Há coisas muito bonitas que são inexplicáveis. Pessoas com quem de repente descobrimos que partilhamos paixões assolapadas, obsessões, francas embirrações ou meras manias.
Para contar bem esta história terei provavelmente de me alargar, coisa que para mim não é problema, com o meu gosto pelos quilómetros de letras e o vício da dispersão — é de vós, meus escassos leitores, que tenho pena.
Conheci o
Abel (já aqui referido como Comendador) no almoço de Natal do
Ié-Ié, despiu galhardamente —
knight in shining armour — aquela lindíssima
t-sirt evocativa do meu adorado
Rubber Soul para de imediato ma oferecer. Trocámos na época meia dúzia de
e-mails, eu tinha entretanto encontrado a
t-shirt à venda, insistia em ressarci-lo, ele insistia em recusar; ganhou ele.
No sábado passado houve novo almoço do
Ié-Ié, a que fui a última a chegar (
shame). Fiquei numa ponta da mesa, ao lado do
João e frente ao Abel e à Teresa Lage. Ainda nem estava devidamente instalada e já o Abel me dizia estar perdidamente apaixonado por
Into The Woods (credo! como é possível que tamanha obra-prima esteja a custar apenas £ 4,98?!) havia alguns dias. Eu tinha posto o avassalador
No One Is Alone para a Madalena uns dias antes no
Facebook, no dia em que a Mãe teria feito anos. O Abel não conhecia, teve curiosidade, pôs-se a ouvir e o passo seguinte foi investigar e mandar vir o disco. Stephen Sondheim é um senhor muito perigoso. Sem darmos por isso, ficamos cativos para o resto da vida. O Abel já está cativo, nada a fazer, daqui já não há regresso.
There's something about the woods... Prometi-lhe de imediato o DVD, que também tenho, e que me deixa a cara numa lástima ao chegar ao fim, de tanto chorar.
Até aqui, nada de especial. O Abel não conhecia, fiquei muito feliz por ter, involuntariamente, arregimentado mais um soldado para as fileiras dos admiradores de Stephen Sondheim. Mas estávamos no almoço do
Ié-Ié, a conversa andava em círculos mas era quase sempre sobre música, principalmente a dos anos 60. Alguém falou em Johnny Halliday. O Abel disse que não gostava, nunca tinha gostado, à excepção de uma única canção. Eu, que penso o mesmo, com a certeza intuitiva e antecipada de que era a mesma, comecei a cantarolar
L'Aventure c'Est l'Aventure... e foi uma explosão de riso. É que a canção era precisamente essa, e pelos mesmíssimos motivos: o prodigiosamente divertido filme de Claude Lelouch, que, lá pelos meus 15 anos, vi (pelo menos) umas sete vezes no cinema, três delas em dias consecutivos.
Abreviando: depois deste almoço o Abel e eu temos falado com alguma frequência, que entretanto descobrimos mais paixões em comum — à cabeça sempre os idolatrados Beatles, sabe-se. O Abel é aliás o maior coleccionador de Beatles em Portugal, e parece que o segundo mundial, coisa a tirar a limpo no dia em que fizer um inventário das preciosidades que tem acumulado ao longo de anos. O seu sonho mais querido é poder deitar mãos ao número 1 do Álbum Branco. Eu gostava muito que ele conseguisse, também lucraria com isso, mais que não fosse só de olhar para a capa e lacrimejar em êxtase.
Eu fiquei de dar filmes ao Abel, ele ficou de me dar filmes, temos um almoço alinhavado para breve, talvez na próxima semana. Ontem tive uma manhã frenética no Colosso, a tarde foi invulgarmente calma, tão calma que até deu para para conversarmos um bocado no msn, que só recentemente passei a usar lá, quando troquei de computador e ele já vinha instalado.
Capa. Capas. Eis-nos finalmente chegados ao assunto que me deu a ideia para esta entrada (razão tinha o meu primeiro namorado: «a menina consegue tirar sangue ao bacalhau»). A tagarelar no msn, descobrimos que tínhamos culto igual por
Odessa (mas First of May e Melody Fair são MEUS, hem, Abel?), um dos discos da minha vida, um dos discos da vida dele. E o Abel contou-me uma coisa fascinante. Eu não sabia que a capa original do disco (duplo) tinha sido em veludo, luxuosíssima, bem à altura do sumptuoso conteúdo. Quer o Abel quer eu éramos demasiado miúdos quando o disco saiu, só mais tarde viríamos a conhecê-lo. E ele, com aquela sorte misteriosa que às vezes acompanha os coleccionadores, encontrou um exemplar dessa edição original há coisa de dez anos, em Madrid, por um acaso extraordinário. E mandou-me a fotografia.

Sei que à maior parte dos meus leitores, quase todos uns bons vinte anos mais novos do que eu, isto não diz rigorosamente nada. Para mim, ah! para mim foi uma emoção! Que coisa linda! Mesmo em fotografia, percebe-se a maciez do veludo. Que privilégio ter conseguido encontrar esta maravilha!
Já chega, não? — perguntarão os meus mortalmente entediados leitores. Não, não chega. Porque o Abel andou a bisbilhotar a etiqueta
Os Discos da Minha Vida aqui do blóguio, e descobriu que alguns também são discos da vida dele. E voltámos às capas.
Nova revelação para mim. Não fazia ideia.
Déjà Vu, o meu querido
Déjà Vu, também teve direito a uma edição original de luxo, a capa em pele, as letras de ouro gravadas a quente (nada de acordo com a filosofia da época e a mensagem implícita no disco, mas pronto). Não preciso de dizer que o Abel também tem esta preciosidade, pois não?
E eu agora estou aqui com o coraçãozinho aos saltos, na expectativa ansiosa de que o Abel consiga encontrar-me uma certa coisa que não vou revelar o que é. Não será fácil, mas ele parece ter um saquinho de pozinhos de perlimpimpin para descobrir estas coisas. Com os pozinhos conto. Eu queria TANTO!