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terça-feira, 10 de março de 2026

"A Floresta Sombria" de Liu Cixin

 

Axiomas Iniciais

"a sobrevivência é a necessidade primordial de uma civilização"

"uma civilização cresce e expande-se continuamente, mas a quantidade de matéria no universo nunca se altera."

Ao ler "O problemas dos três corpos", do chinês Liu Cixin - obra de ficção científica que se tornou no primeiro romance da trilogia "O Passado do Planeta Terra" (apesar da história partir de meados do século XX, passar pelo presente e evoluir vários séculos para o futuro) - compreendi o seu sucesso no seu género literário, decidi ler os volumes seguintes e acabei de ler o segundo: "A Floresta Sombria".

A narrativa deste parte da exposição dos dois axiomas, este é um romance mais filosófico e menos centrado na física que o anterior, dividindo-se em duas épocas: a primeira dá continuidade ao volume anterior no início do século XXI e após o choque da divulgação do contacto com a civilização alienígena Trisolaris, a possibilidade desta chegar à Terra em quatrocentos anos e a ameaça de aniquilar a humanidade para aqui se estabelecer. Os protagonistas agora são quase todos diferentes. Assistimos ao surgir de vários movimentos sociais: os gerados pelo pânico da proximidade do fim, os humanistas ingénuos pela bondade que acreditam na coexistência pacífica, as Nações Unidas a buscar uma estratégia de sobrevivência ao embate com uma cultura mais avançada e os cientistas de várias áreas em busca de soluções para enfrentar o inimigo, mas há duas condicionantes:

1 - os alienígenas tem acesso a toda a informação do que se faz na Terra, só não acedem ao pensamento humano, o que leva ao Projeto Clausura com a nomeação de 4 humanos com poderes totais para cada um, secretamente, elaborar uma estratégia de salvação e os trisolarianos selecionam 3 pessoas para descobrirem os segredos (disruptores), desvalorizando Luo Ji, um astrónomo hedonista e excêntrico, mas o único que conhece os axiomas que não compreende e sabe as regras de derivação dadas pela mulher que estabeleceu o primeiro contacto extraterrestre, mas só pensa em tirar proveito do seu estatuto; e

2 - Os trisolarianos manipulam através dos cognis que enviaram para a Terra as experiências de mecânica quântica de modo a humanidade não evoluir científica e tecnologicamente.

A segunda época decorre dois séculos depois e, devido à descoberta da técnica de hibernação, alguns dos protagonistas voltam a acordar para concluir os planos dos enclausurados e enfrentar a ameaça dos trissolários, mas todos ficam desacreditados. Só que se entrou numa época em que a tecnologia evoluiu  para uma sociedade com grande conforto e deslumbrada do seu sucesso e bem-estar que se considera capaz de vencer o combate do Juízo Final com os Trisolaris. A humanidade vive em grande parte do Sistema Solar, tem frotas com naves de grandes dimensões e vida autónoma das aglomerações das nações em terra, todos possuem armamento nuclear de ponta, até à chegada da primeira sonda que põe a nu o grande fosso tecnológico imposto pelos cognis ao nível de física das partículas. O pânico instala-se e o combate é depois autodestrutivo, só Luo Ji percebe o porquê e é capaz de levar avante uma estratégia de controlo da situação, partindo de um ato seu que parecia tresloucado na primeira época como enclausurado.

Não sei chinês para comentar a escrita original de Liu Cixin, sei que a tradução direta do original para o português europeu tem uma grande qualidade literária. O escritor traz para a ficção científica a discussão de grandes questões filosóficas da humanidade, o que para muitos só seria aceitável nas grande narrativas de ficção tradicional, eleva o seu género literário ao das grandes obras de literatura mundial e, ao optar por condicionar grande parte da sua criatividade às limitações das leis das ciências, torna a sua narrativa muito mais credível e interessante. Num estilo totalmente diferente, "A Floresta Sombria" não me é menos marcante que "Os Demónios" de Dostoiévski, o lado negro que parece estar no interior de cada humano, afinal pode ser apenas uma necessidade. Parte do romance parece ter raízes em "A Laranja Mecânica" de Burgess, outra obra-prima fora das narrativas tradicionais.

O escritor não é benevolente com a humanidade, intencionalmente traz ao de cima um fundo sombrio no Homem, os axiomas da obra podem não ser verdadeiros, mas podem ser e, se o forem, o sonho de tentar comunicar com seres inteligentes extraterrestres pode virar a um pesadelo de consequências catastróficas.

Liu Cixin é um escritor chinês conhecedor da cultura ocidental, existem referências frequentes nos dois volumes a grandes personalidades e pensamentos ocidentais miscegenados com a autores e história da China, tornando-se numa obra literária com raízes globais.

Apesar da vasta cultura, menções e ideias profundas, Liu Cixin consegue uma narrativa que tanto pode manter a atenção de leitores que apenas leem na perspetiva de entretenimento fácil e suspense, existem passagens que quase parecem fazer parte de uma obra literatura barata, como levar leitores a refletir e a discutir as questões filosóficas e científicas semeadas na história, tornando-se num romance inclusivo para vários tipos de leitor, provenientes de culturas diferentes e por isso uma obra-prima.

Para já e ainda em estado de surpresa pelo conjunto destes dois romances, comecei a leitura do terceiro volume da trilogia, sabendo que há sempre o risco de desilusão depois de se ter estado num patamar elevado.

Citações

"Neste momento, o maior obstáculo à sobrevivência da humanidade é a própria humanidade"

"Haja civilização no tempo e não tempo na civilização"

"A escuridão é a mãe da vida e civilização."

sábado, 18 de janeiro de 2025

"Nexus - História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial" de Yuval Noah Harari

 

Citações

"A ascensão de máquinas inteligentes capazes de tomar decisões e criar ideias significa que, pela primeira vez na História, o poder se está a transferir dos humanos para outro agente."

"Eis o traço distintivo da Inteligência Artificial: a máquina aprende, depois age de moto próprio."

Pela terceira vez li um ensaio em ebook de Yuval Noah Harari - um historiador israelita, formado em história militar e considerado um dos filósofos internacionalmente mais influentes da atualidade - "Nexus - Uma História Breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à Inteligência Artificial".

Em Nexus, o autor começa por definir o que é informação, o seu papel em unir as pessoas, mas destrói a ingenuidade de quem acredita que quanto mais informação mais se está perto da verdade e de se tomar as decisões certas.

O livro prossegue com uma exposição histórica de como a informação aproveitou a utilização de novas técnicas para se desenvolver e expandir-se e assim foi moldando o evoluir da humanidade, evidencia o seu papel agregador e também o seu uso para controlar a sociedade e, com exemplos minuciosamente explicados, como esta suportou perseguições desumanas e catastróficas desde a antiguidade até ao século XXI, tal como permitiu salvar pessoas, pois não só serviu transmitir conhecimento científico e foi meio para fortalecer democracias que não sobreviveriam sem uma boa rede de comunicação, como também foi usada para alimentar preconceitos e para intensificar ditaduras que a usou para subjugar a população. Paralelamente, demonstra como a Inteligência Artificial (IA) é algo completamente diferente de todas as anterior tecnologias de suporte da informação, pela primeira vez esta pode ser controlada por não humanos e age sem a consciência e os sentimentos dos seres vivos, sendo ainda capaz de aprender, replicar-se e decidir por si só e com um elevado risco de fugir ao controlo da humanidade e da compreensão desta, algo capaz de nos manipular ou mesmo nos destruir.

Como habitualmente é referido nos livros de Harari, o futuro não é determinista, existem possibilidades várias de perspetivar o futuro de como irá a IA modelar a civilização global. Neste momento considera o autor que ainda pode estar na mão dos humanos evitar uma futura escravidão da humanidade a uma entidade não biológica e conseguir-se um equilíbrio que permita a IA ser útil e ficar ao serviço do Homo sapiens. Potencialidades são muitas, mas os riscos não são menos, conforme o ensaio explica muito bem. Uma obra que é um alerta para se evitar o domínio do algoritmo inteligente sobre a vida inteligente.

Sim, gostei muito do livro, mas como já conheço bem o autor - um filósofo ateu que acredita que a capacidade dos humanos se organizarem e comunicarem entre si foi a fonte do seu sucesso-, esta obra já não me surpreendeu tanto como em Homo Deus, mas como em todos os seus livros, este mostra que a humanidade volta a ter nas suas mãos um novo meio para se autodestruir e erradicar o sucesso da espécie e agora até para se escravizar pela primeira vez a uma entidade não orgânica. 

Pessoalmente, vendo o comportamento atual de alguns proprietários de grandes empresas mundiais de novas tecnologias, eu não ando numa fase otimista.... mas recomendo a leitura e depois reflita sobre as possibilidades e riscos que nos traz a IA.

sábado, 11 de maio de 2024

"O Mundo Ardente" de Siri Hustvedt

 

Acabei de ler "O Mundo Ardente" da escritora norteamericana Siri Hustvedt, esposa do famoso Paul Auster que faleceu enquanto lia este romance.

O romance compõe-se como uma compilação de testemunhos, excertos de diários e artigos de especialidade em torno de uma artista plástica falecida, Harriet Burden, esta, com uma cultura artística, literária e filosófica enciclopédica, cujo suposto autor do livro estudou. Ela que se caracterizou pela insatisfação de considerar que às mulheres não era reconhecido o seu real valor artístico em comparação com outros artistas homens de igual calibre. Para demonstrar tal tese e em busca do reconhecimento da sua obra, Harriet programou três exposições em Nova Iorque assumidas por outros três homens distintos que lhe serviram de máscara. Assim, o projeto iniciou-se e decorreu de acordo com o previsto, mas à terceira a relação com a sua máscara complicou-se e resultou numa situação inesperada para esta mulher lutadora e irrequieta, esposa de um comerciante de arte que a punha na sombra, provavelmente pelo mesmo motivo que ela procurou denunciar.

Um obra, ao estilo pós-moderno, cheia de notas e referências e menções a filósofos, psiquiatras e artistas, onde se vai montando um complexo retrato da protagonista e a força desta, visto pelos olhos dela e de quem lhe foi próximo ou apenas testemunha social. Deste modo se vai conhecendo as suas relações familiares e com as restantes pessoas que vão surgindo ou participando no romance, o seu projeto artístico, o seu estilo e o seu esforço para vencer numa sociedade masculinizada e preconceituosa.

Por teoricamente o romance ser escrito por numerosas personagens e em situações diversas, o texto também comporta numerosos estilos, ora de entrevista, ora de memória, ora de reportagem, ora de ensaio, ora de gente exótica, ora de amigos, ora de gente em litígio ou que lhe tem um amor ardente que caracterizou a vida de Harriet Burden. Um excelente livro, nem sempre fácil, mas um magnífica obra literária que evidencia o valor da escritora menos reconhecida que o marido, mas talvez tal seja a melhor prova da razão da protagonista ficcionada.

quinta-feira, 7 de março de 2024

"a cidadela BRANCA" de Ohran Pamuk

 

Citações

"Procurar descobrir o que somos, refletir tão longamente sobre nós mesmos não poderia senão fazer-nos infelizes!"

"Todos nós sabemos que, para reencontrar a vida e os sonhos desaparecidos, é preciso sonhá-los novamente."

Voltei ao escritor turco, laureado com o prémio Nobel da literatura Ohran Pamuk, de quem lera apenas um livro há vários anos. "a cidadela Branca" é um romance diferente que de forma indireta a narrativa levanta as questões de "quem sou eu?" e "porque eu sou como sou?".

O autor expõe um manuscrito com um relato do cativeiro de um veneziano estudante que, quando jovem, no século XVII foi capturado pelos turcos e levado para Istambul, onde o Sultão o doou a um conselheiro como escravo, sendo o dono tão semelhante fisicamente a cativo como um gémeo e um cientista  interessado no saber, investigação astronómica, outras civilizações e criador de artefactos a quem chama de Mestre. Este tenta extrair conhecimento do italiano e, aos poucos, começa uma troca de saberes e surgem as questões. Num jogo de espelhos inicia-se uma autoanálise onde cada um escreve como foi, os seus erros e as suas memórias, a dado momento começa a confundir-se quem é o Mestre ou outro. Entretanto, o Sultão vai pedindo conselhos e apreciando as invenções que resultam daquela equipa, até se aperceber da inter-relação dos dois e lhes pedir a construção de uma arma capaz de conquistar os territórios europeus onde luta até à batalha junto à cidadela branca, a que se segue final surpreendente.

Como todas as obras de introspeção, não é uma narrativa acelerada, o que é ainda travado pelos parágrafos extensos, em estilo de reflexão e onde os diálogos são expostos como memórias, apesar da riqueza do texto, senti uma nostalgia ou uma infelicidade permanente enquanto lia. Não é um livro grande, mas a leitura não fluía pela necessidade de atenção e densidade do texto, tal não impede o reconhecimento de que se está perante uma excelente obra e de grande originalidade, mas não um simples livro lúdico e muito fácil.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

"HOMO SOLIDARICUS Derrubando o mito do ser humano egoísta" de Wegard Harsvik e Ingvar Skjerve


 Citação

"o homem não é escravo dos genes e da biologia é o que permite o Homo solidaricus"

Terminei a leitura do ebook "HOMO SOLIDARICUS  Derrubando o mito do ser humano egoísta" dos políticos trabalhistas noruegueses Wegard Harsvik e Ingvar Skjerve, uma obra que junta a forma de ensaio à de um manifesto político das ideias dos autores com base no modelo de sociedade da Noruega e na crença de que o ser humano não está refém dos seus genes para ter de ser um lutador egoísta pela sua sobrevivência e ascensão social, o que é, metaforicamente, designado como Homo economicus, mas que este pode ser também fruto de uma cultura e tornar-se num espírito cooperante para criar uma sociedade melhor e constituída pelo Homo solidaricus. 

Os autores estão ideologicamente enquadrados nas ideias socialistas e são declarados adversários do liberalismo, acreditam na bondade da generalidade das pessoas e que estas estão disponíveis para o bem ao próximo, para prosseguir com a denúncia de ideias perniciosas associadas ao liberalismo e à crença na meritocracia que, segundo os mesmos, seguem filosofias radicadas no egoísmo, refere personalidades que propagam estas ideias, centrando-se na obra de Ayn Rand, que conduz a uma competição desenfreada do capitalismo tipificada no Homo economicus.

Depois expõe um conjunto de experiências no âmbito das ciências sociais e naturais, envolvendo não só sociedades humanas, mas também de primatas e outros animais, para evidenciar que a cooperação também é um mecanismo radicado na natureza favorável à sobrevivência das espécies, sendo que os cidadãos podem ser educados no sentido do benefícios da solidariedade desde que esta seja modelada por princípio de justiça de forma a transformar o homem num fruto da biologia e da cultura do tipo Homo solidaricus, onde o caso mais avançado neste sentido é a sociedade norueguesa e escandinava. 

Mesmo subscrevendo muito dos princípios e valores enunciados na obra, não deixo de sentir que se está perante um manifesto ideológico, onde as ideias fora do âmbito dos autores são todas consideradas nefastas e a crença da quase perfeição nas suas. Infelizmente, ensinou-me a vida que nas ciências sociais muitas vezes os estudos são moldados pelos preconceitos dos investigadores, pelo que a seleção das experiências apresentadas são todas no sentido da defender as ideias do autores do livro e tudo o que não está conforme com estas, sente-se que estes consideram como sendo análises e conclusões falsas e artificialmente afetados pelos preconceitos dos outros que pensam diferente que à partida não merecem qualquer credibilidade. 

Apesar da ressalva de ser um manifesto tendencioso, gostei muito do livro, bom para a reflexão sobre sombra que ameaçam o mundo atual e concordo com muitos aspetos, cita intensamente um autor que me tem marcado nos últimos anos e cujas obras em ebook já aqui apresentei: Yuval Noah Harari. Novamente a seleção é limitada aos pontos que vão no sentido dos autores deste manifesto.

Este ebook é uma tradução do Brasil, mas que recomendo a todos os que gostam de refletir ideias políticas, embora, presentemente, muitos se alheiem deste campo de reflexão, deixando espaço aberto à ocupação desse vazio de amadurecimento do pensamento para preenchimento por populistas oportunistas que podem comprometer o futuro.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

"SAPIENS - História Breve da Humanidade" de Yuval Noah Harari

 

Acabei de ler, em E-book, o ensaio "Sapiens História Breve da Humanidade" do israelita Yuval Noah Harari. A obra tenta mostrar como a nossa espécie, saída da evolução biológica e, como tal, refém da física e da biologia, evoluiu através das revoluções cognitiva, agrícola e, recentemente, científica e tecnológica, se libertou de muitas amarras da natureza e está em vias de ser criadora de um novo Sapiens e, por isso, o deus criador de um novo "Homem". Daí o subtítulo "Sapiens de Animais a Deuses".

Escrito de uma forma vibrante, cada capítulo narra uma parte marcante da história da humanidade onde o homem dá um salto e se torna mais distinto das outras espécies animais, construindo mundos diferentes que levantam novos desafios físicos e questões éticas e morais, mas que, à primeira vista, parecem benéficos para a espécie, mas Harari duvida do seu contributo para um homem mais feliz.

A questão da felicidade e a vontade de vencer a morte é recorrente na obra. O autor questiona se com esta evolução não estamos a ficar cada vez mais escravos e menos felizes, havendo ainda o risco de o Homo sapiens, na sua busca de felicidade e vitória da morte, estar prestes a construir um outro Homem que, apesar dos sonhos que temos, pode resultar num monstro destruidor da própria humanidade.

A ideia lançada neste livro do Homem criador de um novo homem e, por isso, num papel de deus, levou a um outro ensaio posterior que foi o primeiro ebook que li do autor: "Homo Deus", que perspetiva o futuro, e, tal como neste, são obras que assumidamente negam o deus sobrenatural e redefinem o conceito de religião como qualquer ideologia ou crença que defenda absolutamente as suas verdades independentemente de acreditar no transcendental. Este aspeto é muito bem justificado por Yuval Noah Harari, o autor que mais tem contribuído para o meu caminhar para o agnosticismo, por isso a obra pode chocar crentes em ideologias ou religiões.

Muito fácil de ler e acessível a qualquer leitor que goste deste tipo de temas ou se questione sobre a humanidade.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"TRAGÉDIAS I" Eurípides

 


Iniciei o novo ano estreando-me num género literário e período histórico totalmente diferente do habitual: teatro grego da época clássica. "Tragédias I", do poeta dramático Eurípides do século V antes de Cristo, é o primeiro volume de um conjunto de três que reúnem as tragédias escritas por este autor que chegaram até hoje. Livros editados pela "Imprensa Nacional Casa da Moeda", encontrando-se o segundo esgotado enquanto o terceiro comprei antes que deixasse de estar disponível.
O presente livro contém quatro peças, uma sátira: Ciclope; e três tragédias: Alceste, Medeia e Heráclidas. A primeira corresponde a um episódio baseado na Odisseia, a aventura de Ulisses quando se vem abastecer em terra com a sua tripulação do regresso da Guerra de Troia e se encontra na gruta do gigante de um só olho e antropófago, o ciclope Polifemo, que imediatamente procura utilizar estes homens nos seus futuros repastos, mas a astúcia de Ulisses com o uso do vinho e aliciando os sátiros que serviam o ciclope lá se conseguirá libertar da situação. Uma peça cheia de humor com uma linguagem por vezes brejeira e fácil.
As restantes 3 peças são de uma profundidade e grande e todas elas envolvem lições de moral.
Em Alceste, Admeto, o rei de Feras, está condenado a morrer doente pelos deuses da morte, exceto se alguém der a sua vida por ele, ninguém assume tal ato, nem os seus pais idosos, então em segredo a sua mulher e mãe dos seus filhos, Alceste, assume o sacrifício com todas as tensões e análises morais que tal ato heroico e comportamento das personagens implica. Hércules conhecendo a situação irá procurar resgatar a heroína do mundo dos mortos e devolvê-la ao marido com toda a abordagem pós clímax. 
Medeia é uma história de infidelidade e vingança. Uma filha de rei que fugiu da sua casa real, que se opunha ao seu objetivo de se casar com grego Jasão, provocando ainda a morte do irmão. Jasão mais tarde decide abandoná-la com os filhos para se casar com a filha do rei da sua nova cidade Atenas. Apesar da condenação dos personagens pelo ato do marido, o rei ainda expulsa Medeia da cidade por questões de segurança. Só que a vingança de Medeia levará ao homicídio dos seus próprios filhos e da princesa, para não haver redenção em Jasão. Uma peça que analisa as questões morais do comportamento das personagens envolvidas e com um elogio belíssimo sobre os valores morais e de justiça defendidos por Atenas. 
Heráclidas, o nome dado aos filhos de Hércules, é uma peça com um teor moral mais fluído. Após a morte do herói Hércules por perseguições do rei Eristeu, este decide perseguir os próprios filhos daquele que se abrigaram no estrangeiro à sombra de um templo a Zeus na cidade de Maratona. Defendendo o princípio de hospitalidade o rei anfitrião, mesmo perante a ameaça de invasão resiste, mas é abalado quando os oráculos vaticinam a derrota de Maratona se não houver o sacrifício de uma jovem nobre, algo que Demofonte não está em condições de implementar no seu reino democrático. Eis que Macária, uma das filhas de Hércules, assume o sacrifício pela sua família e cidade de acolhimento, o que levará à derrota do inimigo e à entrega de Eristeu à velha mãe de Hércules, mas apesar das regras de clemência de Maratona este o modelo não é respeitado pela anciã Alcmena.
Nenhuma peças é extensa, necessitando de poucas horas de leitura, contudo o livro está cheio de anotações de peritos na arte clássica e existe para cada uma destas obras uma introdução de contexto que muito enriquece a respetiva compreensão e nos dão informações sobre a representação, o mundo helénico à época de Eurípides e o seu papel na abordagem das grandes questões morais, filosóficas, sociais e políticas de então que o levaram a tornar num dos três maiores trágicos clássicos.
Gostei muito, valeu a pena e o terceiro volume em breve deverá merecer a minha atenção. Foi um grande prazer apreciar estas obras com deuses e seres mitológicos perante grandes questões morais e sociais encenadas para o teatro há cerca de 2500 anos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

"Sinais de Infinito" de Humberto Moura


Acabei de ler o romance "Sinais de Infinito" da autoria de Humberto Moura, açoriano e residente na ilha do Faial e de quem sou amigo de família desde jovem, tendo recebido este exemplar por oferta do próprio, com dedicatória já há uns anos e já octogenários mas portador de uma grande lucidez e cultura em vários campos. 

A presente obra vem na sequência de outro romance do autor: "Sismo na Madrugada" que já li ainda antes deste blogue se dedicar à divulgação das minhas leituras, que me deixara então bem impressionado, o qual era referente a um filho do Faial e de mãe solteira que se destacara pela sua inteligência e por condicionantes pessoais e da ilha que o levara a sair da sua terra se tornara num jornalista de referência numa cadeia estrangeira e correra o mundo, passando a ser uma pessoa mundialmente influente, conhecida e próxima de muitos líderes  e acontecimentos que marcaram o século XX, mas que no ocaso da vida se recolhera às origens como um simples cidadão pouco compreendido pelos seus conterrâneos ainda isolados do exterior.

Sinais de Infinito prossegue a saga familiar através da neta: jornalista e igualmente famosa na mesma cadeia internacional de comunicação social. Contudo o anterior protagonista apenas soube da sua existência e a conheceu nas vésperas da sua morte já no final do anterior romance. Harriet Terra agora irá tentar perceber melhor quem foi o avô através dos seus amigos mais chegados no Faial nos últimos tempos e por um diário que terá sobrevivido ao sismo de 1998. Entretanto faz uma reportagem televisiva sobre a sua personalidade que coloca a ilha no palco do mundo, gerando um alvoroço na terra e a seguir vai visitar locais por onde ele andou e ver-se-á envolvida no cenário de uma das maiores guerras de transição do século XX para XXI.

O autor cria um romance com elementos históricos e conteúdo enciclopédico pelo saber e diversidade das personagens em torno das quais a obra progride que têm uma amizade de grupo: a jornalista conhecedora e crítica do mundo contemporâneo, um padre historiador do Faial, um médico local que questiona o seu papel na sociedade e, sobretudo, um investigador da Horta de ciências, entendido nos maiores filósofos, gnóstico e herético e interessado em descobrir o prolongamento da vida. A este núcleo juntam-se personagens secundárias que complementam o ramalhete: o presidente da câmara interessado em tirar proveito político do fenómeno, um leitor dos documentos dos Açores no arquivo nacional, uma criada do Pico entendida no saber popular e um operador de câmara sobrinho de um escritor famoso com sucessos sobre conflitos com temas de sociedades ocultas, religiões e o graal.

Deste leque brotarão numerosas reflexões sobre questões éticas e morais da sociedade contemporânea, menções a personalidades do passado e suas ideias que se destacaram pelo seu saber gnóstico, científico ou filosófico e foram vítimas dos poderes da sua época, o que permite um debate sobre os objetivos da vida, o envelhecimento, o prolongamento da esperança de vida com qualidade e as questões das ciências, tudo isto com uma pitada de especulação em torno do ocultismo e a colocação do Faial no centro de um papel messiânico para a humanidade. A referência a temas gnósticos, maçónicos e filosóficos tem um papel muito importante na obra.

A narrativa opta por ser escorreita sem a perturbação de escritas criativas que estão na moda, contudo autor destaca em itálico numerosas expressões locais e pensamentos que pretende levar à reflexão, postos em confronto, por vezes devem refletir a opinião do autor expressados pelos seus personagens, concorde-se ou não com essas deduções.

Gostei imenso da contextualização da Horta no evoluir da história dos últimos cinco séculos devido ao seu papel como porto que acolhia a navegação mundial que passava no Atlântico Norte e como polo das telecomunicações no final do século XIX até meados do XX, dando oportunidade para numerosas revelações do passado da ilha e da complementaridade com o Pico. Apesar da referência a se estar perante uma obra de ficção, na verdade é possível perceber a influência de certas personalidades da ilha que serviram de fonte às personagens e, inclusive, o quanto do autor (porque o conheço) está na forma de olhar o mundo de hoje e as questões morais e éticas levantadas.

Apesar da grande quantidade de assuntos abordados mais ou menos profundamente, o livro lê-se muito bem e mesmo centrado no Faial tem temática para interessar leitores de qualquer outra região, mas sem dúvida a compreensão da sua riqueza aumenta se o leitor conhecer bem as ilha do Faial e Pico e suas gentes, permitindo assim tirar muito mais gozo da leitura desta obra. Não é essencial ler o romance anterior, mas não só ajuda como é muito interessante esse primeiro volume da saga que poderia dar uma trilogia.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

"Solaris" de Stanislaw Lem

Excertos
"Seria possível a existência de pensamento sem consciência?"

"-E como é que tu sabes quem és?"

Acabei de ler o romance de 1960 "Solaris" do género de ficção-científica e escrito pelo polaco Stanislaw Lem, que é em simultâneo uma obra de análise filosófica sobre a questão da individualidade, da identidade pessoal, da necessidade de comunicação humana, da inteligência e até da questão de Deus. Um livro considerado de culto neste campo literário, pela sua qualidade e profundidade de análise, complementada com um drama romântico que já deu origem a dois filmes, um em 1972 e outro em 2002.
Kelvin, um psiquiatra, é mandado da Terra à estação sobre o planeta Solaris que orbita em torno de dois sóis, devido a preocupações narradas por um cientista ali estabelecido e antigo professor do médico.
Chegado ao destino, Kelvin é recebido com frieza e medo por um tripulante, sabe da morte do professor e que o outro investigador se está a isolar. Algo de estranho ocorre ali e afeta a mente de todos. Kelvin relê os dados e recolhidos ao longo de décadas e respetivas teorias sobre Solaris. Este é um astro coberto por um extenso oceano rico em matéria orgânica que já foi classificado como um ser vivo e com o qual se tenta infrutiferamente comunicar, embora este até controle características do planeta: será dotado de consciência? Após dormir Kelvin vê-se confrontado pela visita da sua mulher que se suicidara 10 anos antes e em conversa com a restante tripulação percebe que o oceano lhes lê as mentes e as controla, recriando as pessoas que os assombram, mas estas não são iguais aos humanos em termos moleculares, nem são destruíveis pelos terrestres, a situação entra em confronto com a memória e consciência destes que são incapazes de comunicar com o torturador. Kelvin tenta corrigir a sua culpa na morte da ex-mulher perante esta réplica e a tensão entre sentimentos, consciência, identidade, memória, vontade e ciência irá num conflito que coloca em questão princípios da humanidade.
A escrita de Lem é cuidada e algumas das passagens são muito filosóficas e difíceis, havendo outras muito descritivas, embora a história seja alimentada com diálogos fáceis brilhantemente elaborados que põe a nu as questões levantadas. Assim, está-se perante uma obra complexa, densa e não numa mera aventura no espaço típica de muita ficção pseudocientífica comercial.
Raramente após a leitura de um romance vou procurar os filmes na internet, mas neste caso a riqueza dos pormenores no texto levaram-me a tal, embora os filmes sejam bons, seguem o mais fácil, sem aprofundar as descrições dos fenómenos oceanográficos e muita filosofia do livro. Este, apesar de partes difíceis, gostei muito.

Solaris pelo realizador Tarkovski em 1972



domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

domingo, 21 de julho de 2019

"Um, ninguém e cem mil" de Luigi Pirandello


Excerto
"Você acredita que se conhece, se não se construir de alguma maneira?... Só somos capazes de conhecer aquilo a que conseguimos dar forma."

Em "Um, ninguém e cem mil" o escritor italiano Luigi Pirandello, laureado com o Nobel da literatura, constrói uma dialética, cheia de humor e reflexão, em torno da busca de identidade que cada um tem de si e daquelas que e os outros fazem de nós próprios,não somos únicos mas uma miríade de personagens. Somos uma composição múltipla de todas essas individualidades criadas por nós e por quem socializamos.
A partir de um comentário da mulher enquanto Vitangelo Moscarda se olhava ao espelho, no qual ela lhe comunica a inclinação do seu nariz de que ele nunca se apercebera, começa um conjunto de reflexões de como sou eu? Que imagem têm os outros de mim? Questões que se tornam numa obsessão que vão mudar a sua vida de banqueiro a viver à sombra da sua riqueza herdada em alguém que não apenas se quer mudar mas deseja que os outros o modelem com uma personalidade diferente.
Escrito em estilo de autorreflexão, onde trespassa ao longo dos parágrafos humor, apreciação do problema e dedução, Pirandello monta a mudança de uma personalidade a partir de um ensaio de autoanálise do protagonista.
Originalíssmo e divertido, embora exaustivo pela miríade de variantes que se vão labirinticamente cruzando, não perde interesse por ser relativamente curto, o que alimenta a vontade de saber como ficará Vitangelo Moscarda no fim do romance.
Fiquei com curiosidade de descobrir outras obras deste escritor.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

"O Processo de Adão Pollo" J. M. G. Le Clézio

Excerto
"Se preferem, Deus tanto se compreende através do seu inverso, do seu Diabo, como dele próprio, na sua essência."

Acabei a primeira leitura de uma obra do francês Le Clézio, precisamente com o romance da sua estreia como escritor: "O Processo de Adão Pollo" alguém que décadas depois foi laureado com com o Nobel da literatura.
Adão Pollo, não se lembra se é desertor das forças armadas ou de um manicómio, sabe que se acolheu numa vivenda abandonada sobre o mar, onde recebe uma amiga que lhe traz mantimentos e tem esboços de situações passadas, talvez uma violação. Desta moradia observa pessoas, animais e acontecimentos que o rodeiam, começa a identificar-se com os seres que vê, entra em delírio com essa comunhão existencial que interfere com a paranóia do medo de ser expulso pelos donos da habitação, mas quando impulsivamente comunica a sua filosofia ao povo dá-se o seu colapso. É interceptado pelas autoridades e levado para uma casa de alienados, onde estudantes de psiquiatria o interrogam. Percebemos então que é um jovem licenciado, muito inteligente que fugiu de casa face ao seu anseio de liberdade e de viver que narra várias situações da sua vida e levanta numerosas questões existenciais deixando os alunos perdidos no seu inquérito de diagnóstico.
A obra excelentemente escrita articula uma narrativa original com escrita criativa experimental e incorpora questões de filosofia existencialista, tentando também revelar a psique de uma mente perturbada que roça a genialidade entre alienação e o racional ao nível das suas interrogações e vontade de viver.
Como obra de ficção gostei de ler, como texto de análise psicológica e filosófica é interessante e a originalidade da estrutura narrativa tornam-no cativante, o que justifica ter sido um sucesso editorial, mesmo sem ser um livro acessível ou interessante para qualquer leitor.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

domingo, 10 de junho de 2018

"Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" de Philip K. Dick


Excertos
« ...os androides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 tinham, numa perspetiva grosseira, pragmática e eficiente, evoluído para além de um maior - mas inferior - segmento da humanidade. Para o melhor ou para o pior. O servo tinha-se, em alguns casos, tornado mais inteligente que o seu senhor

« Terás de fazer coisas erradas onde quer que vás... É a condição básica da vida, teres de violar a tua própria identidade. Em determinada altura, todas as criaturas que vivem devem fazê-lo. É a sombra final, a derrota da criação; esta é a maldição em funcionamento...»

Poucos parecem saber que o primeiro filme "Blade Runner" se baseia no livro "Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" escrito pelo americano, famoso pelas suas obras de reflexão e humor negro em ficção científica, Philip K. Dick, várias das quais adaptadas ao cinema.
Após uma guerra o planeta está contaminado, a maioria das espécies extintas e a humanidade vive só em certas cidades sob alertas de radioatividade e com certas máquinas de controlo psicológico que cria uma nova religião social, mas o desejo mais comum das pessoas é ter animais domésticos reais face à oferta de cópias elétricas. Há colónias no sistema solar onde foram fabricados androides servis, que com a evolução são cada vez mais indistintos dos humanos, até que alguns nos ultrapassam, querem viver em liberdade, desejam estabelecer-se na Terra, aonde estão interditos e para onde fogem. Surge assim a profissão liberal de caçadores de androides remunerada por prémios de captura. Os Nexus-6, topo de gama na inteligência, dão luta, surge a possibilidade sentimental entre pessoas e máquinas e assim se desenrola nesta sociedade distópica o trabalho policial de Rick em São Francisco com reflexões morais e éticas entre tecnologia e o seu controlo.
A obra original é mais abrangente que a adaptação cinematográfica, esta limita-se ao essencial da caça, embora várias das questões do livro tenham sido transpostas para o filme. O romance, além de bem escrito, é mais profundo nas reflexões e não se limita a mostrar a questão dos sentimentos nos androides, pois mostra o vazio nas pessoas no mundo contemporâneo. Tendo sido publicado em 1968 o futuro imaginado evoluiu diferentemente nalgumas situações do que o imaginado na obra, pelo que há um desfasamento na visão do futuro tecnológico, mesmo sendo claro que se estaria na última década do século XX,  pode-se sempre transpô-la para um futuro posterior ao nosso presente.
Gostei muito do livro que é de fácil leitura, mas já me encantara com Blade Runner, obras diferentes e ambas geniais no seu género de ficção-científica, distópica  e levantando questões de ética e moral.

quinta-feira, 1 de março de 2018

"O Banqueiro Anarquista" de Fernando Pessoa


Citações
"Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente"

"Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, que não admite lei senão a Natureza,... ...por que carga de água é que defende o altruísmo e o sacrifício pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais?"

"O Banqueiro Anarquista" é um dos textos famosos de Fernando, aliás penso que tudo dele é famoso e bom. Assim, após me cruzar com uma divulgação deste texto num blogue, que sigo recentemente, lembrei-me que o folheara poucos dias atrás e decidi conhecer o meu poeta de eleição como contista.
Num jantar de dois amigos, o narrador decide questionar o banqueiro rico sobre dizerem que ele fora anarquista, ao contrário do que a sua profissão e estatuto indicaria. O banqueiro não só confirma o passado, como confessa ainda o ser e de levar esse espírito à prática mais do que os defensores típicos da causa. A partir daqui, o banqueiro irá fundamentar as suas razões, a coerência da sua situação e todo o historial que o levou ao seu sucessos no respeito da ideia que defende.
Fernando Pessoa desenvolve assim, ao longo de várias dezenas de páginas, um conto com uma evolução dialética de forma socrática liderada pelo banqueiro, mas onde ele próprio aponta o que parece incoerente, em seguida refuta e evidencia a lógica do seu raciocínio, que depois o amigo narra.
Um texto filosófico, inteligente que se torna divertido com as ironias e críticas subliminares aos defeitos e vícios da sociedade que então se confrontava entre a mentalidade burguesa, o marxismo e a terceira via do anarquismo.
Bem escrito, argumentado e uma pérola que recomendo a todos os leitores que gostem de debates inteligentes e de bom humor. Adorei.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Focos de Tensão" de George Friedman


"Focos de Tensão" de George Friedman, filho de uma família judaica do leste da Europa refugiada nos Estados Unidos, é um ensaio onde o autor, académico, procura evidenciar que a paz na Europa não é um facto definitivo, existindo muitos aspetos em que este continente possui tensões que podem fugir ao controlo dos seus dirigentes, nomeadamente: nacionalismos (o caso da Catalunha nem é lembrado), interesses económicos, receios, crenças e particularidades que são explosivas e cujo um incidente pode levar a guerras.
Assim, após se compreender os caminhos que levaram a Europa a dominar o mundo cultural, política, económica e militarmente, Portugal não é esquecido, este continente, pela sua filosofia e tensões internas, em 3 décadas no século XX tornou-se marginal e desinteressante para as várias potências do século XXI, um mero rico fraco, incapaz de se defender de ameaças de guerra ou de se impor para salvaguardar os seus interesses: um cadinho cujos equilíbrios em que assenta a sua paz, inclusive na União europeia, a qualquer momento pode entrar em rotura. Um ensaio que é uma lição de história e um aviso aos europeus. Li-o em formato ebook, mas existe também a versão em livro de papel.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lincoln no Bardo de George Saunders


Sabia que o vencedor do Booker Prize 2017 seria um livro diferente de todos os que já lera e foi a curiosidade que me levou a arriscar a ler "Lincoln no Bardo" de George Saunders, norteamericano, e neste aspeto, após a leitura, assumo a originalidade da estória e da escrita do romance que em nada se assemelha a nenhum outro. Assim, não admira que no início tenha estranhado, mas ao contrário do que por vezes acontece ao continuar a ler, aqui não "entranhei".
A estória arranca com a morte de Willliam (personagem histórica) filho do Presidente Lincoln após este, perante a enfermidade da criança, manter o baile na casa branca por o considerar importante para animar a comunidade da cidade, tensa com a guerra civil que os Estados Unidos então atravessam. Segue-se o funeral e a receção da criança na comunidade dos que já abandonaram esta vida mas resistem em permanecer no cemitério, onde vamos conhecendo o que os mais marcou individualmente enquanto estiveram na terra. Atordoado, William não reconhece a situação em que está, é visitado pelo pai durante a noite, depois há uma luta dos anjos do mal para conquistar os resistentes e o recém-chegado, este não cede ancorado na promessa da volta do Presidente. Assiste-se assim a s estratégias de solidariedade das almas, enquanto vamos descobrindo todos os seus vícios e defeitos privados do passado de que ainda não se libertaram. Assim, durante uma noite, vê-se o esforço coletivo para fazer o bem a alguém recém-chegado por parte de gente que se sabe estar condenada pelo que antes fizera, nalguns casos condutas bastante chocantes, tentando inclusive agir sobre o visitante vivo de forma metafísica.
Passando agora à escrita, novamente se entra numa texto diferente de tudo o que já li, o período respeitante à vida dos Lincoln desde a doença, baile, morte de William e sentimentos do Pai são narradas como uma coletânea de testemunhos, por norma de um parágrafo, cujos autores são referenciados ou como excertos de notícias ou livros de memórias novamente com a origem identificada (mesmo que fictícia), enquanto no além temos como que um texto dramático onde os atores vão referindo as suas partes e construindo uma peça que se assemelha a uma representação macabra cujos intervenientes têm de se recolher ao seu sarcófago com o nascer do sol e  onde cada personagem ou testemunho tem características sintáticas, lexicais e níveis da pessoa em si, o que dá uma mistura de estilos e formas de expressão variada, desde o formal até ao brejeiro, afinal na sociedade tudo isso coexiste como no livro e apesar de mais de 300 páginas a leitura é rápida pelo espaço livre entre textos para teatro.  O livro intercala por vezes capítulos referentes ao período em casa dos Lincoln com outros passados no sobrenatural, montando-se assim o conjunto da obra.
Técnica e imaginação não faltam no romance, se gostei? A minha resposta é não!
Há pontos incoerentes, o autor quis mostrar a ligação de cada um aos seus vícios e hábitos que nem no além se conseguem libertar, não sei se quis condenar indiretamente alguns comportamentos que hoje são aceites ao contrário do passado, além de mostrar a dor íntima de um pai que luta com o dever público e a discrição privada, mas que a obra dá lugar a muitas questões, lá isso permite, como exercício de escrita é uma jóia e talvez seja isso que justifica tão importante prémio.

sábado, 25 de novembro de 2017

"Cândido ou o Optimismo" de Voltaire


Acabei de ler um dos mais famosos romances do pensador francês do tempo do Iluminismo no século XVIII: Voltaire e o seu "Cândido ou o Optimismo" numa edição da revista Visão que tem editado clássicos históricos da literatura mundial.
A obra é uma paródia, cheia de fantástico, ironias, sarcasmos e críticas às filosofias otimistas da época propagadas por Leibnitz. Goza com os conceitos do mal, moral e físico, e a razão suficiente para explicar a injustiça da sociedade europeia quando se dizia que o mundo estava a evoluir para o melhor pois criado por um Deus que nos quer bem. Em paralelo, lança farpas à tentativa da religião maniatar o pensamento das pessoas e a liberdade social, bem como ao absolutismo, escravatura, libertinagem, práticas abusivas dos cristãos, muçulmanos e outras questões polémicas de então.
Cândido, acolhido numa família nobre, assimila as filosofias otimistas do percetor do palácio, assiste a amores escondidos do pessoal, apaixona-se pela filha do anfitrião: Cunegundes, é apanhado e expulso para uma terra cheia de terror e injustiça, sem deixar de crer que está no melhor dos mundos e tudo se destina ao bem.
Segue-se então uma série acelerada de desaires, onde combate, é ferido, sobrevive, reencontra o percetor em desgraça e doente de luxúria que narra a morte de toda a família do palácio. Fogem para Lisboa apanham com o terramoto, são condenados pela inquisição para terminar o tremores, escapa sozinho e reencontra a sua amada morta que lhe conta a sobrevivência. Partem para Buenos Aires, perde de novo a sua amada para o governador. Chega a um Eldorado de indígenas perfeito, mas a paixão o faz querer sair e recuperar Cunegundes. Então riquíssimo sofre nova série de desventuras: reencontra gente que vira morrer, comerciantes ladrões, amigos oportunistas, padres lascivos, médicos charlatães, reis destronados, cai nas mãos de muçulmanos sem perder o otimismo e no fim percebe como alcançar o melhor dos mundos.
A obra está cheia de cenas mirabolantes, ridículas e divertidas, gente que morre mas depois sobreviveu, mitos fantásticos e pormenores históricos da realidade da época, cujas quase 200 notas em rodapé nos dão excelentes informações dos aspetos escondidos no simbolismo do texto.
Portugal é então o país mais rico da Europa, com um povo ignorante e dominado por um clero fanático e retrógado. Este País e as suas gentes têm um papel muito importante dada a sua magnificência na época. Gostei, mais ainda porque as notas complementam muito bem esta paródia fantástica e sem elas o livro perdia muito da sua atração e compreensão.