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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A PALAVRA INESPERADA

do estômago sobe-me a palavra inesperada
entre a língua destravada e o palato força-me
a boca desabusada desesperada
rasteira-me a mão e cai
sobre o papel
estatelada
13-VI-2003 /
/ 10-XII-2005

sábado, 16 de abril de 2011

IDEIA DO POEMA

Fluída, indecisa, volátil,
inconcreta, a ideia não
se submete facilmente
ao cerco insidioso
da palavra.

                  Elusiva
e ambígua a cada
instância se lhe furta,
presa de um discreto pudor.
A palavra é, porém,

audaciosa, pertinaz, envolvente.
Persegue-a e espreita-a,
faz-lhe longas esperas
e sai-lhe ao caminho
a horas inesperadas, em lugares

incertos.
               Cativa-a
e perturba-a lentamente
subverte-lhe a vontade,
exalta-lhe os sentidos

e, amorosamente,
nela penetra, desfigurando-a.
Da ideia já nada
ou quase, sobra.
Senão o poema.

Rui Knopfli

terça-feira, 29 de março de 2011

O JOGO É UM ITINERÁRIO

Na minha oficina herética
o labirinto contraria o linear:
percorre-me
como se fosse uma veia
segura em seus meandros

A não-necessidade, o que seria?
que nova desordem criaria?
que outras descobertas?

A fugaz eternidade das ideias-mestras
incessante refaz os jogos da racionalidade
mas o jogo é um itinerário
e a sedução do rigor
recoloca-nos incessante na senda do desejo

Ana Hatherly

domingo, 13 de março de 2011

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão -- é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
-- É com as vozes que o silêncio ganha.

Herberto Helder

domingo, 30 de janeiro de 2011

Principio a escrever
e letra a letra construo uma casa
leve e obscura como um poema

Escrevo como quem da mágoa
se despede e é outra cor

O espanto inunda as mãos (aves sem peso)
e uma canção antiga
nasce no interior das sílabas

Um saber precário consome a minha voz
Um pedaço do mar
Um véu rasgado

Olho devagar os rostos
(luz matinal)
e à volta dos lugares
desenho um arco de orvalho e mel.

Fernando Jorge Fabião

domingo, 16 de janeiro de 2011

AS PALAVRAS SÓ-LIDAS

As palavras só lidas são palavras
ler é um processo
de
        liquefação/solidificação

e não é só letrar as letras
dentro das memórias.

é também disjuntá-las
        que diz juntas
        se dizem de sentidos
                              novas.

E. M. de Melo e Castro

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

PALAVRAS

Sentas-te ainda à mesa -- escreves
palavras tão compactas, tão opacas
como a luz que te cega. Cada dia
promete o infinito em meia dúzia
de palavras -- o amor,
a vida, o tempo, a morte, a esperança,
o coração. Repete-as,
repete-as muitas vezes em voz alta
e escuta a sua música
até não quererem dizer nada.

Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do êrro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao comêço,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o côrrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

Herberto Helder

SANGUE

Versos
Escrevem-se
Depois de ter sofrido.
O coração
Dita-os apressadamente.
E a mão tremente
Quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.

Saul Dias

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A penúria da língua é a sua força.
Reconhecendo nela a indigência
mais o apuro se empolga
e a submissão empolga a subtileza
do espírito, dado a obra
e a mais nada que não seja ela.
De aí que se desenvolva
uma abertura hiante de surpresa
que pede língua cada vez mais nova
e de mais adequada obediência.
Ou, se quiserem, língua peremptória.
Porque, vinda do fundo da pobreza,
entrega apenas quanto falta. E torna
a sua falta uma abertura imensa,
indigitando o extremamente fora,
cuja ausência feliz se nos entrega.

Fernando Echevarría

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

PESSOAL INTRANSFERÍVEL

     Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.
     Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, para quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimónias, «herdeiro» da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.
     E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.

Torquato Neto

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A palavra, a mãe que me espera
ao fim desta viagem de cegos
é uma árvore compassiva a que me encosto
quando estou cansado e não quero cair ainda.
Um bosque cheio de veredas
e não sei se foi esse o melhor caminho.
Aceitei-o. Precisava de uma companheira mais leve
do que o cheiro a tulipa negra da morte.
Navego num chão labirinto e vou com as águas
que todas as coisas são; adapto-me
ao vaso delas, à concha de palavras
que não colhi ainda. Foi bom termos tido
uma vida quase esquecida. Encostados a sílabas
como se fossem árvores de família.
As palavras não acrescentam nada,
mas como dizer o que não pode ser dito
em silêncio? Talvez possamos ajudar a desarrumar
a casa pobre que somos; talvez sejamos apenas
um espelho melancólico
onde se reflectem os nossos irmãos.

Para o António Ramos Rosa.

Casimiro de Brito

domingo, 24 de outubro de 2010

POUSIO

Faz-me bem deixar
os poemas na secretária
por uns meses,
só família e corpo
e relatórios, projectos,
notas para a imprensa.

O ar do tempo revigora.
A linguagem faz-se rogada
e agarra-se aos objectos,
retira-lhe adjectivos.

O tempo vai transformando
os versos em mais coisas
que não reconheço,
meses depois, quando me sento
à secretária e volto a escrever
o poema de sempre.

José Ricardo Nunes

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

LER ESCREVER

Quatro fragmentos

1
Não escrevo para me ler,
Leio para me escrever.

2
Não vivo o que escrevo
Não escrevo o que vivo.
Escrever é outra
Vida viver.

3
Entre a página escrita
E a página a escrever,
Que leitura nos separa,
Que escrita nos aproxima?

4
Pela Vida é que vamos,
Não pela escrita que temos.

Lisboa, 1993

Liberto Cruz

NAMORO DE ALDEIA

Duas horas e meia da manhã:
o trabalho que espera sossegado,
o cansaço do fogo na lareira,
a caneta riscando e o cantar do galo
estremunhado

Deve pensar que são seis horas, este galo,
e o meu trabalho em sono, o fogo que me fala,
uma unha roída,
um cigarro fumado,
o café a fazer e o poema desfeito
em só cadência

Que tema é este sério a esta hora
breve da manhã, com o trabalho à espera
e o fascínio do fogo?

Deve pensar que possui tema, este poema
que não me evita e me namora ousadamente
a desoras na aldeia

O fogo estala e outro galo canta
e o meu trabalho enjoa sossegado
No romance parado do meu poema e eu,
o café já saiu, começou a chover

Escorrem gotas macias no telhado,
o fogo morre, o trabalho desperta
abrindo um olho lento

e o meu namorado parvo e tonto
carregado de imagens (e de outras coisas leve)
sai furtivo a desoras

Só deixou por roer
a unha do polegar
da minha mão direita

Ana Luísa Amaral

terça-feira, 12 de outubro de 2010

POETA

Poeta: uma criança em face do papel.
Poema: os jogos inocentes,
invenções de menino aborrecido e só.
A pena joga com palavras ocas,
atira-as ao ar a ver se ganha ao jogo.
Os dados caem: são o poema. Ganhou.

Adolfo Casais Monteiro

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

OS VERSOS

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O HOMEM DO SUL

Cheguei e perguntei
pelo grito do granito.

Rigor obstinado,
era o que ele dizia.
Ele, o homem do sul,
e persistia.

Deita uma palavra ao mar.
Exemplo: rio.
Abandona outra: vento, ao próprio vento.

Mas se o quiseres escutar
é melhor deixares
lá fora
o teu lamento.

Armando Silva Carvalho

sábado, 2 de outubro de 2010

NOTAS PARA A REGULAMENTAÇÃO DO DISCURSO PRÓPRIO

1.

Cabe num punho ou num bolso, este cabedal
ciosamente amealhado, mas puído já por usos
e abusos, irremediavelmente contaminado
pelas perversões da ignomínia ou da ignorância,
vez por outra remido, também, na lâmina

célere do mais acerado metal. Se, para brandi-lo,
ergo vacilante a mão, mais de cem fantasmas
antiquíssimos me cavalgam o pulso sobre
que inflecte a fragilidade calcificada
de séculos. Um movimento vai exauri-lo

sob o fardo, já outro lhe põe em risco
a quebradiça ligeireza. O verbo hesitar
lhe empresta o tónus correcto, no silêncio
respira, a sombra lhe dá corpo. Oferece,
por tal, essa aparência ilusória de ser

só chama, comburência sem combustível.
Podes tu, que apenas chegas e tudo ignoras
das traiçoeiras dificuldades experimentadas
nos lameiros que atolam o percurso
antes da pirâmide, proferir a primeira

palavra, como quem percute em festa
o cristal novo do sino alvissareiro.
Meu fendido, escuro bronze, roído
de musgos e cardenilho, apenas consente
a mágoa nocturna deste lamento a prumo.

Rui Knopfli

ATHENE PARTHENON

Poeta de hoje vivo ainda a Atenas
das tradições homéricas, -- da lenda...
A minha fantasia -- tece-a a renda
feita de espuma das criações helenas.

Evoco as linhas nobres e serenas
de Bríleis junto a Aquiles -- numa tenda.
Não há breve dizer que eu não entenda
em suas gráceis, pastoris avenas.

Atleta como um grego -- sonho lutas.
Há na minha arte jónicas volutas,
-- acantos lanceolados como insídias...

E modelando as formas dum soneto
no mármore do Sonho predilecto,
a minha pena -- é um cinzel de Fídias!

Coimbra
1 9 2 3

Tomás de Figueiredo