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sábado, 2 de agosto de 2014

Mamimosas em Ação

Cláudia Rodrigues

 O mamaço realizado no Parcão nesse sábado contou com cerca de 20 mães, alguns pais, bebês, crianças em fase lúdica e o sol que ficou firme o tempo todo sob uma temperatura primaveril em pleno inverno.
O evento que iniciou em São Paulo, em maio de 2011, como protesto a uma nutriz que foi impedida de amamentar livremente no Espaço Cultural Itaú, tornou-se popular e hoje já não tem o objetivo de protestar, mas de reacostumar a sociedade brasileira à presença do hábito ancestral e biológico que foi substituído pela mamadeira e leites artificiais.
O Brasil detém um dos maiores índices de desmame precoce do mundo desde a introdução maciça de leites artificiais na década de 1960, o que acabou interferindo no comportamento das mães, avós e pediatras, que muitas vezes receitam papinhas antes dos seis meses de vida dos bebês.
O leite humano, segundo a Organização Mundial de Saúde, deve ser o alimento exclusivo dos bebês até os seis meses e a alimentação deve entrar a partir dessa fase de maneira gradual mantendo-se a criança ao peito sem introdução de outros leites ou de mamadeira até cerca de dois anos.
Entre as conversas das mulheres no evento de hoje estavam os transtornos comuns da amamentação ao peito, como problemas de pega nos primeiros meses, dúvidas sobre o peso do bebê e aspectos emocionais dessa relação que não se encerra no alimento, mas no intenso vínculo estabelecido quando se decide ter um bebê de peito.
O bom ou mau olhar social que recai sobre a nutriz também pode interferir na amamentação. A sociedade machista com seus aspectos religiosos costuma boicotar os atos fisiológicos da sexualidade humana e a amamentação é um deles. Daí os estranhos comportamentos de instituições como restaurantes e espaços culturais que acabam por definir que as mulheres devem se esconder para amamentar em cantinhos, com panos que escondam os seios, como se estivessem fazendo sexo em público.
No Parcão foi tudo muito natural hoje, poucos olhares estranhos para essas jovens senhoras que carregam seus bebês em wraps e slings e têm na maternidade um foco de prazer e não de sacrifício.
E o melhor de tudo, livres, sem necessidade de carregarem fogareiros para aquecer mamadeiras no passeio no parque. Todos os bebês tiveram leite quentinho in natura enquanto suas mães riam e conversavam alegremente.






























terça-feira, 30 de abril de 2013

.Empoderamento, entenda o que é, encontre o seu e livre-se do que é "faux"



Cláudia Rodrigues*


Para Juliana Carvalho, por sua capacidade de entrega impressionante




A palavra empoderamento, que não consta no meu Aurelião, foi usada com maestria pela antropóloga Robbie Davis-Floyd como possibilidade prática de resolver conflitos culturais que impedem as mulheres de parir livremente. Nascida do original inglês empowerment, o termo ganhou fama no Brasil como uma das melhores explicações para a necessidade da (re)aquisição de habilidade emocional, mental e corporal que colocaria a mulher em conexão com uma capacidade fisiológica importante do corpo feminino que vem sendo boicotada por constantes choques culturais. “Importante” aqui é termo subjetivo e deve ser refletido.

Empoderamento não é definitivamente uma força de vontade e não é o desejo somente, mas o desenvolvimento da habilidade para conectar o desejo, força vital máxima do corpo humano, aos prazeres culturais, orais, obsessivos, psicopáticos, masoquistas e inevitavelmente esquizos que criamos para nos distrair. Talvez também para tapar buracos, defender fronteiras, mas muitas vezes é mero deleite. Cinema é puro deleite. Toda forma de arte de algum jeito, em algum cantinho, é deleite de mente sã, de corpo ansioso pelo contato com seus desejos mais profundos. Entramos no universo do deleite, sem compromisso, sem responsabilidade e do empoderamento, que exige mais do que conhecimento, autoconhecimento, responsabilidade emocional e corporal. Artes do corpo vivo.

E aí, inevitavelmente, cai-se na história do sexo e do parto, da amamentação e da ejaculação, os leites masculino e feminino da vida. Não vem ao caso discutir se o leite do homem ao longo da história foi beneficiado e a mulher foi traída pela sociedade machista, até porque é tese mais do que batida e comprovada nas moedas acadêmicas. Sobre empoderamento se pode afirmar muita coisa, mas não que ele ocorra sem que todas as camadas do corpo e consequentemente do cérebro tenham sido minimamente tocadas. Então já podemos afirmar que empoderamento pode trazer deleite? Seria esse um deleite mais profundo, mais intenso e duradouro com outras conexões para a maternidade? Who knows!?

O emaranhado de tecidos de cada ser humano é próprio. Nos  afetou ou afetamos, algo mudou. A troca ou mesmo as dificuldades da troca e do contato com tudo o que está dentro de nós e tudo o que está fora do nosso corpo é única, não se transfere posto que na transferência cria-se algo novo. Por isso um professor ao dar uma aula para 25 alunos está produzindo 25 aulas diferentes. Partindo-se do princípio que nossas trocas diárias vão muito além de aulas, leituras, cinema, pessoas, Estados, política, ambiente, conflitos e amores, então chegamos ao caos que está fora. Ou seria dentro? Quem sabe a organização interna esteja totalmente dependente e massacrada pelo andamento do que está fora de nossos corpos!

São tantas as informações que vêm de fora do nosso corpo biológico  que já impedimos a troca, o fora nos invade, passamos a boicotar e adoecer o nosso ser vital, fortalecendo o eu cultural de forma desequilibrada, irracional e perversa. E óbvio, não estamos falando de possibilidades no cinema, mas de parte importante da publicidade, programas de televisão e o tal mercado do prazer consumista, que está aí providenciando formatações de como devemos nos comportar e adestrar nosso bicho interno, vestindo-o com capas e contracapas pasteurizadas de comportamento e aparências. O tempo todo.

O mercado consumista não se restringe às futilidades da moda, já faz tempo que invadiu o corpo humano com cirurgias mirabolantes, utilizadas de forma inútil. E claro que não estamos falando da cesariana como intervenção para salvar vidas de estimados 15% da população humana.
Entretanto podemos afirmar que quando um país tem um índice de cesarianas maior do que 60%, ele está desempoderado em sua relação com a saúde da mulher, a assistência está desempoderada e as mulheres também estão desempoderadas em relação aos seus desejos e suas vontades, seus saberes, seus traumas, seus corpos no mundo, corpos mais sociais e culturais do que biológicos,  já acostumados a serem mal atendidos, mal recebidos, mal vistos.

Para uma mulher parir o mais agradavelmente possível, o ambiente ideal deveria ser receptivo, amoroso, alegre, bem assistido. Se o que entendemos como bem assistido é estar em uma sala muito iluminada, cercada por profissionais com aventais e máscaras, equipamentos de última geração para que qualquer intercorrência seja imediatamente reparada, então esse é o nosso lugar de empoderamento, dentro de nossos conceitos adquiridos socialmente, culturalmente. É preciso trabalhar na conexão entre o "eu" visceral, que necessita calma, quietude, iluminação branda, solidão ou presença de pessoas íntimas escolhidas e esse "eu" cultural e social adquirido ao longo da história, que também necessita as luzes e os profissionais todos, os equipamentos todos. 


Por isso é perigoso vender um pacote de empoderamento e tenho certeza que Robbie Davis-Floyd quando usou o termo não estava querendo passar receita de parto domiciliar a perder de vista. Simplesmente porque não existe receita única para melhorar a comunicação entre o nosso ser visceral-ancestral e o cortical-moral. Infelizmente a cisão entre eles tem multiplicado as doenças da civilização como cânceres, síndromes, depressões. Na área da obstetrícia há um maior número de recém-nascidos prematuros com problemas cardiorrespiratórios em todos os países em que a cesariana virou lugar-comum. Sim, nossa civilização vai fundo, chega a agredir a vida recém-nascida. Nem vamos falar de vacinas dadas aos bebês nas primeiras horas de vida ou da praxe de separação logo após o nascimento, quando medir, pesar e banhar o bebê é considerado mais seguro do que dar a ele a chance de aprender a mamar nos primeiros momentos de vida, justamente quando seu corpo é mais capaz. Haja empoderamento para uma mulher sentir-se a pessoa que melhor pode cuidar do seu filhote nas primeiras horas de vida. Não deveria ser esse um direito fisiológico e biológico respeitado por quem presta assistência? E quem pariu Matheus não deveria saber embala-lo ao som do coração? Por quê não? O que impede a realização desse "pecado" de amar ao primeiro olhar, ao primeiro toque o próprio filho que acabou de sair da barriga? Muitas coisas, todas culturais; cultura médica, cultura familiar, cultura psíquica que estiveram ali naquele corpo durante longos anos, inscrevendo travas, medos, horrores, dramas existenciais.

A humanização do parto e do nascimento, movimento que inclui saberes e práticas de atendimento seguro e criticamente responsável ao sistema de atendimento tradicional das instituições públicas e privadas no mundo inteiro, empodera-se coletivamente agregando mulheres que tiveram sonhos de parturição destruídos pelo sistema obstétrico vigente, também aquelas que simplesmente gostaram de parir, as que tiveram partos depois de cesarianas, simpatizantes, médicas, médicos, enfermeiras e enfermeiros, obstetras e claro, as parteiras.
Empoderar-se coletivamente pode fazer parte ou não, apropriar-se da dança particular de raciocínios e sentimentos que envolvem a gestação, o parto e a amamentação é uma escolha de algo grau de responsabilidade. E é diante dessa palavra, responsabilidade, que desmorona o castelo de areias de um empoderamento faux.

Para algumas mulheres a escolha de um parto na água como ideal de parturição, porque ela viu 50 filmes no youtube dos mais lindos partos na água, pode virar um empoderamento falso, pior do que isso, boicotador do parto próprio dela, não acessado por intervenção cultural. Sim, até a inocente piscina de parto pode esconder o vilão cultural boicotando nosso ser vital, capaz de salvar e salvar-se na luta pela sobrevivência. Por essas e por outras não se pode dar receitas, apenas ferramentas que devem ser usadas de maneira pessoal e intransferível. Se a pessoa ganha um martelinho australiano da melhor qualidade com demonstração técnica e prática para uso delicado e especifico, mas decide bater na própria na cabeça até quebra-lo, isso passa a ser problema dela.

Enquanto isso, sofrem as amorosas doulas e parteiras com as clientes que não chegam lá. É da vida, era para ser assim, foi uma sequência de fatores, houve um motivo fisiológico para que no lugar do parto entrasse a cesariana salvando as vidas. É verdade, por tudo isso e também sempre por um milionésimo a menos de responsabilidade pessoal  fortalecedora do interno, de tal maneira que fosse possível derrotar o eu cultural no clímax do parto, com a expulsão do feto sentida como solução para dar cabo do corpo simbiótico.

“Não lembro”, é o que dizem as parturientes sobre falas, ações, fotos e detalhes trazidos pela assistência no pós-parto. O parto é fisiologicamente próprio, como qualquer outra capacidade fisiológica. Ninguém pode fazê-lo por aquele corpo feminino, naquele momento, daquele jeito. O ato de parir é foco puro em si mesmo, basta-se a si próprio.

Na humanização costuma-se soltar a mulher para parir, ninguém fala onde ela deve ficar, em que posição deve permanecer; presta-se auxilio, providencia-se uma almofada, um banho de chuveiro, alguma massagem, consolo, mas de jeito algum deita-se ou amarra-se a pessoa. É comum que a mulher escolha parir de quatro apoios, deitada de lado, em pé, de joelhos, acocorada, numa banheira com água, debaixo do chuveiro.

A mulher escolhe, empodera-se da sua dor, do seu desconforto, do seu medo da dor e anda, acomoda-se, desacomoda-se, incomoda a equipe, que deve servi-la, ajudá-la a não  atrapalhar a comunicação entre o que ela pensa, sente e o que precisa descobrir como fazer. Se a equipe atrapalha é ruim porque a parturiente pode perder-se para fora. Sempre vale lembrar que não são poucos os exemplos de partos bem-sucedidos em ambiente e atendimento adversos.

O parto no meio da rua, no frio, atendido por uma senhora que estava passando, é fruto de um corpo interno que sobrepujou o externo de maneira espetacular, é um corpo empoderado em relação ao ato de parir. Pode ser o corpo de uma dona que sofreu repressões de todo tipo, mas nenhuma delas foi capaz de abater a habilidade de expelir um feto maduro e são. Pode ser que essa dona não tenha a mesma pulsação vital para aleitar, praticar a entrega necessária que exige o aleitamento de um recém-nascido humano, bichano altamente dependente, que leva cerca de 8 meses para ficar em quatro apoios, mas isso são outros quinhentos, de outras mamas atávicas dentro de nós.
Essa mulher, que por acaso pariu na rua, ficou meses fazendo a interface entre o seu eu visceral-ancestral e o seu eu cortical-moral? Provavelmente não, porque esse exercício de comunicação pessoal é rotineiro, constante e sua espontaneidade é nata, genuína, não necessariamente adquirida. Para algumas mulheres, entretanto, as impressões culturais e sociais adquiridas, causam vazios entre o que desejam e o que vislumbram. 

É por isso que sou favorável ao parto em casa, mas não à moda do parto em casa. Parto em casa é um tipo de empoderamento de parto, mas não é o único possível. É para as mulheres que ficaram tanto tempo no youtube assistindo filmes de parto quanto em silêncio imaginando em que local se sentiriam melhor e mais seguras, sinceramente. Vale o mesmo para o polêmico parto desassistido. Mais comum na Europa do que no Brasil, ele é visto como perigoso pela assistência do mundo inteiro. É curioso até que a assistência se preocupe mais com os partos raríssimos e de índices de intercorrências insignificantes, do que com o aumento de uma massa de mulheres que migram para o parto assistido em casa, impulsionadas por movimentos externos aos seus corpos, seus saberes, suas crenças, muitas vezes bombardeadas por excesso de informações técnicas. Que prazer assistir uma jovem médica em trabalho de parto em casa sem querer saber a quantas estava em dilatação, sem toques, sem saber se estava com colo afinado ou não, apenas sentindo e trabalhando seu corpo, recebendo a transformação, sendo apenas uma mulher, uma fêmea viva prestes a dar à luz!

Pesquisa-se pouco sobre as crenças pessoais das mulheres no parto, seus sentimentos reais, tecidos por todo caldo cultural a que foram submetidas. Esse é um dos vazios nucleares de parte importante dos pensadores da humanização, muitas vezes mais voltados em esclarecer o quanto o parto humanizado é seguro com base em dados e estudos. Mais importantes para enfrentar o status quo de evidências ultrapassadas, baseadas em fatos obscuros e crenças médicas confortáveis, os argumentos meramente técnicos podem cair como um alimento indigesto para quem quer apenas parir e precisa mais do que tudo, digerir as próprias crenças pessoais. A revolta contra os sistema externo tem seu lugar no coletivo, mas do ponto de vista pessoal a revolta deve ser mais interna do que externa, mais focada nas crenças internas do que nas externas.


Parto é crença, o fato de estar classificado de N formas entre as evidências, com uma diversidade de estatísticas riquíssima nos últimos anos, parto é crença e crença é buraco, estratégia e solução. Uma mulher que acredita ser capaz de gestar um “bom bebê” está na frente da fila para parir um bebê saudável com suas próprias forças, sob sua responsabilidade. 




Conhecer o próprio corpo, limites da dor, sentimentos e estados psíquicos diante de adversidades é empoderamento. Praticar escolhas a partir dessa apropriação é a única coisa a ser feita. Informação e conhecimento histórico fazem parte de um pacote mais palatável do que informações e conhecimento estritamente técnicos.
Assim que se a pessoa leu de fonte segura que circular de cordão não enforca bebê, mas aos cinco meses de gestação ouve do seu médico que ela vai passar por cesariana porque o bebê está com o cordão enrolado no pescoço, ela deve saber o que pensar. Não, não sabe, porque o que ela não sabe de fato é o que sente e quem não sabe o que sente não sabe fazer porque o seu fazer já foi pensado. Tipo dependência de trash food.

Parto é crença porque parto é sentimento e sentimentos são hormônios. Tá, então dá lá uma ocitocina sintética para ela a fim de impulsionar a adrenalina. E aí as contrações aumentam, a ocitocina fica a serviço de se contrapor à adrenalina. É um parto feminista das antigas esse que leva ocitocina sintética porque o negócio dessa ocitocina é enfrentar a adrenalina, que muitas vezes ganha a parada: muita contração, pouca dilatação. A ocitocina natural que corre na mulher durante o parto é frágil, se ela não for frágil o bastante, a dilatação não ocorre.
Parto de muita ocitocina e pouca adrenalina é aquele com dilatação e pouca contração, arrastado, mas é fato que na hora final, no momento da expulsão, as duas se juntam, se entendem, se superam naturalmente. Mexer com essa dança aí pode ser uma opção, mas se um caquinho a mais for inadequado, vai ser dose para leoa nenhuma conseguir dar cabo da parturição.

E é fácil errar na intervenção química. Há mulheres que jamais deveriam levar ocitocina, como aquelas que têm contrações, mas dilatação lenta, aquelas cuja ocitocina natural vinha batalhando para dançar com a adrenalina de um jeito sinuoso. "Vem adrenalina, me traz essa contração que te mostro como me entrego, venha musculatura estriada, que eu te enlaço com meu sistema límbico solto, com minhas lágrimas, meu desejo de ver esse bebê aqui fora."

Contrações se buscam na moral, no exercício físico, no jogo de cintura bem colocado numa bola suíça, no agachamento, nas longas expirações que abraçam a dor possibilitando a dilatação. Dilatação bloqueada, parada é medo vestido de coragem. Dilatação lenta e progressiva é entrega, humildade, mas humildade nem de longe, vale ressaltar,  é “ensina-me a parir”.

Empoderar-se, apropriar-se do próprio corpo com todos os seus tecidos endodérmicos, ectodérmicos e mesodérmicos é a forma prática mais segura de parir, acompanhada ou não. Quem sou eu para condenar um desassistido, um parto com parteira, enfermeira ou com médico em um hospital se aquela mulher é capaz de juntar saberes sobre si mesma aos sentimentos em relação a ela mesma, ao feto e ao mundo!?

Mas sou gente grande para dizer que há muitos equívocos entre o que se diz e o que se entende, o que se pensa e sente-se em relação ao parto. E maior ainda para defender os bebês, que independentemente da forma como nascem, têm uma vida inteira de inscrições e reparações pela frente. 

*É jornalista e oficineira de Gravidez, Parto & Simbiose e Inscrições Corporais. Não é mestre, nem doutora e nem vai ser, a menos que Robbie Davis-Floyd, Melania Amorim, Simone Diniz ou alguma ótima aluna delas venha abrir uma linha de pesquisa na UFRGS.






terça-feira, 31 de julho de 2012

Leite de mulher, tabu a ser vencido

Cláudia Rodrigues

A recomendação da Organização Mundial de Saúde, apoiada em pesquisas que se renovam constantemente nos últimos vinte anos, é que todas as crianças, ricas ou pobres, de qualquer etnia ou religião, mamem somente leite humano nos primeiros seis meses de vida, passem a receber outros alimentos como complementos a partir dos seis meses e sejam mantidas no peito até pelo menos dois anos de idade. Os benefícios se acumulam a cada pesquisa.
A realidade é bem diferente. No Brasil, apenas 41% dos bebês chegam aos seis meses mamando exclusivamente. Esse índice, que também é uma média mundial, compromete outro, o da mortalidade infantil entre menores de cinco anos. Segundo a OMS o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e prolongado até os dois anos, é capaz de diminuir em até um quinto as mortes entre crianças menores de cinco anos. Para qualquer criança, o leite humano é o melhor digerido, contém proteínas específicas, hormônios humanos e imunoglobulinas que protegem as crianças de infecções variadas, diarréias e alergias. A composição do leite humano não é estática, ela muda conforme as fases do bebê, de acordo com as necessidades de crescimento.
As informações já decoramos, qualquer panfleto de saúde contém as técnicas para vencer dores, esfolamentos e mastites e dificuldades de pega, mas sair do buraco dos 41% e chegar ao objetivo da OMS, que é atingir um total entre 90% e 100% de bebês mamando até os dois anos, não é tão fácil, nem tão poético. Mais do que campanhas, precisamos peitar os problemas reais que impedem o aumento dos índices de amamentação e para isso precisamos dos peitos de volta, porque eles se foram com os sutiãs queimados, o mercado foi tomando conta deles desde o pós-guerra, quando entramos numa verdadeira cruzada para aumentar a produção de leite de vacas.
O peito político
Difícil amamentar exclusivamente até os seis meses, quando precisamos voltar ao trabalho aos quatro meses. Digamos que as empresas privadas, a exemplo do Governo Federal, passem o período de quatro meses para seis meses. Muito bonitinho, num belo dia dos seis meses do bebê nós saímos de casa e ele passa a receber, assim de golpe, todas as refeições durante 8 horas de ausência. Não funciona, não pode ser assim, ou não deveria ser assim. E isso, óbvio, tem a ver com problemas de desmame antes da hora. Algumas mães ficam tão aflitas que começam a introduzir alimentos e até leites artificiais dois meses antes de terminar a licença-maternidade a fim de efetuarem uma introdução gradual de outros alimentos.
O peito econômico
Na lógica do mercado, mulher amamentando mais, com licença-maternidade ainda maior é prejuízo que vem de todos os lados. Consome menos e trabalha menos num mundo que fabrica máquinas de preparar mamadeiras e infindáveis fórmulas que fazem propaganda enganosa de “semelhante ao leite materno”.
As empresas, por questões econômicas, não respeitam a lei, que garante intervalos para as nutrizes amamentarem em salas específicas e equipadas com materiais essenciais para coleta e estoque de leite. Muito menos mantêm creches próprias ou subsidiadas perto do local de trabalho. Não precisa dizer que não há fiscalização ou multas. Não precisa dizer que há demissões injustas para mulheres que ousam questionar o papel da empresa.
O peito histórico
Historicamente a relação da mulher com o peito lactante passou por várias fases. Lá nas cavernas manter a criança no peito era questão de sobrevivência. Mamavam ou morriam. No século XVII, para salvar bebês sem mães e sem amas, recipientes de couro ou metal eram usados como mamadeiras, mas as infecções derrubaram os modelos, os bebês não sobreviviam. Nos século XVIII tentou-se com as cerâmicas, mas também não deu certo, tanto por dificuldades de limpeza quando dos bicos, que eram feitos de pano. A solução mais chique foi contratar amas de leite. No Brasil da escravidão sinhazinha que se prezava não colocava o peito para fora, era coisa para as negras, que ganhavam lugar de destaque na casa grande para amamentar os bebês da patroa. Em 1840 a borracha vulcanizada entrou na parada, mas o mau cheiro derrotou a invenção. Somente nos anos 1950 entrou o pyrex e o bico de borracha com cheiro suportável. Empresas como a Nestlé vieram com tudo nesse mercado e literalmente gritavam que o leite industrializado era melhor, mais limpo, mais forte e mais gordo do que o leite humano. As mulheres acreditaram e não havia uma mãe nesse Brasil que não portasse sua mamadeira. Na década de 1980 o vidro foi substituído pelo plástico, foi a época em que os bebês passaram a ser deixados sozinhos com suas mamadeiras, elas não quebravam e a mulher alcançava a sua independência máxima dos filhotes humanos, plenamente terceirizados. Hoje se sabe que as mamadeiras de plástico liberam uma substância, o bisfenol, que causa câncer.
O peito erótico
Peito dá prazer sexual e confunde as cabeças das famílias, dos homens ogros e das mulheres cinderelas. Como assim aquele peito que me excitou ontem à noite, hoje acorda cheio de leite? Pois é, o mesmo peito, a mesma mulher, é assim de fato, mas na prática, haja terapia! Tem de tudo. Das obsessivas que ficam limpando os bicos até sangrar com medo de dar sapinhos nos bebês, às que santificam o período da amamentação perdendo o apetite sexual. Dois anos sem sexo porque temos um bebê no peito? Quem agüenta isso? Como resolver isso? Chamemos o peito psíquico!
O peito psíquico
Esse é lelé da cuca. Para além das técnicas e das campanhas que mostram e demonstram como fazer e porque fazer, as mulheres precisam de uma vastidão de grupos terapêuticos para acessarem seus medos e travas em relação ao peito que dá leite. Com tanto histórico e confusões, camada sobre camada cultural, mercadológica e política, foram achatando nosso aleitar e nos deixamos convencer que amamentar é uma parada dura, que suga a liberdade, a individualidade e nos acorrenta em laços invisíveis e sufocantes com as crianças. Hoje cremos, internamente, que algumas de nós têm leite e outras não, que alguns leites são ralos e fracos, outros fortes e gordos.
Seguramos no narcisismo, o leite não sai, o peito empedra. Soltamos na alegria e ele vaza, molha tudo, encabula os passantes. Mas afinal, cadê os mililitros? Por que diabos peitos não vêm com mililitros escritos? Será que ainda tem? Sobrou da ultima mamada? Quem garante? E se o bebê não engordar? Esprememos, conferimos, não acreditamos, não pode ser tão mágico! Será que ele chora tanto e acorda tanto e quer tanto nos chupar porque não somos, porque não temos suco de mãe? Cadê o pediatra? Está na ignorância da mulher amada, talvez dos peitos da mãe que ele não teve. Não há estudo nem evidências que salvem uma dor emocional tão profundamente arraigada nas camadas de desaprendizado emocional.
Toma-lhe uma história de baixa estima, insultos e agressões, temos uma mulher que não crê na força do líquido branco fabricado misteriosamente em seu corpo. Ou não, depende da capacidade de reparação de cada uma. Sentimentos maus nos darão um bom leite? E se envenenar o bebê? Oh, ninguém pensa isso em sã consciência. É na insana inconsciência que alimentamos nosso bicho incapaz de amamentar.
O peito feminista
Ainda está nascendo. Em nichos pequenos, guetos, ONGs, grupos de apoio, está emergindo o verdadeiro peito feminista. Foi legal demais queimar os sutiãs na praça, valeu velhonas, ganhamos o mundo, o mercado de trabalho e empunhamos a mamadeira como símbolo de libertação da mulher. Foi um erro jogar os bebês para longe do leite do peito, o leite nosso, que só nós temos. Colhemos com isso uma inversão de valores e hoje se respeita e se admira o peito provocante na blusa justa, sob o sutiã bombado, recheado de espuma ou siliconado, mas condenamos, preconceituosamente, o peito que dá leite ao bebê. As nutrizes diariamente são discriminadas por amamentarem bebês e criancinhas maiores. Não faltam mulheres, colegas de peito, ou homens para perguntar: “Esse bebê não está grande demais para mamar?”
Não, não está, o peito é nosso!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pirações do desmame














Cláudia Rodrigues

Pegou, grudou, conseguiu vencer a ausência dos mililitros gravados nos seios, até curtiu, gostou, doou e pronto, caiu do outro lado; encafifação do desmame. Nada é perfeito e sobre desmame as respostas são vagas, a literatura é mínima, a pitacação máxima e de acordo com as crenças de uma mulherada que vem sofrendo todo tipo de preconceito e discriminação ao longo da história da civilização.
No passado recente se resolvia o desmame com autoritarismo ou requintes de crueldade: pimenta, tinta preta nos seios, esparadrapo. Hoje complicou geral. Além dos velhos métodos ainda sobreviverem, o caldo cultural trouxe novidades, como remédio para secar o leite, separação radical da tríade bebê/mãe e pai, quando o casal sai para uma merecida viagem de segunda lua-de-mel. Pois é, faz parte do imaginário contemporâneo encarar os filhos como atrapalhos na vida do casal.
O término da licença-maternidade em 4 meses é um problema de fato, mas a piração-mór de muitas mães que desmamam abruptamente antes desse prazo para prevenir a chegada do final da licença é mais bizarra ainda, algo ao estilo: vamos cortar pela raiz. Frases como “o meu chorou três dias e três noites, mas deixou e ficou ótimo”; “melhor sofrer agora comigo do que depois sem mim”, são muito comuns e não tem sociólogo que explique porque a educação humana é baseada em punição, humilhação, fazer criança chorar, em minimização do choro da criança em nome do exibicionismo das habilidades adultas. A prática do consolo diante do sofrimento de um filhote está presente até nos primatas, mas curiosamente nossos excessos de zelo culturais nos levam contra os sólidos alicerces da vitória na luta pela sobrevivência.  Pelos excessos de zelo adultizamos as crianças, promovemos e compramos coisas que só satisfazem nossa vaidade de adultos e acabamos achando que prevenir a dor da separação aos 4 meses deve ser por desmame radical e mais precoce ainda. O apelo cultural é tão forte para separar mãe e filhote humanos, que muitas mulheres sequer entram em contato com os vários ângulos de uma separação precoce, que pode ser atenuada com maestria justamente por um desmame gradual.
Outras maelucas belezas de nós conseguem voltar ao trabalho e ainda esgotar leite algumas vezes ao dia para fazer estoques. Adoro essas, nunca fui capaz! Há as que apenas vão e voltam do trabalho e em casa sempre amamentam sem grilos maiores de quantidades, afinal os peitos não têm mililitros mesmo, para desespero dos pediatras que sempre suspeitam que vai faltar cálcio. Incrível, mas em pleno 2011, os pediatras ainda sofrem da Síndrome de Atlanta e só enxergam cálcio em leite de vaca industrializado para bebês. Alguns já receitam leite de vaca previamente, como se o retorno ao trabalho fosse necessariamente um caso de complementação absoluta e sem discussão, sem alternativas mais sensíveis e inteligentes. E claro, toda mãe tem o pediatra que merece porque se não dispara de um desses, merece-o. Tá, vamos admitir que encontrar um pediatra realmente humanizado é mais difícil do que um obstetra humanizado. Pediatra bonzinho e assustado, que faz tudo conforme as evidências da década de 1970, temos aos montes. Agora, os que sabem orientar e fortalecer a autoestima da mãe para amamentar e ainda pescar os problemas do desmame e orientar caso a caso, são raríssimos. Ainda bem que temos liga La Leche e enfermagem especializada no assunto Amamentar. Sim, porque na hora do desmame a bagunça mental e prática é generalizada. Ah pois é, isso mesmo, existe um momento na vida da criança que desmamar é benéfico. Ah é? Mas não é assim quando a criança romanticamente quiser e decidir? Não é ela quem manda, quem decide sobre o desmame? Ah sim, os dois decidem democraticamente juntos, sem conflitos, em comum acordo? Hummm, essa lagoa de leite não seca jamais quando partimos do princípio de que para algumas mulheres amamentar está vinculado a sentimentos profundos de uma maternagem ideal e desmamar seria como abrir mão desse carinho, desse poder ou desse jogo de poder, para ser mais exata. É raro esse sintoma aparecer em mulheres representantes do status quo, que desmamam precocemente ainda no primeiro ano de vida do bebê, mas é bastante comum nas militantes pró-aleitamento.   
Desesperadas para aumentar o aleitamento humano para níveis dignos, o que é muito louvável, a mulherada mais que perfeita das técnicas pró-amamentação se enraivece e recomenda amamentação por uma estrada de vida a perder de vista, insistindo em paciência para as que não aguentam mais dividir o corpo com a criança e dourando a pílula das que vêem o desmame como uma espécie de velório da maternagem ideal.Tudo a fim de evitar- como se fosse possível - mais uma etapa de conflito nas fases do desenvolvimento infantil. E desmame é conflito, sempre foi e sempre será. Não é coincidência que o famoso terrible twos ocorra no segundo ano de vida. Atrás de uma crise de birra sempre tem uma criança exigindo mais autonomia e atrás de uma mãe reclamando que não agüenta mais as crises de birra sempre tem uma adulta com dificuldades de autocontrole que projeta essa falta controlando excessivamente o rebento.
Pode existir desmame sem dramas, separação sem dramas, mas na natureza não existe um lugar bege, neutro ou como ordena a moda semântica, “nude” para separações. Sem retirar o mérito das mães que lutam por um período minimamente digno de amamentação, que no Brasil é vergonhoso, menos de 4 meses na maior parte dos estados, é importante ressaltar que a negação do conflito traz seguramente uma amamentação excessivamente prolongada para as crianças em fase plena de autonomia e desembaraço. A contracultura do desmame precoce desceu de óculos cor-de-rosa sobre os alicerces do moralismo e dos bons (?) costumes e vem, nessa forma boa-moça de socializar a informação, projetando nos peitos com leite um mundo falso de purificação e proteção absoluta e sem fim. Aliás, não é porque a pesquisite está solta a favor da amamentação que as crianças amamentadas estão livres de doenças e as desmamadas serão eternas doentinhas. A saúde humana é muito mais complexa do que consegue atestar esse morrinho de pesquisas científicas. Mal lidas, essas informações podem levar as mulheres com tendência purista a desenvolver má relação com a introdução dos alimentos, um dos sintomas do conflito negado e/ou mal-resolvido do processo de desmame. “Dá licença mamãe, mas dá para tirar os peitões da minha cara que eu quero brincar de Batman!!?”, diria um gurizinho de 4 anos. Infelizmente muitas militantes acreditam que a responsabilidade imensa sobre o desmame é decisão exclusiva da criança, sem conflito algum, sem sinal de fadiga, sem crise de birra, sem uso abusivo do peito com mensagens quase subliminares de “cala-te nenê, não enche, não vou te dar atenção de criança maior agora, mama aí moleque e fica quieto”. De novo, em nome do excesso de zelo cultural, vem a repressão. Dessa vez a repressão ao desenvolvimento natural do ser humano, que é mamífero sim, mas não um mamador a perder de vista.
Desmamar é conflito, encarando vem a solução e o desfrute da nova etapa
Se a cor do parto é escarlate, a do desmame começa com um sinalzinho amarelo quando a criança começa a andar e a mãe reage naturalmente tornando-se também ela mais ativa. A criança vai e volta, busca objetos e os entrega à mãe, ela diz com seus gestos: “eu também posso te dar, eu também posso ser seu dono, posso controlar você”. A mãe que entende essa linguagem não deixa de dar o peito, mas vai naturalmente parar de oferecer a cada solicitação de atenção da criança, afinal aquela criança já abre potes, armários, descasca uma banana, monta e desmonta e até pedala seu triciclo! Se essa criança toma mamadeira ou chupa chupeta, do mesmo modo a mãe deve nessa época parar de oferecer objetos orais como consolo porque a criança está nitidamente se desligando, em seu processo lento e gradual, de uma necessidade de consolo exclusivamente oral e se beneficiará muito mais de usar as próprias mãos para atingir seus objetivos, marcar sua presença no mundo e fazer-se sujeito de uma história assimbiótica. Ah é, esqueci, dá mais trabalho e o tipo de atenção que exige uma criança no segundo ano de vida é diferente, aceita menos manipulação, quer ser reconhecida em atos e fatos fisiológicos indubitáveis. Algumas mamas mais loucamente espertas sentem um certo prazer em afastarem-se dos seus rebentos por algumas horas ao dia quando eles começam a caminhar e interagir com outras pessoas. Outras, mais loucamente culturais, adiantam esse processo para ele casar direitinho com a licença-maternidade. E tem as belamamas, com filho bonzinho de dois anos que nunca reclama de nada, prefere mamar o tempo todo e detesta qualquer comida quando está perto da mãe. Com umas ou outras, o fato é que a dessimbiotização começa no parto (ou na cesariana) e começa doendo, só aliviada por longos consolos de leite nos primeiros meses, quando a livre demanda vai produzir um bebê calmo e alegre. O processo de separação do corpo da mãe continua em franca e notável evolução no desenvolvimento da criança, que passa a rir, comer, interagir mais com pais, irmãos, família. Como estará ao final de dois anos após o nascimento? E afinal, do ponto de vista psíquico, que raios faz um peito na vida de uma criança de 4 anos? Ah, sem essa de sexualização no sentido freudianamente mal-interpretado e doentio; a questão é de autonomia, de respeito a uma individualidade óbvia que uma criança de 4 anos tem, necessita e merece ter.
Manter a simbiotização com uma criança de 4 anos ou mais é seguramente um exagero, uma necessidade materna de aprovação e controle que nada tem a ver com o desenvolvimento natural dos pequenos. E é preguiça também, em muitos casos, vamos encarar sem delongas, sem panos quentes. Amamentar 15 vezes ao dia um moleque de 3 anos quer dizer que o bicho da neurose simbiótica está pegando, porque por volta dos dois anos já deu tempo mais do que suficiente para reparar a separação da barriga e apreender muito do mundo aqui do lado de fora da barriga da mamãe. Desmamar ao longo de um eventual terceiro ano, gradual e lentamente, é sem grandes dramas um bom acordo com as mamães mais apegadas. Agora, se pode dizer com segurança que uma criança amamentada até os dois anos não foi desmamada precocemente.  
E afinal, o leite deixa de nutrir depois dessa ou daquela idade? Não, não deixa, mesmo uma pessoa de 30 anos recebe nutrientes de leite humano se beber leite humano, ué. Leite é leite, se o de vaca tem nutrientes, se o de cabra tem nutrientes, o nosso também tem. Agora, é necessário beber leite, seja de que tipo for? Depende da sociedade, beber leite  na vida adulta é um hábito cultural, ter preconceito contra leites de outros bichos ou com o próprio leite humano também.
Então era isso, o momento na corrente cultural atual é desmame precoce ou abrupto, muito mal feito e muitíssimo mal orientado pela maioria dos pediatras de plantão. Na contracultura viceja desconhecimento sobre os desmames legais o bastante, que seriam admitidos como conflitos de separação a serem vistos sem tapa-olhos psíquicos, não-romantizados e menos dramatizados.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Amamentação e sexualidade



Cláudia Rodrigues
Entre 50 e 100 nutrizes estiveram presentes numa manifestação batizada como "mamaço" na última quarta-feira numa galeria de exposição do Itaú Cultural, em São Paulo. O evento, um protesto pacífico, ocorreu poucos meses depois de uma mãe ter sido impedida de amamentar ali mesmo. Casualmente ela colocou a queixa numa rede de relacionamentos, por coincidência a rede social vinha retirando fotos de mulheres amamentando em nome da moral e dos bons costumes. Foi o estopim para surgir um evento organizado com apoio do próprio Itaú Cultural. As belas fotos de mulheres amamentando estamparam as capas dos sites de jornais da capital e como era de se esperar, a cobertura ficou no básico sobre o evento; número de presentes, que cada site calculou de um jeito, uma ou outra palavra de manifestantes e só.
Uma pena que nenhum repórter de plantão se perguntou: mas como é mesmo esse negócio de preconceito contra os peitos das mulheres que amamentam? Eu tenho isso? O colega ao lado tem? De onde nasceu isso? Nham nham, teria aqui na redação umas boas fontes para responderem essas questões?
Não deu tempo nem para pensar, zarparam os repórteres para cobrir o óbvio. Os colunistas saíram correndo atrás comendo poeira da notícia mal coberta. Alguns, politicamente corretos, defendem o movimento, embora insistam em separar peito com leite de sexualidade.Outros literalmente talharam o leite das colunas, como João Pereira Coutinho, da Folha de São Paulo, ao comparar direito de amamentar com direito de se masturbar, tomar banho ou fazer sexo em público. Coitado do rapaz, ficou assustado com as belas madonas, entrou fundo no buraco do que não teve e eureka: peito e sexo, algo a ver! Mas o quê exatamente? Fez uma salada russa do seu quase insight.
As militantes enraiveceram-se, a coluna do moço nunca foi tão visitada na vida, mas algumas delas, inconformadas com as comparações bizarras na coluna do João, enfiaram os pés pelos peitos e insistiram na premissa de que peito amamentando não tem nada a ver com sexualidade.  Uma pena, enquanto não enfiamos o dedo na ferida, ela não cura e a militância deveria saber que peito amamentando não perde sua função sexualizada, que o olhar dos homens para um par de peitos femininos, com ou sem bebê mamando, é um olhar sexualizado e pode ser confuso, mas tão confuso para um homem -- embora não seja para todos – ver um peito feminino exposto, sendo sugado, que ele desate a pensar, sentir, falar ou escrever besteirol infantilizado, mesmo quando tem uma boa formação, uma boa educação, como parece ser o caso do jovem colunista. Peitos de mulher sempre tirarão homens do sério levando-os para sonhos oníricos de tempos inconscientes. Mais do que isso, e quando entramos nas sombras, um par de peitos amamentando pode causar problemas na vida de muitos casais, impedindo o breve retorno da vida sexual ou literalmente levando o sujeito a permanecer sexualmente descomprometido com a -santa- mãe dos seus filhos. Aconteceu com Elvis Presley, por exemplo, e acontece todos os dias, tudo porque peito é sexualidade, peito mexe com a sexualidade de homens e mulheres e peito é, para a sorte desses bebês que mamam, a primeira grande lição de sexualidade feliz, plenamente satisfatória.  
A militância pode e deve promover mamaços, mas que seja de cabeça feita, sem falsos moralismos de que esse nobre gesto é assexuado como uma pintura bem comportada. Amamentar tem cheiro, cor, prazer de ambos os lados, muita satisfação em esvaziar e ser esvaziada, parece muito com um ato sexual sim, é sexualidade primária, fundamental, de base e quem não viveu ou não processou esse grounding da sexualidade humana de algum jeito, sofre, se confunde, não consegue ver, ouvir ou conviver com a amamentação de forma espontânea. Nas mulheres um dos sintomas, triste sintoma, é não conseguir amamentar.
Muitas fobias e transtornos relacionados à amamentação, ao desmame
e até mesmo um eventual prolongamento da licença-maternidade, que no Brasil é escandalosamente curta justamente porque não leva em conta as necessidades de aleitamento do bebê, podem ser resolvidos com um melhor entendimento da sexualidade via amamentação. O conhecimento sobre o gesto ancestral que possibilitou a sobrevivência da espécie humana não se encerra no fisiológico. Somos seres culturais, padecemos e temos prazeres intensos via cultura e nosso caldo psíquico, ainda que rico e esclarecedor, continua sentado no cantinho do castigo moral. É preciso alongar o olhar sobre os bastidores internos do tema, afinal entre a visão equivocada de que amamentar é apenas candura assexuada e o nojinho sarcástico de quem não desfrutou das bases da sexualidade humana, tem chão a ser percorrido.
O rapaz que escreveu a coluna na Folha não mamou prazerosamente por meses a fio na própria mãe, sequer deleitou-se no corpo nu da mãe; posso afirmar isso sem conhecê-lo, sem que ele tenha mencionado e me arrisco a afirmar porque um homem que mamou prolongadamente em sua mãe ou que teve livre acesso ao corpo nu da mãe, ainda que não tenha mamado, não fica tão confuso diante da sexualidade emanada da amamentação. O homem que pôde desfrutar de um pele-a-pele com a mãe conhece bem o corpo de uma mulher, sabe que aquele mesmo par de peitos tem múltiplas funções e vê com naturalidade a função básica, a mais fisiológica dos seios femininos, sem que isso o cinda, sem separar o peito que amamenta do peito que dá prazer sexual. Sem nóias, sem perversões.







quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A maluquice do leite que sai da gente

Por Cláudia Rodrigues







Das coisas loucas da maternidade na vida das mulheres civilizadas, e não são poucas, a mais maluca é em relação ao leite que sai de nossos peitos. Até nascer o primeiro filho sentimos o peito como se fosse uma bundinha sem qualquer furo, a bundinha perfeita, sempre limpinha, que não solta pum nem faz xixi, mas encanta os homens.

Já nos primeiros sinais de nascimento dos peitos começam as piadas e nos sentimos mais mulheres, no sentido sexualizado da coisa. Nenhuma adolescente pensa que aqueles volumes ali um dia serão reservatórios de leite, mamadeiras vivas que excretarão o precioso líquido cheio de hormônios humanos, vitaminas, proteínas na medida exata e que por meio deles os bebês terão atenuadas as fantasias de separação, simbiose e diabo a quatro. Ui que idéia, isso nunca passou pela cabeça de ninguém civilizado!

Muito menos que maternidade e prazer são farinhas do mesmo sexo. A primeira providência é comprar um sutiã, de preferência lindo, caro e que ajeite o volume de acordo com a moda. Já houve moda para tudo em matéria de peito certo. Peito já foi mais sexy bicudo e grande, bicudo e pequeno, sem bico e arredondado, minúsculo, enorme. No momento a onda é siliconado. Ah, registre-se que peito velho e caído nunca esteve entre os preferidos. Os em formato de pêra sempre foram discriminados. Até que de repente, depois de muito prazer, ah sim eles dão prazer para nós também, não só para os homens, descobrimos no pós-parto a utilidade fisiológica dos peitos.


Que confusão é para a mulher civilizada descobrir essa nova utilidade dos peitos. Como pode um bebezinho de boquinha tão minúscula abocanhar sem a menor delicadeza nossos peitos que só serviam para o amor sexual?
E existe amor não sexual?
Estariam os peitos destituídos de sexualidade durante a amamentação?
Podemos curtir prazer com o parceiro na fase em que os peitos estão cheios de leite?
Por que separamos tudo em saquinhos cartesianos?
E sai leite mesmo?
Será?
E se não der certo?
Sai quanto?
Sai quando?
Por que não desce logo?
Olha só, não é só um buraquinho central, são vários!
Pronto, na primeira semana surgem as fissuras. O bebê puxa, nós travamos, retesamos. Tenta-se imitar a moça da foto, tão cândida amamentando, mas na prática é coisa de bicho, se bobear amamentar é coisa mais bicho do mato do que parir.
Segurando empedra, soltando vaza, deprimindo, deprime-se a nova relação. 

O mercado já tratou de produzir um bico de silicone que fica entre o mamilo da mãe e a boca ousada do bebê, bicho maluquete nada cultural. Ele puxa com uma força incalculável o suco de mãe. Desesperado ele busca nesse gesto, além de lutar pela sobrevivência, resgatar algo de vital da simbiose que vivia com ela na barriga. Mas a mulher civilizada fica pasmada diante desse vigor e sofre, geme, pede ajuda externa, espreme, verifica, chama o marido e marca consulta no pediatra para arranjar uma solução e conseguir um atestado para usar a mamadeira.


Ela duvida, duvida que é capaz de aleitar. Sequer sabia que bebês choravam tanto! Tão diferentes das bonecas da infância, necessitam tamanha quantidade de presença, presença de peito. Ela até que tenta, mas para algumas vencer a fase do colostro já vira delírio e iniciam a complementação com os leites artificiais antes mesmo de o bebê chegar aos 15 dias de vida.

A média de amamentação no Brasil está em torno de pouco mais de um mês. O precioso líquido sai conforme a demanda. Quanto mais o bebê mama, mais a mulher produz leite.
Isso está comprovadíssimo e é assim entre todos os mamíferos, mas quem vence a cabeça complicada de uma mulher civilizada?
Cadê os mililitros?
Peitos não deveriam vir com aquelas marquinhas que atestam quanto saiu de leite?
Quanto ficou?
E se chorou depois de mamar?
E se brigou com o peito, esfregou o rostinho, irritou-se?
E se não dorme?
E se vomita?
E se acorda à noite?
E se dorme demais?
E o peso?
E se pesar de menos?
E a cor?
Será que acor está certa?
Ah, tem cheiro, cheiro de leite! 
Tudo leva a mulher a acreditar que não tem leite suficiente, que seu leite é ralo, raro, insuficiente, uma mala leche. E que mal tem dar uma mamadeira se isso acalma a necessidade que o bebê tem de resgatar seu eu simbiótico com a mãe e em contrapartida liberta a mulher adulta daquela agonia de reviver aqui fora parte do que viveu na gestação?

Ah pois é, aí é que está. O bebê na barriga não chora, não fica todo dia olhando na cara da gente e dizendo: "sou seu; você agora vai ter que me carregar pendurado por longos dois anos e depois ainda ficarei no seu pé dizendo me leva, me beija, me brinca, me lava, me trata, me cuida, me educa."
Mas o que pega mesmo é esse início, o do "me deixa grudar em você, me deixa te chupar, tirar teu suco até o fim."


A mulher civilizada sente-se literalmente sugada pelo bebê, está longe de entender os sentimentos de uma gata mansa, que fica lá horas amamentando e só sai para dar uma esticada, alimentar-se, beber uma água e voltar para a prole, está longe de compreender seus próprios sentimentos, suas dores de simbiose e separação. Ela quer resposta para cada choro, cada pum, cada vômito. Nada parece natural e fisiologicamente administrável diante de tantos artifícios culturais que criamos para colocar entre nós e nossos bebês. Já nasce o filho queremos cortar o mal (ou seria o bem?) pela raiz.