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terça-feira, 6 de setembro de 2011

POUCO ACIMA DAQUELA ALVÍSSIMA COLUNA

Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos -- uns sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do seu Ser;
outros -- hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor...
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...

Hermes Fontes

sábado, 20 de agosto de 2011

CONTRAPONTO

Vestido negro,
cinto vermelho.

Luto precoce
da tua carne!

Nele se enlaça
o meu desejo.

Vestido negro?
Cinto vermelho!

David Mourão-Ferreira 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

As tuas coxas de firme e elástico contorno
E de doces energias,
Que cálice de segredos rompe a sua dureza vertical?
Que sombra de apertadas e nocturnas pestanas
Lhes empresta essa agilidade comprometida?

Peixe que só tem a água do amor.

Joaquim Gomes Mota

quarta-feira, 13 de julho de 2011

MULATA

Graça feita de candura e de malícia,
Sabedoria da carne,
Animal vitorioso e generoso,
Vértice de experiências convergentes.
Equador de duas civilizações,
Tu, bela, tu, fecunda, tu, menina,
Primeira e magnífica descoberta,
Filha da História
(Filha do pecado?)
És zombeteira e triste.
Ponto,
Pêndulo,
Suspensão,
Carne retalhada
Por centrífugas forças que te chamam,
Cedo ou tarde nascida?
Cedo ainda?
Resíduo apenas?
Simbólica dança escultural da paz,
Ou virgem imolada no altar do fogo?
Caminhas e meus olhos perdem-se
Mais que nas linhas frementes do teu corpo,
Na luz oblíqua dos teus olhos pávidos.
Esplêndida encarnação do amor sem margens,
Tu, bela, tu, menina,
Mulata,
Interrogação da época.

1961

Antero Abreu 

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Reste. N'allume pas la lampe. Que nos yeux
S'emplissent pour long temps de ténèbres, et laisse
Tes bruns cheveux verser la pesante mollesse
De leurs ondes sur nos baisers silencieux.

Nous sommes las autant l'un que l'autre. Les cieux
Pleins de soleil nous ont trompés. Le jour nous blesse.
Voluptueusement berçons notre faiblesse
Dans l'océan du soir morne et silencieux.

Lente extase, houleux sommeil exempt de songe,
Le flux funèbre roule et déroule et prolonge
Tes cheveux où mon front se pâme enseveli...

Calme soir, qui hais la vie et lui résistes,
Quel long fleuve de paix léthargique et d'oubli
Coule dans les cheveux profonds des brunes tristes?

Catule Mendès

terça-feira, 5 de abril de 2011

ASPIRAÇÕES

Lábios que imploro em vão, lábios que eu idealizo!
Ouvir-vos, mesmo ao longe, alegra-me e distrai-me.
Guarda-jóias que fecha e abre num sorriso,
          Lábios -- beijai-me!

Braços de neve? Não! -- Serpentes de delícias,
Quando o prazer vos torça e a febre-amor vos queime!
Cadeia de roubar a vida entre carícias,
          Braços -- prendei-me!

Olhos excepcionais! estranhos sóis polares!
Se a vossa luz me afasta, o vosso abismo atrai-me!
Grande como dois céus, fundos como dois mares...
          Olhos -- matai-me!

Queirós Ribeiro

domingo, 3 de abril de 2011

LESLIE -- S.O.S.!

Peço aos teus lábios carnudos que me telefonem.

sexta-feira, 25 de março de 2011

PARFUMS EXOTIQUES

Quand, les deux yuex fermés, en un chaud soir d'automne,
Je respire l'odeur de ton sein chaleureux,
Je vois se dérouler des rivages heureux
Qu'éblouissent les feux d'un soleil monotone;

Une île paresseuse où la nature donne
Des arbres singuliers et des fruits savoureux;
Des hommes dont le corps est mince et vigoreux,
Et des femmes dont l'oeil para sa franchise étonne.

Guidé par ton odeur vers de charmants climats,
Je vois un port rempli de voiles et des mâts
Encor tout fatigués par la vague marine,

Pendant que le parfum des verts tamariniers,
Qui circule dans l'air et m'enfle la narine,
Se mêle dans mon âme au chant des mariniers.

 Charles Baudelaire

quarta-feira, 16 de março de 2011

franja

A franja esconde
-te os olhos grandes.
O vestido justo molda
-te as coxas exuberantes,
tão descaradas como
os teus grandes olhos
escondidos pela franja.
VI-2003

domingo, 13 de março de 2011

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão -- é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
-- É com as vozes que o silêncio ganha.

Herberto Helder

terça-feira, 8 de março de 2011

MÊS DE MAIO

Maio de 68
houve só um
Maios de 69
são quando um homem quiser

Dick Hard

segunda-feira, 7 de março de 2011

FALA DO ADVOGADO ENQUANTO DON JUAN

Só fico satisfeito
quando as partes se beijam.

Fernando Grade

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

MULTIDÃO

Uma folha tomba no plátano, um frémito sacode o imo do cipreste,
És tu que me chamas.

Olhos invisíveis sulcam a sombra, penetram-me como à parede os pregos,
És tu que me fitas.

Mãos invisíveis nos ombros me tocam, para as águas dormentes do lago me
                                                                                                [atraem,
És tu que me queres.

De sob as vértebras com pálidos toques ligeiros a loucura sai para o cérebro,
És tu que me penetras.

Não mais os pés pousam na terra, não mais pesa o corpo nos ares, transporta
                                                                                 [-o a vertigem obscura,
És tu que me atravessas, tu.

Ada Negri

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

HEIDENRÖSLEIN

Viu um rapaz uma rosa
-- rosinha do silvado...
Era tão fresca e formosa
que de vê-la assim airosa
quedou logo enamorado...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Diz ele: Vou apanhar-te,
-- rosinha do silvado!
E vai ela: Hei-de picar-te!
Ficas de mim a lembrar-te!
que desprezei teu cuidado...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Logo o cruel a colheu,
-- rosinha do silvado!
Ela bem se defendeu,
mas de nada lhe valeu:
já era aquele o seu fado!...
-- Linda, linda, linda rosa,
     rosinha do silvado!

Goethe

(Luís Cardim)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A MENINA FEIA

A menina feia
Sentava-se à janela,
Mas quem vai na rua
Nem repara nela.

À noite no quarto
Despe-se a menina
Para se deitar.
Tem os seios duros
E a barriga lisa.
Mal tira a camisa
Logo o quarto fica
Cheio de luar.

E a menina feia,
Mas de corpo lindo,
Sonha que está nua
Sentada à janela,
E no meio da rua,
Com os olhos luzindo,
Os homens se matam
Por um riso dela.

Armindo Rodrigues

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

POEMA DO SEMEADOR

Áspera é a terra, o esforço não tem prémio,
porém, à sombra do pomar -- rubro pomar! -- dos pêssegos do sol
em ti eu vejo, ó torso
de haste, o lírio nunca ausente.

Nenhuma flor, é certo, aponta em meu caminho,
mas desde que teus seios desabrocham na aridez,
em pensamento ressuscito a graça de uma vide
ou faço resplender, à luz do ocaso,
o rosto em fogo das romãs.

Áspera é a terra:
porém quando te despes, calmo trevo,
contaminados pelo aroma de jasmins sem consistência
ergue-se no ar
um canto nupcial de pólens tontos;
e ao embalo dos astros renascendo,
eu semeador,
confiante no futuro,
lavro meu campo ensagüentado de papoulas
com touros cor de mar ou potros como luas.

Péricles Eugênio da Silva Ramos

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

VISÃO

Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce tutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(O teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.

Caetano da Costa Alegre

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

CONTRA CÉLIA

Aos Partos, aos Germanos, dás-te, Célia, aos Dácios.
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano, em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Oh, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?

Marcial


(Jorge de Sena)

sábado, 11 de dezembro de 2010

INTENSO

Mais que os lábios
Beijam meus olhos
Quando passeiam por ti
E te acrescentam
Com a beleza dos astros

Como brasa sob cinza
O desejo queima
À revelia do olhar
E acorda-me o corpo
Para um destino
De fogo ou de mar

E sou chama
Luz
Incenso
Ao toque leve
Dos teus dedos
Nas alegrias e nos medos
No beijo breve
E quente
No teu raspar de asa
No teu amar urgente

Edgardo Xavier

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NOITES GÉLIDAS

MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de Inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

Cesário Verde