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quarta-feira, 15 de junho de 2011

O lado dark do pós-feminismo







Cláudia Rodrigues

É difícil compreender exatamente como o movimento feminista conseguiu produzir à sua sombra e contra seus desejos mais profundos, essa fobia que a mulherada, de maneira geral, desenvolveu de envelhecer, adquirir rugas, cabelos brancos e alguma fofura.
Esses dias, conversando com um amigo ginecologista, fiquei surpresa ao saber que uns quilinhos a mais, conforme se aproxima a menopausa, seriam ideais para evitar ressecamentos e atenuar outros sintomas causados pelo novo balanço hormonal do corpo feminino. Ele explicou que obviamente não é patológico ser uma senhora naturalmente esguia, mas demonstrou preocupação com a saúde das mulheres que batalham arduamente por parecerem eternas sílfides, privando-se de comida equilibrada para um corpo e um cérebro que necessitam alimentos, boa gordura, proteínas e açúcares a fim de manterem-se integralmente saudáveis. Conversamos ainda sobre a ligação entre esse novo comportamento Light High Tech e suas prováveis associações com as doenças femininas que estão em alta, com índices em elevação. Foi uma bate-papo empírico e não teria como ser diferente. Os comportamentos atuais só terão seus efeitos colaterais reconhecidos após muitos anos de acordos entre laboratórios e seus comparsas de mercado. O que ditou a regra de nossa conversa foi o bom senso, um bom senso que não faz sentido algum para a verdade única da prática intervencionista, que hoje medicaliza as transformações naturais do corpo feminino segundo pensamentos desenvolvidos nos tempos de Galeno.
Meninas de 14 anos tomam anticoncepcionais receitados por seus médicos para não sofrerem de cólicas. Exige-se do corpo delas um comportamento que só viria mais tarde. Da mesma maneira, mulheres de 50 anos são reguladas via reposição de hormônios artificiais para que seus corpos apresentem comportamento típico dos 30 anos. Nem ouso levantar o efeito no cérebro, que bem aos 50 anos está em franca ascensão do ponto de vista associativo. Aguardarei pacientemente as evidências, bem sentada no meu troninho empírico.
É curioso que o balanço hormonal dos 50 anos femininos esteja estigmatizado como “queda” de hormônios, já que nem todos os hormônios entram em queda nessa fase. A adrenalina sobe sim, senhoras! O corpo feminino tratado como defeituoso, complicado, incompleto, faz parte da história da humanidade contada e vista pelos homens a partir de suas inseguranças em relação às mulheres. Os queridos peludos levaram séculos para perceber que eram pais de nossos filhos, se desesperaram para nos impedir de ter filhos com outros homens, tiveram as idéias que pareceram perfeitas: trancafiar, intimidar, impedir nossas liberdades mínimas. Logicamente desenvolveram uma visão bastante limitada, para não dizer apavorada, sobre o funcionamento dos corpos femininos. Nós, mulheres, de uma maneira ou de outra, sempre acabamos respondendo de maneira submissa a esses rótulos preconceituosos produzidos pela dor e pelo prazer do olhar masculino sobre nós.
Aí um dia, depois de alguns séculos de confusão e filharada a perder de vista que nos mantinha ocupadas na preservação e evolução da espécie com muito esmero, a gente foi lá e queimou sutiãs nas praças, gritou que queria dirigir, trabalhar, votar e ser gente igualzinha a eles. E não é que deu certo? Em parte e em muitos países deu certo.




Se por um lado conseguimos algumas vitórias técnicas com o feminismo, como votar, trabalhar e ter delegacia própria para registrar horrores domésticos, por outro não conseguimos literalmente dar conta dos nossos próprios corpos, hoje entregues ao mercado midiático, médico, dermatológico e técnico em geral sem qualquer reflexão, com um senso de preservação menor do que qualquer primucha primata.  Nos últimos anos viceja no mundo a mulher-objeto de desejo e de vontade do mercado. Para facilitar a linha de montagem, alcançar os números necessários ou simplesmente se deixar usar em nome da própria bandeira de liberdade, a mulher vem abrindo mão de direitos pessoais fundamentais. É duro reconhecer, mas o que arranjamos de fato foi um assalto com arma de plástico e o inimigo é nada mais, nada menos do que nossa auto-imagem de femme fatale de papá refletida no espelho. Enganamo-nos ao pensar em um objeto puramente sexual, é uma ingenuidade não perceber que somos objetos de perversão mercadológica. E desta vez, ainda que abundem os machistas pelo mundo, a culpa não é dos homens se o feminismo está ao contrário e ninguém reparou. Fizemos tanta força para colocar o belo, o corajoso, o competente do lado de fora de nossos corpos, que boicotamos demasiado a delicadeza sábia de nossos corpos tão capazes. Entramos no lado avesso do feminismo. A imagem mascarada que viemos produzindo nos trouxe trabalho, salário, direitos, novos deveres e acabamos, nessa ânsia pelo que estava fora de nossos corpos, perdendo o contato com o interno. É uma pena porque essa simples inversão de premissas nos leva ao calabouço de onde saíram as primeiras colegas feministas.

É preciso recomeçar do marco zero do feminismo: sermos donas de nossos corpos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Brasília, Sede do Universo Paralelo do Nascimento







































Por Cláudia Rodrigues
A partir de hoje, 26 de novembro, até o dia 30 o Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília-DF- vai estar lotado de mulheres e homens que lutam pela redução da morbimortalidade materna e perinatal, pela redução dos índices de cesarianas desnecessárias, pela garantia dos direitos sexuais reprodutivos e pela humanização da assistência ao pré-natal, parto e pós-parto.

Presidida por Daphne Rattner, coordenadora do Ministério da Saúde da Mulher e Marcos Leite dos Santos, obstetra carioca radicado em Florianópolis, realiza-se a III Conferência Internacional sobre Humanização do Parto e Nascimento. A primeira, realizada em Fortaleza por iniciativa da Rehuna, Rede para Humanização do Nascimento, ocorreu em 2000 e agregou cerca de 1800 pessoas. Em 2005, no Rio de Janeiro, foram mais de 2.100 pessoas. Estima-se que esse ano o número seja ainda mais elevado com a escolha estratégica da Capital Federal para sediar o evento. Segundo Marcos Leite dos Santos, também presidente da Rehuna “a III Conferência se propõe a apontar novos caminhos para as políticas públicas, para as práticas profissionais e para a atuação do movimento social”.



Parteiras nacionais e internacionais, obstetras, pediatras, enfermeiras, psicólogas, terapeutas, e doulas dividirão seus conhecimentos científicos e práticos com o foco em um melhor atendimento para um importante ritual humano: o nascimento. 




Descaracterizado como ritual familiar, o nascimento no Brasil foi banalizado nos últimos 50 anos, entrou para a linha de montagem hospitalar submetendo as mulheres a maus tratos via parto normal ou riscos desnecessários por meio de cirurgias eletivas sem indicação baseada em evidências, o que tem aumentado os índices de complicações materno-fetais e nascimentos de bebês prematuros. 

Na pauta do encontro, além de variadas oficinas, estão previstos os seguintes temas:

 Humanização na legislação de países latino-americanos e Caribe: o que existe e como avançar
 A importância da atenção à interculturalidade nos sistemas de saúde 
 A judicialização da atenção ao parto
 Violência Institucional na Atenção Obstétrica
 Atenção ao parto domiciliar
 Estudos comparativos de local de parto
 Participação da(o) parceira(o) no processo de cuidado da gestação e parto
 Formação de profissionais para o novo modelo
 Aspectos psicológicos da gestação e no parto normal
 Atenção humanizada ao RN patológico
 A importância das práticas de atenção ao parto na amamentação
 Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Infantil
No blog http://partonobrasil.blogspot.com/, Ana Carolina, já em Brasília, promete uma cobertura completa. De saída deve trazer as novidades apontadas pela Professora Dra representante da USP, Simone Diniz, além dos bastidores do maior evento da área desse ano Brasil.

                       O mundo da humanização está em festa e nós brindamos a ele!
Helena e Gaia, que nasceram em suas casas, em 2009 - SC  e 1993 -ES
                                   

domingo, 9 de agosto de 2009

Sexualização precoce

Perigosas peruinhas

Por Cláudia Rodrigues em 16/3/2004 A Crescer está nas bancas com uma chamada de capa sobre as "perigosas peruinhas". O assunto tratado é a vaidade das meninas de 3 a 8 anos. É de doer. Sempre fazendo publicidade de marcas, produtos e casas especializadas na embonecação de crianças, vez ou outra surge a opinião de um profissional. Não consegue, porque seria o cúmulo da picaretice encontrar algum pediatra, psicólogo ou ortopedista que concorde com o uso das sandalinhas e sapatinhos de saltinho! É tudo inho, a matéria é um docinho. As opiniões dos profissionais são colocadas de um jeito sequinho, só para dar um toquezinho nas mamães mais riquinhas, mais espertinhas, que podem comprar a revistinha e pensar em gastar mais um pouquinho, afinal, as baby-gatas merecem ser peruinhas sem culpa. Logo após as opiniões dos profissionais, salta sempre, em palavras muito claras, a mesma conclusão, que atravessa o texto de cabo a rabo: o importante não é deixar de usar o salto, comer o corante, tomar banho de perfume; fundamental é dosar, usar com parcimônia e sobretudo seguir a orientação de pais e mães, que hipoteticamente sabem o que estão fazendo com suas filhas, tratadas no texto como propriedade particular. Bem, crianças deveriam ser tratadas como patrimônio da humanidade, e não propriedade particular, mas isso é uma outra história. O que a criança consumidora de marcas caras e famosas usa, e se usa e abusa, embora mereça todo o respeito e deva ser tratada como patrimônio da humanidade como qualquer outra criança, é um problema menor. Simplesmente porque essa criança, é bem provável, terá acesso a um ótimo ortopedista quando crescer, assim como a um psicólogo para resolver a infância invadida por um comportamento egóico, que roubou parte importante de seu desenvolvimento e afetará o âmago de sua sexualidade, em menor ou maior grau. A sexualidade, entendida como prazer, já está presente no bebê mamando, e não deve ser confundida com erotização e muito menos com egotização, versão ainda mais perversa e muito em voga na mídia desde a explosão da dança da garrafa e a partir da nova fase do mundo contemporâneo, a Era do Márquetim. Mas a salada que o texto oferece contraria essa premissa. Sandice em cascata A Crescer se supera nessa "matéria" ao escolher apenas exemplos exagerados de crianças e mães que praticam o consumismo como fonte de prazer. As entrevistadas são mães de garotinhas de menos de 8 anos que têm coleções de 40 sandálias e bolsas, vão ao salão com freqüência maior do que a de uma adulta desocupada, fazem massagens, tomam banhos de pétalas e têm como primeira preocupação, e dilema matutino, a escolha da roupa. Parece até piada, mas é assim que está lá. Partindo-se de um princípio básico do jornalismo, a revista trabalha para o público assinante ou comprador na boca da banca, e não para o setor de márquetim angariar mais e mais patrocínios; então, é de espantar que a revista não tenha procurado qualquer exemplo mais comum no universo da classe média, o que seria a maioria do público comprador. Ainda assim, um mínimo de ética num país tão heterogêneo exigiria que outros exemplos fossem dados, como algum que representasse a maioria das cinderelinhas do Brasil, muito além de uma coleção de sapatinhos, ainda que de plástico escorregadio e perigoso para colunas e ossos frágeis. Agora, a ignorância psicológica da matéria ultrapassa a grosseria sociológica ao colocar a vaidade como grau a ser escalado para uma eventual feminilidade maior, vendendo a absurda idéia de que, para ser mais feminina, a menina desde cedo deve usar artifícios, fazer força egóica para parecer e aparecer. E essa mancada que a revista comete se torna ainda mais absurda com o conselho barato e disparatado, típico dos anos 80: "Cuidado para que a criança não pareça um miniadulto". A questão não é parecer ou não miniadulto, a questão é a perda do direito de ser criança, a perda da formação lenta e gradual de uma auto-estima baseada em prazeres genuínos, não-compráveis. E isso teria tudo a ver com uma sexualidade bem-resolvida, para ricas e pobres. A sandice da mídia não é pouca e atua rapidamente em efeito-cascata, atingindo massa enorme de meninas. Dói profundamente O desenvolvimento da sexualidade feminina deveria ser desvinculado de vaidades exageradas porque sentir é sua fundamentação, e sentir é internalizar, mergulhar em si mesmo, afastar-se das futilidades. Até para adultos é assim, e mesmo adultos, quando muito voltados para fora, afastam-se de seus sentimentos, da sensação de seus corpos, do prazer real. Crianças empurradas para o consumismo, preocupadas com roupas e apetrechos, estão sendo alijadas de um prazer puro, que deveriam estar saboreando com toda a despreocupação e a ingenuidade inerentes à infância. Agora, o que assusta e torna a matéria um pesadelo é a sujeição da imensa maioria de meninas pobres a esse público das marcas, produtos e casas especializadas em multiplicar por mil a vaidade natural da garota em fase lúdica. Antes a revista só atingisse seus leitores. Infelizmente, não é assim, e é temerário visualizar o futuro da garotinha que desce o morro rebolando em cima de sua sandália de plástico de salto, fazendo caras e bocas, achando o máximo a blusa reluzente e decotada que ganhou da filha da patroa, aquela menina linda que até parece artista de novela. Daí em diante eu me calo porque dói profundamente, e se eu continuasse a escrever sobre esse assunto iria radicalizar, perder a noção, exigir das autoridades controle sobre revistas direcionadas a pais de crianças e adolescentes. Iria querer seriedade pelo menos nesse tipo de publicação, que deveria, necessariamente, ser pedagógica, didática e o menos comercial possível. Estritamente profissional.

Do cinema

A MÍDIA E A BABÁ Jornalismo burrinho atrapalha

Por Cláudia Rodrigues em 1/3/2005 Insiste-se tanto na imparcialidade, mas quando ela é necessária, em casos graves, que envolvem maus-tratos a crianças, por exemplo, as notícias são mais do que tendenciosas. A imprensa inteira noticiou o caso do bebê espancado por sua babá em Uberlândia (MG), flagrada pela filmagem armada pelo pai, com o propósito de certificar-se e arranjar provas dos maus-tratos. É insuportável assistir a alguém batendo em criança; nada justifica esse comportamento, que pode ser considerado doentio. Mas, por não se justificar, não se deve esperar também que a sociedade – talvez até a polícia, ao lidar com o caso – feche os olhos para as condições de trabalho das chamadas babás. Um médico pode ser um ótimo médico, mas ninguém espera que ele saiba construir uma ponte e ninguém contrata médicos para construir pontes, a menos que haja formação comprovada nas duas áreas. A moça que cuidava da criança, de 1 ano, trabalhava para o casal havia dois anos e oito meses. Era inicialmente uma empregada doméstica de um casal sem filhos, e talvez tenha tido acréscimo de salário pelo aumento de responsabilidades e de trabalho. Ou não. Mas se teve aumento de salário, porque de trabalho teve um aumento considerável, será possível que tivesse condições físicas e psíquicas de dar conta das duas tarefas? Obviamente não tinha, porque deu no que deu. Quando uma pessoa adulta bate numa criança, mesmo que seja uma palmada, quando grita com um bebê, mesmo que seja um gritinho, está psiquicamente desequilibrada e provavelmente fisicamente esgotada. Bebês exigem muita paciência e urgência no atendimento; prioridade. Estamos cegos Mães que cuidam dos filhos e do trabalho doméstico costumam deixar de lado o rigor da limpeza, o esmero na decoração da salada, a assiduidade ao passar roupas, simplesmente porque os bebês choram por atenção e precisam ser atendidos, levados para passear. Será que as patroas brasileiras têm sido condescendentes com pessoas que têm dupla função, como a de cuidar da casa e de um bebê? E o delegado, vai direto condenar a babá, sem verificar se ela estava registrada como babá, quais as condições de trabalho da infeliz? Não se trata aqui de julgar os pais do bebê agredido, que mais do que se preocuparem com a condenação da agressora estão decerto empenhados em compensar os últimos 10 meses físicos e psíquicos do bebê, que ao entrar na fase de acordar para as relações humanas, em vez de afeto, sorriso, passeios e diversão, recebeu socos de uma pessoa que ignorava suas necessidades tão delicadas. O caso é que nossa mídia, cada vez mais mecanicista, não vê além do certo e do errado e não sensibiliza nossos olhos burgueses, que julgam pelo lado mais óbvio, condenando em primeira instância um trabalhador desqualificado para a função, quiçá explorado em seus direitos. Existe um tipo de gente no mundo que a sociedade se recusa a enxergar, a considerar, a levar em conta: é o tipo de gente que aceita qualquer trabalho, qualquer sacrifício, qualquer acordo para ter um emprego, para manter um emprego, porque não tem coragem de roubar esse tipo de gente, jamais teve ou terá chances de ser patrão e muito menos criar idéias próprias para viver como autônomo. Esse tipo de gente pode e muitas vezes é a empregada que tem que manter os banheiros cheirosos, as janelas brilhando, a cozinha impecável, o jantar pronto e de quebra guardar a bagunça de uma família inteira, levar o lixo para a rua, ser secretária para recados, dar uma geralzinha no carro, passar a vassourinha na calçada e cuidar de um bebezinho em fase oral. Estamos cegos para certas realidades, mesmo quando damos a sorte de ter a nosso serviço uma pessoa tão boa que agüenta tudo sem reclamar e ainda dá amor aos nossos filhos, mesmo sem ver os seus da manhã até a noite, mesmo chegando na própria casa exausta e sem ter como dar as condições mínimas a suas crianças. Retrato da agonia Talvez muita coisa esteja falindo em nossa sociedade, além da economia capitalista, talvez a mídia pudesse ir um pouquinho mais fundo, fazer mais perguntas, explicar melhor os fatos, sem partir de teses únicas, prontas, que atendem acima de tudo à perpetuação da má distribuição de renda, o sistema perverso que "fabrica" os melhores e condena os "piores". Não faz mal lembrar: em São José do Rio Preto, em 1996, uma mulher que havia abandonado um bebê foi julgada pela televisão local e massacrada pela opinião pública; as pessoas perguntavam, chocadas, como podia uma mãe abandonar seu filho tão novinho num terreno baldio? A reportagem foi implacável, o repórter tratou de pegar depoimentos de revolta da sociedade, dados sobre a punição caso a bandida aparecesse, dados sobre a adoção que ocorreria findo determinado prazo estipulado pela Justiça. Mas a mãe apareceu dois dias depois e era o retrato da agonia. Pobre, negra, desempregada, mãe de mais quatro filhos que não tinham o que comer. Em frente ao delegado a imagem da mulher dando o depoimento derrotou todas as teses sobre a bandidagem materna: mal conseguia conter os soluços, as lágrimas misturavam-se com dois filetes de sangue que escorriam de suas orelhas. Ela havia arrancado os brincos com as mãos, queria perder as orelhas, a si mesma, queria ter o bebê de volta, queria poder cuidar dos filhos, dar-lhes o que comer; nada mais.

Cadê minha mãe?

Mães, essas afortunadas

MÍDIA & MULHER Por Cláudia Rodrigues em 5/4/2005 Mães, essas afortunadas

Se o jornal O Estado de S. Paulo, em 26 de março, deu espaço ao artigo do jurista Miguel Reale, que cultivou em espichadas palavras a saudade dos tempos em que o papel mais importante da mulher era o de mãe, a Folha de S. Paulo no mesmo dia publicava matéria sob o título "O último alemão", tratando aí justamente de um movimento subcontrário. A Alemanha está com a taxa de natalidade baixíssima devido à resistência das mulheres em colocar crianças no mundo em um Estado em que a pressão social sobre a maternidade é tão grande que mulheres são chamadas de "mães-corvo" quando deixam os filhos pequenos o dia inteiro numa creche. O modelo ideal para conciliar filhos e vida profissional viria então de um extremo oposto: dos Estados Unidos, onde amamentar em público já é um ato que causa repugnância e o parto natural é considerado pré-histórico, tamanha a independência, dos filhos-bebês, alcançada pelas mulheres. É bom lembrar que nós, brasileiras pobres, ricas ou remediadas, sofremos uma influência muito mais forte do modelo norte-americano do que do europeu. E isso é transparente nas revistas "especializadas", de mamãe-bebês. Sim, é preciso repensar o momento com muito cuidado para não cairmos no discurso feminista da década de 80, que trouxe tanto aprendizado para homens e mulheres quanto sofrimento e desamparo para as crianças. De resultado estamos recebendo uma escola, pública ou privada, sobrecarregada por certos papéis que ninguém mais sabe de quem são; hospitais e clínicas pediátricas estão abarrotados de sintomas emocionais mascarados por somatizações que não respondem a medicamentos para acalmar ou acelerar as crianças. Nunca se utilizou tanto remédio psiquiátrico em criança quanto hoje, nunca tanto dinheiro forneceu tanta comida de má qualidade como a que consomem nossas crianças hoje, pobres, ricas ou de classe média. Tudo isso muito mal coberto pela mídia, ou quem sabe poderíamos denominar como "acobertado".

Culpa atenuada

 E se as madames não cuidam dos filhos em nome do salão e da vaidade, as faveladas vivem entre a cruz e a espada subindo e descendo morros, se virando em vinte para arranjar uma papa com um pouco mais de substância; as mães de classe média andam anestesiadas por esses tempos duros em que os filhos são como troféus culturais. São também elas, as de classe média, que abastecem matérias da chamada mídia feminina, reforçadora do papel da supermulher da década de 80, agora em versão "nem eu nem ele, já basta a louça; as crianças que se virem". Nenhuma criatura humana precisa, necessariamente, formar família para se realizar, talvez não deva, não tenha que, e esta sim é uma questão que precisa ser discutida por nossa mídia, que insiste no modelo absurdo de que tudo é possível ao mesmo tempo e com toda a intensidade. É óbvio que homens e mulheres se sentem realizados por trabalhar, o trabalho é como um vício em nossa vida adulta; quando trabalhamos no que gostamos perdemos a noção do tempo e somos capazes, por estarmos longe, de esquecer que em casa há um ser humano em fase de simbiose e diferenciação, processo que exige presença materna em quantidade. Aí entraria a questão do quanto trabalhar, do quanto ganhar, do fazer carreira ou levar mais devagar por algum tempo. E esse trabalho as revistas e suplementos femininos não fazem direito, atenuando muito bem a culpa das mães culturais, que são seres cada vez menos conscientes e menos politizados diante de uma maternidade mercantilizada pelos meios de comunicação em nítido conchavo com um Estado que também ignora as necessidades e os problemas infantis iminentes.

 Tarefa urgente
 Mas tem algo emergente e injusto que pode ser resolvido em casa, está bem longe dos discursos feministas antiquados e afeta o desenvolvimento das crianças muito pequenas como um todo: ter pai e mãe, desde poucos meses de vida, ausentes 12 horas por dia. Essa informação, sempre no pano de fundo das queixas feministas, incomoda principalmente à classe média, a mais afastada dos filhos: e toma-lhe a criança para a creche doze horas, dá-lhe babá, coisas, comidas e penduricalhos. É uma ilusão achar que a realidade de uma criança rica criada assim é melhor do a de uma pobre. Os sintomas da carência são os mesmos, apenas a aparência difere num primeiro momento. As revistas e suplementos femininos não encaram esse dolorido problema infantil porque é incômodo ao Estado, às empresas e a uma sociedade que quer abraçar o sol sem se queimar. A falta de convívio entre pais e filhos não causa só obesidade, tema em moda na mídia, mas depressão e certas anomalias menores, como chegar aos 12 anos sem saber como se troca uma lâmpada ou se prepara um arroz. O convívio com os filhos é que precisa ser resgatado e é vergonhoso para nós, mulheres e homens, ficarmos insistindo nessa tecla dos direitos iguais aos dos homens, na eterna e ríspida divisão idêntica de tarefas, enquanto as crianças pairam largadas. Algum dos genitores precisa dar atenção diária aos filhos em qualidade e quantidade. Qualquer um deles! Nos primeiros meses o que tem peitos para aleitar seria recomendável. Não há o que discutir, não há o que resolver em termos feministas nesse lado do globo; as crianças precisam de adultos formadores de caráter, que transmitam noções éticas, dêem exemplos, façam atividades juntos, seja a comida ou a troca de pneu, o plantio da muda ou os primeiros passos no computador. Não importa se são criadas por um homem e uma mulher, dois homens ou duas mulheres; precisamos crescer longe da competição e da comparação para orientar as crianças.

Cobrar do Estado é coisa que não se faz, mas deveria ser feita pelos cidadãos que são pais e pela mídia que acoberta um sistema familiar moderno que já nasceu falido. Tirando o período de amamentação, que nos seres humanos se prolonga por até cerca de dois anos, tanto faz se vai ser pai ou mãe quem vai estar mais presente, se em um ano as crianças vão contar com maior apoio de um do que de outro, ocasionalmente mais absorvido pela vida de adulto profissional. O que não dá é para continuar na competição, o que passa a ser intolerável é continuar ouvindo que mulher na cozinha é mulher no lugar errado. Já formamos uma geração de incompetentes que acha que leite nasce em caixa e inteligência é qualquer coisa que varia entre terninho, silicone e óculos de aro grosso. Precisamos com urgência humanizar as matérias, os textos e as críticas.

Bebê-coisa

Bebê-coisa, bebê-problema

LEITURAS DA FOLHA Bebê-coisa, bebê-problema Por Cláudia Rodrigues em 28/11/2005 A capa da edição online do caderno de saúde da Folha de S.Paulo de quinta-feira (24/11) trouxe um bebê na foto, uma chamada para os problemas de sono das crianças entre 0 e 2 anos e a novidade já no lide: uma tese de doutorado, ainda em fase inicial, da pediatra e psicoterapeuta Eduardina Teles Tenenbojim, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que investiga a relação mãe-bebê como uma causa relevante dos distúrbios de sono em idade tão precoce. Prometia, mas depois de dois parágrafos que deram voz à médica, a matéria descambou, como costumam descambar as matérias sobre questões humanas, para o tecnicismo desenfreado. As dicas da médica dariam muito pano para manga: "Bebês que não dormem acabam por trazer a síndrome de privação de sono para o cuidador, que geralmente é a mãe. Ela se sente irritada e chega a ter dificuldades de concentração e de memória. Por outro lado, na relação com a criança, revelam-se também dificuldades que a mãe está enfrentando em outro setores de sua vida. Essas dificuldades se manifestam sob a forma de insônia no bebê". A tese da médica brasileira não é pioneira, ainda que estudos com enfoque na relação mãe-bebê, que remetem à teoria do vínculo, tenham ficado, digamos, fora de moda. E como a Folha perde o eixo, mas não sai do universo fashion-tecnicista, a matéria virou um amontoado de contradições entre médicos, queixas de mães e, claro, não poderiam faltar, as 15 dicas para fazer o bebê dormir, as receitas; como se todas as mães tivessem sensibilidade igual para entrar no ritual via canções de ninar, como se todos os filhos gostassem de paninhos ou de dormir no berço sem embalo. O bebê-coisa está em todas as dicas, nenhuma delas traz o bebê pessoalizado e suas tentativas de dizer algo do jeito que afeta mais eficientemente seus cuidadores. Saltam aos olhos informações trazidas por uma médica que resolve destrinchar algo caótico nas relações humanas modernas, desafiando justamente o sistema que leva crianças em tenra idade a consumirem calmantes, mas tudo o que se consegue é um punhado de dicas fast food; o leitor fica boiando na superfície, como sempre, e já levemente engajado na solução que satisfaz o mercado: o uso de calmantes específicos para bebês. Afinal qualquer das dicas não é novidade e nem há consenso entre os médicos sobre o uso de chás, ursos ou outras atitudes maternas que resolvam o problema dos bebês que dormem pouco. Alguns pediatras acham que amamentar de madrugada é uma boa idéia, os odontopediatras consideram a amamentação no meio da noite um problema. Há os que indicam mamadeiras, para não viciar no peito, os que receitam chupetas, os que são radicalmente contra a mais antiga das maneiras de fazer um bebê dormir: embalando. Realidade gritante No meio dessa guerrilha, mais pessoal do que científica, o remédio vira um meio termo que acomoda pais de um lado e médicos de outro. "Nos bebês, o uso de medicação para insônia não é indicado. Meu objetivo é chegar a fórmulas de intervenções breves, como consultas terapêuticas, que forneçam resultados consistentes", revela Eduardina Tenenbojim. Mas a Folha não vai atrás do que está nos bastidores dessas consultas terapêuticas. A médica já sabe, por exemplo, que situações de luto enfrentadas pelas mães costumam causar maior freqüência de falta de sono nos bebês, uma outra dica que foi desprezada. Sim, o que a médica está pesquisando é justamente a relação entre mãe-bebê e o que a ausência de sono dos pimpolhos tem a ver com isso. O leitor mereceria mais informação, poderia saber o que escreveu a autora de Bebês, mães em revolta, Rosine Debray, a respeito dos distúrbios psicossomáticos dos bebês, ou ser remetido às conclusões dos exaustivos estudos sobre a dupla mãe-bebê a que dedicou uma vida inteira Margareth Mahler, autora de O nascimento psicológico dos bebês. Pobre Wilhelm Reich, que morreu adivinhando tudo o que estava por vir, uma sociedade impaciente, vítima dos pocket books e de soluções imediatas e técnicas para lidar com eles, os seres mais primitivos e necessitados de contatos profundos, os bebês de tenra idade. Em nenhum momento o texto leva às mães de bebês que dormem pouco ou mães que gostariam que seus filhos dormissem mais a essa realidade gritante, que é a fabricação de sintomas produzidos por deficiências no contato genuíno. Comprinhas, coisinhas A negação de que os bebês necessitam de quantidade em termos de relacionamento é tão potente em nossa mídia que a repórter não ousa perguntar mais, ou quem sabe escrever melhor o que ouviu, porque isso culpabilizaria as mães. E culpar as mães é um tabu na mídia, já virou uma espécie de sabedoria universal: a mãe não tem culpa de nada do que ocorre com seu bebê e não deve se sentir culpada. É estranho, assumir responsabilidades alivia a culpa, e não o contrário. Mesmo assim a coisa toda caminha para a desculpabilização em primeira instância, até porque é respaldada juridicamente: o período de licença-maternidade, por exemplo, que no Brasil é de quatro meses, configura um contra-senso, já que a OMS recomenda seis meses de amamentação exclusiva no peito e desmame gradual que mantenha a criança com leite materno até os 2 anos de idade. Como fazer o tricô de um texto que dá uma informação por baixo e passa a laçada por cima? É fácil, é só passar a mão na cabeça das mães, sobrepondo o acúmulo de conhecimentos adquiridos em settings terapêuticos nos últimos 100 anos com dicas de como fazer errado para dar certo. É simples, é só errar o ponto e continuar, fazendo de conta que não ficou um buraco no coração do pulôver. A mídia especializada na área mergulha numa verdadeira esquizofrenia e essa matéria da Folha é mais uma das muitas provas vivas desse método jornalístico que tem apenas um compromisso: mercadológico. O pacote informativo que a Folha produziu para a mamãe vigilante-noturna inclui comprinhas, coisinhas, remedinhos e soluções paliativas e objetivas. É uma pena, porque tanto a pediatra que está pesquisando as relações entre mães e filhos e os distúrbios de sono dos bebês quanto os outros médicos entrevistados atestam que a relação da dupla mãe-bebê precisa ser mais francamente investigada – e não há nenhuma, entre as 15 dicas, que sugira às mães uma revisão sincera de seu tempo com o bebê, tanto em qualidade quanto em quantidade. Sempre na casca Não se fala do prazer de fazer um bebê dormir e de uma eventual dor inerente a esse prazer, do trabalho extra que a maternidade traz, de como algumas mulheres se ressentem pelo tempo que precisam dedicar aos bebês em fase oral e de que maneira esses sentimentos adultos interferem no desenvolvimento emocional da criança. Os médicos entrevistados – a repórter esqueceu freudianos, reichianos, lacanianos, junguianos – certamente têm muito mais a revelar, mas não foram suficientemente ouvidos; matérias não podem ser consistentes porque consistência virou sinônimo de chatice. Reina a superficialidade, essa pressa ignorante que nos jogou longe do simples ritual de fazer um bebê dormir; embalando ou não, dando ou não chá de camomila, com ou sem paninho, ursinho ou o diabo a quatro que inventaram, como a técnica de deixar chorar. A esquizofrenia das matérias na área da puericultura, como essa última da Folha, é tão grande que começamos a ler um texto que afirma ser a falta de sono das crianças um possível problema de relação entre a mãe e filho(a) e terminamos levados a concluir que o problema está no bebê. Eles não são tão inteligentes em tenra idade como a sociedade adulta, egoísta, egotista e comercial desejaria. Eles não são capazes, tão pequenos, de se auto-reprimirem, a não ser na marra ou via engodos. Às mulheres que se transformaram em mães só resta afastarem-se cada vez mais dos condicionamentos inerentes à função materna. Já vêm, com muito apoio da mídia, desaprendendo a parir, abstendo-se de amamentar e agora já não sabem mais fazer o bebê dormir. Matérias desse tipo atrapalham ainda mais e esse é o problema maior. O leitor chega a entrar em contato com algo interessante, mas é puxado para as coisificações típicas do jornalismo apartado das singularidades humanas. Parece piada que, num universo de pesquisas sérias e abundantes sobre as interações entre mães e filhos, as informações traduzidas pela mídia fiquem sempre na casca, fora do corpo e do coração, objetivas e desumanizadas.

Mulheres boazinhas

MÍDIA E FEMINISMO Tudo em nome do mercado

Por Cláudia Rodrigues em 17/4/2007
Como tudo, exatamente tudo, o feminismo serviu ao mercado e a mídia é o mercado da informação. Bebês são abandonados em lixões, em terrenos baldios, e agora a nova onda, que aperta e acelera: esquecidos em automóveis. A imprensa o que faz? Dá a notícia como a coisa mais natural do mundo, promove pesquisas para que os internautas opinem, julguem, clamem pelo amor de Deus, digam que é coisa do diabo. Nada de conhecimento e reflexão, nada de questionamentos e debates que levem os leitores a entender, de fato, o que está acontecendo. Quando resolve abordar um ladinho diferente, a imprensa cai nas entrevistas com religiosos e psicólogos de plantão, achando que assim aborda o minimamente humano. Mas não aborda, não sai das bordas. As mulheres ganharam pouco com o feminismo, não foi uma revolução justa para as mulheres; o saldo negativo como o de não acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhos, especialmente os bebês, trouxe como direitos a garimpação de um rol de vaidades que inclui, inclusive, a colocação de silicone ou retirada de parte dos seios – dependendo da onda vigente do mercado médico de plásticas –, antes que tenham exercido a funçaõ fisiológica de amamentar. O feminismo trouxe jornada dupla, mulheres histéricas, estressadas e revoltadas com as coisas do lar, incluindo aí filhos, que contam com pouco espaço na vida de suas mães, hoje coisificados pela atribulação de seus genitores, por sua vez escravos do mercado.  
Confinadas à vida doméstica?

A mídia endeusa o papel de mãe, passa a mão na cabeça das mulheres, coloca a creche como o lugar ideal para depositarmos nossos bebês de quatro meses, ignora completamente o desenvolvimento psicológico, motor e cortical dos bebês. Tudo em nome do mercado, o mercado de fraldas, mamadeiras, leites, roupas, chupetas, adereços. Não tardará a invenção de um dispositivo de pulso para evitar o esquecimento de bebês em automóveis, desde que ninguém toque na ferida antropológica que tem tudo a ver com um novo paradigma econômico, ecológico, social e ambiental. O que o feminismo e a mídia juntos fizeram pela maternidade é coisa de cachorro louco. Passaram e passam por cima de algo que pode ser opcional: a maternidade. Dá para ser mulher sem ser mãe, mas não dá para terceirizar a maternidade e é isso, exatamente isso, o que está acontecendo: a terceirização da maternidade em tempo integral. Ah, mas o que estou dizendo? Então as mulheres que optam por ser mães não podem mais trabalhar, devem ficar confinadas à vida doméstica como no início do século passado?  
 
Óbvio que não, mas não devemos fechar os olhos para as aberrações que estão acontecendo, para essas mães culturais que a mídia ajuda a fabricar. Mulheres que nunca sonharam em criar e educar crianças, que não têm o menor interesse em conviver com crianças, tornam-se mães. Depois se desesperam, não sabem o que fazer com os bebês, não suportam conviver com crianças, fogem de casa como o diabo da cruz, acham um saco parir, amamentar, cozinhar, cuidar, ler histórias, trocar fraldas, acompanhar o crescimento, as fases, o desenvolvimento. Isso piora bastante quando se tem dinheiro para comprar a felicidade exposta nos shoppings, nos remédios de última geração, nos consultórios médicos, na troca de escolas. Criamos monstrengos sem limites, incapazes de lidar com frustrações, vítimas da falta de amor genuíno, drogados, destemperados e toda a sorte de sintomas que surgem em adolescentes mal-acompanhados por seus pais e mães desde que nasceram. Enquanto o feminismo fazia sua lição de casa incorporando ao mercado as tecelãs, as faveladas, a coisa andava em ritmo lento. Mas o abandono de crianças, vitimadas por incêndios e outras fatalidades em lares pobres, agora ganha proporções gigantescas por conta de um mercado cego para os valores humanos, as necessidades humanas, os direitos humanos. Caberia à mídia, em vez de passar a mão na cabeça das mães culturais e de promover a maternidade para toda e qualquer mulher, esclarecer as necessidades reais de um bebê, a situação real de uma gravidez, a importância da figura materna e da função materna em cada fase do desenvolvimento infantil. Muitas mulheres desistiriam de ter filhos se tomassem consciência da responsabilidade dessa função, que não deveria ser terceirizada do jeito que está sendo. Lugar de recém-nascido é no peito da mãe – e não é uma foto poética, às vezes até dói, exige disponibilidade física e emocional e até uma certa paixão pelo ato. Bebês de menos de um ano, quando depositados por doze horas em ambientes institucionais, por mais belos e caros que sejam, desenvolvem problemas semelhantes aos dos bebês que vivem em orfanatos.

Não se aplica a bebês o discurso da qualidade do tempo, que pode ser prescrito, não sem um esforço mínimo, em crianças maiores, que já suportam psicologicamente a separação da mãe como algo natural por serem capazes de compreender corticalmente o fato. Bebês vivem até os três meses uma relação absolutamente simbiótica com suas mães, despertam para a separação por volta dos seis meses, vivem uma crise de diferenciação por volta dos oito, passam por adaptações de subdiferenciação até os dois anos e somente a partir daí são capazes de entender de maneira saudável, do ponto de vista psíquico, um afastamento de dois dias, por exemplo. Isso não é brincadeira, creche não dá conta disso e não adianta areia colorida, professora boazinha, turmas pequenas. Para bebês de até dois anos, oito horas longe da mãe é um sacrifício para o qual seus corpos e córtex não estão preparados, embora eles sejam capazes de sobreviver a isso e até a violências maiores, como podemos atestar diariamente. Aos três anos, quando a criança entra no período de socialização, a mãe teria uma folga para voltar ao trabalho. Doze horas longe? Isso seria demais.

Para a mulher que busca fazer carreira com exigências máximas e ainda manter-se ocupada por longas horas em academias de ginástica, salões de beleza, jantares, vida social atribulada e congressos, definitivamente a maternidade não é aconselhável, a menos que disponha de três anos em marcha mais lenta, cinco anos em ritmo levemente mais acelerado, dez anos de corpo ligado na missão, 15 anos na checagem mínima, que inclui tempo para um cinema, um lanche, tempo para conversas e debates, esclarecimentos éticos... A maternidade é, para sempre, um valor agregado na vida da mulher que a mídia teima em seguir mitificando, fazendo de conta que não vê, resolvendo com entrevistas sobre remédios para hiperatividade, remédios para depressão infantil e juvenil; todo tipo de aberração que o feminismo ou o que o mercado do feminismo – a releitura superficial do feminismo – produziu.

sábado, 8 de agosto de 2009

Feminismo banalizado e a violência contra a mulher

Por Cláudia Rodrigues
Se os meios de comunicação se interessaram pouco ou quase nada por divulgar dados da pesquisa disponível no Instituto Patrícia Galvão sobre os índices de violência contra a mulher nos estados de Pernambuco e de São Paulo, não foi por acaso. Se os dados da OMS sobre a violência contra a mulher no Japão, a mais alarmante entre os países desenvolvidos -- atinge mais da metade da população feminina--, não espantaram as editoras das revistas e cadernos femininos, e nem viraram manchetes, também não foi por acaso, mas por linha editorial. Para nossa mídia especializada em assuntos femininos, a bofetada em si interessa menos do que o pancake para disfarçá-la. É um assunto espinhoso e delicado vincular a vaidade feminina-- especialmente num país como o Brasil, repleto de mulheres batalhadoras e pobres que apanham diariamente --, ao alto índice de violência contra mulher. Mas daí a ficarmos presos aos índices, ignorando a patologia das relações sadomasoquistas, já seria ingenuidade. Rever o papel da mídia na banalização do feminismo, que chegou sem gordura, completamente light ao cérebro das leitoras, ouvintes, telespectadoras e internautas, as formadoras de opinião, é direito da mulher e até uma questão de cidadania. Comparar uma revista Cláudia do início dos anos 1980 a uma revista Cláudia atual, é o melhor atestado do desempoderamento interno que sofreram as mulheres. Na década de 1980 os direitos das mulheres eram pautas de matérias e de artigos, os índices de separações saltavam, nascia a nova mulher, que podia trabalhar sem culpa, viver sozinha com os filhos, exigir pensão, casar de novo e demonizar os homens à vontade. Depois disso, ali pelos anos 1990, a nova mulher já era um ser humano bem esquisito, estava pouco se lixando para as causas de seus condicionamentos e nem de longe olhava para as marias do morro com fraternidade. Hoje, como se fosse questão resolvida, a que foi abortada assim que o mercado se abasteceu com a nova força de trabalho; o assunto é beleza, caça aos machos, como cuidar dos filhos sem ter que conviver com eles e outras idéias marqueteiras, ineficientes e egotistas. A demonização dos homens, entre todas as bandeiras, é a única que flameja, já aparece nas escolinhas de ensino infantil em meninos frágeis ou raivosos e meninas superpoderosas e vaidosas ao extremo. Mas o que isso tem a ver com os índices alarmantes de violência contra a mulher? Tudo, tudo o que ficou para trás quando o feminismo virou a casaca na década de 1990. Na pesquisa disponível no Instituto patrícia Galvão surpreende um dado sobre a violência contra a mulher: ela não se reduz aos lares mais pobres, ocorre na classe média e na alta. Caberia à mídia especializada questionar o que basicamente separa a mulher que apanha daquela que não apanha, o homem que bate do que nunca bateu. Há mulheres que nunca apanharam aqui ou no Japão. Elas são encontradas entre profissionais de várias áreas e entre donas-de-casa que nunca trabalharam fora. Há homens pedreiros que nunca bateram e há médicos, engenheiros, advogados, professores, jornalistas, empresários e bancários que espancam suas mulheres. O terreno é argiloso, engloba subjetividades e certamente não cabe à mídia vitimar ainda mais as mulheres que apanham ou demonizar os homens que batem. Seria mais interessante e produtivo questionar as pautas que dengam as mulheres, fragilizando-as diante de seus próprios corpos, portadores de seios que já não servem para a função biológica, que têm deixado de ser livres, cheios de artérias que causam prazer sexual, mesmo molenguinhos, para se transformarem unicamente em objetos fálicos de provocação do desejo masculino. Para entendermos melhor a vitimização da mulher, que só aumenta os índices de apanhadoras, seria urgente que as editoras e repórteres que cobrem a área, se interessassem um pouco menos por cremes e tinturas, roupas, grifes e fugas do relacionamento humano com o companheiro e os filhos e investissem mais no resgate do corpo feminino, uma fonte de vida e de prazer, capaz de suportar dores das condições femininas, que servem para torná-lo mais forte, que engrandecem o caráter da mulher a ponto de jamais ser violado sem o desejo ou a vontade de sua dona. Mas quando a mídia violenta o corpo da mulher, banalizando-o como objeto de desejo masculino em primeiro plano, quando denga a mulher perdoando seu medo de viver as dores inerentes dos processos maternos, e aí entram o obstetra e o pediatra; quando em nome da manutenção de um corpo eternamente jovem, a mídia especializada arranja soluções plásticas e hormonais; e aí entram os cirurgiões e os endocrinologistas, então temos a fabricação em série de mulheres fragilizadas, vítimas em potencial, que não sabem ao que vieram nesse mundo além de adorar seu machos e submeterem-se à violência. Fica a impressão de que as nobres editoras e repórteres nunca folhearam um livro de Simone de Bevoir, nunca ouviram falar de Carmem da Silva, Marina Colasanti e nem ao menos sabem do que se trata coisa menor, como o Complexo de Cinderela, livro digestivo escrito pela americana Collete Dowling, que sozinho já engrossaria o caldo de uma matéria melhorzinha. Não deveriam os meios de comunicação apenas revelar os números e jamais cair no erro de vitimar as mulheres que apanham, deixando-as no lugar de coitadinhas. O sadismo só funciona com o outro lado da gangorra: o masoquismo. A mulher que apanha não precisa só de delegacia da mulher, precisa de informação, precisa compreender seu comportamento masoquista, formado a partir de prazeres genuínos que ela própria abdicou em troca de prazeres banais, que não a alimentam de fato, não a fortalecem como indivíduo diferenciado do homem. O beicinho, a provocação, a sedução, os chiliques, o lado mau da mulher precisa emergir, do mesmo modo que é preciso resgatar -- e a mídia deveria exercer um papel fundamental nisso -- os direitos femininos, abortados no meio do caminho da revolução feminista, que começou bem, mas virou uma espécie de fascismo da vaidade. Falta muito aos meios de comunicação que cobrem o universo feminino, falta divulgação de dados e fatos, mas falta principalmente sair de fora e entrar para dentro do corpo feminino, uma grande fonte de riqueza, amor e poder humanístico. As perdas são talvez irreparáveis e as crianças têm sido as maiores vítimas dessas guerrilhas entre as coitadas e os demônios. A divulgação de dados referentes à violência contra a mulher é apenas um fio da meada e se os meios de comunicação ficarem presos às conseqüências, sem entrar fundo nas causas e no como eles mesmos fabricaram essa involução, nenhum passo será dado, além da bateção na eterna tecla do homem demonizado, o homem-objeto. Esse homem que foi produzido midiaticamente para viver ao lado da nova mulher, que não nasceu de fato, pouco resolveu de seu machismo ancestral e nem poderia; mal estava saindo da casca, deu de cara com o poder do silicone, é enfrentado diariamente por deusas turbinadas das capas de revistas, que ele não pode ter porque não tem como pagar. A mulher virou um bem de consumo e pobre ou rica, ela está voltada para fora de seu corpo, insatisfeita, subjugada por ela mesma em primeiro lugar. Morreu de vaidade a nova mulher que prometia emergir; está mais ignorante e menos sensível, mais competitiva e menos corajosa. Se a dama da sociedade só pensa em plásticas e as realiza, retaliando-se inteira para conseguir mais um up grade nas armas de sedução; as Marias estão pregadas nas novelas, economizam para comprar creme de aveia barato, se ressentem com o descascado do esmalte de quinta categoria, sonham em não ser elas mesmas, também aviltadas pelas capas que exibem a tez macia das celebridades. O que sobrou do feminismo além de um certo direito a um empreguinho, uma tripla jornada e um total desentendimento das relações humanas afetuosas, foi depurado pela peruíce generalizada das formadoras de opinião, elas próprias preocupadas com creminhos e soluções milagrosas para reter o tempo a fim de não perder as armas que derrubam os peludos neandhertais. Tratado como objeto, castrado em seu poder ancestral de perseguir a fêmea, transformado em caça e presa fácil, o homem menos apto corticalmente e mais primário emocionalmente, faz jus ao modelo demonizado. De fato existe, precisa responder por isso judicialmente, mas caberia à mídia dar uma destrinchada básica no papel da mulher nessa história. A submissão, esse masoquismo típico da mulher que abriu mão de lutar pelo direito de ser, anda de mão dadas com o sadismo, mas o sádico machista, em casa ou no trabalho, nos consultórios médicos ou no meio da rua, não encontraria continência na mulher dona do próprio corpo. Agora, caberia à mídia, que em conluio com a indústria médica e cosmética, conseguiu fabricar uma mulher que se dá o direito de não menstruar, não parir, não amamentar, não amadurecer hormonalmente e afetivamente, desfazer esse novelo que fragilizou a mulher trancando-a a sete chaves no lugar mais primário da evolução feminina: o da submissão aos homens.