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julho 04, 2013

Plutarco


«Aqueles que, pela idade ou pelo vigor, são chamados à profissão das armas «recebem do Estado um soldo que chega para se sustentarem. Quis, pois, que a «classe do povo que não presta serviço militar e vive do seu trabalho tivesse «também a sua parte nesta distribuição dos dinheiros públicos; mas, para «que ela não se tornasse o prémio da preguiça ou da ociosidade, empreguei «estes cidadãos na construção de vastos edifícios onde toda a espécie de «artistas encontrará em que se ocupar, por muito tempo.

«Assim, aqueles que continuam em suas casas terão um meio de colher, «das receitas da república, o mesmo auxílio que os marinheiros, os «soldados e os que são encarregados da guarda das fortalezas.

«Comprámos a pedra, o bronze, o marfim, o oiro, o ébano, o cipreste; e «inúmeros operários, carpinteiros, pedreiros, ferreiros, canteiros, «tintureiros, ourives, ebanistas, pintores, bordadores, torneiros, estão «ocupados em trabalhá-los.

«Os comerciantes marítimos, os marinheiros e os pilotos conduzem por mar «uma quantidade imensa de materiais; os almocreves, os carroceiros, «levam-nos por terra; os carpinteiros de carros, os cordoeiros, os que «arrancam a pedra, os albardeiros, os calceteiros, os mineiros, exercem, à «porfia, a sua indústria.

«E cada ofício tem ainda, como um general do exército, às suas ordens, um «grupo de trabalhadores sem profissão determinada, que são como um «corpo de reserva e que ele emprega como auxiliares.

«Assim, todas as idades e todas as condições são chamadas a compartilhar «na abundância que estes trabalhos espalham por toda a parte.»

Plutarco, Péricles, Reformador de Atenas (429 a.C.),
Trad. A- Lobo Vilela, Lisboa, Ed. Inquérito Lda, p.30-31

julho 02, 2013

Plutarco


 Dracma de prata ateniense. A coruja é um animal associado a deusa Atena
e personifica a sabedoria. Os dracmas atenienses se tornaram
uma poderosa moeda no mundo grego. 


«Péricles, por seu turno [argumentando contra os seus opositores], mostrava aos atenienses que não tinham que prestar contas aos aliados do dinheiro que deles recebiam.

«Nós combatemos, dizia ele, em sua defesa, e afastamos-lhes os bárbaros «das fronteiras; eles não fornecem para a guerra n em cavalos, nem «galeras, nem soldados; contribuem apenas com dinheiro que, uma vez «pago, não pertence mais àqueles que o entregam, mas sim aos que o «recebem, os quais não são obrigados senão a cumprir as condições que se «impõem recebendo-o. A cidade, abundantemente provida de todos os «meios de defesa que a guerra exige, deve empregar estas riquezas em «obras que, depois de concluídas, lhe assegurem uma glória imortal. «Oficinas de toda a espécie postas em actividade, o emprego e a fabricação «de uma quantidade imensa de matérias que alimentam a indústria e as «artes, um movimento geral que utilize todos os braços: tais são os «recursos incalculáveis que estas construções proporcionam já aos «cidadãos, que quase todos recebem, deste modo, salários do tesouro «público e é assim que a cidade tira, de si mesma, a sua subsistência e o seu embelezamento.»»

Plutarco, Péricles, Reformador de Atenas (429 a.C.),
Trad. A- Lobo Vilela, Lisboa, Ed. Inquérito Lda, p.29-30

dezembro 27, 2012

«A mãe de Cícero chamava-se Hélvia; era duma família distinta e manteve, pela sua conduta, a nobreza da sua origem. Sobre a condição de seu pai há opiniões muito diferentes: pretendem uns que ele nasceu e foi criado na oficina de um pisoeiro; outros fazem-no descender de Tulo Átio que reinou tão gloriosamente sobre os volscos e lutou com êxito contra os romanos.

O primeiro desta família que teve o sobrenome de Cícero parece ter sido um homem respeitável; por isso os seus descendentes, longe de desprezarem o apelido, orgulharam-se de o usar, embora fosse muitas vezes ridicularizado. Deriva de uma palavra latina que significa «grão-de-bico»; e o primeiro a quem foi dado esse nome tinha na ponta do nariz uma excrescência que parecia um grão-de-bico, o que lhe valeu o anexim.

Cícero, aquele cuja vida escrevemos, quando pretendeu pela primeira vez um cargo e se ocupou dos negócios públicos, foi aconselhado pelos amigos a abandonar este apelido e a tomar outro; mas respondeu-lhes, com a presunção dum jovem, que procederia de modo a tornar o nome de Cícero mais célebre que os dos Escauros e dos Catulos.

Durante a sua questura na Sicília, ofereceu aos deuses umvaso de prata em que mandou gravar por extenso os seus dois primeiros nomes: Marco Túlio; e, em vez do terceiro, quis, por pilhéria, que o gravador pusesse um grão-de-bico. Eis o que se conta a respeito do seu nome.»

Plutarco, Cícero e a queda da república patrícia,
Lisboa, Editorial Inquérito, s/d, p.7-8

dezembro 23, 2012


«Dizendo estas palavras, retirou-se para o interior do templo e, pegando nas suas tabuinhas enceradas, como se fosse escrever, levou o estilete à boca e mordeu-o, o que costumava fazer quando pensava ou compunha algum discurso. Passado algum tempo, cobriu-se com o manto e deitou a cabeça. Os soldados que estavam à porta do templo riam-se dele por temer tanto a morte e chamavam-lhe cobarde e medroso.

Árquias, aproximando-se dele, incitava-o a levantar-se [ ]. Demóstenes, sentindo que o veneno produzira o seu efeito, descobriu-se e, fixando os olhos em Árquias, disse-lhe:

— Podes desempenhar agora o papel de Creonte na tragédia e lançar este corpo onde quiseres, sem lhe concederes as honras da sepultura. Oh Poseidon! saio ainda vivo do teu templo, mas nem por isso Antípatro e os macedónios o deixaram de profanar com a minha morte.

Mal acabou de pronunciar estas palavras, sentiu-se tremer e cambalear; pediu que o amparassem para andar, e, quando passava em frente do altar do deus, caiu e morreu soltando um profundo suspiro.»

Plutarco, Demóstenes e a supremacia da Macedónia,
Lisboa, Editorial Inquérito, pp. 68-9

dezembro 19, 2012


«Os espartanos mais sensatos, [ ] receando o poder do dinheiro que tinha conseguido corromper um dos seus cidadãos mais apreciados, censuraram asperamente Lisandro e declararam aos éforos que deviam fazer sair de Esparta, quanto antes, todo o ouro e toda a prata que ele para lá tinha enviado, como moléstia sedutora e, por isso mesmo, ainda mais perigosa.

[ ] Flógidas [ ] foi o primeiro a opinar que se não recebesse nenhuma moeda de ouro ou de prata, conservando-se apenas a do país. [ ]

Os amigos de Lisandro opuseram-se ao decreto e conseguiram fazer aprovar que a prata ficasse em Esparta, mas a que estava convertida em moedas só teria curso para negócios públicos e seria condenado à morte todo o particular que as tivesse: como se Licurgo receasse as moedas de ouro ou prata e não a avareza que elas trazem atrás de si.

Era muito menos prevenir esta paixão, proibindo aos particulares terem moedas de ouro ou de prata, do que excitar o desejo de as possuirem, desde que se autorizava a cidade a fazer uso delas: a comodidade que elas representavam dava-lhes mais valor e fazia-as mais desejadas.

Seria possível, com efeito, que os particulares as desprezassem como inúteis, quando eram publicamente apreciadas? Poderia cada espartano deixar de atribuir valor, nos seus negócios, ao que ele via ser tão estimado e tão procurado pelos negócios públicos? [ ]

É certo que os éforos, para impedirem que a prata amoedada andasse nas mãos dos cidadãos puseram de sentinela o temor da lei, mas não lhes cerravam a alma à admiração e ao desejo de riquezas; pelo contrário, fazendo-as considerá-las uma propriedade tão preciosa quanto honrosa, excitaram neles a mais violenta paixão.»


Plutarco, Lisandro e a supremacia de Esparta,
Lisboa, Editorial Inquérito, p.41-3

dezembro 10, 2012


«A fama destes dois grandes homens [Epaminondas e Pelópidas] atraia todos os aliados que, sem serem obrigados a isso por nenhuma ordem, nenhum decreto público, os seguiam em silêncio para toda a parte onde eles quisessem levá-los. É, com efeito, a primeira e a mais poderosa de todas as leis, esta lei natural segundo a qual todo o homem que tem necessidade de defesa reconhece como chefe aquele que é capaz de o defender. Os passageiros de um barco, quando o mar está calmo e estão num ancoradouro seguro, dizem mal dos pilotos; mas se se vêem ameaçados pela tempestade, fixam os olhos neles e depositam todas as esperanças no seu auxílio.»

Plutarco, Pelópidas e a supremacia de Tebas,
Lisboa, Ed. Inquérito Lda, 1939, p.49