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terça-feira, 6 de setembro de 2011

LOS CAMINOS SECRETOS

Los fronterizos, los que pasen solitarios
contrabandistes, maquis, carabineros,
los que marca nel atlas con tinta azul
la pensatible mano d'una nena
qu'inda nun sabe que ye Lady Macbeth,
los que taliara mio padre per tierres del Bierzo
y aquellos perpindios pelos que yo atayaba
con tebeos baxo'l brazu
pa llegar a la caseta
de lates, plásticu y fierro
onde m'esperaben los trece
años de Yolanda la del carteru.

Los caminos secretos baxo la húmida
lluz d'una tarde antigua de marzu,
la breda erma d'un poema de Kipling
que copié nun cuaderno va pa diez años
nuna bufarda de la cai Escura.
Los que llevo anoyaos al corazón
y me train y me lleven
dica esa última alcoba que nun soi
-- bates blanques, doutores... -- pa imaxinar.

Xuan Bello

sábado, 3 de setembro de 2011

SOBRE O LINHO

A avó inclina-se sobre o linho
guarda estrelas no cesto do carvão
com as mãos gretadas pelo gelo das manhãs
pelos cristais de água da estação das chuvas

As histórias que conta são
as do assombro e da claridade ofuscada
pelo rasto dos cometas

Vorazes são os lobos insones
à beira dos portões da infância:
as crianças voam para o céu

Vejo-a arquejante sobre as almofadas
com a primavera agonizando nas janelas

José Jorge Letria

terça-feira, 17 de maio de 2011

UMA DE NOME EMÍLIA

uma mulher nasceu em Trás-os-Montes
e veio dar-me à luz cá no Brasil
dela só soube o nome (e era Emília)
antes que eu mais soubesse, ela partiu.

deixou porém vagando no meu sangue
caravelas herdadas a Cabral
que inflando suas velas invisíveis
me pedem mar... distâncias... Portugal.

trazem-me estranhas, vagas nostalgias
daquilo que eu não vi nem foi sonhado,
de gentes que eu amei sem tê-las visto,
de campos que eu cruzei sem ter cruzado.

leva-me às vezes com tal força o vento
na direcção do mar, daquelas terras,
que em pensamento parto na procura
do que ficou em mim além das serras.

caminho então por vilas abstractas
em que há ruas e casas de neblina
e espero ver um vulto que me chame
detrás de alguma porta, de uma esquina.

mas nada vejo dessa sombra antiga
que o deslizar do tempo consumiu,
nada que lembre certa transmontana
que teve certo filho no Brasil.

Mário de Oliveira

domingo, 1 de maio de 2011

BABEL E O LABIRINTO

Cabisbaixos e de ombros vergados descemos
devagarinho a aspereza do trilho, paisagem
a desembocar na discórdia de ignotos
panoramas. Entre o severo românico
e o gótico mais ágil, touros silentes,

transitam lentos e graves no tempo.
Hirtos, alongados dedos, catedrais negrejam
sobre o trigo louro, apontando o céu.
Católicos álgidos túneis, muros de alta rocha
húmida, intercalando, num perverso gosto

bourbónico, de róseos e grises mármores,
a morna ardência de opacas purpurinas.
Para trás tomba o peso insuportável
da infância. Não aquece em Abril o sol
da Primavera. Estrangeiras, nossas vozes

cruzam-se ensaiando a escuridão
no túnel do olvido. Cegos caminhamos
a ocultas de nós próprios, enquanto
nós próprios nos espreitamos outros
desde um mapa longínquo e luminoso

que sabe ao fruto perdido da inocência.
Sílabas dissonantes cunhadas na têmpera
de novos metais gelam no ar translúcido.
Sento-me Quai S. Michel junto aos aprumados
plátanos do Sena. Anos, séculos, um longo

tempo parado, intervalar, se abate
sobre mim. Devagarinho, imperceptivelmente,
como furtivas, exauridas lágrimas,
os meus amigos de outrora
diluem-se para fora da linguagem.

Rui Knopfli  

quarta-feira, 27 de abril de 2011

MUNDO DE AVENTURAS

Uma pequena aldeia na planície arménia,
nevoeiro matinal no porto de Dieppe.
O silvar agudo nos cimos dos Cárpatos,
um castelo solitário num lago escocês.
Um junco chinês no mar do Japão,
um trilho de camelos na Rota da Seda.
Um catre vazio no mosteiro da Arrábida,
uma via romana na serra do Gerês.
Uma mesa de cozinha e odores de Outono,
um eucaliptal onde brinco com o Avô.
O último número da revista tão esperada,
despojos da infância que se me acabou.
Sintra, 21 de Março de 2001

quinta-feira, 17 de março de 2011

À MA MÈRE

Lorsque ma soeur et moi, dans les forêts profondes,
Nous avions déchiré nos pieds sur les cailloux,
En nous baisant au front tu nous appelais fous,
Après avoir maudit nos courses vagabondes.

Puis, comme un vent d'été confond les fraîches ondes
De deux petits ruisseaux sur un lit calme et doux,
Lorsque tu nous tenais tous deux sur tes genoux,
Tu mêlais en riant nos chevelures blondes.

Et pendant bien longtemps nous restions là blottis,
Heureux, et tu disia parfois: Ô chers petits!
Un jour vous serez grands, et moi je serai vieille!

Les jours se sont enfuis, d'un vol mystérieux,
Mais toujours la jeunesse éclatante et vermeille
Fleurit dans ton sourire et brille dand tes yeux.

Théodore de Banville

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

SOL DE JUNHO

O sol de Junho irradia,
sem se extinguir a moinha
a chover-nos dentro.
Somos atravessados pela melancolia,
choro intenso de lágrimas secas.
Trazemos em nós o próprio feto,
que continuamente violentamos.
VI-2001

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
Abdicou do seu ofício.
Já foi o sol
e do trigo esse lugar -- agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: «Não sujes
a toalha»; «Não comes a maçã?»
Também já não há quem se debruce
Na janela para sentir
O corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

EXPERIÊNCIA

Nas noites negras para roubos, chuvas, ventos,
E nas noites quentes em que o luar abafava as estrelas,
À hora de os sonhos baixarem vagarosos do céu,
Alguém dobrava com uma ordem doce os meus joelhos,
Juntava as minhas mãos inocentes e fracas,
E eu rezava como se repetisse uma canção.
E o meu sono era sempre sob a guarda de estrelas...

É a vida, agora, quem dobra os meus joelhos cansados
Que guardam a marca das pedras mais rugosas,
É a angústia da vida quem junta as minhas mãos,
As minhas mãos mais fracas e incertas.
Soltam-se da minha alma orações desesperadas,
Orações que as tristezas e os dias compõem.
Se no céu há estrelas, estão lá em cima e só brilham...

Alberto de Serpa

terça-feira, 23 de novembro de 2010

PARA A AVÓ ZÉ

Lembro-me de como gostava de estar
debruçado sobre a mesa da cozinha,
vendo a Avó a ferver as seringas
numa velha panela redonda de esmalte.
A mesa era grande, de mármore,
e ali fazia os deveres da escola,
num caderno quadriculado, sujo de enganos
da aritmética, com um n.º 2 mal aparado.
Hoje a Avó já não ferve as seringas,
mas desfaz os morangos em compota,
cujo aroma nos anuncia
as escuras tardes de Outono.

Estoril, 23-VI-1985

terça-feira, 16 de novembro de 2010

CAFÉ

Sabor de antigamente, sabor de família,
Café que foi torrado em casa,
Que foi feito no fogão da casa, com lenha do mato da casa,
Café para as visitas de cerimónia,
Café para as visitas de intimidade,
Café para os desconhecidos, para os que pedem pousada, para toda a gente

Ribeiro Couto

sábado, 6 de novembro de 2010

REENCONTRO

A velha ponte-cais de traves carcomidas,
O morro triste, a antiga fortaleza...
O deserto a avançar sobre o mar
E a polvilhar a cidade pobre da sua poeira amarela...
O deserto a sepultar a cidade pobre...

As hortas do Giraul, mancha tímida e verde no areal.
O jardim emurchecido, queimado e ressequido pelo sol de África,
-- Parque frondoso que a memória guardou,
Imagem que a vida destruiu neste reencontro.
O jardinzinho da cidade,
Já sem o coreto para música,
Mas com a fileira dos espectros...

A longa, a interminável fileira dos espectros...
A Miss Blond a acompanhar os meninos a passeio,
O Tigre, pachorrento e mansarrão.

Os pretos, o olhar submisso e espantado,
Com as correntes aos pés,
Na rua de casas térreas e de piso mole.
A Miss Blond deixou de acompanhar os meninos a passeio,
O Tigre, erguido a cão nobre, morreu de velho,
Os pretos quebraram as correntes,
Só os espectros ficaram, pávidos,
Onde os havia deixado;
Só eles povoam a lembrança,
Habitam a cidade;
Só as suas vozes ecoam no deserto,
As vozes estremecidas,
As vozes perdidas
Na casa desabitada que a poeira do deserto cobriu,
Na vida que a poeira do tempo cobriu,
na morte, na saudade, na morte...

     Baía de Moçâmedes, 8 de Dezembro 50.


Joaquim Paço d'Arcos

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

ALGUÉM

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
e, se na terra existe, é porque existo.

Esse alguém, que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz,
não és tu, anjo meu idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando alta noite me reclino e deito
melancólico, triste e fatigado,
esse alguém abre as asas no meu leito,
e o meu sono desliza perfumado.

Chovam bençãos de Deus sobre a que chora
por mim além dos mares! esse alguém
é de meus dias a esplendente aurora,
és tu, doce velhinha, ó minha mãe!

Gonçalves Crespo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

IMPRESSÕES DO CREPÚSCULO

I

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minh'alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem um som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
és para mim como um sonho --
Soas-me na alma distante...

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luís Peixoto

o imaginário da praia

todas as noites da nossa paixão
foram servidas por estandartes
que perduram no imaginário
andávamos atrás de deusas
de casas antigas de marchas de cegadas
de coisas que a história não deixa vestígios

quando procuramos arquivar o passado
tudo se dilui na correria que é entrar de bar em bar
e manter sempre a mesma respiração
é como apagar as chamas de um foguete das festas do sítio
nunca é tarde para o fazer
mas quando nos olhamos
não resistimos ao que resta de nós

(acabei agora de falar com o zé -- o paulo não estava -- e
soube que as cafurnas ainda enrolam a alegria e que o
mistério do voo das gaivotas ainda não foi desvendado)

havemos sempre de beber outra garrafa de vinho
e noutra púrpura noite rasgar a praia toda

m. parissy

domingo, 31 de outubro de 2010

QUATRO POEMAS DO RETARDADOR (2)

Neva na hora parada
Em que penso que pensar
É uma espécie de luar
Numa paisagem lembrada;

Neva, lenta, retratada,
A minha tristeza disto,
-- Como o luar entrevisto
Duma janela fechada;

E neva, mais sonolenta
Nessa longínqua lembrança,
O luar de ser criança
A vê-la tombar, tão lenta...

Carlos Queirós

sábado, 23 de outubro de 2010

VERDE

O verde tenro e vivo de folhagem,
presépio dos meus sonhos em menino,
pôs-se de luto a par com o meu destino,
cego-me a vê-lo imagem de miragem...

Quando iludido o busco na ramagem,
já com seus tons mais brandos não atino,
e nesta escuridão só me ilumino
vendo-o compor-me interior paisagem:

-- Paisagem doutro verde que de mim
sai alongada em foco para a terra
a procurar vencer-lhe a cerração,

E aonde num crepúsculo sem fim,
tonta, a Esperança esvoaçando, erra
sobre torres de encanto e de traição!

Edmundo de Bettencourt

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

SETEMBRO

                ...quanto mais envelheço, mais pueril é a luz
                mas essa vai comigo.

Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espigarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros em debandada
experimentava uma exaltação -- de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável

o que deixaste abandonado regressa aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece
com certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros
que ladram não se percebe como
à porta da velha casa

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ENQUANTO TARDA O INCÊNDIO

no inverno em séculos passados
falava-se de animais

junto à lareira comentavam os mais velhos
paisagens de sol
e o vento como sendo a distância
entre a noite e o bosque

nas manhãs frias olhava-se
com calma
a neve

à volta dos sobreiros as crianças brincavam
agasalhadas
de azul

hoje, enquanto o incêndio tarda
vou sendo feliz
entre os sobreiros

Daniel Maia-Pinto Rodrigues