Mostrar mensagens com a etiqueta DVDteca. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta DVDteca. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 7 de maio de 2009

DVDTECA: ARCADE FIRE, «MIROIR NOIR»

Quando um DVD de música é bom demais, a sua autoria não se pode restringir aos artistas/sujeitos do objecto. E quando assim é, o mentor por trás das câmaras merece a divisão dos louros na lombada do produto. É o caso do fascinante documentário de 70 minutos "Miroir Noir". O DVD é sobre os Arcade Fire mas não é só dos Arcade Fire. É também do seu realizador, Vincent Morisset.

Se há banda visualmente interessante que merecia ter DVDgrafia, já se sabia, ela chamava-se Arcade Fire. A forma individual como cada um dos sete membros da banda se expressa em palco, contribuindo para a ribalta não se limitar ao protagonismo do líder (no caso, Win Butler), é matéria fascinante para qualquer realizador. O curioso e o invulgar desta banda é ver que cada um desses contributos, ao seu estilo, se dirige para uma coesão militarizada que recruta, muito voluntariamente, cada membro do seu público para o acto épico da banda. Não são só os sete ou oito músicos em palco a cantar em uníssono; os coros dos Arcade Fire estão numerados segundo a lotação do recinto onde tocam.

Mesmo se se usasse um método quadrado de se filmar apenas o que se passa em palco, os resultados finais nunca poderiam sê-lo porque a banda é só por si um caso de estudo e de catarse. Porém, e como seria de esperar, Vincent Morisset e os Arcade Fire quiseram elevar a fasquia e procuraram um ângulo completamente diferente para Miroir Noir, bem mais exigente.

O documentário é um medley de mais de uma hora, de recortes, que circula à volta da música dos Arcade Fire, em especial de todo o álbum "Neon Bible". O DVD é um carrossel em rotação contínua que apanha bocados soltos das 11 músicas do segundo álbum da banda de Montreal nas mais variadas situações: a gravação da vocalização de Win Butler no exterior da igreja que os Arcade Fire compraram ('Keep the Car Running'); 'Ocean of Noise' cantado por Win Butler e a sua mulher Régine Chassagne numa suíte do hotel com panorâmica para uma cidade estrelada por milhares de luzes; 'Neon Bible' tocado num elevador por todos os apertadinhos músicos do grupo, com Richard Reed Parry a fazer percussão com o rasganço de uma revista; ou o final arrebatador de 'No Cars Go' num coliseu qualquer onde apetecia estar. A multiplicação de cenas insólitas, que estimulam os sentidos todos e um mano-a-mano entre imagens e sons, faz de "Miroir Noir" a mais bela ode a um álbum que um filme já fez.

Mas despreocupem-se os fãs mais acérrimos do álbum de estreia "Funeral", o idílio de "Miroir Noir" também passa vista a alguma da colheita dessa obra-prima do indie-rock (como 'Haiti', 'Power Out' ou 'Rebellion (Lies)', e não só ('Cold Wind', composto para a série de TV "Sete Palmos de Terra", sonoriza uma das travessias de asfalto do filme).

Há momentos em que desejamos não ouvir um som tão abafado naquela cena; em que rogamos pragas contra aquele corte abrupto da nossa parte preferida daquela música; ou que lamentamos não ver melhor determinado performer numa certa interpretação ao vivo. São pequenas contrariedades de uma opção visual mais oblíqua que nos dá o essencial com muito mais clareza: as vibrações enérgicas da banda e a força nuclear do harmonioso casal Win Butler & Régine Chassagne em todas as decisões dos Arcade Fire.

"Miroir Noir" é um deslumbramento sonoro e visual que dá a Vincent Morisset aval de cineasta. E que eterniza uma fase recente de hiper-criatividade da banda, que se testa a si mesma com interpretações nos mais variados contextos (da rua ao elevador, da arena de uma sala à capela). Grandioso.

Artigo publicado no site Cotonete.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

EXCITAÇÃO HISTÓRICA

U2 – Under a Red Blood Sky (CD)
U2 – Live at Red Rocks (DVD)
Pode não haver no rock a banda perfeita, mas existe o momento pop de perfeição - nem que seja por 15 warholianos minutos. Após cinco anos de muitos concertos, bom trabalho e três álbuns promissores, os U2 tocaram no ponto perfeito durante aquelas duas horas mágicas do concerto em Red Rocks, no estado norte-americano do Colorado, em 1983.

25 anos depois, os fãs dos U2 e os simpatizantes do pós-punk podem voltar a pasmar-se. O álbum ao vivo "Under a Red Blood Sky" (gravado no mesmo período promocional ao álbum "War") é reeditado (e remasterizado) e "Live at Red Rocks" ganha finalmente uma edição em DVD.
Para sorte de todos, e por mérito dos U2 (que acreditaram e investiram do próprio bolso) e de uma equipa de filmagens competentíssima ligada ao programa musical The Tube, a mítica actuação foi filmada e salva para a posteridade numa edição em vídeo, registada para sempre como "Live at Red Rocks", que já cheirava a bafio.

"Under a Red Blood Sky", mesmo que de duração curta (cerca de meia-hora), é o álbum ao vivo mais electrizante dos anos 80, que agora conhece um reforço na apresentação visual, com um booklet bem mais generoso que o inlay grosseiro e magro, feito de imagens toscas, da edição antiga. O disco é beneficiado por dois truques. Ilude no conceito, alimentando a ideia falsa de ser um registo todo ele gravado em Red Rocks, quando só duas das oito faixas o foram na verdade. E ilude na despedida da faixa final, '40': o cântico em uníssono da melodia parece uma iniciativa popular para quem não tivesse visto em "Live at Red Rocks" o dote de líder de massas que já era Bono ao incitar - longe do alcance dos microfones - o público a cantar por si mesmo a canção que finaliza o álbum "War".
Em "Under a Red Blood Sky", pode perceber-se o que os U2 realmente significavam na altura. 'I Will Follow' é um chamariz para uma invasão de palco; o militarizado 'Sunday Bloody Sunday' representa o momento de calor-mor daquela época interventiva; e 'New Year's Day' é a canção cliché do amontoado de canções invernosas mais efusivas que a história do rock já conheceu - e que é da autoria dos U2.

Num período da música de vanguarda em que o cinzentismo de bandas como os Cure ou os Echo & the Bunnymen imperava, os U2 souberam preencher muito bem a lacuna de uma música rebelde bem mais colorida. O disco ao vivo mostra que, naquela altura, não havia banda igual e eles.
Ao contrário de "Under a Red Blood Sky", a revisão de "Live at Red Rocks" conhece um acrescento substancial no alinhamento, com mais 5 músicas que as 12 que compunham a cópia em videotape. A soma substancial de tempo dá uma visão mais ampla e próxima do que aconteceu naquele memorável concerto. Fica-se a conhecer um tema de arranque diferente - 'Out of Control' em vez de 'Surrender' - ou o momento punk de Bono em tronco nu que permanecia desconhecido. E a antevisão da prestação debaixo de uma chuva a cântaros passa a ter a contribuição de uma entrevista informal aos U2, que em vez de uma contemplação deprimida descobrem logo naquele temporal uma similitude com a sua Irlanda natal - a varinha mágica do optimismo de Bono & co incluía também dotes retóricos.

"Live at Red Rocks" é o retrato de um tempo que já não existe, em que o palco e a arena se ligavam sem fosso, quando os U2 não eram apenas quatro, mas sim quatro mais o seu número de espectadores. Em Red Rocks, os U2 eram seis mil e quatro. O fã era imediatamente tomado por aquela garra impiedosa da banda irlandesa, virando também cantor, esbracejador, saltador. E membro dos U2.
Bono era um boneco de pano irrequieto daqueles que no mundo do rock & roll nos dá uma fé inabalável de que nada lhe há de acontecer: pode atirar-se para o meio da multidão (como em Red Rocks), pode subir uma altíssima torre (como fez em Vilar de Mouros, em 1982), a tudo resiste porque deve ser de pano. Puto reguila, envergava uma camisa escura sem mangas que expunha os seus braços musculados de guerreiro. Divertido e companheirista, tinha sempre uma palavra de apreço ao músico de lado (fosse Adam Clayton ou The Edge) que todos tinham que ouvir. Sempre simpático, Bono era um cavalheiro que fazia sentir como uma princesa de um conto de fadas aquela moça loira chamada a palco para uma dança a dois durante o momento instrumental de '11 O' Clock Tick Tock', apoiado por uma das mais belas pinturas de The Edge na guitarra eléctrica. Campeão das artes performativas, Bono era também uma autêntica enciclopédia musical ao vivo que pigmentava esta e aquela música com esboços de clássicos alheios.

A banda fazia a ligação ao gerador eléctrico de Bono. Larry Mullen era o miúdo baterista que qualquer banda pós-punk invejaria ter; o baixista Adam Clayton tinha uma disposição punk de menor discrição; e The Edge, arranhador de guitarras, já possuía mais de 50% da quota sonora dos U2 com a sua fábrica de acordes. Claro que "Live at Red Rocks" não é só um deleite sonoro. É uma orgia de imagens-mito: aquele anfiteatro idílico cavado entre rochas impressionantes e iluminado por tochas gigantes que parecem chamas olímpicas; a sombra do corpo de Bono a segurar uma bandeira em contra-luz; ou a sua respiração visual que, qual milagre da neblina, transformava os seus bafos em ilusões de efémeras nuvens. Tudo aquilo é de uma beleza irlandesa que a música ambiental-folk dos Clannad, 'Harry's Game', sonoriza no início e fim de "Live at Red Rocks" como o remate perfeito à perfeição.

Texto editado a partir de artigos publicados no site Cotonete.