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sexta-feira, 1 de maio de 2026

"A Mais Secreta Memória dos Homens" de Mohamed Mbougar Sarr

 


Acabei de ler o livro "A mais secreta memória dos homens" do escritor do Senegal Mohamed Mbougar Sarr, obra vencedora em 2021 do prémio literário mais prestigiante de língua francesa, Goncourt.

"O labirinto do inumano" é o título de uma obra publicada na década de 1930 em Paris que teria então  impressionado os meios literários franceses. Primeiro, pela qualidade da sua originalidade, segundo, pela admiração de se estar perante um provável autor africano e este ser capaz de uma tal obra-prima que rivalizava com a genialidade apenas considerada possível a escritores brancos. Depois veio a sua aniquilação pelos ataques de que foi alvo ao ser considerada como uma manta de frases plagiadas de grandes autores e, ainda baseada numa história não original proveniente da mitologia africana. Diégane, um estudante senegalês em Paris já no século XXI deambula pelo meio académico de origem africana e tenta descobrir o livro e informações sobre o seu autor: T C Elimane, mas parece que tudo foi apagado em torno deste fenómeno, é então que cruza num bar com uma escritora compatriota e reconhecida na Europa que mostra o livro e começa então uma rede de narrativas sobre o autor, as especulações sobre a sua vida e a sorte de todos os que se cruzaram com ele ou com "o labirinto do inumano".

O romance, que é na base uma busca detectivesca em torno de um livro e do seu autor, torna-se num conjunto de narrativas entrecruzadas sobre a vida e as ideias do jovem e de vários outros autores e do próprio Elimane e sua família, que no conjunto disserta sobre o que é a literatura, o que é ser um escritor, os seus ideais e a realidade do mundo literário. Sensatamente fala do preconceito europeu sobre a superioridade da sua arte e criatividade, do sonho em muitos colonizados em se mostrarem iguais ou mais capazes que os seus colonizadores, da vida solitária do escritor e das suas desilusões e ambições, dos regimes africanos falhados, do ideal da literatura transversal a vários continentes na civilização ocidental e das paixões humanas que interferem com tudo isto. 

Algumas personagens são escritores reais, como Sábato e Gombrowicz, outras puramente imaginárias, num texto rico, racionalmente sentimental de grande beleza e ternura que mostra as tensões e razões dos vários intervenientes e os problemas do colonialismo e da literatura e as feridas e cicatrizes que tudo isto deixa à sua volta. Um excelente romance pela qualidade do texto e conteúdo que vale a pena ler que pelo mérito justifica o prémio alcançado. Gostei muito

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah

Estreei-me no escritor, presentemente de língua inglesa, do arquipélago do Zanzibar na Tanzânia, Abdulrazak Gurnah, laureado com o Nobel da literatura em 2021, lendo um dos seus romances mais conhecidos "Junto ao Mar".
O romance começa com o narrar do idoso Saleh Omar da sua entrada como fugitivo do Zanzibar num aeroporto de Londres com o passaporte de Rajab Shaban, transparecendo que não sabe inglês, e com uma caixa de incenso apenas como principal bagagem. Após relatar o contacto com o agente de imigração e com uma voluntária para refugiados, é acolhido num centro de abrigo, onde buscam um tradutor para comunicar, encontram Latif Mahmud, este, igualmente um refugiado já naturalizado, suspeita de um usurpador do nome do seu pai, enquanto o primeiro desconfia que se trata do filho do homem de quem tomou a identidade. Entre o receio e a curiosidade, depois de alojado dá-se o encontro entre ambos e a narrativa passa para a história das duas famílias da parte de cada um: as falhas, os erros, as retaliações e as perseguições com a independência e os excessos de qualquer revolução que permitem um conhecimento mútuo e o crescimento de uma amizade inesperada.
Numa narrativa pouco acelerada, em parte nostálgica, em parte sentimental, a dar a conhecer a vida dos refugiados, das vítimas do fim da colonização e da guerra fria em África; o autor mostra com olhar africano o que foi a vida na parte oriental deste continente e as ligações históricas e comerciais entre os povos banhados pelo Índico.
Uma obra de divulgação civilizacional e cultural de uma parte do mundo muitas vezes esquecida ou contada apenas pela perspetiva europeia e vale conhecer pelo outro lado.
Gostei e deu para perceber a argumentação do comité Nobel das razões do galardão de literatura atribuído a Abdulrazak Gurnah. Fácil de ler e recomendo a quem quer alargar os seus conhecimentos sobre esta região de uma forma simpática e agradável.
 

domingo, 4 de janeiro de 2026

"Os Informadores" de Juan Gabriel Vásquez

 

Citação

"Porque as falhas herdam-se; e herda-se a culpa; cada um paga pelo que fizeram os seus antepassados, isso toda a gente sabe."

Estreei-me na leitura do escritor colombiano: Juan Gabriel Vásquez, com o presente romance "Os Informadores", país que conheço muito mal e de quem lera apenas obras do famoso Gabriel García Marquez.

Gabriel Santoro publica um livro baseado nas memórias que gravou de uma amiga de família sobre a vida na Colômbia da comunidade alemã refugiada ou imigrada naquele país que depois se tornou alvo de discriminação durante a II grande guerra, mas estava longe de prever que o principal detrator público da obra seria o seu homónimo pai, uma personalidade influente que chega ao corte de relações, até ao dia em que a doença deste o obriga a aproximar-se do filho, mas a sua morte inesperada é seguida de um escândalo sobre a ética do seu passado, começa então a buscar o que causou incómodo a partir da sua amiga, descobre então que a sua obra recordou traições e erros de cuja mancha se sente herdeiro.

O livro está dividido em várias partes, na primeira descobrimos o conteúdo da obra que Gabriel publicara e o que era a sociedade colombiana nas décadas de 1930/40, acompanhado da busca em compreender a aversão do pai ao seu conteúdo, a aproximação familiar com a doença e o renascer do progenitor. Após a morte de Santoro sénior, ele descobre o que não lhe fora comunicado antes pela sua fonte, o incómodo e a vergonha que o livro trazia à memória do pai, uma referência pública de ética, o que origina um segundo livro. Por fim,  fruto dos livros, dá-se o encontro  com as vítimas e a análise das feridas que ainda persistiam.

O texto divide-se entre o tom de memórias, com relatos do passado, reflexões das personagens sobre o essa época e a realidade social da Colômbia durante a guerra e hoje, bem como o evoluir da situação no presente em resultado do livro, é uma narrativa exposta de uma forma original, que intercala factos históricos, com personagens fictícias e reais, entusiasmei-me menos do que a obra merece, talvez por a ter lido no período natalício, pois reconheço a grande qualidade do romance e deixou-me curiosidade suficiente para querer voltar ao escritor que me parece ser uma alguém emergente e original na literatura latinoamericana atual.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

"A Matéria das Estrelas" de Isabel Rio Novo


Tenho lido que Isabel Rio Novo é uma das novas vozes literárias portuguesas mais promissoras e isso deixou-me curioso, entre os títulos disponíveis, verifiquei uma frequente abordagem a narrativas com personagens doentes e como a sua obra mais recente envolvia os Açores, optei por "A Matéria das Estrelas".
Em janeiro de 1971, Jacinto Silva Fernandes, com 20 e poucos anos e oficial num navio da marinha portuguesa ancorado em Ponta Delgada, falta à chamada. Descobrem-no em coma num apartamento arrendado na cidade, sobrevive, mas fica inválido e demente. Eduardo, médico amigo da família, vai então reconstituir a vida deste jovem promissor a partir de cartas e da documentação pessoal fornecida pela mãe, que o acompanha e nunca desiste de saber a causa para o reabilitar. A Jacinto, de ascendência açoriana, coube-lhe o papel na escola do navegador Bartolomeu Dias, e ele parece uma réplica moderna do marinheiro: uma grande promessa, a quem foi entregue o papel de preparar rotas para outros brilharem e desaparecido antes de grandes oportunidades. Efetivamente, um segredo da família parece ensombrá-lo, preconceitos do regime conservador e hipócrita da ditadura que permitem deduzir, no fim do livro, o que destruiu a carreira promissora de Jacinto.
Numa escrita sensível, elegante e sem devaneio de criatividade modernista, a narrativa, num relato melancólico, entrecruza, no tempo e nos espaços, as deduções de Eduardo do que fora a vida da família Silva, das tensões internas, o que estava a ser a carreira de Jacinto dada a correspondência enviada por este à mãe em que dá a conhecer os Açores e as colónias visitadas, bem como, excertos do que teria sido a vida do navegador sombra: as semelhanças, as angústias e as promessas de futuro. 
O romance não só faz uma fotografia da vida de uma família conservadora com ligação ao mundo militar, como descreve várias ilhas dos Açores e disserta sobre a época dos descobrimentos, contudo, uma sensação de frustração e tristeza atravessa toda a narrativa, além de algumas liberdades ficcionais do Arquipélago no início dos anos 1970 que para quem se recorda desse tempo, como eu, incomoda a leitura. Muito fácil de ler.

sábado, 15 de novembro de 2025

"Solitária" de Eliane Alves Cruz

 

Ao seguir este blogue, decidi conhecer a escritora brasileira Eliane Alves Cruz, cujo romance que encontrei disponível no momento de compra foi "Solitária" que também me motivou pelo tema.
Eunice é uma empregada doméstica e ama numa família rica. Ela, depois de abandonada pelo marido, traz a sua filha, Mabel, para o pequeno quarto destinado à criada dos patrões. Numa primeira parte vemos uma sucessão de episódios curtos ao longo dos anos pelos olhos da criança de como a mãe é explorada e de como outros empregados dos amigos dos patrões são acusados dos erros dos empregadores. No prédio conhece outras explorações dos favorecidos, contacta os filhos do porteiro e com o crescimento as relações amadurem, bem como as e ambições de um futuro melhor que os dos pais, que confundem subserviência explorada com amor aos empregadores.
Na segunda parte, igualmente em pequenos capítulos, vemos o despertar a longo prazo de Eunice para a sua situação e o modo como não se apercebeu do crescimento da filha e seus amigos, até que um acidente a obriga a decidir-se viver e dar prioridade à sua família. Na terceira assistimos de uma forma original à correção dos erros passados.
Numa escrita simpática e com sentimento, Eliane monta uma narrativa agradável de se ler que é um manifesto contra as escravaturas no mundo atual, a sede de justiça dos explorados contados no feminino. Uma obra pouco extensa, quase uma novela, que se lê muito bem. Gostei

terça-feira, 22 de julho de 2025

"Os cus de Judas" de António Lobo Antunes

 Citação

"... é a nossa própria morte que tememos na vivência da alheia e é em face dela e por ela que nos tornamos submissamente cobardes."

Não sei há quanto tempo, nem onde comprei "Os cus de Judas" um dos primeiros romances deste escritor português considerado por muitos como merecedor do prémio Nobel da literatura.

Numa noite de solidão do narrador, num bar noturno em Lisboa, este, perante uma mulher que deve então ter conhecido, expõe-lhe as suas memórias de criança até à ida para a guerra em Angola como médico. Ali prestou serviço perto de dois anos junto às frentes de combate, em lugares distantes e ermos (popularmente "cus de Judas") do leste daquele território. Ficamos a conhecer o menino mimado olhado pela sua família aristocrática que via no serviço militar o modo de alguém se tornar "homem"... recém-casado parte para a guerra numa viagem de gente infeliz, vê a Luanda da década de setenta, parte para o interior onde assiste à inutilidade da guerra para manter um regime na Capital e o bem-estar de umas poucas famílias, exploradoras da população africana, indiferentes à dor, morte, desilusão e desespero daqueles jovens, vigiados pela PIDE e que se distraíam no uso de mulheres locais. Anos depois não consegue ultrapassar os traumas, o arrependimento da sua cobardia, o que o leva ao fim da sua relação matrimonial, sustenta as lembranças da filha e ao encontro com mulheres que depois traz para o seu apartamento à noite como esta após muito álcool.

Uma narrativa que terá muito de autobiográfico, talvez também, para exorcizar a revolta silenciada do autor por medo do regime em vigor em Portugal durante a guerra colonial e publicado pouco a seguir à época revolucionária de desforra do passado. Um texto com muitas metáforas sucessivas com longos parágrafos e a uma única voz, já que as personagens brotam do testemunhado do narrador. As descrições possuem numerosas referências a grandes obras e artistas do mundo da pintura, da literatura, da música, etc., mas sem citações, apenas referências, comparações.

Apesar de ser um obra de sofrimento, com momentos muito duros de violência psicológica e humana, não existem relatos de batalhas, tudo se passa na retaguarda das frentes de combate nos cus de Judas, onde o médico está a receber e a tentar salvar as vítimas físicas e os derrotados psicologicamente por tudo o que ali se assiste e ele socorre.

Um pequeno grande livro de guerra, duro e onde se mostram as feridas que ficam na alma depois das batalhas por muitos e muitos anos.

terça-feira, 24 de junho de 2025

"Zona" de Mathias Énard

 

Citação

"... estamos todos ligados uns aos outros pelas amarras indissolúveis do sangue heróico, pelas intrigas dos nossos deuses ciumentos..."

Estreei-me num dos mais originais escritores atuais de França: Mathias Énard, com uma das suas obras mais singulares e premiadas, "Zona".´

Francis quer deixar o seu passado e com uma identidade falsa está na estação de comboios de Milão numa ligação para Roma onde é abordado por um louco que lhe fala do fim do mundo. Este incidente irá levá-lo no resto da sua viagem a refletir sobre o que foi a sua vida, as suas relações amorosas e as repetições dos atos de violência por muitas outras vidas que também amaram e construíram a história da Europa. Numa sucessão de pensamentos, descobrimos o que ele foi depois de ter sido voluntário no exército croata na guerra civil dos Balcãs do final do século XX, nesta matou, foi violento, viu as atrocidades da guerra e perdeu amigos de luta. Na sua nova função circulou por toda a bacia do Mediterrâneo e recolheu dados de numerosos casos de comportamentos atrozes no passado do Continente, incluindo de seus antepassados, envolvendo homens de cultura como escritores, fotógrafos, filósofos, bem como espiões, militares e executivos políticos que foram gente degenerada e autores de tantos horrores.

Aos poucos vamos conhecer intervenientes e comportamentos medonhos na guerra civil de Espanha, no genocídio nazi, na Itália fascista, na luta da independência e ditadura da Grécia, na guerra de Israel com os seus vizinhos Palestinianos, passamos pelo Líbano, a Síria, a Argélia, Marrocos e Egito, recuamos aos homicídios da primeira grande guerra do século XX, ao genocídio Arménio e vamos até o tempo da batalha de Lepanto, a queda de Constantinopla sempre à sombra das vontades dos deuses gregos ávidos de sangue nomeadamente na batalha de Troia e sua redescoberta.

A narrativa é constituída por XXIV capítulos mas apenas um único parágrafo de mais de 400 páginas, sem pontos finais, com menos vírgulas face ao normal e sinais de interrogação limitados ao mínimo, quando geraria dúvidas não estarem lá. Nas deambulações de Francis muda-se de lugar, de tempo e de sujeito em cadeia. Este extenso parágrafo é intercalado por dois capítulos não sucessivos, onde é exposto um conto da guerrilheira Intissar da OLP em Beirute, este com pontuação regular e integrado num livro que Francis leva, lê e interrompe os seus pensamentos.

Apesar de várias personagens em torno de Francis serem ficcionais, há numerosos e extensos relatos em torno de pessoas históricas e ocorrências conhecidas com nomes no campo da cultura, da guerra e da política que vão desde Espanha ao Médio Oriente, ao genocídio dos judeus e dos arménios, do império Austro-húngaro que envolvem Cervantes, Caravaggio, Céline, Ezra Pound, Wlliam Burroughs, Malcom Lowry, Millan Astray, Rudolf Hess, Brasillach, Globocnik e muitos outros associados aos locais por onde a narrativa passa, com relatos de situações negras da vida pessoal deles, referências a livros, quadros e descrição de atrocidades públicas cometidas na bacia do Mediterrâneo, isto de modo a montar uma edifício gigante de horrores, derramamento de sangue e de loucuras que pesa na história de toda esta bacia, berço da civilização ocidental, onde tudo está ligado num campo de batalha sob os desígnios dos deuses gregos, cuja memória e culpa Francis de que se quer libertar.

Nem uma única vez Portugal é mencionado, fascismo, nazismo, sionismo, colonialismo e outros ismos terríficos ocorridos em espaços que não bordejem este mar não são desenvolvidos na obra, daí o Estalinismo e afins de esquerda passarem praticamente incólumes.

Descrições sublimes de algumas cidades como Salónica, Alexandria, Tanger, Beirute, Istambul, Veneza, Trieste, Barcelona e algumas ilhas Gregas e referências a obra de arte como canções, com destaque para Lili Marleen, livros históricos, de poesia e grandes romances, fotos, pinturas e acontecimentos históricos, que já fizeram notícias dos jornais do meu tempo como a guerra dos Balcãs e do Médio Oriente, entram cheios de vida neste parágrafo.

Uma técnica nova de escrita obriga o leitor a encontrar o seu modo de leitura, o que para começar não é fácil, aceitei as memórias narradas como uma sucessão de pequenas ondas que se vão espraiando na praia enquanto eu as olho meio mergulhado e me deixo banhar sem me preocupar com a anterior ou a seguinte, depois tudo flui e se vai encaixando no seu lugar, o tempo, o lugar e os autores e a partir daí é degustar esta ondulação que nos vai banhando até à última página. Gostei muito, apesar de não ser uma obra fácil, cheia de informações históricas e culturais, um texto que não deixa de desafiar um amante de literatura.

sábado, 7 de junho de 2025

"O Problema Final" de Arturo Pérez-Reverte

 

Citação

"Tratando-se de seres humanos, nunca se deve atribuir à loucura o que se pode atribuir à perversidade"

Voltei ao versátil escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte com a leitura do seu mais recente romance, agora de género policial: "O Problema Final" mas onde, intencionalmente, revisita o estilo de tantos livros clássicos do mesmo género da primeira metade do século XX.

Em junho de 1960, numa pequeníssima ilha grega, ao largo de Corfu e com apenas um hotel, ficam retidos nove hóspedes por questões meteorológicas, quando se dá a morte de uma destes, inicialmente parece um suicídio num quarto fechado, só que entre os presentes encontra-se Hopalong Basil, um dos principais atores de filmes de Sherlock Holmes na primeira metade do século que encarnou muito do caracter da sua personagem, bem como, um escritor com algum sucesso de livros policiais, provavelmente medianos e conhecedor da obra de Conan Doyle, que são indicados pelos presentes para tentar desvendar o caso, que assim assumem o papel da dupla Sherlock e Watson. Após o aparecimento de indícios cada vez mais evidentes do crime, dá-se uma segunda morte, novamente em quarto fechado e quando o círculo aperta, a terceira surge com evidências bem diferentes. Será que o ator de Sherlock por excelência conseguirá igualar a sua personagem? Uma obra com surpresas até às últimas páginas. 

Numa excelente qualidade de escrita, a obra do género policial, onde a sagacidade e minúcia de observação do investigador está acima do género negro mais recente, em que a violência da descrições, o suspense do ato seguinte se sobrepõem à frieza da análise que vai sendo exposta na narrativa e discutida entre protagonista e seu auxiliar, com abordagens à psicologia e numerosas referências e citações da obra de Conan Doyle, menções de casos de Agatha Christie, Gaston Leroux, Poe entre outros escritores policiais. Assim, resulta uma obra que permite muitos sublinhados de citações que, frequentemente, são referenciadas a outras obras

Por o protagonista ter sito um ator famoso de cinema, a obra fala de numerosas estrelas da sétima arte da primeira metade do século XX, bem como de alguns realizadores, fazendo assim memória e homenagem àquelas luzes da ribalta de há longas décadas que encheram as colunas sociais e hoje quase esquecidos fora dos historiadores desta arte. Igualmente é colocado em confronto numerosos aspetos da representação e a realidade ou a forma de narrar pela escrita, desnudando estratégias de encaminhar o leitor ou o espetador ao longo do romance mistério, tendo em vista engrandecer a capacidade do detetive ou prender o público.

Cativante sobre todos os ângulos, eis uma obra-prima literária no género policial clássico, sem deixar de ser de entretenimento, sendo também uma grande homenagem aos grandes autores deste mesmo estilo de obras e do cinema. Gostei muito é, sem dúvida, um livro muito bom.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

"O Papagaio de Flaubert" de Julian Barnes

 
Excerto

O que é que nos faz querer saber o pior? É por nos cansarmos de preferir saber o melhor?... Ou, mais simplesmente, aquele desejo de saber o pior é a perversão favorita do amor?

Regressei novamente ao escritor britânico Julian Barnes de quem tudo o que li até hoje gostei e "O papagaio de Flaubert" não foi exceção.

O médico inglês, reformado e viúvo, Braithwaite, visita Ruão, na Normandia, como admirador do escritor Gustave Flaubert, onde se depara com dois papagaios embalsamados em dois museus e ambos a assumir a autenticidade de corresponderem à ave que esteve no centro de um dos contos famosos do autor. O dilema leva a uma dissertação sobre a vida do grande romancista francês do século XIX, iniciador do realismo literário, os seus defeitos, virtudes, a sua genialidade, os seus gostos, o seu bestiário, o seu comportamento público e incoerências privadas, as suas relações amorosas e culturais, o seu posicionamento perante os maiores autores da sua época, as suas viagens e pesquisas, os seus ditos e aspetos dos seus livros mais importantes, como "Madame Bovary". Tudo isto para no fim procurar descobrir a verdade sobre qual era mesmo o papagaio de Flaubert.

À semelhança de "O ruído do Tempo" cuja personagem principal é o histórico músico Shostakovitch do século XX; o romance que agora li, também não é bem uma biografia no verdadeiro sentido do termo sobre a figura histórica de Flaubert, seguramente não é uma coletânea de verdades sobre o mesmo, mas é um encadeado de factos sobre o escritor, com algumas especulações e reflexões sobre o mesmo, bem como uma análise sobre a literatura, a verdade no interior da ficção, a presença do autor e dos seus conhecidos dentro desta e uma discussão sobre a cultura e o papel da arte num contexto de época. Tudo isto muito bem escrito, com algum humor, irreverência e sentido crítico.

Talvez não seja uma narrativa fácil para quem gosta de seguir uma história linear simples, mas é sem dúvida um excelente texto, provavelmente uma obra de culto que se pode tornar num clássico do final do século XX. Gostei imenso.

quarta-feira, 26 de março de 2025

"As três mortes de Lucas Andrade" de Henrique Raposo

 

Citação

"O sucesso pode ser tão ou mais perturbador do que o medo. A liberdade criada pelo sucesso pode assustar quem viveu sempre sem liberdade."

Acabei de ler o recente e primeiro romance de ficção do cronista português Henrique Raposo: "As três mortes de Lucas Andrade". A obra é a biografia, narrada por um observador omnisciente, de uma mente suicida, nascida numa aldeia miserável e conservadora da serra da Estrela no final da ditadura, num mundo que era hostil ao seu apego aos livros e desenhos e como filho de uma mulher insubmissa aos ditames da escravidão e sujeição feminina ao conservadorismo e assédio dos fortes da terra, fase em que é a criança João Miguel. Esta transforma-se nos anos 80 no adolescente Ruço por a família se mudar para a cintura pobre e desestruturada de Lisboa, onde tem de ultrapassar o provincianismo e adaptar-se a sobreviver à violência, toxicodependência, prostituição, HIV, miséria numa zona esquecida do poder político com sede ali ao lado na grande cidade. Depois o seu engenho vence e torna-se no jovem escritor famoso Lucas Andrade, conhecido no mundo culto, elitista e rico, odiado pela classe social dos locais que foram o seu berço e formação da sua personalidade cujo conflito final e a reflexão sobre o mal enraizado nas pessoas levam ao desenlace anunciado logo no primeiro parágrafo do romance, um dos inícios mais bem conseguidos da literatura portuguesa.

O autor não precisou de escritas criativas para disfarçar o vazio de histórias banais, pois esta é densa e profunda como poucas. Não tornou a sua obra num manifesto político na denúncia da vida difícil do mundo rural e dos subúrbios da capital, nem culpou terceiros dos extremismos do mal que alguns pobres adotam. Na minha opinião, o escritor conseguiu uma das melhores obras da literatura portuguesa do primeiro quartel deste século. Suspeito que muitos livros premiados nestes tempos passarão à história, enquanto este se sujeita a brilhar no futuro, depois de pousar o pó lançado por muitos que dominam o meio cultural atual.

O romance - frequentemente com referências a personagens bíblicas, míticas ou de clássicos do passado - pode incomodar um Portugal estabelecido conservador ou os progressistas urbanos que desconhecem a realidade da pobreza. O texto conta aspetos chocantes da nossa sociedade, desde vilanias transversais a todas as classes sociais, até preconceitos de classe que aprisionam muitos à miséria  e levam à não realização profissional, gerando vítimas tristes e silenciosas todos  os dias. Contudo, apesar da dureza, não é uma leitura deprimente, pois há sempre no caminho alguém que é diferente, disposto a dar uma mão, a lutar pelo bem do próximo, a ser luz na escuridão e, além do beco em que se sabe o protagonista irá cair no fim e das traições que sofre, o livro mostra que é possível ultrapassar e optar pelo melhor em detrimento de se deixar ficar refém do mal. A questão do mal é debatida em termos filosóficos de uma forma a deixar claro que todos tem oportunidade de escolher o melhor em detrimento do mal. Este não é absoluto: o livre-arbítrio está dentro de cada um, a narrativa mostra que é possível sobreviver, agir, subir a um mundo melhor e lutar por mais justiça, o livro tem vários que conseguiram, outros afundaram-se no pântano mais ignóbil que é possível a um ser humano.

Não sei quanto do protagonista é um alter ego do escritor, que veio da província precisamente para a mesma zona da cintura de Lisboa, onde João Miguel virou a Ruço e evoluiu para Lucas Andrade e se tornou num escritor vencedor e incómodo, mas, seguramente, que muitos pormenores saíram da experiência vivida por ele e por isso a discussão no texto de que os livros não eram contos, mas crónicas talvez seja uma chamada de atenção de que o romance retrata factos conhecidos. Não é uma escrita poética, é uma linguagem realista, sem pudor pelo uso do calão dos grupos retratados na narrativa, muitas vezes crua e dura. 

Valeu a pena ler as mais de 600 páginas e recomendar  "As três mortes de Lucas Andrade", este foi o romance de Portugal que mais gostei de ler nos últimos anos e uma pedrada no charco no panorama literário nacional.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

"O ASSASSINO CEGO" de Margaret Atwood

 

Reli o romance "O Assassino Cego", vencedor do Booker Prize de 2000, da minha escritora canadiana favorita: Margaret Atwood, embora a primeira leitura, há já quase duas décadas, tenha sido no original em inglês, livro que possuo ainda e permitiu-me algumas comparações entre as duas versões, concluído que este é uma boa tradução para  português.

O romance inicia-se com a recordação da octogenária Iris Chase do acidente de carro de sua irmã Laura poucos dias após o termo da II Grande Guerra Mundial, estando Iris consciente que se tratou então de um suicídio. A partir desta memória com uma fotografia na mão, ela reconstitui a história da sua família e da sua vida: a vida na sua cidade natal no sudoeste de Ontário, os seus antepassados, a relação com o seu pai veterano da primeira guerra e industrial decadente, as razões do seu casamento e os litígios com a família do marido cheio de ambições políticas, a retirada da sua filha, o com foco no facto de, na sequência da morte de Laura, Iris ter publicado um livro que aquela teria deixado manuscrito, onde narra uma relação secreta de amantes com encontros em locais escondidos e que se supõe ser ela com um amigo comum de ambas as irmãs. Na intimidade os dois montavam uma história de ficção científica numa sociedade distópica, passada no planeta Zycron, onde um cego vem a ser incumbido de matar o rei de uma cidade-estado, enquanto em paralelo se preparava uma invasão externa por um povo bárbaro. Em paralelo esta narrativa será uma descoberta do amor pelo assassino e o romance tornou-se num grande sucesso, sinal de emancipação feminina e Laura um símbolo para futuras gerações de mulheres, enquanto Laura se se deixou de fora deste fenómeno literário e libertário.

Um romance que é uma matrioska russa de histórias, onde - sobre um cenário que é a história socioeconómica do Canadá, o modo de viver de uma pequena cidade do Ontário e o evoluir das mentalidades ao longo do século XX neste país - se projeta a vida de uma mulher da classe média alta provinciana com os seus temores e sujeita aos preconceitos do mundo que a rodeava, que por sua vez são transpostos para a vida da sua irmã e em seguida refletidos num romance que seria o alter ego desta, onde o amor é gozado plenamente e os anseios da juventude e os seus medos são remetidos para um planeta distante que permite por a nu os tabus terrenos que aprisionam as paixões e os vícios que molda a sociedade. Todos estes níveis contados de forma intercalada levam a que até desenrolar da última camada desta boneca russa surjam sempre surpresas e reconstruções do passado.

É uma obra com uma escrita sem pressa, tal como pode ser a monotonia da vida de uma octogenária, que não se inibe de ser crítica de todos os preconceitos e amarras da hipocrisia da moralidade social que foram caindo ao longo do século XX, para assim evidenciar que no final daquele século muito sofrimento íntimo das mulheres do passado poderiam ter sido evitados e como a sociedade facilmente cai num engano e cria mitos e heróis apenas pela aparência das narrativas.

Quando li pela primeira vez O Assassino Cego considerei uma obra que mostrava a versatilidade narrativa de Margaret Atwood, hoje, ao relê-la, já depois de ler muitas outras obras da autora, considero a sua obra literariamente mais rica e variegada. Exige alguma maturidade ao leitor para assimilar a riqueza deste romance, este não se prende a estereótipos, nem a subterfúgios fáceis para o agarrar. É uma narrativa para se ir degustando lentamente as suas mais de 600 páginas até se saborear de facto a grandiosidade deste romance que justifica ter um prémio do gabarito do que recebeu, uma obra que não precisa de receber um Nobel da literatura para estar a esse nível.

sábado, 18 de janeiro de 2025

"Nexus - História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial" de Yuval Noah Harari

 

Citações

"A ascensão de máquinas inteligentes capazes de tomar decisões e criar ideias significa que, pela primeira vez na História, o poder se está a transferir dos humanos para outro agente."

"Eis o traço distintivo da Inteligência Artificial: a máquina aprende, depois age de moto próprio."

Pela terceira vez li um ensaio em ebook de Yuval Noah Harari - um historiador israelita, formado em história militar e considerado um dos filósofos internacionalmente mais influentes da atualidade - "Nexus - Uma História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial".

Em Nexus, o autor começa por definir o que é informação, o seu papel em unir as pessoas, mas destrói a ingenuidade de quem acredita que quanto mais informação mais se está perto da verdade e de se tomar as decisões certas.

O livro prossegue com uma exposição histórica de como a informação aproveitou a utilização de novas técnicas para se desenvolver e expandir-se e assim foi moldando o evoluir da humanidade, evidencia o seu papel agregador e também o seu uso para controlar a sociedade e, com exemplos minuciosamente explicados, como esta suportou perseguições desumanas e catastróficas desde a antiguidade até ao século XXI, tal como permitiu salvar pessoas, pois não só serviu transmitir conhecimento científico e foi meio para fortalecer democracias que não sobreviveriam sem uma boa rede de comunicação, como também foi usada para alimentar preconceitos e para intensificar ditaduras que a usou para subjugar a população. Paralelamente, demonstra como a Inteligência Artificial (IA) é algo completamente diferente de todas as anterior tecnologias de suporte da informação, pela primeira vez esta pode ser controlada por não humanos e age sem a consciência e os sentimentos dos seres vivos, sendo ainda capaz de aprender, replicar-se e decidir por si só e com um elevado risco de fugir ao controlo da humanidade e da compreensão desta, algo capaz de nos manipular ou mesmo nos destruir.

Como habitualmente é referido nos livros de Harari, o futuro não é determinista, existem possibilidades várias de perspetivar o futuro de como irá a IA modelar a civilização global. Neste momento considera o autor que ainda pode estar na mão dos humanos evitar uma futura escravidão da humanidade a uma entidade não biológica e conseguir-se um equilíbrio que permita a IA ser útil e ficar ao serviço do Homo sapiens. Potencialidades são muitas, mas os riscos não são menos, conforme o ensaio explica muito bem. Uma obra que é um alerta para se evitar o domínio do algoritmo inteligente sobre a vida inteligente.

Sim, gostei muito do livro, mas como já conheço bem o autor - um filósofo ateu que acredita que a capacidade dos humanos se organizarem e comunicarem entre si foi a fonte do seu sucesso-, esta obra já não me surpreendeu tanto como em Homo Deus, mas como em todos os seus livros, este mostra que a humanidade volta a ter nas suas mãos um novo meio para se autodestruir e erradicar o sucesso da espécie e agora até para se escravizar pela primeira vez a uma entidade não orgânica. 

Pessoalmente, vendo o comportamento atual de alguns proprietários de grandes empresas mundiais de novas tecnologias, eu não ando numa fase otimista.... mas recomendo a leitura e depois reflita sobre as possibilidades e riscos que nos traz a IA.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

"Maus hábitos" de Alana S. Portero

Citações

"O medo que se passa no armário fabrica monstros a partir de sombras chinesas."
"Antes de conseguirmos definir-nos, os outros desenham os nossos contornos com os seus preconceitos e as suas violências."


Acabei de ler o romance estreia da escritora espanhola Alana S. Portero: "Maus hábitos", vencedor de vários prémios literários e um sucesso editorial naquele país.
O romance conta a vida de Alex pelos seus olhos desde criança, quando toma consciência que se sente mulher. Assim, fala do bairro pobre de Madrid onde vive, descreve uma juventude envenenada pela heroína, a vida de operários e domésticas com salários de miséria, famílias com violência doméstica tolerada pelas autoridades, prostitutas e travestis alvo de preconceitos e a sua tomada de consciência de que é diferente e precisa de tomar atitudes que a protejam da discriminação. Na adolescência, enquanto vai estudando, procura longe do bairro gente para relações, conhece o seu primeiro amor decepado pela intolerância, contacta com mulheres trans que a protegem até ser vítima de uma violência homofóbica. Fechada no armário, licencia-se, arranja emprego, mas vai necessitar do apoio da família e assim volta à origem até assumir a sua condição de transgénero já em pleno século XXI.
Apercebemo-nos por pormenores que Alex será o alter-ego da escritora e portanto a obra é quase uma biografia romanceada da sua sobrevivência numa Madrid desde os primeiros anos de democracia e liberdade, mas ainda dominada pela imposição dos costumes da ditadura.
O texto, cheio de metáforas e de imagens pouco comuns por mostrar uma perspectiva diferente da generalidade das personagens habituais na literatura, possui uma escrita sensível e terna, nunca erótica, mas há ações de violência física e psicológica sobre Alex, e muitas referências a artistas da década de 1980, menções de canções e filmes que moldaram a cultura daquela década e ligações as personagens da cultura clássica e da religiosidade popular. Saliento a ternura entre os membros da sua família, num permanente equilíbrio precário entre a incompreensão e a aceitação temperada pelo amor.
Literariamente é um livro bom, fácil de ler, sentimental e acessível a qualquer leitor livre de preconceitos ou para o ajudar a se libertar destes.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

"Operação Shylock" de Philip Roth

 

Citações

"Não, o carácter de um homem não é o seu destino; o destino de um homem é a partida que a vida prega ao seu carácter."

Acabei de ler "Operação Shylock" do escritor norteamericano Philip Roth, um romance onde o protagonista é o próprio Philip Roth, o qual em 1988, em recuperação de uma depressão gerada por um medicamento para a insónia, descobre que em Jerusalém está um sósia a usar o seu nome e fama para veicular a ideia de os judeus regressarem à Europa, de onde saíram após a queda de Hitler, para assim evitar um segundo holocausto devido a uma provável destruição de Israel, um sionismo invertido, a que chama diasporismo. Perante esta situação e contra vontade da mulher, utiliza a intenção de entrevistar um outro escritor e de ver um julgamento de um colaborador nazi denunciado, decide  ir a àquela cidade e tentar por cobro à situação e enfrentar o usurpador da sua personalidade, só que as peripécias que daí resultam são tantas que se transforma numa odisseia envolvendo judeus, palestinianos, espiões, militares, uma mulher deslumbrante, antigos colegas e amigos.

O romance é um autêntico desenrolar de virtuosismo e de imaginação de situações bizarras, ora absurdas, ora de descrições da realidade de vida no médio oriente, tudo sempre temperado por um humor sardónico e uma sensação de obsessões, o que permite, ao abrigo destes artifícios, denunciar a realidade histriónica que se vive em Israel e nos territórios ocupados, bem como escalpelizar a mentalidade judia dos sionistas regressados à Terra Prometida face aos restantes hebreus que vivem ambientando-se à vida na sociedade norteamericana e os traumas psicológicos que resultam nuns e noutros, bem como, nos antigos residentes da Palestina que se viram desposados das suas propriedade e alvo de permanente perseguições.

O absurdo e a sensação de confusão e obsessão, com o humor que trespassa a obra faz parecer uma obra hilariante, contudo, mostra a realidade complexa e histriónica que afeta os povos que ali coexistem, denunciando, por esta via, injustiças, comportamentos abusivos, vítimas e feridas que são atuais e extremadas com a guerra que está a assolar os palestinianos, permitindo compreender melhor a realidade do médio-oriente. Sem ser um manifesto político no verdadeiro sentido do termo, é sem dúvida um obra que utiliza a literatura ficcionada para mostrar ao mundo um problema real provocado pelo sionismo. Sem ter a crueza de um Guernica de Picasso, tem o mesmo efeito de denúncia da guerra que utiliza todos o meios para dominar o outro e onde os judeus não são inocentes. Um excelente livro que se mantém atual, escrito por um judeu que não se coíbe de dizer que o é, mas... nem todos são iguais.

sábado, 1 de junho de 2024

"À Espera da Subida das Águas" de Maryse Condé

 

Citação

"Mas não é preciso ser perfeito para ser amado. Caso contrário, o amor seria uma recompensa e não um milagre."

Li pela primeira vez uma obra da Maryse Condé, francesa, natural da ilha de Guadalupe, é considerada a maior escritora da Caraíbas, com obras que falam das feridas do colonialismo, da escravatura, das guerrilhas e miséria nas Antilhas, "À espera da subida das águas", estende este tema à África francófona e ao Médio-Oriente nas últimas décadas. 

Babakar é um obstetra formado em Montreal, vive em Guadalupe em solidão enquanto vai atendendo grávidas, recorda uma amizade universitária, África onde nasceu e assistiu às devastações de uma guerra civil liderada pelo seu amigo e um amor perdido. Entretanto sua mãe falecida dá-lhe conselhos e avisos em sonhos. Numa noite tempestuosa é chamado a um parto de uma imigrante haitiana clandestina que morre, adota a criança, mas um companheiro da defunta informa-o que têm de ir para o Haiti com a bebé encontrar a família para a morta ter descanso. Decide seguir o conselho e partem para uma terra de pobreza, de anarquia e conflito e estabelece-se neste caos, cria magníficas amizades, com um "libanês" e outras personagens ligadas à política tirana do pais que vivem naquele estado falhado e procura o melhor para a sua filha.

O romance tem uma estrutura que inclui várias biografias das principais personagens da obra e assim assistimos a diferentes histórias paralelas que completam o evoluir da trama e expõem os problemas de uma guerra civil e ditaduras em África, da guerra no Líbano, do legado da escravatura e do caos em que se transformou o Haiti nas últimas décadas, além das feridas do colonialismo.

Num estilo que paira entre o realismo mágico e as crenças da religião vodu com mistura de vivos e mortos, assiste-se ao milagre da resistência da amizade e do amor às dificuldades de se viver em terras devastadas pelas tensões humanas e as catástrofes naturais.

Apesar do desfile de agruras, não é um texto triste, uma certa leveza e humor atravessa as dificuldades e tempera a obra que se torna agradável de se ler enquanto mostra os problemas das terras por onde Babakar e outras personagens vivem. Gostei e recomendo.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

"Grand Hotel Europa" de Ilja Leonard Pfeijffer


 Excertos

"O que a Europa tem a oferecer ao mundo é o seu passado. À medida que o velho continente perde influência, a todos os níveis, no palco mundial talvez tenhamos pouca escolha além de vender o nosso passado."

"era um lugar fantástico. Raramente tínhamos visto tanta pobreza autêntica num país muçulmano."

"o turismo destrói precisamente aquilo que o atrai."

Há poucos romances cuja leitura me marcou o suficiente para mudar significativamente o meu pensar ou o modo como vejo o mundo à minha volta: "Grand Hotel Europa", do neerlandês Ilja Leonard Pfeijffer, fica neste restrito conjunto de obras e moldou o que penso ser a Europa de hoje, a perceber melhor o seu declínio e o papel que cabe ao turismo no disfarçar do declínio do Velho Continente.

Grand Hotel Europa tem como protagonista o próprio Ilja Leonard Pfeijffer, o seu alter-ego relata o fim da sua relação com uma italiana genovesa de famílias tradicionais e especializada em arte antiga, nomeadamente Caravaggio de quem procura o que seria o seu último quadro desaparecido e que permite um périplo por vários locais no livro. Ilja Pfeijffer narra ainda os contactos com outras pessoas do hotel para onde se mudou para escrever as memórias sua anterior paixão e onde encontra personagens tão diversas como uma poeta feminista, um polaco filósofo e conhecedor do passado e presente do velho continente, um grego petulante, um mordomo cheio de recordações do passado glorioso do estabelecimento que acolhia a aristocracia europeia e o porteiro refugiado do norte de África cheio de aventuras e que absorveu a Odisseia de Homero. Em paralelo, o escritor narra a sua intervenção num grupo de cultura subsídio dependente da União Europeia num trabalho sobre o turismo e que pretende ser uma obra de arte sobre o turista típico. Ilja conta ainda no que se transformou Veneza que se afunda devido ao turismo, local de um emprego da sua anterior companheira e ainda relata sobre outras cidades que colocam a nu o que é a Europa de hoje e os efeitos do turismo e os diferentes tipos de turistas.

O romance não é assim apenas uma obra de ficção, é também um ensaio socioeconómico sobre a atual Europa, a sua história e a força do seu passado pujante. Não conheço livro que melhor descreva o que é este Continente hoje (a obra anterior à guerra da Ucrânia) e, em simultâneo, é um manifesto sobre o que o turismo em massa está a fazer à Europa e o reconhecimento da inexistência de alternativas para este extenso museu visitável por todas as economias que se estão a sobrepor a ele. O livro contém histórias que são metáforas do triste destino desta que foi uma recente potência de âmbito planetário.

Uma escrita cáustica, sarcástica, por vezes irónica, noutras hilariante e também com passagens chocantes e deprimentes e com momentos íntimos da sua relação recém-terminada para apimentar a narrativa. Não considero uma obra-prima literária, é típico romance pós-moderno que mistura a factos com ficção para fazer um retrato da atualidade, que não é bonita e lê-se com facilidade, prazer, por vezes com algum suspense e, sobretudo, levanta pistas para a reflexão com passagens muito fortes.

Recomendo a qualquer leitor, em especial a todos colecionadores de múltiplas viagens de férias. Gostei muitíssimo.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

"O Mapa de Sal e Estrelas" de Jennifer Joukhadar

 

Citação

"as histórias acalmam a dor de viver, não de morrer. As pessoas pensam sempre que morrer vai doer. Mas não. É viver que nos magoa."

Estreei-me nesta jovem escritora sírioamericana com o seu primeiro romance "O Mapa de Sal e Estrelas".

Nour é filha de um casal sírio, emigrado em Nova Iorque e desenhadores de mapas, a mãe é cristã e o pai muçulmano, este morreu, criou um vazio nela e a família a retornou a Homs para reconstruir a vida. Aqui, a guerra civil apanha-os num bombardeamento. Mãe, irmãs, Nour e outros decidem fugir até Ceuta, um trajeto comum a tantos refugiados atuais das guerras no médio-oriente. A obra depois narra as dificuldades e mortes da caminhada pelos olhos da criança. Nour, tem sinestesia (associa cores aos sons e cheiros), em paralelo recorda a história que seu pai lhe contava sobre Rawiya: uma menina que fugira de Ceuta há 800 anos atrás para encontrar com Idrisi, o cartógrafo (personagem real) que depois foi encarregado de elaborar um mapa para o rei da Sicília dos territórios entre a Síria e o Magrebe. É a época dos cruzados e do expoente máximo da cultura e riqueza árabe, outra narrativa com as fantasias da idade média.

As agruras pintam o mapa com o sal das lágrimas e as estrelas desenham a esperança do caminho, realidades que se entrecruzam nos mapas de duas épocas tão diferentes dos mesmos territórios.

A autora, usa a sinestesia de Nour, para desta situação neurológica criar metáforas e dar cores e cheiros a situações e acontecimentos e fazer uma denúncia dos problemas dos refugiados sírios em torno da Europa. Não há acusações, nem toma partido por fações. Apenas temos vítimas humanas, que correm riscos de vida, morrem e sofrem e memórias de outros tempos fantasiosos que, sem serem pacíficos, contrastam na riqueza de então com a destruição atual.

Um livro muito fácil de ler numa narrativa comovente que mistura factos atuais, personagens históricas e fantasia para mostrar ao mundo um problema humano: os refugiados e vitimas inocentes das guerras, algo que presentemente cerca a Europa.

sábado, 14 de outubro de 2023

"Os comedores de pérolas" de João Aguiar


Citação

 "Ou andamos todos a puxar uma nora sem dono ou estamos todos na mão de Deus."

Ao fim de vários anos regressei a João Aguiar, um jornalista e escritor português de quem lera romances históricos passados em território nacional antes do nascimento de Portugal e com heróis reais pré-nacionalidade de que muito gostei pela informação fornecida sobre esses tempos. Agora leio numa obra publicada em 1992 passada em Macau já na sombra da transferência da administração deste território para a China que decorreu em 1999.
Em "Os comedores de pérolas" o protagonista, Adriano, um jornalista que na sequência de uma luta via profissional por uma causa ambiental entra em depressão é lhe recomendado aceitar um trabalho de analisar o espólio de um antigo comendador de Macau, com documentos em português, chinês e inglês, para daí se publicar um livro sobre a vida desse homem de há um século atrás e patrocinado por um seu descendente. Só que rapidamente Adriando se apercebe que nesses documentos há segredos e existem aspetos cujos tradutores falseiam o conteúdo para esconder envolvências com mafias chinesas, contrabando e tráfico humano e começa a sofrer pressões para preservar o bom nome do magnata e sua mulher.
A situação agrava-se quando com incidentes e assassinatos descobre que ele mesmo está em risco de vida e à sua volta existe uma teia de espiões ao serviço do neto do Comendador que financia o seu trabalho.
Os comedores de pérolas é de facto um romance de investigação e ação do género literário de suspense ou tríler, que nem falta a mulher por quem o herói se encanta, cuja tensão vai aumentando à medida que a narrativa avança em forma de diário irregular do protagonista. Nas notas existem reflexões sobre o fim da presença de Portugal em Macau e a sensação de amargura do declínio do império e descrições sobre a mistura de culturas neste território, o património em risco devido à transição administrativa da cidade, referências a locais emblemáticos e a realidade das redes mafiosas designadas de seitas ou tríades.
Uma escrita mais jornalística do que embelezada por figuras de estilo literário e não muito pretensiosa, mas uma obra que vale a pena ler pela facilidade de cativar, daí ter sido um sucesso editorial na época, enquanto vai colocando as preocupações culturais associadas à retirada de Portugal deste território pequeno face a Hong Kong. Macau, que já visitei e por isso percebi a razão de ser de tais alertas: uma terra que oficialmente ainda usa a língua Portuguesa, mas onde, de facto, praticamente ninguém fala uma palavra do vocabulário de Camões, apesar de um núcleo com o património arquitetónico bem preservado e classificado pela UNESCO. Gostei do romance, fácil e recomendo a quem gosta do género de investigação e ação

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

"Assim começa o mal" de Javier Marías


 Citações

"Na realidade, tudo aquilo que se conta, tudo aquilo a que não se assiste, é apenas rumor, por muito que venha envolvido em juramentos de pura verdade."

"... quando se renuncia a saber aquilo que não se pode saber... talvez então assim comece o mal, mas em contrapartida, o pior fica para trás."

" O perdão não aguenta tanto como a vingança."

Regressei ao meu escritor sensação e fetiche dos último ano e meio, nunca um escritor me levou a acompanhar a sua obra tão intensamente como o espanhol Javier Marías, agora chegou a vez de um dos seus romances publicados há quase uma década "Assim começa o mal".

O jovem Juan de Vere é contratado pelo realizador de cinema Eduardo Muriel para seu secretário particular, logo de início descobre o mau relacionamento deste com a mulher Beatriz e entra em contacto com o círculo de amigos do empregador. Muriel incube o seu secretário de descobrir a veracidade de um boato sobre um dos seus amigos mais próximos de quem ouviu ter um passado desonrado relacionado com a atitude do mesmo com mulheres. O jovem não só descobre aproveitamentos relacionados com o seu poder de influência perante o regime ditatorial de Franco, como promiscuidades recentes, enquanto em paralelo verifica uma vida secreta de Beatriz e a infelicidade desta, como ainda desenvolve uma paixão juvenil pela mesma. A investigação leva ao perceber uma teia complexa de relacionamentos humanos com vingança sob o regime político subalternizava as mulheres, mentiras e abusos de poder imorais que logicamente apontam para tragédia e infelicidade.

Como sempre é a escrita o elemento que mais me cativa em Javier Marías, um narrador onde as suas histórias se desenrolam a uma velocidade lentíssima, quase paradas e travadas por uma engrenagem de reflexões sobre comportamento humano, pormenores linguísticos e tratamento de sinónimos que travam o evoluir da narrativa mas criam textos extensos riquíssimos, no caso presente também na denúncia do que foi a vida sob a ditadura e o pacto social para criar uma paz podre cheia de segredos e de reescritas do passado de muitos que permitisse a democracia se instalar até ao início dos anos de 1980 sem a vingança destruir o novo regime.

Gostei do romance, não é o meu favorito do autor, mas também não me desiludiu e como sempre a sua escrita deixou cativado na apreciação do texto, mas não é uma obra fácil e de leitura rápida.



sábado, 10 de junho de 2023

"Entre dois Palácios" de Naguib Mahfouz

 

Citação
"É impossível escapar a uma desesperança insondável"
" A fé é mais forte que a morte e a morte é mais nobre do que a humilhação."

Neste momento estou numa fase de forte redução do tempo disponibilizado à leitura, pelo que, levei dois meses e meio a ler as 609 páginas do romance "Entre os Dois Palácios", o primeiro da denominada "Trilogia do Cairo", escrito pelo autor egípcio, laureado com o Nobel da literatura, Naguib Mahfouz.

Este romance conta a vida dos membros da família Ahmad Abdel Gawwad, composta pela subserviente segunda mulher e os cinco filhos dele durante o período da I Grande Guerra Mundial  e vai até à revolução de reivindicação da independência do Egito. Um período de transição em que o país está ocupado pelo ingleses e os Turcos do império Otomano já deixaram o território e a nação muçulmana anseia por se libertar da tutela estrangeira cristã.

O líder da família é um importante comerciante influente e respeitado no seu bairro, mas tem duas personalidades: a primeira gere a família com um feroz conservadorismo e obediência à fé muçulmana, retém em casa a mulher e filhas sem qualquer contacto social e impõe aos filhos uma obediência cega às suas diretrizes e apesar de dois deles serem maiores tal não impede o uso da violência física e psicológica. A segunda personalidade é a de um dissoluto com mulheres, apaixonado pela música e poesia e viciado em álcool.

Apesar do terror imposto por sayyed Gawwad, os elementos da família tendem a desobediências e a esconder esses factos, desde o primogénito filho de um primeiro casamento que segue as pisadas do pai na sua vida fora de casa, a uma filha demasiado agressiva na linguagem e a outra de excecional beleza que se quer mostrar, passando pelo idealista Fahmi com ideais políticos de participação na revolução e ainda criança a Kamal que inocentemente desrespeita as regras e se torna mascote de ingleses que ocupam a rua. Exceção para a subserviente mulher, que apenas por um deslize aliciado pela família será alvo de um castigo desproporcionado.

O romance, ao retratar a intimidade desta família, inclusive o pensamento das suas personagens, mostra a cultura egípcia, a mentalidade tradicional das suas gentes, o peso da religião islâmica nas relações humanas e na formação da personalidade. Não faz julgamentos sobre o certo ou o errado de forma evidente, mas ao salientar a hipocrisia, põe a nu uma sociedade patriarcal onde a mulher não é livre, nem tem voz, mas também onde esta inclusive não só aceita essa secundarização, como até se choca com outras que têm maiores liberdades.

A situação também está evidente na tradição dos casamentos negociados pelos mais velhos e não por escolha pessoal dos envolvidos, da imposição do patriarca aos filhos, além das formas como certos personagens contornam a imposição religiosa e moral mantendo as aparências social, sem omitir a exposição do caminhada para a independência deste povo dominado por estrangeiros. O romance mais do que denunciar, serve para reflexão do leitor e compreensão das diferenças culturais entre ocidente e o médio oriente islâmico.

Com numerosas referência ao Corão está-se perante uma narrativa que junta uma trama e informação histórica, com textos, por vezes, com parágrafo muito extensos intercalados com diálogos, onde há um uso de metáforas bem distintas das que podem brotar na cultura ocidental. Um excelente romance que desperta interesse para a continuidade da leitura dos volumes seguintes para completar a saga familiar e compreender a história do Egito na primeira metade do século XX.