Há um sabor gostoso da manhã
nesta mancha de gente que procura
animar a cidade que a não vê.
A cidade que pensa que a cidade
é só daqueles que nunca acordam cedo
e alugando um polícia para cada medo
conseguem saturar esta cidade imensa
da sua vadiagem tola e vã.
Cochat Osório
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Passam crianças
pálidas,
cansadas,
com os livros na mão,
a pasta
ou nada.
Nem parecem crianças a passar.
Há na indiferença triste daqueles passos
a vaga acusação
de terem estado um doloroso verão
ou a fingir
ou a estudar.
(E algumas
não comeram sequer
ao abalar).
Cochat Osório
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Eu sei que a rota já virou;
a minha:
um último cansaço,
um último
impossível
esforço
do meu braço.
O corpo inteiriçado pra aguentar o leme.
A vela da ilusão tão retesada,
tão grávida de força,
que a nau é dominada.
O coração não teme.
Está tudo o que me resta,
a dor e a alegria,
a força e a esperança,
o tempo e a ansiedade,
está tudo acorrentado ao barco que protesta.
Eu só queria cantar a terra ensaguentada mas sagrada, corpo e alma carne e sangue do senhor; tão real, tão igual e tão perfeitamente como está neste céu de sacrifício e dor, como está neste céu de martírio e de cor, como está neste céu de delírio e de amor.
Queria cantar o povo, o deus crucificado em todos os momentos, em todos os tormentos, ressuscitado continuadamente no santo sacrifício de ter força e fé nos corações.