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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A poesia é o "real absoluto" mas em constante mutação, e por isso sempre haverá poesia que sempre se cumprirá fora dos muros e das luzes da cidade. É este o lugar dos poetas, cá fora. Os que se aproximam dos outros poderes ou perderam a inocência ou nada aprenderam com a experiência: já não são poetas.

Casimiro de Brito

domingo, 24 de julho de 2011

Um homem caído no seu corpo
ainda vai cair um pouco mais
e morder vicioso o seu pó
como se o dom do pó lhe desse paz,
não a paz de homem, que já não é,
mas um resto de migalhas e sílabas
que têm de seu a pureza extrema
tão comum a homens como a bichos
e aos outros habitantes deste mundo
caídos num corpo mais disciplinado
por mais que seja leve ou obscuro
o que não sabemos estar do outro lado _____

Casimiro de Brito

sábado, 16 de julho de 2011

A loba é um bicho estranho, um vizinho
atarefado, que trabalha para um desígnio estranho
e obsessivo ___ como pensar noutra coisa, construir
outra cabana se o meu sono deixou de ser
um ovo, uma ilha? Perco-me neste arquipélago demente
e cheio de remoinhos _____ ainda ouço ao longe
o canto da cigarra, ainda não perdi
a lembrança de que sou um homem
embora mais antigo do que são os homens
que se julgam poderosos. Se vêm à minha mão
as aves do velho paraíso
alguma coisa escutarão no meu ombro
cansado ____ sou um homem antigo
e venho de muito longe, de matéria ondulantes
mais antigas ainda, vestígios num olhar
onde se reflectem montanhas
mais distantes ainda : ainda
que me detenha no meu jardim
contemplando as cerejeiras
a sombra do meu corpo antigo
caminha sem mim
de casa em casa,
de feira em feira.

Casimiro de Brito

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A palavra, a mãe que me espera
ao fim desta viagem de cegos
é uma árvore compassiva a que me encosto
quando estou cansado e não quero cair ainda.
Um bosque cheio de veredas
e não sei se foi esse o melhor caminho.
Aceitei-o. Precisava de uma companheira mais leve
do que o cheiro a tulipa negra da morte.
Navego num chão labirinto e vou com as águas
que todas as coisas são; adapto-me
ao vaso delas, à concha de palavras
que não colhi ainda. Foi bom termos tido
uma vida quase esquecida. Encostados a sílabas
como se fossem árvores de família.
As palavras não acrescentam nada,
mas como dizer o que não pode ser dito
em silêncio? Talvez possamos ajudar a desarrumar
a casa pobre que somos; talvez sejamos apenas
um espelho melancólico
onde se reflectem os nossos irmãos.

Para o António Ramos Rosa.

Casimiro de Brito

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Não se vence uma mulher sem a sua cumplicidade. São tantas as batalhas ganhas quantas as que foram perdidas.
Casimiro de Brito

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Estar vivo tem um preço. A morte. Um prémio, dizem outros.
Casimiro de Brito

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O estilo do vinho (também serve: o vinho do estilo) advém do seu
outono, da sua maturidade -- do corpo substantivo da idade.
Casimiro de Brito

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Asfixia. Esta espera, este temer que acabe o que não pode acabar.
Casimiro de Brito

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Não são muitos os que abrem, ou alargam, um caminho. A maioria
faz seu o de outros. Alguns, poucos, aguardam que o caminho
se instale no seu coração.
Casimiro de Brito