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sábado, 17 de setembro de 2011

CIDADE DE SEGREDOS

Quando a cidade escurece
e um toldo de noite a envolve,
o silêncio traz em si
os mais profundos lamentos,
o ruído de estertor dos que chegam ao fim,
os soluços de amor dos que agora começam,
os passos perdidos pelas ruas solitárias
de luz citrina nas janelas da espera.
É sempre o corpo o centro da madrugada.
Vou ver o meu filho que dorme serenamente
enquanto um motor de carro abranda
na hora do sono dos noctívagos e dos boémios.
Sento-me e contemplo ao longe a Basílica da Estrela
num diálogo de pedra secreto com os
últimos luzeiros, com o rumos da alvorada

João Candeias

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ONDE?

Tão longe como estás, ó meu desejo,
Quando a noite gelada se avizinha,
Se tu és Dor, ao pé de mim te vejo...

Trajas um manto negro de rainha
E, silenciosa como a sombra, choras
Pousando sempre a tua mão na minha!

Vens de tão longe nas caladas horas!
Se tu és Pranto, esse leal amigo,
E no meus olhos que de noite moras...

Tens neste amargo peito um doce abrigo!
Se estás longe de mim e eu não te alcanço,
Não és pranto nem Dor! Mas, se és Descanso,
Onde te ocultas que não dou contigo?

João Saraiva

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

FUI GERADO

Fui gerado
Como as sombras te geraram
Ai as sombras

Que pariram nas cavernas
Ai as sombras que pariram
Minha sombra nas cavernas

Tantos gestos que se buscam
Tantos lábios que se entregam
Tantos corpos que se apagam
nas cavernas

Ah os homens serão tristes
Pois não sabem donde vêm
Ah os homens serão tristes
Pois não sabem onde vão

Fui gerado Noite adentro
Tua fome me vestia

Fui gerado Noite adentro
Como a terra
Que as raízes não consomem

Fui gerado Noite adentro
Era o Sol que fecundava
Era a terra que sangrava
E do íntimo da terra
Era um homem que brotava

Fui gerado Noite adentro

Carlos Nejar

sábado, 27 de agosto de 2011

CONVICÇÃO

Cai a tarde, cai a noite...
As sombras erguem-se do chão, fazem danças, contra-danças, rondas, ciladas.
As luzes da Câmara Municipal, presas aos fios que as vivem, guardam-nas e elas dançam-lhes de roda.
Eu passo; mas não passo como uma sombra: sou eu. Tenho um cartão de identidade e fatos por medida.

António Madeira
(Branquinho da Fonseca)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

BIRDS IN THE NIGHT

Ouço-as à noite, trémulo-erradias,
Pássaros negros! lúcida Saudade!
O silêncio da Altura que as invade,
Suavíssimo-serenas Harmonias!

Cítaras, que, através da Imensidade,
O lento ressurgir de épocas frias
Vão embalando, brandas e macias,
Em acordes de amor e piedade...

Ouço-as, Alma da Sombra, veludosas,
Como do Sonho às portas luminosas
A esta saudade que me faz cantar;

Ouço-as, à noite, cantam! indizíveis,
Misteriosos sons intraduzíveis!
Metamorfoses brancas do Luar!

Gustavo Santiago

sábado, 9 de julho de 2011

LUNAR

Maior que a vastidão de areia, a solidão do deserto. O oásis é efémero, para a etérea miragem.
E o sol, que já cedeu à lua, entre as dunas ainda resplandece.

José de Matos-Cruz

sexta-feira, 8 de julho de 2011

NOITES DE MACAU (2)

Na boca da noite os minerais
disfarçam sorrisos,
gestos hábeis,
em camas de cetim.
O ouro e a prata deslizam
para lugares mais secretos,
rivalizam com o jade, o dragão,
retiram o calar da noite,
vestem-se dele,
mandarins de botão vermelho
e pena de pavão.

António Augusto Menano

quarta-feira, 8 de junho de 2011

NO TÚMULO DE UM ASTRÓNOMO

Amei demasiado as estrelas
do céu nu que percorri a dedo,
para que a noite, onde brilham, belas,
em mim seja surto de algum medo.

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 26 de maio de 2011

NIGHT IN TUNISIA

Um piano corre solto
como um louco no deserto.

Cada palavra em pó se espalha
a noite cai como um consolo.

Treme túnica rouca
na aventura dessa estrada.

Um murmúrio exato enterra
no deserto a noite clara.

Palavra vaga e falha
um noite em lua brada.

Trama toada louca
na raia atormentada.

Um sábio exótico se devora
enquanto o sol chove lá fora.

Frederico Barbosa

sexta-feira, 6 de maio de 2011

SEGREDO

Descansa. Nem tu sabes, nem eu digo!
A lua, que baixou do céu ao lago,
Não adivinha se a deixei... se a trago
Dentro da alma, como um sonho antigo.

O néctar, que eu procuro e que maldigo,
O vinho, que abençoo a cada trago,
Este veneno com que me embriago...
É mistério dum só: irá comigo!

Porque suplicas que me dê, que fale?
-- Porque não sabes quanto a noite vale
E não calculas como é bom assim!

Bem sinto a dor que o teu olhar goteja;
Mas o Princípio, por melhor que seja,
É pai dum monstro, que se chama Fim!

Queirós Ribeiro

segunda-feira, 18 de abril de 2011

DOR MORTA

Foi secando aquela dor...
               Planta daninha!
Que perfume embriagador
          Ela não tinha!

Foi morrendo... o coração
          Inda se queixa...
Mas eu fiz uma oração
          Da sua queixa.

E, alta noite, vou rezar,
          Joelho em terra...
O céu chora com pesar,
          A sombra aterra.

Mas a lua entra a sair,
          Intemerata,
E o luar entra a cair
          -- Chuva de prata...

Então a dor que morreu
          Surge mais bela...
Quem move os lábios -- sou eu;
          Quem reza -- é ela.

Queirós Ribeiro

terça-feira, 12 de abril de 2011

MÚSICA NA NOITE

Te imagino
breve bossa
leve jazz
na noite dissonante
das capitais.

Capto
todo o efêmero
em desfile.

Destilo
tintos vinhos
com estilo
atento ao falso brilho
ao redor.

Retorno
cinza manhã.

Ricardo Mainieri

segunda-feira, 11 de abril de 2011

NO CAIS

Há vibrações metálicas chispando
Nas sossegadas águas da baía.
Gaivotas brancas vão e vêm, bicando
Os peixes numa louca gritaria.

Escurece. Do largo vão chegando
As velas com a farta pescaria.
As bóias põem no mar um choro brando
De luzes a cantar em romaria.

E entretanto no cais as lidas crescem.
Arcos voltaicos súbito amanhecem,
A alumiar guindastes e traineiras...

E ouve-se então, mais forte, mais vibrante,
Os pretos a cantar, noite adiante,
Por entre a bulha e o pó das carvoeiras...

Rui de Noronha

sexta-feira, 8 de abril de 2011

NOITE DE VERÃO

De súbito, a lua japonesa
desenha na janela
as três colinas dum hai-kai;
e vê-se então
que a sua luz, o círculo
cortado ao meio
no horizonte de cimento,
basta para tornar o ar oxidado
quase cor de rosa;
assim se aprende,
ao anoitecer, como o verão
escreve cidades mais legíveis;
embora breves; sobre
alicerces que flutuam
em torno do leitor nocturno,
e são talvez a imagem
do meio círculo que falta
à lua, no horizonte.

Carlos de Oliveira

terça-feira, 5 de abril de 2011

VAI E VEM

I

É de todos sabido que
o 100 tanto desce como sobe
-- e fiquemo-nos
pelo estreito declive que vai
da praça das Flores ao Príncipe Real.

Vi hoje um filme sobre isso
-- português, embora não muito suave,
e avesso, como pôde, aos brandos
costumes da morte. Detive-me, pouco
depois, sob a frondosa árvore da noite.
À espera, claro, de não ver ninguém.

Manuel de Freitas

terça-feira, 29 de março de 2011

Ó noite inolvidável
Feita abraço
Que nos misturou inteiramente
Até que o dorso da treva se vergou
E na face da idade embranqueceu.
Foi então
     Que o manto fino da brisa
     Tapou teus ombros, ó Noite,
     Com a delicadeza do orvalho.

Ibn 'Abdun

(Adalberto Alves)

domingo, 27 de março de 2011

CANÇÃO

Vem surgindo a madrugada.
Entro agora num dancing.

Numa guitarra que tange
Oiço a mágoa do meu sonho.

Há vestígios de batalha:
Nódoas de vinho,
E alguns pratos
Com restos de carne, -- e o cheiro
A tabaco e a febre e a flores
Paira
Na sala como um cansaço...

Triste,
Vou lembrando os meus amores.

Além,
Naquela mesa do fundo,
Naquela mesa redonda,
Um homem
Descasca uma tangerina
E vai beijando e mordendo
A mulher franzina e feia
Que ao pé dele fuma e sorri...

Vou lembrando os meus amores!

E até me lembro
Daqueles
Que partiram para sempre...

--Mas, não me lembro de ti.

António Botto 

domingo, 13 de março de 2011

Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pêra, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como elas imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão -- é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
-- É com as vozes que o silêncio ganha.

Herberto Helder

sexta-feira, 11 de março de 2011

OLHANDO COM TRISTEZA A LUA

Nesta pura primavera
houve um pinheiro
para ensombrar dez mil anos.
A lua treme
nas ondas crespas.
O luar avança
pela janela.

Num vácuo de alma
sento-me e canto
e penso em ti
profundamente.
Não nos veremos.
O gozo é morto.
É indizível
a dor que está
no coração
do homem.

Li Po (ou Li Bai)

(Jorge de Sena)

NOCTURNO EM CONTRAPONTO

Luanda e a noite
arrojada ao mar,
a escorrer cores na baía
negra clara
de mil olhos bela
mil olhos sal e luz
mil peixes festões
acesos
em cardumes    em velas
saltos salgados     barrocas mil
de febre   de ouro

Tábuas e barro
de musseques amassados
milhões em suor
de ouro   mão negras
em carne   ó noites
de repouso   ó sonhos prateados!
Andante interior
de onças de sol   em braços levantados
E calor escorrendo   e calor bebendo
na baía
encantos de mil lados

António Bellini Jara