Mostrar mensagens com a etiqueta Obituário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Obituário. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

FICÁMOS SEM RADAR, ANTÓNIO

Obrigado, Mestre. E manda um abraço ao Peel que também temos saudades dele.
António Sérgio (1950-2009), divulgador (Rádio Renascença, Rádio Comercial, XFM, Radar...)

sábado, 4 de julho de 2009

MICHAEL JACKSON (1958-2009): O GRANDE E.T. MUSICAL


À uma da manhã ligo a rádio para ouvir as notícias. Ou melhor, para ouvir a notícia, porque as outras já não consegui dar atenção. A frase “Michael Jackson morreu” teve em mim um impacto fictício, mas ao mesmo tempo já a esperava. Claro que não naquele dia, não daquela forma. Mas havia no ar um prenúncio de desgraça. O homem não estava bem.

Michael Jackson sempre teve um défice de normalidade. Na primeira metade da sua vida (até 1983), pelas melhores razões. Na segunda metade, pelas piores.

O astro de Gary era um sobredotado da música com um poleiro humanamente inatingível para um indivíduo de 24 anos e meio. Com aquela idade tinha já atrás de si um percurso público de quase década e meia. E o que tinha feito e que estava prestes a fazer não era pouco. Foi o menino-prodígio dos Jackson 5, que acumulavam êxitos e recordes de vendas inimagináveis. Iniciou, paralela e precocemente, uma carreira a solo ainda na fase etária do armário e ganhou dentro da Motown uma autonomia autoral face ao produtor que Marvin Gaye e Stevie Wonder só obtiveram em idade bem mais madura. Ainda menor, Michael Jackson tornou-se na primeira estrela da Motown a não caber naquela fábrica de êxitos (e não estamos a falar de uma editora qualquer).

Mas faltava muito mais, em pouco tempo. Michael Jackson era uma espécie de nadador de estilos, campeão em várias categorias, navegando à vontade nos mais diversos géneros: da soul ao funk, da pop ao disco-sound. Quando transformou esses géneros num híbrido empolgante e avançado que fez de Thriller uma obra visionária em 1982-83 (e que o antecessor Off the Wall fazia adivinhar), Michael Jackson merecia passar de príncipe a rei, subindo ao trono da pop onde estava a sua coroa. Para isso, fundou ainda um concepção de espectáculo ao vivo bastante mais exigente que colocava ao mesmo nível a imagem, a dança, a música e luzes, e revolucionou o conceito de promoção de um disco através dos videoclips e da MTV (numa relação profícua que alimentou mutuamente a estrela e a estação televisiva em afirmação). Como se não bastasse, Thriller, empurrado pela edição em número-record de sete singles (e, claro, de sete videoclips), tornou-se no álbum mais vendido de sempre – Thriller vendeu até hoje 109 milhões de cópias, mais do dobro do número de vendas do segundo álbum mais vendido, Back in Black dos AC/DC (a sua cifra está em 45 milhões). Aos vintes e poucos anos, o que Michael Jackson já tinha atingido era de um escala pouco terrena.

Lamenta-se, por isso, o que se seguiu: sobras que, de álbum para álbum, se afastaram cada vez mais da qualidade da obra-prima Thriller. Michael Jackson foi-se tornando numa sombra pálida de si mesmo, numa caricatura troçável bloqueada nos seus tiques, à medida que foi perdendo contacto com a realidade através de uma vida estranha e extravagante que poucos conseguiam compreender. O declínio nunca parou; o planeta que o aclamava, Michael Jackson conhecia-o cada vez menos. A magia foi murchando.

Fui uma das muitas crianças que chorou de medo quando viu pela primeira vez o vídeo da canção Thriller, realizado por John Landis. Era um misto de fascínio e de temor. Mas o fascínio foi vencendo – descobria naquele produto uma bizarria sobrenatural que era atraente; quando abria a edição vinil, havia ali um brilho espacial. Mas a idolatria infantil foi substituída mais tarde pela chacota adolescente e pelo desprezo adulto.

Porém, nunca nos esqueçamos que foi o talento quase sobre-humano que o colocou num local privilegiado do passeio da fama de Hollywood. Michael Jackson era de outro mundo. Agora, ficámos a saber que de lá já não sai de vez. Descobriu a paz, ao menos? Desconfia-se que sim.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

OBRIGADO, BÉNARD

A Cinemateca foi durante anos uma espécie de segunda casa para mim. Além dos ciclos que seguia apaixonadamente, era um sítio onde revia velhos amigos, onde fazia outros e onde, volta e meia, via aquela figura bonacheirona e sábia que dava pelo nome de Bénard da Costa, o guardião cultural da casa - que ia aparecendo.
Aquelas simpáticas Folhas da Cinemateca, que se liam após cada sessão, denunciavam assinatura por Bénard sempre que as mesmas tinham quatro páginas em vez das habituais duas. E não se conseguiam deitar fora de tão bem escritas – que. claro, nunca se conseguiam resumir ao cinema, havia ali uma graça luminosa com muito mais fontes (literatura, pintura, música clássica, religião, política). Tenho ali um dossier grosso que as guarda quase todas.
Numa deliciosa entrevista dada a Clara Ferreira Alves (como eram todas as que dava), Bénard da Costa confessava não poder acreditar na mortalidade da alma, não admitia que a riqueza humana de um indivíduo pudesse desaparecer só porque o seu corpo morria. Eu também não acredito. Esse reservatório não-táctil de impressões, intuições, gostos e conhecimentos que distinguia Bénard tem que ir para algum lado. Não vai assim com uma aragem.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

LUX INTERIOR (1946-2009)


Como vocalista dos históricos Cramps, foi porta-voz do pesadelo americano... Um submundo aterrorizante que Elvis nunca sonharia inspirar.
Como outros, vibrei com o bichinho desse demónio.
Na memória, tenho ainda o concerto, tão estranho quanto fascinante, dos Cramps na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa, em 1998 – o primeiro concerto de sempre em Portugal. Tudo foi bizarro: o anúncio público dado pelo organizador de convidar os SuperDragões a virem ao recinto (após uma derrota do FC Porto na Luz por 3-0); ou a mistura na multidão que nunca vira entre gays com fatos de marinheiro e skinheads. Mas nada bateu aquela hora e meia de rock & roll infernal teatralizado pelos Cramps e que termina com Lux a perfurar o palco, nu, e a sair no improvisado buraco.
Mesmo admitindo que os anos mais criativos dos Cramps possam ter sido os primeiros da década de 80 (de onde saiu o maravilhoso álbum Psychedelic Jungle, de 1981), o meu tema preferido é a faixa de abertura do álbum Big Beat from Badsville (de 1997), que abriu o concerto no Campo Pequeno: "Cramp Stomp".

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

JOÃO AGUARDELA

O frenesim da semana não me tinha dado sequer breves segundos para escrever sobre o choque que constituiu para mim a morte tão prematura deste músico (1969-2009). Agora que os tenho, vou aproveitar para recordar alguns aspectos que me marcaram enquanto mero ouvinte que nunca chegou a conhecê-lo pessoalmente.

Recordo uma actuação musical desenfreada dos Sitiados num programa televisivo (já não sei qual) para interpretar o tema da moda, “Vida de Marinheiro”, com uma genuinidade que comoveu todos os presentes (além de mim, comum telespectador).

Guardo como a maior surpresa que dele tive o seu projecto Megafone, pelo seu à-vontade em investir a electrónica adentro da música tradicional portuguesa com resultados tão inovadores e abertos.

E de uma forma geral, Aguardela deixa-me a impressão de ser alguém que amava profundamente a música portuguesa – em todas as fases (Sitiados, Megafone, Linha da Frente ou A Naifa) provou isso.

Obrigado, João.

[Sitiados – “Vamos ao Circo”]