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terça-feira, 9 de março de 2010

Êxtase

Recebi hoje este extraordinário presente. A edição original em vinil do meu muito amado Odessa, a da célebre capa de veludo. Acreditem que não foi mesmo nada fácil não desatar a chorar à mesa do restaurante, mas lá consegui manter razoavelmente a compostura.

Agora é só estudar a maneira de lhe mandar fazer uma moldura condigna. Porque esta preciosidade vai para a parede, evidentemente.

Obrigada, muito obrigada, Old Soul! Sabe que não tenho palavras.

(é a faixa perdida, a que ficou de fora na passagem para CD, a tal que estive trinta anos sem ouvir)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Old Souls - II

Odessa, sim, esse Odessa por mim tão amado que foi o disco escolhido para começar a falar aqui, de vez em quando, daqueles que são os discos da minha vida. Não, não é o tal, a sumptuosa edição original em vinil, de 1969, que nunca tive sequer na mão e de cuja existência só soube há poucos dias. É uma edição especial em CD, luxuosíssima, três discos. Forrada a veludo, claro, noblesse oblige.

Presente especial, tão especial do Abel, minha old soul em coisas que chegam a ser inquietantes, e que, outras vezes, nos fazem rir imenso. Tal como eu (outra coisa igual), não aguentou: queria dar-me o disco quanto antes, eu ainda protestei, tenho uma série de coisas para ele no Colosso.

E aqui está ele, esta beleza, ainda na mão generosa do Abel. Estou neste momento a ouvi-lo em altos berros, auscultadores na cabeça. Obrigada, Abel. Obrigada. Obrigada. Nem sei dizer mais, e é bom saber que sabe o que isto é para mim.

A música escolhida, Melody Fair, é uma das músicas da minha vida, eternamente. O Pedro Oom, se aqui passar, vai sorrir, ele que tantas vezes a pôs a tocar para mim no Stone's. Uma outra pessoa, que aqui vem de vez em quando, também sorrirá e há-de lembrar-se.

E ao ouvir mais uma vez, uma milionésima vez na minha vida, este Melody Fair, vêm-me à lembrança palavras do Vítor, há muitos, muitos anos, mais de trinta: que o fazia sempre lembrar de mim, por causa de dois versos.«Remember you're only a woman, / Remember you're only a girl.» O Vítor achava que esta dualidade de menina-mulher era uma coisa muito minha, e muito cativante. Outras pessoas, ao longo da minha vida, viriam a achar o mesmo. Não sei exactamente quanto dessa menina de anos idos terá sobrevivido na mulher de hoje, mas tenho esperança em que dela ainda vá restando alguma coisa, aqui e ali. Esta noite, neste momento, a ouvir mais uma vez este disco soberbo que, mais do que um dos discos da minha vida, é um grande amor da minha vida, parece-me que ela está aqui outra vez.


P.S. só para o Abel: Estou neste momento a ouvir With All Nations (International Anthem). A faixa 13, a que foi retirada quando fizeram a edição em CD (crime! crime!). Não a ouvia há uns bons trinta anos. Obrigada. Outra vez.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Old Souls

Há coisas muito bonitas que são inexplicáveis. Pessoas com quem de repente descobrimos que partilhamos paixões assolapadas, obsessões, francas embirrações ou meras manias. 

Para contar bem esta história terei provavelmente de me alargar, coisa que para mim não é problema, com o meu gosto pelos quilómetros de letras e o vício da dispersão — é de vós, meus escassos leitores, que tenho pena.

Conheci o Abel (já aqui referido como Comendador) no almoço de Natal do Ié-Ié, despiu galhardamente — knight in shining armour — aquela lindíssima t-sirt evocativa do meu adorado Rubber Soul para de imediato ma oferecer. Trocámos na época meia dúzia de e-mails, eu tinha entretanto encontrado a t-shirt à venda, insistia em ressarci-lo, ele insistia em recusar; ganhou ele.

No sábado passado houve novo almoço do  Ié-Ié, a que fui a última a chegar (shame). Fiquei numa ponta da mesa, ao lado do João e frente ao Abel e à Teresa Lage. Ainda nem estava devidamente instalada e já o Abel me dizia estar perdidamente apaixonado por Into The Woods (credo! como é possível que tamanha obra-prima esteja a custar apenas £ 4,98?!) havia alguns dias. Eu tinha posto o avassalador No One Is Alone para a Madalena uns dias antes no Facebook, no dia em que a Mãe teria feito anos. O Abel não conhecia, teve curiosidade, pôs-se a ouvir e o passo seguinte foi investigar e mandar vir o disco. Stephen Sondheim é um senhor muito perigoso. Sem darmos por isso, ficamos cativos para o resto da vida. O Abel já está cativo, nada a fazer, daqui já não há regresso. There's something about the woods...  Prometi-lhe de imediato o DVD, que também tenho, e que me deixa a cara numa lástima ao chegar ao fim, de tanto chorar.

Até aqui, nada de especial. O Abel não conhecia, fiquei muito feliz por ter, involuntariamente, arregimentado mais um soldado para as fileiras dos admiradores de Stephen Sondheim. Mas estávamos no almoço do Ié-Ié, a conversa andava em círculos mas era quase sempre sobre música, principalmente a dos anos 60. Alguém falou em Johnny Halliday. O Abel disse que não gostava, nunca tinha gostado, à excepção de uma única canção. Eu, que penso o mesmo, com a certeza intuitiva e antecipada de que era a mesma, comecei a cantarolar L'Aventure c'Est l'Aventure... e foi uma explosão de riso. É que a canção era precisamente essa, e pelos mesmíssimos motivos: o prodigiosamente divertido filme de Claude Lelouch, que, lá pelos meus 15 anos, vi (pelo menos) umas sete vezes no cinema, três delas em dias consecutivos.

Abreviando: depois deste almoço o Abel e eu temos falado com alguma frequência, que entretanto descobrimos mais paixões em comum — à cabeça sempre os idolatrados Beatles, sabe-se. O Abel é aliás o maior coleccionador de Beatles em Portugal, e parece que o segundo mundial, coisa a tirar a limpo no dia em que fizer um inventário das preciosidades que tem acumulado ao longo de anos. O seu sonho mais querido é poder deitar mãos ao número 1 do Álbum Branco. Eu gostava muito que ele conseguisse, também lucraria com isso, mais que não fosse só de olhar para a capa e lacrimejar em êxtase.

Eu fiquei de dar filmes ao Abel, ele ficou de me dar filmes, temos um almoço alinhavado para breve, talvez na próxima semana. Ontem tive uma manhã frenética no Colosso, a tarde foi invulgarmente calma, tão calma que até deu para para conversarmos um bocado no msn, que só recentemente passei a usar lá, quando troquei de computador e ele já vinha instalado.

Capa. Capas. Eis-nos finalmente chegados ao assunto que me deu a ideia para esta entrada (razão tinha o meu primeiro namorado: «a menina consegue tirar sangue ao bacalhau»). A tagarelar no msn, descobrimos que tínhamos culto igual por Odessa (mas First of May e Melody Fair são MEUS, hem, Abel?), um dos discos da minha vida, um dos discos da vida dele. E o Abel contou-me uma coisa fascinante. Eu não sabia que a capa original do disco (duplo) tinha sido em veludo, luxuosíssima, bem à altura do sumptuoso conteúdo. Quer o Abel quer eu éramos demasiado miúdos quando o disco saiu, só mais tarde viríamos a conhecê-lo. E ele, com aquela sorte misteriosa que às vezes acompanha os coleccionadores, encontrou um exemplar dessa edição original há coisa de dez anos, em Madrid, por um acaso extraordinário. E mandou-me a fotografia.

Sei que à maior parte dos meus leitores, quase todos uns bons vinte anos mais novos do que eu, isto não diz rigorosamente nada. Para mim, ah! para mim foi uma emoção! Que coisa linda! Mesmo em fotografia, percebe-se a maciez do veludo. Que privilégio ter conseguido encontrar esta maravilha!

Já chega, não? — perguntarão os meus mortalmente entediados leitores. Não, não chega. Porque o Abel andou a bisbilhotar a etiqueta Os Discos da Minha Vida aqui do blóguio, e descobriu que alguns também são discos da vida dele. E voltámos às capas.

Nova revelação para mim. Não fazia ideia. Déjà Vu, o meu querido Déjà Vu, também teve direito a uma edição original de luxo, a capa em pele, as letras de ouro gravadas a quente (nada de acordo com a filosofia da época e a mensagem implícita no disco, mas pronto). Não preciso de dizer que o Abel também tem esta preciosidade, pois não?

E eu agora estou aqui com o coraçãozinho aos saltos, na expectativa ansiosa de que o Abel consiga encontrar-me uma certa coisa que não vou revelar o que é. Não será fácil, mas ele parece ter um saquinho de pozinhos de perlimpimpin para descobrir estas coisas. Com os pozinhos conto. Eu queria TANTO!


segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Odessa, ainda: First of May (e vem aí o Natal)

«When I was small
and Christmas trees were tall...
[...]
Now we are tall
And Christmas trees are small...»

Independentemente de integrar Odessa, First of May é uma música com um lugar muito especial na minha vida e que me traz memórias lindas. O Pedro Oom até a punha muitas vezes no Stone's por minha causa, e por saber dessas memórias.

Fazia parte da banda sonora de Melody, o filme de Mark Lester com que o cinema Londres foi inaugurado, tinha eu dez anos. Vejam as belíssimas imagens que acompanham a música, talvez vos arranquem um sorriso sonhador, talvez vos façam lembrar a inocência de uma infância que vai ficando cada vez mais distante.

First Of May

When I was small, and Christmas trees were tall,
we used to love while others used to play.
Don't ask me why, but time has passed us by,
someone else moved in from far away.

Now we are tall, and Christmas trees are small,
and you don't ask the time of day.
But you and I, our love will never die,
but guess we'll cry come first of May.

The apple tree that grew for you and me,

I watched the apples falling one by one.
And I recall the moment of them all,
the day I kissed your cheek and you were gone.

Now we are tall, and Christmas trees are small,
and you don't ask the time of day.
But you and I, our love will never die,
but guess we'll cry come first of May.

When I was small, and Christmas trees were tall,

do do do do do do do do do...
Don't ask me why, but time has passed us by,
someone else moved in from far away.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Os discos da minha vida #1: Odessa

Não é o principal disco da minha vida - seria impossível decidir em qual recairia a escolha... -, é apenas o disco com que estreio esta rubrica. Mas não tenham dúvidas: é mesmo um dos discos da minha vida, um dos tais que sempre terão de estar onde eu estiver, tenho por ele uma ternura toda especial.

Odessa, de 1969, continua desconhecido de muito boa gente, principalmente daqueles para quem Bee Gees são sinónimo de Saturday Night Fever e coisas afins. E é uma pena, porque é um disco magnífico, um autêntico concept album.

Conheci-o lá pelos meus 18, 19 anos. Dez anos depois de ter sido editado, portanto. Dele conhecia, máximo dos máximos, umas três músicas - o mesmo que dizer que o desconhecia por completo, já que se trata de um álbum duplo. Foi em casa do Vítor, ele já tinha praticamente deixado de comprar discos em Portugal. O que cá havia era muito pouco e chegava com atraso, às vezes enorme: para terem uma ideia, Born to Run, de Bruce Springsteen, 1975, foi lançado em 1979! A prensagem nacional era um desespero, por melhor que fosse a aparelhagem, por mais cuidadosos que fôssemos com a agulha, ao fim de meia dúzia de audições os discos ficavam com chão, vulgo batatas fritas. A velha Discoteca do Carmo ainda ia arranjando algumas importações, coisa pouca. O Vítor descobriu uma empresa do País de Gales que enviava discos pelo correio, a velha Tandy's, e deixou de comprar discos cá. Foi assim que Odessa lhe chegou às mãos, para logo o partilhar comigo.

Este disco também me lembra tanto o Nuno! Primeiro, porque, lá por 1986, lho ganhei numa aposta parva numa noite de Stone's. Ele insistia que I'll Follow the Sun dos Beatles era de A Hard Day's Night, eu teimava que era de Beatles for Sale. Como eu sabia que ele tinha Odessa (que continuava por aparecer em Portugal), reclamei-o logo como prémio. Nunca me pagou a aposta, o bandido.

Quando comprei o meu primeiro leitor de CD, era um dos trinta e tal discos que já tinha. E foram tantas as vezes que o ouvimos juntos, no tempo em que ele era visita quase diária em minha casa, a seguir ao jantar! Café, whisky e música, sempre música.