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terça-feira, 5 de abril de 2011

VAI E VEM

I

É de todos sabido que
o 100 tanto desce como sobe
-- e fiquemo-nos
pelo estreito declive que vai
da praça das Flores ao Príncipe Real.

Vi hoje um filme sobre isso
-- português, embora não muito suave,
e avesso, como pôde, aos brandos
costumes da morte. Detive-me, pouco
depois, sob a frondosa árvore da noite.
À espera, claro, de não ver ninguém.

Manuel de Freitas

sábado, 26 de março de 2011

Pela manhã o gato estende-se
vagaroso neste impreciso lugar
em que luz e sombra
se entretecem. Nas pedras
rondantes do que sempre chamámos
a nossa casa, esse sonho
de irmos por detrás das janelas
encarcerados nas agrestes
paredes do amor.

Todas as manhãs, enquanto
a escola me espera, o
gato é tão certo como os passos
que dele se desviam. Um mero
olhar, a melancolia
de depois te dizer já sem o mesmo encanto
a sua negra quietude, o silêncio
em que se move.

Estamos todos, eu tu e o gato,
neste estranho sossego
de a morte ser um dia destes,
entre luz e sombra.

Manuel de Freitas

quarta-feira, 16 de março de 2011

PRÓLOGO

O tempo, esse pequeno escultor,
prolongou-te os gestos
até à exaustão, ao limite do escárnio,
ao inoportuno reclame daquele
que vai morrer e não morre
e fala demasiado sobre o silêncio do seu grito.

Paciência. Não poderia ter sido de outra
maneira. Há uma infância parada,
onde o cadáver de deus
nada quer dizer. Sim, tem chovido muito.
Mas que saberá destas mesmas horas
o gato negro que a tua mão já não encontra?

Deténs-te, usas palavras vãs, despedes-te.
Sabes que foi sempre assim.

Manuel de Freitas

terça-feira, 8 de março de 2011

URINOL

As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
-- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.

São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insectos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.

Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora -- contente e tão triste --
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.

Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar
no dia
em que formos
morrer.

Manuel de Freitas

sábado, 5 de março de 2011

GAME OVER

O corpo.
Uma duração precisa,
que se despede informalmente
nos beijos que já não dá.
Ó meu bom Jesus de Braga,
eu não saberia como ficar,
remendando os dias
com o apressado amor das coisas.

Tudo finalmente finda.
Na calamidade das mãos,
um cigarro que arde impróprio
sobre as manhãs exaustas.
E ninguém me quis,
pelo menos.

De que vos falarei,
com palavras póstumas
onde o rancor se apaga?
Era uma vez


aquele jogo triste que não sei jogar.

Manuel de Freitas

domingo, 13 de fevereiro de 2011

CALÇADA DOS MESTRES

Três velhas e eu,
na última taberna de Campolide.
Falavam de ir "levantar" os maridos,
o que deles resta.
Mas não estão "capazes":
dois anos debaixo da terra
nem sempre é o bastante.
"O meu João era mais forte do que
o teu" -- trabalho de vermes,
apenas. Também "por esta altura
morreu o Joaquim Sapateiro",
recordam. Como se já só
da morte vivessem
(o que não foge demasiado
à verdade geral:
alimentos em preparação -- ou cinzas).

Há quem tenha estado
dez anos debaixo da terra,
antes de poder ser "levantado"
-- e há quem nunca tenha estado vivo,
acrescenta o autor destes versos,
condensando a tarde numa garrafa vazia.

Estão a perceber agora
por que é que eu gosto tanto
de tabernas?
(Não respondam; o poema termina aqui,
porque a Dona Joana tem de ir ao oculista.)

Manuel de Freitas 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

JUNGHÄNEL, 2000

Diferença nenhuma: «Christ lag
in Todes Banden». Ou
tão-só a certeza de não haver,
a esperar-nos, um pai abandonável,

mera carícia de pó
folheando o evangelho.

Manuel de Freitas

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

CASA DE BONECAS

Viam-se do quarto n.º 405
e pareciam,
à primeira vista, gente.
Mas não; eram apenas bonecas
a tomar diariamente chá
numa mesa colorida pelo desespero.

A única pessoa, já velha, era
a que veio pôr a secar
umas largas cuecas brancas,
em perfeito contraste
com o tule rosado das bonecas.

Manuel de Freitas

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

COIN, 1994

Gostava de poder dizer não
ao ruído do mundo.
Mas já recolhem o lixo, choveu demasiado,
e eu aperto sem convicção
o cinto verde que me cala o estômago.

Estaríamos, até, a falar da morte
-- não fosse este o vigésimo
domingo a seguir à Trindade.
Tronos e dominações mo dizem,
numa rua de Lisboa que
fica, às vezes, tão perto de Leipzig.

Não abdicarei, é claro,
«dos escuros abismos do pecado»
-- que em alemão se dizem doutra maneira.

Pecado, maior, é tentar traduzir a música.

Manuel de Freitas

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NO SMOKING

Hoje não avançámos muito no silêncio
-- o café lento, um sorriso esquartejado
de pé no balcão de zinco.
Pouco mais, terá de convir.
Um gesto de quem não pode
e espera o desastre, qualquer salvação
dessas, para que seja menos visível
a repressão de um cigarro
ou o açoite do tempo no rosto.
Só não quero falar de literatura,
por amor de um deus qualquer.

Foi disso que falámos, não sei se por pânico
apenas. É tudo tão indesculpável: o corpo
encostado assim à demora de um café,
as palavras que quase foram, quase
puderam -- modo de carícia inútil
que deixei ali para que entendesse ou não
a medida exacta de uma treva minha.

Voltei a vê-la, depois, roubada
por um sonho idiota -- coisa
inenarrável em volta de livros
e de igrejas barrocas com elevador central.

Mas também aí não avançámos muito.
E o silêncio existe, pelo menos este.

Manuel de Freitas