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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PAZ (1)

Pedrinhas que o mar trouxe à areia branca,
Algas ao tanque verde a cor do rio,
Minha alma se desprende em luz, sombrio
O corpo sem entrada à porta franca.

Meus sonhos quem os fez nascer tranquilos,
Serenos? Não seria a hora incerta
Que o coração ouvisse a voz desperta
E deles não seria mais que ouvi-los.

Ó sugestão marítima perdida,
De algas e rios e o mais que à vida
Deve meu ser tornado em marinheiro,

Acorda em mim de novo a voz distante
De horizontes sem fim e a cada instante
Traz-me a paz tão roubada ao mundo inteiro.

Arnaldo França

terça-feira, 21 de junho de 2011

MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram!
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

sábado, 11 de junho de 2011

ENTARDECER

Adormeceste a olhar o mar
Enquanto o sol se acoitava nas varandas.
Suave, na cortina da tarde,
O piano de águas tocava vagarosamente
Música para um destino branco,
Longínquo, azul e cada vez mais branco.

João Manuel Bretes

sexta-feira, 27 de maio de 2011

NEM NAVIO

Nem navio nem sombra de nuvem no mar
para um adeus de largada...

             Esta saudade infinita
             é uma ilusão que se disfarça.

Grita
que a dor passa!

-- Saudade é voz ancorada...

Manuel Lopes

POSTAL DE CABO FRIO

o céu
o sol
o vento o mar o sal.

tirando o que é rendoso
pertence o mais a todos.

o de sempre:
o sal entra na pele dos turistas
e sai pelo suor dos homens da salina.

operários do sal e concretismo
sal / saliva
sal / salário
no sal do saldo pouco: sal de assalto.

vento sopra nos estanques:
água-mãe (é mãe, coitada)
volta ao mar envergonhada.

Mário de Oliveira

quarta-feira, 18 de maio de 2011

RUÍNA

Mar parado na tarde incerta.
No horizonte, uma vela que se perde
atrás da rocha com cara de gente.
Voz sem boca
canta morna monocordicamente
quando o Sol diz adeus no raio verde.

A tarde é morta
na praia deserta.
A voz rouca.
O céu é sangue ou brasa.

Mão decepada acena ao sol ausente
inútil adeus pela porta
que ficou aberta
num muro que já foi casa...

Manuel Lopes

terça-feira, 10 de maio de 2011

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu Amigo!
     E ai Deus, se verrá cedo!

Ondas do mar levado,
se vistes meu amado!
     E ai Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro!
     E ai Deus, se verrá cedo!


Se vistes meu amado,
por que ei gran cuidado!
     E ai Deus, se verrá cedo!


Martin Codax

terça-feira, 26 de abril de 2011

HORIZONTE

Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o longe, e o sul sidéreo
Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa de longínqua costa --
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe e abstracta linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte --
Os beijos merecidos da Verdade.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 11 de abril de 2011

NO CAIS

Há vibrações metálicas chispando
Nas sossegadas águas da baía.
Gaivotas brancas vão e vêm, bicando
Os peixes numa louca gritaria.

Escurece. Do largo vão chegando
As velas com a farta pescaria.
As bóias põem no mar um choro brando
De luzes a cantar em romaria.

E entretanto no cais as lidas crescem.
Arcos voltaicos súbito amanhecem,
A alumiar guindastes e traineiras...

E ouve-se então, mais forte, mais vibrante,
Os pretos a cantar, noite adiante,
Por entre a bulha e o pó das carvoeiras...

Rui de Noronha

quinta-feira, 7 de abril de 2011

          Brame, brame, brame
nas tuas frias pedras pardas, Mar!
Ah, soubera dizer-te a minha boca
tudo quanto me está a recordar!

Feliz do bom mocinho, lá na praia,
a correr, a brincar com sua irmã!
Feliz do pescador, no seu batel,
a cantar a alegria da manhã!

E os soberbos veleiros vão vogando
para bom porto, sob o vasto céu;
-- mas quem me dera a mim tornar a ouvir
o som de certa voz que emudeceu!

          Brame, brame, brame
     nas tuas cavas penedias, Mar!
Mas ai da graça terna da hora que passou,
     e nunca, nunca mais há-de voltar!

Tennyson

(Luís Cardim)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A GARRAFA

Que importa o caminho
da garrafa que atirei ao mar?
Que importa o gesto que a colheu?
Que importa a mão que a tocou
          -- se foi criança
          ou o ladrão
          ou filósofo
          quem libertou a sua mensagem
          e a leu para si ou para os outros?

Que se destrua contra os recifes
ou role no areal infindável
ou volte às minhas mãos
na mesma praia erma donde a lancei
ou jamais seja por olhos humanos
que importa?

               ...se só de atirá-las às ondas vagabundas
          libertei meu destino
          da sua prisão?...

Manuel Lopes

quinta-feira, 31 de março de 2011

O PESCADOR VELHO

Pescador vindo do largo
com teu calçado de algas
diz-me o que trazes no barco
donde levantas a face

a tua face marcada
pelo sal de horas choradas
dá-me o teu peixe pescado
bem lá no fundo do mar

-- nesta água não tem peixe --

pescador dá-me um só peixe
nem garoupa nem xaréu
só um peixinho de prata

-- nesta água não tem peixe
foi tudo procurar deus
prò lado do Zanzibar.

Glória de Sant'Anna

segunda-feira, 28 de março de 2011

EIS-ME NAVEGADOR...

Eis-me navegador. Um sonho abarco.
A Vida é Mar, a Vida é toda um Mar.
E quem tem alma e sabe o que é sonhar
-- há-de lançar às águas o seu barco.

Heróis -- Fernão, Colombo, Gama, Zarco!
Mistério, assombro, -- a vaga, a noite, o luar,
o espaço, o vento, a chuva, a nuvem, o ar...
-- Adonde a calma, o rumo, o porto, o marco? --

Mas uma força interna me estimula
para que eu vença a onda e o vendaval,
tanto mais quando o vento brame, ulula

e o Mar ameaça abrir o hiante seio...
Eu tenho a fé e o sonho de Cabral
em busca do Brasil do meu anseio!

Geraldo Bessa Victor

quinta-feira, 24 de março de 2011

NAUFRÁGIO

Ai a tristeza do vento
chorando...
Ai as nuvens indo à solta
em louca corrida
medrosas, fugindo à mão estendida...
Ai a solidão dos montes
despidos, à nossa volta
onde a vida aos poucos se consome
-- seios nus ensaguentados
onde as raízes
morrem de fome...

... E nos rostos ensombrados
rondam saudades: -- países
navegam velas: -- distâncias...
Gestos parados
caladas ânsias
gritos sem voz...

Dorme o Nosso Senhor Só
dentro de cada um de nós,
envolvido pelo pó
que o vento remexeu e levantou.

Ai este Atlântico triste
que nos deu a nostalgia
dum mundo que só existe
no sonho que ele provocou...

Manuel Lopes

sexta-feira, 18 de março de 2011

Ai quantas vezes,
ai quantas, quantas
no turvo mar,
o mar penteado
pelas rajadas
como a desordem
da cabeleira
de uma mulher,
eu suspirei,
morto em saudade,
pela doçura
de regressar.

Arquíloco

(Jorge de Sena)

quinta-feira, 10 de março de 2011

SONETO

Tocado de Má-Hora, ao lívido luar,
erro, sinistramente, porta em porta;
levo a alma nos braços, quase morta
e não sei onde a hei-de agasalhar...

Talvez que lá em baixo, junto ao mar,
Na ressaca das ondas e da espuma,
a possa descansar... E, uma a uma,
as passadas da Morte, dou, p´ra o mar!...

Mas as águas são torvas e spectrais,
Sinistras de insondável e maldito
-- no sentido pior do que está escrito! --

E novamente vou, de porta em porta,
em trôpegos passos desiguais,
levando no regaço a Alma-morta...

Augusto Ferreira Gomes

sexta-feira, 4 de março de 2011

MAR

És estrela e única vida.
Vida que sobe das esquinas ocultas
no mar sem águas, no mar
com águas sem sal que vêm a diluir-se
lá no fundo das distâncias mágicas!

Vida para quê?
Ó distância da vida pouco e pouco escoando-se.
Mistério do caminho cada vez mais certo?
E as auroras que eu via
e nelas me alava para as viagens futuras!

Mas não esta viagem em limite,
de passadas mutiladas.

Mar, tu és o que fica.

Osvaldo Alcântara

quarta-feira, 2 de março de 2011

DOS MORCEGOS

Em aparecendo os morcegos
tudo se volta do avesso,
com vento sudoeste as nuvens
cavalgam sem tom nem som.

Cinzento céu, fazes passar
uma ideia fantástica do mar.
Vento fustigante, sabes decorar
as memórias inexactas do tempo.

Vento violento, rente ao mar
no Março findo, cheio de viúvas
e candente de estrelas ao alvorecer.

Dos morcegos a cega sinfonia
corre pelos telhados, onde iria
um monge de costas tentar ver.

José Carlos González

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

STANZAS FOR MUSIC

Muita mulher tem beleza,
nenhuma a tua magia;
e a tua voz tal riqueza,
que nem a da melodia
por sobre as águas do mar:
quando, num encantamento,
sonhando adormece o vento
e a onda pára um momento
e desfalece, a brilhar...

E a lua no céu fiando
a sua teia, a sorrir;
e o mar brandamente arfando
qual criancinha a dormir:
assim, dentro da minha alma,
eu me inclino, ao encontrar-te,
me suspendo, a escutar-te,
me curvo, para adorar-te:
com funda emoção, mas calma.

George Gordon Byron

(Luís Cardim)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

SONETOS DE OLINDA - IV

Mar de palpitações onde navego
desde que a meu cismar se dera um dia
e seus fardos de azul e de poesia
pesam na voz que a meus silêncios nego

por tê-la dado a um pássaro e por cego
não ter visto que o pássaro morria
sem que antes lhe gravasse a melodia
nesta concha interior que em mim carrego

e enche-me o coração de igual tumulto
ao desse esbravejar de um deus sepulto
a erguer-se em ondas e a despedaçar-se

para mais belo erguer-se novamente
como alguém que pudesse a um sonho ardente
liberto se sentir no próprio cárcere.

Afonso Félix de Sousa