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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O crítico tem alma de camelo:
frutas e flores, eis o que el' não come.
No florido jardim do doce néctar,
se não vê espinhos, morrerá de fome.

poema sânscrito anónimo

(Jorge de Sena)

domingo, 18 de setembro de 2011

O ESPÍRITO DOS PÁSSAROS

Os índios acreditam que o homem
é o espírito dos pássaros,
deslumbrante e volátil,
como uma nuvem de espuma,
um óleo santo, ou um fogo ritual.

Assim se cumpre o seu destino
de adoradores do trigo, da lava
e do sol, de fabricantes de setas
ardentes como um lume fatal.

Conspiram os pássaros contra
o espírito dos homens
que os tiraniza e fere de morte.
Dançam em torno das estações,
trabalhando pela fertilidade
das colheitas, migrantes e sequiosos.

José Jorge Letria

sábado, 16 de julho de 2011

A loba é um bicho estranho, um vizinho
atarefado, que trabalha para um desígnio estranho
e obsessivo ___ como pensar noutra coisa, construir
outra cabana se o meu sono deixou de ser
um ovo, uma ilha? Perco-me neste arquipélago demente
e cheio de remoinhos _____ ainda ouço ao longe
o canto da cigarra, ainda não perdi
a lembrança de que sou um homem
embora mais antigo do que são os homens
que se julgam poderosos. Se vêm à minha mão
as aves do velho paraíso
alguma coisa escutarão no meu ombro
cansado ____ sou um homem antigo
e venho de muito longe, de matéria ondulantes
mais antigas ainda, vestígios num olhar
onde se reflectem montanhas
mais distantes ainda : ainda
que me detenha no meu jardim
contemplando as cerejeiras
a sombra do meu corpo antigo
caminha sem mim
de casa em casa,
de feira em feira.

Casimiro de Brito

quarta-feira, 22 de junho de 2011

os dias passam por ele
sem que ele dê pelo passar dos dias por ele

adoece e não sabe que é o fim
abana a cauda e sucumbe
ao tiro no crânio
                  com espanto
à injecção letal
                  em paz

27-I-2003

sexta-feira, 17 de junho de 2011

LA MORT DES OISEAUX

Le soir, au coin du feu, j'ai pensé bien des fois
À la mort d'un oiseau, quelque part dans les bois.
Pendant les tristes jours de l'hiver monotone,
Les pauvres nids déserts, les nids qu'on abandonne,
Se balancent au vent sur un ciel gris de fer.
Oh! comme les oiseaux doivent mourir l'hiver!
Pourtant lorsque viendra le temps des violettes,
Nous ne trouverons pas leurs délicats squelettes
Dans le gazon d'avril où nous irons courir.
Est-ce que les oiseaux se cachent pour mourir?

François Copée

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A corcova calva do camelo
me traz o desejo
de incendiar as vogais
e ruminar as cinzas arenosas.

Como a alma acalma o coração?
Talvez com dromedários

Angela de Campos

terça-feira, 14 de junho de 2011

EXÍLIO

O búfalo com chifres de prata
        poisa no nenúfar
no nenúfar do exílio
        búfalo ou borboleta

Jorge Lauten

quinta-feira, 9 de junho de 2011

NATUREZA-MORTA COM LOUVADEUS

Foi o último hóspede a sentar-se
no topo da mesa já depois do martírio.
As asas magníficas haviam-lhe sido quebradas
por algum vento. Perdera o rumo
sobre a película cintilante de água
no riacho parado. Tal como poisou
junto de nós, com o belo corpo magro
arquejante, lembrava, ainda segundo o seu nome,
um santo mártir. Enquanto meditávamos,
a morte sobreveio, e a pequena criatura,
que viera partilhar a nossa mesa,
depois de ter sido banida das águas
foi banida da terra. Alguém pegou
no volúvel alado corpo morto
abandonado sem nexo na brancura da toalha
-- que maculava --
e o atirou para qualquer arbusto raro
que o poeta ainda pôde fotografar.

Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 2 de junho de 2011

LÍRICA PARA UMA AVE

Num céu de chumbo e baionetas
caladas,
sobre uma floresta de sono
e demência,
tonta, esvoaça perdida
uma ave sangrenta.
Na turva e opressa manhã
se anuncia a cólera
do tempo.

Na hora
da aurora,
gemem ventos,
fluem surdos rios.

Cerra os olhos,
cala na garganta
a voz,
acorda audível
o pensamento:

No escuro cerne da floresta,
com sorrisos dependurados à entrada,
degola-se uma ave.
Por enquanto mais nada, senão
o torvo tinir dos talheres
no banquete da morte impossível.

Rui Knopfli

terça-feira, 31 de maio de 2011

A SERPENTE

Muito comprida.

Jules Renard
(Jorge de Sena)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

HISTÓRIA DE CÃO

eu tinha um velho tormento
eu tinha um sorriso triste
eu tinha um pressentimento

tu tinhas os olhos puros
os teus olhos rasos de água
como dois mundos futuros

entre parada e parada
havia um cão de permeio
no meio ficava a estrada

depois tudo se abarcou
fomos iguais um momento
esse momento parou

ainda existe a extensa praia
e a grande casa amarela
aonde a rua desmaia

estão ainda a noite e o ar
da mesma maneira aquela
com que te viam passar

e os carreiros sem fundo
azul e branca janela
onde pusemos o mundo

o cão atesta esta história
sentado no meio da estrada
mas de nós não há memória

dos lados não ficou nada

Mário Cesariny

domingo, 22 de maio de 2011

ERA UMA VEZ...

À noite para adormecer
O lobinho na floresta,
A mãe loba conta histórias
E outro dia contou esta
O Capuchinho Vermelho
Certo dia, indo só
Atravessou a floresta
P'ra ir visitar a avó
Entreteve-se a falar
Com uns bichos brincalhões
Apareceu um grande lobo
E viu-se em complicações
E a mãe loba terminou
A história já conhecida
Em que o lobo por ser mau
Com um tiro perde a vida
Assustadinho a valer
Diz que já não quer crescer
Deitadinho ao pé da mãe
É que o lobinho está bem.

Isabel Lamas

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O CORVO

-- Quê? quê? quê?...
-- Nada.

Jules Renard
(Jorge de Sena)

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A BALEIA

Tem na boca barbas de sobra para fazer um espartilho. Mas com aquela
                                                                                                   [cintura!...
Jules Renard

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

LULLABY

Passarinho pequenino,
que dizes tu, tão cedinho?
Quero voar, minha mãe,
quero voar deste ninho...
Passarinho, passarinho,
     -- meu tontinho! --
Deixa as penas crescer bem,
logo no ar te sustém...

Bebèzinho pequenino,
que palras tu, tão cedinho?
Quero correr, minha mãe,
voar como o passarinho...
Bebèzinho, bebèzinho,
     -- meu tontinho!
Dorme um pouco mais, meu bem...
Cedo voarás, também...

Tennyson

(Luís Cardim)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O PIRILAMPO

Que se passa? Nove horas da noite, e há luz ainda em casa dele?

Jules Renard

(Jorge de Sena)

terça-feira, 5 de abril de 2011

A ARANHA

Uma pequenina mão negra e peluda crispada em cabelos.
Toda a noite, em nome da lua, apõe os seus selos.

Jules Renard

(Jorge de Sena)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

L'ALBATROS

Souvent, pour s'amuser, les hommes d'équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur des gouffres amers.

À peine les ont-ils déposées sur les planches,
Que ces rois de l'azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté deux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau,qu'il est comique et laid!
L'un agace son bec avec un brûle-gueule,
L'autre mime, en boitant, l'infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l'archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant lémpêchent de marcher.

Baudelaire

quinta-feira, 31 de março de 2011

O PESCADOR VELHO

Pescador vindo do largo
com teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face

a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar

-- nesta água não tem peixe --

pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata

-- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
prò lado do Zanzibar.

Glória de Sant'Anna

sábado, 26 de março de 2011

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso neste impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.

Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.

Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.

Manuel de Freitas