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terça-feira, 20 de setembro de 2011

CANÇÃO DE SALABU

Nosso filho caçula
Mandaram-no p'ra S. Tomé
Não tinha documentos
          Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
          Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé

Nosso filho já partiu
Partiu no porão deles
          Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé

Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
          Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé

Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo

-- Mamã ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
          Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé

Nosso filho não voltou
A morte levou-o
          Aiué!
Mandaram-no p'ra S. Tomé!

Mário Pinto de Andrade

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA

Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

Luís Veiga Leitão

domingo, 18 de setembro de 2011

PASSEI A VIDA...

Passei a vida a servir
os meus dias passei-os a chorar
no meu mundo
meu inferno.

Os braços trabalhando
para um mundo alheio
os meus dedos musicando
para o mundo alheio.

Meu mundo
meu inferno.

E ainda choro hoje
mas de vergonha
de pejo
por ter vivido num mundo inferno
sem ter tido ao menos alma para morrer

1948

Agostinho Neto

segunda-feira, 4 de julho de 2011

TERRA

Nha Chica, conte-me
aquela história
de meus irmãos
hoje perdidos
no mundo grande...

Nha Chica, eu sei:
anos de seca,
gentes morrendo,
casas sem telhas,
de porta em porta
olhos crescendo
barriga inchando,
um dia tombam
de olhos vidrados
por qualquer canto...

Lisboa, América,
Dakar ou Rio:
-- dentro de nós
surge esta ideia
partir! partir!

Resignados,
os que ficaram
ficam esperando
que as nuvens toldem
que a chuva caia
que o chão fecunde
cobrindo os montes
cobrindo as várzeas...

Ah, anos fartos!
Milho, feijão,
pilão cohindo,
fumo no ar,
riso nos lábios,
grog, cigarros,
batuques, bailes
e casamentos...

Olho estes campos,
olho estes mares,
e sinto a Vida
prendida à terra,
feita de sonhos
que um dia esvaem-se
-- mas surgem sempre...

António Nunes

quinta-feira, 9 de junho de 2011

SONETO

Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim...

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!

Rui de Noronha

quarta-feira, 8 de junho de 2011

UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL

Vejo-o velho
anarquista digno
e austero casaco
abotoado sem
gravata nem
dentes.


Quase pede licença para falar.


Chega-me um
hálito de morte
com a sua voz
sumida. Não me importa
tanto o que diz
nem como o diz.
A figura é tudo.

24-V-2003

sexta-feira, 27 de maio de 2011

POSTAL DE CABO FRIO

o céu
o sol
o vento o mar o sal.

tirando o que é rendoso
pertence o mais a todos.

o de sempre:
o sal entra na pele dos turistas
e sai pelo suor dos homens da salina.

operários do sal e concretismo
sal / saliva
sal / salário
no sal do saldo pouco: sal de assalto.

vento sopra nos estanques:
água-mãe (é mãe, coitada)
volta ao mar envergonhada.

Mário de Oliveira

quarta-feira, 27 de abril de 2011

CARREGADORES

A pena que me dá ver essa gente
Com sacos sobre os ombros, carregadíssima!...
Às vezes é meio-dia, o sol tão quente,
E os fardos a pesar, Virgem Santíssima!...

À porta dos monhés, humildemente,
Mal a manhã desponta a vir suavíssima,
Vestido rotas sacas, tristemente
Lá vão 'spreitando a carga pesadíssima...

Quantos, velhinhos já, avós talvez,
Dez vezes, vinte vezes, lés a lés
Num dia só percorrem a cidade!

Ó negros! Que penoso é viver
A vida inteira aos fardos de quem quer
E na velhice ao pão da caridade...

Rui de Noronha

quarta-feira, 20 de abril de 2011

RATOS E HOMENS

But if the while I think on thee, dear friend / All losses are restor'd, and sorrows end.


                                                                                                                                                                                          Shakespeare

No Bosque Proibido, romance de Mircea Eliade, Stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do Metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de Shakespeare, que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os Sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos ceús. Nessa espécie de esgoto, a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Passam crianças
pálidas,
cansadas,
com os livros na mão,
a pasta
ou nada.
Nem parecem crianças a passar.
Há na indiferença triste daqueles passos
a vaga acusação
de terem estado um doloroso verão
ou a fingir
ou a estudar.
(E algumas
não comeram sequer
ao abalar).

Cochat Osório

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CRIOULO

Há em ti a chama que arde com inquietação
e o lume íntimo, escondido, dos restolhos,
-- que é o calor que tem mais duração.
A terra onde nasceste deu-te a coragem e a resignação.
Deu-te a fome nas estiagens dolorosas.
Deu-te a dor para que nela
sofrendo, fosses mais humano.
Deu-te a provar da sua taça o agridoce da compreensão,
e a humildade que nasce do desengano...
E deu-te esta esperança desenganada
em cada um dos dias que virão
e esta alegria guardada
para a manhã esperada
em vão...

Manuel Lopes

quinta-feira, 31 de março de 2011

O PESCADOR VELHO

Pescador vindo do largo
com teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face

a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar

-- nesta água não tem peixe --

pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata

-- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
prò lado do Zanzibar.

Glória de Sant'Anna

segunda-feira, 21 de março de 2011

3 visões do terror

 

O terror não chora.
Camilo Castelo Branco

Africanos a bordo de um navio negreiro, chegados a porto deconhecido.
Índios num quotidiano de reserva, tentando juntar fragmentos estilhaçados duma ancestralidade perdida.
Espectros silenciosos de judeus nos campos de extermínio nazi, aguardando a entrada de tropas Aliadas.

sexta-feira, 18 de março de 2011

VOZ IMORTAL

Fui hoje dedilhar meu antigo quissange,
que abandonara um dia...
Milagre: já não tange
o choro das antigas vibrações,
mas sim novas canções e novos hinos
de dor e de alegria!

Bati no bumbo roto,
que eu já deitara fora.
-- Nasceu um som potente,
mais belo do que outrora,
entrando mais no espírito da gente.

Geraldo Bessa Victor

terça-feira, 15 de março de 2011

NEGRA

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

Noémia de Sousa

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A ÚLTIMA ESPERANÇA

Chivera
naquela manhã viera
trazer o filho que morria
no armazém do patrão
para receber a guia
do lactário que dá injecção.

Disseram-lhe
que ele não podia
ser dispensado do serviço
só porque o filho tinha feitiço
e não comia há dois dias!

Na outra manhã
Chivera
já não trazia o
filho que morria
mas sim os olhos chorando
a boca muda protestando
a última esperança perdida;

só os sacos de milho
das lavras dos seus irmãos
no armazém esperavam
a hora das suas mãos
para mais um dia de vida...

Carlos Gouveia

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

GOGH UMA ORELHA SEM MESTRE

1

Atravessados de um lado ao outro
como os colhões de Cristo
à aurora --
corpo em forma de prece
-- para não perderem o seu quê
enquanto as beiças lambuzam o deus
de langonha

O VOSSO DEUS CHEIRA A PEIXE
cheira a maná de 90$ o kilo

Ide à igreja lamber as mamas do Padre!
O-pa-dre!!!? -- com que nojo...

SABEM O QUE VOU FAZER?
Falar! Falar! Por aí falar da sarna das freiras
                 conas podres
           e do cheirete a mijo

Vocês curvados pelos cantos da sacristia
para que vos vão ao rabo
vocês a perorarem cá fora
à luz do sol a que não têm sequer direito
a roubar o espaço às crianças e aos automóveis, e às putas
que vocês bem sabem onde são

O CRISTO ESTÁ ENVERGONHADO
(VOCÊS NÃO SABEM O QUE É)
PENDURADO PELOS PÉS, CUIDADO
O vosso Cristo parece um coelho
O vosso Cristo é um coelho

-- Vou dar-lhe dois socos no cachaço
                     e comê-lo

                    com ervilhas

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Bem bom este vosso Cristo

Paulo da Costa Domingos

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

CANTO E LAMENTAÇÃO NA CIDADE OCUPADA (3)



Não fora o grito a faca
de súbito rasgando
a fronteira possível
Não fora o rosto   o riso
a serena postura
do cadáver na praia

Não fora a flor a pétala
recortada em vermelho
o longínquo pregão
o retrato esquecido
o aroma da pólvora
a grade na janela

Não fora o cais   a posse
do nocturno segredo
a víbora   o polícia
o tiro   o passaporte
a carta de paris
a saudade da amante

Não fora o dente agudo
de nenhum crocodilo

Não fora o mar tão perto
Não fora haver traição

Daniel Filipe

domingo, 30 de janeiro de 2011

Todo o poeta quando preso
é um refugiado livre no universo
de cada coração
na rua.

O chefe da polícia
de defesa de segurança do estado
sabe como se prende um suspeito
mas quanto ao resto
não sabe nada.

E nem desconfia.

José  Craveirinha

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
E fazes-me tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
Para te servir eternamente como força motriz
Mas eternamente não
Patrão!

Eu sou carvão!
E tenho que arder, sim
E queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão!
Tenho que arder na exploração
Arder até às cinzas da maldição
Arder vivo como alcatrão, meu irmão
Até não ser mais tua mina
Patrão!

Eu sou carvão!
Tenho que arder
E queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!
Eu serei o teu carvão
Patrão!

José Craveirinha