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sábado, 30 de novembro de 2013

Querida filha



Cláudia Rodrigues *
Um dia tu vais crescer, sair da meninice para te sentires mulher. Acredita, não faz muitos anos e durante grande parte da história da vida das mulheres, nos deixamos tratar como propriedade dos nossos pais, maridos e numa última onda; do mercado. Como todos os processos históricos são lentos, ainda hoje, muitas mulheres em todos os lugares do planeta são tratadas como propriedade dos pais e dos maridos.
Desde o início dos tempos os nossos corpos foram coisificados. Já valemos mais ou menos até em quilos, largura da pelve, formato dos seios, cor dos cabelos, comprimento de pernas. Nossos pais traficavam nossas vidas aos maridos para fazer negócios e assim íamos da propriedade paterna à propriedade do novo dono, que podia fazer o que quisesse conosco, de exigências a castigos e todo o azar de abusos.
Conheces aqueles filmes de escravidão e todos os reflexos que até hoje se vêem na sociedade? Assim foi com as mulheres, é sempre assim quando há luta pelo poder e desejo ignorante de submeter; ódio, competição e rancor. Devagar, crescendo no processo histórico, algumas pessoas começaram a desenvolver os primeiros sintomas de uma sociedade mais inteligentemente sensível, corajosa e amorosa.
Tudo começou com uma primeira menina que ainda bebê olhou nos olhos do pai com firmeza e ele desde sempre soube que não a submeteria, que a força vinda dela era maior do que os padrões históricos perversos de repetição. Pelo amor dos dois, pelo respeito à individualidade daquele ser, ele preferiu abrir mão dos bons negócios para dar à filha a honra de casar-se por amor quando quisesse e com quem quisesse. Essa menina em questão nem mesmo casou, ela preferiu sair “Procurando Firme” bem dona do seu corpo.
Muitas meninas e muitos pais desde então começaram a fazer diferente, a desobedecer as normas vigentes. Perderam terras, viram ruir palácios e impérios, os padrões de comportamento nunca mais pararam de quebrar. Mas, como alertei antes, filha, os processos históricos são lentos e muitos pais, ainda hoje, vêem e tratam as filhas como propriedade. Não é o teu caso, nem das tuas irmãs, que têm um pai que sequer entra no quarto de vocês sem bater desde tenra infância, que além de respeitar, passou lições de coragem, dignidade e especialmente igualdade e solidariedade. Infelizmente é o caso de muitas meninas, que já se formam em casa sentindo-se menores desde esse primeiro e tão importante olhar masculino. Essas meninas, muitas delas, passaram a infância vendo a mãe sofrer maus tratos sem qualquer reação, sofrendo sozinhas pela dor da mãe, quietas no canto. Algumas delas desde sempre vêm reagindo, apesar das imensas e dolorosas barreiras.
O segredo para a reação dessas bravas meninas-mulheres que fazem a diferença com atitudes que fogem aos padrões culturais mais rígidos, sempre foi uma força interna de integridade entre o corpo, a alma e a mente.
Tu vens de um lar sem sombra de machismo e vives em um país ocidental liberal, isso poderia ser considerado uma sorte, mas não é bem assim, não é tão assim como parece. Aqui temos já muitos avanços em relação os direitos de igualdade entre cidadãos e cidadãs e até uma Lei, a Maria da Penha, que nos protege dos abusos machistas típicos.
Acontece que toda a peste social esperneia para morrer e a violência contra a mulher continua a nos espreitar, como uma bactéria que se tornou mais poderosa. Hoje, bem requintada, disfarçada, quase invisível, não faz distinção cultural, está em todos os continentes, entra em toda e qualquer tribo social e econômica. Sempre focada no nosso corpo, ela agora desafia um grande calcanhar de Aquiles que temos: a vaidade.
Minha pequena, não te assustes, não tem nada a ver com tuas pulseiras e enfeites, teus vestidinhos com estampas miúdas de flores do campo. A coisa é mais complexa e de novo tem a ver com poder, submissão e ódio aos que não se deixam pautar pelo lugar-comum e altamente lucrativo da linha de montagem.
Tu vais ouvir em algum momento da tua vida, que não precisas menstruar, que isso é coisa de antigamente, que hoje já temos hormônios artificiais para impedir o funcionamento biológico de nossos corpos. Tu vais ouvir que esses hormônios, fortes o bastante para impedirem a ovulação, são inócuos para tua saúde e seguros para que possas evitar uma gravidez indesejada.
Tu vais ouvir que podes crer plenamente nessas drogas criadas para controlar o corpo feminino e, se confiares, acabarás não sabendo mais nada sobre teu ciclo, serás uma mulher incapaz de sentir se está ovulando ou prestes a menstruar, enquanto teu corpo e teu cérebro travarão uma luta confusa entre desejo, vontade e o sentido real do livre arbítrio. Duvida, questiona e acima de tudo pensa, pensa muito, pensa por ti mesma.
Agora, o que não te dirão é que tomando esses hormônios estarás mais frágil para exigir o uso do preservativo masculino e assim mais propensa a contrair uma doença sexualmente transmissível. Estarás mais propensa a agradar do que sentir prazer e perdida na verdadeira arte de agradar: sentir prazer e alegria na inteireza. Dona real do teu corpo, não cederás aos apelos de penetração a menos que essa seja uma decisão tua, embasada nas umidades do teu corpo e na consciência sobre ele. Mesmo muito jovem, em teus primeiros ensaios, não depositarás no parceiro e muito menos no mercado, o mais vil dos machões, a responsabilidade pelo teu gozo sexual, pessoal e profissional. A capacidade é tua, é nata, vem da coragem da tua alma e de toda a deferência que conseguires fazer para a delicadeza em ti. Nas pessoas todas e não apenas nas mulheres, as delicadezas embasam as maiores coragens e não o contrário, como nos dita o mercado.
Querida, precisarás ser forte, tão forte como a moça do filme “A Flor do Deserto”, porque a caminhada é longa e no percurso rirão de ti, te chamarão de antiquada, retrógrada, tudo porque não é permitido aceitar que sejas dona absoluta do teu corpo, a mais valiosa mercadoria a ser explorada, trancafiada e padronizada, exatamente como sempre foi. Te acusarão de bruxa se afirmares ser capaz de saber o dia exato em que ovulas, te acusarão de louca se resolveres aparar teus filhos em tuas mãos no teu próprio parto. Dirão que teu corpo é repleto de defeitos e necessita infinitos reparos e remédios ainda quando estiveres na flor da idade, no esplendor da vida. Resiste, resiste bravamente, sempre unindo sentimentos, corpo e mente antes de aceitar qualquer intervenção.
Mais tarde eles tentarão te convencer a retardar aparentemente a tua idade, afirmando que a velhice é um lugar feio do qual deves te envergonhar. Para retirar de ti o tempo da reflexão e a melhor exploração de tua memória associativa, usarão de subterfúgios baratos, prometerão devolução de ilusões e velocidades de memória, inexoravelmente perdida, bem perdida, por necessidade, por processo da nova fase.
Sente a cada minuto o teu corpo, ouve-o, atende-o e especialmente na maturidade não te deixes escravizar por um espelho. Os espelhos, filha, só refletem tua imagem, nada sabem sobre teus desejos reais e os abundantes sentimentos de libertação das coisas mundanas que a regulação hormonal natural traz.
Caminha firme, caminha sempre em direção a uma liberdade cada vez maior. Quanto mais velha, mais livre; tão livre que esses discursos de separação entre homens e mulheres, homossexuais e trans deixem de fazer qualquer sentido porque só verás pessoas de qualquer forma, de toda forma. Eles te chamarão de caduca quando estiveres a falar com animais e plantas, com o céu e o mar porque eles não sabem digerir o sentido da diversidade; temem o caos da liberdade e são capazes de exigir até dos anciões que se comportem em pré-pessoalidade.
E bem velha, enfim, sejas.

Artigo originalmente publicado em http://www.sul21.com.br/jornal/colunas/querida-filha/

sábado, 23 de novembro de 2013

Das Flor em apresentação única no Theatro São Pedro


Peça reúne artistas que  conviveram com moradores de rua e crianças que vivem em abrigos.
   Fotos/Fernando Pires





Cláudia Rodrigues

É a vida a céu aberto, de noite e de dia o pão, a água, a missão de sobreviver aos próprios sonhos. Nascimento, cotidiano , polícia, política e morte, eis alguns dos temas pinçados pelo Das Flor.

A diretora Luciane Panisson elaborou com o grupo uma história não-linear, explorando os sentimentos e sensações dos artistas e da plateia que mergulha em questões éticas e estéticas. É tocante, acelera o coração, tem perplexidade sem perder o ritmo. Ponto alto é o dos corpos nus, que aparecem sem qualquer artifício, sem malha, sem performances sob o som da sirene policial e trazem à luz a nudez cotidiana das indignidades humanas.


A cenografia é inteligentíssima com objetos-dobras em papel, criados pelo artista Álvaro Villaverde, que integra o elenco ao lado de Juliano Barros, Roberta Alfaya, Marcos Rangel e Fabíola Rahde. A trilha sonora é composta por Eloy Fristch, que mistura paisagens sonoras e composições eletroacústicas; o figurino é da artista plástica Margarida Rache e é construído a partir do principio da reciclagem de materiais.                                                     

A experiência cênica e musical baseada na convivência com moradores de rua e crianças que vivem abrigos, resultou  em  apresentação dos alunos em um primeiro momento. O grupo de artistas também aprendeu e trouxe dessa experiência um espetáculo teatral visceral.




O espetáculo Das Flor será apresentado gratuitamente no Theatro São Pedro no dia 28 de novembro, quinta feira, às 21h em apresentação única.
Saiba mais sobre o projeto em: http://www.dasflor.com.br/

O projeto Das Flor foi contemplado pela Fundação Nacional de Artes – FUNARTE no edital Prêmio Procultura de Estímulo ao Circo, Dança e Teatro 2010 e conta com o apoio da Secretaria de Segurança do Estado do RS, Secretaria da Cultura do Estado do RS, Theatro São Pedro e da Casa de Cultura Mario Quintana.


segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Adoráveis meeeeeeesssssmo

Por Cláudia Rodrigues

Adoráveis adolescentes

Por Cláudia Rodrigues
Instabilidade de humor, falta de sono na madrugada e excesso pela manhã, preferência por carboidratos, oscilações radicais entre insegurança e sentimentos de superioridade são algumas das tendências de comportamentos largamente pesquisadas nos adolescentes nas últimas décadas. A explosão hormonal que traz seios, músculos, pêlos e estatura não é um fenômeno meramente fisiológico ou hormonal sem ligação com o cérebro; é impactante do ponto de vista emocional e na prática esbarra em problemas cotidianos que naturalmente irritariam outras pessoas em qualquer idade. Assim como nas outras fases de revoluções hormonais, não é apenas o efeito dos hormônios o responsável direto pelas variações de humor, mas a novidade de um novo corpo que se forma, impelindo-nos a um viver diferenciado, com outras necessidades. É um novo corpo e ele chega exigindo abandono de atitudes que antes só traziam prazer. Pede novas atitudes, novas formas de prazer. Só que entre o desejo, a pulsação e o crescimento natural do novo no corpo, existe o cultural, o meio e as influências poderosas de tudo o que vem de fora. Os sentimentos de perda quando emerge o novo corpo, menos infantil, mas ainda não definido como um corpo adulto, clamam por estratégias emocionais e flexibilidade psíquica nem sempre abundantes no universo dos adolescentes. O processo é particularíssimo e depende também do entorno, da continência familiar e de quanto esses adolês, especialmente os urbanos, foram violados ainda na infância pelos apelos de milhares de interferências pós-pessoais, as que se impuseram de fora para dentro de seus corpos. Uma menina de 13 anos pode levar seis meses para entender que não gosta mais de brincar de bonecas. Ela pega suas bonecas e penteia, muda de lugar, sente uma tristeza imensa, nem passa por sua cabeça doar as bonecas, mas não compreende porque não acha mais graça em fazer aquilo que vem fazendo desde que se conhece por gente. Ela pode fugir para o computador, pode tomar um sorvete com a turma, mas necessariamente vai viver a transição da criança para a moça no corpo dela e essa experiência não deve ser menosprezada porque não é feita só de vantagens, de um lindo mundo romântico de namoricos. Amadurecer sempre dói em qualquer idade, mas na adolescência, talvez pela consciência recente que na infância não tínhamos e pela inexperiência, que na vida adulta já não nos assusta, seja um processo mais facilmente desestabilizante em termos emocionais, corticais e sociais. Para completar, o adolescente mexe com sentimentos não muito nobres dos adultos que convivem com eles; sentimentos hostis como a inveja. O adolescente à priori só tem vantagens aos olhos dos adultos: possui muito mais liberdade de ir e vir do que as crianças, pouca responsabilidade, muita energia para o prazer. Além disso, não importando se é gordinho ou magro para os padrões da moda vigente, todo adolescente tem um frescor juvenil que o torna necessariamente belo. Existe uma beleza esplendorosa na juventude, que independe do padrão social e econômico. Não tem nada a ver com o tamanho do nariz, é uma força vital que o adulto começa a perder ali pelos 25 anos, uma energia que se não foi bem vivida na adolescência e na juventude, só pode resultar em inveja por parte dos pais e consequentemente projeção de frustrações. Essa inveja aparece em frases como: “no meu tempo não era assim, eu na sua idade já fazia isso e aquilo, você nem parece que já tem essa idade, não cresce, não amadurece.” Para o adolescente, que não tem consciência da sua energia tanto quanto não tem de suas incertezas e inseguranças, ser colocado como um futuro adulto incapaz de chegar aos pés dos genitores, que às vezes ele despreza, pode ser algo profundamente deprimente, revoltante ou paralisante. O deprimido desenvolverá tendências anti-sociais, o revoltado é o melhor candidato a depender de drogas e o paralisado pode chegar ao cúmulo de não conseguir passar de ano na escola por medo de crescer e realizar o pior de seus temores: não conseguir chegar aos pés dos pais. A distância que os adultos em suas vidas atribuladas vivem das necessidades dos adolescentes pode ser tão grande a ponto de impedir qualquer contato: não há trocas, o filho não mostra aos pais os melhores vídeos que catou no youtube, os pais não achariam a menor graça mesmo. Aos poucos os almoços, os jantares em família vão desaparecendo, pais e filhos viram estranhos dentro de casa, os pais vendo os filhos como marmanjos que terão que sustentar por longa data ainda, os filhos vendo os pais como inimigos íntimos, algozes que soltam ou seguram uma graninha. Ora para se livrarem de suas presenças, ora para impedirem a diversão com a turma. É um lugar muito solitário o do adolescente e o refúgio está na turma, nos primeiros amores. A turma fortalece o anjo e o monstro dentro do adolescente; a turma é adrenalina, é paz e amor, é desafio, experiências corporais, afetivas. Encontrar uma boa turma que nutre o coração do adolescente é como voltar ao útero materno por algumas horas do dia. Ali ele se sente compreendido, alimentado, entre os seus, ainda que nem sempre a realidade seja exatamente o mar de rosas que ele vê. O segredo de um adolescente-pessoa, que não insulta, não bate porta e resolve suas questões com os pais por meio de conversas, foi tecido mês a mês, ano a ano durante toda a vida dele. Com um bom vínculo com os pais, que precisa ser mantido ainda na adolescência nas folgas da turma, as chances de ter um aborrecente em casa, diminuem bastante. Talvez os adultos precisem rever seus conceitos em relação aos adolescentes porque esses seres em transição podem ser incrivelmente agradáveis com suas críticas, idéias, fantasias e ilusões pertinentes à idade. A irritação e o desprezo aos adolescentes, aos jovens e estudantes precisa ser repensada pelos adultos em geral, deveria ser revista pela mídia que dá pouca voz aos movimentos estudantis e principalmente deveria ser banida de nossos lares.