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quinta-feira, 23 de junho de 2011

O gelo dos neveiros

É domingo de manhã. Acordo cedo. São ainda 8 horas mas tenho muito que fazer e decido levantar-me. Enquanto ainda estou estremunhada aproveito para ir acordando lentamente e abro a televisão. A minha atenção recai numa reportagem sobre os vulcões do Equador. Fico a ver o périplo do jornalista pelos vários vulcões e a vida das pessoas que vivem nas faldas destas montanhas.
Humbolt com o Chimborazo ao fundo
De repente surge um camponês que vive num aldeia perto do vulcão Chimborazo. Enquanto a maior parte dos camponeses se dedica à agricultura, este homem descende de uma família que desde há muito se dedica à recolha e venda de gelo das encostas do vulcão.

 É Baltazar Hushca, tem 64 anos e desde os 15 anos que se dedica a esta actividade. Percebo depois, enquanto procuro alguma informação na internet que este é o último neveiro. O resistente de uma profissão em desaparecimento, tornada inútil pela industrialização. Mas no mercado de Riobamba aonde vai vender o seu gelo para ser usado em batidos de fruta, as pessoas não pensam assim.
Este gelo é um fóssil com milhares de anos conservado debaixo da lava do vulcão e portanto de grande pureza. Após horas de caminhada pela montanha, o neveiro, acompanhado pelos seus dois burros, descobre o gelo sob a camada de lava seca, corta grandes pedaços que depois apara com uma picareta, limpa a terra da mesma forma, e dá-lhes um forma rectangular, que facilita o transporte e a venda. Antes preveniu-se cortando arbustos secos, a palha, com que fez à mão as cortas e com que vai envolver os cubos de gelo.
De regresso a casa, no vale, mete numa cova os blocos, tapa-os e no dia seguinte parte para o mercado de Riobamba, onde no meio do colorido dos produtos, recebe o fruto do seu trabalho e tem o prazer de beber um xarope de sumo de fruta (“raspagem”), refrescado pelo seu gelo.
Fiquei fascinada. Ainda hoje se faz o que se fazia há vários séculos atrás. Corri a buscar a máquina fotográfica para fotografar o processo mas o programa já ia adiantado. Sabia que em Portugal desde o século XVII, sobretudo por efeito das exigências da corte dos Filipes em Portugal tinha havido um comércio importante de gelo.
Escrevi sobre isso na “Mesa Real”. Sabia que o gelo era cortado nas neveiras da Serra da Estrela, embrulhado em palha e transportado em burros até chegar aos barcos que desciam o rio Tejo e o traziam até Lisboa. Mas ali estava a prática, a forma como se fazia há vários séculos atrás e que se manteve até hoje inalterada. Um fascínio neste mundo tecnológico.

PS:
Já depois de ver o programa descobri que Batazar Huscha se transformou numa figura nacional, objecto de várias reportagens e de videos no youtube, de que aqui fica um para melhor compreeensão.