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sábado, 15 de janeiro de 2011

Deixem-me entrar no poema.
Lâmpada de segunda natureza para olhar
os mortos.
Os mortos bem amados
que a terra devorou e o outono expele
em chuvas ácidas.
Deixem-me entrar no poema.
Os meus pulmões já sabem respirar
a música de deus no ar
da peste.

Armando Silva Carvalho

domingo, 9 de janeiro de 2011

Houve tempo em que teve trem e boleeiro
e foi a Sevilha passear o corpo
coberta de mantilha.
Tudo se sabe nas aldeias:
quando um cão ladra ao amante furtivo
ou uma galinha aparece morta.
E tudo se consome.
A princípio, o papel escondido no colchão,
depois as arrecadas, os anéis floridos
e por fim as terras.
Começou por trocar os números
e depois as noites.
Jogava a vida aos dados com os dedos
num copo de aguardente.
Tinha um rosto de maga, passou a ser bruxa.
E as outras persignavam-se e batiam-lhe
com a porta.
Agora o seu trabalho era apanhar a bosta
que arrecadava em em sacas e cestos de vindima.
Um dia eu e mais outras crianças
ao chapinhar na água dum açude
descobrimo-la morta,
inchada e em descanso.
Mas o padre não quis fazer o seu enterro.

Armando Silva Carvalho

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O HOMEM DO SUL

Cheguei e perguntei
pelo grito do granito.

Rigor obstinado,
era o que ele dizia.
Ele, o homem do sul,
e persistia.

Deita uma palavra ao mar.
Exemplo: rio.
Abandona outra: vento, ao próprio vento.

Mas se o quiseres escutar
é melhor deixares
lá fora
o teu lamento.

Armando Silva Carvalho

terça-feira, 7 de setembro de 2010

PINHAIS, CHÃOS DE BIBLIOTECAS

1

Peço aos elementos que me tragam
os dias trágicos da infância,
o vento nos pinheiros, as insufladas nuvens
que deixavam no céu um gesto de loucura
que sabia bem apontar com o dedo mínimo.
Ergo a mão direita e abençoo o estilo baço
que a natureza traduz da voz de Deus.
Eu quero abençoar Deus e não me deixam.
Cada quadro rural é um mistério
quase litográfico.
Posso pensar nos animais de pasto
como outros trazem nos seus livros
uma versão romântica, fim de século.
Um cão de caça surge com a baba esbranquiçada
da moral submissa.
Deus teve os seus pastores no mês de junho
mas os furões chiavam no outono
e as matilhas humanas corriam no inverno
para vir ao meu encontro.
Pinhais e bibliotecas. Punhais de chuva
ou livros? Mentir até expulsar o corpo
das águas menstruais, gaseificadas.
Eu tive um tio que era espiritista
e lia Redol deitado no seu tabuleiro
de tuberculoso.
O mar do Baleal sabia-me a manteiga,
a pão e névoa.
Hoje, entre duas bicas, meu tio, reformado
dos plásticos, fala de política
e eu faço que sim com a cabeça.

Armando Silva Carvalho