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sexta-feira, 14 de março de 2008

24, ou o repouso da guerreira

Ando a fazer uma vida demasiado estúpida. Demasiado trabalho, vida social quase inexistente. Por vida social, é claro, entenda-se estar com as pessoas de quem gosto.

Esta semana jantei com o Vítor. Em casa dele, que a Augusta cozinha maravilhosamente e deixa-lhe o frigorífico a abarrotar de coisas apetitosíssimas. As lulas recheadas estavam primorosas. O vinho também, despachámos duas garrafas. Tínhamos muito a discutir, muitas agulhas a acertar (as viagens!), saí de lá passava das três. Não me queixo, saímos sempre revigorados das nossas conversas. O pior foi que no dia seguinte - grande pontaria! - eu queria estar no Colosso, o mais tardar, às nove menos um quarto. E estive. Só não me perguntem o que me custou ter de sair da cama, onde teria continuado de bom grado pelo menos mais três ou quatro horas (custou-me horrores).

Agora vou enfiar-me na cama com esta coisa viciante chamada 24. Talvez consiga ver os dois primeiros episódios, não acredito que consiga ver mais, tão cansada estou.

Kiefer Sutherland herdou os genes certos: tem uma voz linda. Ainda assim... e desculpará, menino Kiefer, o senhor seu pai tem uma voz MÁGICA!

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

São precisos ritos...

... como muito bem ensinava a Raposa ao Principezinho.

Eu e o Victor temos os nossos. Muitos. E não temos qualquer problema em confessar o genuíno prazer que é para nós um bom jantar num bom restaurante.

Na segunda-feira hesitámos entre o Aya (somos doidos por sushi e sashismi, mais até o segundo) e o Terraço. Ganhou o Terraço, por uma razão muito simples: quantas mais noites poderemos ainda jantar ao ar livre, neste Verão que parece eternizar-se* mas está irremediavelmente a chegar ao fim?

O jantar foi fantástico. Ainda antes das entradas (sopa de legumes para ele, folhado de queijo cabra para mim), trouxeram-nos um amuse-bouche, cortesia do chefe, que era uma coisa absolutamente divinal, uma minúscula porção de uma espécie de salada que já anotei mentalmente para pedir da próxima vez que lá for. Dividimos o prato, como fazemos muitas vezes, principalmente no estrangeiro, fiéis ao nosso desígnio de experimentarmos o máximo possível quando estamos num grande restaurante ao qual não sabemos quando poderemos voltar**. Primeiro vieram os crêpes de lagosta com arroz branco e molho de tomate, depois o cherne grelhado com legumes e béarnaise. Perfeição absoluta. Um vinho igualmente perfeito, Monte da Penha. Como de costume, eternizámo-nos à mesa, tantas as coisas que temos sempre a dizer, a contar, a comentar. O Victor, que tem uma necessidade-quase-dependência de açúcar, quis sobremesa, pediu uma fatia de abacaxi, e depois uma segunda, eu fiquei-me por um café e um Famous Grouse (em balão , com muito gelo, as pedras sempre em número ímpar).

Finalmente, porque estava a ficar tarde, pedimos a conta. O Victor tem o bom hábito de a verificar sempre, coisa que, confesso, eu nunca me lembro de fazer. Caro? Claro que era caro, trata-se de um hotel de cinco estrelas; qualidade da cozinha, cenário magnífico e a simpatia do serviço (tão gentil, sem ser sabujo, que nos faz desculpar algumas falhas) justificam o preço elevado. Mas foi impossível não ficarmos escandalizados com o preço das duas fatias de abacaxi: 18 euros (nove cada). Um autêntico assalto à mão armada, nem vou fazer contas para determinar a percentagem de lucro que representa.

Há pouco, só por curiosidade, fui ver o preço do dito fruto em dois supermercados muito diferentes, Continente e Corte Inglés. Pois num o preço do abacaxi é de 75 cêntimos por quilo, no outro de 2,99 euros. Quer isto dizer que, a preços de Continente, pagámos 24 quilos de abacaxi e, a preços de Corte Inglés, coisa de seis.

Paciência, mesmo assim deixámos uma generosa gorjeta, os preços não são feitos pelos empregados... E adorámos o jantar, havemos de voltar ao Terraço muitas vezes. Só não voltaremos a pedir abacaxi, que não vamos ao ponto de achar graça a ser explorados.


* Este post começou a ser escrito quando cheguei a casa, vinda do jantar, não o acabei porque entretanto me pus à conversa com a Cangalheira Emigra no msn. Hoje choveu...

** O que já deu origem a uma situação divertida em Londres. Jantámos no Asia de Cuba, que durante uns tempos foi o meu grande favorito (até ser destronado pelo Blue Door de Miami, lamento lamentar). Fomos servidos por um irlandês engraçadíssimo (e cá uma brasa...). Como a nossa mesa ficava numa zona um pouco mais elevada, estava ele a despedir-se de nós, já desfardado, de gorro na cabeça, separados por uma balaustrada, quando vem um outro perguntar o que queríamos de sobremesa. "For God's sake! - interpelou ele o outro, a esticar-se todo, com a cabeça ao nível das nossas pernas - These people already had FOUR dishes!!!"
Largámos todos a rir, evidentemente.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Parabéns, cretino!

Nem preciso de pôr um smiley a esconder-lhe a cara, o frio de cortar os ossos que se fazia sentir pô-lo irreconhecível, num dia que foi muito alegre. Porque estávamos juntos e porque estávamos em Nova Iorque, que é uma das nossas grandes paixões comuns. De resto, a alegria é a nota dominante em todos os momentos que passamos juntos, hoje como há muito, muito tempo, quando nos conhecemos – tínhamos catorze anos. O meu amigo-irmão de toda a vida e para toda a vida. O Victor.

É para ele que ponho hoje este There's Me, de um musical menor de Andrew Lloyd Weber (Starlight Express), que é uma das nossas músicas – por que diabo hão-de ser só os apaixonados a ter direito a ter as suas músicas? Porque não hão-de as grandes amizades ser também celebradas na música? Até porque a amizade, sabemos, é bem mais duradoura do que o amor. A nossa, minha e do Victor, é mesmo até que a morte nos separe.


(click to listen)

domingo, 2 de setembro de 2007

Cu-cu! Cá estou eu!

A saga do computador chegou ontem ao fim. Está como novo, o sr. Gabriel não deixa os seus créditos por mãos alheias. Não perdi um único ficheiro, nem uma só das mais de duas mil músicas que aqui tenho, algumas arranjadas à custa de muita perseverança (leia-se obstinação...), nem uma só das incontáveis fotografias que aos poucos fui digitalizando, nem um só dos quase 400 videoclips que, com muita paciência e, uma vez mais, incorrigível teimosia, fui caçando no Limewire e já proporcionaram a alguns amigos meus grandes e gratas surpresas, em dvd carinhosamente gravados para que pudessem vê-los em casa, na sua própria televisão, com toda a comodidade.

Aconteceram coisas nestas duas semanas. Coisas boas, mesmo muito boas Os que sabem alegraram-se comigo, foram inexcedíveis de carinho no entusiasmo com que me felicitaram. Mudei de emprego, mais não posso dizer. Nem cheguei a almoçar com o Rafeiro Perfumado, tamanha foi a rapidez com que os acontecimentos se sucederam. Em dois dias a minha vida mudou toda, e deixámos de ser vizinhos a seis andares de distância. Tomámos café duas vezes, a correr, tive o prazer de ter uma dedicatória pessoalíssima no seu livro. E vocês, já compraram? Ainda se encontra na Fnac (vejam aqui) , nas outras livrarias é mais difícil.

Tenho uma palavra de gratidão para a empresa onde eu estava há tão pouco tempo (menos de um mês), e que tão generosa e compreensivamente me libertou de imediato para eu poder começar o novo trabalho... três dias úteis depois. E olhem que não foi sem transtornos, acreditem. Um dos grandes prazeres que ainda vou tendo na vida é encontrar qualidade humana. Gostei muito do pouco tempo que estive na tal empresa de vista maravilhosa sobre Lisboa (irra! Não cheguei a fazer fotografias do terraço, eu que ando sempre com a máquina na carteira! É de burra! E o pior é que até me tinha lembrado disso!), prometia vir a ser uma experiência enriquecedora e muito interessante. Nada de nomes, é claro. Mas deixei ao principal director o endereço deste cantinho, e sei que ele já cá veio. Se voltar, e espero que sim, aqui fica a expressão do meu reconhecimento, que é extensivo a toda a equipa.

Na segunda-feira, 27 de Agosto, dia dos meus anos, embarquei na nova aventura. Gostei de começar um novo trabalho no dia dos meus anos. Pareceu-me um bom augúrio.

À noite fui celebrar. Com o Victor. Jantámos maravilhosamente no Terraço, um dos restaurantes do Hotel Tivoli. Estava tudo perfeito. A noite sem vento, que permitiu que esta criatura tão friorenta pudesse jantar ao ar livre, a vista deslumbrante de Lisboa (mais outra), o castelo na colina em frente, magnificamente iluminado, a grande lua muito cheia e muito redondabrinco com a ideia de ter sido em minha honra, a comida (o melhor folhado de queijo de cabra que comi em TODA a minha vida), o vinho, a conversa. Menção obrigatória ao fantástico presente do Victor: The Dame Edna Experience, uma colecção de dvd com esta fabulosa personagem, criada pelo australiano Barry Humphries, que Robin Williams considera a pessoa mais cómica à face da Terra. Hello possums!

De outros assuntos, todos os outros assuntos que se acumularam, falarei no próximo post. Agora urge responder aos vossos comentários, agradecer os votos de parabéns que aqui me deixaram, revisitar os vossos blogues, etc.

Deixo-vos com a maravilhosa abertura da Flauta Mágica, a ópera por mim mais amada, e que hoje exprime tudo o que em mim canta. Basta ser Mozart...

domingo, 17 de setembro de 2006

Six Feet Under: a tribute

Justamente quando eu achava que já nada podia surpreender-me – been everywhere, seen it all – surgiu-me este Six Feet Under (cá passou na 2 – claro! — com o nome Sete Palmos de Terra. Nunca vi, mea culpa).

Só para me desorganizar ideias muito arrumadinhas. As grandes obras-primas de televisão de sempre. Brideshead Revisited à cabeça (incontornável, por nem sei quantas milhentas razões. Eu podia ser aquele Charles Ryder – for we possess nothing certainly except the past. Tenho a minha quota-parte de Sebastian (Sebastian is in love with his childhood), tenho muito mais de Julia Flyte do que desejaria (Julia was happy, living in the future, já para não mencionar aquela desgarradora tirada junto à fonte e a explicação final nas escadas — fui poupada a isso, suspeito que teria feito a mesma escolha). Estive lá, em Castle Howard. Lembrei-me. Tenho fotografias. Como numa certa música dos S&G. Um dia de prodígios — sei antecipadamente que Lídia Jorge me desculpa o uso abusivo do título. Fomos vizinhas e temos em comum a paixão por gatos. Tentámos inclusivamente promover o casamento da minha Mathilda com o seu soberbo persa, a coisa não deu em nada.


Voltemos a SFU – Six Feet Under. Foi-me apresentado pelo Victor, no velho esquema de dar e receber tão nosso que data de há tantos anos. Ele mostra-me coisas, eu mostro-lhe coisas. Às tantas perdemo-nos e já nenhum sabe com precisão quem mostrou o quê a quem. Este SFU foi-me mostrado por ele, impossível esquecer. Tenho a série completa oferecida por ele na íntegra. A primeira parte na noite de Natal, que passámos juntos e sozinhos – as nossas famílias perceberam e não se sentiram melindradas.

A nossa consoada foi do mais tradicionalmente portuguesa possível: sushi e sashimi, abundantemente regados a Veuve Clicquot. Cheguei a casa perto das cinco da manhã e pus-me a ver SFU. OMG! De repente tinha de reorganizar tudo, escalonar de novo as minhas lealdades. Onde é que se encaixa isto quando se tem a certeza de que séries como  BridesheadThirthysomething ou I Claudius são incomparáveis?
São, é certo. E esta entra para a galeria.

E se estou a escrever isto agora é porque estou doida de curiosidade. O Miguel, o irmão mais novo do Victor, pegou no testemunho. Vai ver esta noite o último episódio. O tal que me fez chorar copiosamente durante 26 minutos seguidinhos. Estou à espera de um telefonema – só para saber quando foi que alguma coisa quebrou e todas as defesas caíram por terra. Comigo foi ao minuto 40, com um certo telefonema. Com o Victor, ou não fôssemos nós almas gémeas, também, no mesmíssimo momento. E depois há aquela cena final... ao som daquela música. Há dias, de leitor de MP3 nos ouvidos, vinda do supermercado e a entrar no carro, a música começou a tocar. Tive um ataque de choro, e não tenho vergonha nenhuma.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

American Tune

Quinto aniversário da infâmia. Tal como qualquer americano se lembra de como soube do assassínio de JFK, tal como qualquer português se lembra de como soube, onde estava e com quem quando soube da morte de Sá Carneiro, todos nós nos lembramos – apostaria – de como soubemos do horror que foi o 11 de Setembro.

Como soubemos? Gostaria que o reduzidíssimo número de pessoas que sabem desta página tonta, que neste dia não PODE ser dedicada ao riso, me contassem. Isto não pode ser esquecido.

Para mim era o primeiro dia de férias. Tinha chegado na véspera ao lusco-fusco – duas horas menos cinco da ponte Vasco da Gama à recepção da Quinta da Balaia, nada mal para um Fiat Punto. Na manhã de terça-feira ainda não eram oito horas e já eu estava no jardim a tomar um pequeno-almoço à séria. É favor não rir, a minha bagagem para o meu retiro anual na Balaia (este ano não vou) é meio bizarra. Levo coisas estapafúrdias como o espremedor de citrinos, duas ou três boas facas, duas ou três frigideiras (aquela cozinha não está equipada a meu contento) ou a balança da casa de banho. Além dos livros que viajam sempre comigo em férias. Eça (Os Maias), Fernando Pessoa (Álvaro de Campos e Alberto Caeiro), Oscar Wilde, Proust (pelo menos dois volumes daquele livro da minha eterna obsessão que releio religiosamente todos os anos), o Au Plaisir de Dieu, a Imitação de Cristo.

Mas voltemos àquele dia. Pequeno-almoço à séria, como disse. Chá, sumo de laranja, ovos com bacon. Às nove horas, depois do café da praxe na Martinique, já estava na praia Maria Luísa, sossegadíssima passada a insuportável época alta. Com um livro, pois claro. À uma hora, com o calor a apertar e o Sol mais agressivo, rumei a casa para almoçar. Breve passagem no supermercado para me abastecer de coisas que estavam a apetecer-me.

Compras arrumadas, salada a postos à espera de ser temperada, ofereci-me uma vodca tónica.

Instalei-me no jardim a saborear a dita, seriam umas duas e pouco quando o telemóvel tocou. Era uma amiga, a perguntar onde estava eu e se tinha televisão. Claro que sim, corri a ligá-la – passava pouco das duas da tarde, nove e pouco em NY. Eu estava de viagem marcada para lá no mês seguinte... Incrédula e horrorizada como toda a gente, já não saí de casa nem voltei a lembrar-me de que era o meu primeiro dia de férias. Telefonei a algumas pessoas. Ao Victor, que ia viajar comigo e ainda estava a dormir depois de uma noite passada a trabalhar. Ao João, namorado à época. À minha irmã. Todos eles souberam por mim. Estava novamente ao telefone com a Ana quando assisti em directo ao desmoronar da primeira torre e larguei um grito apavorado “Mana, a torre caiu!” – ela comentou tristemente que “já só vais ver uma...” E chorei. Chorei outra vez quando caiu a segunda torre. Chorei quase ininterruptamente ao longo daquela tarde de horror absoluto.

Todos conhecemos o que se seguiu. E lembro-me de nessa noite de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, data tão a registar no calendário da infâmia como as de 13 de Outubro de 1307, quando foi dada ordem de prisão aos cavaleiros do Templo (rezei em Paris junto ao local onde foi queimado o Grão-Mestre da Ordem, Jacques de Molay) ou a de 9 para 10 de Novembro de 1938, a Kristallnacht – ter comentado com o Victor que o pior ainda estava para vir: os dias seguintes,quando começassem a emergir as tragédias humanas pessoais, individualizadas, com um rosto e um nome. Ele disse que não tinha ainda pensado nisso, mas que pressentia que eu tinha razão.

Tinha, infelizmente.

Apetece-me agora lembrar os versos belíssimos de um certo génio chamado Paul Simon numa certa música muito da minha obsessão. American Tune. Que eu oiço sempre mentalmente na versão incomparável do concerto no Central Park, a voz de Art Garfunkel a transportá-la para outra dimensão.

(…)
And I don’t know a soul who’s not been battered
I don’t have a friend who feels at ease
I don’t know a dream that’s not been shattered
Or driven to it’s knees
Oh, but it’s alright, it’s alright
For we lived so well so long
Still, when I think of the
Road we’re travelling on
I wonder what’s gone wrong
I can’t help it, I wonder what’s gone wrong

And I dreamed I was dying
I dreamed that my soul rose unexpectedly
And looking back down at me
Smiled reassuringly
And I dreamed I was flying
And high up above my eyes could clearly see
The Statue of Liberty
Sailing away to sea
And I dreamed I was flying

For we come on the ship they call the Mayflower
We come on the ship that sailed the moon
We come in the age’s most uncertain hours
And sing an American tune
Oh, and it’s alright, it’s alright, it’s alright
You can’t be forever blessed
Still, tomorrow’s going to be another working day
And I’m trying to get some rest
That’s all I’m trying… to get some rest

Tirada por mim um mês depois - tiradas, que na verdade são duas fotografias - duas montras de um centro de apoio às vítimas, muito cá para baixo, na Houston Street. Ficava ao lado do restaurante onde fomos jantar a seguir ao teatro, o Nobu (Robert de Niro é um dos donos). Se não me falha a memória, nem foi teatro... foi ópera. Fomos ver um indescritível Mikado no Lincoln Center.