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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

NA CIDADE NASCI

Na cidade, quem olha para o céu?
É preciso que passe o avião...
Quem me dera o silêncio, a solidão,
Onde pudesse, alguma vez, ser eu!

Na cidade nasci; nela nasceu
A minha dispersiva inquietação;
E o meu tumultuoso coração
Tem o pulsar caótico do seu.

Ah! Quem me dera, em vez de gasolina,
O cheiro da terra húmida, a resina
A flores do campo, a leite, a maresia!

Em vez da fria luz que me alumia,
O luar, sobre o mar, em tremulina...
-- Divina mão compondo uma poesia.

Carlos Queirós

sábado, 11 de junho de 2011

EN BATEAU

Um violino geme
Em um barco singrando
No meu sonho tão brando
Como a curva do leme.

Prolonga-lhe a derrota,
De leve espuma um rastro;
E no topo do mastro
Leva uma gaivota...

Mas p'lo fio de espuma
Onde a noite se enreda,
Em um bicho de seda
No meu sonho se esfuma.

E eu acordo pensando
Em como se parece
Minha vida com esse
Leve barco singrando.

Carlos Queirós

terça-feira, 19 de abril de 2011

ADAGIO

Repouso a minha fronte
Dorida no teu peito:
E o meu bem-estar é feito
De não ter horizonte.

Nela sentindo, leve,
A tua mão passando,
Fico entressonhando
O derreter da neve...

Que translúcido vago
Meu suave esquecer
No teu último afago...
-- O meu anoitecer.

Nada hoje me peça
O teu querer-me : deixa
Que tão breve adormeça
Como a tarde se fecha.

Carlos Queirós

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

ADAGIO CANTABILE

O cego deu à manivela
Da velha e triste pianola
Que era a alegria da vila:
Mas já ninguém vem à janela...
-- Pois vindo davam-lhe esmola
E ocultos podem ouvi-la.

Carlos Queirós

terça-feira, 16 de novembro de 2010

DESAPARECIDO

Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
-- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar'ceu...»
Eu, o feliz desapar'cido!

Carlos Queirós

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

QUATRO POEMAS DO RETARDADOR (4)

A bilha de barro berra
Nesta paisagem parada,
Agudos gritos de guerra:
Que assombram na suave serra
A verdura repousada.

Cantando passa e não pensa,
Dolente, a moça que a leva;
-- Mas breve a sombra se adensa
E lhe dilui a presença
Torva, na tinta da treva.

Carlos Queirós

domingo, 31 de outubro de 2010

QUATRO POEMAS DO RETARDADOR (2)

Neva na hora parada
Em que penso que pensar
É uma espécie de luar
Numa paisagem lembrada;

Neva, lenta, retratada,
A minha tristeza disto,
-- Como o luar entrevisto
Duma janela fechada;

E neva, mais sonolenta
Nessa longínqua lembrança,
O luar de ser criança
A vê-la tombar, tão lenta...

Carlos Queirós

sábado, 30 de outubro de 2010

QUATRO POEMAS DO RETARDADOR (1)

Lento, no lago, naufraga
Um lírio, liricamente...
-- E lento se torna algente
O luar que o lago alaga.

Lento, ao luar liquescente,
As lentilhas se afastaram...
Mas logo, lento, voltaram
A juntar-se, novamente.

(E um leve ondular dolente
Foi o que fátuo ficou,
Do lírio que se afundou
Lento, lenta, lentamente...)

Carlos Queirós

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ERÓTICA

A noite descia,
Como um cortinado,
Sobre a erva fria
Do campo orvalhado.

E eu, (fauno em vertigem
A rondar em torno
Do teu corpo virgem,
Sonolento e morno),

Pensava no lasso
Tombar do desejo;
Em breve, o cansaço
Do último beijo...

E no modo como
Sentir menos fácil
O maduro pomo
Do teu corpo grácil.

Ou sem lhe tocar
-- De tanto o querer! --
Ficar a olhar,
Até o esquecer,

Ou como, por entre
Reflexos de lago,
Roçar-lhe no ventre
Luarento afago;

Perpassando os meus
No teus lábios húmidos,
Meu peito nos teus
Brancos
               seios
                         túmidos...

Carlos Queirós

sexta-feira, 23 de abril de 2010

CANTAM AO LONGE

Cantam ao longe. Anoitece.
Faz frio pensar na vida;
E a Natureza parece
Dizer, em voz comovida,
Que o Homem não a merece.

Carlos Queirós

sábado, 30 de janeiro de 2010

ALDEIA

Eu e a noite,
Chegámos ao mesmo tempo
Àquela povoação:
-- Uma aldeia que eu guardo na memória,
Como se guarda duma noiva morta
A doce recordação.

Fecho os olhos e vejo-a: -- as casas, o moinho,
O coreto e a fonte...
Quem os ergueu, sabia quem eu sou;
E, -- para me encantar como eu, outrora,
Arrumava no quarto os meus brinquedos,
Tal-qual os arrumou.

Criança? -- Já o não era,
Ao mesmo tempo em que isto foi;
Mas ainda conservo a sensação
(Quase triste, de tão enternecida,)
De ser a noite
Que me levava pela mão...

Carlos Queirós