impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
sábado, 15 de novembro de 2025
"Solitária" de Eliane Alves Cruz
sexta-feira, 26 de setembro de 2025
"Não se pode morar nos olhos de um gato" de Ana Margarida de Carvalho
Citações
"E quem só dá conta de pequenos males, enche-se tanto deles que acaba por não sobejar espaço para o mal grande."
"não é Deus que dorme, nós é que o sonhamos."
Há livros que, inicialmente, me custa prosseguir a leitura "Não se pode morar nos olhos de um gato", da portuguesa Ana Margarida de Carvalho, foi uma dessas obras. Há uns anos atrás desisti mesmo na primeira meia dúzia de páginas e agora quase que repetia o ato, venci esta rejeição do começo e depois deparei-me com um romance magnífico com prémios literários plenamente justificados. Que grande e magistral livro. Tinha-me sido recomendado por este blogue do Brasil com que troco opiniões literárias, estranhei os elogios de então dados por Pedrita, agora, rendido ao romance, dou-lhe toda a razão. Valeu a pena!
Após o fim da escravatura no Brasil, um navio negreiro clandestino naufraga na costa daquele País, os escassos sobreviventes: um capataz, um criado deste, a mulher e a filha do negreiro, um padre, um bebé negro, um jovem rejeitado, um antigo escravo e a imagem de uma santa cabocla, que os parece censurar; atingem uma pequena praia isolada que duas vezes por dia é galgada pela maré e situada sob uma falésia com uma pequena gruta que lhes permite evitar o afogamento. Entre eles, os preconceitos individuais e a necessidade de cooperação para sobreviver, a que se juntam as memórias e os remorsos de passados sombrios e não recomendáveis de cada um que perturbam o presente, mas todos terão de ultrapassar tudo isso para almejar uma escapatória da situação, enquanto novos sentimentos de ódio e paixão se desenvolvem entre eles.
No primeiro capítulo vemos a vida no navio pelos olhos da santa de pau com cabelo índio: a violência do comandante sobre a tripulação, do capataz sobre os escravos clandestinos, o comportamento dos passageiros, bem como a escassez de água e comida e reações extremas que justificam o castigo do naufrágio. Depois, temos as vivências dos náufragos na praia isolada e em cada capítulo recuamos ao passado de um dos vários sobreviventes. Assim percebemos as tensões e vícios que lhes vão na alma, frequentemente intercaladas com ditos justificativos da autora sobre as reações observadas.
Uma escrita criativa que amplia as tensões psicológicas e cujas máximas que culminam esses momentos fornecem imensas frases para sublinhar e refletir, mas que no início me custou a digerir e depois admirei. O vocabulário junta termos de uso mais comum no Brasil com outros de Portugal, evidenciando a riqueza da lusofonia que, efetivamente, fala uma grande língua comum.
Gostei mesmo deste romance, um livro muito bom, uma grande obra literária de partilha lusófona, nem sempre fácil, mas capaz de agarrar o leitor pela tensão, suspense e drama psicológico. Recomendo.
sábado, 12 de abril de 2025
"canção para ninar menino grande" de Conceição Evaristo
Citação
"o mais sagrado de uma mulher pode-se encontrar para além de seu corpo"
Acabei de me estrear na escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, com o seu mais recente romance "canção para ninar menino grande". Depois de ter lido referências a esta autora no blogue de uma amiga e de ter ouvido uma entrevista cheia de ternura e compreensão, mas não submissão de Conceição Evaristo na RTP, a curiosidade levou-me a comprar este livro e foi uma boa decisão.
Fio Jasmim, um menino bonito, foi preterido no teatro da escola para o papel de príncipe a favor de um colega branco. A secundarização leva-o a uma grande necessidade depois de conquistar e ser aceite pelas mulheres e, apesar de casado, do casal se amar mutuamente e de terem cerca de uma dezena de filhos, ele, na sua profissão de maquinista ferroviário, tem numerosas relações amorosas nas várias cidades a que se desloca devido à sua beleza parecer um príncipe negro. Tina, uma das mulheres que por ele se apaixonou, fez um levantamento desses casos, de quem foram essas mulheres e como caíram nos braços com conquistador e contou-os ao narrador. A lista vai até ao momento em que Fio descobre que é possível estabelecer uma amizade com uma mulher diferente que vai muito além de ela ser um mero troféu sexual para exibição pública da virilidade e aceitação social.
O texto tenta juntar as sensações da vida com a arte da escrita, num processo que a autora intitula de "escrevivência", um modo, que sem tocar no realismo mágico, leva a situações extremadas do comportamento humano pela magia dos sentimentos, este modelado por mitos sociais do que é a relação sexual, sentimental e social. Conceição Evaristo, sem ser incisiva, toca os preconceitos que existem na diversidade racial e de género de um modo didático, humanista e poético.
Um bom pequeno romance em torno deste Don Juan, bastante fácil e agradável de se ler.
domingo, 18 de junho de 2023
"Estorvo" de Chico Buarque
Li o romance de estreia "Estorvo" do cantor e escritor brasileiro Chico Buarque e galarduado com o prémio Camões. Tinha esta obra integrada numa coleção que comprei e associada a uma assinatura de um jornal.
Na transição entre o sonho e a realidade de um acordar com o toque da campainha, o protagonista vigia quem pretende ir ao seu apartamento, num vislumbre reconhece mas não lhe abre a porta. Regressa então à cama e entramos numa espécie de delírio entre memórias e uma peregrinação de uns dias onde todos os momentos narrados sucessivos corresponde a uma mistura da realidade presente e recordações de factos, desde ao visita à ex-mulher, ao roubo da irmã numa casa de sonho, passando por mala de estupefacientes e visitas a uma casa de infância ocupada por gente muito estranha.
Num texto poético que parece um delírio, é de facto uma obra estranha, mas que depois de começar a ler, li compulsivamente embora mais me parecer o evoluir de um sonho cheio de factos do que uma narrativa linear. Gostei embora por vezes me sentisse perdido num surrealismo cujo o texto me deu prazer de ler.
segunda-feira, 7 de novembro de 2022
"O Guarani" de José de Alencar
Citações
"Não se pode viver somente de ódio e desprezo"
"De que serviria a existência se não fosse para satisfazer um impulso da nossa alma?"
Acabei de ler um dos livros clássicos da literatura brasileira: "O Guarani" de José de Alencar, um romance histórico, escrito em meados do século XIX, cuja a trama se passa no início do século XVII quando Portugal perdera a independência e ficou sob a soberania espanhola, um período em que a fidalguia no Brasil oscilava entre a fidelidade ao antigo reino lusitano ou ao domínio filipino.
António de Mariz, insatisfeito com o domínio filipino, decide isolar-se para o interior da floresta da Serra dos Órgãos com a família e um conjunto de serviçais que defendem e se envolvem na gestão da sua fazenda. Esta situa-se numa zona selvagem com indígenas não convertidos, mas é o seu domínio fiel a Portugal. Num incidente, o índio Peri salva a sua filha Cecília e o fazendeiro agradecido acolhe-o, depois o salvador, por paixão, dedica-se de todo à moça para descontentamento da mãe desta e de sua meia-irmã. Paralelamente, noutro acidente, o ilho Diogo mata uma índia, o que leva a uma ação de ataque revanchista da sua tribo, enquanto um dos guardas de Mariz, ex-monge renegado por ambição de riqueza, também se apaixona por Cecília e decide criar uma revolta para raptar a donzela e levá-la para uma mina de prata que só ele sabe o segredo da localização. No nestes perigos e paixões é Peri, o herói gentio, quem, com o conhecimento de sobrevivência na floresta e dedicação total à jovem, tentará, in-extremis, salvar a família e a jovem lutando o preconceito de uns e o ódio de outros em momentos de grande suspense e surpresa.
Trata-se de uma narrativa tipicamente do século XIX com cariz nacionalista, mas que prenuncia a literatura romântica. As personagens tendem a ser boas de todo ou completamente más, podendo evoluir de um campo ao outro. José de Alencar descreve com grande pormenor, abuso de figuras de estilo e em tom poético a floresta atlântica, os costumes indígenas, a subserviência religiosa e os preconceitos da época e da evangelização. A obra, que li em e-book, tem um conjunto de notas que explicam numerosos aspetos históricos, florísticos, faunísticos e dos costumes dos povos descritos na trama, o que enriquece em muito o conteúdo do texto sem o tornar fastidioso.
A história dá para compreender o contexto de comportamentos, hoje tido por errados, dos colonos de então, vivendo numa sociedade dominada por uma religiosidade exacerbada a enfrentar culturas animistas e representantes de um reino à conquista e em missão de evangelização destes povos pagãos que viviam livres nos seus domínios há séculos, um choque cultural semeado de preconceitos que José de Alencar procura subtilmente denunciar enquanto eleva a dignidade do índio. Todavia o romance também é escrito numa época em que não a de hoje, a sociedade não era ainda tão laica, nem liberta de muitos desses preconceitos, além de regida por uma castidade aguerrida e dominada pelo masculino, sendo evidente o esforço de equilibrar e justificar a crítica perante a moral e ética aceite no século XIX, daí a riqueza cultural desta obra que a transforma num clássico e permite a reflexão sobre o passado. Fácil de ler, gostei e por isso a recomendo a qualquer leitor.
sábado, 24 de setembro de 2022
"A dança dos Ossos - Antologia do conto gótico luso-brasileiro" Vários Autores
Uma coletânea de 27 contos de teor gótico, 13 de autores lusos e 14 de escritores brasileiros, selecionada por Ricardo Lourenço, que cobrem este género literário desde meados do século XIX até às duas primeiras décadas do XX.
No conjunto existe escritores de grande renome literário como Eça de Queiroz e Machado de Assis, outros conhecidos e alguns de quem nunca ouvira falar, a heterogeneidade de autores também se reflete na diversidade dos contos, alguns quase da dimensão de novela, outros curtos e muitos entre uma a duas dezenas de páginas.
Desde lendas medievais, passando por pseudociências mais atuais, bruxas, espiritismo, até narrativas onde o sobrenatural é apenas fruto da sensação extremada que conduz ao terror ou à suspeita deste, alguns com lições de moral, outros inócuos, a coletânea vale sobretudo pela informação biográfica dos seus autores, do seu papel na história da literatura, da cultura ou da política do seu país e ainda pela amostra do género pouco divulgado em Portugal.
Confesso que alguns contos gostei mesmo muito, outros divertiram-me, nenhum me tirou o sono e também houve alguns (poucos) que nada me disseram, mas valeu a leitura do conjunto "A dança dos ossos" e recomendo a quem se interessa por este tipo de literatura mais negra, que explora medos das pessoas, fenómenos menos claros para a ciência e as crenças e superstições existentes nestas duas sociedades de língua portuguesa.
terça-feira, 19 de novembro de 2019
"Antigas e Novas Andanças do Demónio" de Jorge de Sena
quarta-feira, 10 de abril de 2019
E-book "Risco escuro na claridade" de Maiky da Silva
domingo, 10 de março de 2019
"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.
sábado, 26 de janeiro de 2019
Contos de Clarice Lispector
sábado, 29 de dezembro de 2018
"Um copo de cólera" de Raduan Nassar
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.
segunda-feira, 23 de julho de 2018
"Dois Irmãos" de Milton Hatoum
Dois Irmão narra a história de uma família de origem libanesa em Manaus vinda no início do século XX, a primeira geração de pai e filha, cristãos maronitas, o casamento desta com outro imigrante muçulmano, um pinga-amor apaixonado de um erotismo exacerbado pela sua mulher e depois dos seus três filhos, onde se destacam os gémeos Omar e Yaqub que desenvolvem um ódio figadal na adolescência ao amarem a mesma moça. A partir daqui, com base no que observou e lhe foi dito, Nael (filho de um dos gémeos com uma índia acolhida na família e a personagem mais equilibrada do conjunto) narra não só o desenvolvimento de Manaus ao longo de mais meio século, como a vida quotidiana típica num bairro do centro desta cidade e ainda o declínio desta família em virtude da rivalidade dos irmãos: Omar, um superprotegido da mãe com comportamento devasso e profissionalmente irresponsável, e Yaqub, votado a um maior desprezo que é o oposto do seu irmão tornando-se num engenheiro de sucesso, enquanto a irmã vive tentando equilibrar este conflito que se estende aos pais e tenta preservar o legado do passado.
A escrita com parágrafos extensos e grande recurso ao vocabulário local, faz magníficos retratos da região do Amazonas, da forma de vida do povo no centro de Manaus e explora o drama, com momentos de grande tensão, juntando com frequência um humor aos sentimentos hiperbólicos e por vezes sarcástico, o que suaviza as situações paroximais de expressão do ódio e dá um ambiente que chega a ser divertido no seio da dor que vai massacrando toda a família.
Se não gostei da devassidão destrutiva de Omar, adorei a qualidade da escrita e a força posta no conflito de sentimentos e a capacidade de retratar uma Manaus que penso ter desaparecido com a modernidade e expor a sua gastronomia, são aspetos por que vale a pena conhecer este livro e este escritor.