Casa de Romarigães" do escritor português Aquilino Ribeiro, que possui uma obra vasta desde o final de 1.ª Grande Guerra até à década de 1960.
O livro conta a história das várias gerações que construíram, ampliaram e viveram nesta casa solarenga do Minho, com capela e uma grande quinta do lugar de Romarigães, um imóvel classificado de interesse público. A narrativa começa no início do século XVII, período de Portugal sob o domínio espanhol, e vai até meados do século XIX, já no período constitucional após as lutas liberais. Um solar com origem no sonho de um padre em adquirir o terreno, o que conseguiu a bom preço, que duma relação amorosa ilícita teve um filho que  permitiu prosseguir uma dinastia fidalga que dominou a zona e ali se estendeu por cerca de 300 anos, onde se falará da restauração, do terramoto de Lisboa, das invasões francesas, das lutas liberais vistas à distância da capital.
Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa (desconheço se são personagens reais), sendo que desde o início até ao final praticamente todos cheios de defeitos morais, tanto na sua vida privada, como nos métodos de assegurar a influência social e de preservar o património na família. Seis gerações de escassas virtudes e muitos vícios, vários dos atos mais importantes na obra estão ilustrados com estampas a preto e branco que valorizam o livro.
Aquilino Ribeiro viveu nesta casa como genro de um dos primeiros Presidentes da República que dela foi proprietário e quando esta já fazia parte de outra família que não a da dinastia das crónicas deste livro, considerado um dos mais importantes da literatura nacional de meados do século XX.
O escritor utiliza um vocabulário muitíssimo rico, com muitos regionalismos do Alto Minho, a que adiciona numerosos sinónimos raros das palavras de uso comum, pelo que deduzimos o seu significado: ora pelo contexto, ora com recurso ao dicionário se quisermos acompanhar toda a riqueza lexical da prosa. O tom utilizado é, na generalidade, satírico e mordaz, o que cria uma sucessão genealógica que varia de mesquinha a pródiga, patrões injustos e abusadores, quezilentos, dominados pela lascívia, preguiça ou oportunistas, tudo isto a coberto de valores tradicionais religiosos, ligados ao clero e ao poder. A literatura lusa tende a ser  um contraste absoluto da inglesa que tende a dignificar os líderes da comunidade e o seu povo, nesta obra praticamente ninguém desperta respeito, algo que talvez explique uma certa mentalidade portuguesa que penso também ter deixado escola o Brasil, que conduz à normalização da maledicência e à destruição da imagem da generalidade dos seus líderes sociais.
Como romance está excelentemente escrito e é uma narrativa cheia de vida.

Estado pouco conservado do imóvel presentemente
(fonte Wikipedia)

sábado, 26 de setembro de 2020

"FANNY OWEN" de Agustina Bessa-Luís

 
EXCERTOS
"A amizade não proíbe a ingratidão da lucidez."
"O amor não é senão uma cristalização do desejo."
"As calunias fáceis são obra de desejos infecundos."

Acabei de ler o romance "Fanny Owen" de Agustina Bessa-Luís, baseado num caso real, com personagens históricas e ocorrido em meados do século XIX na cidade do Porto. Segundo o prefácio da autora, esta obra surge na sequência do convite para fazer os diálogos do filme "Francisca" de Manuel de Oliveira. Contudo, lendo-a, é fácil ver que este livro não é a montagem desses diálogos.
José Augusto é um jovem morgado rural que perdeu a mãe. É dado a uma instabilidade emocional sofredora e vive uma certa devassidão no Porto à sombra da amizade do escritor Camilo Castelo Branco. Nesta cidade vai conhecer as filhas Maria e Francisca (Fanny) de um militar escocês que casou em Portugal com uma mulher da corte de D. Pedro IV (I no Brasil) no Rio de Janeiro. Entre estes dois amigos e as duas irmãs vai surgir uma relação de amor, ciume, traição, escândalo público e um casamento, que Camilo, talvez por vingança, levará a uma tragédia. Pelo meio reflexões da guerra civil onde o escritor lutara ao lado da fação miguelista perdedora e o modo de Camilo sobreviver com as suas publicações nos jornais locais.
Agustina, como sempre nas suas obras, não faz uma narrativa linear, vai dissertando sobre a complexidade psicológica das personagens, as suas inseguranças, intenções e ações irrefletidas, o que vai intercalando com situações ocorridas no passado misturadas com pistas para o futuro da história que está a contar e o momento que está a relatar, tudo isto de uma forma labiríntica, pontuado por máximas que saem naturalmente da autora que deixa soltas no texto. Isto conduz à montagem de um "puzzle" ou à pintura de um quadro global esbatido entre as numerosas reflexões, considerações, possibilidades psicológicas e a história em si.
Neste conjunto de quatro protagonistas centrais tratados ao pormenor, Agustina faz um retrato maior de Camilo, disseca a personalidade do escritor mais profícuo do século XIX em Portugal, ela que é sem dúvida a escritora mais profícua do século XX neste País, gerando assim um choque de gigantes da literatura portuguesa, que faz faíscas, ao misturar admiração com abominação, reconhecimento de uma genialidade literária criativa com um agir maquiavélico destrutivo para os que lhe são contemporâneos. Um caso único nos numerosos livros que li.
Se nas obras de pura ficção Agustina arquitecta narrativas complexas que esboçam por detrás retratos da realidade, sobretudo, do norte de Portugal e da personalidade feminina; neste relato histórico, ela consegue espremer as possibilidades da realidade que a torna num esboço ficcional do que pode ter ocorrido e coloca Camilo com todas as suas contradições num estrato acima da mediania que o cercava. Gostei, para mim foi uma obra fácil de ler por gostar e estar familiarizado com o estilo, para outros poderá exigir esforço para seguir a direito este labirinto narrativo.


terça-feira, 21 de julho de 2020

"A Luz de Pequim" de Francisco José Viegas

Excerto
"Se tivesses de juntar todas as histórias que acontecem, nunca terias um livro, por exemplo, e nunca terminarias de fazer ligações, de descobrir coincidências que são apenas coincidências. Temos de caminhar sempre em frente até chegar a um lugar onde não há mais caminhos."

Acabei de ler o romance mais recente do escritor português Francisco José Viegas: "A Luz de Pequim", com o seu habitual personagem: o inspetor Jaime Ramos. Só que desengane-se quem, como eu, pensou tratar-se de um livro policial. Sim, na obra há assassinatos, há inquéritos e até há conclusões sobre quem os cometeu, mas este é uma narrativa melancólica sobre a vida do protagonista já em fim de carreira e considerado ultrapassado pelas ondas de modernização e voracidade da administração para com os mais antigos e curricula marcante.
Assim surgem demonstração do seu passado imperfeito, reflexões privadas da sua militância política em conversas com aqueles que mais o marcaram e de quem o investiga. Depois, a propósito ou a despropósito, vêm inúmeras referências ou descrições do Porto, do seu rio, dos seus cafés, restaurantes e gastronomia, das suas livrarias, dos seus bairros, da sua atmosfera chuvosa, do estilo de vida dos seus marginais em conflito mortífero entre gangues dispersos pelas periferias. O autor junta ainda retratos paisagístico e do bucolismo do Alto Douro e dos vícios das elites nacionais e seu modo de moldar a política de Portugal e até este País visto por um espião brasileiro como forma de tecer a sua teia para cativar um lusitano na sua rede, denunciando assim habilidosamente como somos.
No início, um assassinato e o aparecimento de um corpo de um traficante pendurado na ponte D. Luís I no Porto, depois investigações, interrogatórios a algumas famílias de renome ou de riqueza duvidosa e um pedido particular de um amigo para lhe encontrar o filho que sabe ter ido para o Brasil, ter-se licenciado e aparecer depois em convites oficiais no extremo oriente. Neste País pequeno estará tudo ligado ou serão apenas coincidências? É que após muitos anos de vida ele já vê e sabe muito mais do que são os pequenos bandidos do Porto, os Portugueses e Portugal.
Eu fiquei amarrado às múltiplas descrições que vão surgindo surpreendentemente no livro, quer se cruzem entre si ou apenas surjam na narrativa como algo paralelo que brota no dia-a-dia além do programado, nem sempre juntando informação à trama mas dando muito à narrativa. É sem dúvida um romance marcado pelo tom melancólico que cerca a perspetiva de ocaso da carreira deste inspetor que sempre viveu a espreitar o crime e conhece bem de mais a vida dos criminosos e a ingratidão do tempo e, sobretudo, ama o seu Porto e o modo de viver nele.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

"A Torre da Barbela" de Ruben A.


Excerto
"E a multidão que no Jardim dos Buxos entretinha o tempo, em nada se diferenciava das outras multidões: apenas não se viam - viviam no suspenso dos sons. Os que se individualizaram, como Dom Raymundo, o Cavaleiro, Dona Mafalda, Madeleine, etc. é porque em si sintetizavam a necessidade premente de continuar a história do mundo pelas vias da Criação."

"A Torre da Barbela" do português Ruben A., é um romance publicado em 1965, vencedor então de um prémio literário que caiu no esquecimento e agora foi reeditado como uma obra a redescobrir, não só pela sua reconhecida originalidade e temática, mas também por mostrar o papel do seu autor como um importante escritor que deu novos rumos ao evoluir da literatura em Portugal.
O romance é uma obra macabra, centrada em torno de uma torre nas margens do rio Lima no Minho que existe desde os primórdios de Portugal e casa de uma das famílias nobres mais importantes e participativas no evoluir da história do País até ao século XX: os Barbela. Durante o dia o monumento nacional é alvo de visitas diárias onde o guia/caseiro recebe excursões, discursa sobre a heroicidade dos Barbelas e promove as belezas e produtos locais; só que durante a noite são os antepassados ligados à Torre, ao solar e seus parentes próximos que saem dos túmulos e convivem entre si, amam, odeiam e mexericam independentemente do século em que viveram. Estes desfilam com todas as características individuais que tinham quando vivos, construindo um retrato satírico e psicológico das virtudes e defeitos dos fidalgos lusos e dos vícios sociais que moldaram este Povo.
Ruben A. pertencente a uma famílias de vultos da cultura portuguesa no século XX e numa linguagem mordaz mostra um Portugal tacanho, provinciano, sujeito publicamente ao clero católico e em segredo transgressor de toda a moralidade religiosa, uma hipocrisia falsa que inveja o estrangeiro e fala das virtudes e superioridade do seu País.
O autor foi um mestre na arte de escrever bem e utilizar ao máximo os recursos da língua combinada com a imaginação e coexistência de falares, mentalidades e tecnologias de diferentes épocas ao longo dos séculos e aqui extrema estas capacidades. Na obra, cada personagem está amarrada ao seu século: o cavaleiro medieval desloca-se a cavalo sem tal impedir que a sua amada viaje de carro e outro parente já use o avião; tal como numa guerra há a opção do uso da força no homem companheiro de luta de D. Afonso Henriques e os argumentos demagógicos e populistas de um político do século XX. Nesta estória cruzam-se amores infiéis, bastardos, homossexuais, amantes de soberanos, beatas, padres, santos, bruxas, cruzados e marinheiros,  além de uma fábrica de enguias fumadas secular e muito mais.
Apesar destas impressionantes características do romance, da excelente descrição de muitas das belezas paisagísticas, do património cultural do Minho e da imaginação que por vezes me deslumbraram, também houve momentos que me cansaram por serem demasiado prolixas, mas valeu a leitura.

sábado, 30 de maio de 2020

"O Físico Prodigioso" de Jorge de Sena

Excerto
"...Disseste-me também que eu era um deus. E eu sinto que sou. Ou sinto que estou sendo. E é uma coisa insuportável."

Acabei de ler a novela "O Físico Prodigioso" do português Jorge de Sena, obra inicialmente integrada na coletânea de contos do autor "Antigas e Novas Andanças do Demónio", mas que depois da queda da ditadura ficou com o seu texto definitivo, a ter vida própria e foi publicada autonomamente por vontade do escritor.
Uma novela que vai buscar as suas raízes em dois mitos antigos expostos em contos portugueses da idade média que o autor integra num só, numa narrativa do género fantástico, mágico e gótico.
Um jovem inocente e de beleza impressionante desperta a paixão no Demónio que lhe permite poderes fantástico de físico (mago/médico da idade média). Aquele ao banhar-se num lago é descoberto por três donzelas que o cativam para a sua senhoria, uma viúva retida no seu castelo e a definhar de uma doença que se diz apenas ser curada por um jovem belo e virgem. Aceite o desafio irá então desenrolar-se uma evolução orgíaca, a descoberta de um passado sangrento da castelã e momentos de bruxaria que desemboca num tribunal coletivo religioso com juízes (magníficas caricaturas de puritanos cheios de ruindade) que o julgará no obscurantismo da igreja com a intervenção do demónio numa luta entre o misticismo, o castigo da sujeição às tentações e a liberdade individual.
Uma narrativa onde a língua portuguesa é trabalhada com genialidade numa escrita criativa que vai da prosa à poesia com timbre medieval e textos paralelos que põem frente a frente o ocultismo da época, o erotismo e o misticimo religioso, puritano e castrador. Jorge de Sena cria uma trama que está entre um conto das mil e uma noites numa cultura cristã e um história gótica de terror e luta com a religião e o demónio, qual deles mais pernicioso ao homem e à liberdade neste contexto.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, é seguida por uma pequena nota explicativa de Jorge de Sena sobre os mitos em causa e excertos dos dois contos medievais que serviram de inspiração a esta obra, o que permite uma compreensão mais vasta que a simples leitura da narrativa.
Uma obra diferente com insinuações eróticas tratadas na liberdade de um mundo fantástico como projeções de sonhos livres sem as inibições sociais e morais dos desejos, o que pode ferir sensibilidades, mas que me deu um enorme gozo de leitura, pela imaginação e o tratamento da língua lusa.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro


Excerto
"eu julgava que se um homem fosse económico, podia, só com o seu trabalho, levantar a cabeça."

Acabei de ler o romance "A Lã e a Neve" de um dos escritores portugueses da primeira metade do século XX mais traduzidos internacionalmente, sobretudo conhecido por "A Selva": Ferreira de Castro.
Durante a II Guerra Mundial, Horácio, que desde a adolescência fora pastor na serra da Estrela, acabou de concluir o serviço militar na região de Lisboa e voltou a Manteigas cheio de planos: adiar o seu casamento com Idalina para construir uma casa com as condições das que viu pela capital para a sua mulher e filhos, deixar de guardar rebanhos dos outros e ser operário numa fábrica de lanifícios na Covilhã, mas aos poucos descobre as dificuldades em concretizar os seus sonhos: primeiro as dívidas dos pais e a oposição dos futuros sogros obrigam-no a ter de continuar a subir a serra com as ovelhas, depois, quando consegue o emprego desejado, verifica que a miséria dos salários é um mal geral e os colegas que lutam no sindicato sujeitam-se a perseguições do regime, mas eis que surge um programa habitacional municipal e o fim da guerra, só que a crueza da vida não o larga.
Escrito com um grande domínio da língua portuguesa e recurso a numerosos vocábulos já desusados e termos técnicos da laboração têxtil e da pastorícia, Ferreira de Castro é exímio em mostrar a conjugação da beleza da região serrana com a dureza da vida dos seus habitantes pobres, tanto pastores como operários, e evidencia os abusos dos mais poderosos na zona durante os anos da guerra e a seguir. A obra é um verdadeiro prenúncio do estilo neorrealista e só se distingue deste por o protagonista não ser um lutador político, só um esforçado trabalhador que vai descobrindo a injustiça de que o trabalho não permite sair da miséria, mas sem o levar a uma revolta pública.
Gostei, tirando os vocábulos desconhecido, é de leitura fácil, mas é uma obra muito dura pelo retrato social que faz.

sábado, 14 de dezembro de 2019

"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa-Luís


Excertos
"O que sabem as mulheres dá para arrasar montanhas."

"A experiência faz o cavalheiro, o treino faz a profissão."

" - Abandonas a política? ...
- Nunca. É como uma árvore que não dá fruto mas que dá sombra."

Acabei de ler o último romance escrito por Agustina Bessa-Luís (escritora portuguesa de culto, talvez aquela com a produção literária mais profícua do século XX de cerca de 50 livros, maior número de prémios e recentemente falecida): "A Ronda da Noite".
O romance roda em torno da vida de Maria Rosa: uma mulher bonita, casada no Porto na família burguesa Nabasco, que gosta de se vestir bem, ir às compras e de receber na sua casa amigos que comentam a sociedade portuguesa. A narrativa também se debruça sobre o neto Martinho que a protagonista criou e vive na mesma casa. Os Nabascos ricos vivem ociosamente do seu nome, das relações sociais com um passado próximo da realeza e do seu património constituído por moradias rurais e no Porto. O marido de Maria Rosa tem um quadro que não se sabe de onde veio, se é o original ou uma réplica de A Ronda da Noite de Rembrandt, esta obra vai impondo a sua presença na família e no desenvolvimento da personalidade de Martinho, que não tem uma profissão, se ocupa do restauro das casas da família e para o qual a avó até lhe criou e lhe entregou a mulher, órfã, acolhida e filha de uma mãe assassinada e de pai preso.
Como na generalidade dos romances de Agustina, as mulheres são as personagens fortes, neste Martinho ocupa um papel relevante, mas a sua fragilidade, inadaptação social e indecisão servem de contraponto à força de Maria Rosa. A narrativa é marcada pelo seu estilo habitual de divagações a partir de um tema que vão divergindo e entroncar-se noutro e retomado outra sequência, onde a estória vai sendo composta por sobreposição deste fluxos narrativos aparentemente caóticos.
Assim, como habitual nos livros que li de Agustina, a estória dá-me a sensação de se ir compondo lentamente como no pintar de um quadro a espátula que vai traçando diferentes manchas, ora num local da paleta, ora noutro e a imagem vai sobressaindo desta montagem.
Pelos ditos sábios de Maria Rosa que não carecem de demonstração, dos seus criados mais próximos, pelos hábitos do marido, pelas conversas oportunistas dos amigos onde uns vão desaparecem novos e outros a acompanham e envelhecem, pelos reparos do comportamento social do norte e dos portugueses, pelas denúncias dos vícios ocultos dos Nabascos ou da burguesia portuense, pelas mudanças de comportamento desde o tempo do Estado Novo, Revolução de Abril, democracia e integração Europeia, pelos interesses da sua filha como herdeira do património da família, casada em segundas núpcias com um oficial da armada em Lisboa e mãe dos outros netos distantes, "os cadetes" com um estilo mais contemporâneo e urbano; Agustina faz um retrato social do Portugal burguês, do norte do País e das pessoas que vivem em torno deste estrato social e do evoluir político.
Entretanto, a Ronda da Noite, que obrigou a obras em moradias para o seu acolhimento, que se suspeita do seu elevado valor, vai-se impondo cada vez mais pelas suas personagens e diferentes, posturas no quadro sobretudo a Martinho, até à solução final e degradação desta família.
As obras de Agustina, são assim: peças de culto, para muitos difíceis, que se vão abrindo ao leitor que se entregar passivamente a uma narrativa sem pressa e sem uma linha única do tempo ou espaço que no fim compõe um excelente quadro como o da mais famosa obra de Rembrandt e eu continuo fã desta escritora que de forma única mostra este Portugal cheio de defeitos mas de que se gosta.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Antigas e Novas Andanças do Demónio" de Jorge de Sena


Acabei de ler "Antigas e Novas Andanças do Demónio" do português Jorge de Sena, naturalizado brasileiro por fuga à ditadura e depois autoexilado nos Estados Unidos pela mesma razão.
Considerado uma dos maiores escritores de ficção, ensaio e crítico de literatura português de meados do século passado, este livro é uma coletânea de contos publicados em dois editados ao longo da década de 1960 em Portugal: Andanças do Demónio e Novas Andanças do Demónio.
Os diferentes contos têm estilos diferentes, nota-se que Sena experimentou correntes literárias como o neorrealismo, o realismo mágico e o simbolismo, entre outras, e dissertou sobre temas variados: textos com personagens bíblicas e históricas, demência geriátrica e de ideologia ditatorial, solidão, erotismo e paganismo, por onde atravessam males da humanidade ou que a influenciam nesse sentido, ora com humor, ora em retrato negro, toca estilos infantis e também reservado a adultos.
Alguns contos divertem: "A Razão de o Pai Natal ter barbas brancas" onde o menino Jesus narra com inocência infantil e humor como escapou aos ardis do demónio, abre esta série e ouvi-o ainda adolescente. Foi a saudade deste texto que me fez comprar o livro e li-o no mês do centenário do nascimento de Jorge de Sena.
A velha solitária que da janela se excita a espreitar um par de jovens apaixonados com um final surpreendente; o oficial nazi que expõe a sua justificação da supremacia germânica para tolerar abusos sobre homens, mulheres e crianças de outros povos; os últimos dias difíceis, na miséria e doente, de Camões apoiado por sua mãe; e o diálogo do convertido Paulo de Tarso com um chefe da casa de imperadores como Tibério e Nero onde ocorrem atos sádicos por prazer no palácio; são contos que marcam o leitor, não pelo prazer mas pelo choque da crueza do conteúdo.
Os milagres do frade para vencer os salteadores e as embrulhadas genealógicas que o espírito da sua árvore acompanhou através de mortes e reencarnações das gentes da sua aldeia em diferentes animais típica das crenças animistas que além de lições de moral são contos atravessados por humor.
Esta edição têm ainda os prefácios originais dos dois livros originais e notas escritos pelo autor. 
Jorge de Sena escreve muito bem, embora com tendência para parágrafos muito extensos com uma sequência de muitos pormenores, ideias encadeadas e riqueza lexical que exige atenção e esforço para acompanhar a narrativa, por vezes fez-me lembrar Proust, mas sem dúvida é um mestre no domínio da língua portuguesa. Espero voltar a este distinto escritor.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

"Eu creio que a Verdade Crua Cura" de Nuno Sobral


Acabei de ler a obra de ficção "Eu creio que a verdade crua cura" do português Nuno Sobral, residente em Aveiro que conhece este blogue e por ele tomou a iniciativa de me oferecer o seu segundo livro, recentemente publicado e sem qualquer contrapartida.
Estamos perante uma pequena obra dividida em três partes: 1ª. Prólogo, onde em primeira voz se ouve Maria Baptista a contar a sua vida de criança acolhida, abusada pelo trabalho e sexualidade, entregue para casar, viúva numa década que depois para sobreviver se tornou bruxa, mantendo as obrigações da sua religião. 2ª. Narrativa, dividida em capítulos, onde alguém conta uma ação de Maria feita a pedido de um padre na sequência do apelo de Briolanja, afilhada de Juliana e por esta acolhida e escravizada, que assistiu à morte desta a profetizar que encarnaria num gato enquanto o seu próprio desaparecia tal como a sua fortuna. 3ª. Epílogo, onde Juliana conta as sua desditas da vida, a importância do seu animal até ao esconderijo do seu tesouro. Deste modo, num jogo de espelhos e a três vozes se completa a estória cuja estrutura e dimensão estará entre um conto extenso e uma pequena novela.
A primeira e última parte do texto têm o tom das lendas rurais sobre mulheres infelizes cujo amor por elas passou rápido e se foi. A narrativa central parece um conto de Edgar Allan Poe com tom de mistério e junção do sobrenatural e análise pseudocientífica da crendice, aqui temperada por um humor sarcástico do terror típico da ignorância popular e dos aproveitamentos dos oportunistas.
Nuno Sobral escreve de forma escorreita numa prosa poética e com agilidade e criatividade capaz de dar às diferentes partes tons distintos sem a obra perder a sua homogeneidade interna, o que dá prazer descobrir e ler.
Gostei deste pequeno livro e recomendo a sua leitura a quem quer conhecer pérolas literárias que se publicam em Portugal fora do círculo imposto pelas grandes editoras nacionais onde abundam interesses comerciais que ofuscam estas preciosidades.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires

Citações
"Na Comarca dos Doutores onde se via pobreza devia ler-se modéstia"

Acabei de ler a pequena obra de José Cardoso Pires "Dinossauro Excelentíssimo" escrito entre 1969 e 71 como uma fábula satírica ao ditador Oliveira Salazar que desde o original tinha um conjunto de desenhos a representar o texto e curiosamente o livro passou pela censura e até serviu de argumento de que havia liberdade de imprensa no Portugal então.
A obra pretende ser um conto narrado a uma criança: Ritinha, nele se fala do nascimento de uma criança de família humilde em meio rural cujos senhores da terra discutiam o seu futuro, tendo os pais conduzido-a à Universidade na Cidade dos Doutores deste país onde o povo era mexilhão ignorante que sofria às mãos dos DêErre. Depois com o Estado caótico os Conselheiros DR vão buscá-lo para gerir o País e este cria uma revolução das palavras, fecha-se na sua torre onde doutrina com aplausos os mexilhões que dão graças à sua pobreza defronte da sua Estátua que mostra aquele poder estático, enquanto os Conselheiros aplicam as leis emanadas por este Dinossauro e asseguram a sua idolatria, um Mestre tão isolado em sofrimento pelos seus mexilhões... até que um acidente fará que haja um líder que  pensa governar quando na realidade os Conselheiros criaram um executivo paralelo e com a ideia que tão Excelentissíma pessoa ainda dirige estes mexilhões. 
O texto imensamente divertido está cheio de referências metafóricas e satíricas dos honrosos elogios ocos dados a Salazar e ao regime, muitas vezes com paráfrases e excertos de provérbios e ditos populares que insinuam a verdade oculta e denunciam a realidade do Portugal miserável e ignorante de então, através do recurso a uma escrita criativa que trabalha de uma forma magistral as palavras, a pontuação e a forma de impressão na obra decompondo e metamorfoseando estes aspetos de modo a insinuar problemas reais sem os dizer.
Lendo este livro não compreendo como esta fábula satírica ou paródia à ditadura passou o crivo da censura, a verdade é que José Cardoso Pires com os seus romances abriu horizontes literários em Portugal e foi através dele que me reconciliei com literatura que se fazia neste País nas décadas de 1960 e 70 e foi com ele que saltei dos simples livros de entretenimento policiais e fáceis para obras mais profundas e ricas. Dinossauro Excelentíssimo mostra bem o valor, a imaginação e a frescura deste escritor que me cativou que há anos não lia, um excelente e divertido livro melhor compreendido para quem sabe a história da ditadura do Estado Novo e sobretudo os seus anos finais.

domingo, 13 de outubro de 2019

"Autobiografia" de José Luís Peixoto

Excerto
"... os segredos sem alguém que os guarde são o desconhecido."
"Muitas vezes , os outros não nos deixam mudar porque não estão dispostos a mudar a forma como nos veem, fazê-lo  implicaria que eles próprios mudassem."

Já foram muitos os livros que li do atual escritor Português José Luís Peixoto (JLP). Aliás, foi com ele que despertei para a literatura que se ia fazendo neste País no início do século XXI pelas novas gerações, logo, sempre que leio quem já tanto me impressionou qualquer nova leitura arranca numa perspetiva elevada. "Autobiografia", tão divulgado e cheio de elogios críticos nos OCS, obriga-me a que a minha apreciação a este livro tenha de ser liberta de ambos efeitos.
"Autobiografia" recentemente publicado passa-se em 1997/98 quando José, um jovem com vontade de se tornar num bom escritor, com apenas o seu primeiro romance publicado, pretende escrever o segundo e se vê perante a encomenda de fazer uma biografia ficcionada do já reconhecido autor José Saramago e com este entra em contacto para levar a cabo esse trabalho. Paralelamente, Saramago não só lê em segredo o único livro de José como revê nele as suas angústias e potencialidades de iniciante na arte literária no começo da carreira. Decide então ajudá-lo sem José se aperceber, até porque este também está a lutar com vícios privados que o conduz a situações extremadas e uma relação amorosa  que perturbam a sua perceção da realidade.
A partir destes temas JLP constrói uma teia de textos que intercalam pura ficção, apresentação de aspetos reais da vida de Saramago até à atribuição do prémio Nobel e ainda reconstruções imaginadas do passado deste, a que mistura o dia-a-dia da personagem José e das pessoas à sua volta, família, amante e amigos, bem como excertos do seu trabalho biográfico e descrição dos contactos dele com o escritor. Deduz-se a integração e recriações das memórias do verdadeiro intercâmbio ocorrido entre Saramago e JLP, em parte associado à atribuição do prémio Saramago a este, então um jovem escritor e recebido pelo seu segundo romance.
Assim, este livro com influências pós-modernas de fusão da ficção com a realidade, a inclusão de notas de rodapé do protagonista sobre o texto que estaria a escrever, a menção de obras importantes de Saramago e uma escrita criativa que mistura estilos distintos para expor realidades diferentes e ainda com a própria forma de escrever de JLP, que no presente já não consegue me surpreender como nos seus primeiros livros. Tudo isto gera um jogo de espelhos da admiração de JLP a Saramago e o respeito deste àquele demonstrado quando da aproximação entre os dois, a que acresce as angústias de um escritor enquanto jovem versus a maturidade do idoso reconhecido já como mestre.
Nem sempre leitura é fácil, não só porque este jogo de espelhos nem sempre é evidente no início de cada parágrafo, como também os saltos no tempo e entre a realidade e a ficção levam a que o leitor se possa perder ou estranhar o teor da narrativa numa escrita que não perde a criatividade e poesia na diferentes formas. Gostei e para quem gosta dos dois escritores por trás desta obra ou queira conhecer as dificuldades desta carreira recomendo este romance, cheio de particularidade e originalidades.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

"Um Crime na Exposição" de Francisco José Viegas


Excerto
"A Expo  é esse desígnio e nada a pode prejudicar, nem um crime, nem dois, nem, muito menos, três crimes como parece ser o caso. Três crimes destes seria a glória de qualquer romancista, evidentemente, não se desse o caso de estarmos a falar de Expo."

"Um crime na Exposição" de Francisco José Viegas (FJV) é o segundo romance deste escritor que leio. Uma personalidade pública dos média portugueses e se a primeira obra me tinha interessado, a segunda fez-me render ao seu  estilo particular de literatura policial.
O inspetor Jaime Ramos foi remetido do Porto para Lisboa durante a Expo'98 como pena de uma exaltação excessiva com um criminoso. Na Exposição ocorre o crime de um biólogo marinho encontrado no aquário, um investigador de rocaz-dos-Açores e a quem lhe cortaram um dedo do pé. Dois dias a seguir uma colega do oceanário, mexicana e amante daquele, também estudiosa da mesma espécie, é morta com evidências do crime ter sido perpetrado pelo mesmo autor. Segue-se o assassínio de uma arquiteta paisagística desta feira. Tal série tem o risco de gerar um escândalo que estoire o desígnio de Portugal neste evento. Entretanto, líderes políticos aproveitam-se para atacar o governo, existem relações diplomáticas em perigo por as vítimas estarem ao serviço de diferentes países ou terem aparecido em pavilhões de Estados estrangeiros. O protagonista - desenraizado do seu Porto nesta capital que lhe é estranha, com o seu vício por cigarrilhas dos Açores, a sua paixão pelo seu clube e com o seu habitual ajudante Isaltino de Jesus - vê uma teia que envolve amor, traição e espionagem científica internacional, ausculta o subinspetor Filipe Castanheiro em Ponta Delgada sobre as atividades universitárias nos Açores das vítimas, onde um cadáver é descoberto aparentemente sem qualquer relação e um professor disserta sobre estes jovens.
A originalidade da narrativa de FJV está que a investigação policial não gera um suspense acelerado. A intriga é um acessório que se vai desenrolando aos poucos, com pistas e descobertas ao ritmo do dia-a-dia, sendo atravessada por divagações, comportamentos e palavras das personagens sobre a solidão e o envelhecimento masculino; as paixões e os vícios dos portugueses, e à descrição poética da beleza geral e dos recantos magníficos que existem nos locais da ação. Uma divulgação dos principais atrativos do País e Regiões citadas.
Na narrativa há ainda a interferência de personalidades e entidades públicas reais que agem de forma coerente com a imagem delas e, de uma forma saudável, expõem-se as rivalidades conhecidas entre as instituições as pessoas mencionadas, fazendo-se uma crítica com humor à sociedade portuguesa.
Não conheço nenhum açoriano que descreva de forma tão encantadora e solitária a ilha de São Miguel e a cidade do Porto como as personagens criadas nos livros de FJV, cuja força permite que as mesmas atravessem já um conjunto de romances de anti-heróis que marcam o leitor. Por tudo isto gostei muito desta obra que é também um livro de viagens por Portugal e pela Expo'98 com uma escrita bem cuidada e de qualidade, cujo cerne é um romance policial mas não um thriller.