Tal como Gramsci e a sua mãe, o único Paraíso que concebo situa-se no coração dos meus.
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
A PALAVRA INESPERADA
do estômago sobe-me a palavra inesperada
entre a língua destravada e o palato força-me
a boca desabusada desesperada
rasteira-me a mão e cai
sobre o papel
estatelada
13-VI-2003 /
/ 10-XII-2005
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quarta-feira, 6 de julho de 2011
escreves escreves escreves escreves
nada do que dizes rompe a superfície do papel
escreves escreves escreves escreves
entre o panache a a autocomiseração
o artifício e a louvaminha
o lacrimejar e a traição
escreves escreves escreves escreves
e tudo quanto escreves escreves escreves
escreves tem o selo de validade para hoje
promoção de último modelo
gravata de saldo
embuste de tablóide
passatempo de televisão
quarta-feira, 22 de junho de 2011
quarta-feira, 15 de junho de 2011
quarta-feira, 8 de junho de 2011
UM SOBREVIVENTE DO TARRAFAL
Vejo-o velho
anarquista digno
e austero casaco
abotoado sem
gravata nem
dentes.
Quase pede licença para falar.
Chega-me um
hálito de morte
com a sua voz
sumida. Não me importa
tanto o que diz
nem como o diz.
A figura é tudo.
anarquista digno
e austero casaco
abotoado sem
gravata nem
dentes.
Quase pede licença para falar.
Chega-me um
hálito de morte
com a sua voz
sumida. Não me importa
tanto o que diz
nem como o diz.
A figura é tudo.
24-V-2003
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
Houve tempo em que julguei não ter tempo para ler.
E a minha máxima ambição foi então a de dispor de tempo para ler.
Uma página por dia.
Uma página de boa prosa.
Uma pauta de sinfonia aquiliniana, um fresco dum vasto painel de Paço
[d'Arcos (Joaquim).
[d'Arcos (Joaquim).
Ler, ler, ler -- era só o que eu queria.
Na paragem da Carris, podia ser.
Foi nessa altura que ganhei o hábito de fugir ao almoço.
Para ler, ler, ler.
Voltado para a parede, para não aturar chatos e ler a sós com o meu livro.
Depois, deixei de saber falar.
Cada encontro um contratempo, uma irritação, um aborrecimento.
Ler, ler, leer!
Mas pouco para dizer, e nada para escrever.
30-X-2006
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Fazer nome à custa dos grandes autores é uma forma de parasitismo. Mesmo pelas melhores intenções, por mais satisfatórios que sejam os resultados.
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terça-feira, 17 de maio de 2011
ADUBO
O talento dos autores que estudamos é uma espécie de adubo que nos faz medrar. A nossa pequena notoriedade ganha-se à sua custa.
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quarta-feira, 4 de maio de 2011
DEPOIS DE LER O APRENDIZ SECRETO, DE ANTÓNIO RAMOS ROSA
O construtor sabe que veio do nada e vai para o nada. Provém do magma imemorial das origens e sente que não existe outro futuro para além da poeira cósmica resultante da decrepitude inevitável do planeta. Não lhe basta o instinto vital da procriação. Frui cada corpo como matéria primeva e análoga a si. E luta, incessantemente luta o construtor por uma estética do bem que acolha a beleza e a fealdade imanentes, o sémen e os excrementos que fertilizarão a massa informe resultante da nova agregação do pó. Até à eclosão dum outro universo. Depositário das partículas de nada do construtor.
29-V-2003
quarta-feira, 27 de abril de 2011
MUNDO DE AVENTURAS
Uma pequena aldeia na planície arménia,
nevoeiro matinal no porto de Dieppe.
O silvar agudo nos cimos dos Cárpatos,
um castelo solitário num lago escocês.
Um junco chinês no mar do Japão,
um trilho de camelos na Rota da Seda.
Um catre vazio no mosteiro da Arrábida,
uma via romana na serra do Gerês.
Uma mesa de cozinha e odores de Outono,
um eucaliptal onde brinco com o Avô.
O último número da revista tão esperada,
despojos da infância que se me acabou.
Sintra, 21 de Março de 2001
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quarta-feira, 20 de abril de 2011
RATOS E HOMENS
But if the while I think on thee, dear friend / All losses are restor'd, and sorrows end.
Shakespeare
No Bosque Proibido, romance de Mircea Eliade, Stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do Metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de Shakespeare, que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os Sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos ceús. Nessa espécie de esgoto, a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.
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quinta-feira, 14 de abril de 2011
ADÁGIO
Um drama pessoal está sempre por detrás do mais aceitável que já escrevemos.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011
quarta-feira, 30 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
3 visões do terror
O terror não chora.
Camilo Castelo Branco
Africanos a bordo de um navio negreiro, chegados a porto deconhecido.
Índios num quotidiano de reserva, tentando juntar fragmentos estilhaçados duma ancestralidade perdida.
Espectros silenciosos de judeus nos campos de extermínio nazi, aguardando a entrada de tropas Aliadas.
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quarta-feira, 16 de março de 2011
franja
A franja esconde
-te os olhos grandes.
O vestido justo molda
-te as coxas exuberantes,
tão descaradas como
os teus grandes olhos
escondidos pela franja.
VI-2003
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quarta-feira, 9 de março de 2011
"AZNAR, BUSH E BLAIR"*
Quando eu era jovem, as massas industriaram-me na poesia
[popular.
SOARES LADRÃO / ROUBA O PÃO
alertavam-me as paredes
com a força das convicções
e dos erros ortográficos.
Por vezes os versos eram brancos
embora vermelhos
por vezes eram brancos.
Assim o muro da recta do Dafundo:
SOARES LADRÃO AMDA A ROUBAR O DINHEIRO DO POVO GATUNO
[VAI PARA A RUA JÁ!
podíamos ler nos idos de 70
e até algum 80.
Ainda hoje a poesia popular me persegue.
3-VII-2003
*palavra-de-ordem na manifestação contra a guerra no Iraque:
"aznar,bush & blair / esta guerra ninguém quer!"
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
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