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terça-feira, 12 de maio de 2026

"Neuromancer" de William Gibson

 

Estreei-me no escritor canadiano por adoção e natural dos Estados Unidos, William Gibson, com a leitura do seu romance mais famoso "Neuromancer", que popularizou o termo ciberespaço. Obra publicada em 1984, marcou o estilo cyberpunk da literatura de ficção-científica e foi vencedor de dois galardões literários mais reconhecidos deste género de ficção: os prémios Nebula e Philip K. Dick, sendo que o autor também já ganhou um Hugo na trilogia iniciada por Neuromancer e serviu de inspiração ao argumento da tetralogia dos filmes de ficção-científica Matrix, embora com um enredo muito diferente.

Case vive na megacidade de Boston a Atlanta: Sprawl; nela abundam bares com tráfico de droga, álcool, violência de gangues e prostituição que ele frequenta. Case possui componentes informáticas incorporadas no seu organismo e é um hacker que interceta software do ciberespaço para patrões maiores, quando à revelia vende dados a outro bando, é castigado com injeção de uma toxina que lhe impede a sua profissão, entretanto a sua namorada é assassinada. Na sua fragilidade, surge-lhe Molly, uma mulher cyborg que lhe apresenta Armitage que lhe promete a cura em troca de participar no apoio a um assalto que pretende roubar a memória do seu antigo formador de pirata informático a uma base de dados. Só depois descobre que a aceitação tem uma condicionante que o torna refém de um projeto que envolve um guerra vasta entre gigantes informáticos, uma Inteligência Artificial (IA) e um impérío de luxo com uma estância espacial para gente rica, onde ele e Molly formam uma dupla que enfrentam numerosos perigos tanto no mundo real como virtual nos quais vivem.

O início da leitura foi um murro no estômago, não só pelo mundo decadente por onde Case andava, como pela gíria criada por Gibson e ainda a dificuldade em começar a distinguir o que era o real, virtual, personagens físicas e IA, tudo isto flui interligado no texto, cabendo ao leitor situar-se. Confesso que ao fim de umas dezenas de páginas comecei a perder-me e então entrei num aplicativo de IA e fiz duas ou três questões, voltei a reler alguns parágrafos e eis que se fez luz sobre a técnica narrativa, estilo de escrita. O livro tem também um glossário para a gíria utilizada.

Igualmente tem um prefácio de Gibson escrito em 2004, onde fica claro que este foi um futuro imaginado em 1984, quando muito do criado já era bem real: o ciberespaço, IA,  realidade virtual, enquanto outras realidades, nem ele tinha imaginado: telemóveis (celulares), o fim dos modems e por isso temos momentos absurdos de busca de cabines telefónicas, os ruídos da ligação por modem, etc. Para tornou-se divertido na leitura ver estes avanços tecnológicos não considerados na obra com tantas outras invenções e a sobrevivência de outras tecnologias já hoje praticamente extintas.

Se gostei, sim, muito, a partir de certo momento já me sentia envolvido como num obra de espionagem e suspense, mas não é uma leitura simples e fácil, mas permite experimentar algo diferente, a partilha das minhas dúvidas com a IA gerou uma realidade nova, próxima da do livro, e espero voltar ao autor numa outra obra bem mais recente, fora da trilogia para ver como evoluiu.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

"MaddAddam" de Margaret Atwood

 

Reli, desta vez em português: "MaddAddam", da escritora canadiana Margaret Atwood, o terceiro volume da trilogia distópica sobre um fim possível e próximo da humanidade provocado de modo intencional e iniciado pelo volume "Órix e Crex".
A primeira leitura, em inglês, deu origem a esta publicação, apesar do título deste volume manter o nome original, no interior, MaddAddam está adequadamente traduzido por MarAdão, e corresponde a um grupo dos escassos sobreviventes da catástrofe que juntam genialidade científica e religiosidade ecologista, pelo que serão os novos Adões da humanidade, mas muitos com um comportamento marado na sociedade capitalista destruída pela catástrofe infligida por Crex. Talvez a tradução passada a título não fosse comercializável, embora, como trilogia, deveria assegurar o público que lera os volumes anteriores. Para manter alguma tensão romanesca, descobrimos que também sobreviveram alguns fora-da-lei para entrar em confronto com os bem intencionados MarAdões. 
Em MaddAddam assistimos ao evoluir social dos sobreviventes humanos do grupo MarAdão, sobretudo pelo testemunho de Toby, personagem que já era importante no segundo volume, bem como, ao contacto daqueles com os seres perfeitos criados por Crex para substituir os Homens. Estes estão destituídos de maldade, são vegetarianos e sem sentimentos de propriedade e de hierarquia, inclusive, conceitos de família, de modo a evitar instintos bélicos, tensões sociais e sexuais como ciúme e ainda ganância.
À semelhança dos anteriores volumes, as memórias do passado narradas pelas por Toby e Zeb já antes importante, vão completando o retrato do viver violento, hedonista, de tecnologia sem ética desenvolvido por um capitalismo ganancioso e desigual, bem como ambientalmente insustentável que levou à opção de Crex exterminar a humanidade e criar o seu homem novo.
Alguns dos animais geneticamente modificados ou com cruzamento de genes e partes do homem, entretanto desenvolveram capacidades humanas, pelo que a nova sociedade tenta encontrar vários equilíbrios ecológicos e sociais entre espécies distintas.
A incumbência de Jimmy para instruir os Crexianos, por impedimento deste, passa agora a ser assumida por Toby, mas se Crex queria um mundo natural sem crenças que perturbassem a racionalidade e a relação com a natureza no homem por ele criada, tal como já se perspetivava desde o primeiro volume, a mente humana anseia por narrativas e uma nova mitologia crexiana surge dando as bases para uma futura religião com entes superiores criacionistas cujas vontades moldam a realidade à semelhança das religiões do passado.
Por sua vez o desejo sexual e o amor levam ao surgimentos de ser híbridos em coabitação com os humanos sobreviventes e os crexianos que no futuro darão origem a uma civilização radicada em saberes do passado que permitiria uma tetralogia que até hoje Atwood não escreveu, mas fica a ideia que se a humanidade natural tem muitos defeitos, a solução de um novo homem perfeito não gera a perfeição.
Gostei muito desta distopia e Atwood é de facto uma escritora com uma criatividade difícil de igualar e está atenta aos riscos do mundo atual que denuncia como alerta e como nas notas finais ela explica, tudo o que romanceou é hoje possível com os conhecimentos e tecnologias disponíveis... 
Já noutra distopia: "História de uma Serva", com perto de 40 anos, que li há muito, ela mostrava a possibilidade de os EUA evoluírem para um regime autoritário, com fanatismos e extremismos, quem diria. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

"O Ano do Dilúvio" de Margaret Atwood

 

Acabei a releitura do segundo volume da trilogia distópica sobre um possível fim da humanidade escrita pela canadiana Margaret Atwood, mas agora na sua tradução para Portugal: "O Ano do Dilúvio". 
No primeiro volume "Órix e Crex" viu-se o fim da civilização humana através dos olhos de Jimmy, o Homem das Neves, que até perto do fim do romance parece ser o único sobrevivente da pandemia gerada por Crex, feita como revolta contra esta civilização capitalista, injusta e desigual, levando à substituição de homem natural atual por um novo Humano, perfeito e criado por manipulação genética.
Se em "Órix e Crex o mundo é visto pelos olhos de quem vivia nos espaços privilegiados das grandes corporações da economia global, com as sua regalias e luxo, em O Ano do Dilúvio conhecemos o que era a vida dos cidadãos comuns nas zonas exteriores e miseráveis através das memórias de duas sobreviventes da pandemia criada por Crex: Toby e Ren.
Assim, temos um mundo cheio de violência, de consumismo incentivado pelas corporações, niilismo e graves problemas ambientais com extinção de numerosas espécies animais, subida dos mares e tempestades num clima tórrido. Situação que leva ao surgir de uma nova religião ambientalista, os Jardineiros de Deus, a que pertenceram as protagonistas. Vemos a vida destes auto-excluídos vegetarianos, a sua mensagem teológica radicada no Génesis bíblico, enquanto esperam um fim do mundo próximo num dilúvio seco. Conhecemos  as suas festividades com santos que são grandes nomes da ecologia e das ciências naturais, sermões do líder Adão Um e como louvavam a biodiversidade e se preparavam para o pós-dilúvio como novos Adãos e Evas. Assistimos ao cruzar das personagens importantes dos dois volumes e ao encontro final entre os dois tipos de seres humanos: Jardineiros, dois representantes do mal passado e os crexianos, a nova humanidade, deixando assim pistas para o terceiro volume que irei ler em Português.

A principal novidade desta releitura em português foi ficar claro algumas ligações entre os dois volumes que antes me escaparam, por ter levado uma década de intervalo entre as primeiras leituras dos mesmos, é sem dúvida um romance ecologista, cuja mensagem procura despertar para um modo de vida sustentável e em equilíbrio com a biodiversidade, por vezes mostrado através de algum radicalismo, mas também com a análise crítica do mesmo, sem excluir o criacionismo do Génesis revisto à luz do evolucionismo. A versão inglesa está enriquecida com hinos das festividades que se podem seguir musicalmente na net, enquanto a lusa, apenas temos os seus versos, contudo, o tradutor procurou respeitar não só o espírito dos textos originais como acompanhar a criatividade linguística de neologismos necessários para a compreensão do mundo ficcionado pela autora canadiana. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

"Órix e Crex (O último homem)" de Margaret Atwood

Passado cerca de 20 anos, reli, agora em português, o romance "Órix e Crex" que encontrei na biblioteca pública da Horta. Um livro da canadiana Margaret Atwood, que na tradução lusa tem o subtítulo "O Último Homem", no original só "Oryx and Crake". Este é o primeiro livro de uma trilogia que já li integralmente em inglês, contudo, apenas falei neste blogue do último volume, já que as leituras dos anteriores decorreram antes da existência de Geocrusoe ou deste se ter tornado um espaço para falar de livros.

O romance decorre num futuro próximo, distópico, com o descontrolo da investigação tecnológica, sobretudo, da genética; num ambiente de catástrofe das alterações climáticas, no niilismo das pessoas e da dominância dos interesses económicos e capitalistas dos empórios industriais e comerciais. O que gerou uma sociedade de desigualdades na vidas do génios, acolhidos pelas empresas, face à dos cidadãos comuns, uma realidade geradora de uma violência intensa, novas religiões ecologistas e separação entre os espaços paradisíacos para os protegidos e os infernais para os restantes, as plebelândias. Um sistema mantido à custa de uma polícia de segurança altamente poderosa com uns serviços de informação que espiam tudo e prontos a agir para a preservação da situação sem qualquer respeito pelos direitos dos cidadãos.

No livro vemos o mundo pelos olhos de Jimmy, de inteligência mediana, criado no mundo dos privilegiados, que estabeleceu amizade com o seu colega de escola Glenn, um génio nas ciências de ponta. Este adota o nome de Crex como guru na maratona entre os animais extintos e as novas criações genéticas, ambos viram as suas famílias dilaceradas por questões de segurança e no passatempo de pornografia da internet descobrem outra criança por quem se apaixonam, em adultos, esta será chamada a viver no seu mundo como Órix, só que a desilusão de Crex com a humanidade leva-o a criar um ser perfeito e a destruir a espécie humana, deixando Jimmy a tarefa de cuidar da sua criação no pós-humanidade, quando este adota o nome de Homem das Neves.

A narrativa passa-se no período pós-humanidade, onde vemos a vida quotidiana do Homem das Neves, o sobrevivente da calamidade premeditada por Crex que protegeu apenas Jimmy, vamos então percebendo o seu papel de cuidador dos crexianos criados por Crex e a descrição destes seres perfeitos na ideia daquele, este presente é intercalado com as memórias da sua vida anterior dentro dos grandes espaços dos privilegiados, descrição dos produtos destas empresas: géneros alimentares altamente processados e geneticamente modificados, drogas para sensações de bem-estar além do natural e animais e plantas híbridos  para os fins mais diversos. Neste mundo, os dois amigos têm como passatempo a internet, com jogos e onde se percebe a vida miserável e violenta nas plebelândias.

É um romance ao mesmo nível dos de ficção distópica do futuro da humanidade na Terra como "1984" e o "Admirável Mundo Novo", Órix e Crex mostra o caminho arriscado atual da humanidade com a combinação da evolução tecnológica, o capitalismo desigual e o niilismo da sociedade, além do perigo de alguém genial se revoltar contra este mesmo mundo e intencionalmente o destruir e ainda como pode ser uma aberração querer criar algo perfeito com base em critérios humanos.

Esta obra foi uma das mais marcantes que li na minha vida e nesta releitura voltou a despertar-me os mesmos sentimentos da primeira vez. Tinha a curiosidade de perceber como seriam traduzidos os neologismos de Atwood para nomear todas as criações e tecnologias colocadas em obra e confesso que os tradutores foram brilhantes e conseguiram passar para a língua lusa a genialidade da escritora.

Antes li os três volumes da trilogia com intervalos de largos anos, pois não foram publicados em anos consecutivos e tinha de os encomendar no estrangeiro, perdi então alguns pormenores de ligação e continuidade na série, dado que esta obra não perdeu a frescura da primeira leitura, nem se desatualizou nos alertas que deixa, optei agora pela releitura dos três romances de forma consecutiva e em português, tendo já iniciado o segundo que sei mostrar a vida numa plebelândia.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

"O Jogo Preferido" de Leonard Cohen

 

Decidi ler este livro, que encontrei casualmente na Biblioteca Pública da Horta, por ser um apreciador de muitas das canções do Canadiano Leonard Cohen, que sabia também ter publicado livros de poesia, mas que não o conhecia como ficcionista. 

Em "O jogo preferido" Lawrence Breavman é o filho único de uma família judia rica e influente do bairro favorecido de Montreal: Westmount. Ele, com o seu amigo Krantz, vão descobrindo desde a infância a sexualidade ingénua com amigas comuns e depois, de forma cúmplice, vão amadurecendo as relações com outras jovens até que o seu pai morre precocemente, então, para se libertar do comportamento egocentrista da mãe, opta por uma vida de liberdade, de descoberta da cidade e das mulheres que vai conhecendo e com quem vai vivendo, assim estas vão desfilando na sua vida enquanto começa a desenvolver a sua carreira de poeta. No encadear das suas ligações amorosas em série, numa estadia em Nova Iorque, ele descobre Shell, apaixonam-se e passa a fazer um autoanálise do seu passado, a questionar-se e a procurar o seu caminho que se cruza com uma oferta para um emprego de verão na sua cidade.

Breavman, não sendo exatamente um alter ego de Cohen, tem provavelmente muito da vida do autor, do modo como estabelecia as suas relações amorosas, as transformava em amizades, bem como mostra o estilo de vida da juventude da minoria judia anglófona da cidade de Montreal, esta maioritariamente francófona, em meados do século XX.

Na narrativa, o escritor, ainda sem a projeção da sua carreira que o tornou um ícone do Canadá, coloca, por vezes, o protagonista a observar o seu passado e a descrever a cena como um espetador de si numa película cinematográfica. O texto pontualmente possui uma linguagem mordaz sobre o modo de viver das gentes como Breavman, os judeus e a cidade de Montreal e, muito provavelmente, Cohen.

Além das várias mulheres que defilam neste romance, uma criança que entra  na obra, que se deduz ser um autista a viver numa época em que a diferença era algo pouco aceitável, Cohen, através de Breavman, mostra uma ternura e compreensão que evidenciam o humanismo daquele cantor de ligações amorosas instáveis.

Gostei, embora não me tenha deslumbrado como com muitas das suas canções e poemas.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

"O ASSASSINO CEGO" de Margaret Atwood

 

Reli o romance "O Assassino Cego", vencedor do Booker Prize de 2000, da minha escritora canadiana favorita: Margaret Atwood, embora a primeira leitura, há já quase duas décadas, tenha sido no original em inglês, livro que possuo ainda e permitiu-me algumas comparações entre as duas versões, concluído que este é uma boa tradução para  português.

O romance inicia-se com a recordação da octogenária Iris Chase do acidente de carro de sua irmã Laura poucos dias após o termo da II Grande Guerra Mundial, estando Iris consciente que se tratou então de um suicídio. A partir desta memória com uma fotografia na mão, ela reconstitui a história da sua família e da sua vida: a vida na sua cidade natal no sudoeste de Ontário, os seus antepassados, a relação com o seu pai veterano da primeira guerra e industrial decadente, as razões do seu casamento e os litígios com a família do marido cheio de ambições políticas, a retirada da sua filha, o com foco no facto de, na sequência da morte de Laura, Iris ter publicado um livro que aquela teria deixado manuscrito, onde narra uma relação secreta de amantes com encontros em locais escondidos e que se supõe ser ela com um amigo comum de ambas as irmãs. Na intimidade os dois montavam uma história de ficção científica numa sociedade distópica, passada no planeta Zycron, onde um cego vem a ser incumbido de matar o rei de uma cidade-estado, enquanto em paralelo se preparava uma invasão externa por um povo bárbaro. Em paralelo esta narrativa será uma descoberta do amor pelo assassino e o romance tornou-se num grande sucesso, sinal de emancipação feminina e Laura um símbolo para futuras gerações de mulheres, enquanto Laura se se deixou de fora deste fenómeno literário e libertário.

Um romance que é uma matrioska russa de histórias, onde - sobre um cenário que é a história socioeconómica do Canadá, o modo de viver de uma pequena cidade do Ontário e o evoluir das mentalidades ao longo do século XX neste país - se projeta a vida de uma mulher da classe média alta provinciana com os seus temores e sujeita aos preconceitos do mundo que a rodeava, que por sua vez são transpostos para a vida da sua irmã e em seguida refletidos num romance que seria o alter ego desta, onde o amor é gozado plenamente e os anseios da juventude e os seus medos são remetidos para um planeta distante que permite por a nu os tabus terrenos que aprisionam as paixões e os vícios que molda a sociedade. Todos estes níveis contados de forma intercalada levam a que até desenrolar da última camada desta boneca russa surjam sempre surpresas e reconstruções do passado.

É uma obra com uma escrita sem pressa, tal como pode ser a monotonia da vida de uma octogenária, que não se inibe de ser crítica de todos os preconceitos e amarras da hipocrisia da moralidade social que foram caindo ao longo do século XX, para assim evidenciar que no final daquele século muito sofrimento íntimo das mulheres do passado poderiam ter sido evitados e como a sociedade facilmente cai num engano e cria mitos e heróis apenas pela aparência das narrativas.

Quando li pela primeira vez O Assassino Cego considerei uma obra que mostrava a versatilidade narrativa de Margaret Atwood, hoje, ao relê-la, já depois de ler muitas outras obras da autora, considero a sua obra literariamente mais rica e variegada. Exige alguma maturidade ao leitor para assimilar a riqueza deste romance, este não se prende a estereótipos, nem a subterfúgios fáceis para o agarrar. É uma narrativa para se ir degustando lentamente as suas mais de 600 páginas até se saborear de facto a grandiosidade deste romance que justifica ter um prémio do gabarito do que recebeu, uma obra que não precisa de receber um Nobel da literatura para estar a esse nível.

sábado, 14 de dezembro de 2024

"Desfile" de Rachel Cusk

 

"Desfile" foi a minha estreia na escritora Canadiana Rachel Cusk, autora que me despertou curiosidade por indicação de um amigo das lides literárias.

Este é um romance cuja narrativa não é uma história linear, mas antes uma passarela por onde desfilam várias personagens, que se identificam como G e são artistas: pintores, escultores, realizadores de cinema ou escritores; falam de si na terceira pessoa, tecem reflexões sobre a sua obra, a busca da verdade através da representação da sua arte, tentam mostrar ou esconder a sua identidade nas suas produções e mostram a evolução destas num esforço de exporem a realidade ou a verdade, um narrador ou mais que falam desses mesmos artistas e ainda várias outras personagens que expõem a sua reflexões sobre a arte, a identidade, as suas relações com os que lhe são próximos, filhos, pais ou companheiros e artistas e alguns G.

Assim, temos G visto pelos olhos da mulher, mais admirado pela crítica do que por ela, que, num momento, passa a pintar quadros de pernas para o ar e onde ela entra na pintura; temos a escultora de malha G, onde numa exposição póstuma da sua obra se dá um suicídio, o que leva a curadora e um círculo de convidados para falar no evento a se encontrarem e a conversarem de arte e da sua vida numa mesa de restaurante; temos a pintora G que pinta com base em fotografia e em tensão permanente com os pais, o marido e filha; temos um escritor que passa a realizador que quer esconder a sua identidade e mostrá-la atrás do seu pseudónimo G para não perturbar os pais ao contrário do seu irmão, responsabilizado pela doença da mãe; temos ainda um casal que passa férias numa ilha e reflete sobre a vida, além de outros Gês e personagens.

No fim está tecida a teia de reflexões, ora em tom ficcional, ora ensaístico, que levanta questões desde o reconhecimento da mulher como artista, o papel do corpo na arte ou na representação, a identidade escondida ou exposta, a busca da verdade na arte e, inclusive, da possibilidade de não ser considerada útil apesar do trabalho que deu a produzir e tudo o que está subjacente a ela ou de ser importante e ainda pensamentos das relações humanas, a vida e a morte.

Numa série de pequenos episódios com uma escrita única a teia fica montada numa obra de arte muito sui generis.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

"Ravelstein" de Saul Bellow

 

Voltei ao escritor laureado com prémio Nobel em 1976, nascido no Canadá e naturalizado Norte Americano Saul Bellow com a leitura do seu último romance "Ravelstein".

Chick apresenta-nos com um enorme brilhantismo o seu grande amigo Ravelstein: uum grande e influente professor universitário de filosofia política, um acutilante crítico dos comportamentos sociais e das pessoas alicerçado nos seu saber dos filósofos e da história  clássica e dos judeus e acede aos principais líderes ocidentais. Extravagante, satírico e homossexual, adora roupas de luxo, gastronomia requintada e música barroca e Paris. É ainda o mentor de alunos que se fascinam por ele e. quando reconhecidas suas capacidades por este, tenta orientar as suas vidas. Quase sempre viveu com dificuldades em sustentar os seus caprichos, mas, de uma sugestão de Chick, escreve um livro sobre si e suas ideias que o torna imensamente rico, o que lhe permite satisfazer os seus gostos. Em Paris encomenda a Chick a sua biografia, sendo-lhe depois diagnosticada SIDA. Decorre então um período do desenvolvimento da doença, mas não de abatimento da sua personalidade, é acompanhado de perto por Chick e a última mulher deste, descrevendo a sua luta, seguindo-se os efeitos da sua ausência nos amigos dele, até que Chick adoece com uma toxina e reconhece a importância dos que lutam pelos outros e do seu dever de eternizar o seu amigo.

Escrito com uma ironia requintada e cheio de referências cultas que mostram a força de uma grande amizade sem complexos por quem é diferente. É um elogio a mentes geniais e às pessoas que dão tudo para outros sobreviverem nesta vida. Denuncia, uma marca deste autor, os complexos dos judeus norte-americanos na integração social através de reflexões filosóficas e religiosas. Apesar de dois períodos de doença, nunca a narrativa se torna deprimente, pois o bom humor acutilante atravessa todo o livro que me cativou do princípio ao fim. Magnífico e sintético, eis uma obra com pouco mais de 200 páginas que, ao contrário de outras obras onde Bellow se estendeu excessivamente, constrói para mim um romance leve e culto, mas perfeito de um galardoado com o Nobel da literatura.

terça-feira, 14 de junho de 2022

"Senhora Oráculo" de Margaret Atwood

 

Frase inicial na obra

"Planeei com todo o cuidado a minha morte; ao contrário da minha vida, que passou sinuosamente de uma coisa para a outra, apesar das minhas débeis tentativas para a controlar."

Margaret Atwood é sem dúvida a escritora Canadiana de quem mais obras li, se antes sempre na língua original, "Senhora Oráculo" foi o primeiro romance dela que li traduzido para português, a sensação não é a mesma, mas a velocidade de leitura compensou.

Joan Foster, ao sentir-se acossada com todos os seus problemas, decidiu simular a sua morte no lago Ontário e refugiar-se em Itália. Ali vê o seu passado: desde uma infância complexada como gorda perante uma mãe que não perdoava os seus desleixes e até ser uma figura pública com o sucesso "Senhora Oráculo" - livro que assumiu ter inspiração espírita -, só que também é uma escritora de literatura barata de cordel, personagem que esconde por vergonha num pseudónimo, sendo ainda esposa de um universitário de esquerda revolucionária e a quem mente dizendo-se ensaísta e a quem trai com um artista de choque, de repente é chantageada por um homem que descobre todos os seus segredos e decide desaparecer mas a sua situação complica-se cada vez mais. 

Ao longo da obra vamos conhecendo os receios e desejos de Joan Foster, as suas mentiras, o conforto dado por sua tia e o medo e revolta com sua mãe, os homens diversos e por vezes estranhos de que se aproxima e se relaciona, a sua experiência espírita e o esforço de criar personagens típicas da literatura de cordel mas em parte inspiradas na sua experiência de vida e excertos desta literatura sem ambições mas rentável.

É uma das primeiras obras de ficção de Atwood: uma autora profícua que intercala romances, ensaios, coletâneas de poesia, contos, e até livros infantis. Este livro já tem indícios dos caminhos que a escritora seguiria: mistura numa obra de várias narrativas, poesia, estilos distintos de escrita, factos reais, paranormais, medos e psicoses e até refere a via que a tornou famosíssima da ficção-científica. A exposição nem sempre linear e alguns pontos não me parecem totalmente resolvidos, mas é interessante ver como a autora expõe algumas dificuldades no desenrolar das personagens e da narrativa. Gostei.

domingo, 19 de setembro de 2021

"A Última Noite em Twisted River" de John Irving

 

Acabei de ler o meu segundo romance do escritor norteamericano e recém-cidadão Canadiano John Irving. "A última noite em Twisted River" narra a vida de Daniel Baciagalupo e seu pai ao longo de mais de meio século entre a Nova Inglaterra, Iowa City e Toronto, nas sequência de uma fuga para proteger o filho depois deste, aos 12 anos, com uma frigideira e por um engano, ter morto a amante do pai em Twisted River, New Hampshire, pensando que este estava a ser atacado por um urso.

Se esta introdução parece algo rocambolesca, na verdade a narrativa começa por mostrar a vida dura e arriscada dos madeireiros em meados do século XX no norte do New Hampshire, para quem Domenic Baciagalupo, cozinheiro, trabalhava no refeitório. Ficamos a saber como este conheceu a sua mulher por quem se apaixonou e foi pai ainda adolescente e depois cúmplice num trio amoroso que acabou numa tragédia que se transformou numa amizade enorme entre o amante da mãe e o pai para proteger a criança. 

Depois do homicídio acidental, pai e filho serão alvo de uma perseguição vinda de um polícia louco que os levará a viver por diversos locais, a prestar serviços em numerosos restaurantes, praticar mudanças de nome e veremos o adolescente virar a escritor. Entretanto haverá lugar para numerosas relações com mulheres de diferentes géneros, assistir ao nascimento do neto e ainda ser testemunhas dos maiores acontecimentos históricos dos Estados Unidos entre a guerra do Vietname e o 11 de setembro de 2001.

Todas estas peripécias de vida são tratadas numa exposição realista da vida dos personagens sem freio na linguagem, que por vezes é grosseira, nem tabus morais no relacionamento sexual e ainda com muitas descrições culinárias sem descrever as receitas dos pratos confecionados pelo cozinheiro, mas cujo conjunto vivido por Daniel servirá de inspiração para os seus livros, onde não se inibe de criticar a política norteamericana, nem de expor alguns assuntos fraturantes como o aborto.

É de facto um romance extenso no tempo, no texto e no realismo e entrecruza períodos. John Irving mostra, sobretudo, a força do amor paternal, filial e conjugal, bem como a da amizade humana e ainda dos abalos pela perda de seres amados, sem deixar de reconhecer a omnipresença das relações mais básicas entre as pessoas como a acomodação às necessidade físicas, nomeadamente sexuais, descomprometidas e sem apreciações moralistas, mas cheio de filosofias nascidas da experiência de vida das personagens fortíssimas do livro.

Sim, gostei muito do romance e da sua força, bem como da sua narrativa algo cinematográfica e hiper-realista, mesmo reconhecendo que para isso recorre à linguagem banal e ao calão frequentemente, o que pode chocar alguns leitores, mas não deixa de ser interessante ler técnicas de escrita do próprio autor do livro, inclusive para este mesmo romance e transpostas pela personagem que também é escritor e dos aspetos autobiográficos do autor e até de enquadramento de futuras decisões deste na sua vida real.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

"ALICE MUNRO selected stories"

 

Acabei de ler um livro em inglês de contos selecionados da escritora canadiana laureada com o prémio Nobel da literatura "Alice Munro Selected Stories". Este reúne 23 histórias curtas, na sua maioria com cerca de duas dezenas de páginas, que na generalidade são memórias de mulheres comuns sobre momentos fortes da sua vida ou do desenrolar desta no seu dia-a-dia normal e os seus problemas, mostrando assim, não só o seu modo de viver, como também montando retratos da sociedade em várias partes do Canadá, na sua maioria no sudoeste do Ontário e em meio rural.

Reflexões sobre o peso da mentalidade social e religiosa da sociedade canadiana sobre o comportamento das mulheres e no seu relacionamento com os homens na primeira metade do século XX, descrições analíticas das tensões em família ao nível de casais ou entre gerações, exposição de impulsos íntimos e da sexualidade e os problemas do despertar da adolescência para a juventude e maturidade sujeitos a uma pressão em comunidades conservadoras de pequenos aglomerados urbanos, traições e oportunismos no relacionamento entre homens e mulheres e ainda perceção e esforço de compreensão do modo de agir de pessoas próximas do narrador, vão ao longo dos contos sendo tratados de forma introspetiva por olhares no feminino e num desenvolvimento que se vai desenrolando lentamente dentro de cada história até à montagem se completar no final como quadros da realidade esbatidos sobre uma pintura entre o impressionista e o expressionista.

Nesta seleção compreende-se a razão de muitos considerarem Alice Munro uma versão feminina do século XX de Tchékhov, efetivamente, cada conto, mais que uma narrativa linear, é uma história que se vai montando devagar em torno ou a partir de personagens que em nada se destacam do cidadão comum, sem lições morais, mas que no fim deixam pistas para a reflexão moral e ética e constroem o retrato da sociedade de uma época, do país e dos constrangimentos dos protagonistas de cada relato.

Gostei muito destes retratos com uma escrita magnifica que selecionam o que de melhor escrevera Alice Munro em anos bem anteriores ao prémio Nobel da Literatura e, no meu caso, por permitir compreender a mentalidade e muitos pormenores da vida diária e em família da comunidade anglo-saxónica do Canadá, sobretudo do sudoeste de Ontário, onde nasci e que visito com alguma regularidade.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

"MaddAddam" de Margaret Atwood

Ao fim de vários anos regressei à trilogia "Oryx and Crake" da escritora canadiana Margaret Atwood com o terceiro romance "MaddAddam". Para uns leitores este conjunto será classificado de ficção científica ou uma distopia, mas para mim é mais um alerta, em forma de ensaio ficcional, criativo e especulativo sobre os riscos que podem  resultar do modelo de desenvolvimento científico, tecnológico e socioeconómico da sociedade atual hedonista, sem ética e moral, ou seja, uma civilização global desequilibrada, uma natureza descaracterizada e um ambiente doente que já se começa a insinuar e poderá permitir a revolta e vingança de alguém com pretensão de justiceiro que leve á autodestruir da humanidade acompanhado do desejo de substituir o Homem por um outro ser humano idealmente perfeito.

MaddAddam, que li em inglês  e penso não estar traduzido em Portugal e cujo o título traduziria por LoucoAdão, vai buscar muita da sua inspiração ao criacionismo do Génesis da Bíblia e ao anseio do homem participar da criação para criar um mundo sem os defeitos do atual, logicamente, tal como em Frankeinstein, este desejo de fazer o papel de deus tende a gerar outra realidade monstruosa.

No primeiro volume, "Oryx and Crake", assistimos à vida da elite ligada às multinacionais, com os seus estrategas e criativos genéticos e de produtos consumíveis geradores de prazer que escravizam a maioria da população e a tornam refém desta globalização amoral e do nascer da revolta e vingança de Oryx que cria um novo homem e arquiteta e implementou a destruição da humanidade.

No segundo, "The Year of the Flood" vemos a vida no exterior dos  complexos de luxo das elites, os bairros degradados, violentos com clubes de prazer numa sociedade consumista onde, em paralelo, surgem movimentos ambientalistas e humanistas que se tornam num nova religião até que que a pandemia provocada intencional leva ao dilúvio seco e ao fim do homem.

Neste terceiro volume estamos perante os sobreviventes do dilúvio seco que, à semelhança do velho Noé, viram os sinais dos tempos e se prepararam para sobreviver, bem como o encontro destes com o "homem novo" - geneticamente modificado para ser pacifista, vegetariano, sem ambição e maldade, mentalizados para viver numa sociedade igualitária, comunal e sem complexos de sexualidade - mas desta ligação nascerá uma nova mitologia com os seus deuses e guias superiores, talvez os primórdios de uma futura religião ambientalista, mas teísta. A obra abre a porta ao cruzamento genético dos dois tipos de seres humanos, mas tal não é explorado, talvez uma oportunidade para uma tetralogia.

A narrativa está cheia de criaturas aberrantes dos tempos próximos filhas da engenharia genética. A escrita está inundada de neologismos, palavras compostas fruto dessa criatividade e invenção da sociedade consumista e hedonista. por vezes o texto é quase infantil para evidenciar a ingenuidade do homem novo sem maldade, outras bem adulto, com insinuações eróticas nas interpolações ao passado e para explicar a vida dos sobreviventes, alguns nada perfeitos outros idealistas, mas que conhecemos em volumes anteriores, cujas vidas ao serem narradas aos espécimes criados por Oryx gerarão uma nova mitologia e crença.

Regressei a esta sequela tendo em conta que o mundo da atual pandemia me tem levado a desanimar com o comportamento humano de uma forma demasiado abrangente. Assim, com esta desilusão e ao saber deste substituto perfeito que me chocara no primeiro romance, esperava agora voltar a ter saudades do homem atual com as suas virtudes e defeitos. Confesso que o objetivo não foi alcançado completamente, mas também não desejo que a humanidade seja substituída por homúnculos belos e ingénuos à imagem de outra mente humana desiludida com a humanidade.

Para quem gosta de ficção que especula a evolução do mundo atual para o abismo, é uma excelente história. Gostei e cativou-me, apesar de não considerar o estilo de escrita nestes dois últimos volumes da trilogia como tendo um grande valor literário, mas vale muito pela imaginação, momentos de tensão, suspense, criatividade e alerta para o mundo de hoje.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"The Testaments" - "Os testamentos" de Margaret Atwood


Acabei de ler, na língua original, o romance "The Testaments", da escritora canadiana Margaret Atwood, obra premiada com o Booker Prize de 2019 e, presentemente, já se encontra disponível em português com o nome "Os Testamentos". 
O romance corresponde a uma sequela de outro do género distopia e escrito em 1985: "História de uma Serva", lido há muitos anos, contudo não há nenhuma impedimento de se ler a obra mais recente a quem não leu o anterior, pois as tramas são distantes no tempo, embora o ambiente político seja o mesmo e haja uma personagem importante agora que foi secundária no anterior e uma referência final para a anterior protagonista.
A obra cruza três narrativas que se intercalam no género de memórias, na primeira pessoa, das 3 protagonistas:
- Agnes desde criança até à juventude, viveu na ditadura religiosa, de moral fundamentalista e machista, de Gilead, esta resultou de uma revolução que fragmentou os Estados Unidos (ocorrida no romance anterior) aonde às mulheres compete procriar (parideiras profissionais) ou ser esposas ou ter tarefas domésticas e a quem está interdita a alfabetização;
- Daisy, de criança a adolescente que cresceu em liberdade em Toronto, Canada, num meio que luta pelo fim do regime em Gilead e;
- Lydia, já de idade avançada que descreve como se tornou numa das mulheres e fundadoras do regime de Gilead e um pilar do sistema ao assumir uma estrutura de mentalização da subserviência feminina e de atribuição dos papeis destas, apesar do seu passado americano de defensora dos direitos da mulher, os membros da sua instituição são as únicas que tem acesso a formação literária e possibilidade de lerem obras que lhes vão sendo autorizadas em função do seu grau de subserviência e fidelidade ao regime.
A partir dos relatos de cada uma percebemos a forma como Gilead subordina as mulheres, cujos mecanismos instalação foram descritos no livro anterior, quais os diferentes tipos papeis atribuídos a estas na estrutura social machista, a ignorância que existe na comunidade devido ao controlo da informação e da propaganda ao serviço do regime, que é minado pela corrupção e imoralidade da elite que governa e impõe uma justiça moralista, repressiva e sangrenta.
Em contraste no Canada livre, a governação não se intromete na política do Estado vizinho para evitar uma guerra, mas deixa espaço para uma organização contestatária e de resistência a Gilead que suporta ainda a fuga de mulheres escravizadas em torno da qual vive Daisy, mas onde em paralelo a estrutura de Lydia opera com missionários para atrair mulheres que faltam em Gilead.
Com o evoluir da trama, cujo ritmo se vai acelerando, as três personagens cruzar-se-ão e a estória tornar-se-á num thriller onde a todas as protagonistas terão um papel de luta contra o obscurantismo, uma homenagem à força do papel feminino dentro da humanidade.
Gostei mesmo muito do livro, a escrita de Atwood é fácil e adapta-se desde o estilo infantil das personagens na infância, ao astuto dos adultos e ao ardiloso dos que promovem a revolução sem nunca perder consistência de todas as partes, no fim um simpósio de reflexão científica sobre Gilead no século XXI.

domingo, 14 de julho de 2019

"O legado de Humboldt" de Saul Bellow


Excerto
"É verdade que as melhores coisas da vida estão à livre disposição de qualquer um, mas ninguém é suficientemente livre para desfrutar as melhores coisas da vida."

"Antigamente, os mais amargos reveses da vida enriqueciam apenas os corações dos desgraçados ou tinham unicamente um valor espiritual. Mas hoje em dia qualquer acontecimento pavoroso pode ser transformado numa mina de ouro."

Ao fim de muitos anos voltei a Saul Bellow, vencedor do Nobel da literatura, nascido no Canadá, de ascendência judia e naturalizado Norte-Americano, através do romance: O legado de Humboldt.
Charlie Citrine parte do interior dos EUA para Nova Iorque com o objetivo de conhecer o poeta que o deslumbrou: Humboldt. Com este desenvolve uma amizade profunda que acompanha o auge da carreira dele, só que esta entra em declínio enquanto a de Charlie caminha para o sucesso. Este vem para Chicago onde cresceu, só que a ascensão não é bem digerida por quem entrou em decadência, o que leva ao distanciamento entre ambos, mas não ao fim da admiração. Quando na meia-idade a vida de Citrine se começa a complicar, culturalmente e ao nível privado, já Humboldt morreu, mas ficaram as recordações e as lições por ele deixadas, enquanto se embrulha com mulheres, divórcio e amigos pouco abonatórios da cidade dos gangsters, é então que vem a descobrir que não foi esquecido pelo seu antigo amigo que lhe deixou um legado e a vida dará uma volta.
Bellow escreve bem, de uma forma realista, crua e cobre tudo isto com ironia amarga, humor inteligente e crítica ao estilo de vida norteamericano e de Chicago, que é fútil, onde imperam sonhos básicos capitalistas. Tudo isto é intercalado com numerosas referências/citações culturais, religiosas e filosóficas de pensadores do ocidente. Assim, a narrativa desta amizade serve de pretexto para retratar a sociedade dos Estados Unido, onde o dinheiro complica as relações humanas e os sentimentos, as escapatórias no sexo são normais e os oportunistas pululam construindo fachadas de sucesso e abusando da bondade, o que cria momentos de depressão, vazio moral e sede do transcendente.
Apesar de extenso, mais de 500 páginas, gostei muito, durante dias vivi as amarguras e desventuras deste génio cheio de recordações que nunca perdeu a admiração e amizade pelo seu ídolo cultural numa América oca, onde o dinheiro e a ânsia de sucesso são o modo de vida por excelência.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

"The Cunning Man" de Robertson Davies


Excertos 
"... real education, as I already discovered, meant things you really want to know, rather than things other people thought you should know."

"Never neglect the charms of narrative for the human heart"

Voltei a um dos meus escritores preferidos do Canadá e a um romance em inglês pois durante as minhas férias queria manter mentalmente esta expressão ativa sem pausas, uma vez que servia de base à minha comunicação e assim seria mais fácil destravar a língua durante o contacto com terceiros.
"The Cunning Man" de Robertson Davies corresponde às memórias da vida do relator já em idade de reforma e feito para um caderno pessoal e em resultado de estar a ser entrevistado por uma jornalista que desenvolve uma série de reportagens sobre como era Toronto antigamente. Está situação levá-o a anotar todo o seu passado, desde as razões que o despertaram para a medicina a partir do local ermo da sua infância onde dominavam as superstições e os tratamentos por feitiçaria indígena e teve uma cura estranha; passando pela sua educação num colégio interno com costumes e amigos estranhos; à descoberta da sexualidade, ao surgir do primeiro e único grande amor; à fuga das pressões maternas indo para a guerra, ao exercício médico com vítimas de fogo amigo que o levaram a adotar uma metodologia original, holística e filosófica não testada; ao regresso à cidade onde exerceu a sua forma de tratamento que gera desconfiança mas que acolhe os desesperados das soluções convencionais; o reencontro com colegas e a envolvência numa paróquia anglicana que foge às diretrizes desta igreja e onde se choca a prática de um clérigo que morre no altar e foi ponto de partida da reportagem que tem como fim a caridade para com o desprotegidos como a prática religiosa com outro sacerdote cuja arte como a música e a pompa dos ritos deslumbrantes são a opção para expressar a fé, tudo isto num local de encontro de gente diversa como artistas com vícios privados moralmente rejeitáveis como a homossexualidade, um espaço que se torna num laboratório de estudo e de testar as suas armas de psicologia e medicina.
Logicamente todas as contradições entre fé, ciência e vícios privados que assistiu levam ao rebentar da situações e conflitos entre crença, fraquezas pessoais, diretrizes das estruturas e explicações deste sábio original que vão sendo dissecadas à exaustão no romance.
A escrita Robertson Davies continua a ser próxima da literatura clássica inglesa, elegante e cuidada nos remates ao tocar nos pruridos da decadência humana para não descer à vulgaridade, mesmo quando se debruça sobre aspetos comuns ou escabrosos, e transportando para a narrativa a visão de uma classe que se sente acima da plebe.
Todos os temas habituais do autor estão presentes nesta sua última obra: a decadência das pessoas, a grande bagagem da cultura clássica, expressões artísticas como a música, a pintura, história da literatura e neste caso ainda a escultura, a religião e os seus dilemas, os complexos de inferioridade cultural dos canadianos face aos ingleses, bem como a dissecação de todas estas temáticas, mas o romance apesar de sempre coberto pela suspeita de um crime, temperado com romantismo e recurso a à crítica social tornou-se numa obra muito extensa, o que provoca cansaço, embora intercalados com momentos de leitura muito agradável e humorada que gera uma certa descontinuidade na linha da narrativa.
Gostei do livro pela riqueza cultural e elegância, não parece que o autor estava no ocaso da vida, apesar da morte estar bem presente no final da obra, dá a sensação que ele tinha ainda todo o tempo do mundo para escrever devagar e sobre muitas coisas.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Biografia de "Pierre Elliot Trudeau" por Nino Ricci


Foi a leitura deste livro de ficção de Nino Ricci que me despertou interesse em ler outras obras deste escritor e comecei pelo género biografia, neste caso com um ebook, em inglês e referente à vida do primeiro-ministro mais emblemático da história do Canada: Pierre Trudeau, pai do líder do atual Governo Federal Canadiano Justin Trudeau.
Nunca lera biografias não ficcionadas, o presente livro/ebook é a história e a análise da vida de Pierre Trudeau com destaque dos aspetos mais marcantes que mudaram a sua forma de pensar, bem como as suas atitudes e decisões públicas que moldaram o Canada contemporâneo.
Filho de uma família conservadora católica de Montreal, Pierre foi educado num colégio religioso para famílias abastadas que induzia nos seus alunos a cultura francófona e o catolicismo como marcas de identidade nacionalista do Quebec para deste modo abrir uma frente ideológica de combate a facção anglo-saxónica e protestante minoritária na província mas fortemente maioritária e dominante ao longo de todo o País. Assim surge um jovem preparado para o combate separatista, ultraconservador e manipulado religiosamente que se alia a movimentos deste cariz e por vezes de cariz até fascista.
É este Pierre que depois vai estudar em Havard, Sorbonne e Londres e descobre uma realidade exterior ao seu meio fechado e retrógrado, contacta então com ideias diferentes, por vezes mesmo radicais de esquerda e passa a assumir-se como cidadão do mundo, fortemente influenciado por vários líderes filosóficos que lecionavam por onde passara. Por opção sua, vai à descoberta de outros países interditos ao seu mundo colegial: União Soviética, China e regressa mudado à sua cidade.
Pierre, uma esperança para o movimento elitista e separatista, de repente assume a defesa de mineiros numa greve, é ostracizado pelos influentes, funda um jornal onde expõe ideias revolucionárias como a não entrada do Estado na vida privada dos cidadãos, aproxima-se do partido federal liberal, é admirado por governantes de então e mais tarde lidera o partido e chega a Primeiro-ministro. Promove então uma revolução cultural e abre uma frente em prol do federalismo que entre em guerra direta com os mais aguerridos secessionistas francófonos, católicos ultraconservadores.
O líder do País, já de meia idade casa com uma jovem que por sua vez é alvo das revistas de socialite, o que perturba a estabilidade do casal e faz tremer ideias conservadoras por uma atitude extrema sua. Trudeau muda a constituição do Canada, assume o bilinguismo oficial e o multiculturalismo, reforça o papel social no Estado, ganha eleições, perde, volta a ganhar, mas a sua marca humanitária e de união são a referência do Canada contemporâneo.
O livro está brilhantemente escrito, de fácil leitura e por vezes é mesmo emotiva a forma como Nino Ricci expõe os dilemas ideológicos dele e da época, religioso e libertário nas várias fases da vida de Pierre Trudeau, tornando esta biografia cheia de vida, o que justifica o sucesso que foi o livro no Canada, apesar do seu  género literário. Gostei muito, o ebook pode ser acedido aqui.

terça-feira, 24 de abril de 2018

HAG-SEED de Margaret Atwood - Semente de Bruxa


Excertos
"How he has fallen. How deflated. How reduced. Cobling together this bare existence, living in a hovel, ignored in a forgotten backwater; whereas Tony, that selfpromoting..."
"The Tempest is a play about a man producing a play - one that's come out of is own head, his 'fancies' so maybe da fault for wich he needs to be pardoned is the play itself."

Acabei de ler no original o romance "Semente de Bruxa" da famosa escritora canadiana Margaret Atwood: "Hag-seed". A leitura desta obra imediatamente a seguir à de "A Tempestade" de Shakespeare que falei aqui foi intencional pelo conteúdo da mais recente. Pois este romance integra um projeto que envolve vários importantes escritores convidados anglo-saxónicos de produzirem obras tendo como referência peças Shakespeare. A Atwood coube precisamente A Tempestade.
No romance, Felix, o diretor de um festival de teatro, vê o seu cargo usurpado por uma pessoa de confiança, Tony, e retira-se para a sombra da sociedade, algo semelhante acontecera a Próspero, o protagonista de A Tempestade, na usurpação do seu ducado. O antigo diretor concorre mais tarde para um curso de literatura numa prisão, um meio reabilitação social dos presos, no que coloca Shakespeare no centro das suas aulas, até que surge a oportunidade de se vingar dos usurpadores que no exterior brilham após o terem pisado e faz isto precisamente através da encenação da peça de que fora injustamente demitido, dá-se então uma  fantástica e dupla recriação paralela da história narrada pelo inglês com a vida das personagens do romance, onde se evidenciam os dotes dos detidos que na realidade são capazes de operar maravilhas sob a liderança de um diretor artístico como Felix.
A imaginação de Atwood no encenar e no comparar situações entre a montagem da peça e vida dos artistas é genial, criando uma trama divertidíssima, cheia de paralelismos e de mensagens subliminares ao nível do papel cultura na reabilitação das pessoas. O livro retoma os dilemas entre vingança e perdão e ainda a demonstra que Shakespeare se mantém atual, sendo que as descrições psicológicas das suas personagens já com séculos podem perfeitamente retratar pessoas de hoje.
À semelhança do livro que antes lera, também após a conclusão da narrativa de A Tempestade, há, mas aqui dentro do romance, um análise sobre as possibilidades de continuar a história após o epílogo da peça.
Um romance satírico que denuncia vícios sociais e políticos atuais, mostra o papel formativo da cultura, fácil de ler e que numa apreciação da obra resumo:  Brilhante, magnífico e adorável!


sábado, 18 de novembro de 2017

"Não digam que não temos Nada" de Madeleine Thien


"Não digam que não temos nada" de Madeleine Thien, é um livro que se arrisca a ser para mim o melhor romance contemporâneo que li ao longo do ano, dada a trama, o retrato histórico, a interligação com outras formas de arte como a poesia, a música e a caligrafia chinesa, e ainda pela elegante e bela escrita.
Este romance foi vencedor dos prémios literários: Governor General Prize 2016 (o mais reconhecido no Canada), Giller Prize 2016 e Edward Stanford Travel Writing 2017, e esteve na lista final do Man Booker Prize 2016, o que evidencia a excelência da obra desta escritora chino-canadiana.
O romance começa com as memórias de Marie do tempo da fuga do pai, em 1989, de casa em Vancouver, um importante pianista chinês e seu posterior suicídio. Prossegue com o pedido de acolhimento da uma refugiada Ai-ming após a revolta da praça Tianamen em Pequim. Então com as desconfianças entre a criança e a jovem, começa a descoberta do passado que as une, pela leitura do capítulo 17 do Livro dos Registos: obra do tio sonhador desta que narra de forma livre, romanceada e em volumes soltos, a história do seu amor e das dificuldades e aventuras da família desde a segunda guerra mundial até ao presente passando pelas várias revoltas na China. Assim, descobrimos que o pianista foi aluno e admirador do famoso compositor pai de Ai-ming e colega da violinista Zhulli filha do sonhador; um grupo unido pelo amor à música, à literatura e de livre pensamento com os riscos que daí decorrem no regime chinês.
Recorrendo à intercalações de momentos no presente e em vários do passado, assiste-se à saga de três gerações de músicos e amantes de livros e seus amigos face às perseguições injustificáveis na implantação do comunismo, depois nos loucos abusos da revolução cultural e, por fim, na revolta do sonho estudantil em Tianamen, sempre a abrir feridas com as mudanças do mesmo tema: simbolizado pelas Variações de Goldberg de Bach e onde depois de rearranjos a ária inicial volta como um fadado regresso ao passado.
O romance está cheio de citações de poetas chineses, de referências a obras musicais do ocidente com destaque para Bach, Chostakovitch, Prokofiev, Tchaikovsky e Ravel, entre outros e a atmosfera de ternura e da importância da arte, incluindo a caligrafia do chinesa, atravessa toda a obra mesmo nos períodos mais duros desta história. Magnífico romance, com um relato de 70 anos da história da China embora possa ser um pouco difícil para quem não conheça as características das peças musicais tão abundantemente citadas, como esta do vídeo e com a referência precisa desta gravação.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"A mixture of Frailties" de Robertson Davies



Terminei a leitura do terceiro livro da trilogia de Salterton de Robertson Davies: "A mixture of frailties". O romance começa pouco após o casamento entre os jovens filhos de professores universitários rivais cujo falso anúncio permitira a trama do anterior livro exposto neste neste post. Um momento em que ocorre a morte da viúva mãe do noivo, uma mulher egoísta que emocionalmente escravizava o filho, que por retaliação à desfeita pela escolha da mulher filha do rival deixa em testamento cláusulas de gestão de todos seus bens incluindo sua fortuna enorme, cujo próprio descendente na sua submissão desconhecia existir, a um fundo de gestão por uma comissão cujos membros já eram conhecidos das anteriores histórias, destinado à educação na Europa de uma mulher da cidade no mundo da música a escolher pelos gestores segundo critérios rígidos, com possibilidade de repetição após a conclusão dos estudos até que haja um novo herdeiro masculino na família, enquanto o casal se limita ao usufruto da vivenda da mãe para residência, mas sem auferir rendimentos da fortuna e sem beneficiar da possibilidade de venda de propriedades pertencentes ao fundo.
A partir desta situação complexa e humilhante para o casal, Davies desenvolve o que de melhor sabe fazer nos seus romances: criar com elegância e humor uma trama em que explora o amadurecimento de uma forma de arte num potencial artista. Neste caso, como se transforma a voz de alguém dotado, mas sem cultura musical, numa artista e soprano de primeira grandeza no mundo da ópera, associado às peripécias que se geram em torno de uma jovem bela, imatura, vinda de uma cidade rural que vê de repente a possibilidade do seu sonho realizar-se, embora caída na teia de artistas e das suas rivalidades, com toda a astúcia possível desenvolvida no seio de Londres. Como sempre neste género literário, Robertson Davies cria uma delícia de obra culta com referências à história da música e uma argúcia de análise social divertida e muito anglo-saxónica.
Nas várias trilogias, uma característica a que se associam os romances deste escritor canadiano, este conseguiu cobrir e dar a conhecer através da literatura vários mundos da cultura e da arte, nomeadamente: festivais de cinema, a criatividade na pintura e na música (composição e ópera), a representação em teatro e a vida em circo, bem como as tensões que caracterizam os meios universitários, sempre com ironia e análise social que evidenciam um conhecimento dos meios culturais de uma forma difícil de se observar noutros escritores, além de que o facto de ter lecionado em várias Universidades lhe garantiu a bagagem para poder explorar repetidamente as tensões nos meios académicos. Gostei e muito e continuo a considerar no estilo mais clássico anglo-saxónico de romance o maior escritor do Canada da segunda metade do século XX