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abril 19, 2013


Tucídides, aristocrata e fiel aos oligarcas atenienses, retrata com rigor e isenção a política democrática de Péricles numa oração fúnebre que o faz pronunciar ao povo:

«A polítca é superior à dos povos vizinhos. Ao invés de imitarmos os outros, antes constituímos um exemplo. Porque o Estado foi criado no interesse geral e não no de apenas um grupo, a nossa política pôde tomar o nome de democracia. A igualdade é imposta pelas leis nos assuntos que opõem particulares, mas qualquer um pode distinguir-se de acordo com o seu mérito na vida pública. A classe a que cada um pertence tem menos importância do que as suas qualidades pessoais; para quem deseje servir a cidade, nem a pobreza nem o facto de ser de baixa condição constituirão impedimento. O nosso governo rege-se pela liberdade. [ ]

Na nossa vida quotidiana, jamais impomos seja a quem for qualquer constrangimento. Nós tememos agir contra a República. Respeitamos as leis e os  magistrados. [ ]

Mas a nossa cidade tem ainda outras razões para suscitar admiração.

Nós sabemos como bem misturar beleza e simplicidade, estudos e entusiasmo. Nós preferimos a acção às palavras. Para nós, não é vergonhoso confessar que se é pobre. Pelo contrário, é vergonhoso nada fazer para o evitar. Os homens podem sempre ocupar-se dos seus negócios e dos assuntos do Estado.

Os artesãos podem fazer-se ouvir na política. Nós somos os únicos que consideram que os que se mantêm afastados da política são ociosos ou incapazes. Somos nós próprios que decidimos acerca de tudo. Nós não consideramos que a palavra seja nefasta à acção. Não obstante, consideramos pernicioso que não se procure estar bem informado antes de empreender qualquer acção. Nós somos diferentes dos outros porque somos audazes e reflectidos nos nossos actos. Os outros tornam-se empreendedores por ignorância e indecisos quando reflectem. Aqueles que enfrentam o perigo conhecendo os prazeres e as dificuldades da vida devem ser considerados os mais corajosos. [ ]

Eu declaro que a nossa cidade é o exemplo da Grécia. Qualquer homem sabe adaptar-se a todas as circunstâncias com uma facilidade desconcertante. Isto não são meras palavras, é a realidade. Graças a estas qualidades, tornámo-nos poderosos. Atenas é a única cidade que consegue ser superior à sua própria fama.»

Tucídides, A Guerra do Peloponeso, II, 36-41,
cit. in Violaine Vanoyeke, Péricles (1997),
Lisboa, ed. Pergaminho, 2001, p. 141-3

abril 17, 2013


Discurso de Tucídides aos Lacedemónios sobre os Atenienses

«Ainda que salvaguardeis o que existe, falta-vos a invenção e nem chegais mesmo a fazer o que é necessário. Eles mostram-se empreendedores. Vós duvidais até do que é certo; vós sempre pensais não poder sair das situações difíceis. Eles agem e vós hesitais. Eles viajam enquanto vós vos mostrais caseiros. Eles abandonam o seu país para ganhar proveitos. Vós, quando partis das vossas casas, imaginais agravar a vossa situação. Quando vencedores, eles continuam a progredir; quando vencidos, tentam por todos os meios ceder o menos possível. Quando defendem a sua cidade, eles entregam-se de alma e coração; mas não se deixam abalar nas suas resoluções. Se forem mal sucedidos, ver-se-ão despojados das suas possessões. Quando conquistam territórios pela guerra, eles esperam muito mais do que isso. Se a experiência os defrauda, concebem outras esperanças e recuperam dos seus insucessos. O triunfo e a esperança estão em perfeita concordância com os seus projectos, porque eles têm uma execução rápida. Eles conseguem prosseguir em todas as suas acções através de dificuldades e perigos. Eles pouco aproveitam do presente, porque desejam sempre ganhar vantagem. Para eles, apenas conta o cumprimento do dever. O descanso sem actividade desagrada-lhes mais do que uma actividade demasiado grande. Diríamos a verdade se avançássemos que eles são incapazes de ficar quietos e de deixar os outros tranquilos.»

Tucídides, A Guerra do Peloponeso, I, 70,
cit. in Violaine Vanoyeke, Péricles (1997),
Lisboa, ed. Pergaminho, 2001, p. 35-6