Mostrar mensagens com a etiqueta Giuditta Pasta. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Giuditta Pasta. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Contou-me há pouco a Teresa. Ontem à noite, poucos clientes no restaurante, a Teresa foi para a porta fumar um cigarro. E nisto vê a nossa Pasta surgir a correr do fundo da rua, um rato ENORME (uma ratazana, pronto) na boca — e notem que ela é uma gatinha pequena. Mergulhou para debaixo de um carro com a sua presa, que já devia estar morta. A Teresa, repugnada, não tentou espreitar.
A Pasta continua, portanto, o seu competente trabalho de desratização da Rua da Padaria e das ruas vizinhas.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
Pasta, a predadora
A doce e meiga Pasta é igual a todos os gatos: a ancestralidade e o instinto da caça estão muito vivos.
Segundo me contou a Teresa, ontem ao jantar, o restaurante sossegado e com poucos clientes, ouviu de repente guinchos aflitos na rua. Precipitou-se para a porta, mesmo a tempo de ver que a nossa Pasta tinha caçado um rato e se entretinha com ele. Capturado já estava, já não lhe fugia, brincava com ele.
O terror absoluto que qualquer rato, por mais diminuto, me inspira, vive de mãos dadas com o facto de não conseguir suportar a ideia de um animal, qualquer animal, em sofrimento (ai as conversas com a Luna por causa das experiências laboratoriais em ratos!). Teria sido incapaz de assistir àquilo. O jogo cruel ainda continuou durante alguns minutos, depois a Pasta abocanhou a sua vítima e arrancou com ela rua acima (espero sinceramente que a desgraçada já estivesse morta), para a saborear tranquilamente em qualquer sítio só dela conhecido.
É uma rua muito estreita e antiga, de casas pombalinas, quase todas de janelas tristemente tapadas com tijolos, dois ou três apartamentos já recuperados (e que bonitos parecem, vistos de fora). Foi justamente o senhor do segundo andar do prédio em frente, assomado à janela, que comentou com a Teresa, na sequência deste episódio sangrento, que aquela gatinha tinha de ser muito bem tratada, porque estava a prestar um serviço inestimável à rua.
E o senhor leva esse propósito muito a sério, todos os dias deixa comida para a nossa menina à beira do passeio. Notem o pormenor gourmet de haver ração seca e mole. Tudo para agradar à Pasta, tudo para lhe tentar o apetite, tudo para a manter por ali! É que parece que há um ano, antes de ela assentar arraiais na vizinhança, era frequente ver ratos à noite. Agora é muito raro.
Mesmo assim, há coisa de um mês, ia eu a abrir a porta do restaurante para sair, depois do almoço, quando avistei um rato a correr do passeio para debaixo de um carro. Apavorada, não consegui evitar um grito e recuei em grande velocidade, ficando a tremer resguardada pela porta de vidro (e o restaurante em peso ficou a olhar para mim, claro). Cheira-me que o rato desse dia já não é do rol dos vivos. Put the blame on Pasta (piada cinéfila).
quarta-feira, 4 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
A incomparável graça felina
Marley e Tosh, ontem de manhã
Giuditta Pasta, à hora do almoço, derreada pelo calor
quinta-feira, 31 de março de 2011
Verde
Hoje era dia de entrar mais tarde no Colosso (e de, consequentemente, sair mais tarde, alternamos os dias). Aproveitei para ir ao sapateiro consertar o salto de uma bota que se partiu graças a um tropeção na maldita e tão decantada calçada portuguesa, que há muito não é o que era — no tempo em que era laboriosamente feita por genuínos artistas e o pavimento era lisinho que era um regalo, agora é terreno armadilhado autêntico, tamanhos os desníveis). Tenho tornozelos finos e frágeis, passo a vida a tropeçar, de vez em quando lá vem queda monumental, tal como aconteceu há uns quantos meses em plena Rua Augusta. E não culpem os saltos, que eram de cunha e muito estáveis, a culpa foi mesmo do pavimento. Estatelei-me ao comprido, rasguei uma meia, esfolei um joelho e a palma de uma mão, foi iPod para um lado, telefone para outro, acorreu gente para me ajudar a levantar.
A ida ao sapateiro foi mais demorada do que o previsto, tomei um táxi. Agora que vou sempre de metro para o Colosso, perco contacto com Lisboa, e com as mutações a que sempre fui tão sensível. A descer a Av. da Liberdade numa linda manhã de sol, toda eu era atenção às árvores, investigando a explosão de folhas verdes muito novinhas e tenras que anunciam tempos felizes e belos e longos dias soalheiros, um suspiro consolado a confirmar que eram os plátanos, as minhas árvores mais queridas, as árvores do Liceu, as mais esplendorosas de todas.
À hora do almoço, ao aproximar-me do restaurante, levantei os olhos e lá estava a Pasta, a nossa querida Guiditta Pasta, a dormir regalada e num equilíbrio precário de que só os gatos parecem ter o segredo, tão estreito o parapeito daquela varanda.
Um dia perfeito.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Update on Giuditta Pasta
Lembram-se da Pasta, a encantadora gatinha a quem tentámos encontrar um lar e afinal prefere viver nas ruas, ao deus-dará?
Pois o Inverno vai avançando e eu e a Teresa continuamos preocupadas com ela. Mais nos preocupámos durante umas semanas em que ela andou muito esquiva, já sem a explosão de alegria a que estávamos habituadas quando nos via, a correr para nós e a miar em resposta aos cumprimentos que lhe fazíamos. Durante uns tempos a nossa Pasta andou muito assustadiça, permanentemente alerta, sem confiar em nós como antes. Deduzimos que alguém poderia ter-lhe feito mal e isso cortou-nos o coração. Com o passar dos dias, lá a fomos reconquistando, e voltou à sua natureza confiante e meiga.
Na semana passada, ao subir a rua a caminho do restaurante, num lindo dia de sol, levantei os olhos e foi impossível não me escangalhar a rir, deliciada. A nossa tonta Pasta estava tranquilamente adormecida no estreitíssimo peitoril de uma varanda, saboreando o sol cálido.
E lembrei-me do curto poema de Fernando Pessoa que há muito, muito tempo, tinha eu 15 anos, foi o tema de um ponto (era assim que lhe chamávamos). Vergílio Ferreira mandou-nos dissertar sobre aquele gato que brincava na rua durante os 50 minutos da aula. Eu escrevi e escrevi e escrevi. E Vergílio Ferreira deu-me a melhor nota da turma, dois ou três valores acima da segunda melhor. Quando tocou a campainha para o intervalo (céus, que saudade daquele toque!) e todos nos levantámos, eu da carteira isolada para onde me tinha desterrado tempos antes, farto da minha tagarelice com os vizinhos, chamou-me secamente com um aceno: «Tu, vem cá! Quero falar contigo.» Essa conversa, que durou todos os dez minutos do intervalo, guardo-a comigo como um tesouro precioso.
No ano seguinte viria a almoçar muitas vezes com ele no refeitório e só então, quando já não era sua aluna, passou a tratar-me por Teresa. Conversávamos muito, eu divertia-o. Acolheu a rir os meus desabafos exasperados sobre Viagens na Minha Terra e sobre Amor de Perdição, acolheu também o meu deslumbramento com Os Maias. E com Cesário Verde. E com Antero. Eu era então, como continuo a ser, uma tagarela incurável. E ele achava-me graça, pronto. Provavelmente já achava no tal dia em que me exilou para aquela carteira junto à porta, da qual eu via através do vidro as folhas do plátano em frente.
No ano seguinte viria a almoçar muitas vezes com ele no refeitório e só então, quando já não era sua aluna, passou a tratar-me por Teresa. Conversávamos muito, eu divertia-o. Acolheu a rir os meus desabafos exasperados sobre Viagens na Minha Terra e sobre Amor de Perdição, acolheu também o meu deslumbramento com Os Maias. E com Cesário Verde. E com Antero. Eu era então, como continuo a ser, uma tagarela incurável. E ele achava-me graça, pronto. Provavelmente já achava no tal dia em que me exilou para aquela carteira junto à porta, da qual eu via através do vidro as folhas do plátano em frente.
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
Banda sonora: Andy Williams - Born Free
(do grande John Barry. Oscar para a melhor canção, Oscar para a melhor partitura original)
(do grande John Barry. Oscar para a melhor canção, Oscar para a melhor partitura original)
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Giuditta Pasta, deliberadamente sem-abrigo
Eu e e a Teresa, empregada do restaurante e já uma boa amiga, afeiçoámo-nos à Pasta. Conhece-nos, corre para nós quando a chamamos, dá-nos turras e marradinhas nas pernas. Com a chegada do Inverno começámos a ficar mais preocupadas. Urgia encontrar uma solução para a Pasta, e quanto antes. Nem era tanto a questão do frio e da chuva, o que nos angustiava mais era ser uma gatinha tão meiga, vítima fácil para gente má (e há mesmo muita gente capaz de fazer mal a gatos, acreditem). Trazê-la eu para casa estava fora de questão, já tenho estas duas feras que não há maneira de se entenderem (culpa de Agri). Levá-la a Teresa também não era opção, tem um Garfield de personalidade complicada. Falei com o Van Dog, entre os três montámos uma operação de resgate.
O que se segue é surreal. O Van Dog arranjou uma FAT (família de acolhimento temporário, para quem não saiba), eu levei uma transportadora para o restaurante, para tentarmos caçar a linda Pasta. A primeira tentativa correu muito mal. Ela já me conhece tão bem e confia tanto em mim que atraí-la não foi difícil. A Teresa estava com a transportadora a postos. Ia correr tudo bem, não ia? Não. Não correu nada bem. A Teresa, no momento decisivo, quando eu agarrei na Pasta e tentei enfiá-la na transportadora, enervou-se, teve medo, e o resultado foi uma gatinha em fuga e um penoso trabalho de confiança a reconquistar nos dias seguintes. O Van Dog já foi por três vezes ter comigo ao restaurante para tentarmos agarrar a Pasta. Da última estivemos a milímetros de conseguir fechá-la na transportadora, mas a pequena deu uma reviravolta surpreendente e fugiu-nos num salto. Só iria lá de armadilha.
Nunca exaltarei suficientemente o notável trabalho de divulgação de animais em risco, ou carenciados, ou de instituições que lutam com dificuldades financeiras que o Van Dog tem feito. Foi à União Zoófila pedir uma armadilha emprestada, explicou a situação. Arrebitaram a orelha. Uma gatinha muito meiga na Baixa? Onde, exactamente? O Van Dog lá contou a história. Pois a nossa doce Pasta já foi por eles recolhida, e tiveram de a devolver à liberdade. Fechada numa casa definha, fica tristíssima, torna-se agressiva. Esterilizaram-na (bem que eu e a Teresa tínhamos estranhado que, vivendo na rua, ainda não tivesse aparecido grávida), fizeram-lhe até uma pequena marca numa orelha que permitisse identificá-la mais tarde, se fosse caso disso. A marca lá está. É mesmo ela, a nossa Pasta.
Nunca exaltarei suficientemente o notável trabalho de divulgação de animais em risco, ou carenciados, ou de instituições que lutam com dificuldades financeiras que o Van Dog tem feito. Foi à União Zoófila pedir uma armadilha emprestada, explicou a situação. Arrebitaram a orelha. Uma gatinha muito meiga na Baixa? Onde, exactamente? O Van Dog lá contou a história. Pois a nossa doce Pasta já foi por eles recolhida, e tiveram de a devolver à liberdade. Fechada numa casa definha, fica tristíssima, torna-se agressiva. Esterilizaram-na (bem que eu e a Teresa tínhamos estranhado que, vivendo na rua, ainda não tivesse aparecido grávida), fizeram-lhe até uma pequena marca numa orelha que permitisse identificá-la mais tarde, se fosse caso disso. A marca lá está. É mesmo ela, a nossa Pasta.
E nestas noites frias e chuvosas, com Drusi a dormir encostada a mim enquanto escrevo, penso na tonta Pasta, que prefere viver na rua, sempre em perigo, a ter o aconchego morno de um lar e o mimo garantido de um dono. E seria tão fácil encontrar-lhe dono! Mas respeitamos a escolha dela. Quem sabe? Talvez a Pasta ainda acabe por fartar-se de viver ao deus-dará.
Subscrever:
Mensagens (Atom)