Quinto aniversário da infâmia. Tal como qualquer americano se lembra de como soube do assassínio de JFK, tal como qualquer português se lembra de como soube, onde estava e com quem quando soube da morte de Sá Carneiro, todos nós nos lembramos – apostaria – de como soubemos do horror que foi o 11 de Setembro.Como soubemos? Gostaria que o reduzidíssimo número de pessoas que sabem desta página tonta, que neste dia não PODE ser dedicada ao riso, me contassem. Isto não pode ser esquecido.
Para mim era o primeiro dia de férias. Tinha chegado na véspera ao lusco-fusco – duas horas menos cinco da ponte Vasco da Gama à recepção da Quinta da Balaia, nada mal para um Fiat Punto. Na manhã de terça-feira ainda não eram oito horas e já eu estava no jardim a tomar um pequeno-almoço à séria. É favor não rir, a minha bagagem para o meu retiro anual na Balaia (este ano não vou) é meio bizarra. Levo coisas estapafúrdias como o espremedor de citrinos, duas ou três boas facas, duas ou três frigideiras (aquela cozinha não está equipada a meu contento) ou a balança da casa de banho. Além dos livros que viajam sempre comigo em férias. Eça (Os Maias), Fernando Pessoa (Álvaro de Campos e Alberto Caeiro), Oscar Wilde, Proust (pelo menos dois volumes daquele livro da minha eterna obsessão que releio religiosamente todos os anos), o Au Plaisir de Dieu, a Imitação de Cristo.
Mas voltemos àquele dia. Pequeno-almoço à séria, como disse. Chá, sumo de laranja, ovos com bacon. Às nove horas, depois do café da praxe na Martinique, já estava na praia Maria Luísa, sossegadíssima passada a insuportável época alta. Com um livro, pois claro. À uma hora, com o calor a apertar e o Sol mais agressivo, rumei a casa para almoçar. Breve passagem no supermercado para me abastecer de coisas que estavam a apetecer-me.
Compras arrumadas, salada a postos à espera de ser temperada, ofereci-me uma vodca tónica.
Instalei-me no jardim a saborear a dita, seriam umas duas e pouco quando o telemóvel tocou. Era uma amiga, a perguntar onde estava eu e se tinha televisão. Claro que sim, corri a ligá-la – passava pouco das duas da tarde, nove e pouco em NY. Eu estava de viagem marcada para lá no mês seguinte... Incrédula e horrorizada como toda a gente, já não saí de casa nem voltei a lembrar-me de que era o meu primeiro dia de férias. Telefonei a algumas pessoas. Ao Victor, que ia viajar comigo e ainda estava a dormir depois de uma noite passada a trabalhar. Ao João, namorado à época. À minha irmã. Todos eles souberam por mim. Estava novamente ao telefone com a Ana quando assisti em directo ao desmoronar da primeira torre e larguei um grito apavorado “Mana, a torre caiu!” – ela comentou tristemente que “já só vais ver uma...” E chorei. Chorei outra vez quando caiu a segunda torre. Chorei quase ininterruptamente ao longo daquela tarde de horror absoluto.
Todos conhecemos o que se seguiu. E lembro-me de nessa noite de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, data tão a registar no calendário da infâmia como as de 13 de Outubro de 1307, quando foi dada ordem de prisão aos cavaleiros do Templo (rezei em Paris junto ao local onde foi queimado o Grão-Mestre da Ordem, Jacques de Molay) ou a de 9 para 10 de Novembro de 1938, a Kristallnacht – ter comentado com o Victor que o pior ainda estava para vir: os dias seguintes,quando começassem a emergir as tragédias humanas pessoais, individualizadas, com um rosto e um nome. Ele disse que não tinha ainda pensado nisso, mas que pressentia que eu tinha razão.
Tinha, infelizmente.
Apetece-me agora lembrar os versos belíssimos de um certo génio chamado Paul Simon numa certa música muito da minha obsessão. American Tune. Que eu oiço sempre mentalmente na versão incomparável do concerto no Central Park, a voz de Art Garfunkel a transportá-la para outra dimensão.
(…)
And I don’t know a soul who’s not been battered
I don’t have a friend who feels at ease
I don’t know a dream that’s not been shattered
Or driven to it’s knees
Oh, but it’s alright, it’s alright
For we lived so well so long
Still, when I think of the
Road we’re travelling on
I wonder what’s gone wrong
I can’t help it, I wonder what’s gone wrong
And I dreamed I was dying
I dreamed that my soul rose unexpectedly
And looking back down at me
Smiled reassuringly
And I dreamed I was flying
And high up above my eyes could clearly see
The Statue of Liberty
Sailing away to sea
And I dreamed I was flying
For we come on the ship they call the Mayflower
We come on the ship that sailed the moon
We come in the age’s most uncertain hours
And sing an American tune
Oh, and it’s alright, it’s alright, it’s alright
You can’t be forever blessed
Still, tomorrow’s going to be another working day
And I’m trying to get some rest
That’s all I’m trying… to get some rest